O Vale dos Cavalos
Capítulo 10
Ayla não conseguia desgrudar-se um instante do lombo do cavalo. Cavalgar Huiin a toda velocidade era um prazer inexcedível. Jamais na vida alguma coisa lhe dera tanta emoção. Huiin também parecia gostar e rapidamente acostumou-se com o peso de Ayla em suas costas- Logo o vale ficou pequeno para a moça e o seu veloz corcel. Freqüentemente, galopavam pelas estepes, alcançando-as pelo lado leste do rio onde o caminho se fazia mais fácil.
Ela sabia que muito brevemente teria de caçar, colher, preparar e armazenar os alimentos que a natureza lhe prodigalizava em estado bruto. Precisava já ir pensando no próximo ciclo de estações. Entretanto, no princípio da primavera, quando a terra estava apenas acordando do longo inverno, as suas ofertas se mostravam ainda muito minguadas. Alguns legumes frescos ajudavam a melhorar um pouco a alimentação do inverno, quase exclusivamente à base de alimentos desidratados. Mas por enquanto raízes, brotos e tubérculos ainda não tinham brotado da terra. E com isso ela aproveitava para andar a cavalo tanto quanto podia. Quase sempre deste manhã até o anoitecer.
No princípio, apenas montava numa atitude passiva, indo onde o cavalo a levasse - Não pensava em conduzi-lo. Os sinais que Huiin aprendera se expressavam por gestos que não podia ver com Ayla montada em suas costas. Ayla nunca tentara uma comunicação exclusivamente verbal. Mas o seu pro cesso de comunicação se baseava tanto em gestos específicos como na expressão corporal e, montada no cavalo, ela estava em íntimo contato com o corpo do animal.
Passada a fase inicial, quando tinha o corpo dolorido, Ayla começou a perceber o jogo da musculatura de Huiin que, por sua vez, passou também a sentir o corpo de Ayla em seus estados de tensão e relaxamento - Cavalo e cavaleira começaram, então, a desenvolver a capacidade de perceber as necessidades e os sentimentos um do outro e procuravam satisfazê-los. Se Ayla quisesse tomar determinada direção, instintivamente inclinava-se para o lado desejado e os seus músculos comunicavam a sua intenção ao cavalo. Dessa for ma, ele passou a mudar de direção ou a variar de velocidade de acordo com a maior ou menor pressão que sentia Ayla imprimindo em seus músculos. E, sempre que ela queria que ele reagisse do mesmo modo, repetia os mesmos estímulos, quase imperceptíveis.
Foi um período de treinamento mútuo, ambas aprendendo uma com a outra e com isso aprofundaram ainda mais a sua relação. Ayla, entretanto, sem que o percebesse, passava a assumir o controle. Os sinais transmitidos entre mulher e cavalo eram tão sutis e a passagem da aceitação passiva à direção ativa feita tão naturalmente que Ayla, no princípio, não reparou, exceto em nível subliminar. As cavalgadas diárias se tornaram num curso de aprendizado intensivo, extremamente concentrado. Com o aprimoramento da relação, as respostas do cavalo ficaram de tal forma afinadas que bastava Ayla pensar onde e em que velocidade desejava ir para que ele respondesse, como se fosse uma extensão do corpo dela. Ayla não podia imaginar que os seus nervos e músculos enviassem sinais à pele de Huiin, dotada de extrema sensibilidade.
Não fora intenção sua educar o animal. Era o resultado de amor e dedicação e também das diferenças inatas entre os dois seres. Huiin era curiosa e inteligente. Podia aprender e tinha uma memória ancestral, mas o seu cérebro era menos desenvolvido e organizado diferentemente. Os cavalos são animais gregários, em geral, vivendo em manadas, com necessidade de afeto e da companhia de seu semelhante, O sentido do tato tomou-se particularmente desenvolvido e foi uma peça importante daquela íntima relação. O instinto da égua, entretanto, dizia-lhe para seguir as instruções, para ir aonde era leva da. Nas ocasiões de pânico, até mesmo os chefes fogem em debandada com as suas manadas.
No caso da mulher, as ações tinham propósito. Elas eram comandadas por um cérebro no qual a previsão e a análise estavam interagindo com o conhecimento e a experiência. A sua posição vulnerável mantinha apurados os seus reflexos de sobrevivência e forçava uma constante vigilância do ambiente que havia precipitado o período de aprendizado. A visão de uma lebre ou de um hamster gigante a levava imediatamente a pegar na funda e a querer sair à caça do animal, mesmo se em cima do cavalo. Huiin rapidamente interpretava-lhe os desejos nesse sentido e o primeiro passo que deu para atendê-la acabou por levar Ayla a ter o firme controle da égua, embora tudo se desse a nível in consciente, Só quando matou um hamster gigante é que se deu conta do fato.
Foi ainda no início da primavera. Inadvertidamente haviam espantado o bicho, mas Ayla no momento em que viu o hamster correr jogou o corpo para a frente, levando Huiin a persegui-lo, enquanto ela apanhava a funda. Ao chegarem perto, Ayla mudou de posição, como pensamento de apear, e o cavalo estancou ainda a tempo dela saltar e atirar a pedra.
“Vai ser bom comer carne fresca essa noite”, pensou, enquanto voltava para montar o cavalo.
“Devia estar caçando mais, mas é tão divertido montar Huiin..
“Ora... mas eu estava montada em Huiin! Foi Huiin quem saiu atrás do hamster. E parou justamente quando eu quis!” Os seus pensamentos voltaram para o dia em que pela primeira vez montou o cavalo e que envolvera nos seus braços o pescoço da potranca. Huiin se havia distanciado para uma moita de capim novo e tenro.
- Huiin - chamou Ayla.
O cavalo levantou as orelhas e a cabeça, pondo-se na expectativa.
Ayla estava pasma. Não sabia explicar. A idéia de montar um cavalo já era assombrosa, mas que o cavalo fosse para onde ela pretendesse era muito mais difícil de entender do que fora para os dois o processo de aprendizado.
O cavalo aproximou-se.
- Oh, Huiin... - falou Ayla. A sua voz foi interrompida por um soluço. Abraçou-se com o pescoço do cavalo sem entender a razão por que chorava.
Huiin bufava pelas narinas e inclinou a cabeça, apoiando-a sobre o ombro de Ayla.
Quando ela foi montar outra vez se sentia desajeitada. O hamster parecia atrapalhar-lhe os movimentos. Procurou, então, uma pedra para subir. Há muito que não se valia mais desse recurso e parou um instante para pensar. Lembrou-se de que até agora sempre pulara e passara a perna por cima do cavalo, montando com a maior facilidade. Depois de alguma confusão inicial, Huiin começou a andar de volta à caverna. No entanto, tentando agora conscientemente governar a potranca, os seus comandos inconscientes perderam um pouco da antiga firmeza. E o mesmo se dava com as respostas de Huiin.
Ela só voltou novamente a confiar em seus reflexos quando descobriu que Ruim lhe respondia melhor se estivesse com o corpo relaxado, mas então já enviando comandos intencionais. À medida que a estação avançava, Ayla foi caçando cada vez mais. No princípio, parava o cavalo e descia para manejar a funda, mas não custou muito para que tentasse atirar montada. O fato de errar o tiro foi uma razão para voltar a treinar. Era um novo desafio a vencer. Ela aprendera o manejo da arma sozinha, treinando por ponta própria. Foi um jogo que se propusera na época. Não tinha ninguém a quem pudesse recorrer. Não lhe era permitido caçar. Mas aconteceu então que um lince a apanhou desarmada, depois de haver perdido o tiro. Esse fato a levou a pensar na técnica do tiro duplo que passou a treinar até ter o completo domínio do arremesso simultâneo de duas pedras.
Achava distante o tempo em que tivera necessidade de treinar com a sua funda, e agora novamente a arma se tomara um desafio divertido, mas nem por isso menos sério. No entanto, era uma atiradora tão exímia que em pouco tempo estava arremessando tão bem em cima do cavalo como quando estava em terra sobre os seus pés. No início, apesar da facilidade com que chegava perto de um bichinho ligeiro como a lebre, não afinou - e nem podia - com todo o alcance dos possíveis benefícios e vantagens de que passara a dispor.
Ainda levava para casa os animais que matava como sempre o fizera: numa cesta amarrada às costas. Mas daí a montar com a presa diante dela, atravessada no lombo de Huiin, foi um pulo. Imaginar um cesto apropriado para ser levado por Huiin, preso em seu lombo, foi o passo seguinte e uma decorrência lógica. Custou um pouco mais a idéia dos dois cestos, seguros por uma correia grossa de couro, amarrada ao redor do corpo do animal. Com a adição da segunda cesta, entretanto, ela começou a perceber algumas das vantagens que poderia tirar da força de sua amiga de quatro patas. Pela primeira vez pôde levar à caverna um peso maior do que agüentava carregar.
Uma vez percebido o que poderia realizar com a ajuda do cavalo, os seus métodos mudaram e também mudou o padrão de sua vida. Passava mais tempo fora, explorava novos campos e regressava com um volume muito maior: tanto de vegetais que colhia, como de carne dos animais que matava. Então passava alguns dias na caverna, cuidando do que lhe rendiam as saídas.
Quando viu os morangos silvestres começando a amadurecer, deu busca numa vasta área para trazer tantos quanto achasse, Os maduros eram raros no princípio da estação e nasciam muito espaçados. Ao regressar, começava a escurecer. Ela tinha bons olhos para distinguir os pontos de referência na paisagem, mas antes de chegar ao vaie já estava escuro demais para enxergar. Re solveu, então, confiar nos instintos de Huiin para guiá-la de volta e, daí por diante, este trabalho quase sempre ficou por conta da potranca.
Em todo o caso, por precaução, passou a levar em suas saídas uma pele para se abrigar. Certa noite, resolver dormir fora, em pleno campo aberto. Já estava tarde demais e achava que fosse gostar de novamente voltar a dormir sob um céu estrelado. Acendeu uma fogueira, mais para espantar os animais notívagos, pois ela se sentia aquecida, aninhada em sua pele, ao lado de Huiin. Não havia animal nas estepes que não temesse o cheiro de fumaça. O fogo nas planícies, às vezes incontrolável, durava dias, afugentando ou assando qualquer coisa por onde ia alastrando-se.
Depois da primeira vez, as outras ficaram mais fáceis e ela costumava passar uma ou duas noites longes da caverna, aproveitando para explorar a região a leste do vale.
Ela não queria admitir, mas na realidade procurava pelos Outros. Ao mesmo tempo que acalentava esperança de encontrá-los, tinha também medo de que isso acontecesse. Num certo sentido, era uma maneira de adiar a decisão de abandonar o vale. Sabia que se fosse empreender a busca, teria de já estar pensando nos preparativos para a viagem, e o vale se transformara em sua casa. Ela não queria ir embora e Huiin continuava sendo uma preocupação. Não sabia o que esses desconhecidos Outros poderiam fazer com a potranca. Se houvesse alguma população vivendo nas vizinhanças do vaie, a cavalo poderia observar as pessoas e aprender um pouco sobre elas, antes que a sua presença fosse notada.
Os Outros eram o seu povo, mas ela não se lembrava de nada do que lhe acontecera antes de sua vinda para o clã. Sabia que fora encontrada completamente inconsciente na beirada de um rio, faminta e ferida por um leão da caverna. Estava à morte quando Iza a apanhou e a levou junto com a sua gente que, então, procurava uma nova caverna para habitar. Mas sempre que tentava lembrar-se de alguma coisa anterior à sua vida no clã, era dominada por um medo indefinido que sobrevinha com náuseas e uma angustiante sensação de ter a terra tremendo sob os seus pés.
O terremoto que deixou sozinha uma menina de cinco anos num mundo deserto, à mercê de seu destino e entregue à compaixão de pessoas inteira mente diferentes dela, fora um golpe doloroso demais para a sua mente infantil. Ela perdeu por completo a memória, esquecendo-se de tudo que se referia ao acontecimento e às pessoas que haviam feito parte de sua vida. A sua idéia delas era igual à de todo mundo nos clãs: aqueles que designavam como “Outros”.
Tal como a primavera indecisa com as suas rápidas mudanças, ora mostrando-se chuvosa, ora quente e ensolarada, os desejos de Ayla também passavam de um extremo a outro. Os seus dias, de certa forma, transcorriam bem. A solidão não era uma coisa nova em sua vida. De pequena, freqüentemente saía para as matas perto da caverna para colher as plantas de Iza e, depois já um pouco mais velha, para fazer as suas caçadas. Assim, pela manhã e pela tarde, quando estava ocupada e ativa, a única coisa que queria era ficar sossegada em seu vale, na companhia de Huiin. De noite, porém, dentro da peque na caverna, apenas com uma fogueira e um cavalo por companhia, ela ansiava por ter alguém junto que a ajudasse a não se sentir tão sozinha. Estava sendo mais difícil de suportar a sua solidão na quente primavera do que no inverno, apesar de todos os seus dias longos e gelados. O pensamento não saía da vida no clã e das pessoas que amava e os seus braços ansiavam por envolver o filho. Todas as noites resolvia que no dia seguinte começaria os preparativos para a viagem, mas chegando de manhã os adiava e ia com Huiin para as planícies do leste. De tanto esquadrinhar a região acabou conhecendo bem não só o território como a vida que habitava a vasta pradaria. Os animais de pastagem haviam começado a emigrar, dando-lhe novamente a idéia de caçar um deles.
À medida que o pensamento ia tomando forma, foi esquecendo-se um pouco de sua solitária existência.
Via cavalos, mas nunca mais algum deles voltara ao vale. De qualquer maneira, não tinha intenção de caçá-los. Tinha de ser outro animal. Embora não soubesse como poderia usá-las, passou a levar as lanças em suas saídas. Os compridos paus eram incômodos de carregar, mas ela acabou descobrindo um modo. Cada um ia amarrado a uma das cestas levadas por Huiin.
Foi somente quando ela reparou num bando de renas fêmeas que a sua idéia começou a concretizar-se. Quando era menina, no tempo em que estava aprendendo a caçar ás escondidas, sempre achava desculpa para trabalhar per to dos homens quando estes estavam trocando idéias sobre problemas e técnicas de caçadas, por sinal o assunto favorito de suas conversas. Nesta época, estava interessada na caça com funda - a sua arma -mas de modo geral tudo que dizia respeito a caçadas a deixava curiosa. À primeira vista, achou que fosse uma manada de veados de chifres curtos. No entanto, reparando nos filhotes, lembrou-se de que dentre todas as variedades de cervos, somente as renas fêmeas possuíam chifres, O fato desencadeou uma série de lembranças, inclusive a do gosto da carne de rena.
Lembrou-se, então, que os homens haviam dito que as renas quando emigravam para o norte na primavera seguiam sempre o mesmo trajeto, como se fossem por um caminho que só elas conheciam e que andavam em grupos separados. A emigração começava, primeiro, pelas fêmeas e os filhotes, depois vinha a dos machos ainda não-adultos e, por fim, mais tarde na primavera, é que passavam os velhos machos em pequenos grupos.
Ayla ia num trote lento atrás da manada de renas com os seus filhotes. Os enxames de moscas e mosquitos que gostavam de aninhar-se nas peles dos cervídeos - principalmente nas zonas dos olhos e orelhas, estimulando-os ainda mais a procurar climas frios, onde os insetos não são tão abundantes - estavam começando a aparecer. Ayla, distraída, espantava com a mão alguns dos mosquitos zunindo ao redor de sua cabeça. Quando saiu pela manhã, uma neblina fina ainda colava-se às depressões e cavidades do terreno. O sol, no entanto, chegara para levantar o vapor dos bolsões, pondo uma umidade no ar, rara nas estepes. As renas estavam acostumadas à companhia de outros ungulados e ignoravam a presença de Huiin e Ayla, desde que as duas se mantivessem a uma certa distância.
Enquanto observava os animais, Ayla pensava em um meio para caçá-los. “Se, de fato, os machos seguem as fêmeas, logo estarão vindo pelo mesmo caminho. Talvez consiga caçar um deles, um que seja ainda novo. Bom, eu sei o caminho por onde vão vir, só que isso de nada me vai adiantar se não conseguir chegar perto o suficiente para enfiar as lanças. Talvez possa cavar um buraco outra vez. Mas os animais iriam simplesmente contorná-lo e seguir em frente. Além do mais, por aqui não existem muitos arbustos para fazer uma cerca que eles não possam saltar. Talvez eu possa botá-los para correr e um caia dentro. Mas, ainda que consiga isto, como é que vou retirá-lo depois? Esquartejar um animal dentro de um buraco lamacento é o que eu não quero nunca mais. E vou ter de secar a carne aqui mesmo, a não ser que consiga levá-la para a caverna.”
Ela seguiu a manada o dia inteiro, até que as nuvens se tomaram rosadas num céu minto azul. Só parava o tempo necessário para comer e descansar. Nunca havia chegado tão ao norte e a região lhe era inteiramente desconhecida. Havia visto ao longe uma linha de vegetação. À medida que o céu se foi tornando rubro, as águas mais adiante de uma densa massa de arbustos passaram a refletir a sua cor. As renas se puseram em fila para passar pelas estreitas aberturas do matagal e chegar até o riacho. Antes de atravessá-lo se alinharam ao longo da margem para beberem um gole de água.
O crepúsculo acinzentava o verde das folhagens, enquanto o céu ardia em brasa, como se a noite roubasse a cor da terra para devolvê-la no dia seguinte em tons ainda mais brilhantes. Ayla desconfiava de que aquele rio fosse o mesmo que já por diversas vezes havia cruzado. Nem sempre os córregos, canais e riachos contribuíam para a formação de uma grande massa de água. Freqüentemente o mesmo curso era cruzado várias vezes, enquanto serpenteava pelas planícies para voltar a se encontrar após fazer muitos meandros e se dividir em canais. Se os seus cálculos estivessem certos, ela poderia chegar ao vale, pela outra margem, sem precisar atravessar nenhum curso de água maior.
As renas puseram-se a pastar, mas parecendo que se preparavam para passar a noite na margem oposta. Ela decidiu fazer o mesmo. O caminho de volta era longo e teria de cruzar o rio em algum ponto. A noite se aproximava e não queria correr o risco de ficar molhada e com frio. Escorregou do lombo do cavalo, retirou as cestas e deixou Huiin solta, enquanto preparava o acampamento. Galhos secos e lenhas trazidos pelas enchentes logo estavam ardendo em brasa, acesos com pedra-de-fogo e sílex. Amendoins torrados dentro de folhas e um hamster recheado de legumes foi a sua refeição. Depois de ter comido e a barraca estar armada, assoviou chamando Huiin para ficar perto. Enrolou-se na sua pele de dormir e se meteu dentro da barraca, deixando a cabeça do lado de fora da abertura de entrada.
As nuvens tinham se acumulado no horizonte. Em cima, as estrelas eram tantas que davam a impressão de uma luz intensíssima, filtrada através de uma infinidade de ranhuras na barreira noturna. Creb dizia que as estrelas são fogueiras no céu, as moradias no mundo dos espíritos, onde também vivem os espíritos dos totens. Os seus olhos ficaram vasculhando o firmamento até encontrar a formação que buscavam. “Ah, lá está. A morada de Ursus e também a do meu totem, o Leão da Caverna. É estranho que mudem constantemente de lugar no céu e o desenho que formem continue sempre o mesmo. Gostaria de saber se os espíritos também saem para caçar e depois voltam para as suas cavernas.”
“Mas o que estou precisando mesmo é apanhar uma rena. E tenho de descobrir uma maneira de fazer isso o quanto antes. Logo os machos estarão chegando. Eles vão também atravessar o rio nesse ponto.”
Nisso, Huiin sentiu o cheiro de um animal carnívoro e veio para mais perto da fogueira.
- Há alguma coisa por ali, Huiin? - perguntou Ayla por meio de sons e gestos. As suas palavras eram inventadas, nunca tinham feito parte da língua dos das. Ela podia relinchar tal como Huiin, latir como as raposas e uivar como os lobos.E agora, rapidamente, aprendia a assoviar como os passarinhos. Muitos desses sons haviam sido incorporados à sua língua particular. Pratica mente já se esquecera de que não era de bom-tom emitir sons desnecessários. A facilidade de vocalizar, própria de sua espécie, começava a impor-se.
O cavalo veio ficar entre Ayla e a fogueira, querendo a segurança das duas coisas.
- Sai daí, Huiin. Você está tapando o calor.
Ela levantou-se para botar mais lenha na fogueira e abraçou o pescoço de Huiin, sentindo a inquietação do anima!. “É melhor eu ficar acordada e manter esse fogo aceso”, pensou.
- Seja o que estiver por aí, minha amiga, vai achar mais interessante uma rena do que você, perto do fogo. Por isso, é bom que a gente tenha por enquanto uma boa fogueira acesa.
Ela ficou agachada perto do fogo, olhando as chamas. De vez em quando, remexia na lenha soltando um mundo de faíscas que sumiam na escuridão. Alguns sons vindos da outra margem lhe disseram que uma ou duas re nas haviam sido apanhadas, provavelmente por um felino. Os seus pensa mentos voltaram-se para a rena que ela própria tinha de apanhar. De repente, ao empurrar Huiin para o lado a fim de pegar mais lenha, lhe surgiu uma idéia. Mais tarde, quando a potranca já estava mais calma, ela voltou para a sua pele de dormir. A sua cabeça estava um turbilhão. A idéia expandia-se, aparecendo-lhe com inúmeras possibilidades cada vez mais interessantes. Quando, por fim, adormeceu, já tinha um plano básico formado na cabeça e fundamenta do num conceito tão incrível que ela própria sorria de sua audácia.
Pela manhã, ao cruzar o rio, a manada, diminuída de uma ou duas re nas, já havia partido, mas Ayla não precisava mais segui-la. Ela disparou num galope de volta ao vale. Tinha muito que fazer, se quisesse estar com tudo pronto a tempo.
- Pronto, Huiin. Vê? Não é tão pesado assim - dizia Ayla, encorajando. O cavalo que ela pacientemente conduzia tinha ao redor do peito e do lombo uma série de correias e cordas amarradas a um tronco que ele arrastava. No início, Ayla tinha posto a correia que agüentava o peso atravessada na testa de Huiin, tal como a tira de couro que às vezes ela própria usava para carregar nas costas volumes mais pesados. Mas logo viu que o cavalo precisava de ter livres os movimentos da cabeça e que puxaria melhor se as correias fossem passadas ao redor do peito e dos ombros. A potranca das estepes, contudo, não estava acostumada a arrastar pesos e os arreios lhe inibiam os movimentos. Ayla, no entanto, estava firmemente decidida. Essa seria a única maneira de pôr o seu plano para funcionar.
A idéia lhe ocorrera quando estava colocando lenha na fogueira. Ela, então, afastando Huiin de seu caminho para pegara madeira, olhou ternamente para aquele cavalo tão grande que, apesar de toda a sua força, a procurava para protegê-lo. “Ah, se eu pudesse ser forte como Huiin, pensou, de repente iluminando-se. A solução tão procurada parecia estar ali. “Talvez um cavalo possa puxar uma rena para fora de um buraco.”
Depois, pensando no modo como poderia preparar a carne para conservá-la, a idéia foi naturalmente desenvolvendo-se. Se ela fosse esquartejar o animal nas estepes, o cheiro de sangue era inevitável e atrairia as feras, inclusive algumas que ela nem conhecia. Talvez não fosse um leão da caverna que ouvira atacando as renas, mas um outro felino: tigre, pantera, leopardo... Eram animais que podiam não ser do tamanho dos leões, mas por outro lado não eram bichos que se matasse com funda. Até um lince ainda ia, mas felinos de grande porte era coisa bem diferente, sobretudo em campo aberto. Perto da caverna, entretanto, protegida por uma parede nas costas, seria possível botá-los para fugir. Uma pedra voando com força talvez não fosse fatal, mas dava para machucar. Se Huiin tinha possibilidade de arrastar uma rena para fora de um buraco, por que não também até o vale?
Mas para isso teria antes de transformar Huiin num cavalo de tração.Havia achado que a única coisa que precisaria fazer era atar a rena a Huiin com cordas e correias. Não lhe ocorreu que a potranca pudesse não aceitar.Aprender a montar fora um processo tão inconsciente que ela ignorava ser necessário treinar Huiin para puxar uma carga. Mas, tão logo botou os arreios, percebeu. Após algumas experiências que a levaram à total reformulação da idéia inicial e feitas as adaptações necessárias, o cavalo começou a aceitar a idéia e ela achou que a coisa poderia funcionar.
Quando viu a potranca puxando o tronco, Ayla lembrou-se do clã. “Se já me achariam esquisita por viver com um cavalo, imagine então se os homens me vissem agora. Só que eles eram muitos e tinham as mulheres para preparar a carne e carregá-la para a caverna. Nenhum homem tentou fazer isso sozinho.”
Espontaneamente, ela deu um abraço em Huiin, apertando a sua testa contra o pescoço da potranca.
- Você é uma sorte na minha vida, Huiin. Não sei o que faria sem você. E se os Outros forem iguais a Broud? Nunca deixarei que ninguém lhe faça mal. Gostaria de saber o que fazer da minha vida.
As lágrimas subiram aos olhos, depois as enxugou e desatou os arreios.
- Bom, nesse instante eu sei. O que tenho a fazer é não deixar escapar a manada dos machos que deve estar vindo por aí.
A manada das fêmeas estava com uma vantagem de apenas poucos dias sobre a dos machos. Eles caminhavam a passos vagarosos. Logo que os avistou, não foi difícil para Ayla observar-lhes os movimentos e saber que, de fato, seguiam pela mesma trilha. Deu perfeitamente tempo para ela apanhar os seus apetrechos e galopar, passando-lhes à frente. Ela acampou perto do rio, um pouco mais abaixo do ponto onde as fêmeas o haviam cruzado, e se dirigiu para o lugar da travessia carregando o pau de cavar, o osso do ilíaco que lhe servia de pá, e um pano de couro para arrastar a terra.
Havia duas trilhas mais marcadas e duas outras menos pisadas. Todas passando pela moita de arbustos. Ela escolheu uma das trilhas maiores para cavar a sua armadilha, suficientemente perto do rio, de modo a surpreender as renas caminhando em fila única e, ao mesmo tempo, longe bastante para que o buraco não se enchesse de água antes de estar terminado. Quando acabou de cavar, o sol se aproximava do horizonte. Ela assoviou chamando Huiin e foi ver a que distância se achava a manada. Calculava que no dia seguinte estaria chegando na beirada do rio.
Ao voltar para o rio, a luz era pouca, mas mesmo assim a fenda aberta no terreno estava demasiadamente visível. “Nenhum animal vai cair nesse buraco. Facilmente vai vê-lo e passar ao redor”, pensou desanimada. “Bom, de qualquer modo está muito tarde para fazer alguma coisa. Amanhã verei o que posso arranjar.”
Mas o amanhã chegou sem que nenhuma idéia brilhante lhe ocorresse. O céu à noite ficara encoberto. Ela acordou com pingos de água batendo-lhe no rosto. O dia amanhecia trazendo uma luz difusa e triste. Na noite anterior não armara o velho couro na forma de barraca, já que o céu estava claro quando fora dormir, e agora ele se achava úmido e enlameado. Ela o estendera para enxugar, mas no momento ainda estava mais úmido ainda. As gotas que a tinham acordado foram apenas as primeiras de muitas. Ela se enrolou na pele de dormir e, depois de remexer inutilmente em suas cestas, viu que se esquecera de trazer o capuz de carcaju. Puxou, então, uma ponta da pele para cima da cabeça e se enroscou junto do que restava de uma fogueira.
Um relâmpago cortou a planície iluminando a terra até o horizonte. Momentos depois, vindo de longe, ouviu-se um rugido de advertência. Foi como um sinal para que as nuvens se despencassem num novo dilúvio. Ayla apanhou o couro molhado e o enrolou ao redor de seu corpo.
Gradualmente, a luz do dia foi deixando entrever a paisagem, tirando das sombras as fendas da terra. As estepes desabrochavam numa palidez cinzenta, como se as nuvens que se despencavam sobre elas desbotassem as suas cores. Até o céu se mostrava num tom indefinido: nem azul, nem cinza, nem branco.
A água começou a empoçar, quando a fina camada de terra permeável por cima do nível de permafrost ficou saturada. No entanto, a terra congela da embaixo era tão dura quanto as montanhas geladas ao norte. No verão, quando o calor penetrava no solo um pouco mais profundamente, o nível congelado abaixava, mas a camada de permafrost permanecia impenetrável. Não havia drenagem. Sob certas condições, a terra saturada transformava-se em traiçoeiros pântanos de areia movediça, capazes de tragar um gigantesco mamute. Se tal ocorresse nas proximidades de uma geleira, de deslocamento imprevisível, esse mamute poderia conservar-se congelado lá por todo um milênio.
De um céu cor de chumbo eram despejados pingos imensos que caíam numa poça negra que fora antes uma fogueira. Ayla observava as gotas caírem, criando crateras que se estendiam em anéis de lama. Naquele momento tudo o que queria era estar em sua boa e confortável caverna. Um frio que chegava aos ossos atravessava os seus calçados encharcados, mesmo estes tendo sido impermeabilizados com gordura e estando forrados com capim. Todo aquele pantanal de terra empapada esfriava o seu entusiasmo pela caçada.
Ela se dirigia a uma área onde o terreno se mostrava mais elevado, quando as poças começaram a extravasar, abrindo canaletas de água lamacenta que corria na direção do rio, carregando galhos, paus, capim e folhas velhas. “Por que simplesmente não vou embora daqui?”, perguntava-se, enquanto subia a ladeira, carregando as suas cestas para o alto.Ela levantou-lhe as tampas, espiando dentro. À chuva corria pelo trançado de folhas de taboa, mas o conteúdo no interior estava seco. “Não vai adiantar. Devia deixar Huiin carregar isso e ir embora de uma vez. Nunca vou conseguir pegar uma rena. Nenhuma vai cair no buraco, só porque eu desejo. Talvez possa apanhar um velho macho retardatário. Mas a carne é horrível de dura e o couro sempre já está muito estragado.”
Soltando um suspiro, enrolou-se mais apertada no manto de pele e no velho couro da barraca. “Mas não é possível! Há tanto tempo que estou planejando e trabalhando para essa caçada, que não vou permitir que uma chuvazinha boba estrague tudo. Talvez não pegue a rena, mas afinal essa não será a primeira vez que um caçador volta de mãos abanando. E se não tentar, aí mesmo é que nunca vou conseguir nada.”
Ela subiu numa formação rochosa quando as corredeiras ameaçaram minar a pequena elevação onde se achava. Com os olhos semicerrados, tentava enxergar através da chuva, procurando ver algum sinal de melhoria do tempo. Nenhuma árvore, nenhum bloco grande de pedra para abrigá-la naquele chapadão descampado. Ao seu lado, em meio ao aguaceiro, Huiin, com a crina pingando, também esperava pacientemente a chuva passar. A esperança era a de que as renas também estivessem esperando. Ela ainda não tinha tudo pronto. Quando a manhã ia pela metade, a sua disposição começou novamente a fraquejar, mas então não tinha vontade de se arredar do lugar.
Por volta do meio do dia, as nuvens, com a habitual imprevisibilidade da primavera, começaram a abrir-se e rajadas de vento se incumbiram de espalhá-las. Em pouco tempo, já não se via nenhum sinal delas no céu e as cores primaveris luziam numa cintilação úmida e fresca sob a luz de um glorioso sol. A terra, revigorada, soltava seus vapores, devolvendo a umidade à atmosfera que os ventos secos sugavam com avidez, como se soubessem que as geleiras iriam confiscar-lhes uma parte.
Se não a confiança, pelo menos a disposição voltou. Ela sacudiu o pesado couro de auroque e o dependurou num arbusto alto, esperando que desta vez ele secasse um pouco. Os pés estavam úmidos, mas não molhados. Ela re solveu não fazer caso. Aliás, tudo estava úmido. Dirigiu-se então para o lugar onde as renas iriam cruzar o rio. Mas o coração dela foi lá embaixo quando não viu o seu buraco. Olhando mais de perto, viu uma poça transbordando de lama e atolada com folhas, galhos e entulhos.
Cheia de determinação, foi buscar a cesta para esvaziar o buraco. No seu caminho de volta, tinha de olhar com muita atenção para poder ver de longe o lugar onde se achava a armadilha. De repente, sorriu. “Se para mim é difícil ver o buraco no meio de toda essa galharia e emaranhado de folhas, uma rena durante a corrida talvez não possa enxergá-lo também. Mas a água eu não posso deixar dentro... Deve haver uma outra maneira...
“...Galhos de salgueiro são bastante compridos, dariam para ser atravessados por cima do buraco. Ora, por que eu não poderia fazer uma cobertura com varas de salgueiro e folhas? Teria de ser pouco resistente para se partir com o peso da rena e ao mesmo tempo bastante forte para agüentar a carga de galhos e folhas.” Subitamente, ela deu uma risada alta. O cavalo relinchou respondendo e se aproximou.
- Oh, Huiin! Talvez essa chuva não tenha sido de todo má.Ela começou a esvaziar o buraco, sem se incomodar de estar fazendo um serviço sujo e nojento. A cova não era multo profunda, mas cavando, percebeu que o nível da água ficara mais alto. Só estava conseguindo enchê-lo ainda mais. Ao olhar para o rio, agitado e lamacento, reparou que também ele estava mais cheio. Embora não o soubesse, a chuva quente havia amolecido algo da camada subterrânea gelada que formava a base rochosa subjacente à superfície.
Camuflar o buraco também não foi tão fácil como imaginara. Teve de andar boa distância, batendo o terreno atrás de galhos de um salgueiro atarracado para conseguir ajuntar alguns caniços.
A larga camuflagem trançada afundou no meio quando ela foi colocá-la, obrigando-a a estaqueá-la ao redor do buraco. Depois de ter espalhado as folhas e ramas, pareceu-lhe que ainda continuava bastante visível. Não estava muito satisfeita, mas contava com que fosse dar certo.
Coberta de lama, voltou a caminhar rio abaixo, olhando ansiosa para o curso d'água. Assoviou para Huiin. As renas estavam mais longe do que tinha pensado. Se o terreno estivesse seco, estariam correndo para chegar rápida mente ao rio, mas com tanta água empoçada e canaletas abertas, não tinham pressa, podiam beber no momento em que quisessem. Ela estava certa de que só chegariam no costumeiro lugar de cruzar o rio na manhã seguinte.
Voltou para seu acampamento e tirou com prazer a roupa e os calça dos para se meter dentro do rio. Estava frio, mas ela não se importou. Acostumara-se. Lavou-se da lama, depois estendeu a roupa e os calçados sobre uma pedra. De tanto ficar fechados dentro do couro molhado, os pés estavam brancos e enrugados. Até a calosidade nas solas havia amolecido. Dava graças por existir aquele bloco de pedra ali. Estava quente do sol e era um lugar seco onde podia acender uma fogueira.
As ramas mortas na parte inferior dos pinheiros em geral se conservavam secas, mesmo sob forte aguaceiro, e o pinheiro, perto do rio, apesar da altura de um arbusto, não era exceção. Em instantes, com a ajuda das acenda lhas que sempre carregava e de suas pedras de fazer fogo, tinha uma pequena fogueira ardendo. Inicialmente, alimentou o fogo apenas com gravetos e pequenas lascas de madeira, até que desse para usar a lenha maior - de combustão mais lenta - que armou de uma forma cônica. Ela conseguia acender o fogo e conservá-lo vivo, mesmo sob chuva, desde que não fosse muito forte. Era apenas uma questão de dar partida e fazer com que o fogo estivesse bem pegado para então usar toras grandes que queimavam à medida que iam secando.
Ela deu um suspiro de felicidade ao sorver o primeiro gole de chá quente, depois de haver comido os seus bolos de viagem. Os bolos eram nutritivos e matavam a fome, além de práticos para serem levados em viagem, mas o chá quente era muito mais gratificante. O couro ainda estava molhado, mas ela armou assim mesmo a barraca, perto da fogueira para que ele se secasse enquanto dormisse. No céu, as nuvens a oeste tapavam as estrelas. A sua esperança era a de que não fosse chover outra vez. Depois de dar umas palmadinhas carinhosas em Huiin, meteu-se debaixo da pele, enrolando-a no corpo.
Estava escuro. Ayla, completamente imóvel, tinha os ouvidos alertas. Huiin se remexeu relinchando baixinho, e ela ergueu um pouco o corpo para olhar à sua volta. Uma luz fraca começava a surgir no oriente. Então ouviu um som que lhe eriçou os pêlos na nuca, compreendendo o que a fizera acordar. Poucas vezes o havia ouvido, mas sabia que o rugido vindo da margem oposta era o de um leão da caverna. Huiin relinchou nervosa e Ayla levantou-se.
- Está tudo bem, Huiin. É um leão, mas ele está longe - ela pôs mais lenha na fogueira. - Deve ter sido o rugido de um leão da caverna que ouvi mos quando acampamos aqui há uns tempos atrás. Parece que vivem no outro lado do rio. E certamente vão apanhai uma rena também. Dou graças por ser de dia quando formos atravessar o território deles e espero que estejam bem cheios com a rena enquanto estivermos passando por lá. Bom, vou fazer um chá. -, depois, teremos que nos aprontar.
A luz no céu já começava a ficar rosada quando ela terminou de arrumar as cestas e foi amarrar os arreios em Huiin. As lanças, atou-as firme mente nos suportes dentro das duas cestas e montou, sentando na frente destas, com um pau de cada lado, apontando as suas afiadas cabeças para o ar.
Partiu, então, ao encontro das renas, mas dando uma volta grande de modo a se colocar por trás da manada. Só depois que a avistou é que inter rompeu o galope de Huiin, pondo-se numa marcha mais lenta. A potranca pegou facilmente o passo da manada. Observando as renas de cima do cavalo, Ayla notou que o chefe delas, nas proximidades do rio, pôs-se a andar mais devagar, farejando de longe a estranheza daquela lama e folhas cobrindo a armadilha. Ela sentia que um nervosismo de alerta corria entre os animais.
Quando a primeira rena, usando a trilha alternativa, perfurou a compacta barreira de arbustos para chegar ao rio, Ayla resolveu que chegara o mo mento de agir. Respirou fundo e, soltando um berro alto, inclinou o corpo para a frente, ordenando a Huiin que disparasse na direção da manada.
As renas que iam atrás saltaram, passando adiante das que estavam à frente, empurrando-as para o lado. Apavoradas, todas queriam pular à frente, fugindo do assalto daquele cavalo com uma mulher aos berros em seu lombo. No entanto, pareciam evitar a trilha que conduzia à armadilha. Ayla, com o coração nas mãos, via os animais contornar, pular por cima ou arrumar um jeito de se esquivar do buraco.
Então reparou um tumulto acontecendo em meio à confusão da corrida, achando ter visto unia das galhadas afundando-se, enquanto as outras se agitavam, formando um redemoinho ao redor de um espaço vazio. Às pressas, arrancou as lanças dos suportes nas cestas, apeou do cavalo e se pôs a correr. Uma rena, com olhar desesperado, estava atolada no lamaçal do buraco, tentando sair. Desta vez, a pontaria foi certeira. A pesada lança cravou no pescoço, rompendo uma artéria. O belo animal tombou no fundo do buraco, deixando de lutar.
Estava terminado. Tudo acabado. Muito mais rapidamente e fácil do que ela tinha imaginado. Respirava ofegante, mas não de cansaço. Tantas energias foram gastas no planejamento - as preocupações, o nervosismo, o esforço de pensar - que a caçada em si, de tão fácil execução, não deu para extenuá-la. Ayla estava ainda tensa, mas não tinha como expandir as suas emoções e nem alguém com quem comemorar.
- Huiin! Conseguimos, conseguimos!
Os gestos e os gritos espantavam o animal. Ela saltou sobre ele, disparando numa esfuziante galopada pelas planícies. As tranças voavam às suas costas, os olhos ardiam febris, e um sorriso alucinado sombreava-lhe o rosto. Era uma mulher selvagem. Mais impressionante ainda tornava-se - se lá houvesse alguém para impressionar-se - montada num animal selvagem cujo olhar esgazeado e orelhas para trás davam-lhe, embora de natureza algo diferente, uma expressão francamente frenética.
Ela voltou fazendo uma curva muito aberta e parou o cavalo uru pouco antes para fazer a pé a distância que restava. Desta vez, olhando para a rena morta dentro do buraco lamacento, soltou um profundo suspiro de alívio e tinha boas razões para isso.
Já mais calma, retirou a lança do pescoço do animal e deu um assovio. Huiin mostrava-se desconfiada e, antes de colocar-lhe os arreios, Ayla tentou sossegá-la com carícias e palmadinhas encorajadoras. Sem o cabresto para conduzi-la, era preciso ir com jeito instigando e adulando ao mesmo tempo. Quando por fim Hulin acalmou-se, Ayla atou as cordas do arreio aos chifres da rena.
- Agora puxe, Huiin - dizia, animando. - É igual ao tronco.
O cavalo deu um passo para a frente, mas ao sentir o peso retrocedeu. Então, respondendo a expressões de encorajamento, veio à frente outra vez, inclinando o corpo contra os arreios e esticando as cordas. Vagarosamente, com Ayla ajudando de todos os modos possíveis, Huiin foi trazendo a rena para fora do buraco.
Ayla exultava. Isso já significava pelo menos não ter de trinchar o animal no fundo de um buraco barrento. Não sabia ao certo até que ponto Huiin estava disposta a colaborar. Contava com que o animal fosse usar a sua força para trazer a rena até o vale. Mas era preciso ir devagar, cada coisa de uma vez. Conduzia a potranca até a beirada do rio e retirou as plantas emaranhadas no chifre da rena. Em seguida, fez nova arrumação nos cestos, de modo a colocar um dentro do outro e os amarrou às costas. A carga era incômoda, principal mente com as duas lanças apontando para cima, mas com a ajuda de um bloco de pedra deu um jeito de montar. Os pés estavam descalços e a capa de pele ia embalada no colo para que não se molhasse. Por fim, tocou Huiin para dentro do rio.
Era uma parte larga e rasa que podia ser atravessada a pé - uma das razões por que instintivamente as renas haviam escolhido aquele trecho para fazer a travessia - mas com a chuva o nível das águas havia subido. Huiin conseguiu firmar o seu passo em meio às correntezas, e a rena logo que entrou na água facilmente flutuou. Passar pelo rio teve uma vantagem que Ayla não pensara. Quando chegou à outra margem a rena estava lavada, limpa da lama e do sangue.
Ao sentir o peso da carga novamente, Ruim por instantes quis emperrar, mas Ayla já havia apeado e a ajudou a rebocar a rena até a praia. A distância era pequena. Ela desatou as cordas. A rena agora já estava um pouquinho mais perto do vale, mas antes de prosseguirem havia alguns serviços a fazer. Com a sua afiada faca de sílex ela fez um talho na garganta da rena, e, em seguida, um corte reto que ia do ânus, passava pela barriga e o peito, e chegava até a garganta. A faca, ela a segurava pondo o indicador ao longo do lado cego, com a parte afiada voltada para cima e inserida logo abaixo da pele. Se o primeiro corte fosse bem-feito, sem cortar a carne, a retirada da pele depois ficava muito mais fácil.
O corte seguinte já foi mais profundo, era para remover as entranhas. As partes aproveitáveis - estômago, intestinos e bexiga - ela lavou-as e tornou a guardá-las na cavidade abdominal, junto com as outras comíveis.
Uma esteira larga estava enrolada dentro de uma das cestas. Ela a estendeu sobre o chão e, bufando com o esforço, puxou a rena para cima do trançado de fibras. Dobrou-o sobre a carcaça do animal, fazendo um embrulho amarrado com cordas, que atou às outras presas ao arreio de Ruim. Refez, em seguida, as cestas, apertando firmemente as lanças em seus lugares. Sentindo-se satisfeita, tornou a montar no cavalo.
Na terceira vez que apeou para retirar os bolos de capim, pedras e galhos que tinham amontoado na esteira, já não se sentia muito satisfeita. Acabou resolvendo caminhar ao lado de Ruim para animá-la, mas o embrulho da rena ficou engastalhado em alguma coisa e ela foi soltá-lo. Somente quando parou, para vestir os seus calçados é que reparou num bando de hienas perseguindo-a. As primeiras pedradas serviram para mostrar àqueles bichos ardilosos e sanguinolentos o alcance de seus tiros. Que eles tratassem de manter-se a distância.
“Porcaria de animal fedorento”, pensou com um arrepio de nojo, franzindo a cara. Ayla sabia que as hienas também caçavam e bem demais, infelizmente. Ela já matara uma delas com a sua funda. Foi quando dera a conhecer o seu segredo e o clã ficou sabendo que caçava. Na ocasião, Brun não teve outro remédio senão castigá-la, assim exigiam as tradições dos clãs.
As hienas também deixavam Ruim nervosa. E não era por causa do me do instintivo que lhe despertavam os animais carnívoros. Jamais esquecera do bando de hienas que a atacou quando Ayla matou a égua. E, agora, a potranca mostrava-se bastante indócil. Levar a rena até a caverna estava tornando-se um problema bem maior do que Ayla previra. Contava que fossem dar conta do trabalho antes do anoitecer.
Ela parou para descansar num lugar onde o rio, após muitos volteios, tornava a encontrar-se. Todas aquelas paradas e retomadas do caminho eram muito cansativas. Encheu de água o seu odre e uma grande cesta impermeável que levou para Ruim, ainda amarrada à trouxa enlameada que continha a rena. Ela sentou-se sobre uma pedra para comer um bolo de viagem e olhava para o chão sem enxergá-lo. Pensava apenas numa maneira mais fácil de botar a rena no vale. Levou bom tempo até que percebesse certas alterações no terreno. A terra estava pisada, a relva amassada e as pegadas eram frescas. Algum acontecimento convulsionando a ordem das coisas se passara ali e muito recentemente. Ela levantou-se para examinar de perto os rastos e aos poucos as peças foram juntando-se.
Pelas pegadas na lama seca perto do rio concluiu que se achava num território há muito ocupado por leões da caverna. Imaginava que houvesse um pequeno vale nas redondezas, com algum paredão rochoso dotado de uma caverna bem abrigada, onde uma leoa teria parido dois saudáveis leõezinhos no princípio do ano. E aquele era o lugar preferido dos animais descansarem. Os filhotes estariam disputando algum pedaço sangrento de carne, mordiscando pequeninos nacos com os seus dentes de leite, enquanto os machos, saciados, se regalavam ao sol da manhã e as mamães de pêlos lustrosos observavam com indulgência a brincadeira dos filhos.
Os majestosos leões eram senhores absolutos de seus domínios. Nada tinham a temer, nenhuma razão para esperar um ataque de animais que eram suas presas. Em circunstâncias normais, as renas jamais chegariam tão perto de seus caçadores, mas aquele ser humano berrando loucamente em cima de um cavalo as tinha posto em pânico. O rio não foi suficiente para interromper o estouro da manada. Os animais dispararam através das águas e se depararam com uma família de leões. Os dois lados foram tomados de surpresa. As renas quando perceberam que haviam escapado de um perigo para se lançarem a um outro ainda maior se espalharam em todas as direções.
Pelos rastos, Ayla conseguiu reconstituir toda a história. E, agora, ali estava um filhote de leão que, ainda muito novinho e lento, não tinha conseguido pôr-se a salvo do tropel de cascos fugindo em disparada.
Ayla se ajoelhou ao lado do leãozinho e, como boa curandeira, procurou por sinais de vida. O corpo do animal se achava quente e talvez estivesse com algumas costelas quebradas. Estava à morte, mas ainda respirava. Pelas marcas na terra, ela deduzira que a leoa vira o filhote e tentara reanimá-lo. Como não conseguiu, foi embora, seguindo a lei que rege todos os animais (exceção feita para aquele que caminha sobre as suas duas pernas): que morram os fracos, se a vida está destinada para alguns.
Apenas no animal dito humano a sobrevivência está na dependência de algo mais do que na força e capacidade de adaptação. Comparativamente fraco em relação aos seus rivais carnívoros, a sobrevivência do homem necessita da cooperação e solidariedade de seu semelhante.
“Pobre bichinho”, pensou Ayla. “Sua mãe não conseguiu ajudá-lo, não é?” Aquela não era a primeira vez que o seu coração se apiedava de animais feridos e indefesos. Por um momento, pensou em levar o leãozinho para a caverna, mas rápido descartou a idéia. No tempo em que estava aprendendo o seu ofício de curandeira, Brun e Creb lhe haviam dado licença para tratar de pequenos animais dentro da caverna. Mas Brun não lhe permitira trazer um filhote de lobo e aquele leãozinho já era quase como um lobo adulto. Algum dia teria o tamanho de Huiin.
Ela se levantou e abanou pesarosa a cabeça olhando para o animal moribundo. Encaminhou-se na direção de Huiin, fazendo votos para que o fardo que levava arrastado não fosse encalhar tão cedo. Ao se pôr a caminho, notou que as hienas estavam preparando-se para segui-la. Ela pegou uma pedra, mas ao virar-se viu que o bando tomava outra direção. Era de se esperar. Assim se passava a vida no nicho que a natureza lhes havia reservado. As hienas tinham encontrado o filhote de leão. Ayla, entretanto, quando se tratava desse animal, se tomava completamente irracional.
- Vão embora, suas fedorentas! Deixem o bichinho em paz!
Ela correu de volta, lançando pedras. Pelo ganido de dor de uma, viu que acertara em cheio. As hienas trataram de correr, pondo-se fora do alcance das pedradas, mas Ayla, tomada de raiva, partiu para cima delas.
“Bom, dessa vez vão ficar sabendo do seu lugar”, disse para si mesma, protegendo o filhote, aninhado entre as suas pernas abertas. Um sorriso de descrença passou-lhe pelo rosto. “Mas o que estou fazendo? Por que estou afastando essas hienas de um bichinho que de qualquer modo vai morrer? Além disso, se ele ficasse para as hienas, elas me deixariam em paz.”
“Não posso levar esse leão comigo. Não agüentaria carregá-lo durante todo o caminho. A única coisa que tenho de fazer é dar com a rena no vale. É ridículo o que estou pensando.”
“Será que é? E se lia tivesse me abandonado? Creb disse que eu fui posta no caminho dela pelo espírito de Ursus, ou talvez pelo Leão da Caverna, pois ninguém, a não ser ela, iria parar para me pegar. Iza nunca pôde ver ninguém ferido ou doente sem tentar dar urna ajuda. Foi isso que fez dela uma boa curandeira.
“E eu também sou uma curandeira. Aprendi com lia. Quem sabe se esse filhote de leão não foi posto em meu caminho para que eu o encontrasse? Quando peguei aquele coelhinho, o primeiro animal que levei para a caverna, Iza disse que isso significava que eu tinha jeito para curandeira. Bem, e agora tenho aqui esse bichinho ferido. Não posso simplesmente abandoná-lo a essas feras nojentas.
“Mas como vou conseguir dar com esse bebê na caverna? Uma costela quebrada pode perfurar um pulmão, se eu não tiver cuidado. Ele precisa ser enfaixado para que eu possa removê-lo daqui. A correia que uso para puxar Huiin deve servir. Trouxe algumas comigo.”
Ayla assoviou chamando o cavalo. Excepcionalmente, a carga que Huiin arrastava não bateu em nada, mas a potranca estava inquieta. Ela não gostava de estar no território dos leões da caverna. A sua espécie também era presa natural dos leões. Desde a caçada que estava nervosa e as paradas constantes para livrar a sua pesada carga dos obstáculos no caminho só faziam irritá-la ainda mais.
Ayla, no entanto, toda concentrada no filhote de leão, não prestava atenção às necessidades de Huiin. Depois de envolver as costelas do animal ferido, a única maneira que estava vendo de transportá-lo seria no lombo de Huiin.
Mas isso era demais para a potranca. Quando percebeu a intenção de Ayla, ela deu para trás. Tomada de pânico, bufava, empinando-se, querendo a todo custo livrar-se da tralha acorrentada nela. Então, aos pinotes, saiu pelas estepes. A rena, embrulhada na esteira de palha, ia sacolejando com os trancos, até que acabou engastada numa pedra. O freio veio aumentar ainda mais o pânico, provocando um novo surto de frenéticos pinotes.
De repente, as correias se partiram e as cestas se inclinaram, desequilibradas pelas pesadas lanças. De boca aberta, Ayla via, pasma, o cavalo inteira mente possesso disparar numa carreira furiosa. Todo o conteúdo das cestas, exceto as lanças, foi despejado no chão. Os dois comprido paus, por estarem muito seguros nas cestas amarradas à cilha, saíram arrastados, insuficientes para travar a corrida desembestada de Huiín.
Ayla, que dava tratos à bola para descobrir uma maneira de levar a rena e o filhote de leão, subitamente viu o que buscava. Foi preciso esperar algum tempo até Huiin se acalmar. Ela estava preocupada, com medo da égua se machucar. Assoviou chamando-a. A sua vontade era ir atrás de Huiin, mas não queria largar a rena e o leãozinho à santa misericórdia das hienas. O assovio surtiu efeito. O som em Huiin estava associado a carinho, segurança e resposta a estes estímulos. Fazendo uma curva aberta, o cavalo voltou na direção de Ayla.
Quando finalmente a potranca, exausta, coberta de espuma, aproximou-se, a única coisa que fez Ayla foi, aliviada, abraçá-la. Depois de desatar os arreios e a cilha, examinou com cuidado para ver se não havia ferimentos. Huiin, ofegante, relinchando baixo e tristemente, encostou-se nela com as patas dianteiras separadas e trementes.
- Descanse, Huiin - falou Ayla quando o cavalo parou de tremer, pa recendo mais calmo. - Vou precisar mesmo de tempo para arrumar essas coisas.
Não passou pela cabeça de Ayla se zangar com o animal por ter ele empinado, fugido e derramado no chão as suas coisas. Ela não pensava nele como propriedade sua, ou como qualquer coisa que estivesse às suas ordens. Huiin era antes de tudo uma amiga, uma companhia. Se o cavalo entrara em pânico, teve boas razões para isso. Ela exigira demasiado dele. Ayla sentiu que não era o caso de querer dar uma lição e sim de que ela devia conhecer os seus limites. No seu pensamento, a ajuda que tinha de Huiin se fazia por livre e espontânea vontade, e ela cuidava do cavalo simplesmente por amor.
Ayla apanhou o que deu para encontrar dos objetos espalhados pelo chão e, em seguida, foi arrumar o conjunto formado pela cilha, arreios e cestas. As lanças, ela as prendeu do modo como haviam caído: com as pontas voltadas para o chão. Atou a esteira, com que enrolara a rena, às lanças, for mando uma plataforma entre os dois paus, como se fosse uma carroceria que não tocava no chão. Amarrou a rena à esteira e, por último, com muito cuidado, o leãozinho desmaiado. Só então descansou. Huiin parecia estar aceitando melhor a cilha e os arreios, permanecendo quieta, enquanto Ayla fazia as arrumações.
Uma vez as cestas colocadas nos devidos lugares, deu uma última olhada no filhote de leão e montou no lombo de Huiin. No caminho para o vale, admirava-se da eficiência do novo meio de transporte. Somente com as pontas dos paus arrastando no chão, sem a carga estar a todo instante chocando contra obstáculos, o cavalo puxava o peso muito mais facilmente. Ayla, no entanto, só soltou realmente um suspiro de alívio quando se viu no vale e em sua caverna.
Antes ela ainda fez uma parada para que Huiin descansasse e tomasse um pouco de água, enquanto examinava o filhote. Ele respirava, mas ela tinha dúvidas se viveria. “Por que teria sido posto um leãozinho no meu caminho?”, perguntava-se. Mal havia ela batido os olhos no animal, pensara no seu totem. Será que era desejo do Leão da Caverna que ela tratasse do filhote?
Então um outro pensamento ocorreu-lhe. Se não tivesse resolvido trazer o leãozinho, nunca teria pensado naquele meio de transporte tão cômodo. Seria o modo usado pelo seu totem para lhe fazer essa revelação? Seria, então, uma graça que estava recebendo? Bom, sendo ou não, ela estava convencida de que o leãozinho fora posto em seu caminho por alguma razão e faria o que estivesse ao seu alcance para salvar a vida dele.
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