O Vale dos Cavalos

Jean M. Auel · Capítulo 11 de 31

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O Vale dos Cavalos

Capítulo 9

- Não seja esganada, Huiin - falou Ayla,observando a potranca lamber as últimas gotas de água no fundo de um balde de madeira. - Se você beber tudo de uma vez só, vou ter de derreter mais gelo. - O animal relinchou, abanou a cabeça, e meteu o focinho novamente no balde. Ayla riu. - Se está com tanta sede assim, vou pegar mais gelo. Você vem comigo?

Já se tomara um hábito expressar os seus pensamentos para o cavalinho. Às vezes eram simplesmente imagens mentais e quase sempre relatadas na expressiva língua construída com gestos, posturas e expressões faciais, mas como o animal se mostrava mais propenso a escutá-la quando lhe ouvia algum som, isso a encorajava cada vez mais a verbalizar as sua conversas com ele.

Para ela, diferentemente das pessoas dos clãs, sempre fora fácil emitir uma variedade de sons e flexionar a voz. Apenas o seu filho tinha essa mesma facilidade. Constituíra-se numa brincadeira dos dois um imitar o outro nas sílabas sem sentido que diziam. Algumas destas, inclusive, passaram a ter significado para eles. Em suas conversas com a potranca, entretanto, as verba ligações cada vez mais se tomavam complexas. Ela imitava a voz dos animais, inventava palavras, usando novas combinações de sons e até algumas das sílabas sem sentido das brincadeiras com o filho foram incorporadas. Sem ninguém lá para lhe lançar olhares reprovadores -pois sons desnecessários não eram coisas de gente educada - o seu vocabulário expandia-se, mas construindo uma língua compreendida somente por ela e, num certo sentido, pelo cavalo.

Ayla colocou as perneiras, enrolou-se na pele da égua, pôs o capuz de carcaju e amarrou as luvas. Isso feito, enfiou a funda na cintura, atou o cesto às costas, e apanhou o furador de gelo - um osso saído da pata dianteira de um cavalo, no qual ela fez uma rachadura espiralada para retirar o tutano é, em seguida, afiado com uma pedra. Saíram, então.

- Vamos, Huiin - acenou para a potranca, enquanto afastava o couro de auroque que já servira como barraca e era agora uma cortina contra o vento, sustentada por alguns paus enfiados no chão junto à entrada da caverna. O cavalo trotou atrás dela, descendo os dois pelo escarpado caminho que levava à praia. O vento zunia na curva do rio, fustigando-a duramente. Ela encontrou um lugar onde o gelo parecia-lhe fácil de ser quebrado. O cristal ali, sob o impacto de seu furador, se desfez em pequenos blocos.

- É mais fácil encher um balde de neve do que cortar gelo para água, Huiín - falou ela, enquanto punha os pedaços de gelo dentro da cesta. Antes de subir para a caverna, fez uma parada para pegar um pouco mais da lenha arrastada para o sopé do paredão, dando graças por dispor daquele madeirame que lhe fornecia calor. - Os invernos aqui são mais secos e mais frios também. Sinto falta da neve, Huiin. Não se pode nem dizer que isso que cai aqui seja neve. Nesse lugar o que a gente sente é muito frio.

Ela empilhou a lenha perto da fogueira e descarregou o gelo dentro de um balde, que deixou próximo ao fogo. Precisava antes derreter o gelo, pois sem água no seu interior o caldeirão de couro queimaria sobre o fogo. Depois, passou os olhos pela caverna, vendo tudo em ordem e os diversos trabalhos já começados e em diferentes estágios de complementação. Qual deles iria pegar naquele dia? Mas se sentia inquieta. Nada a atraía. Reparou, então, nas várias lanças recentemente feitas e já prontas.

“Talvez saia para caçar”, pensou. “Já faz tempo que não dou um pulo nas estepes. Mas não adianta levar isso”, franziu o rosto, “não serviria para nada. Nunca conseguirei chegar perto de um animal para usar as minhas lanças. Vou levar só a funda. Darei apenas uma caminhada.” Ela encheu uma das dobras de sua roupa com pedras que trouxera à caverna, precavendo-se para o caso das hienas voltarem, depois botou mais lenha na fogueira e saiu.

Huiín tentou acompanhá-la quando ela começou a caminhar pela íngreme subida que ia da caverna às estepes. Mas a égua relinchou nervosa.

- Não se preocupe, Huiin. Não vou ficar muito tempo fora. Nada vai acontecer a você enquanto eu estiver longe.

Quando chegou ao topo da montanha, o vento quis agarrar-lhe o capuz e carregá-lo para longe. Ela tornou a apanhá-lo e o amarrou apertado. Mas afastou-se da beirada do precipício e parou um instante olhando ao seu re dor. A paisagem crestada e ressequida do verão, comparada com o vazio gelado e murcho das estepes no inverno, fazia um quadro respeitável de vida. As rajadas de vento uivavam um lúgubre canto dissonante, silvando lamúrias agudas que cresciam como um grito choroso e estridente para depois diminuir e se converter num gemido cavernoso e abafado. O vento açoitava a terra nua, revolvendo nas cavidades esbranquiçadas a neve seca e granulosa que lançava novamente para cima, gelando ainda mais o ar.

Ayla sentia a neve como grifos de areia batendo-lhe no rosto e ferindo a sua carne. Ela apertou mais o capuz e com a cabeça abaixada caminhou contra o vento, pisando sobre a relva quebradiça que vergava até o chio. O ar frio e seco absorvia a umidade natural das mucosas, deixando-lhe o nariz e a garganta doloridos. Uma rajada pegou-a de surpresa. A respiração tapou e, sufocada, tossia e chiava com a garganta tomada de catarro. Ao cuspir, o seu escarro congelou-se antes de cair e ricochetear no chão.

“O que estou fazendo aqui?”, disse para si mesma. “Vou voltar, não imaginava que fosse fazer um frio desses.”

Ela se virou e, por um momento esquecida do frio, ficou parada. Do outro lado da ravina, ia, a passos lentos e pesadões, uma pequena manada de mamutes, arrastando as suas enormes massas de pêlos castanho-avermelhados, com as compridas presas arqueando-se para o alto. Aquela terra isolada, aparentemente nua, era o habitat desses animais. A áspera relva, quebradiça e queimada pelo frio, constituía-se no alimento que os sustentava para a vida e, adaptado a tal ambiente, haviam perdido a capacidade de viver em qual quer outro meio. Os seus dias estavam contados. Viveriam enquanto durassem as geleiras.

Ayla, fascinada, ficou observando até que aquelas massas informes sumissem dentro dos torvelinhos de neve. Então apressou-se em ir embora, feliz por se ver livre das ventanias do lugar. Lembrou-se de que teve essa mesma sensação quando, pela primeira vez, viu o seu abençoado vale. “O que seria de mim se não tivesse encontrado essa caverna?” Chegando ao patamar de sua moradia, abraçou-se com a potranca. Depois, foi até a borda do penhasco e olhou o vale a distância. Lá, a neve era pouco profunda, acumulando-se principalmente nos lugares onde havia alguma barreira para os ventos, mas não deixava de ser igualmente fria e seca.

O vale, entretanto, oferecia proteção contra as ventanias e lhe dera uma caverna. Sem isso, e mais peles e fogo, não teria podido sobreviver. Ela não era um animal revestido de pêlos e lã. O vento trouxe aos seus ouvidos o uivo de um lobo e os latidos secos dos dholes. Embaixo, uma raposa polar cruzou o rio congelado. A sua pele branca quase a confundiu com o gelo quando, parou um momento, parou numa pose sobranceira. No vaie qualquer coisa se movia. Claramente, ela distinguiu a forma de um leão da caverna. O pêlo fulvo, farto e grosso, cintilava com um brilho quase branco. Os predadores de quatro patas adaptavam-se ao ambiente de suas presas. Ayla e os de sua espécie adaptavam o ambiente às suas necessidades.

De repente, ela se assustou ouvindo um grito cacarejado muito próximo. Olhando para cima, viu uma hiena na borda da ravina. Ela estremeceu, levando imediatamente a mão à funda, mas o animal, no seu galope desajeitado, se afastou da beirada do barranco, voltando pata as planícies abertas. Huiin aproximou-se, relinchando docemente e a cutucando com o focinho. Ela apertou a potranquinha contra a pele de égua que vestia, passou o braço ao redor de seu pescoço e entrou na caverna.

Deitada em sua cama de peles, Ayla olhava para as já muito conhecidas formações da rocha sobre a sua cabeça, perguntando-se por que teria ela acordado de repente. Levantou a cabeça, olhando para Huiin. Os olhos da potranca também estavam abertos e olhavam na sua direção, mas sem dar mostras de preocupação. Na entanto, ela tinha certeza de que havia qualquer coisa diferente no ar.

Tornou novamente a se enroscar no meio das peles, sem querer sair de seu aconchego. Pôs-se então a olhar, na luz que se filtrava pelo buraco em cima da entrada, o lar que construíra para si. Os seus trabalhos começados achavam-se espalhados pelo chio, mas a pilha de ferramentas e utensílios já prontos tinha crescido ao longo da parede em frente ao secador. Ela sentia fome e os seus olhos se voltaram outra vez para o secador. Havia despejado a gordura derretida do cavalo dentro dos intestinos, dando-lhes nós a intervalos re guiares e, agora, uma porção de salsichas brancas se penduravam junto das ervas e condimentos que secavam com as suas raízes voltadas para cima.

Aquilo a fazia pensar na sua refeição matutina. Caldo de carne seca, com um pouco de gordura para ficar mais substancioso, temperos, talvez um pouco de cereal e, para terminar, algumas frutas secas. Ela atirou para o lado as coberta Estava acordada demais para ficar na cama. Enrolou-se rápido na capa de pele, calçou e apanhou a pele de lince na cama, ainda quente com o calor de seu corpo. Apressou-se, então, em sair para urinar num canto afastado no patamar em frente da caverna. Mas quando afastou a cortina que vedava a entrada, prendeu a respiração.

Os contornos angulosos do patamar rochoso haviam sido, durante a noite, suavizados por um grosso tapete branco que resplandecia num brilho uniforme, refletindo o céu azul e transparente, adornado de flocos de pelúcia branca. Ela precisou de algum tempo para compreender a surpreendente mudança na paisagem. O ar estava parado.

O vale, aninhado na região onde as estepes continentais mais úmidas cediam terreno para as secas estepes de loesse, possuía os dois climas predominantes no sul. A neve espessa parecia com a que, em gera], caía nos arredores da caverna do clã, dando à paisagem um sabor de coisa conhecida.

- Huiin - chamou. - Venha cá! Nevou essa noite. Dessa vez, nevou de verdade!

De repente, lembrando da razão por que viera para fora da caverna, correu pelo patamar, deixando as primeiras pegadas na superfície imaculadamente branca. Enquanto voltava, reparou em Huiin que, cautelosa, procurava pisar naquela substância imaterial. A potranquinha abaixou a cabeça para cheirar e soltou um bufado na estranheza do chão frio. Olhou para Ayla e re linchou.

- Ora vamos lá, Huiin; Isso não machuca.

O animal até então nunca vira tamanha abundância de neve e naquela profundidade. Por enquanto estava acostumado apenas com a que o vento soprava e amontoava em determinados locais. Tentando novamente ensaiar alguns passos, ele afundou os cascos e relinchou como se pedindo por ajuda. Ayla ficou guiando-o até que o sentiu mais à vontade e o soltou. Depois, pôs se a rir do cavalinho, muito desajeitado, que, vencido pela curiosidade natural e vontade de brincar, começou a caminhar desengonçadamente Até aquele instante Ayla não se tinha lembrado de que estava com muito pouca roupa para ficar tanto tempo do lado de fora. Fazia frio.

- Vou preparar um chá bem quente e alguma coisa para comer. Mas estou com pouca água. Vou ter de buscar gelo... - Ora, basta que eu encha um balde de neve - falou, rindo. - Que tal um mingau quente essa manha, Huiin?

Depois de comerem, Ayla vestiu-se com roupas quentes e saiu de novo. Sem vento, a temperatura era quase amena, contudo o que mais a encantava era a visão conhecida da neve cobrindo o chão. Ela encheu baldes e cestas e levou para dentro da caverna, depositando perto da fogueira para que se derretesse. Era tão mais fácil do que quebrar gelo que resolveu até usar um pouco para se lavar. Tinha o costume de banhar-se regularmente no inverno com neve derretida, mas quando dispunha só de gelo, já era muito duro ter de quebrá-lo para cozinhar e beber. Banho era um luxo há muito abandonado.

Alimentou o fogo com lenha apanhada da pilha no fundo da caverna, depois foi retirar a neve que se achava por cima do monte de madeira posto de reserva no patamar.

“Seria bom se pudesse guardar água do mesmo jeito que faço com a lenha”, pensou, olhando para os recipientes cheios de neve derretendo-se. “O vento vai começar a soprar novamente e ti sei quanto tempo essa vai durar.” Ela saiu para trazer outro carregamento, levando um balde para retirar a neve que cobria a madeira. Depois do balde cheio, despejou perto da pilha, re parando que a neve fizera um bolo com a forma do recipiente. Por que não poderia guardar neve desse jeito? Empilhada da mesma maneira que a lenha? Perguntava-se.

A idéia a deixou entusiasmada e logo tinha amontoado contra a parede próxima da entrada uma boa quantidade de neve limpa, ainda não pisada. Em seguida, começou a catar a que estava no caminho que levava à praia. Huiin, aproveitando-se da trilha feita, desceu para o vale. Ayla tinha os olhos brilhando e o rosto corado quando terminou, sorrindo satisfeita para o monte de neve bem à sua mão, do lado de fora da caverna, junto da entrada. Viu, então, um trecho na ponta do patamar que ainda não estava inteiramente limpo e, cheia de disposição, dirigiu-se para lá. Ao olhar para o vale riu de Huiin, muito graciosamente, passando por entre os montículos de neve.

Ao voltar os olhos para a sua pilha de neve, parou por instantes, botando um sorriso no canto dos lábios, enquanto pensava numa idéia extravagante que lhe ocorreu. A pilha de neve, feita de muitos bolos da forma do balde, sugeria, de onde se achava, os contornos de um rosto. Ela apanhou um pouco mais de neve, aplicou-a em determinados lugares e se afastou para ver o efeito.

“Se o nariz fosse um pouquinho maior ficaria igualzinho a Brim”, pensou, tornando a pegar mais neve. Comprimiu onde achava ser preciso, cavou um pouco mais num determinado ponto, aplainou uma saliência e voltou a se afastar para admirar a sua obra.

Os olhos brilhavam com uma expressão marota.

- Bom dia, Brim - falou por gestos. Mas logo se sentiu arrependida. O verdadeiro Brun não iria gostar de vê-la dando o nome dele a um montão de neve. Os nomes das pessoas eram muito importantes para serem atribuídos indiscriminadamente a qualquer coisa. “Bom, mas está parecendo mesmo com ele”, pensou, rindo baixinho. “Deveria talvez ter sido mais cerimoniosa. Não fica bem uma mulher cumprimentar o chefe como se ela fosse urna germana dele. Devia pedir antes permissão”, observou, querendo prolongar um pouco mais a brincadeira. Sentou-se em frente do monte de neve, olhando para o chão, na postura que toda mulher clânica assumia quando precisava dirigir-se a um homem.

Achando graça de sua encenação, se deixou ficar sentada em silêncio, com a cabeça abaixada, tal como se de fato fosse sentir um tapinha no ombro, o sinal que autorizava a mulher a falar. Mas o silêncio começou a pesar e o chão de pedra estava frio e duro. Pensou, então, no ridículo da posição em que se achava. A réplica de Brun lhe tocaria no ombro, tanto quanto o verdadeiro Brim a tinha reconhecido, quando da última vez em que ficara sentada em sua frente. Ela fora amaldiçoada injustamente e queria pedir ao antigo chefe que protegesse o seu filho da ira de Broud. Brun, no entanto, lhe dera as costas. Ela já estava naquele momento morta. Subitamente, o seu espírito jocoso desapareceu. Levantou-se e encarou o boneco de neve.

- Você não é Brun! - gesticulou furiosa, dando murros na parte que cuidadosamente modelara. A raiva avolumava-se nela. - Você não é Brim! Você não é Brun! - dizia, intercalando os gestos com pontapés e murros, destruindo inteiramente a forma do rosto. - Nunca voltarei a ver Brim. Nunca mais irei ver Durc. E nunca mais tomarei também a ver alguém na minha vida. Nunca, nunca mais! Estou sozinha - então escapou de seus lábios um gemido alto, seguido de soluços desesperados. - Oh, por que estou tão sozinha?

Ela caiu de joelhos e se deitou na neve, sentindo as lágrimas quentes esfriarem sobre o rosto.

Começou, então, a embrulhar-se com neve, entregando-se ao frio úmido e paralisante. Queria enterrar-se, deixar-se cobrir e congelar para sempre a sua dor, raiva e solidão. Quando o corpo começou a tremer, fechou os olhos e tentou ignorar o frio que começava a penetrar-lhe nos ossos.

Foi então que sentiu algo úmido e quente no rosto e ouviu um suave relincho de cavalo. Quis também ignorar Huiin. O cavalinho tomou a cutucá-la. Ela abriu os olhos, dando com os da potranca, grandes e escuros e o seu comprido focinho. Esticou o braço, passando-o ao redor do pescoço de Huiin e enfiou o rosto no meio da crina emaranhada. Quando a soltou, Huiin tomou outra vez a relinchar carinhosamente.

- Você está querendo que eu me levante, não é, Huiín?

O cavalinho moveu a cabeça para cima e para baixo, como se tivesse compreendido, na verdade o que Ayla gostaria de acreditar. O seu instinto de sobrevivência sempre fora forte e não seria o sentimento puro e simples de solidão que a faria desistir da vida. Crescida no clã de Bri apesar de em muitos sentidos ter sido amada, durante toda a sua vida havia sido uma pessoa sozinha. Ela era diferente. No seu amor pelos outros estava a sua maior força. Saber-se necessária. Primeiro, Iza em sua doença, depois Creb na velhice e por fim o seu filho haviam dado um propósito à sua vida.

- Tem razão, Huiin, é melhor eu me levantar. Não posso deixá-la sozinha. E estou ficando toda molhada e morrendo de frio aqui. Vou vestir uma roupa seca e depois fazer um bom mingau quente para você. E o que está querendo, não é?

Ayla observava dois machos de raposa polar rosnando e mordendo-se um ao outro, numa luta pela posse da fêmea. Apesar de estar no patamar de sua caverna, a uma grande altura, ela sentia o forte cheiro dos animais no cio. “Eles são mais bonitos no inverno. No verão ficam marrom, perdem a graça. Se eu quiser uma pele branca, tenho de consegui-la agora”, pensou.No entanto, não fez menção de pegar a funda. Um dos machos saíra vitorioso e reclamava o seu prêmio. A fêmea proclamou-lhe o feito com um berro rouco no momento em que ele trepou sobre ela.

“Só quando se juntam dessa maneira é que a fêmea solta esse grito. Tinha vontade de saber se ela gosta de fazer isso. Ou será que não? Eu nunca gostei, mesmo depois que deixou de doer. Mas as outras mulheres gostavam. Por que era eu tão diferente? Será que foi simplesmente por não suportava Broud? Mas esse fato fúria tanta diferença? Será que aquela fêmea gosta do macho? Gosta do que ele faz? Pelo visto, não pensa em fugir.”

Aquela não era a primeira vez em que Ayla deixava de caçar para ficar observando raposas ou outros animais carnívoros. Muitas vezes havia passado longos dias espreitando as presas que o seu totem lhe permitira caçar, somente para lhes conhecer os hábitos e o habitat. Descobrira que eram animais interessantes e criaturas como ela. Os homens do clã aprendiam a caçar exercitando-se com animais herbívoros, aqueles que comiam. Quanto aos carnívoros, embora os caçassem quando queriam uma boa pele, esses não eram as suas presas favoritas. Eles não haviam criado a relação multo especial que Ayla estabelecera com as feras.

Apesar de conhecê-los bem, os carnívoros ainda continuavam a fasciná-la. No entanto, naquele momento vendo as raposas - a sofreguidão do macho e os gritos da fêmea - o seu pensamento se fixava em algo mais do que só caçadas. “Todos os anos, no fim do inverno, eles se juntam dessa forma”, pensou ela. “Na primavera, quando as suas peles ficam marrons, a fêmea dá cria. Gostaria de saber se ela vai ficar aqui, metida debaixo das pilhas de ossos e madeiras, ou se vai cavar uma toca em algum outro lugar. Espero que fique. Primeiro, ela vai amamentar os filhotes, depois lhes dará comida de bebês, bem mastigadas com a sua boca. Passada essa fase, ela começará a trazer animais mortos... ratos, toupeiras, pássaros, talvez algum coelho. Quando os filhotes estiverem maiores, trará as presas vivas e vai ensiná-los a caçar. No ou tono, já vão estar quase adultos, e no inverno que vem as fêmeas vão berrar igual a essa quando os machos treparem nelas.”

“Por que fazem isso? Por que se juntam dessa maneira? Imagino que se já para fazer bebês. Se tudo que a raposa tivesse de fazer fosse engolir um espírito, como dizia Creb, então por que teria de se unir dessa maneira com o macho? Ninguém acreditava que eu fosse ter filho. Diziam que o espírito de meu totem era forte demais. Mas eu tive. Se a vida de Durc começou porque Broud fez isso comigo, pouco importava se o meu totem fosse forte ou não.

“Mas as pessoas não são raposas. As mulheres não têm bebês só na primavera, elas podem ter em qualquer época do ano. E nem se juntam só no inverno, fazem isso no momento que quiserem. Talvez Creb tivesse um pouco de razão também. E possível que o espírito do totem de um homem tenha de entrar dentro da mulher. Só que não é pela boca. Tenho a impressão de que ele entra quando um casal se junta através do órgão do macho. Às vezes o to tem da mulher luta contra o espírito masculino e às vezes o órgão inicia uma nova vida.

“Acho que não quero uma pele de raposa polar. Se eu matar uma, todas as outras irão embora e quero ver quantos filhotes essa vai ter. Ao invés disso, vou pegar o arminho que vi no rio, antes que ele fique também marrom. A sua pele é branca, mais macia e eu gosto da pontinha preta em seu rabo.

“Mas aquela doninha é tão pequena. A sua pele só dá para fazer uma luva e ela também vai ter filhotes na primavera. No próximo inverno, provável mente haverá mais arminhos por aqui. Talvez eu não saia hoje para caçar e fique terminando a bacia que já comecei.”

Não ocorreu a Ayla perguntar-se por que pensava nos animais que estariam no vale no próximo inverno, quando ela planejava partir na primavera. Começava a acostumar-se com a sua solidão, exceto à noite, quando chegava o momento de colocar mais uma marca numa vareta que fazia parte de uma pilha, cada vez maior de outras já inteiramente cobertas de ranhuras.

Com as costas da mão, Ayla procurou afastar do rosto uma mecha de cabelos gordurentos e pegajosos. Naquele momento, não podia interromper o trabalho. Estava dividindo a raiz de uma árvore, preparando as fibras para fazer uma enorme cesta. Nos últimos tempos andara experimentando novas técnicas de tecer, empregando muitos tipos de material que combinava diferente mente de modo a inovar as tramas e texturas. Todo o processo de tecer, amarrar, laçar com cordões, fios e fibras absorvia-lhe inteiramente o pensamento, tirando-a de tudo mais. Embora algumas vezes o resultado final não prestasse, e às vezes ficasse até ridículo, ela havia conseguido belas criações que a animavam a empreender novas experiências. Constantemente surpreendia-se torcendo ou trançando quase tudo que lhe vinha às mãos.

Naquele dia, estava trabalhando desde cedo numa trama particularmente intricada, e só quando Huiin afastou com o focinho a cortina e entrou é que ela reparou que já começava a entardecer.

- Como pôde o tempo andar tão depressa, Huiin? Nem água ainda botei no seu balde - falou, levantando-se e esticando os músculos, cansada de estar muito tempo numa posição só. - Devia ter preparado alguma coisa para comermos. Bom, acho que vou fazer a minha cama.

Pôs-se, então, em grande atividade - Pegou feno fresco para Huiin, outro tanto para botar sob as peles de sua cama, jogou o velho pela ribanceira sob o patamar, quebrou o gelo formado acima da neve empilhada junto da entrada, dando mais urna vez graças por ter tido aquela idéia. Mas reparou que já havia muito pouca neve. Perguntava-se quanto tempo ainda duraria, sem precisar buscar água no rio. Hesitava em apanhar uma quantidade grande que desse para lavar-se. Depois, achando que poderia não terei outra oportunidade até a primavera, resolveu pegar assim mesmo. Iria banhar-se e lavar os cabelos.

A neve derretia nos baldes perto da fogueira, enquanto ela preparava e cozinhava a comida, O pensamento voltara-se para a cesta com a intricada trama de fibras que tanto a absorvia. Já alimentada e lavada, desembaraçava os cabelos molhados com os dedos e um pauzinho, quando os seus olhos bateram no cardo seco que usava para pentear e tirar os nós das fibras vegetais. Foi o fato de estar sempre penteando a crina de Huiin que lhe dera a idéia de usar os espinhos de cardo para desembaraçar fibras, e daí a usá-los nos próprios cabelos foi só um passo.

Ficou encantada com o resultado. A sua farta cabeleira dourada ficou sedosa e macia. Até então, nunca prestara muita atenção aos seus cabelos, fora em algumas ocasiões quando os lavava. Quase sempre usava-os partidos mais ou menos ao meio e puxados para trás, presos atrás das orelhas. Iza muitas vezes lhe dissera que era o que ela tinha de mais bonito, lembrou-se escovando-os para frente, observando-os à luz da fogueira. “A cor é bastante bonita”, pensou. “Mas ainda mais atraente é a textura dos fios, longos e macios.” E sem se dar conta, tomou um punhado, fazendo uma longa corda trançada.

Amarrou uma tira de tendão na ponta e começou a trançar outro punhado de cabelos. De repente ocorreu-lhe o pensamento do quanto as pessoas a achariam estranha se a vissem naquele instante fazendo cordas com os próprios cabelos. Mas nem por isso desistiu. Em pouco tempo, tinha várias tranças compridas penduradas. Balançando a cabeça de um lado para outro, ria com a novidade da coisa, Gostava das tranças, mas não podia botá-las atrás da orelha de modo a ter rosto descoberto. Depois de algumas tentativas, achou uma maneira de enroscá-la e prendê-las no alto da cabeça, mas como gostava de sacudi-las, deixou algumas caindo soltas do lado de trás.

No começo foi o sentido de novidade que a atraiu, depois por conveniência resolveu conservar os cabelos sempre trançados. Assim, estariam no lugar, sem incomodá-la. Não precisava ficar a todo instante prendendo os cachos que se soltavam. E, depois, que importância tinha se fossem achá-la estranha? Podia fazer tantas cordas com o seu cabelo quanto quisesse, não ha vendo ninguém ali que precisasse agradar a não ser ela própria.

Não demorou muito para que Ayla deixasse de contar com a neve no patamar de sua caverna, mas deixara também de ser necessário quebrar gelo para água. Havia muitos montes espalhados de neve. No entanto, a primeira vez que desceu para apanhá-la, reparou que a neve embaixo da caverna tinha resíduos de fuligem e cinzas da fogueira. Resolveu subir o rio, caminhando pela superfície gelada, procurando um lugar onde pudesse pegá-la limpa. Ao passar, entretanto, pela estreita garganta, a curiosidade a levou para mais longe.

Nadando, nunca chegara até aquele ponto. As correntezas eram fortes, não havendo necessidade de arriscar-se à toa. Andar, porém, não exigia esforços, a não ser tomar cuidado com os passos. Ao longo da garganta -onde a queda da temperatura surpreendera os jatos de água ou nas áreas de alta pressão atmosférica - o gelo fantasiosamente criou uma terra de sonhos e magia. Encantada, olhava para as estupendas formações sem imaginar ainda o que te ria pela frente.

Já estava andando há algum tempo e pensava em voltar. O fundo da garganta, extremamente sombroso, era frio e o gelo contribuía ainda mais para a queda da temperatura ali. Resolveu que caminharia somente até a próxima curva do rio. Mas chegando lá, parou extasiada. Para além da curva, as paredes da garganta se uniam formando uma muralha de pedra que se elevava até as estepes em cima e, jorrando do penhasco, uma cascata congelada brilhava com fantásticas estalactites. Geladas e brancas, duras como pedra, faziam uma espetacular versão de uma caverna vista de cabeça para baixo.

A gigantesca escultura de gelo era emocionante em sua grandiosidade. Toda a força das águas apanhadas pelas garras do inverno parecia prestes a abater-se sobre ela, pasma, inteiramente tomada pela magnificência do espetáculo. O efeito era estonteante. Ela teve um estremecimento diante daquele poder descomunal, contido em sua força. Antes de se afastar, achou ter visto uma gota de água faiscando na ponta de um dos pingentes e sentiu o corpo arrepiar-se de pavor.

Ayla acordou com as rajadas frias de vento e olhou para a parede oposta, junto da entrada. A cortina batia contra o varal. Ela se levantou e, depois de consertá-la, ficou alguns instantes sentindo o vento no rosto.

- Está mais quente, Ruim. O vento já não está tifo frio, tenho certeza.

O cavalo retesou as orelhas e olhou para ela na expectativa. Mas era só conversa. Não havia nem gestos nem sons motivando-o a uma resposta. Nenhum sinal pedindo-lhe para aproximar-se ou se afastar. Nenhuma indicação de que a comida estivesse para aparecer ou de que fosse ganhar algumas coçadelas ou tapinhas carinhosos. Ayla não havia procurado intencionalmente educar o cavalo. Para ela, Huiin era como uma companheira, uma amiga. Mas o inteligente animal passara a perceber que certos gestos e sons sempre vinham acompanhados de determinados atos e, a muitos, dava uma resposta apropriada.

Ayla, pelo seu lado, também começava a entender a linguagem de Ruim O cavalo não precisava falar com palavras. Ela estava acostumada a ler o senti do nas ínfimas variações de posturas e expressões. Os sons sempre foram um aspecto secundário da língua clânica e, agora, durante um longo inverno que os obrigou a uma aproximação maior, impondo uma convivência muito próxima, ambos consolidaram um caloroso laço afetivo e estabeleceram um alto nível de comunicação e entendimento. Quase sempre, Ayla sabia quando Ruim estava alegre, feliz, nervosa ou preocupada, e ela correspondia a esses sinais dando o que lhe estava sendo pedido: comida, água, carícias. Mas, intuitivamente, a mulher assumiu o papel dominante, foi quem começou a dar ordens e indicações precisas que suscitavam no cavalo um determinado tipo de resposta.

Junto da entrada, Ayla examinava as condições do pano de couro e os consertos que se faziam necessários. Ela teria de fazer outros furos na parte de cima do pano, embaixo dos que foram rasgados e depois enfiar através deles uma nova correia para amarrar a cortina na travessa horizontal. Inesperada mente, uma coisa molhada pegou-lhe na nuca.

- Não, Ruim... falou, virando-se. O cavalo, no entanto, não se mexera de seu lugar. Em seguida, sentiu um novo pingo de água batendo-lhe. Olhou ao redor e depois para cima, para o comprido caramelo de gelo que se pendurava junto do buraco de sair fumaça. A respiração e o vapor saído das panelas de cozinhar subiam, carregados pelo calor da fogueira, e encontravam a aragem fria entrando pelo buraco, causando a formação do gelo. O vento se co, entretanto, chupava a umidade, impedindo que as estalactites se formas sem muito compridas. Durante todo o inverno, apenas uma pequena franja de gelo decorou o teto nas proximidades do buraco.

Uma outra gota se desprendeu da ponta, caindo-lhe sobre a testa, antes que ela se recuperasse da surpresa e se pusesse de lado. Então, enxugando a gota, soltou um enorme viva de alegria.

- Huim! Huiin! A primavera está chegando. O gelo começa a derreter!- ela correu na direção da potranca atirando os braços ao redor do seu pescoço cabeludo e sossegando-a também do susto que lhe dera. -Ruim, logo as árvores vão estar brotando e o verde aparecendo. Nada é tão bonito quanto as primeiras folhas da primavera! Espere só para sentir o gosto do capim da primavera. Você vai adorar!

Correu para o patamar, como se esperasse ver um mundo verde e não branco. O vento gelado rapidamente a fez voltar para dentro e toda a excitação com os pingos do gelo se derretendo se transformou em desalento quando a primavera retirou as suas promessa e a pior nevasca da estação caiu alguns dias mais tarde, silvando furiosamente através da garganta do rio. No entanto, a primavera, apesar do manto branco gelado, vinha firme nas pegadas do inverno e o sopro quente do sol derretia a crosta gelada da terra. As gotas de água realmente foram um prenúncio da transformação do gelo em água no vale, só que numa quantidade como Ayla jamais podia imaginar.

Às primeiras gotas do degelo, juntaram-se as chuvas de primavera que ajudaram a lavai a neve e o gelo acumulados, levando umidade aos terrenos secos das estepes. Entretanto, não se tratava de simples acúmulos localizados, O rio, correndo pelo vale, tinha o seu manancial em águas provindas das geleiras, e durante a primavera ele derretia e ganhava vários tributários, muitos dos quais n existiam quando Ayla lá chegou.

Inundações repentinas em terras antes secas apanhavam de surpresa os animais desavisados arrastando-os pelo rio abaixo. No tumulto das correntezas os cadáveres iam sendo rasgados, retalhados, até que restassem apenas ossos. Às vezes as corredeiras ignoravam os leitos antigos e abriam novos canais, arrancando pelas raízes e varrendo para longe toda uma vegetação que, durante anos, lutara para sobreviver num meio hostil. Pedregulhos, pedaços de rocha, até mesmo grandes blocos eram arrastados junto com entulhos pelas águas.

A montante da caverna de Ayla, as águas da alta catarata, aprisionadas na estreita garganta do rio, revolviam-se tumultuosamente. A resistência aumentava a força das correntezas e o excesso elevava o nível do rio. As raposas, alojadas debaixo da pilha de ossos e madeira formada no ano anterior, haviam abandonado o seu covil muito antes que a praia sob a caverna ficasse submersa.

Ayla não conseguia manter-se dentro da caverna. Do patamar observava o rio redemoinhar espumosamente e subir todos os dias o seu nível. Os vagalhões passavam pela estreita garganta e batiam contra a ponta do penhasco, deixando no sopé parte da carga de entulhos transportada pelas águas. Final mente, ela entendia como se alojara naquele ponto a pilha de ossos, madeiras e pedras que tantos serviços lhe prestava, mas dava graças por haver encontra do uma caverna fora do perigo das enchentes.

Ela sentia o patamar estremecer quando alguma árvore ou um bloco de pedra mais pesado se chocava contra o penhasco. Ficava assustada, mas passa ra a ter uma visão fatalista da vida. Se tivesse de morrer, era porque isso tinha de acontecer. De qualquer modo, estava amaldiçoada e se esperava que já es tivesse morta. Havia forças mais poderosas do que ela controlando o seu destino. Se o penhasco desabasse enquanto estivesse habitando as suas alturas, ela nada podia contra isso, além do que a natureza violenta, brutal, exercia sobre ela enorme fascínio.

Nunca um dia tinha o mesmo aspecto que o outro. Uma das grandes árvores crescendo na frente do penhasco cedeu à força das enchentes, batendo ao cair contra o patamar, para logo em seguida ser arrastada pela avalancha. Ela viu a árvore sendo lançada ao redor da curva pelas correntezas que se esparramavam, formando um lago estreito e comprido nos terrenos mais baixos e cobrindo inteiramente a vegetação que adornava as margens de um rio outrora tranqüilo. Galhos e ramagens presos à lama do rio por instantes agarraram o gigante caído, mas não conseguiram segurá-lo por muito tempo. A árvore foi puxada do matagal, ou talvez esse arrancado com as suas raízes.

Ayla soube quando o inverno finalmente libertou de suas garras os pingentes gelados da catarata. Um estrondo ecoando do lado da garganta anunciou as massas de gelo que passaram a flutuar nas correntezas. Amontoavam-se, primeiro, no paredão, para depois seguir o curso do rio, indo de quina e aos poucos perdendo o formato e a nitidez de seus contornos.

A sua muito conhecida praia tinha um caráter diferente quando, por fim, as águas retrocederam o suficiente para permitir que ela, uma vez mais, descesse pelo íngreme caminho que levava à margem do rio. A pilha no sopé do paredão estava enlameada e maior. Amontoadas junto com o madeirame e os ossos do ano anterior, havia novas carcaças de animais e árvores, O pequeno pedacinho de praia rochosa estava mudado e muitas das árvores conhecidas tinham sido varridas de seus lugares. Ficaram aquelas que possuíam as suas raízes plantadas em terra seca, principalmente as que se achavam mais distanciadas das margens. Os arbustos e as árvores estavam acostumados às inundações anuais e quase todas que conseguiram sobreviver a algumas estações permaneciam firmemente enterradas. Quando os primeiros botões verdes nos pés de framboesas começaram a despontar, ela passou a esperar ansiosa pelas peque ninas frutas vermelhas. Isso, no entanto, veio precipitar um problema.

Era tolice contar com framboesas que só estariam maduras no verso. Até lá, ela já não estaria no vale, pelo menos se a sua intenção fosse a de continuar buscando os Outros. Os prenúncios da primavera a faziam lembrar de que uma decisão precisava ser tomada: quando partir do vale? Estava sendo mais difícil do que imaginara.

Ela se achava sentada em seu lugar favorito, na extremidade do patamar, do lado que dava para o vale. Ali havia um lugar plano com um degrau perfeito para se apoiar os pés. Naquela posição não enxergava a curva do rio, nem a praia rochosa, mas tinha uma ampla vista do vale e se virasse a cabeça no sentido da montante enxergaria a garganta do rio. Huiin estava lá embaixo na campina e ela viu que o cavalo se preparava para voltar. Ela desapareceu de sua vista quando contornou a ponta do penhasco e, pouco depois, escutou-lhe os passos subindo pelo caminho, esperando vê-la a qualquer instante surgir no patamar.

Ela sorriu ao aparecer a enorme cabeça do cavalo das estepes, com as suas orelhas pretas e crina marrom. Quando Huiin finalmente surgiu de corpo inteiro, Ayla reparou que o seu pêlo amarelo estava caindo e falhado. A risca marrom escura ao longo da espinha dorsal terminava agora num farto e comprido rabo de cavalo. A parte superior das patas dianteiras, quase pretas, começavam a matizar-se com algumas listas. A potranca olhou para ela, relinchou mansamente, esperando para ver se Ayla queria alguma coisa, depois entrou na caverna. Embora ainda não de todo desenvolvida, Huiin já havia atingido o tamanho de um cavalo adulto.

Ayla voltou outra vez os olhos para o vale. Há dias que tinha o pensa mento ocupado só com um problema que até o sono lhe estava tirando de noite. “Não posso ir embora agora. Preciso antes caçar um pouco e esperar que algumas frutas fiquem maduras. E o que vou fazer com Huiin?” Aí estava o cerne do problema. Ela não desejava viver sozinha, por outro lado nada sabia das pessoas que os das chamavam Outros, fora o fato de que ela própria pertencesse a esse povo. “E se as pessoas que eu encontrar não me deixarem ficar com Huiin? Brun jamais daria licença para eu ter comigo um cavalo adulto, principalmente um com uma carne tifo fresca e tenra. E se quiserem matar Huiin? Ela nem fugir saberia, ficaria parada esperando que a matassem. Se eu pedisse para que não fizessem isso, será que me atenderiam? Broud pouco se importaria com o que eu dissesse. Ele mataria Huiin de qualquer jeito. E se os homens dos Outros forem iguais a Broud? Ou até piores? Afinal, foram eles que mataram o bebê de Oda, mesmo que não tivessem feito isso de propósito.”

“Algum dia vou ter de encontrar alguém, mas posso ficar por mais algum tempo por aqui. Pelo menos até que eu tenha feito umas tantas caçadas e que as raízes tenham brotado. E é isso o que farei. Vou ficar até que as raízes estejam bastante grandes para serem apanhadas.”

Uma vez a decisão tomada, sentiu-se aliviada e pronta para enfrentar um trabalho. Levantou-se e foi até a outra extremidade do patamar. O novo monturo formado no sopé do penhasco exalava uma fedentina de carne podre que chegava até a caverna. Embaixo, ela percebeu qualquer coisa movendo-se. Era uma hiena que partia com as suas poderosas mandíbulas a pata dianteira daquilo que provavelmente fora um veado. Nenhum outro animal, predador ou carnívoro, tinha tanta força concentrada nos quartos dianteiros e nas mandíbulas, o que justamente dava a este bicho o seu aspecto desproporcionado.

A primeira vez que Ayla deu com o traseiro de um deles, com as suas patas posteriores curtas e tortas, escarafunchando dentro da pilha, ela teve de conter-se para não atirar. No entanto, vendo-o sair arrastando o pedaço de uma carcaça podre, resolveu deixá-lo em paz, agradecida, pelo menos por uma vez, ao serviço que esse odioso animal lhe prestava. As hienas também estavam incluídas entre os animais carnívoros que ela estudara. Diferentemente dos felinos ou dos lobos, as hienas não precisavam, para caçar, de uma forte musculatura nos quartos traseiros. Atacavam as suas presas procurando pegar-lhes nas vísceras, nas partes moles do baixo-ventre e nas glândulas mamárias. Mas do que gostavam realmente era de cante podre, em qualquer estágio de putrefação.

Regalavam-se com corpos em decomposição. Ayla já as vira remexer até em piras para queimar cadáveres humanos e retirar da terra corpos que não foram bem enterrados. Chegavam inclusive a comer esterco, e fediam tanto quanto os alimentos que ingeriam. A sua mordida, quando não liquidasse no instante, matava posteriormente por infecção. Os filhotes dos outros animais também faziam parte de suas preferências.

Ayla estremeceu com uma careta de nojo. Ela as odiava. Fazia força pa ra resistir à vontade de espantá-las dali com a sua funda. Era irracional, mas não conseguia evitar o nojo que lhe davam esses carnívoros de pele malhada. Para ela, eles nada tinham que se salvasse. Os outros predadores não lhe despertavam tanto nojo, mas geralmente também cheiravam mal.

De seu ponto estratégico, viu um carcaju chegando para ter também a sua parte nos despojos. O carcaju parecia um ursinho de rabo comprido, mas Ayla sabia que ele se assemelhava mais às doninhas, com as suas glândulas de almíscar, tão pestilentas quanto as do gambá. Os carcajus eram animais per versos. Danificavam cavernas, lugares desvigiados, aparentemente sem qual quer motivo. Mas eram inteligentes, predadores corajosos, capazes de atacar qualquer coisa, até mesmo um gigantesco veado, embora se contentassem com ratos, pássaros, sapos, peixes e ovas. Ayla já os vira tirando presas da boca de bichos muito maiores que eles. Eram animais de respeito e além disso tinham uma pele utilíssima, única para impedir o congelamento do bafo da respiração.

Ela viu dois falcões vermelhos saírem de seus ninhos numa árvore na margem oposta do rio. Rapidamente, se elevaram no céu e estenderam as suas imensas asas avermelhadas e o rabo em forma de forquilha para virem pousar na praia. Os falcões se alimentavam de carne podre, mas como toda ave de ra pina gostavam também de pequenos mamíferos e répteis. Em matéria de carnívoros, Ayla estava mais familiarizada com os mamíferos do que com as aves, mas não ignorava que as fêmeas dos pássaros normalmente são maiores do que os machos e muito mais bonitas de serem admiradas.

O abutre, apesar da horrorosa cabeça depenada e de seu pavoroso cheiro, ela não antipatizava de todo. O bico curvo era afiado e forte, feito a propósito para desmembrar e cortar a carne de animais mortos. No entanto, havia majestade em seus movimentos. Era incrível a facilidade com que as suas imensas asas planavam, aproveitando as correntes de ar. Quando via a comida, ele dava um mergulho vertiginoso e saía atrás da carniça com o pescoço espichado para frente e as asas entreabertas.

Os animais, abaixo de sua caverna, estavam tendo um banquete, até os corvos participavam da festança e Ayla os observava satisfeita. Para se ver livre da fedentina, até mesmo as hienas ela não via com maus olhos. Quanto mais rápido limpassem tudo, mais feliz ficaria. Subitamente, se sentiu abafada com a atmosfera nauseabunda. Queria respirar ar puro, sem emanações fedorentas.

- Huiin - chamou. O cavalo, ouvindo o seu nome, meteu a cabeça do lado de fora da caverna. - Vou dar uma volta, quer vir comigo? - Huiin, vendo o aceno convidativo, caminhou na direção dela, mexendo com a cabeça.

Desceram pelo estreito caminho, evitando a praia com os seus ruidosos ocupantes e circundaram com cuidado o paredão de pedra. O cavalinho parecia mais calmo, depois que começaram a caminhar ao longo da vegetação que margeava o pequeno rio, agora contido dentro de seus limites normais, O cheiro de morte deixava-o nervoso e o medo que tinha das hienas vinha de suas tristes experiências com este animal. Ambos gozavam da liberdade que lhes permitia aquele dia ensolarado de primavera, depois do longo confinamento imposto pelo inverno, embora o ar ainda estivesse frio e úmido. Também respirava-se melhor no campo aberto e nem todos os pássaros eram carnívoros e estavam naquele momento se banqueteando. Havia outras atividades mais importantes.

Ayla atrasou o passo para observar um casal de pica-paus - o macho com um penacho vermelho e a fêmea com um branco. Os dois deliciavam-se com as suas acrobacias aéreas e vinham em seguida tamborilar num velho tronco, para, então, novamente alçarem vôo e se perseguirem ao redor das árvores. Ela conhecia bem esses pássaros. Os pica-paus forravam os seus ninhos com as lascas de madeira que escavavam no interior dos troncos de velhas árvores. Em geral, encontravam-se em cada ninho seis ovos de cascas com pintinhas marrons. No entanto, depois de chocados e os filhotes nascidos, os pais tomavam rumos diferentes para procurarem em seus territórios insetos e novos troncos de onde fariam ressoar pelos bosques os seus gritos estridentes e cacarejados.

Bem diferentes eram as cotovias. Somente na época da procriação é que os bandos se separavam aos pares, quando então os machos passavam a assumir o comportamento de um fogoso galo de briga em relação aos antigos companheiros. Um casal levantou vôo e Ayla escutou o seu glorioso canto. Era tal o volume da voz que ela continuou a ouvi-la, mesmo quando já os dois estavam muito altos e eram apenas pontinhos no céu. Subitamente, como se fossem duas pedras despencando-se, baixaram e tomaram a levar o seu belo canto às alturas.

Ayla chegou ao local onde cavara a armadilha em que apanhou a égua baia. Pelo menos era onde imaginava que fosse. Nenhum vestígio restava. A inundação da primavera aplainara a depressão no terreno e varrera os arbustos que ela tinha cortado. Pouco mais adiante, fez uma parada para tomar um gole de água e sorriu ao ver uma alvéloa correndo pela margem. Parecia com a cotovia, só que mais esguia e com a barriga amarela. Ia com o corpo horizontal, numa ginga muito particular para não molhar as penas do rabo:

Súbito, uma cascata de notas muito límpidas atraiu a sua atenção para outro casal de pássaros, este sem problema de se molhar. Eram dois melros inclinando-se uma para o outro com graciosas reverências, em pleno jogo de galanteios. Ela sempre se sentira intrigada como os melros conseguiam cair dentro da água e saírem sem ter as penas encharcadas. Ao voltar à campina, ela viu que Huiin pastava os novos rebentos da primavera. Outra vez sorriu. Agora foi um par de cambaxirras que, com o seu tchique-tchique, passou-lhe um pito por ousar chegar tão perto do arbusto que habitavam. No momento em que se afastou, voltaram ao seu canto de gorjeios altos e cristalinos, revezando- se nas vozes: ora se fazendo ouvir a do macho, ora a da fêmea.

Ela parou e sentou-se num tronco ouvindo os maviosos cantos dos diferentes pássaros. Então foi surpreendida pela voz da toutinegra que, sozinha, imitava todo o coro, num jorrar esplendoroso de melodias. Um animal tão pequenino e com tamanho virtuosismo. Ayla chegou a parar de respirar e, sem perceber, surpreendeu-se com um assovio nos lábios. Um verdelhão respondeu-lhe com o seu canto soando como um assovio aspirado e foi logo imitado pela toutinegra.

Ayla estava encantada. Sentia-se fazendo parte daquele coro alado e experimentou outra vez. Franziu os lábios e aspirou o ar, mas o assovio saiu-lhe fraco. Na vez seguinte, já veio com mais volume, mas ela tinha enchido os pulmões demais e expeliu o ar na forma de um assovio muito alto. O som produzido já estava bem mais parecido com o dos pássaros. Na tentativa seguinte, o ar saiu apenas soprado através dos lábios, e nas outras que se seguiram também não obteve grandes resultados. Resolveu voltar ao assovio para dentro e conseguiu um som melodioso, embora dotado de pouco volume.

Continuou a persistir, aspirando e soprando e, vez por outra, assoviando um som alto e forte. Estava tão envolvida que não percebia Huiin levantar as orelhas a cada vez que o som agudo e penetrante soava- o cavalo não sabia como responder Aquilo, mas ficou curioso e se encaminhou para ela.

Ayla via Huiin aproximando-se com as orelhas empinadas e um ar intrigado.

- Você não sabia que eu podia imitar os sons dos pássaros, hein Huiin? E nem eu também sabia. Nem desconfiava que podia cantar como um passarinho. Bom, ainda não é igual, mas se eu continuar treinando, acho que vai ficar bem parecido. Vamos ver se consigo outra vez.

Ela aspirou o ar, franziu os lábios e, muito concentrada, deixou sair um assovio longo e volumoso. Huiin mexeu a cabeça e relinchou, empinando-se. Ayla se levantou e abraçou o seu pescoço, dando-se conta, de repente, do quanto o cavalo crescera.

- Você está tão grande, Huiin - Os cavalos crescem tão rápido, já está quase virando uma égua de verdade. Qual seria a sua velocidade agora para correr, Huiin? Vamos, corra junto comigo - falou, dando-lhe uma palmada na garupa e disparando pelo campo.

Huiin no mesmo instante se distanciou, indo na frente, galopando com o corpo todo esticado. Ayla seguia, correndo apenas por prazer. Ela dava o máximo de si e só parou quando já não agüentava mais, ofegante e cambaleando com falta de ar. Ficou observando o cavalo galopar pelo vale e depois virar, fazendo uma curva aberta para voltar trotando. “Gostaria de correr igual a Huiin”, pensou ela. “Nós poderíamos sair correndo juntas por aí. Se eu fosse um cavalo, será que seria mais feliz? Pelo menos não estaria aqui tão só.”

“Mas eu não estou sozinha. Huiin é boa companhia, mesmo que não seja gente. Ela é tudo o que eu tenho e eu sou tudo que ela tem. Mas que bom seria se eu pudesse correr como ela.”

A potranca chegou espumando. Ayla ria vendo-a rolar no meio do capim, batendo com as pernas viradas para cima e grunhindo de felicidade. Quando se levantou, sacudiu a cabeça e foi pastar novamente. Ayla ficou observando-a. “Como seria emocionante correr como um cavalo!”, pensou, voltando em seguida a treinar os seus assovios. Ao ouvir um som mais agudo e penetrante, Huiin levantou a cabeça e saiu trotando outra vez na sua direção. Ayla, feliz por ver Huiin atendendo o seu assovio, deu-lhe um abraço aperta do. Mas o pensamento de correr com a potranca pelo vale não lhe saía da cabeça.

De repente, ocorreu-lhe uma idéia. Urna idéia que jamais lhe teria passa do pela mente se não tivesse convivido durante todo o inverno com o animal e pensado nele como um amigo e um companheiro. Nunca teria levado essa idéia adiante se ainda vivesse com os clãs. Mas cada vez mais agia seguindo os seus impulsos.

“Será que Huiin se importaria? Será que me deixaria?”, perguntava-se. Ela conduziu o cavalo para junto de um tronco e subiu neste. Em seguida, passou os braços ao redor do pescoço de Huiin e levantou uma perna. “Corra comigo, Huiin. Leve-me com você”, pensava, enquanto montava.

A égua, desacostumada a carregar peso em suas costas, abaixou as ore lhas, pondo-se a curvetear nervosa. No entanto, se o peso era inusitado, a mulher não. Os braços de Ayla tinham um efeito calmante sobre ela. Huiin estava a ponto de empinar para jogai fora o peso de seu lombo, quando resolveu tentar se livrar dele irrompendo num galope desenfreado com Ayla agarrada ao seu pescoço.

A potranca, entretanto, já tinha tido a sua dose de exercícios naquele dia. Para cavalo, ela tinha uma vida sedentária. Apesar de pastar, Huiin nunca tivera uma manada para seguir e nem predadores que a pusessem para correr. No entanto, era um animal jovem. Não demorou muito, começou a diminuir a velocidade e parou, ofegante, com a cabeça pendurada.

Ayla desceu escorregando do seu lombo.

- Huiin, foi uma maravilha! - gesticulou, com os olhos brilhando de excitação. Ela levantou o focinho de Huiin, encostando o rosto no nariz do animal e enfiou o pescoço dele debaixo do braço, num gesto de carinho que há muito não fazia. Era um abraço reservado só para ocasiões especiais.

Ela mal se continha com as emoções da cavalgada. Já a idéia em si de correr junto com o cavalo a deixava assombrada. Nunca pudera sonhar que tal coisa fosse possível. Nem ela, nem ninguém.

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