O Vale dos Cavalos

Jean M. Auel · Capítulo 20 de 31

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O Vale dos Cavalos

Capítulo 18

- A minha mãe disse que você queria me ver.

Pela postura dos ombros e o olhar preocupado, Jondalar percebeu o estado de tensão de Darvo. O garoto vinha evitando-o e ele imaginava qual fosse a razão. Embora sorrisse, tentando parecer natural, as suas atitudes, que sempre foram calorosas e amigas, se mostravam hesitantes. Com isto, mais nervoso ainda ficou Darvo, cujo medo era justamente ver confirmadas as suas suspeitas. Pelo seu lado, Jondalar vinha protelando a conversa com o garoto. Ele retirou da prateleira uma roupa cuidadosamente dobrada e sacudiu-a.

- Acho que dentro de pouco tempo isto estará servindo para você. Que ria que ficasse com esta roupa, Darvo.

Por instantes os olhos do menino se iluminaram, olhando cheio de prazer para a camisa zelandonii com os seus ornatos intricados e exóticos. Mas então o ar de preocupação tornou a aparecer.

- Você vai embora, não é? - disse em tom de acusação.

- Thonolan é meu irmão, Darvo, e.

- E eu não sou nada.

- Isso não é verdade. Bem sabe o quanto eu gosto de você. Mas Thonolan está sofrendo muito e parece completamente fora de seu juízo. Eu fico com medo por ele. Não posso deixá-lo sozinho e, se eu não cuidar do meu ir mão, quem fará isso? Por favor, tente entender. Não estou fazendo esta viagem para o leste porque quero.

- Você voltará?

Jondalar fez uma pausa.

- Não sei. Não posso prometer. Não sei para onde estamos indo e nem por quanto tempo vamos ficar viajando - ele estendeu a camisa na direção de Darvo. - Queria que você ficasse com isso. É uma lembrança do homem dos zelandonii. Darvo, escute, quero que saiba que você sempre será o primeiro filho de minha casa.

O menino, com as lágrimas ameaçando cair, olhou para a túnica recama da de contas.

- Eu não sou filho de sua casa! - gritou. Em seguida deu as costas e saiu correndo.

Jondalar quis ir atrás dele, mas desistiu. Foi até o tablado e lá colocou a camisa. Depois, devagar, saiu.

Carlono, de sobrolho franzido, olhava para as nuvens baixas.

- Acho que o tempo vai manter-se firme, mas se vier algum temporal, encostem na margem, apesar de que, enquanto não passarem pela garganta, não vão encontrar muitos lugares para aportar. Quando chegarem à planície do outro lado da garganta, a Mãe se divide em diversos canais. Lembrem-se: vocês devem sempre conservar-se perto da margem esquerda. O rio dobra para o norte antes de atingir o mar e, em seguida, para leste. Logo depois da curva ele se junta, à esquerda, a outro grande rio, que é o maior dos tributários. Um pouco mais adiante já é começo do deita, a saída para o mar. Mas até chegar lá há muita água para correr. O deita é imenso e perigoso. Muitos pântanos, brejos e bancos de areia. A Mãe, então, novamente se separa, quase sempre em quatro canais que dão origem a muitos pequenos cursos e a um ou dois grandes rios. Conservem-se no canal da esquerda que segue para o norte. Há um acampamento mamutoi perto da foz.

O experiente barqueiro já fizera antes essa viagem, inclusive havia desenhado na terra um mapa para mostrar-lhes como chegar à foz do Grande Rio Mãe, e agora estava apenas repetindo as informações. Os dois precisavam ter tubo bem guardado na memória, principalmente porque as decisões às vezes tinham de ser tomadas com rapidez. Ele não se sentia muito confiante vendo Jondalar e Thonolan viajando por um rio desconhecido sem terem ao lado um bom barqueiro para guiá-los, mas haviam insistido, ou melhor, Thonolan insistira, e Jondalar, para não deixa-lo ir sozinho, o acompanhava. Esse pelo me nos tinha adquirido uma certa experiência no manejo das embarcações.

Agora estavam eles no cais, já com a bagagem dentro de um pequeno barco. Entretanto faltava à despedida dos dois o clima de excitação que em geral acompanha aventuras daquele tipo. Thonolan viajava unicamente por não agüentar ficar com eles e Jondalar teria preferido muito mais estar voltando para a sua casa.

Thonolan perdera o seu brilho. A sua natureza franca e calorosa havia desaparecido e ele era hoje um homem macambúzio, quase sempre mal-humorado, dado a rompantes de raiva que, freqüentemente, o levavam a atitudes impensadas e imprudentes. A primeira discussão séria entre os dois só não ter minou em socos porque Jondalar recusou-se a lutar. Thonolan acusava o ir mão de estar tratando-o como criança. Ele queria ter o direito de levar a vida como bem entendesse, sem ter Jondalar sempre nos seu calcanhares. Quando soube da possibilidade de Serenio estar grávida, ficou furioso. Era impensável que Jondalar fosse abandonar uma mulher que, talvez, carregasse um filho de seu espírito para segui-lo em seu destino incerto. Ele insistiu para que Jondalar ficasse e fizesse o que qualquer homem decente faria: responder pelo sustento da mulher.

Mesmo Serenio recusando-se a ser sua companheira, Jondalar não deixava de sentir que Thonolan tinha razão. Desde que nascera, ele fora educado na crença de que a responsabilidade do homem e o seu único propósito era o de prover às necessidades das mães com os seus filhos, sobretudo o de uma mulher que tinha sido abençoada com uma criança que, por misteriosas vias, havia absorvido o seu espírito. Mas Thonolan estava resolvido a partir e ele insistira em acompanhá-lo, temendo que o irmão pudesse praticar algum desatino. A relação entre os dois continuava tensa e difícil.

Jondalar não sabia muito bem como despedir-se de Serenio, quase tinha medo de encará-la. No entanto, no momento em que se curvou para beijá-la, ela tinha um sorriso no rosto. Não se permitiu qualquer demonstração maior de sentimentos, apenas os olhos estavam um pouco inchados e vermelhos. Ao procurar por Darvo, ele ficou desapontado por não vê-lo entre as pessoas que vieram até o cais. Quase todo mundo se encontrava lá. Quando Jondalar entrou no barco e se sentou no banco traseiro, Thonolan já estava instalado. Carlono desatou a corda e ele suspendeu o remo. Ao dar uma última olhada para o terraço em cima, viu um menino perto da beirada do penhasco, usando uma camisa que ainda levaria alguns anos para servir-lhe, mas de modelo inconfundível. Uma camisa zelandonii, sem dúvida. Jondalar sorriu e acenou com o remo. Darvo retribuiu-lhe, e ele então mergulhou o remo de duas pás na água.

Os dois irmãos ganharam a corrente central e viraram a cabeça, olhando pela última vez o cais e os amigos que lá haviam deixado. Será que algum dia ainda tornariam a ver os sharamudoi, ou pelo menos algum deles? Perguntava-se Jondalar quando começaram a descer o rio. A viagem que se tinha iniciado como uma aventura - um pouco contra a sua vontade -cada vez mais perdia interesse e mais ele se via afastado de casa. O que esperava Thonolan encontrar nessa sua caminhada para o leste? E o que o estaria aguardando nessas paragens?

A grande garganta do rio foi prenunciada por um céu pesado e sombrio. Blocos de rocha nua brotavam da água, fazendo altas bordas-falsas dos dois lados da embarcação. Na margem esquerda uma série de muralhas rochosas e pontiagudas formava um relevo acidentado que se alteava até os longínquos picos gelados. Na da direita, as montanhas de topos arredondados - erodidos e sem vida - davam a ilusão de meras colinas, mas que vistas do pequeno barco pareciam de uma altura formidável, Os enormes blocos e pontas de pedra vinham à superfície, dividindo o rio que redemoinhava em caracóis de água cristalina.

Os dois estavam lá como se fizessem também parte do meio em que viajavam, impulsionados tal como os detritos flutuando sobre as suas cascas ou as vasas nas profundezas silenciosas. Eles não controlavam nem a velocidade nem a direção. Quando muito, contornavam algum obstáculo à frente. No ponto em que o rio se alargava, com quase dois quilômetros entre as margens, ele era como um mar com ondas altas que jogavam a embarcação para o fundo. Depois, voltou a estreitar-se e os dois sentiram uma mudança na força quando o fluxo das águas começou a encontrar resistência. A correnteza ficara muito mais forte já que o mesmo volume de água era agora obrigado a passar por uma estreita garganta.

Eles já haviam feito mais de um quarto do caminho, quando a chuva que há algum tempo ameaçava despencou num tremendo temporal, açoitando as ondas para o interior da pequena embarcação. Não havia nenhuma praia à vista, apenas rochedos íngremes e molhados.

- Eu posso dirigir, enquanto você retira a água do barco, Thonolan -falou Jondalar. Até então haviam conversado pouco, mas a animosidade entre os dois desaparecera depois que passaram a remar ritmicamente para manter o barco no rumo certo.

Thonolan recolheu o seu remo e, com um recipiente de madeira, pareci do a uma caçamba, se pôs a esvaziar o barco.

- Entra mais água do que a que consigo tirar - falou gritando, com a cabeça voltada para trás.

- Essa chuva não deve demorar. Se você conseguir manter um certo equilíbrio, acho que podemos sair dessa - respondeu Jondalar, lutando contra o tumulto das águas.

O temporal cedeu. As nuvens continuavam ameaçadoras, mas conseguiram passar pela garganta sem maiores atropelos.

Igual a um cinto muito apertado que é desamarrado, o rio lamacento e regurgitando se espalhava ao atingir a planície. Canais serpenteavam ao redor de ilhas de salgueiros e juncos, formando esplêndidos viveiros de gansos, garças, cegonhas, patos e um número infindável de outros pássaros.

A primeira noite eles acamparam em meio à relva da pradaria à margem esquerda. A base dos picos alpinos começava a afastar-se da margem, mas as montanhas arredondadas da margem direita continuavam a dirigir o curso do Grande Rio Mãe para o leste.

Jondalar e Thonolan entraram tifo rapidamente na rotina da viagem que era como se não tivessem vivido aquele número de anos com os sharamudoi. No entanto, o clima já não era o mesmo. Desaparecera o alegre espírito de aventura que antigamente os animava, quando iam procurar qualquer coisa que estivesse atrás de uma curva, movidos simplesmente pelo prazer de uma descoberta. O dinamismo de Thonolan era agora qualquer coisa que chegava às raias do desespero.

Jondalar tentara uma segunda vez falar na possibilidade de voltarem, mas acabaram numa acirrada discussão, e depois disso preferiu não tocar mais no assunto.

Quando conversavam era quase exclusivamente para troca de informações. Só restava a Jondalar esperar que o tempo aplacasse a dor de Thonolan. Algum dia talvez ele resolvesse voltar para casa e, então, seria possível reassumir a sua vida. Enquanto isto não acontecesse, Jondalar estava firmemente decidido a permanecer ao seu lado.

Eles viajavam multo mais rapidamente descendo o rio na piroga do que se tivessem vindo caminhando pela margem. Levados pela corrente, facilmente ganhavam velocidade. Tal como Carlono dissera, o rio virava para o norte quando chegava à barreira formada pelas montanhas de topo arredondado, muito mais antigas do que a cadeia ao redor da qual o rio fluía. Mesmo diminuídas pela avantajada idade, essas montanhas representavam um obstáculo para o rio no seu afã de alcançar o mar interno.

Inibido no seu curso, ele procurava outro rumo. A estratégia para o norte funcionava, pelo menos até o ponto onde fazia a última de suas curvas na direção do leste, quando então mais outro grande rio vinha dar a sua contribuição de água e limo para a já sobrecarregada Mãe. Com o caminho, por fim, desimpedido, um só curso não lhe era mais suficiente. Embora ainda tivesse muitos quilômetros a percorrer, o grande rio novamente tornava a dividir-se em vários canais num delta em forma de leque.

O delta era um pântano de areia movediça, charcos de água salgada e pequenas ilhas instáveis. Algumas dessas ilhotas lodosas permaneciam lá um certo número de anos, o tempo para que pequeninas árvores pusessem algumas raízes de fora que seriam minadas pelas infiltrações no terreno ou carregadas pelas inundações sazonais. Quatro canais - dependendo da estação e das circunstâncias - seguiam para o mar, mas os seus cursos eram variáveis. Sem qualquer razão aparente, a água, subitamente, safa de um leito estabelecido para um novo curso, destroçando a vegetação e deixando atrás um sumidouro de areia movediça.

O Grande Rio Mãe, depois de percorrer cerca de 1.200km, havia praticamente chegado ao seu destino. No entanto, o delta com suas centenas de quilômetros de lama, vasas, areia e água era o ponto mais perigoso ao longo de todo o percurso.

Enquanto seguiam pelas partes mais fundas dos canais à esquerda os dois não tiveram muita dificuldade de manobrar a piroga. A correnteza os levou ao redor da curva e botou a pequenina embarcação no rumo do norte. Mesmo quando surgiu o último dos grandes tributários, este os arrastou para a cor rente central. Mas eles não perceberam a tempo que o rio logo se dividiria em canais e, antes que se dessem conta, foram varridos para um canal do meio.

Jondalar conseguira uma certa perícia no manejo do pequeno barco. Thonolan, menos, mas os dois estavam muito aquém dos experientes barqueiros ramudoi. Eles tentaram virar a piroga e retroceder na contracorrente para entrarem no canal desejado. O certo seria se tivessem invertido a direção em que vinham remando, pois a forma da proa e da popa não diferia muito, mas nem chegaram a pensar nesta possibilidade.

Ficaram com o barco atravessado na corrente. Jondalar gritava para Thonolan, cada vez mais impaciente, que ele fizesse força para mudar a direção da proa. Nisso, um enorme tronco encharcado, com uma parte submersa e cheio de raízes, veio descendo pelo rio. As raízes arrebanhavam tudo que houvesse em seu caminho. Quando os dois perceberam, já era tarde demais.

Com estrondo, a ponta dentada do enorme tronco - quebradiça e enegrecida no ponto onde um raio a partira - enterrou-se na fina amurada da piroga. A água logo começou a entrar pelo furo feito no costado. No momento em que foram atingidos, uma das raízes que se achava pouco abaixo da superfície bateu nas costas de Jondalar, derrubando-o. Ele ficou lívido de dor. Uma outra raiz, que por pouco não pegou os olhos de Thonolan, lhe deixou um arranhão no rosto.

Subitamente, imersos na água fria, os dois agarrados ao tronco, viram,desolados, o pequeno barco com todos os seus pertences afundar-se em meio às bolhas de água.

Thonolan, que ouvira o gemido de dor de seu irmão, perguntou:

- Você está bem, Jondalar?

- Uma raiz me pegou nas costas e está doendo um bocado, mas acho que não é nada sério.

Com Jondalar atrás, seguindo vagarosamente, Thonolan começou a abrir caminho por entre as raízes, mas a força da correnteza os arrastava, junto com os entulhos, de volta para o centro do tronco. Inesperadamente, o enorme toco chocou-se contra um banco de areia submerso. As águas fluindo ao redor e por entre as aberturas da teia de raízes trouxe à tona os objetos que se achavam presos, sob o tronco. O cadáver de uma rena, inchado de água, surgiu na frente de Jondalar. Morto de dor, ele tratou de sair de lá.

Uma vez desvencilhados do tronco, nadaram para uma ilhota no meio do canal. Lá havia alguns pés de salgueiro, pelo menos enquanto as inundações não os arrancasse. As árvores próximas da margem já estavam parcialmente submersas, afogadas, sem nenhum broto primaveril nos galhos e com as raízes se desprendendo, dobrando-se sobre as corredeiras. O chão era um charco esponjoso.

- Acho que devemos prosseguir para ver se arrumamos um lugar mais seco - falou Jondalar.

- Você está sentindo um bocado de dor. Não me venha dizer que não, porque sei que está.

- Mas nós não podemos ficar aqui - disse Jondalar, admitindo.

Eles se meteram dentro da água fria, pondo-se a atravessar o estreito banco de areia junto da ilhota. A correnteza estava mais forte do que tinham imaginado e só depois de serem arrastados para um ponto bem baixo no canal é que foram encontrar terra seca. Mas então, desapontados, sentindo frio e cansaço, perceberam que tinham ido dar numa outra ilhota. Era mais larga e comprida, apenas pouco acima do nível do rio, mas igualmente encharcada e sem lenha seca.

- Não vamos poder fazer uma fogueira aqui - falou Thonolan. - Te mos de ir em frente. Onde Carlono disse que era mesmo o acampamento mamutoi?

- Na ponta norte do delta, perto do mar - respondeu Jondalar, olhando, ansioso, nessa direção. A dor em suas costas aumentara e ele não tinha muita certeza se conseguiria nadar através de outro canal. Tudo que se achava à vista eram cursos de água encapelada, montes de detritos e alguns punhados de árvores formando uma pequenina ilha aqui e ali. - Impossível dizer a que distância está daqui - acrescentou.

Eles começaram a patinar pelo lamaçal indo no rumo do norte e depois afundaram outra vez dentro da água. Jondalar reparou num grupo de árvores mais abaixo no canal e se dirigiu para lá. Cambaleantes, respirando com dificuldade, subiram para uma praia de areia cinzenta, situada na extremidade do canal. A água escorria-lhes das longas cabeleiras e caía sobre as vestes de couro, encharcadas.

O sol da tarde filtrava-se por uma rachadura nas nuvens escuras, pondo um brilho dourado na paisagem, mas pouco servia para aquecer. Uma súbita rajada de vento soprada do norte rapidamente atravessou-lhes as roupas molhadas, deixando-os gelados. Até então a atividade mantinha-os aquecidos, mas o esforço despendido acabou desgastando-lhes as reservas. Tremendo com o vento frio, arrastaram-se até o mirrado bosquete de amieiros.

- Vamos acampar aqui - falou Jondalar.

- Ainda está claro, prefiro continuar.

- Até conseguirmos arrumar um abrigo e fazer uma fogueira já vai ser de noite.

- Se continuarmos, há probabilidade de encontrarmos o acampamento mamutoi antes que escureça.

- Thonolan, tenho a impressão de que não vou conseguir.

- Como é que está este machucado?

Jondalar suspendeu a sua túnica de couro. O ferimento nas costas começava a mudar de cor ao redor de um talo que sem dúvida tinha sangrado e depois fechado com a água fria. No couro, havia um furo. Ele não sabia se estaria ou não com alguma costela partida.

- Até que eu gostaria de descansar um pouco e acender uma fogueira.

Olhando à volta, viram uma grande extensão de água lamacenta, bancos de areia movediça e uma vegetação profusa e emaranhada. Os galhos enreda dos uns nos outros procuravam apoiar-se em qualquer coisa que existisse no chão escorregadio, tentando resistir à correnteza que os arrastava para o mar. A certa distância de onde se achavam, havia alguns arbustos verdes e um pequeno arvoredo plantado em ilhotas estáveis.

Caniços e vegetação de brejo prendiam-se em qualquer lugar onde fosse possível enraizamento. Perto, uma moita de juncos com um metro de altura, cujas folhas graminiformes pareciam mais resistentes do que de fato eram, equiparava-se em tamanho aos cálamos de folha reta e em forma de espada, crescendo entre espigas de gramíneas que mal tinham dois centímetros de comprimento. No pântano perto da beirada da água, cavalinhas, taboas e juncos, com mais de três metros de altura, sobrepunham-se aos homens e, pairando acima de tudo, os caniços de folhas duras e penachos vermelhos.

Thonolan e Jondalar tinham apenas a roupa que vestiam. Haviam perdi do tudo quando o barco afundou, até mesmo os baús que os acompanhavam desde o início da viagem. Thonolan adotara a vestimenta dos shamudoi e Jondalar a variação que os ramudoi davam ao traje. No entanto, desde que ele afundara no rio, à ocasião de seu encontro com os cabeças-chatas, passara a trazer, atada ao cinto, uma sacola com ferramentas. Agora dava graças por ter tido a idéia.

- Vou ver se consigo um pedaço de junco velho para uma verruma de fazer fogo - falou Jondalar, tentando esquecer-se de sua dor nas costas. -Veja se consegue pegar alguma lenha seca.

Havia juncos velhos em quantidade mais do que suficiente para um pau de verrumar. Folhas compridas, entrelaçadas ao redor de uma armação de amieiro, fizeram uma coberta que ajudava a guardar o calor da fogueira. A folhas verdes da parte de cima da vegetação e raízes novas, assadas junto com os rizomas adocicados dos cálamos, serviram de entrada para o jantar. O tronco de um amieiro novo, afiado numa das pontas e atirado com a precisão que a fome impunha, lhes rendeu dois patos. Em seguida eles teceram, com os talos compridos e macios da taboa, esteiras flexíveis que usaram para aumentar a cobertura em cima deles e para se cobrirem enquanto as roupas secavam. Mais tarde, usaram-nas para forrar o chão e dormir.

Jondalar não dormiu bem. Sentia as costas doendo. Sabia que por dentro alguma coisa estava quebrada, mas não lhe era possível pensar nisso agora. Primeiro, eles tinham de encontrar um caminho que os levasse a alguma terra firme.

Pela manhã, pescaram peixes com cestas feitas de folhas de taboa, galhos de amieiro e cordas de Libras vegetais. Depois de alimentados, enrolaram os materiais de fazer fogo e as cestas dentro das esteiras, ataram-nas com cor das, puseram a tralha nas costas, apanharam as lanças e se puseram a caminho. As lanças não passavam de pedaços de paus pontudos, mas já haviam garanti do a eles uma refeição e as cestas de pescar uma outra. A sobrevivência dependia da sabedoria e também de como se achassem equipados.

Os dois irmãos tinham uma pequena divergência de opinião a respeito de que direção tomar. Thonolan achava que haviam atravessado o deita e que ria ir para o leste, no rumo do mar- Jondalar para o norte. Estava certo de que ainda havia um outro canal a ser atravessado. Concordaram em seguir na direção nordeste. Jondalar provou estar certo, embora ele tivesse preferido que, desta vez, estivesse errado. Por volta do meio do dia eles chegaram ao canal que se localizava mais ao norte do grande rio.

- Vamos ter de nadar outra vez - falou Thonolan. - Será que consegue?

- E que mais posso fazer?

Eles se encaminharam para a água. De repente, Thonolan parou.

- Por que não amarramos nossas roupas como costumávamos fazer? Assim não vamos ter de ficar esperando que sequem depois.

- Tenho minhas dúvidas. Ainda que molhadas, as roupas sempre ajudam a aquecer um pouco - Thonolan vinha se mostrando mais razoável, embora a sua voz denotasse irritação e amargura. - Mas se é como você quer... - disse Jondalar, encolhendo os ombros e condescendendo.

Nus, de pé, sentiam-se gelados com o ar frio e úmido. Jondalar ficou tentado a atar a sua sacola de ferramentas ao redor da cintura, mas Thonolan já estava enrolando-a na túnica e amarrando tudo numa tora que encontrara. Nunca ele sentira tanto frio como quando a água lhe tocou no corpo nu e, se não cerrasse fortemente os dentes, teria gritado no momento em que se viu mergulhado. No entanto, a água gelada de certa forma amortecia a sua dor. Enquanto nadava, procurava proteger as costas, seguindo devagar atrás de Thonolan, que se encarregara de puxar a tora.

Ao saírem da água, arrastando-se para um banco de areia, a foz do Grande Rio Mãe - o destino inicial da viagem - ficou à vista. Lá estavam as águas do mar interno. Mas não houve a emoção esperada. A viagem perdera o propósito e o fim do rio há muito deixara de ser o objetivo. Além do mais, eles não estavam ainda em terra firme, O deita ainda não fora vencido. Eles se encontravam num banco de areia que, em outros tempos, havia sido o leito de um canal deslocado para um outro lugar. Faltava-lhes ainda cruzar aquele antigo rego de água.

Uma ribanceira arborizada, cheia de raízes pendurando-se da terra, no ponto onde outrora as águas escavaram a margem, acenava-lhes convidativamente. No entanto, não fazia muito tempo que aquele canal desaparecera. A água ainda enlameava a terra no meio do leito vazio e a vegetação mal tinha enraizado. Os insetos já haviam descoberto as poças de água estagnada e um enxame de mosquitos atacava os dois.

Thonolan desamarrou as roupas do tronco.

- Ainda temos de passar por esse charco e a margem está muito enlameada. É melhor atravessarmos primeiro para depois pormos a roupa.

Jondalar balançou a cabeça concordando. A sua dor era muito forte para pensar em discutir naquele momento. A sua impressão era a de que, enquanto nadava, alguma coisa se havia deslocado dentro dele.

Thonolan desceu a pequena rampa que anteriormente fazia o declive da margem para o rio, batendo nos mosquitos que o mordiam.

Os dois haviam sido bastante avisados para jamais dar as costas ao Grande Rio Mãe. Aquele canal, embora estivesse abandonado, ainda pertencia à Mãe. Mesmo ausente, ela se fazia notar pelas surpresas que largava atrás de si. As centenas de toneladas de vasas que todos os anos eram carreadas para o mar se espalhavam pela área do deita de mais de mil quilômetros quadrados. O canal vazio, sujeito às inundações causadas pelas marés, era um pântano de água salgada de pouca drenagem. A relva e o junco, recém-brotados, achavam-se enraizados no barro úmido e lodoso.

Os dois escorregaram pela rampa, patinando na lama de torrões finos e pegajosos. Ao tocarem o chão plano, os seus pés nus sumiam no meio do barro. Thonolan corria à frente, esquecido de que Jondalar não estava em condições de dar as suas costumeiras passadas largas. Podia andar, mas a descida pela lama escorregadia fora muito penosa. Com cuidado, procurava onde pôr os pés, sentindo-se um tanto tolo em estar andando nu pelo pântano, oferecendo a sua delicada pele à gana insaciável dos insetos.

Thonolan distanciara-se tanto que Jondalar estava prestes a gritar, chamando-o. Então, justo no momento em que ia fazê-lo, ouviu um grito pedindo socorro e Thonolan afundando no chão. Esquecendo-se da dor, correu a acudi-lo. O medo tomou conta dele ao dar com o seu irmão se debatendo dentro de um pântano de areia movediça.

- Thonolan! Oh, Mãe! - gritou Jondalar, precipitando-se na sua direção.

- Afaste-se, senão você vai afundar também!

Quanto mais Thonolan lutava para sair do lodaçal, mais depressa se enterrava.

Jondalar, inteiramente desvairado, olhava ao redor, procurando por qualquer coisa que servisse para puxar Thonolan. “A camisa! Podia atirá-la para que Thonolan agarrasse numa das suas extremidades”, pensou. Mas lembrou-se então que era impossível. A trouxa de roupas sumira. Ele abanou a cabeça. Os seus olhos bateram no toco de uma velha árvore, meio enterrada no barro. Correu para arrancar urna das raízes, mas as que poderiam servir há muito foram arrancadas pela violência das águas a caminho do mar.

- Thonolan, onde está a trouxa de roupas? Preciso de uma coisa para puxá-lo daí.

O desespero na voz de Jondalar teve efeito contraproducente. F.coou no pânico de Thonolan de modo a lembrá-lo de seu sofrimento, levando-o a uma atitude de plácida aceitação.

- Jondalar, já que a Mãe está querendo me levar, vamos deixar que ela satisfaça o seu desejo.

- Não! Thonolan, não! Você não pode desistir. Você não pode morrer. Oh, Mãe, oh, Grande Mãe, não o deixe morrer assim - Jondalar caiu de joelhos e estendeu a mão com o corpo todo esticado. - Pegue a minha mão. Por favor, Thonolan, segure a minha mão - implorava.

Thonolan, surpreso, viu a dor e o sofrimento estampados no rosto de seu irmão e também enxergou alguma coisa mais, algo que já vislumbrara de for ma breve e passageira. Naquele momento conscientizou o amor de seu irmão por ele, um amor tão grande quanto o dele por Jetamio. Não era a mesma coisa, mas um amor igualmente forte. O entendimento se fez a nível do inconsciente, por intuição. Sabia que, mesmo que não conseguisse sair do atoleiro, tinha de apertar a mão de Jondalar.

Sem o saber, quando ele parou de debater-se, passou a afundar mais lentamente. Ao esticar o corpo para alcançar a mão de Jondalar, se pusera em posição mais horizontal, espalhando o peso sobre a areia molhada e solta, ficando quase como se flutuando. Ele esticou o braço até tocar os dedos de Jondalar que, por sua vez, avançou com o corpo até conseguir agarrar a mão de Thonolan.

- Por aqui! Segure-o direito! Já estamos chegando - falou alguém em mamutoi.

Jondalar soltou a respiração, deixando a tensão esvair-se dele. Percebeu que tremia, mas viu que tinha Thonolan firmemente preso. Em poucos instantes, uma corda lhe foi passada para que a atasse à mão do irmão.

- Agora, reine - disse alguém para Thonolan. - Estique o corpo como se estivesse nadando. Você sabe nadar?

- Sei.- Ótimo! Muito bem! Deixe o corpo bem relaxado que nós fazemos o resto.

Algumas mãos arrastaram Jondalar da beijada do pântano e momentos depois Thonolan também já estava do lado de fora. Todos, então, passaram a seguir uma mulher que caminhava fincando o chão com uma longa vara, de modo a evitar buracos traiçoeiros. Só depois que chegaram a um terreno firme é que alguém notou que os dois homens estavam inteiramente nus.

A mulher que conduzira a operação de resgate jogou a cabeça para trás, examinando-os. Ela era grande, não tanto pela altura ou gordura, mas, antes, pelo físico corpulento e a aparência majestosa.

- Por que estão nus? - perguntou ela, depois de algum tempo. O que estariam fazendo aqueles dois homens por ali, inteiramente nus?

Jondalar e Thonolan olharam para os seus corpos nus e borrados de lama.

- Entramos no canal errado e uma tora chocou-se contra o nosso barco- começou Jondalar. Ele se sentia desajeitado, sem conseguir manter uma certa dignidade.

- Depois disso, tivemos de tirar as roupas para que elas secassem, então achei que o melhor seria se vestíssemos depois de havermos atravessado o canal e passado por esse pântano de lama. Eu ia na frente, carregando a trouxa, porque Jondalar estava ferido e...

- Ferido? Quem está ferido? - perguntou a mulher.

- Meu irmão - respondeu Thonolan.

Ouvindo isto, Jondalar lembrou-se de seus machucados, que passaram a latejar dolorosamente.

A mulher reparou na sua palidez.

- Ele precisa ser examinado por um mamute - falou ela, dirigindo-se a um de seus acompanhantes. - Vocês não são mamutoi. Onde aprenderam a falar a nossa língua?

- Com uma mulher mamutoi que está vivendo com os sharamudoi. Ela é minha parenta.

- Tholie?

- Você a conhece?

- Ela também é minha parenta. É filha de um primo meu. Se você é parente de Tholie, então é meu parente também - disse a mulher. - Meu nome é Brecie dos Mamutoi, chefe do Acampamento dos Salgueiros. Os dois são bem-vindos.

- Eu sou Thonolan dos Shararnudoi e esse é o meu irmão, Jondalar dos Zelandonii.

- Ze-lan-do-ni-i? - repetiu Brecie. - Nunca ouvi falar desse povo. Se são irmãos, como é que um é sharamudoi e outro... zelandonii? Ele parece estar passando mal - disse ela, deixando a conversa para outra ocasião. -Ajudem o rapaz, não sei se ele pode andar - acrescentou, se dirigindo a alguns companheiros.

- Acho que posso - falou Jondalar, subitamente tonto de dor. - Se não for muito longe daqui...

Mas ele deu graças quando um dos homens mamutoi se adiantou para segurá-lo por um braço e Thonolan pelo outro.

- Jondalar, eu já teria ido embora há muito tempo se não tivesse pro metido a mim mesmo que iria esperar até que você estivesse em condições de viajar. Bom, eu estou de partida e acho que você deveria voltar para casa... mas não quero discutir.

- Por que você quer ir para o leste, Thonolan? Já chegou à foz do Grande Rio Mãe e o Mar Beran está a dois passos daqui. Por que não voltamos agora?

- Eu não estou indo para o leste e sim para o norte, ou mais ou menos nesta direção. Brecie falou que em breve eles vão para o norte caçar mamutes. Vou prosseguir em frente. Pretendo bater num outro acampamento mamutoi. Não voltarei para casa, Jondalar. Seguirei até que a Mãe resolva me levar.

- Não fale assim! Parece que deseja morrer - disse Jondalar gritando e já arrependido do que dissera, temendo que essa possibilidade pudesse concretizar-se só pelo fato de ele admiti-la.

- E se for assim? Por que eu vou querer sem... Jetamio? - falou com a voz embargada e o nome soluçando baixinho.

- Antes de encontrá-la, porque queria viver? Você é moço, Thonolan. Tem uma longa vida pela frente, novos lugares para conhecer e muitas coisas diferentes ainda para ver. Dê a você uma segunda chance de conhecer uma outra mulher como Jetamio - disse Jondalar, implorando.

- Você não pode entender... porque nunca esteve apaixonado. Não há outra mulher como Jetamio.

- Então pretende segui-la até o mundo dos espíritos e me arrastar com você, não é? - ele não gostava de falar assim, mas apelava para o sentimento de culpa de Thonolan, o que talvez fosse uma maneira de mantê-lo vivo.

- Você está me acompanhando porque quer. Por que não volta para casa e me deixa em paz?

Thonolan, todo mundo sofre quando perde uma pessoa que ama muito, mas ninguém vai para o outro mundo por causa disto.

- Algum dia você vai passar por isto também. Algum dia você vai saber que quando se ama muito uma mulher é melhor passar para o outro mundo do que viver neste sem ela.

- Mas se isto acontecesse comigo, você me largaria sozinho? Se eu quisesse morrer porque perdi alguém que amava, você me abandonaria? Agora me diga uma coisa: você seria capaz de voltar para casa, sabendo que eu estava sofrendo e passando por um momento dificílimo na vida?

Thonolan olhou para o chão e depois dentro dos olhos azuis e preocupados de seu irmão.

- Não. Acho que se soubesse que você estava passando por um momento muito difícil eu não o abandonaria. Mas entenda, Jondalar - ele tentou esboçar um sorriso que ficou como uma careta em seu rosto amargurado - se eu resolver passar o resto de minha vida viajando, você vai querer fazer isto também? Você já está farto de viajar e um dia terá de voltar para casa. Agora, me diga: se fosse eu quem quisesse ir para casa e você não, acho que iria querer que eu fosse, não é?

- Sim, iria. Quero que você vá para casa logo, Thonolan. Não porque algum de nós queira, mas porque você precisa de sua Caverna, de sua família e das pessoas que o amam e que conheceu a vida inteira.

- Você não entende. Essa é uma das coisas que nos fazem diferente um do outro. A Noria Caverna dos Zelandonii é o seu lar e sempre o será, mas quanto a mim, o meu lar é onde eu estiver. Sou tanto sharamudoi quanto já fui zelandonii. Deixei a Caverna e as pessoas que amava, da mesma forma que a minha família zelandonii. Isso não quer dizer que não fique imaginando se Joharran já tem crianças em sua casa ou se Folara cresceu tão bonita quanto prometia. Bem que gostaria de voltar para contar a Willomar as nossas aventuras e saber quais os planos dele para a próxima viagem. Ainda me lembro da minha excitação quando ele voltou de uma delas. Fiquei ouvindo as suas histórias e sonhando em poder também viajar. Você se lembra que ele trazia um presente para cada uma das pessoas quando chegava das viagens? Para mim, para Folara e para você também. E sempre alguma coisa muito bonita para a mãe. Quando você voltar leve também um presente bonito para ela.

Ouvindo esses nomes familiares, Jondalar foi invadido por saudosas recordações.

- Por que você mesmo não leva alguma coisa bonita para ela? Não acha que a mãe gostaria de vê-lo outra vez, Thonolan?

- A mãe sabia que eu não iria voltar. Ela, no momento de partirmos, me desejou só boa viagem e não disse até à volta. Mas você, Jondalar, deu mais aborrecimentos para Marona do que eu.

- Por que iria ela estar mais aborrecida comigo do que com você?

- Porque sou filho da casa de Willomar e ela sabia que eu deveria ser um viajante. Talvez não gostasse da idéia, mas compreendia. Ela conhecia bem os filhos que teve... Foi por isso que designou Joharran para sucedê-la como chefe. Ela sabe que você é um zelandonii. Se fizesse a viagem sozinho, ela não teria dúvidas de sua volta, mas você partiu comigo e não vou voltar. Eu não sabia disto quando iniciamos a viagem, mas acho que ela sim. A mãe gostaria de vê-lo de volta, Jondalar. Você é o filho da casa de Dalanar.

- E que diferença faz isso? Há anos que os dois romperam os laços. O que não impede, é verdade, de serem bons amigos quando se encontram nas reuniões de verão.

- Agora pode ser que sejam simplesmente amigos, mas as pessoas ainda falam de Marthona e Dalanar. O amor dos dois deve ter sido qualquer coisa de muito especial para ser lembrado tanto tempo depois e você, como filho da casa dele, é tudo que ela tem para recordar desse período. Você tem de voltar, porque nunca deixará de ser um zelandonii. Ela sabe disso e você também. Prometa que um dia voltará, meu irmão.

Era difícil prometer o que Thonolan pedia. Tanto se continuasse a viagem ou se resolvesse voltar, estaria se dando por vencido. Enquanto não se comprometesse, a sua sensação era a de que ainda poderia conseguir as duas coisas. Na promessa de regressar estava implícito que Thonolan não voltaria com ele.

- Prometa, Jondalar.

- Prometo - condescendeu. - Algum dia voltarei para casa.

- Afinal, meu irmão - falou Thonolan, sorrindo - alguém tem de contar para eles que conseguimos atingir o ponto final do Grande Rio Mãe. Como não estarei lá, isso terá de ficar a seu cargo.

- Por que não vai estar lá? Você poderia vir comigo.

- Acho que a Mãe teria me levado naquele pântano se você não estivesse lá para implorá-la. Não posso fazer com que compreenda isso, Jondalar, mas sei que ela em breve virá me buscar e eu quero ir.

- Você está tentando um jeito de se matar, não é?

- Não, irmão - Thonolan sorriu. - Tentando não. Simplesmente eu sei que a Mãe não irá demorar para vir à minha procura e queria que você soubesse que estou preparado para quando chegar o momento.Jondalar sentiu um nó apertando-se na garganta. Desde o acidente no pântano de areia movediça, Thonolan tinha uma absurda certeza de que não viveria por muito mais tempo. Ele sorria, mas não com o mesmo sorriso de antigamente. Jondalar preferia antes vê-lo com raiva do que nessa atitude de cal ma aceitação. Não havia desafio nele, nenhum desejo de viver.

- Você não acha que estamos em dívida com Brecie e com o Acampa mento dos Salgueiros? Eles nos têm dado comida, roupa, armas, tudo enfim. Está pretendendo aceitar todas essas coisas sem dar nada em troca? -Jondalar queria provocar raiva no irmão e saber se ainda lhe restava alguma manifestação de vida. Ele se sentia ludibriado com a promessa que livrara Thonolan de sua última obrigação. - Você está certo de que a Mãe lhe reservou um destino e que por isso pode parar de pensar nos outros e em tudo mais, não é? Só você tem importância, apenas a vontade de Thonolan importa.

Thonolan sorriu. Compreendia a raiva de Jondalar e não tinha por que culpá-lo. Como teria ele próprio reagido se Jetamio houvesse anunciado antecipadamente a sua morte?

- Jondalar, eu quero lhe dizer uma coisa. Nós éramos muito amigos e...

- E não somos mais?

- Claro que somos. Comigo você pode desabafar e dizer tudo o que pensa, mas não precisa ser perfeito durante todo o tempo, sempre tão obsequioso e...

- Sei, eu sou tão bom que nem Serenio me quis para companheiro -falou com sarcasmo e amargor.

- Ela sabia que iríamos partir, por isso não quis afligir-nos ainda mais. Se você a tivesse pedido a mais tempo, ela teria aceitado ser a sua companheira. E mesmo quando a pediu, Jondalar, se você tivesse insistido um pouco mais, ela não teria recusado, mesmo sabendo que não a amava. Foi você quem recusou e não ela.

- Então como você pode dizer que sou tão perfeito? Juro, Thonolan, eu queria amar Serenio.

- Eu sei que queria. Aprendi uma coisa com Jetamio e gostaria que você também soubesse disto. Quando uma pessoa quer apaixonar-se, ela não pode ter reservas, tem de estar aberta e assumir todos os riscos. Às vezes pode mos nos machucar, mas se não for assim nunca seremos felizes. Talvez a mulher que encontrou não fosse aquela por quem esperava apaixonar-se. Mas não importa, você deveria amá-la exatamente pelo que ela é.

- Eu estava querendo saber por onde andavam - falou Brecie, aproximando-se dos dois. - Programei uma pequena festa de despedida para vocês, já que estão decididos a partir.

- Eu me sinto em dívida com você, Brecie .- disse Jondalar. - Afinal, vocês cuidaram de mim e nos deram tudo. Não está direito irmos embora sem deixarmos alguma coisa em retribuição.

- Já fomos mais do que pagos pelo seu irmão. Enquanto você ficou parado convalescendo de seus ferimentos, ele não deixou de caçar um só dia. Ele é um caçador de sorte, apesar de se arriscar demais. Vocês vão embora sem nos dever coisa alguma.

Jondalar olhou para o irmão, que sorria para ele.

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