O Vale dos Cavalos

Jean M. Auel · Capítulo 30 de 31

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O Vale dos Cavalos

Capítulo 28

- Acho que Huiin não teria conseguido puxar os bisões ata a caverna se nós não tivéssemos deixado para trás as cabeças dos bichos – disse Ayla. – Foi uma boa idéia – ela e Jondalar se achavam no patamar, retirando o bezerro do jorrão. – HHHá tanta carne! Vai levar muito tempo para cortá-la, O melhor será começar a fazer isto logo.

- A carne pode esperar, Ayla - o riso e o olhar dele comunicavam calo rosas emoções. - Acho que os seus primeiros ritos são mais importantes. Primeiro vou ajudá-la a tirar os arreios de Huiin, depois vou tomar um banho no rio. Estou suado e sujo de sangue.

- Jondalar... - ela hesitava. Sentia-se excitada, mas tímida. - Esses primeiros ritos são como uma cerimônia?

- Sim, são como uma cerimônia.

- Iza ensinou como eu me devo preparar para cerimônias. Há alguma preparação especial para esta?

- Em geral as mulheres mais velhas ajudam as moças a se prepararem. Eu não sei o que elas dizem ou o que fazem. Acho que você deve fazer aquilo que melhor lhe convenha.

- Então vou pegar raízes de saboeiro e me purificar da maneira como lia ensinou. Vou esperar que você primeiro termine o seu banho. Devo ficar sozinha enquanto estou me preparando - falou, enrubescendo e abaixando os olhos.

“Parece uma criança tímida”, pensou ele. “Igual a qualquer mocinha antes de seus primeiros ritos.” Ele estava excitado, ao mesmo tempo que era invadido por uma onda de ternura. Até os preparativos dela eram corretos. Levantou-lhe o queixo e tomou a beijá-la. Depois, com ar decidido, afastou-se.

- Eu também gostaria de ter algumas raízes de saboeiro.

- Vou arrumar para você - falou Ayla. Um sorriso se desenhava no seu rosto enquanto ele caminhava atrás dela, beirando o rio. Depois que Ayla apanhou as raízes de saboeiro e voltou para a caverna, ele caiu dentro da água, sentindo-se bem consigo mesmo, de uma maneira como há muito não lhe acontecia. Esmigalhou as raízes, formando uma espuma farta de sabão, e esfregou o corpo. Então retirou a tira de couro que prendia os cabelos e lavou a cabeça. Areia também servia, mas raízes de saboeiro funcionavam melhor.

Mergulhou na água e nadou subindo o rio até chegar perto das cataratas. De volta à praia, vestiu a tanga e subiu correndo para a caverna. Um pedaço de carne assando na fogueira cheirava deliciosamente. Estava tão relaxado e feliz que nem conseguia acreditar.

- Que bom você estar de volta. Para me purificar direito, preciso de algum tempo e não queria que ficasse muito tarde - ela pegou a gamela onde havia fervido cavalinhas, usadas para lavar os cabelos, e um couro novo para vestir.

- Leve o tempo que quiser - disse Jondalar, beijando-a de leve. Ela já ia começar a descer, mas parou e se voltou na direção dele.

- Eu gosto dessa coisa de boca na boca... beijo.

- Espero que vá gostar também das outras coisas - falou ele, depois de Ayla já ter saído.

Ele andava pela caverna, vendo-a com novos olhos. Examinou o pernil do bisão assando e virou o espeto. Em seguida, reparando numas raízes enroladas com folhas, colocou-as junto das brasas. Perto da fogueira encontrou o chá que ela lhe havia preparado. “Ayla deve ter apanhado essas raízes enquanto eu nadava”, disse para si mesmo.

Ele franziu a testa, olhando para as suas peles do outro lado da fogueira. Subitamente, deliciado, se levantou e as trouxe de volta para o vazio do lado de Ayla. Depois de esticá-las, foi buscar a trouxa que continha as suas ferra mentas e se lembrou da donii que tinha começado a esculpir. Sentou-se sobre a esteira que forrava o chão para as suas peles de dormir e abriu a trouxa de pele de veado.

Resolveu terminar a figura de mulher que começara a esculpir num pedaço de marfim de mamute. Talvez não fosse um grande escultor, mas não lhe parecia direito celebrar uma das mais importantes cerimônias da Mãe sem a presença de uma donii. Saiu da caverna trazendo alguns buris e a peça de mar fim.

Sentou-se no patamar, burlando, talhando, esculpindo, mas via que o marfim não estava adquirindo a forma bojuda e maternal pretendida. O que estava saindo era a figura de uma moça. Os cabelos que havia pensado em reproduzir ao estilo das velhas imagens de donii, tal como o da estatueta que dera de presente - representados por uma série de ranhuras cobrindo o rosto e parte das costas - sugeriam antes tranças. Trai muito apertadas que cobriam toda a cabeça, menos o rosto, deixado à mostra, mas sem feições defini das. Jamais um rosto fora esculpido numa donii. Ninguém suportaria a visão do rosto da Mãe. Ninguém o conhecia. A Mãe era ao mesmo tempo todas e nenhuma mulher.

Ele parou de trabalhar e olhou o rio nas duas direções, esperando vê-la, embora ela tivesse dito que queria estar sozinha. Será que ele lhe poderia dar prazer? Nunca duvidara de si quando o convidavam para atuar nos primeiros ritos nas reuniões de verão, mas as mocinhas lá conheciam os costumes e sabiam o que as aguardava, além de que contavam com as mulheres mais velhas para lhes explicar.

“Será que eu deveria explicar alguma coisa? Não. Você não saberia o que dizer, Jondalar. Mostre simplesmente a ela. Se Ayla não gostar de alguma coisa, logo ela dará a entender. A franqueza é um de seus traços mais encantadores. Nada de dissimulações. É alentador.

“Como será mostrar a dádiva do prazer para uma mulher sem fingimentos? Que não irá reprimir-se e nem fingirá gozos mentirosos?

“Por que seria Ayla diferente de uma outra mulher nos primeiros ritos? Porque, na verdade, ela não se parece com qualquer outra mulher em seus primeiros ritos. Ela já foi aberta com grande sofrimento. E se você, Jondalar, não conseguir superar o trauma dessa terrível iniciação? E se ela não puder usufruir dos prazeres? Se não for capaz de fazê-la sentir? Tinha de encontrar uma maneira que apagasse tudo de sua memória... Se eu pudesse atrair Ayla para mim, se conseguisse vencer a sua resistência e capturar o seu espírito.

“Capturar o seu espírito?”

Ele olhou para a estatueta em sua mão. De repente, a sua cabeça pôs-se a trabalhar rapidamente. Qual a razão de se colocar a figura de um animal nu ma arma ou pintá-lo nos muros sagrados? Não era para estar perto do espírito da Mãe? Para vencer a sua resistência e capturar a sua essência?

“Não seja ridículo, Jondalar. Você não pode capturar o espírito de Ayla dessa maneira. Não seria direito. Nunca alguém pôs um rosto numa donii. A figura humana jamais foi reproduzida... a imagem seria para capturar a essência do espírito. Mas de quem ficaria ele cativo? Ninguém deve manter o espírito de outra pessoa prisioneiro. E se você der a donii para Ayla? Ela teria o seu espírito de volta, não é? Se você o conservasse só por algum tempo e de pois lhe devolvesse... mais tarde, quando...

“Mas se você puser o rosto dela na estatueta, isso não vai transformá-la numa donii? Você já chega quase a acreditar que ela seja uma, com esse seu poder de encantar animais e curar pessoas. Se Ayla for uma donii, talvez ela queira capturar o seu espírito. E isso seria tão mal assim?

“Na verdade, você quer ficar com uma parte do espírito dela, Jondalar. A parte que sempre fica nas mãos daquele que faz a obra. E você quer essa parte, não é?

“Oh, Mãe! Seria isso algo tão terrível? Pôr o rosto dela numa donii?”

Ele se pôs a olhar a figura de marfim que estava esculpindo. Então, resolveu. Apanhou o buril e começou a dar forma a um rosto, um rosto conhecido seu.

Ao terminar, suspendeu a estatueta e vagarosamente girou-a na mão. Um escultor de verdade teria feito melhor, mas não estava mal. Parecia com Ayla. Não propriamente com a sua aparência real, seria antes como era percebida, ou melhor, como ele a percebia. Voltou para a caverna e tentou achar um lugar para colocá-la. A donii devia ficar por perto, mas não queria que Ayla a visse por enquanto. Decidiu enfiá-la numa dobra da trouxa de couro que viu junto da parede próxima à cama de Ayla.

Tornou a sair e foi olhar a vista da ponta do patamar. Por que estaria demorando tanto? Os seus olhos bateram nos dois bisões que se achavam lado a lado no chão do patamar. “Eles podem esperar”, pensou. As lanças e os atiradores estavam encostados contra a parede, perto da entrada. Resolveu levá-los para dentro. Nisso, ouviu o barulho de pedregulhos caindo no chão. Ele se voltou.

Ayla apertou o cinto sobre a sua roupa nova, pendurou o amuleto no pescoço e puxou os cabelos para trás da orelha. Apenas os escovara, pois ainda não se achavam bem secos. Pegou, então, a roupa suja e começou a subir o caminho para a caverna.

Mais ou menos tinha alguma noção do que Jondalar queria dizer com primeiros ritos. Estava comovida por ele ter vontade de fazer e compartilhar de alguma coisa com ela. Não achava que a cerimônia seria de todo mim. Mesmo Broud, depois das primeiras vezes, já não machucava mais. Se o sinal dos homens era para as mulheres que gostavam, será que isso significava que Jondalar começava a interessar-se por ela?

Ao chegar no patamar, ela foi interrompida em seus pensamentos por qualquer coisa fulva passando rapidamente diante de seus olhos.

- Para trás, Ayla - gritou Jondalar. - Para trás! É um leão da caverna!

Jondalar, na boca da entrada, segurava uma lança, pronto para atirar no imenso leão que estava agachado, em posição de saltar, e com rosnados baixos de garganta.

- Não! - Não, Jondalar! - gritou Ayla, correndo e se colocando entre os dois.

- Ayla, por favor! Oh, Mãe, não permita isso! - berrou Jondalar, quando ela se pôs na frente dele, barrando o ataque do leão.

Ayla fez um gesto incisivo de comando e gritou na língua gutural dos clãs:

- Pare!

A fera colossal desviou o seu salto e veio aterrissar nos pés de Ayla, pondo-se, em seguida, a esfregar a sua fantástica cabeçorra na perna dela. Jondalar estava completamente paralisado.

- Neném! Oh, Neném! Você voltou - dizia Ayla por gestos. Então, sem mostrar qualquer hesitação, sem a menor sombra de medo, passou os braços ao redor do gigantesco pescoço.

Neném a jogou no chão, da maneira mais delicada que pôde. Jondalar observava, de boca aberta, o maior leão que já vira, rodear a mulher com as suas patas dianteiras, no que ele imaginava fosse um abraço leonino. Com a sua língua áspera, a fera pôs-se a lamber as lágrimas salgadas do rosto de Ayla, começando já a ficar esfolado.

- Chega, Neném, ou eu vou acabar sem cara - ela se sentou e procurou pelos lugares atrás das orelhas e ao redor do pescoço, escondido pela juba, onde ele adorava ser coçado. Depois se virou de costas e, soltando grunhidos de satisfação, ofereceu a garganta às carícias de Ayla. - Acho que nunca mais vou voltar a vê-lo, Neném - falou ela, quando o leão outra vez virou de barriga para baixo. Ayla não se lembrava dele tão grande. Parecia um pouquinho mais magro, mas saudável. Também estava com cicatrizes novas. Devia estar lutando pelo seu território e, certamente, vencendo. Neném a enchia de orgulho.

O leão, novamente voltando a reparar na figura de Jondalar, rosnou.

- Não rosne para ele! Esse é o homem que você trouxe para mim. Você tem a sua companheira... a essas alturas já deve ter até várias.

Neném se levantou, deu as costas para Jondalar e se encaminhou para onde estavam os bisões.

- Você se importa se eu der um para ele? - perguntou ela, dirigindo-se a Jondalar. - Temos carne demais.

Jondalar continuava ainda atônito, com a lança na mão e de pé na entrada da caverna. Quando foi responder, a sua voz saiu como um guincho, antes de voltar ao normal.

- Importar? Está perguntando se eu me importo? Dê os dois. Dê tudo que ele quiser.

- Neném não precisa dos dois - ela dizia o nome numa língua que Jondalar não conhecia, mas imaginava que fosse o nome do leão. - Não, Neném! A novilha não! - ordenou Ayla por gestos e sons que deixaram Jondalar em dúvida se realmente aquilo se tratava de uma língua. De repente ele soltou uma exclamação. Ayla estava tirando um dos bisões da boca do leão e empurrando-o na direção do outro. Neném segurou, com as suas imensas garras, o bezerro pelo pescoço sem cabeça e saiu arrastando-o pelo patamar. Aferrado à presa, começou a descer pelo seu muito conhecido caminho.

- Agora mesmo eu volto, Jondalar - disse Ayla. - Huiin e Campeão podem estar lá embaixo e não quero que Neném assuste o potro.

Jondalar ficou observando Ayla seguindo o leão, até que ela sumisse de sua vista na curva do penhasco. Depois reapareceu no vale, caminhando despreocupadamente ao lado do leão que arrastava o bisão sob o seu corpo.

Ao chegarem no bloco de pedra, Ayla parou e tomou a abraçar o animal. Neném soltou o bisão. Do alto do patamar, Jondalar, abanando a cabeça, sem acreditar nos seus olhos, viu Ayla montar no lombo da fera descomunal, estender os braços e segurar a juba dourada. Então, colada ao corpo do animal e com a cabeleira esvoaçando para trás, disparou num galope desenfreado pelo vale. Depois Neném foi diminuindo os passos e voltou ao ponto de partida. Ali, pegou outra vez o bisão e foi embora com ele arrastado por entre as per nas. Ayla ficou parada, seguindo-o com os olhos. Bem ao longe, no meio da campina, o leão mais uma vez largou o bisão e começou a fazer uma série de grunhidos - bem conhecidos de Ayla -que foram crescendo e transformando-se em estrondosos rugidos, tão fortes que os ossos de Jondalar chegavam a estremecer.

Depois que o leão se foi, ele respirou fundo e, com as pernas bambas, procurou uma parede para se encostar. Estava assombrado e um pouco temeroso também. Que mulher era aquela? Que espécie de mágicas eram as suas? Pássaros ainda vá lá. Até cavalos ainda passava. Mas um leão da caverna? O maior que ele já vira em toda a sua vida.

Será que ela era... uma donii? Quem, a não ser a Mãe, poderia dobrar os animais à sua vontade? E o que dizer dos seus poderes de curar? Ou de sua capacidade extraordinária para aprender a falar? Tinha, é verdade, um sotaque diferente, mas já havia aprendido quase tudo quanto ele sabia de mamutoi e também algumas palavras em sharamudoi. Seria a própria Mãe que estava ali na forma de Ayla?

Ele lhe ouviu os passos subindo pelo caminho e teve um estremecimento de medo. Se Ayla chegasse lá naquele momento e declarasse ser uma encarnação da Mãe, ele teria acreditado piamente. No entanto o que viu foi uma mulher descabelada e com lágrimas escorrendo pelo rosto.

- O que aconteceu? - perguntou. Os seus medos fantasiosos logo sumiram, cedendo lugar à ternura.

- Por que tenho de perder todos os meus filhinhos? - falou Ayla, chorando.

- Os seus filhinhos? - disse Jondalar, empalidecendo. - Aquele leão era seu filho? - muito assustado, lembrou-se de quando lhe parecera ter escutado o choro da Mãe, a Mãe de todos os seres da Terra.

- Sim- Primeiro foi Durc, e agora Neném.

- É esse o nome do leão?

- É. Significa bebezinho - respondeu, procurando se fazer entender.

- Bebezinho?! Esse leão descomunal, o maior leão que já vi na minha vida.

- Eu sei - um sorriso de orgulho maternal brilhou em meio às lágrimas. - Sempre me preocupei para que houvesse bastante comida para ele. Neném não foi criado no meio de outros leões. Quando eu o achei, ele era pequenininho, por isso eu comecei a chamá-lo de Neném e assim foi ficando porque eu não tive tempo de pensar num outro nome para lhe dar.

- Você achou o leão? - perguntou Jondalar ainda hesitante.

- Os outros leões abandonaram o pobrezinho para morrer. Acho que foi pisado por um veado num dia em que eu estava espantando uma manada na direção de minha armadilha. Brun, às vezes, me deixava levar bichos para dentro da caverna quando eles estavam feridos e precisando ser tratados. Mas os carnívoros ele nunca permitiu. Eu não pretendia trazer o leão, Só fiz isso quando vi que as hienas estavam querendo apanhá-lo. Então peguei a minha funda, espantando as desgraçadas, e trouxe Neném para cá.

Com um olhar distante e sorrindo ligeiramente, ela prosseguiu:

- Neném era tão engraçado quando pequeno... sempre estava me fazendo rir. Mas eu gastava um tempo enorme caçando para ele. Foi só no segundo inverno que começamos a caçar juntos. Nós três: eu, ele e Huiin. Eu não via Neném desde... - subitamente ela se lembrou do dia em que o vira pela última vez. - Oh, Jondalar, eu sinto muito. Neném é o leão que matou o seu irmão. Mas se tivesse sido um outro, eu nunca teria conseguido tirá-lo de lá.

- Você é a donii! - exclamou Jondalar. - Foi você quem apareceu no meu sonho! Bem que achava ter visto uma donii chegando para me conduzir ao outro mundo e afastando de mim um leão.

- Você deve ter recobrado um pouquinho os sentidos neste momento, Jondalar. Mas depois, quando eu fui removê-lo, você desmaiou, provavelmente de dor. Eu tinha de tirá-lo de lá o mais depressa possível. Neném, às vezes, é um pouco burro, mas não faz por mal. E uma coisa que não pode evitar. Ele não iria machucar-me, mas a leoa podia aparecer a qualquer momento.

Jondalar abanava a cabeça, assombrado e incrédulo.

- Você realmente caçava com um leão?

- Era o único jeito que eu tinha para arrumar comida para ele. No princípio, Neném não conseguia matar sozinho os animais. Ele só os derrubava e eu chegava montada em Huiin para matar a caça com a minha lança. Não sabia que se podia atirar uma lança. Depois que Neném ficou maior, passou a matar os animais. Quando eu queria guardar o couro ou ficar com parte da carne, antes que ele começasse a comer, eu pegava para mim.

- Como fez agora com o bisão. Você não sabe que é perigoso tirar carne da boca de uma fera? Já vi leões matando as suas próprias crias por causa disto!

- Eu também. Mas Neném é diferente, Jondalar. Ele não foi criado junto de outros leões. Cresceu aqui comigo e Huiin. Nós caçávamos juntos... ele foi acostumado a dividir tudo comigo. Mas estou feliz por ter encontrado uma leoa, e assim poderá levar a vida de um verdadeiro leão. Huiin passou algum tempo vivendo com outros cavalos, mas ela não estava feliz e voltou.

Ayla abanou a cabeça e abaixou os olhos.

- Isso não é verdade. Eu é que gostaria de acreditar que fosse. Acho que Huiin estava feliz com a sua manada e com o seu garanhão, mas eu me sentia triste. Fico tão feliz por ela ter querido voltar depois que o seu garanhão morreu.

Ayla pegou a sua roupa suja e se encaminhou para a caverna. Jondalar, reparando que ainda empunhava a lança, encostou-a na parede e foi atrás dela. Ayla estava pensativa. A volta de Neném havia despertado muitas lembranças. Ela olhou para o pernil do bisão assando, girou o espeto e atiçou as brasas. Em seguida, apanhou o odre, feito do estômago de um onagro, que estava pendurado num poste, despejou água numa cesta de cozinhar e botou algumas pedras para esquentar na fogueira.

Jondalar, ainda atordoado com a visita de Neném, observava-a. Havia si do assustador ver aquele imenso leão saltando para o patamar, mas muito mais ainda a maneira como Ayla dominou a gigantesca fera. Se ele contasse, ninguém lhe acreditaria.

Olhando-a, percebia que havia qualquer coisa diferente nela. Eram os cabelos soltos. Lembrou-se da primeira vez que a vira assim, com a cabeleira dourada brilhando ao sol. Ela vinha da praia e ele a viu por inteiro, em toda a sua nudez, com os cabelos soltos e na magnificência de seu corpo.

- ...foi bom ter encontrado Neném outra vez. Esses bisões deviam estar em seu território. Ele certamente sentiu o cheiro do sangue e pegou o rastro deles. Neném ficou surpreso de vê-lo aqui. Não sei se ele ainda se lembrava de você. Como foi apanhado naquela garganta sem saída?

- Han? Desculpe, o que você estava dizendo?

- Estava perguntando como você e o seu irmão foram apanhados naquela garganta com Neném? - falou olhando para ele. Ela ficou vermelha ao dar com os luminosos olhos cor de violeta que a fitavam atentamente.

Com esforço, Jondalar prestou atenção ao que Ayla lhe perguntava.

- Nós estávamos à espreita de um veado que uma leoa também estava de olho. Quando Thonolan conseguiu matá-lo, ela pegou a caça e Thonolan foi atrás. Eu lhe disse que deixasse a leoa ficar com o veado, mas ele não me quis ouvir. Nós vimos quando ela entrou e saiu da garganta. Thonolan achou que podia recuperar a lança e um bocado da carne antes que a leoa voltasse. Mas o leão que estava lá não pensava a mesma coisa.

Jondalar fechou os olhos por um instante.

- Não posso culpá-lo. Era estúpido ir atrás daquela leoa, mas eu não consegui impedi-lo. Thonolan sempre foi imprudente, mas depois da morte de Jetamio já não era só imprudência. Ele queria morrer. Hoje já nem sei se deveria ter ido atrás dele.

Vendo que Jondalar ainda sentia a morte do irmão, mudou de assunto.

- Não vi Huiin no vale. Ela deve estar com Campeão nas estepes. Nos últimos tempos tem ido sempre para lá. A maneira como você ajeitou as correias ao redor de Campeão funcionou muito bem, mas talvez nem fosse preciso mantê-lo atado a Huiin.

- A corda estava muito comprida. Achei que pudesse ficar presa em alguma planta, mas serviu para segurar os dois. Isso pode ser feito novamente nas outras vezes que você quiser que eles fiquem só num lugar. Pelo menos com Campeão, porque Huiin sempre fica onde você quer, não é?

- Acho que sim. Mas é porque também ela quer. Huiin conhece os meus desejos. Já com Neném, eu vou para onde me quiser levar... mas com ele, eu vou voando - os seus olhos brilhavam com a lembrança do último passeio. Cavalgar um leão era sempre emocionante.

Jondalar lembrou-se da figura dela, agarrada ao lombo do animal e com os cabelos esvoaçando, mais dourados que a juba fulva do lego. Chegara a ter medo dela, mas um medo excitante como ela: selvagem, bela e livre.

- Você é uma mulher excitante, Ayla - falou ele. Os olhos lhe confirmavam as palavras.

- Excitante? Excitante é... o atirador de lanças e montar em Huiin ou em Neném, não é isso? - disse, corando.

- É. E assim é você para mim, Ayla. Excitante e linda.

- Jondalar, você está brincando. O que é lindo é uma flor ou o céu quando o sol começa a cair sobre a borda da terra. Eu não sou linda.

- Uma mulher não pode ser linda?

Ela virou o rosto, fugindo da intensidade do seu olhar.

- Eu... eu não sei. Mas não sou linda. Sou... grande e feia.

Jondalar levantou-se, e a puxou pela mão para que se levantasse também.

- Agora me diga. Quem é maior?

Tão junto dela, ele estava irresistível. Novamente havia feito a barba. Só de muito perto se via os pêlos cortados rentes à pele. Ela tinha vontade de tocar naquele rosto que conseguia ser sedoso e áspero ao mesmo tempo. Os olhos dele pareciam enxergá-la por dentro.

- Você - sussurrou.

- Então, não é tão grande assim, é? E você também não é feia, Ayla -disse com um sorriso que apenas os olhos revelavam. - Chega a ser engraça do: a mulher mais linda que já vi na vida pensa que é feia.

Estava tão perdida naqueles olhos que a mantinham prisioneira e tão entregue às emoções de seu corpo, que ela ouvia as palavras, mas não as entendia.

Jondalar inclinou-se para beijá-la e a envolveu nos braços, apertando-a contra o seu corpo.

- Jondalar - falou, suspirando - eu gosto disso... de boca na boca.

- Beijo, Ayla. Acho que chegou o momento - resolveu, tomando-lhe a mão e a conduzindo na direção das peles de dormir.

- Momento?

- Primeiros ritos.

Os dois se sentaram sobre as peles.

- Que espécie de cerimônia é esta?

- É a cerimônia que toma a moça numa mulher. Não lhe posso dizer muita coisa sobre isso. Em geral, as mulheres mais velhas contam para as mocinhas o que vai acontecer com elas. Falam, por exemplo, que os primeiros ritos são sempre dolorosos, mas que é uma coisa necessária para abrir a passagem que fará dela uma mulher. Um homem é escolhido para essa ocasião. Os homens gostam de ser escolhidos, mas alguns ficam com medo.

- Medo de quê?

- Medo de que possam machucar a mulher, medo de que sejam desastrados, medo de que não sejam capazes e medo de que a sua virilidade não se levante.

- É assim que você chama o órgão do homem? Há tantos nomes para isso.

- É verdade, há muitos nomes - falou ele, pensando numa série, alguns vulgares, outros pitorescos.

- Qual o verdadeiro nome?

- Virilidade, acho eu. Fazedor de mulher é um outro - disse, depois de pensar um momento.

- O que acontece se a virilidade não se levanta?

- O homem será substituído por um outro.. . é muito embaraçoso. Mas quase todos desejam ser escolhidos para a primeira vez de uma mulher.

- Você gosta de ser escolhido?

- Gosto.

- Porquê?

Jondalar sorriu, sem saber se todas aquelas perguntas eram por simples curiosidade ou se porque ela estava nervosa.

- Acho que é porque gosto disso. A primeira vez de uma mulher é algo muito especial para mim.

- Jondalar, como podemos ter uma cerimônia de primeiros ritos, se essa não é a minha primeira vez e eu já estou aberta?

- Eu sei. Mas os primeiros ritos não se limitam apenas a abrir a mulher.

- Não entendo. O que mais pode haver?

Ele sorriu e chegou para mais perto, pondo a boca sobre a dela. Ayla inclinou o corpo para junto do dele, mas assustou-se. Jondalar tinha a boca aberta, procurando introduzir a língua dele na sua boca. Ela recuou.

- O que está fazendo?

- Você não gosta? - ele tinha a testa franzida, preocupado.

- Não sei.

- Quer tentar outra vez para ver? “Vá com calma”, disse Jondalar para si mesmo. “Não se apresse.” Por que você não se deita e relaxa?

Ele, delicadamente, puxou-a para as peles e se esticou ao seu lado, apoiado sobre o cotovelo. Por alguns instantes, ficou olhando-a, depois voltou a pôr a boca sobre a dela. Esperava que a tensão desaparecesse. Então começou a acariciar-lhe os lábios com a língua, num roçar leve e tremeluzente. Ao suspender a cabeça, viu-a sorrindo de olhos fechados. Ela esticou o pescoço que rendo alcançá-lo. Ele a beijou com mais pressão, de boca aberta. Quando a sua língua procurou penetrar, lhe encontrou a boca aberta, pronta para recebê-la

- Sim, acho que eu gosto.

Jondalar sorriu. Ayla analisava, provava, experimentava. Ele se sentia feliz por ver que estava passando pela prova.

- E agora? - perguntou ela.

- Mais da mesma coisa?

- Sim.

Ele tomou a beijá-la, docemente explorando os lábios, o céu da boca e por baixo da língua. Em seguida, percorreu o contorno do rosto, encontrando a orelha, bafejando-a com o seu hálito quente e mordiscando-lhe o lóbulo. Depois de explorar-lhe a garganta com a língua e cobri-la de beijos, voltou novamente à boca.

- O que é isso que me faz tremer, como se eu estivesse com febre? Não de doença, é como... um arrepio delicioso.

- Neste momento, você não tem de ser uma curandeira. Não é doença.- ele fez uma pausa. - Se está com calor, por que não abre a roupa, Ayla?

- Não é preciso. Não estou com tanto calor assim.

- Você se importaria se eu abrisse para você?

- Por quê?

- Porque eu gostaria - ele voltou a beijá-la, enquanto procurava desfazer o nó da correia que fechava a roupa dela. Não teve sucesso. Estava certo de que este detalhe iria render muita conversa.

- Eu abro - murmurou ela, quando parou de beijá-la. Rápido, Ayla desatou o nó e arqueou o corpo para se desvencilhar da correia. A roupa caiu para os lados. Jondalar perdeu a respiração.

- Oh, mulher! - era uma voz rouca, impregnada de desejos. Ele sentiu que a sua virilidade se estirava. - Ayla... oh, Doni, que mulher! - Com fúria, beijou-lhe a boca entreaberta, enterrando, em seguida, o rosto no seu pescoço e lhe chupando ardorosamente a pele. Ofegante, afastou-se, vendo a marca vermelha que fizera. Então respirou fundo, procurando controlar-se.

- Alguma coisa errada? - perguntou Ayla, com a cara franzida.

- Não. Apenas o meu desejo por você é muito grande e eu quem fazer as coisas direito, mas não sei se vou conseguir. Você é... tão bonita, tão mulher.

O rosto de Ayla se abriu num sorriso.

- Tudo que você fizer será direito, Jondalar.

Ele beijou-a com calma, desejando mais do que nunca lhe dar prazer. Acariciou-lhe o lado do corpo, sentindo o seio rígido e farto, a cava da cintura, o quadril fazendo uma suave curva e a coxa forte com a musculatura retesada. Ela tremia sob os toques acariciantes. A mão dele subiu, penteando os anéis dourados do púbis, roçando pelo estômago e encontrando o seio intumescido. O mamilo endureceu sob a sua palma. Depois de beijar a minúscula cicatriz na base da garganta, trouxe a boca para o outro seio e lhe sugou o bico.

- É diferente quando um bebê faz isso - falou ela.

O clima fora rompido. Ele se sentou, achando graça.

- Não se espera que você analise tudo isso, Ayla.

- Bom, é que quando um bebê suga, a sensação é diferente e eu não entendo por quê - disse como quem se põe um pouco na defensiva.

- Você não gosta? Não farei se não quiser.

- Eu não disse que não gosto. Quando um bebê chupa é bom e também é bom quando é você quem faz, só que não é a mesma coisa. Com uni bebê não acontecem as sensações que você provoca dentro de mim.

- Aí está porque o homem gosta de fazer isso. Para dar à mulher, e a ele também, essas sensações. Por isso quero acariciá-la, para dar prazer a você e a mim. Essa é a dádiva do prazer que a Mãe concede aos seus filhos. Ela nos criou para conhecermos os prazeres. Quando aceitamos a sua dádiva, estamos lhe prestando uma homenagem. Você permite que eu lhe dê prazer, Ayla?

Ele olhava para ela. Os cabelos dourados espalhavam-se sobre as peles, emoldurando-lhe o rosto. Os olhos dilatados, escuros, aveludados, brilhando com as chamas acesas em seu interior, transbordavam mil desejos. Os lábios tremiam. Ela os entreabriu para responder, mas fez apenas um gesto com a cabeça, condescendendo.

Ele beijou um e depois o outro olho. Havia unia lágrima. Com a ponta da língua provou-lhe o gosto salgado. Ela abriu os olhos e sorriu. Ele pousou um beijo na ponta do nariz, na boca, e um em cada seio. Então levantou-se.

Ayla o viu caminhar para a fogueira, tirar o espeto do fogo e afastar das brasas as raízes enroladas em folhas. Ela esperava. Não pensava em nada, apenas se via na expectativa. De quê? Não o sabia. Ele lhe dera algo que jamais imaginou o seu corpo ser capaz de sentir. No entanto, havia também desperta do o desejo de qualquer coisa indizível.

Jondalar encheu uma cuia com água e trouxe para perto das peles.

- Eu não quero que nada nos interrompa. Imaginei que talvez você quisesse um pouco de água.

Ela recusou com a cabeça. Ele tomou um gole, botou a cuia de lado, desatou o cordão que lhe prendia a tanga e ficou olhando-a com a sua prodigiosa virilidade em plena ereção. Nos olhos dela havia apenas desejo. Nenhuma desconfiança, nada do medo que muitas vezes o tamanho de seu órgão inspirava às mocinhas - e também a outras não tão mocinhas quando o viam pela primeira vez.

Ele se deitou do seu lado, arregalando os olhos com a visão dela. A cabeleira sedosa, farta, exuberante. Os olhos desejosos e expectantes. O corpo magnífico, toda ela linda, esperando pelas suas carícias, esperando que ele despertasse as sensações que sabia estar lá. Queria que demorasse, que fosse lento esse primeiro despertar da consciência. Nunca o desabrochar de uma mocinha em seus primeiros ritos o havia deixado tão excitado como agora. Ayla não sabia pelo que esperava. Jamais alguém lhe falara com detalhes o que estava por acontecer. Até então, não passava de uma mulher de quem se tinha abusado.

“Oh, Doni, ajude-me a fazer a coisa certa”, pensou. Por um momento sentia-se como se tivesse diante de si uma terrível empreitada e não as deliciosas alegrias do prazer.

Ayla deitava-se imóvel, sem mexer um músculo, mas tremente. Era como se esperasse há séculos por uma coisa que não sabia como designar, mas que Jondalar lhe podia dar. Bastava o olhar dele para se sentir tocada por dentro. Ela não sabia explicar que efeitos eram aqueles de pulsações, latejamentos que as mãos e língua de Jondalar provocavam, mas ansiava por tê-los, com uma exigência cada vez maior. Sentia-se incompleta, ainda por ser terminada. Somente depois que ele a fizera provar, soube de sua fome e, uma vez despertada, tinha de ser satisfeita.

Depois dos olhos estarem bem saciados da figura de Ayla, ele os fechou, pondo-se novamente a beijá-la. Ela tinha a boca entreaberta, aguardando. Atraiu para o seu interior a língua irrequieta dele e, hesitante, testou a sua. Jondalar ficou quieto, e sorriu encorajando-a. Levou aos lábios uma madeixa grossa e lustrosa e, em seguida, esfregou o seu rosto contra a cabeleira espessa e macia. Beijou-a na testa, nas faces, nos olhos, querendo conhecê-la por inteiro.

Achou-lhe a orelha, e o seu hálito quente mais uma vez fez-lhe percorrer pelo corpo os arrepios prazerosos. Mordiscou o lóbulo e o chupou. Achou-lhe os sensíveis nervos do pescoço e da garganta, através deles excitando as partes internas ainda não tocadas. Suas mãos grandes, sensíveis e expressivas, exploravam sentindo a textura dos cabelos, empalmando o rosto, percorrendo os contornos do ombro e do braço. Quando lhe tocou a mão, ele a trouxe à boca. Beijou a palma, acariciou cada dedo e explorou a parte de dentro do braço.

Os olhos de Ayla estavam fechados, estremencendo-se ao ritmo de suas sensações. Mais uma vez os beijos calorosos dele encontraram a cicatriz na garganta, para depois descerem pelo rego entre os selos e se dirigirem à parte inferior de um deles. Com a língua, ele se pôs a rodeá-lo com círculos cada vez menores, até que lhe sentiu a pele eriçar quando a aréola foi tocada. Ao sorver-lhe o mamilo, Ayla arfou pesadamente e ele sentiu um jato quente nas suas virilhas palpitantes.

O movimento da língua se rivalizava com o da mão que acariciava o outro seio, com o mamilo duro e ereto sob os seus dedos. Ele chupava mansamente, mas vendo-a arquear-se para vir ao seu encontro, passou a sugá-la mais intensamente. Ela estava ofegante, gemendo baixinho. O ritmo dele se fazia em sintonia com as exigências dela. Ele não estava muito certo se conseguiria agüentar-se. Parou e olhou-a. Os olhos estavam fechados e a boca aberta.

Teve vontade de possuí-la toda, naquele instante mesmo. Beijou-lhe a boca, trazendo a sua língua para junto da dele. Ao soltá-la, ela, seguindo-lhe o exemplo, fez o mesmo, sentindo o calor de seu hálito. Ele procurou novamente pela garganta e riscou o outro seio com círculos úmidos até alcançar o mamilo. Ela levantou o corpo pedindo e estremeceu ao se sentir arrebatadamente sorvida.

A sua mão acariciou a barriga, os quadris, a perna, depois procurou pela parte de dentro da coxa. Os músculos encresparam-se tensos, mas logo ela se parou as pernas. Ao empalmar o púbis de caracóis fulvos, ele sentiu uma súbita umidade morna. A resposta se fez sentir numa contração da virilha que o pegou de surpresa. Ele ficou imóvel, lutando para controlar-se, já quase sem agüentar-se, quando sentiu um novo jato de umidade.

Sua boca desprendeu-se do mamilo para vir circular ao redor da barriga, do umbigo. Antes de descer para o púbis, ele olhou-a. Ayla arfava, gemendo baixinho, com as costas arqueadas e os músculos distendidos, aguardando ansiosamente. Ela estava pronta. Ele beijou a parte de cima do púbis, sentindo-lhe a penugem crespa e, lentamente, foi abaixando. Ayla tremia. De repente soltou um grito e pulou, sentindo a língua dele no alto da estreita fenda de seu púbis. Depois, geme a deitar-se.

A sua virilidade latejava, ansiosa, impaciente, quando ele mudou de posição para se pôr entre as pernas dela. Abriu-lhe as dobras e a provou num longo e amoroso beijo. Ayla não podia se escutar, perdida num mar de sensações deliciosas que lhe percorriam o corpo, enquanto Jondalar explorava cada uma de suas reentrâncias e saliências.

Ele se concentrava nela para manter sob controle as suas imperiosas exigências. O nódulo lá estava: pequenino, ereto. O centro dos prazeres. Ele o excitou com movimentos firmes e rápidos. Temia ter chegado aos limites de sua capacidade para controlar-se, quando a viu, em meio a arfadas e contorções, atingir o êxtase nunca experimentado. Então penetrou-a com dois dedos, fazendo pressão no interior da passagem úmida e quente.

Subitamente Ayla arqueou o corpo e gritou. Novamente ele lhe provou o gosto. As mãos dela abriam e fechavam convulsivamente, acenando em movimentos inconscientes que acompanhavam o ritmo da respiração ofegante.

- Jondalar... Oh, Jondalar, eu preciso... preciso de você.. . preciso de uma coisa.

Ele estava de joelhos, com os dentes cerrados, procurando conter-se e penetrar cuidadosamente.

- Estou tentando... não machucá-la - falou ele penosamente.

Mas... você não me machuca.

Era verdade! Aquela, de fato, não era a primeira vez de Ayla. Quando ela levantou o corpo para recebê-lo, ele se permitiu entrar. Nenhuma barreira. Penetrou mais um pouco, esperando achar algum empecilho, mas contrariamente se sentiu atraído para o interior, para as profundezas úmidas e regurgitantes que se iam abrindo e envolvendo-o até que, para sua surpresa, viu que ela o absorvia integralmente. Ele se afastou e tomou a mergulhar. Ela abraçava-o com as pernas, puxando-o. Quando ele retirou-se para penetrar de novo, percebeu que a passagem deliciosamente palpitante acariciava o seu membro em toda a sua extensão. Era fantástico demais. Com total abandono, ele bombeava seguidamente, por uma vez na vida, entregando-se à satisfação integral de seus desejos.

- Ayla. - Ayla! Ayla! - gritava.

A tensão caminhava para o paroxismo. Ela a sentia em suas virilhas. Mais uma vez retirou-se. Ayla, com todos os seus nervos e músculos retesados, alçou o corpo para absorvê-lo. Ele se lançou a ela, entregando-se à volúpia deter a virilidade completamente enterrada nas cálidas e anelantes profundidades do corpo dela. Os dois se deram juntos. Ayla gritou-lhe o nome e Jondalar a satisfez até esgotar a última gota da essência de seu prazer.

Durante um instante eterno, no auge do indizível prazer que sacudia-lhes os corpos, os gritos baixos e cavos dele se puseram em harmonia com o seu nome soluçado em meio à respiração arquejante. Ele, então, perfeitamente relaxado, deixou-se desfalecer por cinta dela.

Por longo momento, apenas a respiração dos dois era ouvida. Não podiam mover-se. Haviam se dado integralmente, num ato de amor que envolvera cada fibra de seus seres. Passado algum tempo, ainda não queriam sair de seus lugares, n queriam terminar, embora soubessem que estava acabado. Fora o despertar de Ayla. Ela nunca havia conhecido os prazeres que um homem tinha para oferecer-lhe. E acordá-la para o amor seria o prazer de Jondalar, mas Ayla lhe havia reservado uma inesperada surpresa: urna excitação muito maior do que ele imaginara.

Poucas mulheres possuíam profundidade para absorvê-lo por inteiro. Ele tinha aprendido a controlar a penetração, adequando-a à mulher, e o fazia com perícia e sensibilidade. Nunca mais se repetiria a mesma coisa: gozar as emoções dos primeiros ritos e ao mesmo tempo ter a rara e gloriosa satisfação de uma completa penetração. Era inacreditável.

Ele sempre punha grande empenho na celebração dos primeiros ritos. Qualquer coisa nesta cerimônia fazia despertar nele os seus mais belos senti mentos. Os cuidados que tomava e as preocupações que tinha eram sinceros. Os seus esforços se faziam no sentido de agradar à mulher e o seu prazer estava tanto no contentamento dela como no dele. Com Ayla, entretanto, havia tido prazer, uma satisfação que ia além de suas mais loucas fantasias. Nunca se sentira tão perfeitamente realizado. Por um momento pareceu que os dois se tornaram numa só pessoa.

- Devo estar pesando sobre você - falou ele, afastando-se um pouco para se apoiar sobre o cotovelo.

- Não - disse ela em voz baixa - você não está nem uni pouco pesado. Acho que gostaria que nunca mais se levantasse daqui.

Ele se curvou para lhe fazer uma carícia na orelha e beija-la no pescoço.

- Nem eu gostaria de me levantar, mas acho que vou precisar - sem pressa, ele desvencilhou o seu corpo do dela, para ficar deitado ao seu lado, abraçando-a.

Ayla se via numa felicidade de sonho, completamente relaxada e com os sentidos todos voltados para Jondalar: o braço que a rodeava, os dedos levemente acariciantes, a musculatura do peito que se movia junto à sua face, as batidas do coração - que talvez fossem até as dela - e o odor quente e almiscarado da pele dele, misturando-se ao cheiro de seus prazeres. Nunca se vira tão mimada e acarinhada.

- Jondalar - falou, depois de algum tempo - como você sabe o que deve fazer? Nunca soube que houvesse estas sensações dentro de mim. Como conseguiu fazer isto?

- Foi uma pessoa que me ensinou. Ela me mostrou como se deve fazer para dar a uma mulher aquilo que ela precisa.

- Quem?

Ayla percebeu os seus músculos retesarem e uma mudança no tom da voz.

- Normalmente são mulheres mais velhas e experientes que ensinam estas coisas aos rapazes.

- Nos primeiros ritos deles?

- Não exatamente. Ë mais informal. Quando um rapazinho começa a ficar nervoso e indócil, em geral há uma mulher por perto que percebe e se dispõe ajudá-lo. Mas não é uma cerimônia.

- Nos clãs, quando um menino mata o seu primeiro animal grande, nu ma caçada de verdade, ele se toma homem e os seus ritos de passagem são então celebrados.

- Caçar para nós é importante, mas há homens que nunca caçaram em suas vidas. Eles têm outras ocupações. Eu, por exemplo, só caço porque gosto. Poderia fabricar ferramentas e negociá-las em troca de carne e couro. Mas a maioria dos homens caçam e o primeiro animal que o garoto mata é sempre um acontecimento especial.

Jondalar passou a ter um tom evocativo em sua voz.

- Não existe propriamente uma cerimônia, mas o animal que o rapazinho matou é distribuído por todos os membros da Caverna. Ele mesmo não come nada, mas quando passa, as pessoas comentam umas com as outras, de modo que ele possa ouvir: que esplêndido animal, que carne mais macia e deliciosa! Os homens então começam a convidá-lo para se juntar às suas conversas e brincadeiras, e as mulheres a tratá-lo como homem e não mais como criança. Elas lhe dizem piadas simpáticas e, se for da vontade dele e se já estiver suficientemente desenvolvido, a maioria das mulheres se põe à sua disposição. Na verdade, esse primeiro animal faz com que o garoto comece a se sentir mais homem.

- Mas não há nenhuma cerimônia da passagem?

- Todas as vezes que um homem faz uma mulher, quando ele abre a sua passagem e deixa fluir dentro dela a força vital, ele está reafirmando a sua condição de homem. Por isso o seu instrumento, a virilidade, é chamada faze dor de mulher.

- Talvez ele não esteja só fazendo uma mulher, mas também um bebê.

- Ayla, é a Grande Mãe Terra quem abençoa a mulher com filhos. E ela quem põe a criança na casa de um homem. Doni criou os homens para que eles ajudem e sustentem as mulheres. Elas precisam disso quando estão pesadas com os seus filhos na barriga e também depois quando vão ter de dar de mamar e cuidar deles, também forma criou os homens para transformar as moças em mulheres. Eu não sei lhe explicar direito. Zelandonii talvez pudesse.

“É possível que Jondalar tenha razão”, pensou ela, aconchegando-se a ele. “Mas se não tiver, talvez um bebê esteja, neste momento, se formando dentro de mim.” Ela sorriu. “Um bebê como Durc para eu ninar, cuidar, dar de mamar... um bebê que teria uma parte de Jondalar.”

“Mas, quando ele for embora, quem me irá ajudar?”, perguntou-se, com uma pontada de angústia. Lembrou-se de sua gravidez anterior, do mal que passou e de sua luta contra a morte durante o parto. “Se não fosse Iza, não estaria viva. E mesmo que eu desse jeito de ter um bebê sozinha, como iria conseguir caçar e tomar conta dele ao mesmo tempo? Se eu me ferisse.., ou até morresse, quem iria cuidar do meu bebê? Ele morreria sozinho.”

“Não. Não posso ter outro bebê agora! E se ele já tiver sido começado? O que vou fazer? O remédio de Iza! Há um que é feito de tanásia e outro de visco. Não, visco não serve, Só cresce nos pés de carvalho e aqui não há pés de carvalho. Mas há muitas outras plantas que servem. Vou ter de pensar nisso. Pode ser perigoso, mas é melhor perder um bebê agora do que perda-lo para uma hiena mais tarde.”

- O que está acontecendo, Ayla? - perguntou Jondalar, empalmando um dos seios dela. O tamanho de sua mão lhe permitia fazer isso e ele gostava.

- Nada está acontecendo - ela se inclinou na direção dele, lembrando-se de suas carícias.

Jondalar sorriu, pensando na sua satisfação e já se sentindo outra vez excitado. “Daqui a pouco”, falou para si mesmo. “Acho que ela tem o toque de Haduma.

Ayla percebeu-lhe os olhos desejosos e acariciantes. “Talvez ele queira gozar dos prazeres novamente comigo”, pensou, devolvendo-lhe o sorriso. Súbito, a alegria sumiu de seu rosto. “Se o bebê ainda não foi formado, talvez ele se forme quando gozarmos novamente dos prazeres. Acho que vou ter de tomar do remédio secreto, o que Iza avisou para nunca ser mencionado.”

Ela se lembrou da ocasião em que Iza lhe falou da poção feita de raízes de sálvia e dama-entre-verdes. Duas plantas de mágica poderosíssima que davam força aos totens das mulheres para que elas expulsassem as essências impregnadas dos homens. Ela, então, estava no começo de sua gravidez. Iza nunca lhe havia falado antes deste remédio, pois ninguém imaginava que ela gerasse um bebê. Bom, com totem forte e tudo ela dera à luz uma criança, e era bem possível que tivesse outra. Pouco importava se fosse homem ou espírito que fizesse os bebês, o melhor era se prevenir e tomar o remédio que tão bem funcionou para iza. Antes isto do que ter de, mais tarde, tomar um outro para perder a criança.

“Gostaria de não precisar fazer isto. Queria poder conservar o bebê. Seria tão bom ter um rilho de Jondalar.” O sorriso que ela deu foi tão temo e convidativo que ele a segurou, colocando-a por cima dele, O amuleto pendurado no seu pescoço bateu-lhe no nariz.

- Oh, desculpe, Jondalar. Machucou?

- O que você guarda dentro dessa coisa? Parece cheio de pedras! - dis se ele, sentando-se e esfregando o nariz. - O que é isso?

- É... para que o espírito de meu totem possa encontrar-me. Nesse saquinho está guardada a parte de meu espírito que ele conhece. Também estão guardados os avisos que me mandou. Todas as pessoas dos clãs têm um saquinho igual a este. Creb dizia que se eu o perdesse, morreria.

- É um amuleto ou talismã - falou Jondalar. - Essa gente de seus clãs entende dos mistérios do outro mundo. Quanto mais sei sobre este povo, mais fico convencido de que se trata realmente de gente, embora diferente de todo mundo que conheço - havia uma expressão de arrependimento em seus olhos. - Ayla, foi a minha ignorância que me fez comportar daquela maneira quando soube o que você queria dizer com clãs. Foi uma vergonha e estou arrependido.

- Que foi uma vergonha foi. Mas eu já não estou mais zangada, nem aborrecida. Você me fez sentir... Eu queria também fazer uma cortesia. Jondalar, por tudo que aconteceu hoje, pelos primeiros ritos, eu queria lhe dizer... obrigada.

Ele sorriu.

- Acho que esta é a primeira vez que alguém me agradece por isso -em seu rosto havia um vestígio de sorriso, mas os olhos estavam sérios. - Se há alguém que deve agradecer, Ayla, sou eu. Obrigado. Você não pode imaginar o que me proporcionou. Só me realizei desta maneira com... - ele se interrompeu. Sua testa enrugava-se numa expressão de dor - Zolena.

- Quem é Zolena?

- Zolena já não existe. Era uma mulher que conheci nos meus tempos de rapaz - ele se deitou e se pôs a olhar para o teto da caverna em silêncio. Havia deixado passar tanto tempo que Ayla já pensava que não fosse mais falar. No entanto prosseguiu no tom de voz como se falando mais para si do que para ela. - Zolena era linda. Todos os homens só falavam dela e os meninos pensavam, mas nenhum tanto quanto eu, mesmo antes da minha doni ter me aparecido em sonho. Ela surgiu na forma de Zolena. Quando eu acordei, as peles de dormir estavam molhadas com a minha essência e a cabeça cheia da figura de Zolena.

“Eu me lembro que ficava seguindo.a ou, então, parado em algum lugar onde pudesse estar à sua espera, de vigia. Implorava para que a Mãe me desse Zolena. Quase não acreditei quando ela me procurou. Podia ter sido qualquer outra mulher, mas a única que eu queria era Zolena. Oh, como eu desejei esta mulher... e ela veio ao meu encontro.

“No princípio eu tratava apenas de gozar o meu prazer com ela. Já naquela época, era grande para a minha idade... sob muitos aspectos. Ela ensinou como poderia controlar-me, como poderia usar a minha virilidade e também o que é necessário para que a mulher tenha o seu prazer. Aprendi que podia gozar, mesmo que a mulher não tivesse muita profundidade. Era uma questão de me controlar e me manter o máximo possível do lado de fora, até que ela estivesse preparada. Desta forma, eu não precisaria de muita profundidade e a mulher poderia sentir mais.

“Com Zolena não precisava preocupar-me. Mas ela sabia também como fazer felizes os homens que tinham uma virilidade pequena. Para estes, possuía outros métodos. Não havia um homem que não desejasse Zolena e eu fui o escolhido. Depois de algum tempo, a sua escolha sempre recaía em mim, apesar de que eu fosse quase um menino ainda.

“Mas havia um homem na Caverna que vivia atrás dela. Ele sabia que não era desejado. Isso me deixava furioso. Quando nos encontrava juntos, perguntava a Zolena por que ela não arrumava um homem para variar. Ele era mais moço do que Zolena, mas velho do que eu e menor também.

Jondalar fechou os olhos e continuou falando:

- Foi tão estúpido! Nunca deveria ter feito aquilo. Só serviu para chamar mais atenção sobre nós. Mas o homem não a deixava em paz e sabia como botar o meu sangue fervendo. Um dia comecei a bater nele e não consegui parar.

“Dizem que não é bom que um rapaz fique só com uma mulher. Com muitas, há menos probabilidade dele se afeiçoar. Espera-se que a companheira de um rapaz seja uma mulher jovem. Às mais velhas compete apenas ensinar. Sempre se põe a culpa na mulher quando um rapazola se afeiçoa muito por ela. Mas no caso de Zolena não poderiam culpá-la. Eu não queria nenhuma outra. Só ela me interessava.

“As outras mulheres me pareciam tão cruéis e insensíveis. Sempre provocando e ridicularizando os homens, principalmente os rapazinhos. Talvez eu me mostrasse insensível também. Costumava mandá-las embora, dizendo-lhes os piores nomes.

“São elas que escolhem os homens para os primeiros ritos. Todos querem ser escolhidos. Esse é o assunto preferido de qualquer roda de homens. Ë uma honra e é excitante, mas todos ficam preocupados. Têm medo de ser rudes demais ou então apressados, ou até coisa pior ainda. Para que serve um infeliz que não consegue nem abrir uma mulher? Todas as vezes que um homem passa por um grupo de mulheres tagarelando, o pobre coitado é alvo de suas troças.

- Ele fez uma voz de falsete, remedando:

- Olhe só que belezoca. Você não quer aprender umas coisinhas? Esse aí eu consegui ensinar, ninguém mais se candidata?

Então, com a sua voz normal, prosseguiu:

- A maioria dos homens aprendeu a responder e gostar de fazer piadas, tanto quanto elas, mas para um rapazinho a situação é difícil. Quando há um grupo delas rindo, nunca se sabe se é você que está sendo o motivo de suas chacotas. Zolena não era assim. As mulheres não gostavam muito dela. Talvez porque os homens gostassem demais. Em qualquer festa da Mãe ou festival, ela era sempre a primeira a ser escolhida.

“O homem em que eu bati perdeu diversos dentes. É horrível um rapaz muito moço ser obrigado a viver sem os seus dentes. O pobre coitado não podia mastigar e as mulheres não queriam saber dele. Depois eu me arrependi muito. Fui tão estúpido! A minha mãe o indenizou e ele acabou se mudando para uma outra Caverna. Mas, nas reuniões de verão, eu sempre me encolho quando ele passa, para não ter de encontrá-lo.

“Zolena falava em servir à Mãe, e eu pensei, nesta ocasião, em me tornar também um servidor. Iria servi-Ia na qualidade de entalhador. Isso foi quando Marthona resolveu que talvez eu desse para ferramenteiro e mandou um recado para Dalanar. Pouco tempo depois, Zolena partiu para fazer o seu aprendizado e Willomar me levou para viver com os Lanzadonii. Marthona fez o melhor que tinha a fazer. Quando voltei, depois de três anos, Zolena já não existia mais.

- O que aconteceu com ela? - indagou Ayla, receosa.

- Os servidores da Mãe perdem a sua identidade e assumem as das pessoas por quem intercedem. Como retribuição, a Mãe lhes concede certas dádivas que são desconhecidas para o comum dos seus filhos. São dádivas como a da magia, do talento, da sabedoria... e da força. Muitos daqueles que vão servi-la não conseguem ultrapassar a condição de acólitos. Dentre aqueles que recebem o seu chamado, poucos são verdadeiramente talentosos, mas estes sobem rápido na hierarquia dos servidores.

“Pouco antes de minha partida, Zolena foi consagrada como Alta Sacerdotisa dos Zelandonii, que é a posição mais importante na hierarquia dos servis.

Inesperadamente, Jondalar se levantou e viu através das fendas na pare de as fulgurações vermelhas e douradas do céu.

- Ainda é dia. Estou com vontade de nadar um pouco - disse, andando apressado para fora da caverna. Ayla pegou a sua roupa junto com uma comprida correia e o seguiu. Quando chegou à praia, ele já estava na água. Ela tirou o amuleto, caminhou para dentro do rio e começou a nadar. Jondalar se achava longe, subindo o rio. Os dois se encontraram quando ele voltava.

- Até onde você foi?

- Até as cataratas - respondeu ele. - Ayla, eu quero que você saiba que nunca falei com ninguém sobre Zolena.

- Você nunca tornou a vê-la?

Jondalar soltou uma gargalhada sarcástica.

- Zolena não, mas a Zelandoni sim. Somos hoje bons amigos. Gozei dos prazeres com a Zelandoni. Porém eu já não sou mais o único a ser escolhido - ele se pôs a nadar com braçadas vigorosas, descendo o rio rapidamente.

Ayla franziu o rosto, abanando a cabeça sem entender. Depois, seguiu-o para a praia. Tornou a pendurar o amuleto e foi enrolando-se em sua roupa enquanto subia atrás dele. Ao entrar, Jondalar estava de pé perto da fogueira, olhando para as brasas quase apagadas. Ela acabou de ajeitar a roupa no corpo e foi buscar mais lenha para alimentar o fogo. Vendo que ele ainda se achava molhado e tremendo, trouxe-lhe uma pele de dormir.

- O tempo começa a mudar. As noites já estão bem frias. Tome, você pode pegar um resfriado.

Jondalar jogou desajeitadamente a pele por cima dos ombros. “Ele não sabe como arrumar uma pele no corpo”, pensou Ayla. “Bom, se vai mesmo partir, devia fazer isto antes do fim da estação.” Ela se dirigiu para o seu lugar de dormir e apanhou uma trouxa que se encontrava perto da parede.

- Jondalar...?

Ele sacudiu a cabeça, querendo se situar novamente no presente. Deu um sorriso, mas os olhos continuavam sérios. No que Ayla começou a desfazer a trouxa, um objeto caiu. Ela o pegou do chão:

- O que é isto? - perguntou, medrosa e espantada. - Como veio parar aqui?

- É uma donii - respondeu, vendo a estatueta de marfim.

- Uma donii?

- Eu fiz para você... para os seus primeiros ritos. Sempre se deve ter uma donii por perto, na ocasião da passagem de uma moça.

A abaixou a cabeça, escondendo as lágrimas inesperadas em seus olhos.

- Eu não sei o que dizer. Nunca vi nada igual a isto. É linda. Parece real... como uma pessoa. Poderia até parecer comigo.

Ele lhe levantou o queixo.

- A minha intenção era a de que se parecesse com você, Ayla. Um verdadeiro escultor teria feito melhor... Não. Um verdadeiro escultor não faria uma donii como essa. E eu não tenho muita certeza se deveria ter feito uma escultura assim. Normalmente não se põe um rosto numa donii. O rosto da Mãe é desconhecido. Essa donii com o seu rosto talvez faça o seu espírito prisioneiro dela. Por isso, a imagem é sua. Deve ficar em seu poder. É o meu presente para você, Ayla.

- Não posso saber por que guardou o seu presente aqui - disse ela, quando acabou de desatar a trouxa. - Eu fiz isto para você, Jondalar.

Ele sacudiu o couro. Os seus olhos brilharam ao ver a vestimenta.

- Ayla! Não sabia que você era capaz de costurar ou de bordar com contas - falou examinando a roupa.

- Eu não fiz o bordado. Fiz apenas algumas partes novas para a camisa e desmanchei as outras peças para saber qual era o tamanho e como foram cortadas. Vendo, então, como elas se juntavam, eu pude copiar. Usei o furador que você me deu. Não sei se fiz direito, mas acho que servem.

- Está perfeito - disse ele, suspendendo a camisa junto ao corpo. Experimentou, primeiro, as calças, depois a camisa. - Estava mesmo pensando em fazer uma roupa que fosse mais apropriada para a viagem. Uma tanga é muito bom, mas só para aqui.

Havia sido dito. Dito em voz alta, tal como os espíritos malignos de Creb, cujo poder vinha quando se lhes reconhecia a existência dizendo os seus nomes em voz alta. A partida de Jondalar tomara-se, a partir daquele momento, uma realidade. Deixara de ser um pensamento vago que algum dia talvez se concretizasse. Tão concentrados ficaram na idéia que lhes parecia haver na caverna uma opressiva presença física.

Jondalar tirou as roupas e as dobrou.

- Obrigado, Ayla. Não tenho palavras para dizer o quanto isso significa para mim. Quando ficar mais frio estarão perfeitas, mas por enquanto não preciso delas - e vestiu a tanga.

Ayla fez que sim com a cabeça, sem confiança nela para falar. Sentia uma pressão nos olhos que lhe turvava a visão da figurinha em sua mão. Apertou-a contra o peito. Adorava a estatueta. Fora feita pelas mãos dele. Mãos habilidosas, capazes de fazer uma imagem que lhe provocava o mesmo sentimento de ternura sentido quando ele a fizera saber o que era ser mulher.

- Obrigada - falou ela, lembrando-se também de ser cortês.

Ele franziu a testa.

- Não perca isso. Como ela tem o seu rosto e talvez também o seu espírito, pode não ser seguro se cair em poder de outra pessoa.

- O meu amuleto já guarda uma parte do meu espírito e uma parte do espírito de meu totem. Agora essa donii está guardando mais uma parte de meu espírito e do espírito da Mãe Terra. Isso não quer dizer que a donii seja também um amuleto?

Jondalar não pensara nisso. Seria agora Ayla uma parte da Mãe? Um dos Filhos da Terra? Talvez não fosse da sua conta se meter com forças que estavam além de sua compreensão. Ou seria ele um agente dessas forças?

- Não sei, Ayla. Mas, em todo o caso, não perca a imagem.

- Jondalar, se você achava que era perigoso, por que colocou o meu rosto na donii?

Ele segurou-lhe nas mãos.

- Porque eu queria capturar o seu espírito, Ayla. Não para ficar com ele. A minha intenção era devolvê-lo. Queria lhe dar prazer e não sabia se iria conseguir. Você não foi educada com o conhecimento da Mãe e eu estava em dúvida se seria capaz de compreender. Assim, achei que se pusesse o seu rosto na donii, estaria atraindo o seu espírito para mim.

- Você não precisava ter posto o meu rosto numa donii para isso, Jondalar. Eu já me daria por feliz se quisesse simplesmente aliviar as suas necessidades comigo... mesmo antes de conhecer os prazeres.

Ele a envolveu nos braços com donii e tudo o mais que pudesse haver entre o céu e a terra.

- Não, Ayla, você podia já estar pronta, mas eu precisava fazer como se fosse a sua primeira vez para que saísse certo.

Novamente perdida em seus olhos, com os braços dele a estreitá-la, foi abandonando-se, até que nada sentia, senão os braços que a rodeavam, a boca faminta que a beijava, o calor do corpo que se colava ao seu e uma estonteante e imperiosa exigência. Não soube quando ele a tomou no colo e a retirou de junto da fogueira.

Viu apenas que as peles da cama se alteavam para recebê-la e ele atrapalhado com o nó da correia, depois desistindo e simplesmente lhe levantando a roupa. Ansiosa, abriu-se para ele, sentindo a virilidade rígida que procurava e logo encontrava.

Com fúria, desespero, Jondalar cravou a sua lança bem no fundo, domo se quisesse convencer-se de que Ayla se achava lá e que ele não precisava conter-se. Ela levantou o corpo para encontrá-lo absorvendo-o com a mesma intensidade de desejo.

Ele se afastou e mergulhou novamente. A tensão aumentava. Excitado pelas emoções do amplexo e pelo prazer despreocupado de entregar-se inteira mente a força da paixão, ele cavalgava a onda crescente, com furiosa alegria. Ela o encontrava em cada crista, acompanhando-lhe um por um dos impulsos e se arqueando para guiar a pressão de seus movimentos.

Mas as sensações que sentia ultrapassavam os incontroláveis vaivéns dentro de sua úmida caverna. Cada vez que ele preenchia todo o seu espaço, ela estava consciente apenas dele: nervos, músculos, tendões estavam tomados por ele. Jondalar sentia as contrações em suas virilhas formando-se, aumentando, insurgindo até um insustentável crescendo que rompeu a pressão com uma descarga estremecedora no momento em que ele penetrou mais uma vez. Ela se suspendeu para encontrar o último e frenético impulso e a explosão que se difundia pelo seu corpo em voluptuosa libertação.

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