O Vale dos Cavalos
Capítulo 3
Enquanto Ayla, com cuidado, ia escolhendo onde pôr os pés para descer a íngreme encosta rochosa da ravina, no céu começavam a despontar as primeiras estrelas. Mal ela havia saído da borda do platô, o vento cessou e por momento, ficou parada, saboreando a quietude. Os paredões, no entanto, reduziam a claridade começava a entrar em declínio. Ao atingir o sopé da encosta, a densa vegetação ao longo do peque no rio era uma massa confusa, fazendo uma silhueta recortada contra o reflexo faiscante de miríades de pontinhos no céu.
Depois de tomar no rio um bom e refrescante gole, tateando, infiltrou-se na densa escuridão projetada pelo paredão. Não se deu ao trabalho de ar mar a barraca, limitou-se a se enrolar na sua pele, sentindo-se mais segura com uma parede às costas do que dentro de uma barraca de couro em campo aberto. Antes de adormecer, ficou observando a lua rotunda que mostrava a sua face quase cheia sobre as bordas da ravina.
Acordou com os seus próprios gritos. Pulou sobre os pés e, tomada de terror com as têmporas latejando e o coração disparado, ficou a olhar as vagas formas no imenso vazio negro à sua frente. De repente, deu um salto. Um estrondo seco foi seguido de um clarão que por instante a cegou. Tremendo, viu um alto pinheiro ser atingido por um raio. A árvore partiu-se e, lentamente, querendo se segurar ainda na sua outra metade, foi tombando.
Era um espetáculo sinistro. A árvore em chamas que iluminava a cena de sua própria morte e sombreava grotescamente o paredão ao fundo.
A chuva chegou para pôr fim aos estalidos e ao crepitar do fogo. Ayla apertava-se contra a parede, alheia tanto às lágrimas quentes como aos pingos frios que lhe rolavam pelo rosto. Num distante passado, um outro trovão, reminiscência do rumor de um terremoto, havia animado das cinzas sepultadas na memória um sonho recorrente que nunca a largava. Era um pesadelo do qual sempre saía sem se lembrar e que a deixava nauseada e profundamente pesarosa. Outro relâmpago, acompanhado por um estrépito ensurdecedor, encheu momentaneamente o vazio negro com uma claridade lúgubre, dando-lhe a rápida visão dos paredões escarpados e da árvore despedaçada, como se fora um simples graveto, pelo assombroso facho de luz, surgido do céu.
Tiritando tanto de medo como pelo frio úmido e penetrante, ela agarrava o amuleto, buscando alguma coisa que oferecesse segurança. A sua reação não se devia somente ao medo que lhe inspiravam os raios e trovoadas. Não gostava muito de tempestades, mas era uma coisa com que estava habituada. Em geral, os aguaceiros mostravam-se mais úteis do que destrutivos. Eram ainda as seqüelas emocionais deixadas pelos seus pesadelos com terremotos. Cataclismos significavam desgraças. Eles sempre lhe trouxeram perdas monstruosas e sofridas mudanças de vida. Nada havia que ela mais temesse.
Por fim, se deu conta de que estava molhada e retirou da cesta o pano de couro da barraca. Botou-o sobre a pele de dormir, como um cobertor e enterrou a cabeça debaixo. Mesmo depois de ter o corpo aquecido, ainda tremia, mas à medida que a noite avançou, a tempestade foi amainando e ela acabou dormindo.
Os pássaros enchiam o ar da manhã com os seus trinados, gorjeios e grasnos estridentes. Deliciada, Ayla afastou a coberta, olhando a sua volta. Um mundo verde, ainda molhado da chuva, resplandecia sob o sol matinal. Ela se encontrava numa larga praia rochosa, num ponto onde o pequeno no fazia uma virada para o leste, num dos seus muitos volteios que acabariam conduzindo-o para o sul.
Na margem oposta, o verde-escuro dos pinheiros fazia uma fileira que chegava até o topo do paredão. Não ultrapassava em altura. Toda tentativa de crescimento acima do rebordo da garganta do rio era ceifada pelas ventanias da planície no alto. Isso dava às árvores um aspecto peculiarmente rombudo, forçadas que estavam a expandir-se em amplas ramificações. Um imponente gigante - de simetria quase perfeita, n fosse o cume despontando em ângulos retos com o tronco - havia crescido junto de outro com o seu alto tronco chamuscado e irregular que se unia à sua copa de cabeça para baixo. As árvores haviam crescido numa estreita faixa do outro lado do rio, entre a margem e o paredão, algumas tão perto da água que ficaram com as suas raízes descobertas, expostas sobre a terra.
Do lado em que estava, à montanha do rio, os salgueiros flexíveis faziam arcos sobre as águas do riacho, chorando nelas lágrimas compridas e esverdeadas. As ramas achatadas nos altos pés de choupos punham um tremor nas folhas que vibravam com a suave brisa correndo. Os vidoeiros de cortiça branca cresciam em grupos, enquanto os seus primos, os amieiros, não passavam de arbustos altos. As lianas subiam, enredando-se nas árvores e, amontoando junto do riacho, touceiras formadas de espécies variadas estavam em pleno verdor.
Portanto tempo ela caminhara pelas estepes secas e estorricadas que n se lembrava mais do quanto era bela uma paisagem verde. O pequeno rio brilhava convidativamente e, já esquecida da tempestade e de seus medos, saiu em disparada pela praia. Um bom gole de água foi o primeiro pensamento, depois, seguindo um impulso, desatou a comprida correia da roupa, retirou o amuleto e se esparramou na água. Logo o fundo do rio sumiu sob os pés. Ela mergulhou e, então nadou na direção da margem oposta, formada pelo íngreme paredão.
A água estava fria e revigorante. Era um prazer ficar livre da sujeira incrustada e da poeira das estepes. Nadava contra a correnteza, sentindo-se cada vez mais forte e a água esfriando à medida que os paredões a prumo se comprimiam, estreitando o rio. Virou-se de costas, pondo-se a boiar embalada pela água e se deixando arrastar de volta pela correnteza. Os seus olhos fitavam o azul forte que enchia o espaço compreendido entre os altos penhascos. Ent percebeu um buraco escuro no paredão em frente da praia, vista à montante do rio. Seria uma caverna?, perguntou-se já entusiasmada. O que não sabia é se seria difícil chegar lá.
Voltou à praia e sentou-se sobre as pedras quentes, deixando o sol secá-la. O seu olhar foi atraído pelos passarinhos que saltitavam no chão tremelicando com as suas cabecinhas, à cata dos vermes trazidos à superfície pela chuva da noite; outros, revoando de galho em galho, picavam as frutas nos arbustos.
Que framboesas! Estão enormes! A sua aproximação foi saudada por um burburinho de asas batendo em polvorosa, que saíram para pousar em outros galhos não muito distantes. Aos punhados, ela ia levando à boca as framboesas, doces e suculentas. Depois de se haver fartado bem, foi lavar-se. Pendurou novamente o amuleto no pescoço e fez uma careta reparando na sua roupa suada e suja. Ela n tinha outra. Quando, pouco antes de partir, entrara na caverna sacudida pelo terremoto, pensando em apanhar roupas, ali mentos e abrigo, a sua preocupação era com a sobrevivência e n com trajes de verso para mudar.
E novamente estava pensando na sobrevivência. Os pensamentos pessimistas que a dominaram, enquanto atravessava as planícies secas e monótonas, se dispersaram diante da vista do vale fresco e frondoso. As framboesas ha viam estimulado o seu apetite ao invés de satisfazê-lo. Agora, queria alguma coisa mais substancial. Pensando em pegar a sua funda, foi até o lugar onde dormira. Estendeu o pano de couro molhado e a pele úmida sobre as pedras aquecidas pelo sol, depois vestiu-se com a sua roupa suja e começou a procurar por pedras lisas e redondas.
Um exame mais acurado da praia revelou que ali havia mais do que pe dras. Lá se achavam pedaços dispersos de madeira acinzentados e ossos alvacentos, muitos dos quais empilhados, fazendo um monte encostado numa ponta do penhasco. Os violentos aguaceiros da primavera tinham arrancado árvores e arrastado os animais desavisados, carregando-os através da estreita passagem rochosa e os atirando no cul-de-sac, perto do paredão que fechava as águas se revolvendo em redemoinhos. No meio da ossada, Ayla viu gigantescos galhos de veados, enormes chifres de bisões e diversas presas de mar fim, igualmente imensas e curvas. Nem mesmo os grandes mamutes escapavam da força das correntezas. Colossais blocos de pedras também apareciam misturados aos destroços. Os seus olhos se estreitaram, examinando umas pedras cinzentas e gredosas, de tamanho médio.
“Isso é sílex!”, disse para si mesma, depois de olhá-las mais de perto. “Tenho certeza de que é. Precisava de um martelo para quebrar uma e saber, mas tenho quase certeza de que é.” Animada, saiu esquadrinhando a praia à cata de uma pedia oval que fosse boa para empunhar. Quando encontrou, bateu quebrando o revestimento gredoso do nódulo. Um pedaço do córtex esbranquiçado separou-se, revelando o interior opaco, num tom cinza-escuro.
“É sílex! Sabia que era!” Pela sua mente, desfilava toda uma variedade de ferramentas que poderia fabricar. “Posso até fazer algumas para ter de re serva. Daqui por diante, já não vou precisar de me preocupar quando tiver de quebrar alguma coisa.” Ela retirou do monte algumas outras pedras, saí das de depósitos calcários, localizados em paragens mais acima do rio e carregados pelas correntezas até o sopé do paredão rochoso. A descoberta a animou a prosseguir em suas investigações.
O paredão que, em épocas de enchentes, servia como barreira para as fortes correntezas, se projetava para dentro do rio, num ponto onde o curso fazia uma curva. Quando contido dentro de suas margens normais, o nível do rio era bastante baixo e, facilmente, se podia contornar o ponto do penhasco. De repente, ela parou, ao dirigir os olhos para mais além na paisagem. À sua frente estava o vale que avistara de cima.
Contornando a curva, o rio se alargava e espumava por cima das pedras descobertas pela água. Ele corria para leste, margeando o rochedo do lado oposto da garganta. À esquerda dela, para além da barreira de pedra, o pare dão do desfiladeiro se desviava e a sua encosta fazia uma descida gradual até fundir-se com as estepes ao norte e a leste. Em frente, o vale era um belo campo de feno maduro, ondulando com o vento vindo da direção das colinas ao norte. A meio caminho da encosta, pastava uma manada de cavalos.
Ayla, aspirando toda a beleza e tranqüilidade do cenário, quase não acreditava que tal lugar pudesse existir no meio das estepes ventosas e secas. O vale era um generoso oásis escondido numa fenda aberta nas áridas planícies. Um microcosmo de abundância e riquezas, como se a natureza, compelida a uma economia utilitarista naquela região, prodigalizasse seus bens onde se lhe apresentou uma oportunidade.
Intrigada com os cavalos, Ayla os observava a distância. Eram animais compactos, vigorosos, de patas um pouco curtas, pescoços grossos e cabeças grandalhonas com focinhos compridos. Lembravam-lhe os narizes grandes e caídos de alguns homens dos clãs. Tinham o pêlo grosso, hirsuto, e crina curta e tesa. Alguns tendiam para o acinzentado, mas a maioria era em tons de amarelo que iam desde o bege-areia até a cor do feno quando maduro. Afasta do um pouco do grupo, estava um garanhão cor de palha e Ayla reparou que havia vários potros da mesma tonalidade. O garanhão levantou a cabeça, sacudiu a crina curta e relinchou.
- Orgulhoso de seu clã, hein? - disse ela por meio de gestos e sorrindo.Pôs-se, então, a caminhar pelo campo, perto da vegetação de arbustos que ladeava o rio. Inconscientemente, ia reparando nas plantas, notando-lhes as propriedades medicinais ou as suas qualidades alimentícias. Quando estava sendo treinada para curandeira, ela teve de aprender a coletar e a conhecer as plantas que serviam à fabricação de mágicas curativas e muito poucas não sabia ali identificar. Mas, naquele instante, o seu objetivo era comida.
Ela reparou nas folhas e nos talos com flores secas, umbeladas, sugerindo a existência de cenouras silvestres a alguns centímetros abaixo da terra, mas passou pela planta como se não a tivesse visto. O que não era verdade. Mais tarde, a planta estaria naquele mesmo local e ela se lembraria do lugar com tanta precisão, como se o tivesse marcado. Os seus olhos afiados haviam apanhado o rastro de uma lebre e era no que o seu pensamento se concentrava: conseguir uma boa carne para comer.
Furtiva e silenciosamente, como um experiente caçador, seguiu os excrementos frescos, a relva amassada e as marcas de pisadas, já quase apaga das. Logo percebeu, pouco mais à frente, a forma de um animal camuflando se no meio da vegetação. Ela retirou a funda de sua correia na cintura e pegou duas pedras guardadas numa dobra da roupa. No momento em que a lebre saltasse, ela já estaria a postos. Com uma graça natural, advinda de anos de prática, lançou uma pedra, e no instante seguinte uma outra, ouvindo o tunque-tunque desejado e gratificante. As duas deram em cheio no alvo.
Ayla pegou o animal, lembrando-se do tempo em que, sozinha, aprendera a técnica do lançamento de duas pedras. Havia sido por causa de uma tentativa, extremamente presunçosa de sua parte, de querer matar um lince com uma funda. Ela, então, compreendeu o quanto se achava vulnerável ao ataque das feras. Mas foi preciso muito treino até conseguir colocar a segunda pedra na funda após o primeiro lançamento, de modo a fazer dois disparos consecutivos.
No caminho de volta, cortou um galho de árvore, aguçou-lhe uma das extremidades e o usou para desenterrar as cenouras. Meteu-as dentro de uma dobra da roupa e, antes de regressar à praia, pegou ainda dois galhos bifurca dos. Ao chegar, botou a lebre e os legumes no chão e tirou de dentro da cesta o pauzinho e a tábua de fazer fogo. Em seguida foi catar, debaixo dos ossos empilhados, pedaços grandes e secos de madeira, e os galhos caídos sob as árvores. Com o mesmo instrumento que usou para aguçar a ponta do pau de cavar, uma ferramenta com entalhes na forma de V no lado da borda afiada, ela raspou os espinhos e os nódulos de um pau. Isso feito, dirigiu-se a um pé de artemísia para retirar-lhe a casca solta e aveludada e depois foi apanhar algumas fibras nas vagens de cardo.
Procurou um lugar confortável para sentar, separou a madeira de acordo com o tamanho e arrumou, ao redor dela, as acendalhas, os gravetos e a lenha maior. Examinou a plataforma - uma tábua de clematite - e fez, com um furador de sílex, um entalhe numa das beiradas e ajustou a extremidade do pau - um galho de espadana guardado da estação passada -no buraco para testar-lhe o tamanho. Ajuntou as fibras de cardo no meio das cascas pegajosas, fazendo uma espécie de ninho sob o entalhe na tábua que escorava com o pé. Por fim, meteu a ponta do pau no buraco e respirou fundo. Para fazer fogo era preciso muita concentração.
Pôs a parte superior do pau entre as palmas da mão e começou a girá-lo de lá para cá, ao mesmo tempo que pressionava-o para baixo. Enquanto rodava-o, as suas mãos escorregavam por ele, chegando quase a encostar na tábua. Se tivesse alguém para ajudá-la, nesse instante a outra pessoa pega ria o pau das mãos dela pela parte de cima, dando seqüência ao trabalho. Mas sozinha, tinha que chegar até embaixo e rapidamente voltar para a outra ponta, sem deixar cair o ritmo ou diminuir a pressão, do contrário o calor gerado pela fricção se dissiparia, antes de acumulai em quantidade suficiente para dar início ao processo de combustão da madeira. Era um trabalho duro que não permitia um momento de descanso.
Ayla se entregou ao ritmo do movimento, ignorando o suor formando-se na testa e pingando nos olhos. À medida que prosseguia, o buraco se aprofundava e a serragem da madeira acumulava-se. Ela sentia o cheiro de queimado, vendo o buraco enegrecer, até que, por fim, se desprendeu a primeira fumacinha, encorajando-a a continuar, apesar da dor nos braços. Uma peque nina brasa se formou na tábua e caiu sobre o ninho de acendalhas embaixo. O estágio seguinte era mais decisivo ainda. Se a brasa apagasse, teria de começar tudo de novo, desde o princípio.
Ela se curvou, colocando o rosto muito perto do carvão, sentindo-lhe o calor enquanto ia soprando-o. Vigiava a brasa avivar-se com cada um de seus sopros e parecer apagar-se quando parava para retomar o fôlego. Pegou, então, as raspas de madeira e botou junto da pequenina brasa, vendo-as iluminar-se e escurecer, mas ainda sem pegar fogo. Finalmente, apareceu uma chama. Soprou com mais força, alimentou o fogo com mais raspas e quando teve uma pequena pilha ardendo, acrescentou os gravetos.
Descansou só depois que viu os grandes tocos de madeira em chamas, com o fogo realmente atiçado. Reuniu mais alguns pedaços de lenha e os deixou empilhados perto da fogueira. Em seguida, com uma ferramenta denta da, pouco maior do que a anterior, raspou a casca do galho verde que usara para desenterrar as cenouras. Fincou os galhos bifurcados no chão, um de cada lado da fogueira, de modo que o galho pontudo ficasse bem encaixado nas forquilhas. Agora, era a vez de tratar da lebre.
Quando o fogo estivesse reduzido a carvões incandescentes, era o tempo que o animal estaria sem a pele e pronto para ser assado. Ela estava começando a enrolar as entranhas na pele para jogar fora, como vinha fazendo durante a viagem, mas mudou de idéia.
Poderia aproveitar a pele, achou. Não iria demorar mais do que dois dias...
Ela foi até o rio limpar o sangue de suas mãos e lavar as cenouras que enrolou em folhas de tanchagem. Eram folhas grandes e fibrosas que, além de comestíveis, davam boas ataduras para machucados e ferimentos. Os embrulhos de cenouras foram colocados junto das brasas.
Por um momento, permitiu-se ficar recostada. Enquanto a comida cozinhava, aproveitou o tempo para limpar, do lado interno do couro, os vasos sanguíneos, membranas e folículos pilosos. O seu raspador estava quebrado e ela pensou em fazer um novo.
Com o pensamento perdido em conjecturas, ia trabalhando e cantarolando uma cantiga monótona e desafinada. “Talvez fique por aqui alguns dias para terminar de curtir esse couro. De qualquer modo, estou precisando mesmo de fazer algumas ferramentas. Gostaria de tentar chegar naquele buraco no paredão. - A lebre está começando a ter um cheirinho delicioso. Numa caverna estaria abrigada da chuva, mesmo que o lugar não sirva para morar.”
Ela se levantou e virou o espeto sobre o fogo. A sua cabeça agora trabalhava em outra direção.
“Eu não posso ficar muito tempo aqui. Preciso encontrar gente, antes que o inverno chegue.” De repente, parou de raspar a pele, deixando-se levar pelo seu tumulto interior, sempre pronto a aflorar ao nível da consciência. “Onde será que estão eles? Iza disse que havia uma quantidade deles no continente. Por que não consigo encontrá-los? O que é que vou fazer, Iza?” Sem que esperasse, as lágrimas lhe encheram os olhos, escorrendo pelas faces. “Oh, Iza, sinto tanto a sua falta. E de Creb e de Ura... e de Durc, o meu filhinho, o meu bebê. Eu queria tanto o meu filhinho... foi tão cruel. E ele não tem nada de deformado. É apenas diferente. Igual a mim.”
“Não. Igual a mim, não. Você será um homem dos clãs. Só que será mais alto e com a cabeça parecendo um pouco diferente. Algum dia, será um grande caçador, um grande atirador de funda também. E vai correr mais do que qualquer outro. Irá ganhar todas as corridas nas Reuniões de Clãs. Talvez não ganhe as lutas. Pode ser que não vá ter muita força, mas será um homem forte.
“Mas quem irá brincar com você de fazer sons com a boca? Aqueles sons tifo alegres?
“Tenho de parar de pensar nisso”, ralhou ela consigo, enxugando as lágrimas com as costas da mão. “Devia estar feliz por haver pessoas que gostam de você. E quando crescer, Ura virá para ser a sua companheira. Oda prometeu educá-la para ser uma boa mulher para você, Durc. Ura também não é deformada. Ela é só diferente, igual a você. Mas e eu? Será que algum dia encontrarei um companheiro?”
Ela se pôs de pé e foi ver como andava a comida, querendo movimentar-se para afastar os pensamentos da cabeça. A carne ainda não se achava no ponto de que gostava, mas achou que já assara bastante. As cenouras, pequeninas e amareladas, estavam macias e tinham um sabor adocicado e travoso. Sentia falta do sal de que ela dispunha quando estava nas cercanias do mar interno, mas a fome era bom tempero. Deixou que o resto da lebre assasse por mais algum tempo e voltou para terminar de raspar o couro, sentindo-se um pouco melhor, depois de alimentada.
O sol ia alto no céu, quando resolveu investigar o buraco no paredão. Tirou a roupa e atravessou o rio a nado, agarrando-se às raízes de uma árvore para poder sair da água, na outra margem. Era difícil escalar o paredão quase vertical e já começava a achar que a caverna não valia a pena, mesmo que a encontrasse. E, realmente, ficou desapontada quando atingiu um estreito ressalto no penhasco, em frente ao buraco escuro, na verdade pouca coisa mais do que uma depressão na rocha. Os excrementos de hiena num canto escuro a fizeram concluir que deveria haver outro caminho mais fácil para se chegar lá, mas de qualquer modo o espaço não servia para nenhuma outra coisa que fosse maior do que esse bicho.
Ela se virou para voltar, mas de repente parou. No paredão do outro lado do rio, na direção à jusante, numa situação um pouco mais baixa do que a que estava, enxergou o alto da pedreira que se projetava para dentro do rio. Era uma beirada larga, parecendo ter no fundo um outro buraco na face do penhasco e esse com aparência de ser bem mais profundo. De onde se encontrava, via um caminho íngreme, mas possível de ser escalado. O seu coração batia forte. Se fosse uma caverna, seja lá que tamanho tivesse, poderia contar com um lugar seco para passar a noite, n meio caminho da descida, saltou dentro da água, tamanha era a ansiedade para investigar de uma vez.
“Devo ter passado por aqui ontem de noite”, pensou, quando começava a fazer a subida. “Mas já estava muito escuro para poder enxergar. Lembrou-se, então, de que não se devia aproximar de uma caverna desconhecida sem antes tomar determinadas precauções e voltou para buscar a funda e algumas pedras.
Embora na noite anterior tivesse feito a descida tateando o caminho, à luz do dia viu que não precisava de pontos para apoiar-se. Ao longo de milênios, a margem oposta havia sido escarpada pelo rio, enquanto que aquela em que se achava já não era tão íngreme. Quando foi aproximando-se, passou a caminhar cautelosamente e com a funda pronta para ser posta em ação.
Todos os sentidos se achavam alertas. Tentava ouvir sons de respirarão ou de algum trotar furtivo, ao mesmo tempo que buscava por sinais que indicassem que o lugar fora recentemente habitado. Farejava o ar, querendo sentir o cheiro característico de uma determinada fera; abria a boca para que as papilas gustativas a ajudassem no faro; procurava detectar através da pele alguma sensação de calor que, porventura, viesse do lado da caverna e deixava que a intuição a guiasse, enquanto silenciosamente se aproximava da boca de entrada. Pé ante pé, ia chegando perto, até que por fim olhou para o seu interior.
Não enxergou nada.
A abertura voltada para o sul era pequena. O teto, embora mais alto do que a sua cabeça, podia ser tocado com os braços estendidos. O chão abaixava na entrada e depois se nivelava. O loesse, soprado pelos ventos e misturado com detritos largados por animais que no passado tinham usado a caverna, formava uma camada de sujeira. Originalmente irregular e pedregoso, o chão se tornara com o tempo uma superfície de terra seca e dura.
Olhando à sua volta, não conseguia detectar qualquer sinal que revelasse ter sido a caverna usada nos últimos tempos. Sem fazer qualquer ruído, entrou reparando o quanto era fria em comparação com o patamar em frente, ensolarado e quente, e esperou que os olhos se acostumassem à penumbra. Havia mais luz no interior do que imaginara e, ao entrar um pouco mais, descobriu por quê. Sobre a entrada, havia uma abertura que deixava a luz o dia penetrar. Logo percebeu uma utilidade para aquele buraco. Por ele, a fumaça poderia sair, antes que se espalhasse pelo teto da caverna.
Uma vez que teve os olhos adaptados à escuridão, percebeu que podia perfeitamente enxergar lá dentro. A caverna não era nem grande nem pequena, e poder dispor de luz no seu interior era uma boa coisa. A partir da entrada, as paredes enviesavam, alargando-se até encontrar a do fundo, que se mostrava quase a prumo. A forma geral era mais ou menos a de um triângulo, com o ápice da boca e a parede leste mais alta e comprida do que a lateral do lado oeste. O lugar mais escuro era o canto do lado leste, o primeiro que ela começou a explorar.
Devagar, cautelosamente, se dirigiu para a parede leste, procurando por fendas ou passagens que pudessem levar a recônditos, guardando perigos ocultos. Próximo ao canto escuro, amontoavam-se pedras saídas de uma rachadura na rocha. Subiu sobre as pedras no chão e passou a mão, sentindo um parapeito, mas nada mais do que isso.
Pensou em ir buscar uma tocha, mas mudou de idéia. Afinal, havia cheirado, ouvido e sentido, e não encontrara qualquer sinal de vida, além de que já estava conseguindo enxergar um pouco. Segurou com uma das mãos as pedras e a funda, lamentando não estar vestida para ter onde pendurar as suas armas e se suspendeu por cima do parapeito. Era uma passagem baixa, onde tinha de curvar-se para locomover-se. Tratava-se no entanto, apenas de um pequenino ambiente, com o teto inclinando pouco mais adiante para encontrar o chão. No fundo, havia uma pilha de ossos. Depois de apanhar um, tornou a descer e seguiu novamente pela parede do fundo e do lado leste, voltando à entrada. A caverna só tinha uma boca. Exceto aquele nicho, não havia qualquer outro recinto ou túnel conduzindo a lugares secretos. Parecia confortável e segura.
Ao sair, protegendo os olhos contra a luz, encaminhou-se para a beirada do pequeno terraço em frente e olhou ao seu redor. Achava-se no alto do paredão, no lugar onde este se projetava fazendo a ponta.] Debaixo dela, à direita, estava a pilha de ossos misturados com o madeirame arrastado pelas enchentes e a praia rochosa. À esquerda, ao longe, avistava o vale. Para mais além, o rio virava para o sul, contornando a base do penhasco, enquanto o paredão à esquerda, do lado oposto, fundia-se com as estepes.
Ela examinou o osso na sua mão. Era a comprida titia de um gigantesco veado, já velha e seca, com marcas de dentes muito visíveis que chegavam até a medula. A configuração da dentada, o modo como o osso estava roído, parecia algo já visto e, ao mesmo tempo, não. Que se tratava de um felino, disso não tinha dúvidas. Conhecia os animais carnívoros melhor do que qualquer pessoa. Fora com esses animais que aprendera a caçar, embora matasse só os de porte pequeno e médio. Mas aquelas marcas haviam sido deixadas por um bicho grande, na verdade enorme. Ela se virou, olhando de novo pan a caverna.
“Um leão! Isso já foi o covil de leões da caverna. O nicho seria um lugar perfeito para a leoa ter os seus filhotes”, pensou. “Talvez não deva passar a noite nela. Pode ser perigoso.” Ela tomou a olhar para o osso. “Mas isso está tão velho e a caverna há anos não é usada. Além do mais, uma fogueira perto da entrada manterá os animais afastados.”
“É uma boa caverna. Não existem tantas assim. Bastante espaçosa, bom chão de terra e acho que não entra água. As enchentes de primavera não vêm até cá em cima. Até buraco para saída de fumaça tem. Bom, acho que vou buscar a milita cesta e a minha pele... trazer o fogo para cá e um pouco de comida.
“Ela correu de volta à praia. Quando voltou, estendeu o couro da barraca e a pele sobre o chão de pedra do patamar em frente e pôs a cesta dentro da caverna. Em seguida, fez diversos carregamentos de lenha para cima. “Talvez traga também algumas pedras para pôr na fogueira”, pensou, quando se preparava para descer mais uma vez. Mas, de repente, parou.
“Para que vou querer pedras de cozinhar? Vou ficar só poucos dias. Preciso continuar procurando os Outros. Tenho de encontrar gente antes que venha o inverno.
“E se eu não achar ninguém?” Há muito tempo essa possibilidade rondava o seu espírito, mas evitava encarar o problema de frente. Às conseqüências eram aterrorizantes demais. “E se o inverno chegar e eu ainda não tiver encontrado gente? Vou estar sem nenhuma comida armazenada e sem nenhum lugar para morar. Aqui é seco, quente e bem protegido contra a neve e o vento. Nenhuma caverna para...
Ela deu uma olhada para a caverna outra vez, depois para o belo vale bem protegido, com a manada de cavalos pastando ao longe, e novamente voltou a olhar para a caverna. “É o lugar perfeito para mim”, disse para si mesma. “Muito tempo vai passar até que eu tome a encontrar outro igual. E também o vale. Poderia coletar, caçar e fazer estoque de mantimentos. Há água e lenha com fartura... para muitos e muitos invernos. Até sílex há. E não existe vento. Tem tudo que preciso... menos gente.”
“Não sei se conseguirei agüentar um inverno inteiro sozinha. Mas, por outro lado, a estação já está muito adiantada e preciso começar a fazer os meus estoques de comida. Se até agora ainda não encontrei ninguém, quem garante que, daqui para diante, vou achar? Se encontrar os Outros, como vou saber que eles me deixarão ficar? Eu não sei quem são. Alguns deles são tão ruins quanto Broud. Veja o que aconteceu com Oda. Ela disse que foi violada por homens dos Outros, da mesma maneira como Broud me forçava a ter relações com ele... Oda disse que eles pareciam comigo. E se todos forem maus?” Ayla tornou a olhar para a caverna e depois para o vale. Pôs-se, então, a caminhar em volta do terraço, deu um pontapé numa pedra que estava solta na beirada do penhasco, olhou para os cavalos e tomou a decisão.
- Cavalos - disse ela - por algum tempo vocês vão ter-me aqui, dividindo este vale com vocês. Na primavera que vem, começo outra vez a procurar pelos Outros. Se não me preparar para o inverno desde agora, talvez na primavera já não esteja mais viva.
Esse discurso dirigido aos cavalos era expressado apenas por alguns poucos sons guturais e entrecortados. Os sons, ela os empregava somente para dizer nomes ou para enfatizar a língua rica e complexa, mas perfeitamente compreensiva, que falava com graciosos e fluídicos movimentos de mãos. Essa era a única língua de que se lembrava haver aprendido em sua vida.
Uma vez a decisão tomada, sentiu-se aliviada. Odiava a idéia de abandonar aquele belo vale e enfrentar novos dias de provação, caminhando pelas estepes ressequidas e ventosas. Abominava o pensamento de viajar, para qual quer parte que fosse. Desceu à praia e se abaixou para apanhar a roupa e o amuleto. No que foi pegar o saquinho de couro, reparou em algo, como um pedacinho de gelo brilhando ao sol.
“Gelo, em pleno verão? Como pode ser isso?” Perguntou-se apanhando a pedra. Mas então percebeu que não era fria. Tinha as bordas duras e bem definidas e as faces lisas e chatas. Ela a virava de um lado para outro, observando as suas facetas brilhando com a luz. Nisso, aconteceu de virar justamente na angulação em que o prisma separa a luz solar nas cores do espectro. Ao ver o arco-íris que se projetava no chão, parou de respirar. Aquela era a primeira vez que encontrava um cristal de quartzo em estado puro.
Esse cristal, como o sílex e muitas outras variedades de pedras existentes na praia, eram blocos erráticos, estranhos ao ambiente. A pedra brilhante fora arrancada de seu lugar de origem pelas forças do elemento com que se parecia - o gelo - e arrastada para os depósitos de aluvião da corrente glacial.
Subitamente, ela sentiu um frio, ainda mais gelado do que o próprio gelo, subir-lhe pela espinha. Sentou-se. Estava abalada demais com o seu pensa mento e o significado daquela pedra. Lembrava-se do que Creb lhe dissera, há muitos anos, quando era ainda uma menina.
Era inverno e o velho Dorv havia contado algumas histórias. Ela conjeturava sobre a lenda que acabara de ouvir, fazendo perguntas a Creb que o levaram a falar sobre a importância e o significado dos totens:
- Os totens querem um lugar para viver. Provavelmente, eles abandonam aqueles que ficam rondando por aí, sem ter onde morar. Você não gostaria de ser abandonada pelo seu totem, não é?
Ela pegou no seu amuleto.
- Mas quando ela estava sozinha e sem casa o meu totem não me abandonou.
- Isso era porque você estava sendo posta à prova por ele, O seu totem achou um lar para você, não é verdade? O Leão da Caverna é um totem forte, Ayla. Ele a escolheu. Talvez, por isso, ele tenha resolvido que você ficasse para sempre sob a sua proteção, mas todos os totens ficam mais felizes quando possuem uma moradia. Se você cuidar dele, terá a sua ajuda. Ele lhe dirá o que é melhor.
- E como é que vou saber, Creb? Nunca vi um espírito de Leão da Caverna. Como é que vou saber quando um totem está contando alguma coisa para agente?
- Você não pode ver o espírito de seu totem porque ele é parte de você. Mas mesmo assim ele fala com você. Apenas a pessoa tem de aprender a entendê-lo. Se você tiver de tomar uma decisão, ele a ajudará. Mandará um sinal para você, quando a sua escolha for acertada.
- Que tipo de sinal?
- É difícil dizer. Em geral, é alguma coisa muito particular ou fora do comum. Pode ser uma pedra que você nunca tenha visto antes, ou alguma raiz com uma forma especial que faça sentido para você. É preciso aprender a entendê-lo com o coração e com a mente, não com os olhos ou os ouvidos. Então, você saberá. Mas quando chegar a ocasião e você encontrar o sinal que o seu totem lhe estiver dando, guarde a coisa no seu amuleto. Isso vai lhe trazer sorte.
“Ó Leão da Caverna, está você ainda me protegendo? É isso um sinal? Será que tomei a decisão correta? Está você me dizendo que devo ficar nesse vale?
“Segurando, com as mãos em concha, o faiscante cristal e de olhos fechados, ela tentava meditar à maneira de Creb, procurando ouvir com o coração e a mente, querendo acreditar que o seu poderoso totem não a havia abando nado. Pensava em como fora obrigada a partir, nos longos e cansativos dias passados caminhando à procura de seu povo, indo para o norte, como lhe tinha dito Iza. Indo sempre para o norte...
“Os leões da caverna. O meu totem colocou os leões no meu caminho pan que eu tomasse o rumo do oeste. Ele estava me guiando para este vale. Queria que eu encontrasse estas terras. Estava cansado de ficar viajando e desejava esse lugar para morar. Numa caverna que já foi habitada por leões. Num lugar onde ele se sente bem. Ele continua comigo. Ainda não me abandonou.”
O alívio sentido com a revelação tornou-a consciente do estado de tensão em que vinha vivendo. Ela sorria e batia com as pálpebras para limpar as lágrimas, enquanto desatava os nós do cordão que fechava o saquinho. Despejou, então, os objetos que se achavam no seu interior e pegou-os um por um.
O primeiro foi um torrão de ocre vermelho. Todas as pessoas nos clãs traziam consigo um pedaço dessa sagrada pedra. Era a primeira coisa a entrar nos seus amuletos e dada pelo Mog-ur no dia que ele lhes revelava os totens. Normalmente, a designação do totem da pessoa se fazia quando esta ainda era criança de colo, mas no caso de Ayla, ela só veio a conhecer o seu totem aos cinco anos de idade. Não muito depois dela ter sido encontrada por Iza, Creb fez a revelação, quando, então, o clã a aceitou. Ayla esfregava a cicatriz em sua perna na forma de quatro linhas paralelas, olhando, agora, o segundo objeto: o fóssil de um gastrópode.
Parecia a concha de algum bicho do mar, mas era uma pedra. Foi o primeiro sinal enviado pelo seu totem e ele sacramentava a sua decisão de caçar com funda. Ela, então, como não podia chegar na caverna trazendo animais cuja carne era usada para comer, resolveu matar somente os predadores que eram animais muito mais astutos e perigosos. No entanto, isso serviu para que desenvolvesse uma técnica extremamente apurada. O objeto seguinte que pegou foi o seu talismã de caçadora: um ovo de marfim tingido de vermelho e dado pelo próprio Brun na fascinante e assustadora cerimônia que a tomou na Mulher Caçadora. Ela passou a mão na minúscula cicatriz em sua garganta, onde Creb fizera um diminuto corte para sacrificar o seu sangue em honra dos antigos espíritos.
O próximo objeto tinha especial significado e quase trouxe novamente lágrimas aos seus olhos. Ela segurou, apertando na mão, os três nódulos de pirita de ferro, colados um no outro. Este lhe foi dado pelo seu totem para que ela soubesse que o seu filho iria viver, O último foi um pedaço preto de dióxido de manganês, dado pelo Mog-ur, quando ela foi feita curandeira e, portanto, portadora de uma parte do espírito de cada um dos membros do clã. De repente, atravessou-lhe um mau pensamento. “Será que o fato de Broud me amaldiçoar significa que o resto das pessoas estão também amaldiçoadas? Quando Iza morreu, Creb teve o cuidado de retirar dela os espíritos, para que eles não a acompanhassem ao outro mundo. E de mim, ninguém retirou espíritos.”
Uma sensação ruim, de mau agouro, apoderou-se dela. Desde a Reunião dos Clãs, onde de maneira inexplicável Creb passou a vê-la como alguém diferente, ela vez por outra se sentia estranhamente desorientada, como se ele a tivesse transformado. Era uma sensação de fraqueza que sobrevinha com náusea e formigamento da pele e um imenso pavor do que a sua morte pudesse significar para os clãs.
Ayla tentou afastar os maus pensamentos e pegou o saquinho de couro, guardando de volta a pequenina coleção de objetos, agora acrescida do cristal de quartzo. Enquanto amarrava de novo o amuleto, examinou o cordão, procurando por sinais de desgaste. Creb lhe tinha dito que ela morreria se o perdesse. Ao recolocá-lo, pendurado no pescoço, sentiu a diferença de peso.
Sozinha, sentada sobre a praia pedregosa, ela se perguntava o que teria acontecido antes de a terem encontrado. Não tinha a menor lembrança de sua vida anterior, mas era muito diferente de todo mundo que conhecia. Alta demais, extremamente pálida, com um rosto nada parecido com o das pessoas dos clãs. Ela tinha visto a sua imagem refletida nas águas paradas de um lago. Era feia. Broud o dissera muitas vezes e todo mundo achava. Era uma mulher grande e feia e nenhum homem iria querê-la.
“Também nunca quis saber de nenhum deles”, pensou. “Iza disse que eu precisava de um homem de minha própria raça, mas por que um homem dos Outros iria me querer mais do que um homem dos clãs? Talvez seja melhor mesmo eu ficar por aqui. Ainda que encontre os Outros, como vou saber que arranjarei um companheiro?
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