O Vale dos Cavalos
Capítulo 15
- Você está indo muito bem, Jondalar.Ainda vamos fazer de você um homem do rio - falou Carlono. - Num barco grande não tem muita importância se você perder uma remada. O pior que pode acontecer é atrapalhar o ritmo dos outros, já que você não é o único remador. Agora, em barcos pequenos como este, o controle é importante. Falhar uma remada pode ser muito perigoso e até fatal. Nunca deixe de prestar atenção no rio. Não se esqueça de que ele é imprevisível. Aqui parece calmo porque é profundo. Mas basta você mergulhar um pouco o remo para perceber a força da correnteza. É difícil lutar contra ela, precisa-se de jeito.
Enquanto manobravam a pequena piroga de dois homens nas proximidades da doca dos ramudoi, Carlono prosseguia nos seus comentários. Jondalar ouvia vagamente. Estava mais preocupado com o manejo de seu remo e em levar o barco na direção certa. Os seus músculos, entretanto, estavam atentos ao sentido da conversa de Carlono.
- Você pode pensar que seja mais fácil descer o rio porque não precisa lutar contra a correnteza. Mas aí é que está justamente o problema. Quando você vai contra o fluxo das águas, você tem a sua atenção constantemente presa ao barco e ao rio, pois sabe que, se esmorecer, perde tudo o que ganhou. Além disso, você tem tempo para desviar de alguma coisa que de repente surja na sua frente. Já descendo, é fácil você afrouxar o ritmo e se deixar levar pelos seus pensamentos ao mesmo tempo em que as águas vão arrastando-o. Mas o leito do rio está cheio de pedras e muitas assentadas bem no fundo. A correnteza pode atirá-lo para cima de uma delas, antes mesmo que você se dê conta. Outras vezes são toras encharcadas, meio submersas, que podem dar um encontrão no barco quando menos se está esperando. “Nunca dê as costas para a Mãe Essa é uma regra que não pode ser esquecida. A Mãe é cheia de surpresas. Quando você mais acha que tem tudo sob controle, que está tu do certo, é que ela se sai com alguma coisa inteiramente inesperada.
O velho relaxou o corpo e pôs o remo para fora da água. Com ar pensativo, examinava Jondalar, reparando na concentração do rapaz. Os cabelos louros estavam puxados para trás e amarrados na nuca por uma tira de couro, se revelando uma boa medida. Jondalar havia adotado os trajes dos ramudoi, igual aos dos shamudoi, apenas com algumas modificação de modo a torná-lo mais apropriado à vida na ribeira.
- Por que você não vai para a doca e me deixa lá, Jondalar? Acho que já é tempo de você experimentar sozinho. É diferente quando está só a pessoa e o rio.
- Você acha que já estou preparado para isto?
- Para alguém que não nasceu nisso, até que aprendeu muito depressa.
Jondalar estava doido para pôr à prova as suas habilidades de remador. Os garotos ramudoi geralmente tinham as suas pirogas antes de se tomarem homens feitos. Entre os zelandonii, há muito ele já se provara como homem. Quando era pouco mais velho do que Darvo, antes mesmo de haver aprendido o seu oficio e de se tomar rapaz, já tinha matado o seu primeiro cervo. E agora era capaz de atirar uma pesada lança mais longe do que a maioria dos homens. No entanto, ali não se sentia à altura dos outros, se bem que na planície fosse bom caçador. Nenhum ramudoi podia considerar-se verdadeiramente homem enquanto não houvesse arpoado um bom esturjão, tal como na terra nenhum shamudoi seria digno de ser chamado homem se não tivesse matado uma camurça nas montanhas.
Jondalar decidira que só tomaria Serenio para companheira depois que tivesse provado a si mesmo que tinha condições de ser tanto um shamudoi co mo um ramudoi. Dolando tentara convencê-lo de que não havia necessidade de nenhuma das duas coisas. Ninguém duvidada dele. Se alguém quisesse alguma prova, a caçada do rinoceronte era mais do que suficiente. Jondalar ficara sabendo que até então eles nunca haviam caçado rinocerontes. A planície, em geral, não era o terreno deles.
Jondalar não sabia e nem procurava entender o porquê dessa sua necessidade de se provar melhor do que alguém. Até então nunca se sentira obriga do a sobrepujar os efeitos dos outros caçadores. O seu maior interesse eram instrumentos de pedra e, na verdade, a única coisa em que gostava de sobres sair era no seu ofício de ferramenteiro. Mas não num sentido competitivo. Encontrava imensa satisfação pessoal em trabalhar e desenvolver a sua técnica. Mais tarde, numa conversa particular com Dolando, o shamud comentou com esse que o homem dos zelandonii agia dessa maneira devido à sua necessidade de se ver aceito.
Há tanto tempo já estava vivendo com Serenio, que ele sentia necessidade de formalizar a sua união. Praticamente ela já era sua companheira. A maioria das pessoas pensava nos dois nesses termos. Ele a tratava com consideração e afeto e, para Darvo, era o homem da casa. Mas depois da noite em que Tholie e Shamio se queimaram, sempre surgia uma coisa ou outra que parecia interferir, além de que lhe estava faltando um certo estado de espírito. Fera tão fácil ir levando a vida com ela. Será mesmo que precisava? Perguntava-se ele.
Serenio não pressionava. Continuava sem exigir nada e como sempre mantendo-se em sua reserva defensiva. Entretanto, nos últimos tempos, Jondalar surpreendia-a olhando para ele, de forma persistente, com um olhar parecendo brotado nas profundezas de sua alma. Era ele quem ficava desconcertado e o primeiro a desviar a vista. Resolveu, então, impor-se a tarefa de pro var que poderia ser um perfeito sharamudoi e deixou que suas intenções ficas sem conhecidas de todos. Alguns viram isso como um anúncio de compromisso, embora nenhuma festa fosse dada para celebrar o acontecimento.
- Não vá muito longe por enquanto - avisou Carlono quando saía da pequena canoa. - Primeiro procure aprender a manobrá-la sozinho. Dê essa chance a você.
- Vou levar o arpão comigo. Já que estou nisso, não faria mal se aprendesse também a usá-lo - falou Jondalar, indo buscar a arma que se achava na doca. Ele a acomodou no fundo da canoa, debaixo dos assentos e junto enrolou a corda. Em seguida, a ponta farpada do osso no suporte fixado na amurada, amarrando-a por baixo. A extremidade de um arpão com sua afiada ponta provida de farpas não era coisa que se deixasse solta num barco. Em caso de acidente, seria tão difícil arrancá-la das carnes de um peixe como das de uma pessoa. Raramente as pirogas que viravam iam ao fundo, mas a tralha que levavam ia.
Jondalar instalou-se no assento traseiro, enquanto Carlono segurava o barco. Quando sentiu que o arpão estava amarrado bem firme, ele pegou o re mo de duas pás e deu a partida. Sem o lastro de outra pessoa sentada à frente, a pequenina embarcação navegava mais à superfície - Era difícil manobrá-la, mas uma vez acostumado com o novo empuxo de flutuabilidade, ele rápida mente deslizou pelo rio abaixo, usando o remo apenas como leme, posto do lado de fora, perto da popa. Resolveu, então, remar rio acima. Seria mais fácil lutar contra a correnteza enquanto estava ainda descansado e depois deixar que ela o arrastasse de volta.
Ele havia descido o rio, bem mais do que imaginara. Quando viu a doca aproximando-se, por pouco não se dirigiu para lá, mas mudou de idéia e seguiu adiante. Estava decidido a vencer todos os desafios que estabelecera para si, e esses eram muitos. Com isso ninguém - sobretudo ele mesmo - poderia acusá-lo de estar ganhando tempo e protelando o compromisso que prometera assumir. Sem diminuir o ritmo, sorriu para Carlono que lhe acenava.
Mais acima o rio alargava e a correnteza perdia um pouco de sua força, ficando mais fácil remar. Ele avistou na margem oposta uma faixa de areia e se dirigiu para lá. Era uma pequena praia sombreada por salgueiros. Remou para perto, passando com o seu barco facilmente sobre os bancos de areia. Então relaxou um pouco, permitindo que o barco deslizasse de costas, governando-o com o remo. Distraidamente observava a água quando, subitamente, teve a atenção despertada para uma forma grande e silenciosa sob a superfície.
Ainda estava cedo para esturjões. Normalmente subiam o rio no princípio do verão, mas a primavera chegara quente e prematuramente, com pesa dos aguaceiros. Ele olhou mais de perto e enxergou outros peixes, enormes, deslizando suavemente sob a água. “Eles estão emigrando!” Era a sua grande chance. 'Poderia pegar o primeiro esturjão do ano!”
Levantou o remo e pegou as partes do arpão para armá-lo. Sem controle, a canoa volteou, levada ligeiramente de banda pela correnteza. Quando ele amarrou a corda na proa, a piroga estava enviesada na correnteza, mas firme. Impaciente, aguardou a chegada dos próximos peixes. Não ficou desapontado. Uma enorme forma escura ondulava na sua direção. Agora sabia de onde viera o “peixe Haduma” e do tamanho do Haduma havia uma quantidade ali.
Pescando com os ramudoi, Jondalar aprendeu que a água desvirtua a verdadeira posição do peixe. O animal nunca está onde parece estar. Essa foi uma maneira que a Mãe usou para esconder os peixes, até que um dia teve o seu segredo revelado. Quando o esturjão se aproximou, ele ajustou bem a sua pontaria de modo a compensar a refração da água. Jogou o corpo um pouco para o lado, esperou e lançou o arpão da proa.
Com igual força, o pequeno barco foi jogado na direção oposta: da posição enviesada em que se achava para a correnteza central. Mas Jondalar acertara no alvo. A ponta do arpão ficara enterrada no gigantesco esturjão...- só que um tanto duvidosamente. O peixe estava longe de se dar por vencido. Ele procurou as águas mais profundas do meio do rio, nadando contra a corrente. A corda rapidamente se desenrolou, até que, com um forte puxão, se retesou na água.
A canoa sacolejou, quase atirando Jondalar para fora. Enquanto ele ten tava agarrar-se à amurada, o remo pulou, ficou por instante balançando e caiu no rio. Jondalar soltou as mãos e foi debruçar-se para apanhá-lo. A canoa virou. Neste momento, o esturjão, encontrando a corrente central para subir o rio, miraculosamente dá um encontrão na canoa, endireitando-a e jogando Jondalar - agarrado ao casco - para dentro. Ele se sentou, esfregando um ferimento em seu queixo, enquanto a piroga era rebocada, águas acima, numa velocidade que jamais ele conhecera na vida.
Agarrado na amurada, chegou para frente, vendo as margens desfilarem pelos seus olhos esbugalhados, pasmos de admiração e medo. Ele apanhou a corda esticada dentro da água e lhe deu alguns puxões, achando que poderia arrancar o arpão. Ao invés disso conseguiu que a proa fosse para baixo, mergulhando tanto que chegou a entrar água dentro da canoa, O esturjão saracoteava, jogando a pequenina embarcação de lá para cá, enquanto Jondalar, preso à corda, gingava o corpo de um lado para outro.
Ele não viu quando passaram pela clareira onde se achavam os barcos em construção e nem enxergou as pessoas na praia, olhando, de boca aberta, a piroga subindo o rio no rasto de um enorme peixe, com Jondalar agarrado a uma corda e lutando para desvencilhar o arpão.
- Vocês viram aquilo? - perguntou Thonolan. - O meu irmão indo atrás de um peixe fugindo? Acho que não me falta mais nada para ver nesse mundo - o seu sorriso transformou-se numa gostosa risada. - Vocês viram Jondalar pendurado naquela corda, tentando soltar aquele peixe? - dizia dando tapas nas coxas, sem se agüentar de tanto rir. - Ele não pegou um peixe. O peixe é que o pegou.
- Thonolan, isso não tem graça nenhuma - falou Markeno, fazendo força para se manter sério. - O seu irmão está em dificuldade.
- Disso sei eu. Mas vocês viram? Ele, subindo o rio, arrastado por um peixe?
Thonolan, ainda rindo, ajudou Markeno e Barono a suspender um barco para colocá-lo dentro da água. Também Dolando e Carolo entraram. Eles deram a partida e se puseram a remar o mais rápido que podiam no sentido da montante. Jondalar estava em dificuldade. Podia estar realmente em perigo.
O esturjão já não se mostrava com muita força. O arpão estava consumindo-lhe a vida, e mais o barco e o homem que ele arrastava junto. A vertiginosa corrida começava a perder a sua impetuosidade. Isso deu tempo para Jondalar pôr as idéias em ordem. Ele continuava sem qualquer controle. Não tinha noção do lugar em que poderia parar. Havia subido demasiadamente o rio. Achava que nunca havia ido tão longe, desde que lá chegara em meio a uma tempestade de neve e ventos ululando à sua volta. De repente ocorreu-lhe que poderia cortar a corda. Não tinha cabimento ser arrastado para terrenos tão distantes.
Ele soltou a mão da amurada para pegar a faca. Enquanto tirava-a da bainha, o esturjão, reunindo as suas últimas forças, tentou livrar-se das dolorosas farpas cravadas em sua carne - O peixe se debatia e lutava com tamanha violência que a proa o acompanhava em cada um de seus mergulhos. Emborcada, a canoa ainda flutuaria, mas virada para cima e cheia de água iria ao fundo. Em meio a balanços, mergulhos e sacolejos, Jondalar se esforçava para cortar a corda. Com isso só foi ver a tora encharcada que vinha na direção dele, arrastada a toda velocidade pela correnteza, quando ela se chocou contra a canoa, arrancando-lhe a faca da mão.
Ele logo se recuperou. Procurou dar um puxão na corda, de modo a afrouxá-la. Assim talvez a canoa não mergulhasse tão perigosamente. Num derradeiro e desesperado esforço para se libertar, o esturjão arremessou-se na direção da margem, conseguindo finalmente expulsar o arpão de sua carne. Mas era tarde demais. Os últimos vestígios de vida escoaram pelo rasgão aberto em seu flanco. A enorme criatura foi ao fundo do rio para, em seguida, voltar à tona e, de barriga para cima, ainda estremecer-se pela última vez, dando testemunho da prodigiosa luta travada pelos primitivos peixes.
O rio, em seu longo e sinuoso curso, fazia uma pequena curva no lugar em que o esturjão escolheu para morrer, lá criando um conflito de correntezas na curva e no remanso redemoinhoso perto da praia, para onde o último mergulho do esturjão o levara. A canoa, puxando uma corda bamba, balançava batendo contra o peixe e a tora que com ele dividia a última morada no espaço entre o remanso e o fluxo das águas.
Nesse meio tempo Jondalar pensava na sorte que tivera por não haver cortado a corda. Sem remo, não conseguiria controlar a canoa se ela começas se a descer o rio. A praia estava perto: uma estreita faixa rochosa que se encolhia ao redor da curva para formar um íngreme barranco com árvores tão perto da margem que as raízes nuas irrompiam pela terra, como se quisessem agarrar o ar para suporte. Talvez ele pudesse arrumar lá qualquer coisa que lhe servisse de remo. Preparou-se para mergulhar. Respirou profundamente e saltou para fora da canoa.
Era mais fundo do que esperava. O seu corpo estava todo mergulhado e, com os seus movimentos na água, a canoa se mexeu pegando o rumo da cor rente central, enquanto o peixe veio para mais perto da praia. Jondalar começou a nadar atrás da piroga, tentando agarrar a corda. Mas a barquinha, muito leve, mal roçava a superfície, indo embora com rodopios, saltitante, numa velocidade muito maior do que a dele.
A água gelada deixava o seu corpo dormente. Ele se virou na direção da praia e se dirigiu para o esturjão que, batido pelas correntes, era atirado contra o barranco. Ele o agarrou pela boca e o arrastou. Não havia motivos para que fosse abandoná-lo. Puxou-o só um pouco para dentro da praia, pois estava muito pesado, mas esperava que a água não chegasse lá. “Bom”, pensou, “sem barco não preciso mais de remo, mas talvez possa arranjar um pouco de lenha para fazer uma fogueira” Ele estava encharcado e morrendo de frio.
Quando foi pegar a sua faca só encontrou uma bainha vazia. Esquecera que a havia perdido no rio e outra não possuía. Tinha o costume de carregar uma faca extra na sacola que levava amarrada à cintura, mas isso no tempo em que usava os seus trajes zelandonii. Desistira da sacola quando passou a vestir-se à maneira ramudoi. Talvez conseguisse uma tábua e um pau para fazer fogo. Mas como cortar madeira sem uma faca? E gravetos? E acendalhas, co mo raspá-las nas plantas? Estava tremendo de frio. “Bom, pelo menos ajuntar um pouco de lenha eu posso.”
Ele olhou ao seu redor, escutando o barulho de qualquer coisa correndo no meio do mato. O chão era musguento, coberto de folhas e madeira podre. Nenhum galho seco por ali. “Mas você pode conseguir lenha miúda”, pensou, enquanto olhava procurando por pinheiros para pegar os galhos secos que ficam presos sob as ramagens verdes. Mas aquela não era uma floresta de pinheiros como as que existiam em sua terra. O clima ali era mais ameno. Não sofria tanto as influências das geleiras do norte. Era frio, mas úmido. Uma floresta de clima temperado e não boreal. As árvores eram aquelas com que se fabricavam os barcos: de madeira dura.
Ao redor dele encontrava-se uma floresta de carvalhos e faias com uns tantos p de salgueiros e carpas: árvores de grossos troncos cascudos e marrons, ou, se fossem mais finos, com cascas cinzentas e macias. Mas lenha miúda mesmo não havia nenhuma por ali. Era primavera, até mesmo os brotos estavam cheios de seiva, deitando botões. Ele já havia aprendido um pouco e sabia que não era fácil 'cortar aqueles galhos rígidos e resistentes, mesmo com um bom machado de pedra. Novamente estava tremendo e batendo com os dentes. Procurava aquecer-se esfregando as palmas das mãos uma na outra, mexendo com os braços e correndo sem sair do lugar. Outra vez escutou o barulho no matagal perto. “Deve ser algum animal que estou incomodando”, disse para si mesmo.
Foi, então, que pensou na seriedade de sua situação. “Sem dúvida irão sentir a minha falta e virão me procurar. Thonolan iria reparar que não estou lá. Ou será que não?” Os seus caminhos cada vez se cruzavam menos, principalmente porque Jondalar estava mais envolvido com o modo de vida dos ramudoi, enquanto Thonolan cada vez mais se transformava num autêntico shamudoi. Jondalar nem sabia por onde andava o seu irmão naquele dia, talvez caçando camurça.
“Bom, Carlono viria. Viria mesmo? Afinal, ele me viu subindo o rio na canoa... Hi, a canoa! Ela escapuliu!”, pensou, estremecendo-se, mas não de frio. “Se encontrarem a canoa sozinha, vão pensar que eu me afoguei. Por que me viriam procurar se estão achando que morri afogado?” Novamente ele se pôs a pular, batendo com os braços e correndo sem sair do lugar. Nada o fazia parar de tremer e ele já começava a ficar cansado. Não era possível continuar pulando indefinidamente.
Sem fôlego e tiritando violentamente, sentou-se no chão com o corpo enroscado, tentando manter-se aquecido. Outra vez ouviu o mesmo barulho, agora mais perto. Preferiu ignorar. Mas então surgiu-lhe diante dos olhos um par de pés, sujos, descalços e... - humanos.
Ao levantar os olhos, foi tamanho o susto que quase deixou de tremer. Em frente dele, a uma pequena distância, estava uma criança com dois enormes olhos castanhos escondidos pelos supercílios extremamente salientes. Um cabeça-chata! Um garoto cabeça-chata!
Ele se via alvoroçado com a surpresa e quase esperava que o animalzinho corresse e voltasse para o mato, já que fora surpreendido. Mas não. Continuava de pé, sem se mexer. Por alguns instantes, ficaram os dois se examinando, até que Jondalar percebeu algo como gestos de aceno, pelo menos era o que lhe pareciam os movimentos contrafeitos que a coisa fazia na sua direção. O cabeça-chata tomou a repetir os gestos, agora fazendo menção de dar um passo para trás.
“O que será que ele estava querendo? Será que deseja que eu o acompanhe?” Quando o cabeça-chata voltou a fazer os mesmos gestos, Jondalar se encaminhou na sua direção, certo de que ele ida fugir. Mas não. Ele apenas deu mais um passo para trás, repetindo mais uma vez o gesto. Jondalar pôs-se a segui-lo, no princípio devagar, depois num passo mais rápido, intrigado e ainda tremendo de frio.
Instantes depois, estavam passando pela moita de arbustos que encobria uma pequena clareira. Ali ardia uma fogueira da qual se desprendia muito pouca fumaça. Uma fêmea levantou os olhos, assustada. Cheia de medo, ela se afastou quando Jondalar procurou pelo calor trêmulo da fogueira. Agradecido, sentou-se agachado junto do fogo. Com o canto dos olhos percebia as duas criaturas agitando as mãos enquanto emitiam alguns sons guturais. A sua impressão era a de que conversavam, mas ele estava mais interessado em aquecer-se e o seu único desejo naquele momento era possuir uma boa pele para cobrir-se.
Não prestou atenção quando a fêmea sumiu atrás dele e, de repente, apanhado inteiramente desprevenido, sentiu uma pele sendo colocada sobre os seus ombros. Antes que a fêmea abaixasse a cabeça e saísse de gatinhas, ele surpreendeu-lhe um pálido brilho nos olhos castanhos. Sentia que ela tinha medo dele.
Por fim, ajudado pelo fogo, a pele e a sua roupa de camurça que, apesar de molhada, sempre esquentava um pouco, Jondalar conseguiu aquecer-se o suficiente para deixar de tremer. Foi então que se deu conta do lugar onde se encontrava. “Nossa Mãe! Isso é um acampamento de cabeças-chatas!” Subitamente, atinando com a procedência daquela fogueira, recuou as mãos que mantinha estendidas na direção das chamas, como se as sentisse queimando.
“Fogueira! Eles usam fogueiras?” Hesitante, estendeu outra vez as mãos na direção do fogo, como se não acreditasse no que os seus olhos viam e tivesse de tocar para crer. Reparou na pele pendurada em seus ombros. Segurou uma ponta e esfregou-a entre os dedos. “E de lobo”, concluiu. “E está muito bem curtida. Como é macia. O lado de dentro, então, é perfeito. Duvido que os sharamudoi fizessem melhor.” A pele parecia não estar cortada em nenhum feitio especial. Era o couro inteiro do animal.
Finalmente o calor penetrara suficientemente no seu corpo para que se levantasse e se pusesse de costas para a fogueira. Viu que o macho o observava. Jondalar não sabia por que resolvera que se tratava de um macho. Envolvi do numa pele, amarrada por uma comprida correia, não era tifo óbvio assim. Embora desconfiado, o garoto tinha o olhar direto e não aparentava medo como o da fêmea. Ele se lembrou dos Losadunai dizendo que as fêmeas dos cabeças-chatas não lutavam, que ficavam inteiramente passivas, sem a menor graça. Por que iria alguém querer uma fêmea destas?
Observando melhor o macho, Jondalar começou a achar que não era tão novo como pensara. Seria um adolescente, não uma criança. A estatura baixa o havia enganado, mas agora, olhando mais atentamente, via que ele tinha uma musculatura forte, bem desenvolvida, e a barba que começava a despontar.
O cabeça-chata rosnou qualquer coisa e a fêmea, às pressas, correu até uma pilha de lenha onde pegou algumas toras para botar na fogueira. Ele virou a cabeça para olhá-la. Ela era mais velha, talvez fosse mãe do macho. Parecia pouco à vontade, evitando levantar os olhos. Afastou-se de cabeça abaixada e, quando chegou no fundo da clareira, continuou andando, de modo a ser pôr fora do alcance de sua vista. Ela fazia tudo com discrição e Jondalar, sem que se desse conta, tinha a cabeça toda virada para trás. Por instante ele desviou os olhos e quando voltou a olhar ela se escondera tão bem que custou a enxergá-la. Se não soubesse que a fêmea se achava lá, não a teria visto de forma alguma. “Ela está assustada. Eu me admiro”, pensou Jondalar, “que não tenha fugido quando o outro a mandou buscar lenha.”
“Mandou buscar?! Mas como? Cabeças-chatas não falam, como poderia ele lhe ter dado esta ordem? Com todo este frio, eu devo estar ficando maluco. Não posso estar raciocinando direito.”
Apesar de recusar-se a acreditar, Jondalar continuava com a sensação de que o macho havia de fato dado uma ordem à fêmea. De alguma maneira ele tinha falado com ela. A atenção de Jondalar voltou-se outra vez para o macho e, agora, teve a nítida impressão de que havia qualquer coisa de hostil nele. Não saberia dizer onde estava a diferença, mas percebia que o cabeça-chata não havia gostado de que ele tivesse ficado observando a fêmea. Não tinha dúvidas de que se houvesse feito algum movimento em relação à fêmea, ele esta ria em maus lençóis. A prudência e a experiência mandavam que não se olhas-se para fêmeas de cabeças-chatas, não às vistas de um macho, seja lá que ida de tivesse este.
Como Jondalar não fizesse qualquer movimento e tivesse parado de olhar para a fêmea, a tensão diminuiu. Mas, face a face com o cabeça-chata, ele sentia que ambos se mediam, e o mais embaraçoso era que ali se achavam dois homens se encarando. No entanto, nunca em sua vida vira alguém com uma figura semelhante. As pessoas que encontrara em todas as suas viagens eram reconhecíveis como seres humanos. Podiam falar línguas diferentes, ter outros costumes, viver em moradias estranhas, mas continuavam sendo seres humanos.
O cabeça-chata parecia diferente. Mas chegaria a ser um animal? Era mais baixo, atarracado, e os seus pés descalços não faziam a menor diferença dos dele. As pernas mostravam-se um pouco arqueadas, mas ele caminhava tão ereto quanto qualquer homem. Possuía um pouco mais de pêlo do que a média, principalmente nos braços e ombros, mas poderia ser considerado como alguém cabeludo. Ele mesmo conhecia homens com tanto cabelo quanto este cabeça-chata. O peito era rotundo, já bastante musculoso e, por mais criança que fosse, o melhor a fazer era não se meter com este garoto. Ele já vira homens adultos, dotados de tremenda musculatura, e nem por isso deixavam de ser considerados como seres humanos, O rosto... não, a cabeça. Essa sim se mostrava diferente. Mas até que ponto diferente? As sobrancelhas eram pesadas e grossas, a testa não se erguia bastante, inclinava para trás; a cabeça, entretanto, era grande. Pescoço curto, a falta de queixo via-se compensada pelas mandíbulas ressaltadas e o nariz era grande e adunco. “Um rosto humano, não como os das pessoas que conheço”, disse para si Jondalar, “mas de qualquer forma aquelas eram feições humanas. E eles.., usam fogo.”
“No entanto, não falam. Será que conseguem mesmo comunicar-se? Oh, Doni! Ele chegou até a comunicar-se comigo! Como sabia que eu estava que rendo uma fogueira? E por que um cabeça-chata ajudaria um homem?” Jondalar se via desconcertado. Além do que, o rapazinho cabeça-chata muito provavelmente tinha salvo a sua vida.
Por fim, o garoto pareceu ter tomado uma decisão, Inesperadamente, acenou para Jondalar como fizera antes e começou a dirigir-se para fora da clareira pelo mesmo caminho por onde haviam passado. Ele esperava que o homem o seguisse e foi o que Jondalar fez, dando graças quando saiu de perto da fogueira por ter ainda aquela pele de lobo pendurada nos seus ombros. Ao se aproximarem do rio, o cabeça-chata correu à frente, agitando os braços e soltando uns berros agudos e fortes. Um pequeno animal correu em disparada e o esturjão estava um pouquinho menor. Era claro que, grande como era e desvigiado, o peixe não poderia ficar ali por muito tempo sem ser tocado.
Vendo a raiva que o cabeça-chata teve do animal, Jondalar de repente pensou em algo que ainda não lhe ocorrera. Seria o peixe o motivo por que ele estava recebendo aquela ajuda? Estaria o cabeça-chata pretendendo um pedaço do esturjão?
O cabeça-chata enfiou a mão numa das dobras da pele que vestia e re tirou uma lasca de sílex extremamente afiada. Passou-a sobre o esturjão como se fosse cortá-lo, fazendo, em seguida, gestos indicando que um pedaço seria para ele e outro para Jondalar. Então, esperou. Estava mais do que claro. Desejava ficar com urna porção do peixe. Um mundo de perguntas passava pela cabeça de Jondalar.
Onde o cabeça-chata teria arrumado a ferramenta? Ele queria olhá-la de perto, mas de antemão sabia não ser um instrumento tifo refinado quanto os seus. Fora feito de uma lasca grossa, não de uma lâmina fina, mas sem dúvida era uma faca afiada, perfeitamente utilizável. Havia sido fabricada por alguém, feita intencionalmente para atender um fim específico. Mas não era só a ferra menta que o intrigava, havia outras perguntas incomodando-o. O rapaz não tinha falado, no entanto, indiscutivelmente, se fizera entender. Jondalar não sabia se ele próprio seria capaz de tornar os seus desejos conhecidos com tanta clareza e facilidade.
O cabeça-chata aguardava uma resposta. Jondalar fez sim com a cabeça, sem muita certeza se o seu gesto seria compreendido. Mais do que o gesto, a intenção foi comunicada. Imediatamente o rapaz se pôs a cortar o peixe.
Enquanto observava, a cabeça de Jondalar era um turbilhão de perguntas que abalavam profundamente velhas convicções arraigadas. O que é um animal? Um animal chegaria ali, abocanhada um pedaço do peixe e sairia cor rendo. Se fosse um bicho mais inteligente, iria considerar o homem perigoso e esperar que ele fosse embora. Um animal não poderia saber que alguém, quase morto de frio, precisa do calor de uma fogueira. Muito menos teria fogo e levaria essa pessoa para junto do calor. Jamais iria pedir por um pedaço de peixe - Isso é comportamento de gente, mais até, um comportamento verdadeiramente humano.
As estruturas de crenças que cresceram com os seus ossos e eram o Sangue de sua vida naquele instante balançavam-se. “...Ora, bobagem, os cabeças-chatas sempre foram animais. Não havia quem não o dissesse. Isso era evidente, não? Eles não falam. Mas só por isso? Era essa a única diferença?”
Jondalar pouco se importava se o rapaz levasse um pedaço ou o peixe inteiro, mas ele estava curioso. Que quantidade irá pegar? De qualquer modo o peixe teria de ser retalhado. Era um animal pesado demais para ser transportado. Até mesmo quatro homens juntos teriam dificuldade para levantá-lo.
Subitamente, esqueceu-se do cabeça-chata. O seu coração bateu apressa do. Será que ouviu direito?
- Jondalar! Jondalar!
O cabeça-chata pareceu assustado, mas Jondalar já estava passando por entre as árvores para ter uma melhor visão do rio.
- Aqui, Thonolan! Estou aqui!
O seu irmão tinha vindo procurá-lo. No meio do rio estava um barco lotado de gente. Ele acenou. As pessoas o viram e acenaram de volta, remando na sua direção.
O gemido de alguém fazendo esforço trouxe outra vez a sua atenção pa ra o cabeça-chata. Na praia, o esturjão estava partido pela metade - no sentido do comprimento, com um corte que ia da espinha dorsal até a barriga - e o rapaz colocando uma das bandas sobre um pano de couro estendido do lado. Jondalar observou-o ajuntar as pontas do couro, formando uma trouxa, que colocou às costas. Então, com as metades de cabeça e rabo apontando para fora da saca, ele desapareceu no mato.
- Espere! - gritou Jondalar correndo atrás. Ele o alcançou quando entrava na clareira. Com a sua aproximação a fêmea, que carregava um grande cesto às costas, escondeu-se nas sombras. Não havia qualquer sinal que indicasse a clareira ter sido usada, nem mesmo os vestígios de uma fogueira apareciam. Se ele não sentisse um resto de calor não acreditaria que naquele lugar tivesse existido uma.
Jondalar tirou a pele de lobo dos ombros e a estendeu, querendo devolvê-la, O macho soltou um grunhido e a fêmea prontamente veio buscá-la. Em seguida, os dois silenciosamente entraram pela mata, indo embora.
Enquanto caminhava de volta para a margem, Jondalar sentia-se gelado com as suas roupas molhadas. Quando chegou junto ao tio, o barco estava atracando. Ele sorriu ao seu irmão que saltava. Os dois se atiraram um nos braços do outro, estreitando-se num forte e caloroso abraço.
- Thonolan, que bom vê-lo aqui! Estava com medo de que quando vis sem o barco vazio, eu fosse dado como morto.
- Ora, quantos rios já cruzamos juntos, meu irmão! Estou cansado de saber que você nada. Quando encontramos o barco, deduzimos que você tivesse vindo para esse lado e que poderia ter distanciado muito.
- Quem pegou a metade deste peixe? - perguntou Dolando.
- Fui eu quem dei.
- Você deu? A quem? - perguntou Markeno.
- Mas para quem você poderia ter dado? - indagou Carolio.
- Para um cabeça-chata.- Um cabeça-chata? - exclamaram uma porção de vozes ao mesmo tempo.
- E por que você fria dar a metade de um peixe deste tamanho para um cabeça-chata? - perguntou Dolando.
- Primeiro ele me deu urna ajuda e depois pediu um pedaço do peixe.
- Que maluquice é esta? Como é que um cabeça-chata vai pedir um pedaço de peixe? - falou Dolando com raiva. Jondalar ficou surpreso. O chefe dos sharamudoi raramente se deixava encolerizar. - Onde está ele?
- Ele já foi embora. Meteu-se pelo meio da mata. Eu estava empapado e tremia tanto que achava que nunca mais iria conseguir esquentar o meu corpo. Foi então que o garoto cabeça-chata apareceu e me trouxe para a sua fogueira...
- Fogueira? E desde quando eles têm fogueiras? - perguntou Thonolan.
- Já vi cabeças-chatas junto de fogueiras - disse Barono.
- Eu já andei vendo alguns deles deste lado do rio... mas só de longe -observou Carolio.
- Não sabia que estavam de volta. Quantos deles havia aqui? -indagou Dolando.
- Apenas o garoto e uma fêmea mais velha. Talvez a mãe dele -respondeu Jondalar.
- Bom, se estão com as fêmeas, deve haver mais deles por aqui - falou o chefe, passando os olhos pelas matas perto. - O que devíamos fazer era caçar todo esse bando de cabeças-chatas se limpar de uma vez o lugar desta praga.
Havia um tom sério de ameaça na voz de Dolando. Jondalar o olhou com atenção. Ele já percebera em outros comentários anteriores do chefe esse sentimento de animosidade em relação aos cabeças-chatas, mas nunca tão car regado de rancor.
A liderança entre os sharamudoi era uma questão de competência e de força de persuasão. Dolando fora tacitamente reconhecido como chefe, não só porque era o melhor em todos os sentidos, mas também por ser um homem competente que, além de saber atrair as pessoas a si, era extremamente hábil para tratar dos problemas que porventura surgissem. Ele não mandava. Convencia, coagia, usava de artifícios e fazia acordos. Em geral, era quem apaziguava os conflitos inevitáveis entre pessoas vivendo juntas. Politicamente astuto, convincente, as suas decisões quase sempre eram aceitas, mas ninguém era obrigado a segui-las.
Quando sentia que o seu julgamento era correto, ele tinha bastante confiança em si para pressionar as opiniões a seu favor, ou senão passar a responsabilidade da questão para outro com mais experiência e saber. A sua tendência era não se envolver em disputas pessoais, a não ser que fosse expressamente convocado. Apesar de ser normalmente calmo, a raiva era capaz de torná-lo uma pessoa cruel, estúpida, que tanto podia prejudicar um pobre coitado sem condições de se defender como pôr em risco os interesses de toda a Caverna. Quanto aos cabeças-chatas, odiava-os. Para ele, não passavam de simples animais. Animais perigosos, ruins, que deviam ser eliminados.
- Eu estava gelado - contrapôs Jondalar - e o cabeça-chata me ajudou. Ele me levou até a sua fogueira e ainda me deu uma pele para usar. Por mim, ele poderia ter levado o peixe inteiro, mas pegou só a metade. Eu não estou nem um pouco disposto a sair por aí à caça de cabeças-chatas.
- Em geral, eles não trazem grandes problemas para nós - falou Barono. - Mas é sempre bom saber quando estão por perto. São muito espertos. Não é nada agradável pensar que de repente você pode ser apanhado por um bando deles.
- São umas bestas assassinas - cortou Dolando.
Barono ignorou a interferência.
- Você provavelmente teve sorte de haver sido um cabeça-chata novo e uma fêmea velha. Elas não lutam.
Thonolan não estava gostando do rumo que a conversa tomava.
- Como é que vamos fazer para carregar essa esplêndida metade de peixe pescado pelo meu irmão? - disse ele, sorrindo com a lembrança de Jondalar puxado pelo esturjão. - Depois do trabalho que o bicho lhe deu, estou ad mirado de que tenha deixado escapar uma metade dele.
O seu riso contagiou todos, aliviando a tensão.
- Será que isso quer dizer que Jondalar é uma metade ramudoi? -falou Markeno.
- Quem sabe s& nós não o levamos para caçar e ele consiga a metade de urna camurça? - disse Thonolan. - Assim a sua outra metade fica sendo shamudoi.
- Qual das metades irá querer Serenio? - pilheriou Barono, piscando o olho.
- Uma metade dele já é mais do que suficiente - troçou Carolio, com uma expressão no rosto que dava perfeitamente a entender que ela não estava referindo-se à altura de Jondalar. No estreito convívio da Caverna, as proezas de Jondalar nas peles não haviam passado despercebidas. Ele ficou corado, mas o gracejo picante acabou por diminuir a tensão, tanto no que dizia respeito a Jondalar quanto a Dolando com a sua intempestiva raiva.
Eles trouxeram uma rede de fibra e estenderam ao lado da metade do esturjão. Com esforço e soltando gemidos, puseram o peixe sobre a rede e a carregaram para a água, amarrando-a à popa do barco.
Enquanto os homens pelejavam com o peixe, Carolo virou-se para Jondalar e disse disfarçadamente.
- O filho do Roshario foi morto por cabeças-chatas. Ele era ainda muito moço. Nem noivo chegara a ficar. Um rapaz cheio de alegria, corajoso, o orgulho de Dolando. Ninguém sabe como aconteceu, mas Dolando pôs a Caverna inteira caçando cabeças-chatas. Alguns foram mortos... depois disso, desapareceram. Antes ele nunca se incomodou muito com os cabeças-chatas, mas desde...
Jondalar balançou a cabeça, num gesto de compreensão.
- Corno conseguiu esse cabeça-chata levar a outra metade do peixe? -perguntou Thonolan, enquanto entravam no barco.
- Ele simplesmente pegou e carregou - falou Jondalar.
- Hein? Pegou e carregou?
- Sozinho, e olhe que ele ainda não era de todo adulto.
Thonolan aproximou-se da cabana de madeira onde vivia o seu irmão com Serenio e Darvo. Era uma construção feita de tábuas assentadas obliqua mente contra a viga-mestre do teto que, por sua vez, fazia também uma linha inclinada até o chão. A moradia lembrava o feitio de uma tenda, mas só que de madeira. Tinha a parede da frente triangular, mais alta e larga do que as laterais de forma trapezóide. Às tábuas eram assentadas como os pranchões dos cascos das embarcações, isto é, com uma borda mais grossa sobrepondo a borda mais fina da tábua vizinha e nesta costurada.
Eram construções fortes, bem acabadas, com o tabuado tão cerrado que apenas nas mais antigas se via a luz passando através das frestas feitas na madeira seca e empenada. Com a pedreira para protegê-las dos temporais, as jun tas das tábuas não precisavam ser tão vedadas como nos barcos. A iluminação se fazia principalmente pela fogueira armada por cima de uma forração de pedras, ou então pela abertura na parede frontal.
Thonolan olhou para o seu interior, querendo saber se o seu irmão ainda estava dormindo.
- Entre - falou Jondalar, fungando. Ele se achava sentado no tablado, coberto de peles e com outras tantas ao seu redor. Na mão, segurava uma cuia com qualquer coisa fumegando dentro.
- Como vai o seu resfriado? - indagou Thonolan, sentando na beirada do tablado.
- O resfriado está pior, mas eu estou melhor.
- Ninguém pensou nas suas roupas molhadas e na ventania que soprava pela garganta do rio.
- Já me dou por feliz por terem me achado.
- Bom, e eu fico feliz por você estar sentindo-se bem - Thonolan, estranhamente, falava parecendo procurar pelas palavras. Irrequieto, levantou-se, foi até a entrada e voltou. - Você está precisando de alguma coisa que eu possa fazer?
Jondalar abanou negativamente a cabeça e esperou. Havia algo incomodando Thonolan, que ele tentava colocar para fora. Precisava apenas de tempo.
- Jondalar... - começou ele - você já está vivendo com Serenio e o filho dela há bastante tempo.
Por um momento Jondalar achou que o seu irmão fosse fazer algum comentário sobre o fato dele ainda não ter formalizado a sua relação, mas estava enganado.
- Como é que a pessoa sente quando se é o homem da casa?- Você tem uma companheira, Thonolan. Você é o homem da casa.
- Eu sei, mas faz alguma diferença ter um filho de sua casa? Jetamio quer tanto ter um bebê e agora... ela perdeu mais uma vez.
- Eu sinto muito.
- Eu não me incomodo se ela nunca tiver um filho. A única coisa que não quero é perdê-la - falou Thonolan com a voz embargada. - Gostaria que ela parasse de tentar.
- Acho que ela não tem outra alternativa. A Mãe dá.
- Então por que a Mãe não deixa que ela conserve a criança? - gritou Thonolan, saindo e passando por Serenio que entrava naquele instante.
- Ele lhe falou de Jetamio? - perguntou Serenio.
Jondalar confirmou com a cabeça.
- Esse, ela conseguiu conservar por mais tempo. Doeu-lhe muito perde-lo. Fico satisfeita por Jetamio ser feliz com Thonolan. Ela merece isso.
-Ela vai ficar boa?
- Não é a primeira vez que uma mulher perde uma criança, Jondalar. Não se preocupe... Jetamio dentro de pouco tempo estará ótima. Vejo que encontrou o chá. É de hortelã, borragem e lavanda, caso queira saber. O shamud disse que seria bom para o seu resfriado. Como você está passando? Vim até aqui só para ver se ainda estava acordado.
- Estou muito bem - ele deu um sorriso, querendo aparentar saúde.
- Neste caso, acho que vou voltar para ficar com Jetamio.
Depois que Serenio saiu, Jondalar pôs de lado a cuia e se deitou nova mente. Tinha o nariz entupido e estava com dor de cabeça. Não sabia exata mente por que, mas a resposta de Serenio o havia perturbado. Não queria mais pensar no assunto, isso lhe punha uma dor aguda na boca do estômago. “Deve ser do resfriado”, pensou.
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