O Vale dos Cavalos
Capítulo 26
- Ayla, não me lembro de ter comido nada tão gostoso na minha vida. Onde aprendeu a cozinhar assim? - falou Jondalar, pegando um outro pedaço da ptármiga, tão fina e delicadamente temperada.
- Foi Iza quem me ensinou. Onde mais poderia ter aprendido? Esse era o prato favorito de Creb - ela não sabia por que, mas a pergunta a deixava um tanto irritada. - Uma curandeira conhece plantas, Jondalar. Aquelas que temperam também servem para curar.
Ele lhe percebeu o tom de irritação e ficou sem saber o que o teria causado. Havia apenas querido fazer-lhe um cumprimento. A comida estava muito boa. De fato, excelente. E pensando nisso, lembrou-se de que tudo que Ayla preparava era delicioso. Muitas das comidas tinham gostos diferentes, mas novas experiências se constituíam numa das razões por que se viajava. Apesar dos sabores desconhecidos, não havia dúvida quanto à qualidade.
E ela fazia tudo sozinha. Tal como o chá pela manhã havia preparado de uma forma tão natural que a pessoa esquecia do quanto trabalhara. Tinha caçado, colhido plantas e cozinhado. Tudo fora providenciado e ele nada tinha a fazer, senão comer. “Você não contribuiu com coisa alguma, Jondalar. Só aproveita e nada dá em troca... é como se fosse pior do que nada.”
“E agora você vem com palavras de elogio. Ela tem toda a razão para estar aborrecida. Vai ficar feliz quando você for embora. Só serve para lhe dar mais trabalho ainda.”
“Você podia, pelo menos, caçar para pagar a carne que come. E é tão pouco por tudo que ela vem fazendo... Será que não consegue pensar em alguma coisa mais duradoura? Ela é ótima caçadora. De que vai adiantar um pouco mais de carne?
“Como é que consegue arranjar-se para caçar com essa sua lança pavorosa? Será que vai achar que estou ofendendo os clãs se eu oferecesse...
- Ayla... eu... bom, queria lhe dizer uma coisa, mas não é com a intenção de ofendê-la.
- Por que você agora fica preocupada se eu vou ou não me ofender? Se tem alguma coisa para dizer, diga.
A irritação ainda se fazia sentir e Jondalar estava quase desistindo de falar.
- Tem razão. É um pouco tarde para isso. Bom, é que eu estava imaginando... como você se arruma para caçar com essa sua lança?
Ayla ficou espantada com a pergunta.
- Eu cavo um buraco e corro, ou melhor, provoco um estouro da mana da, fazendo com que os animais se dirijam para o buraco no chão.
- Claro, uma armadilha! E assim você consegue chegar perto para p der cravar a lança. Ayla, você já fez tanto por mim que eu queria deixar-lhe alguma coisa antes de ir embora. Alguma coisa que valesse a pena. Mas não queria ofendê-la. Se não gostar da idéia, esqueça o que eu falei, está bem?
Ela confirmou com a cabeça, um pouco apreensiva, mas curiosa.
- Bom. - . você é uma boa caçadora, principalmente quando se sabe com que arma caça. Mas queria lhe mostrar um modo que facilitaria muito as coisas. Bem, eu queria lhe oferecer uma arma melhor para caçar. Se você permitir, naturalmente.
A irritação desapareceu.
- Você quer me oferecer uma arma melhor para caçar?
- E também uma maneira mais fácil de pegar o animal. A não ser que não queira. É preciso algum tempo e...
Ela abanava a cabeça, sem acreditar.
- As mulheres dos clãs não caçam e nenhum homem me queria deixar caçar, nem mesmo com a funda. Creb e Brun só permitiram porque queriam satisfazer o meu totem, O Leão da Caverna é um totem masculino muito poderoso e fez com que os dois soubessem que era por vontade dele que eu caçava. Eles não tiveram coragem de desafiar o meu totem - subitamente se lembrou de forma muito viva de uma cena de sua vida. - Eles fizeram uma cerimônia especial para mim - ela tocou na pequenina cicatriz em sua garganta. - Creb ofereceu o meu sangue em sacrifício aos Velhos Espíritos para que eu pudesse caçar. Quando cheguei a este vale, a única arma que sabia manejar era a funda. Mas não era o bastante e tive de fazer lanças iguais às que via com os homens dos das. Aprendi a caçar com eles.. . bom, tanto quanto eu pude. Nunca imaginei que algum dia um homem fosse me oferecer uma arma - ela abaixou os olhos, já inteiramente rendida. - Ficarei imensamente agradecida, Jondalar. Não tenho palavras para lhe dizer o quanto.
As rugas de tensão na testa de Jondalar desapareceram. Achava que tinha visto uma lágrima brilhando nos olhos de Ayla. Poderia isso significar tanto assim para ela? E ele que estava com medo de que fosse ofendê-la. Será que ainda chegaria um dia a compreendê-la? Quanto mais a conhecia, era como se menos a entendesse. Ela disse que havia aprendido a caçar sozinha.
- Vou precisar fazer algumas ferramentas especiais e também arrumar alguns ossos. Aqueles de patas de veado que encontrei servem perfeitamente, mas precisam ficar de molho. Você tem algum recipiente que eu possa usar para botar os ossos dentro da água?
- De que tamanho deve ser? Tenho uma porção - disse ela, levantando-se.
- Isso pode esperar até você acabar de comer, Ayla.
Ela já não tinha tanta fome. Estava muito excitada, mas resolveu sentar-se de novo, pondo-se a remexer na comida. Jondalar ainda não havia termina do. Ele, por fim, reparou que ela não estava comendo.
- Quer dar uma olhada nos recipientes agora? - perguntou Jondalar.
Ela imediatamente saltou sobre os pés e correu para a área do depósito, trazendo de lá uma lamparina. Estava escuro no fundo da caverna. Jondalar ficou segurando a lamparina, enquanto Ayla ia retirando cestas, gamelas, potes de casca de vidoeiro, tudo posto em pilhas e aninhado um dentro do outro. Ele suspendeu a lâmpada para iluminar ao redor. Havia tanta coisa, muito mais do que ela poderia usar.
- Foi você quem fez isso tudo?
- Foi - respondeu, desfazendo as pilhas.
- Você deve ter gastado dias... luas... estações para fazer isso tudo. Quanto tempo levou?
Ayla pensava numa maneira de responder.
- Estações foram muitas. A maioria dessas coisas foi feita durante os invernos. É uma época em que eu não tenho nada para fazer. Há algum recipiente do tamanho de que você vai precisar?
Ele examinava os utensílios que ela espalhara pelo chão e ia pegando em vários, mais para ver do que para escolher. Difícil de acreditar. Por mais rápida e habilidosa que fosse Ayla, aquelas cestas magnificamente tecidas e as gamelas de fino acabamento precisariam de muito tempo para serem feitas. “Há quanto tempo estaria vivendo aqui sozinha?”
- Essa aqui está ótima - falou Jondalar, escolhendo uma gamela grande na forma de um cocho de bordas altas.
Ela voltou a empilhar tudo ordenadamente, enquanto ele segurava a lâmpada. “Ela não podia ser muito criança quando veio para cá, mas parece ainda tão moça, ou será que não? Difícil avaliar. Havia nela qualquer coisa de intemporal, uma certa inocência que estava em desacordo com o seu corpo maduro de mulher. Já era mãe. Em tudo por tudo uma mulher feita. Que idade teria?”
Eles desceram à praia. Jondalar encheu a gamela com água e foi examinar as tíbias que achara no monturo.
- Esse aqui possui uma rachadura que eu não tinha reparado - disse, mostrando um osso e jogando-o logo fora. Os outros, mergulhou-os dentro da água.
Enquanto caminhavam de volta à caverna, ele procurava imaginar que idade poderia ter Ayla. “Não pode ser muito moça... não teria tempo para ser tão boa curandeira. Seria da minha idade?”
- Ayla, há quanto tempo você está aqui? - perguntou, depois que entraram na caverna, sem conseguir conter mais a curiosidade.
Ela parou, pensando num modo de responder, ou de, pelo menos, fazê-lo entender. Lembrou-se de suas varas de contar. Era uma coisa que Creb lhe ensinara, mas que ela não deveria saber. Jondalar talvez desaprovasse. “Bom, de qualquer maneira ele está indo embora”, pensou.
Ela pegou o feixe de varas com as marcas da passagem dos dias.
- O que é isso?
- Você não quer saber há quanto tempo estou aqui? Eu não sei como lhe explicar, mas desde que cheguei a este vale ponho uma marca todas as noites numa vara, O número de noites que estou aqui é igual ao número de marcas.
- Você sabe quantas marcas existem?
Ela lembrou-se de sua frustração quando, certa vez, tentara dar um sentido àquelas marcas.
- São tantas quantas as que estão aí - respondeu.
Jondalar, intrigado, pegou uma das varas. Ayla não sabia as palavras usadas para contar, mas tinha a intuição delas. Mesmo na Caverna, nem todo mundo podia compreendê-las. A poucos era dada a faculdade de conhecer a poderosa mágica das contas. Zelandoni lhe explicara um pouco sobre isto. Jondalar não sabia tudo quanto dizia respeito àquelas palavras, mas mesmo assim sabia mais do que a maioria daqueles que não faziam parte do grupo de servidores da Mãe. “Onde teria Ayla aprendido a marcar varas? Como alguém criado por cabeças-chatas podia ter o entendimento das palavras usadas para contar?”
- Como você aprendeu a fazer isso?
- Creb me mostrou. Há muito tempo atrás, quando eu era menina.
- Creb, o dono da casa em que você viveu? Ele conhecia as palavras de contar? Será que não estava fazendo essas marcas por algum outro motivo?
- Creb era. - mog-ur... santo homem. As pessoas dependiam dele para saber a ocasião de determinadas cerimônias, como a de dar nome ou quando, por exemplo, deveriam realizar-se as reuniões de clãs. Era pondo marcas num pau que ele sabia. Acho que Creb não acreditava que eu pudesse compreender. É uma coisa difícil até para os mog-urs. Ele só me mostrou porque eu estava fazendo muitas perguntas. Depois me disse para que nunca mais voltas se a tocar no assunto. Quando eu já estava um pouco mais velha, uma vez ele me pegou marcando os dias do ciclo da lua- Ficou furioso comigo.
- Esse... mog-ur - Jondalar tinha dificuldade de pronunciar a palavra-era uma pessoa santa que seria qualquer coisa como um Zelandoni?
- Não sei. Você quando fala num Zelandoni parece que está se referindo a um curandeiro. Não era o caso do mog-ur. lia sim. Ela é que era curandeira, quem conhecia plantas e ervas, O mog-ur entendia de espíritos e intercedia junto a eles para ajudar lia em seus trabalhos.
- Um Zelandoni pode, além de ser um curandeiro, ser uma pessoa dotada de outros predicados. É alguém que dedicou a sua vida a servi-la. Alguns não têm qualquer dom mais especial, simplesmente são movidos pelo desejo de estar no seu serviço, mas são as pessoas que podem falar com a Mãe.
- Os dons de Creb eram outros. Ele era o mais poderoso, o mais eminente... podia fazer... não sei como explicar.
Jondalar balançava a cabeça concordando. Nem sempre, da mesma for ma, conseguia explicar os dotes de um Zelandoni, que era também como os mog-urs, o guardião do saber. Ele voltou a sua atenção para as varas.
- O que significam essas aqui? - perguntou, apontando para as marcas extras.
Ayla enrubesceu.
- É... é a minha condição de mulher - respondeu, procurando pelas palavras.
As mulheres dos clãs deviam evitar os homens durante os seus períodos de menstruação, e eles, por sua vez, as ignoravam totalmente. Elas ficavam semi-reclusas - sofrendo a maldição da mulher - pois os homens temiam a misteriosa força vital que permitia à mulher produzir vida. Algo que impregnava o espírito do totem delas com uma extraordinária força que afugentava as essências fecundadoras dos espíritos de totens masculinos. Quando uma mulher sangrava, a essência do totem do macho era banida. Nenhum homem desejava ter o espírito de seu totem travando uma guerra durante esse período.
Mas Ayla, pouco depois de haver levado Jondalar para a caverna, se viu diante de um dilema. Ela não podia se manter em absoluto isolamento, Não enquanto a vida daquele homem estivesse por um fio e ele precisando de toda a sua atenção. Resolveu, portanto, ignorar os regulamentos. Mais tarde, durante esses períodos, trataria de evitar os seus contatos com ele. Mas como fazer isso se na caverna não havia mais ninguém, fora eles dois? Ela não podia, tal como era costume nos clãs, dedicar-se exclusivamente a tarefas femininas. Ali não havia nenhuma outra mulher para substituí-las nos afazeres diários. Tinha que caçar para o homem, cozinhar para ele, além de que Jondalar a queria ter por perto durante as refeições.
Tudo que lhe restava fazer para guardar o mínimo do decoro feminino era não tocar no assunto e se cuidar para que o fato pudesse passar despercebido. Como, então, poderia responder à pergunta dele?
Jondalar, entretanto, aceitou as palavras dela sem dar mostra de nojo ou apreensão. Nele não havia o menor indício de preocupação.
- A maioria das mulheres costumam tomar nota de seus períodos. Foi Iza ou Creb quem lhe ensinou fazer isto? - perguntou ele.
Ayla abaixou a cabeça, querendo esconder o embaraço.
- Não. Fiz isso para que pudesse saber. Não queria ser apanhada fora da caverna despreparada.
Com surpresa, ela viu que ele balançava a cabeça aprovando.- A esse respeito, as mulheres têm uma história para contar, Dizem que a lua, Lumi, é o amante da Grande Mãe Terra. Nos dias em que Doni está sangrando, ela não goza dos prazeres com o seu amado que, furioso, com o seu orgulho ferido, se afasta dela, escondendo a sua luz. Mas Lumi não consegue ficar longe de Doni por muito tempo. Sente-se solitário e saudoso de seu corpo quente e farto. Ele volta a espreitá-la. Doni, no entanto, está zangada. Não quer olhar para o amante. Ele, então, começa a rodeá-la e a mostrar-se a ela em todo o seu esplendor. Doni não consegue resistir e mais uma vez abre-se ao bem-amado e, felizes, vivem por algum tempo.
“Por isso a maioria dos festivais da Mãe se realiza na lua cheia. As mulheres dizem que as suas fases coincidem com as de Doni. Costumam chamar os períodos em que estão sangrando de tempo de lua. É observando Lumi que sabem quando isto lhes vai acontecer. Doni deu, às mulheres, palavras de contar para que, quando a lua estivesse escondida pelas nuvens, elas pudessem saber da época de seu sangramento. Essas palavras, hoje, são usadas para diversas coisas muito importantes.
Apesar de desconcertada com o fato de um homem falar tão abertamente de um assunto da intimidade feminina, Ayla estava fascinada com a história.
- Às vezes eu também observo a lua, mas mesmo assim continuo colocando as minhas marcas numa vara. O que são palavras de contar?
- São. . - nomes para as marcas que estão em suas varas, Um para cada uma delas. São usados para expressar o número de alguma coisa. Essas palavras podem dizer, por exemplo, quantos veados um espia viu numa manada, pode dizer quantos dias são necessários para se chegar até onde estão os animais e muitas coisas mais. Se for uma manada grande, como a dos bisões durante o outono, o espia deve ser um zelandonii, pois ele é quem sabe a maneira certa de usar as palavras de contar.
Ayla se sentia interessada, quase chegando a compreender o que dizia Jondalar. Estava perto de resolver muitos problemas cujas respostas lhe escapavam.
Jondalar deu uma olhada na pilha de pedras de cozinhar e apanhou algumas!
- Vou mostrar para você como é - falou, enfileirando as pedras e dizendo à medida que ia apontando para cada uma:
- Um, dois, três, quatro, cinco...
Ayla observava cada vez mais interessada.
Ao terminar, ele olhou à sua volta, procurando mais objetos para contar. Pegou as varas de Ayla e voltou a contar:
- Um - falou, botando a primeira de lado. - Dois - disse, enquanto punha a segunda vara perto da primeira. - Três, quatro, cinco...
Ayla, então, se lembrou nitidamente de Creb com os dedos espichados e lhe dizendo: ano do nascimento, ano de andar, ano de desmamar... Ela esticou a mão e olhando para Jondalar ia mostrando cada um de seus dedos:
- Um, dois, três, quatro, cinco.
- Isso mesmo. Sabia que você estava no caminho de entender quando vi as suas varas.
Ela deu um sorriso de triunfo. Pegou, então, uma das varas e começou a contar as marcas. Jondalar prosseguiu quando ela parou por não saber contar os números mais altos. Mas mesmo ele teve de interromper quando bateu na segunda marca extra. A testa franziu-se com o pensamento mergulhado em profunda concentração.
- É esse o tempo que você está aqui? - perguntou, apontando para as varas que Ayla tinha posto para fora do depósito.
- Não - respondeu ela, levantando-se para pegar o resto. Desatou outros feixes, espalhando todas as varas pelo chão.
Jondalar, ao olhar para aquilo tudo, empalideceu. O seu estômago dava voltas. Anos! As marcas representavam anos! Ele as enfileirou, de modo a ver todas as ranhuras na madeira. Depois ficou por algum tempo estudando-as. Apesar de Zelandoni lhe ter explicado como contar números maiores, ele tinha de pensar.
Então, sorriu. Ao invés de contar os dias, contaria as marcas extras, aquelas que representavam um ciclo completo das fases da lua, ou seja, cada período de sangramento de Ayla. À medida que contava em voz alta, ia fazendo para cada marca um traço no chão de terra. Depois de ter 13 marcas, omitiu uma, tal como Zelandoni lhe explicara, e fez apenas 12 traços. Os ciclos da lua não correspondiam exatamente aos anos ou estações. Quando ele terminou com as marcas dela, havia chegado ao fim da terceira vara. Parou e olhou pasmo para Ayla.
- Três anos! Você já está aqui há três anos! É o tempo que eu estou viajando. Você esteve aqui sozinha todo esse tempo, Ayla?
- Eu tinha Huiin e depois...
- Mas você nunca mais viu ninguém?
- Depois que deixei o clã, não.
Ela pensou nos anos e na maneira que usava para contá-los. Começava quando tinha encontrado o vale e adotado a potranca. A este, denominava ano de Ruim. Na primavera seguinte havia encontrado o filhote de leão. Era o ano de Neném. Portanto, do ano de Huiin ao ano de Neném havia o que Jondalar chamava um. Dois era o ano do garanhão, e três o ano de Jondalar e do potrinho. Ela se lembrava melhor dos anos pela maneira como os chamava, mas gostou das palavras de contar. As marcas haviam permitido a Jondalar saber há quanto tempo ela estava no vale. Queria aprender a fazer isso também.
- Você sabe quantos anos tem, Ayla? Quantos anos já viveu desde que nasceu? - perguntou subitamente Jondalar.
- Deixe-me pensar - ela levantou uma das mãos com os dedos estica dos. - Creb disse que Iza imaginava que eu tivesse essa quantidade... cinco anos... quando eles me encontraram - Jondalar fez cinco riscos no chão. -Durc nasceu na primavera em que houve a reunião dos das. Eu levei o meu filho comigo. Creb dizia que entre uma reunião e outra há essa quantidade -falou, acrescentando mais dois dedos da outra mão.
- Isso faz sete - disse Jondalar.
- No verão antes de me terem achado, houve uma reunião de clãs.
- Bom, vamos tirar um. Agora deixe-me pensar - pediu Jondalar, botando mais riscos no chão. Mas então ele abanou a cabeça incrédulo. -Tem certeza? Quer dizer que o seu filho nasceu quando você estava com 11 anos?
- Claro que tenho, Jondalar.
- Já ouvi falar de mulheres que foram mãe com essa idade, mas são bem poucas. Com 13 ou 14 anos é o comum e assim mesmo há quem pense ser ainda cedo. Você praticamente não passava de uma menina, Ayla.
- Não. Eu já não era mais menina. Há muito tempo que tinha deixado de ser criança. Estava muito grande para ser criança. Era mais alta do que qualquer pessoa, inclusive mais alta do que os homens. E também já era bem mais velha do que as meninas dos clãs, quando elas se tomam mulheres. Acho que não poderia esperar mais - falou com um ligeiro sorriso nos lábios. - Havia pessoas que pensavam que eu nunca fosse tomar-me mulher por causa de meu totem ser muito forte. Iza ficou feliz quando viu... que as fases da lua haviam começado para mim. E também eu até... o sorriso desapareceu - esse foi o ano de Broud. O ano seguinte foi o de Durc.
- Um ano antes de seu filho nascer, Ayla, você estava com dez anos! Ser violentada aos dez anos! Como pôde ele fazer uma coisa dessas?
- Eu era mulher e mais alta do que qualquer outra. Mais alta até do que ele.
- Mais alta sim, mas não maior. Já vi alguns desses cabeças-chatas! Podem não ser altos, mas são fortíssimos. Eu não gostaria de me ver engalfinhado com um deles.
- Cabeças-chatas não, Jondalar. Homens - corrigiu Ayla com delicadeza. - Os homens dos clãs.
Jondalar se interrompeu. Apesar do tom delicado de voz, Ayla tinha os maxilares cerrados, numa expressão firme e obstinada.
- Depois de tudo o que aconteceu, você ainda insiste que ele não é um animal?
- Talvez você possa chamar Broud de animal por ele ter me forçado. Mas como você chamaria os homens que também forçaram as mulheres dos clãs?
Não era bem a maneira como Jondalar encarava este assunto.
- Nem todos os homens são iguais a Broud, Jondalar. A maioria não é. Creb, por exemplo. Mesmo sendo um poderoso mog-ur, era uma pessoa boa e delicada. Brun também, apesar de chefe. Era enérgico, mas sempre justo. Ele me aceitou em seu clã. Se fez algumas coisas, foi porque se viu obrigado. Ele não podia desrespeitar os costumes clânicos. Mas eu fui honrada com a sua gratidão. Os homens dos clãs raramente mostram-se gratos a uma mulher na frente dos outros. Brun me permitiu caçar. Aceitou Durc e, quando eu par ti, ele prometeu proteger o meu filho.
- E quando foi que você partiu?
Ela parou para pensar. Ano do nascimento. Ano de andar. Ano de desmamar.
- Durc estava com três anos quando eu parti.
Jondalar acrescentou mais três riscos.
- Você, então, tinha 14 anos? Só 14? E desde essa época está aqui vi vendo sozinha? Há três anos? - ele contou todos os traços riscados no chão.-Você está com 17 anos, Ayla. Toda uma vida em 17 anos...
Por algum tempo Ayla ficou em silêncio, pensando. Então falou:
- Durc está agora com seis anos. Os homens já devem estar levando-o para o campo de treinamento. Grod irá fazer uma lança de tamanho apropria do para ele e Brun vai ensiná-lo como deve ser usada. E se ainda estiver vivo, o velho Zoug também irá ensinar ao meu filho como atirar com funda. Durc já deve estar treinando a caçar animais pequenos. Ele e o seu amigo Grev... Durc é mais moço, porém é mais alto do que Grev. Sempre foi alto para a sua idade. Nisso, me puxou. E corre muito rápido. É o que corre mais rápido no clã. Há de ser muito bom também com uma funda e Uba o ama. Ama-o tanto quanto eu.
Ayla só reparou que tinha os olhos cheios de lágrimas quando um soluço saiu em meio à sua respiração. Tampouco soube como de repente se encontrou nos braços de Jondalar, com a cabeça apoiada em seu ombro.
- Está tudo bem agora, Ayla - disse ele, acariciando-a com brandura. “Mãe aos 11 anos, arrancada de junto do filho aos 14. Impedida de vê-lo crescer. Nem ao menos sabe se ele está vivo e acredita piamente que a criança é amada e bem-tratada e que vão ensiná-la a caçar... como qualquer outro menino.”
Ayla se sentia consolada quando, por fim, levantou a cabeça do ombro de Jondalar, mas ao mesmo tempo estava mais leve, como se a sua dor agora lhe pesasse menos. Era a primeira vez, desde que saíra do clã, que compartilhava os seus sofrimentos com alguém. Agradecida, sorriu para Jondalar.
Ele devolveu-lhe o sorriso, cheio de ternura e dó e mais alguma coisa. Algo brotado da fonte inconsciente do seu eu que se refletia nas profundezas azuis de seus olhos e tocava numa corda sensível de Ayla. Por um longo momento a linguagem franca dos olhos, declarando mudamente aquilo que não ousavam dizer em voz alta, os encerrou num íntimo abraço.
A tensão foi demasiada para Ayla. Ela ainda não adquirira tranqüilidade suficiente para enfrentar um olhar direto. Bruscamente afastou os olhos e se pôs a reunir as varas marcadas. Jondalar levou algum tempo até cair em si e vir ajudá-la a amarrar os feixes. Trabalhando do lado dela, ele sentia mais o seu cheiro de mulher, quente e agradável, do que quando a teve nos braços. Ayla, por sua vez, ainda guardava na lembrança os lugares em que os seus cor pos se haviam encontrado, onde ela fora tocada pelas mãos acariciantes de Jondalar e o gosto salgado da pele dele misturado com o sabor de suas lágrimas.
Os dois se davam conta de que se haviam tocado e que nem por isso se sentiram ofendidos. No entanto, evitavam se olhar diretamente nos olhos, com cuidado de não se encostarem, temendo romper aquele momento de ternura tão naturalmente surgido.
- Quantos anos você tem, Jondalar? - perguntou ela, depois de haver pegado os feixes de varas.
- Quando comecei a viagem, estava com 18 anos. Thonolan tinha 15... e 18 quando morreu. Pobre Thonolan, tão moço ainda... - o seu rosto revelava a dor que ainda sentia. - Agora, estou com 21... e ainda não tenho uma companheira. Já não devia estar mais sozinho. A maioria dos homens de minha idade já encontrou a sua cara-metade e está com a sua casa construída. Com Thonolan foi assim. Ele tinha 16 anos na época de seu matrimônio.
- Encontrei só dois homens. Onde está a companheira dele?
- Morreu de parto. A criança também - os olhos de Ayla se encheram de pesar. - Foi por isso que retomamos a viagem. Thonolan não suportou mais permanecer onde estávamos. Desde o princípio, essa viagem era muito mais dele do que minha. Ele andava sempre à procura de aventuras, sempre irrequieto. Um tipo ousado, mas todo mundo gostava dele. Eu nada fazia senão acompanhá-lo. Era meu irmão e o melhor amigo que já tive. Depois que Jetamio morreu, tentei convencê-lo a voltar para casa, mas não consegui. Estava tão amargurado que não pensava em outra coisa a não ser seguir a companheira para o outro mundo.
Ayla lhe via a expressão de tristeza, lembrando-se de seu imenso desespero quando soube da morte do irmão.
- Se era o que ele queria, talvez esteja feliz. Ë difícil continuar vivendo depois da morte de uma pessoa muito querida - falou ela, docemente.
Ele agora entendia um pouco mais a dor inconsolável de Thonolan. Tal vez Ayla tivesse razão. Ela devia saber. Já havia sofrido e penado demais. Mas escolhera viver. Thonolan era impetuoso, arrebatado, cheio de coragem. Em Ayla a coragem se revelava na perseverança.
Ayla não estava conseguindo dormir direito, e os pequenos ruídos de mexidos e viradas de corpo que vinham do outro lado da fogueira indicavam que Jondalar também permanecia acordado. A sua vontade era levantar-se e ir para junto dele, mas a atmosfera de ternura formada num momento de solidariedade na dor parecia tifo tênue que tinha medo de quebrá-la se quisesse mais do que ele estava disposto a dar.
À luz mortiça da fogueira abafada, ela lhe via a forma do corpo sob as peles de dormir, o braço moreno atirado para fora das cobertas e uma perna musculosa com o calcanhar apoiado no chão. Via-o melhor quando fechava os olhos do que olhando para o seu vulto adormecido. Os seus cabelos louros e lisos amarrados na nuca com urna tira de couro, a sua barba mais escura e encaracolada, os olhos fantásticos, mais eloqüentes do que as suas palavras, e as mãos grandes, sensíveis, de dedos longos, tudo expressando muito mais do que os olhos dela podiam ver. Ele sempre sabia o que fazer com as mãos, fosse segurando um pedaço de sílex ou coçando o potrinho nos lugares desejados... Campeão, um bom nome. Foi ele quem deu...
Como podia um homem tifo alto e forte ser tão delicado? Enquanto ele a consolava, ela tocara em seus músculos rígidos, sentindo-os se moverem sob os seus dedos. Ele não tinha vergonha de se mostrar carinhoso e nem escondia as suas tristezas. Os homens dos clãs eram mais reservados. Até Creb, apesar de saber que ele a amava, não mostrava abertamente os seus sentimentos, nem mesmo dentro dos cercados de pedras que delimitavam a sua casa.
O que faria quando Jondalar fosse embora? Não queria pensar sobre isso. Mas era preciso enfrentar a realidade... ele estava de partida. Dissera que queria dar-lhe alguma coisa antes de partir.
Ayla se remexia, dava voltas na cama, de vez em quando surpreendendo o vulto de Jondalar com o seu torso nu e moreno, os membros largos, a cabeça virada de costas para ela. Num certo momento, viu-lhe a coxa com a cicatriz de forma irregular, mas nada de anormal. Por que teria ele sido enviado? Ela estava aprendendo as novas palavras... será que foi para que lhe ensinas se a falar? Ele ia mostrar um modo diferente de caçar, melhor, mais fácil. Quem poderia imaginar que um homem ainda fosse ensiná-la a caçar? Nisto também Jondalar diferia dos homens dos clãs. “Talvez eu também possa lhe dar alguma coisa para que se lembre de mim.”
Por fim ela cochilou com o pensamento dele tomando-a nos braços e sentindo-lhe o calor do corpo junto ao seu. Acordou pouco antes do dia clarear e havia sonhado com Jondalar caminhando pelas estepes. Descobrira o que poderia fazer para lhe dar. Era algo que estivesse sempre junto de sua pele, que guardasse o calor de seu corpo.
Rápido, se levantou e foi buscar as roupas que tinha cortado na noite em que o trouxera para a caverna. Em seguida, dirigiu-se para perto da fogueira. O couro estava endurecido pelo sangue seco, mas se fosse molhado ela poderia ver como a roupa tinha sido feita. A camisa, com aquele magnífico desenho, depois de reformada em algumas partes, poderia ser aproveitada. As calças teriam de ser feitas novas, mas parte da parka dava para ser aproveita da. Os calçados estavam perfeitos, precisavam apenas de outras correias.
Ela se inclinou na direção das brasas para examinar as costuras. Nas beiradas das peles havia pequeninos furos por onde passavam fios de tendões e tiras finas de couro que emendavam as diversas peças da roupa. Na noite em que as cortara já tinha reparado naquele tipo de trabalho. Não sabia ao certo se conseguiria reproduzi-lo, mas iria tentar.
Jondalar se mexeu. Ela prendeu a respiração. Não queria que ele a visse com as suas roupas. Só depois quando estivessem prontas. Ele voltou a ficar quieto, com a respiração pesada de quem dormia profundamente. Ayla tornou a juntar as roupas e as meteu sob a sua pele de dormir. Mais tarde pode ria passar em revista a sua pilha de peles curtidas e escolher algumas.
Uma luz fraca começou a penetrar pelas fendas da caverna. A respiração e pequeninas mudanças nos movimentos do corpo indicavam que Jondalar não tardaria muito a acordar. Ela levou mais lenha para a fogueira, botou pedras para esquentar e apanhou o recipiente de fazer chá. O odre estava quase vazio e o chá sempre saía melhor quando preparado com água fresca. Huiin e o potro estavam de pé em seu canto. Ayla já estava saindo, mas voltou ao ouvir um relincho baixinho da égua.
- Tive uma Ótima idéia, Huiin - falou ela por gestos e sorrindo. - Vou fazer para Jondalar roupas do tipo que ele usa. Você acha que o nosso amigo vai gostar? - O sorriso subitamente desapareceu. Ela encostou a testa em Huiin, com um braço passando em torno do seu pescoço e o outro rodeando o do potro. “Depois, então, ele irá me deixar”, pensou. Ela não podia forçá-lo a ficar. Tudo que tinha a fazer era ajudá-lo a partir.
Quando apareceram as primeiras luzes da madrugada, desceu à praia, tentando esquecer o triste futuro sem a companhia de Jondalar e procurar) do consolar-se com o pensamento de que pelo menos as roupas que faria esta riam junto dele. Despiu-se para um rápido banho de rio e voltou para a caverna, depois de arrumar um graveto e encher o odre.
“Essa manhã vou experimentar alguma coisa diferente”, disse para si mesma. “Uma mistura de anis com camomila.” Limpou o graveto, colocou-o junto da cuia e começou a preparar o chá. “As framboesas já estão maduras. Acho que vou colher algumas.”
Deixou o chá preparado para Jondalar, escolheu uma cesta de coletar e saiu. Huiin e Campeão foram atrás e ficaram no pasto perto da área das framboesas. Ela aproveitou também para desencavar algumas cenouras e amendoins com as suas raízes esbranquiçadas e ricas em amido. Podiam ser comidas cruas, mas ela as preferia cozidas.
No caminho de volta viu Jondalar no patamar banhado pelo sol.
Ela acenou-lhe quando foi para o rio lavar as raízes. De volta a caverna, jogou-as num caldo de carne que já havia começado a fazer. Provou, salpicou dentro algumas ervas secas e dividiu as framboesas em duas porções. Foi então que se serviu de uma cuia de chá frio.
- Camomila e mais alguma coisa que não consegui identificar - falou Jondalar.
- Não sei como você chama essa planta. Parece um capim, mas é doce. Vou mostrá-la depois a você - ela reparou que ele havia posto para fora as suas ferramentas e algumas das laminas que fabricara.
- Gostaria de começar cedo - disse ele, vendo-lhe o interesse. - Há ainda algumas ferramentas que preciso fazer antes.
- Já é tempo de caçar. A carne seca é muito magra e os animais a essa altura já estão gordos. Estou louca por um assado bem suculento.
- Só de ouvir você falando - disse, sorrindo - já fico com água na boca. Você cozinha maravilhosamente bem, Ayla.
Ela ficou vermelha e abaixou a cabeça. Era bom saber que ele pensava assim, mas estranho que tivesse reparado em alguma coisa que se devia esperar.
- Não quis deixá-la encabulada.
- Iza dizia que quando se elogia uma pessoa, os espíritos ficam com ciúme. Faça o seu trabalho bem e isto é o bastante.
- Acho que Marthona gostaria de conhecer essa Iza. Ela também dizia que o melhor elogio é o seu próprio serviço bem-feito. Acho que todas as mães se parecem.
- Marthona é a sua mãe?
- É. Ainda não tinha dito?
- Pensava que fosse, mas não tinha muita certeza. Você tem outros germanos, fora o que morreu?
- Tenho um irmão mais velho, Joharran, que é o atual chefe da Noria Caverna. Ele nasceu na casa de Joconan. Minha mãe depois da morte de Joconan foi ser a companheira de Dalanar, a casa de quem eu nasci. Depois os dois desfizeram o nó e ela foi ser a companheira de Willomar dono da casa onde nasceram Thonolan e a minha irmã mais moça, Folara.
- Você viveu com Dalariar, não é?
- Durante três anos. Foi com ele que eu aprendi o meu ofício. É um dos melhores ferramenteiros que há. Quando fui viver na sua casa, eu tinha 12 anos, mas já era homem há mais de um ano. A minha virilidade chegou muito cedo e eu, como você, também era grande para minha idade - o seu rosto assumiu uma expressão estranha que Ayla não entendeu. - Foi melhor eu ter partido...
Então, sorrindo outra vez, disse:
- Nessa ocasião é que conheci minha prima Joplaya, filha de Jerika e também nascida na casa de Dalanar, depois que ele tomou Jerika para companheira. Joplaya é dois anos mais moça do que eu. Aprendíamos juntos a trabalhar a pedra. Nunca deixou de haver uma certa competição entre nós dois, mas, apesar de achar que ela era muito talentosa, eu nunca lhe confessei isto. Joplaya sabe que é boa. Tem um excelente olho e a mão muito firme. Um dia ainda irá trabalhar tão bem quanto Dalanar.
Ayla ficou em silêncio por algum tempo. Depois disse:
- Uma coisa não estou entendendo, Jondalar. Folara tem a mesma mãe que você, portanto é a sua irmã, não é?
- É.
- Você nasceu na casa de Dalanar e Joplaya também é da casa de Dalanar. Então por que ela é sua prima? Qual a diferença entre irmã e prima?
- Irmãs e irmãos vêm da mesma mulher. Os primos já não são parentes tão próximos. Eu nasci na casa de Dalanar e sou provavelmente do espírito dele. As pessoas dizem que nós nos parecemos muito. Acho que Joplaya também é do espírito dele. Jerika, a sua mãe, é baixa, mas ela é alta como Dalanar. Não tão alta quanto ele... acho que um pouco mais alta do que você. Ninguém sabe ao certo de quem é o espírito que a Grande Mãe escolhe para misturar com o de uma mulher. Desse modo, Joplaya e eu podemos ou não ser do espírito de Dalanar e por isso somos só primos.
Ayla balançou a cabeça, compreendendo.
- Talvez Uba pudesse ser minha prima, mas para mim é uma irmã.
- Irmã?
- Nós não somos germanas de verdade. Uba era a filha de Iza, nascida depois que me encontraram. Iza dizia que nós duas éramos suas filhas -Ayla falava como se dirigindo a ela própria, toda voltada para si mesma. - O companheiro de Uba não foi o homem que ela teria escolhido. Havia um outro, mas a mulher que sobrava para este era sua germana e, nos clãs, germanos não podem unir-se.
- Nós não nos unimos com irmãos e irmãs - falou Jondalar: - Em geral, também não com primos, embora isso não seja de todo proibido. Não é bem-visto. Há espécies de primos que são mais próximos do que outras.
- Quais?
- De muitas formas. Alguns são mais próximos do que outros. Os filhos das irmãs de sua mãe são primos. Os filhos do companheiro do irmão da mãe, os filhos...
Ayla abanava a cabeça sem entender.
- Tudo muito confuso. Como se sabe quem é primo e quem não é? Quase todo mundo pode ser primo.. . Quem sobrada para quem numa Caverna?
- A maioria das pessoas não se une com aquelas que são da mesma Caverna. Quase sempre é com alguém encontrado nas reuniões de verão. Eu tenho a impressão de que a união de primos é às vezes permitida porque só se vai saber se a pessoa escolhida para companheiro ou companheira é realmente um parente quando se mencionam os laços... os laços de parentesco. Mas normalmente as pessoas conhecem os seus primos mais próximos, mesmo que vivam numa outra Caverna.
- Como Joplaya?
Jondalar, com a boca cheia de framboesas, balançou a cabeça confirmando.
- Jondalar, e se não for os espíritos que fazem os bebês? E se for o homem? Nesse caso, as crianças não seriam tanto do homem como da mulher?
- O bebê cresce dentro da mulher, Ayla. Ele vem dela.
- Então por que os homens e as mulheres gostam tanto de se juntarem?
- E por que a Mãe nos daria a dádiva do: prazer? Você deveria perguntar isso a um Zelandoni.
- Por que você fala “dádiva do prazer”? Há muitas outras coisas que dão prazer e que também deixam as pessoas felizes. Será que um homem sente tanto prazer assim quando ele põe o seu órgão dentro de urna mulher?
- Não é só o homem quem sente. Uma mulher... mas você não sabe, não é? Nunca passou pelos primeiros ritos. Um homem a abriu, fez de você mulher, mas não é só isso. Como as outras pessoas puderam permitir uma coisa destas? É vergonhoso!
- As pessoas não compreendiam, apenas viam o que Broud fazia e isso não era uma vergonha. O modo como ele fazia é que era. Feito, não por prazer, mas por ódio. Eu sentia dor e raiva, mas não vergonha. E nem prazer também. Não sei se foi Broud quem fez o meu bebê ou se foi ele quem me tomou mulher para que eu pudesse ter um. Sei apenas que o meu filho me fez feliz. Durc era o meu prazer.
- A Mãe concede a dádiva da vida e essa é também uma alegria, mas existem mais coisas quando um homem se junta com uma mulher. Isso também é uma dádiva e deve ser feito com alegria para honrar a Mãe.
“Talvez haja mais coisas que você não saiba”, pensou ela. No entanto Jondalar falava com tanta certeza. Será que tinha razão? Ayla não acreditava muito no que ele dissera, mas ficou pensativa.
Depois de haverem comido, Jondalar foi para a parte larga do patamar, onde havia colocado as suas ferramentas. Ayla o seguiu e se sentou perto. Ele espalhou pelo chão as lâminas para poder melhor compará-las. Diferenças mínimas as tomavam mais apropriadas para este ou aquele serviço. Jondalar pegou uma das lâminas, olhou-a contra o sol e depois a mostrou para Ayla.
A lâmina tinha algo mais do que dez centímetros de comprimento e menos do que dois de espessura. A parte alta no centro da face externa era reta e se afinava uniformemente até as beiradas, tão finas que a luz se filtrava através. Ela fazia uma curva para cima na direção da face interna, lisa e de formato bulbóide. Os dois gumes eram retos e afiados. Quando olhada contra o sol, podiam ser vistas as linhas que se irradiavam de um bulbo de percussão extremamente plano. Jondalar puxou um fio da barba e o cortou, sem qual quer resistência. Tanto quanto se podia desejar, era uma lâmina perfeita.
- Vou guardar esta para barbear - disse Jondalar.
Ayla não sabia de que ele estava falando, mas havia aprendido com Droog que devia ouvir qualquer comentário ou explicação sem fazer perguntas para não atrapalhar a concentração. Ele pôs de lado a lâmina e pegou uma outra. Os dois gumes desta afinavam-se iguais, fazendo-a mais estreita numa extremidade. Então apanhou uma pedra da praia, com mais ou menos o dobro do tamanho de seu punho, e apoiou sobre esta a parte estreita da ferramenta. Com a ponta rombuda de um chifre, martelou de leve a extremidade, de modo a dar-lhe um formato triangular. Pressionando as bordas do triângulo contra a bigorna de pedra, lascou pequenas estilhas, formando na lâmina uma ponta afiada e fina.
- Esta aqui servirá como furador - falou, depois de fazer com o instrumento um furo numa ponta do couro de sua tanga. Então, mostrando-o para Ayla, disse: - É uma ferramenta boa para fazer os furos das costuras de roupas.
“Será que ele a tinha visto examinando as suas vestimentas?”, perguntou-se Ayla. Parecia que estava sabendo do que ela planejava.
- Vou fazer também uma sovela grande. Será igual a esta, só que maior e mais forte. Será usada para perfurar madeira ou ossos e chifres.
“Não. Ele estava simplesmente falando de ferramentas”, pensou Ayla aliviada.
- Eu também já usei... sovelas para fazer furos em sacolas, mas não com uma ponta tão fina assim.
- Você gostou desta? - ele sorriu. - Posso fazer uma outra para mim.
Ayla a pegou e agradeceu, abaixando a cabeça, à maneira dos clãs. Mas, então, se lembrou.
- Obrigada.
Um sorriso grande de satisfação iluminou o rosto de Jondalar. Ele pegou outra lâmina e a apoiou contra a pedra. Com o martelo de chifre, quadrangulou uma das extremidades, deixando um ligeiro cotovelo. Em seguida, segurando a ponta quadrada, de modo a mantê-la perpendicular ao golpe do martelo, bateu firme na beirada. Uma lasca de pedra soltou-se, deixando a lâmina com a ponta forte e fina.
- Já tinha visto essa ferramenta? - perguntou Jondalar.
Ela a pegou para examinar e a devolveu, fazendo sinal que não.
- É um buril. Um instrumento usado por entalhadores e escultores, O deles é um pouquinho diferente. Vou usar este para fazer a arma de que lhe falei.
- Buril... buril - repetiu Ayla, querendo familiarizar-se com o nome.
Depois de fazer mais algumas ferramentas, todas parecidas com as que já estavam prontas, ele foi até a borda do penhasco sacudir o avental e, em seguida, puxou para perto a gamela em forma de cocho. Retirou uma tíbia, enxugou-a e se pôs a revirá-la na mão, resolvendo por onde começar. Então se sentou e, escorando o osso contra o pé, usou o buril para riscar uma linha no sentido do comprimento. Depois fez uma segunda que se juntava com a primeira num determinado ponto. Uma terceira linha pequena formou a base de um triângulo afilado.
Riscou novamente sobre a primeira linha, retirando uma raspa de osso, comprida e encaracolada. Com as outras linhas fez o mesmo, raspando-as com a ponta do cinzel que cada vez cortava mais fundo no osso. Sempre raspando por cima das mesmas linhas, ele chegou ao centro oco do osso. Por fim, de pois de um último repasse para ter certeza de que não havia nenhum segmento que tivesse ficado preso, fez pressão sobre a base. A ponta comprida do triângulo veio para cima e ele retirou a peça inteira. Colocou-a de lado, pegou novamente no osso e riscou outra linha comprida que se encontrava com um dos lados recém-cortado.
Ayla observava com atenção, não querendo perder nada. Mas passado algum tempo, vendo que o trabalho continuava sempre igual, os seus pensamentos se voltaram para a conversa tida durante a refeição matinal. A atitude de Jondalar havia mudado. Não por ele ter dito qualquer coisa de especial, apenas uma mudança no teor de seus comentários.
Lembrou-se de que ele dissera “Marthona iria gostar de lia” e também de que falara qualquer coisa como “todas as mães serem parecidas”. Será que a mãe dele gostaria de uma cabeça-chata? Seriam eles realmente parecidos? E mais adiante, apesar de zangado, Jondalar se havia referido a Broud como homem... o homem que tinha aberto a passagem nela para que o seu filho nascesse. E ainda dissera mais: que não entendia como as outras “pessoas” puderam permitir uma coisa destas. Dissera sem reparar e isto era o que a ale grava mais. Era sinal de que ele já pensava nos clãs como um povo. Não ani mais, cabeças-chatas ou aberrações... mas gente!
A sua atenção foi atraída de novo para o que ele fazia, quando o tipo de trabalho mudou. Agora Jondalar havia apanhado um dos triângulos de osso e um forte raspador de sílex e alisava as bordas aguçadas do osso que ia saindo em compridas espirais.
Em pouco tempo ele estava com um pedaço arredondado de osso que se afinava numa ponta extremamente aguda.
- Jondalar, você está fazendo... uma lança?
Ele sorriu.
- Pode-se fazer uma ponta fina num osso, do mesmo modo que se faz na madeira. Só que o osso é mais resistente e não se lasca, além de ser também mais leve.
- Mas essa lança não está muito pequena? - perguntou ela.
Jondalar soltou uma de suas gostosas gargalhadas.
- Estaria, se a lança estivesse toda aí. Por enquanto estou só fazendo a ponta. Há gente que faz pontas de sílex. Os mamutoi, por exemplo. As de pedra são boas principalmente para a caça de mamutes. O sílex é frágil e se quebra, mas se a ponta tiver gumes afiados, iguais aos de uma faca, vai penetrar mais facilmente no couro do mamute. Já para a maioria das outras caças, o osso dá ponta melhores. Os fustes são de madeira.
- E como você faz para juntar as duas peças?
- Veja - falou ele, virando a ponta para baixo, de modo que Ayla pudesse ver a base. - Eu posso, com um buril ou uma faca, fazer uma fenda nessa extremidade e esculpir um pino na ponta do fuste para ser encaixado na fenda. Assim... - disse, botando o indicador de uma das mãos entre o polegar e o indicador da outra mão. - Depois junto com cola ou resina e amarro bem apertado com cordões molhados de couro ou tendão. Quando secar e encolher, as duas peças estarão bem coladas uma na outra.
- É uma ponta tão pequena. O fuste não pode ser mais do que um pauzinho!
- Será maior do que um pauzinho e não tão pesado quanto a sua lança. Tem de ser assim, do contrário não se consegue atirá-la.
- Atirar?! Você atira urna lança?
- Você não atira pedras com a sua funda? Então, por que não fazer o mesmo com uma lança? Daqui por diante, Ayla, você não vai mais precisar cavar buracos no chão, e logo que pegar o jeito conseguirá arremessar a lança em plena corrida. Com a pontaria que tem com a funda, acho que vai aprender bem depressa.
- Jondalar! Você sabe o quanto na minha vida tenho desejado matar um veado ou um bisão com uma funda? Nunca tinha pensado em atirar uma lança - ela franziu a cara. - Mas e a força? Você tem força suficiente para atirar. E eu? As minhas pedradas são perigosas e vão longe quando atiradas com a funda, mas se for com a mão já não é a mesma coisa.
- Realmente, a força não é muita, mas você leva a vantagem da distância. Agora você tem razão numa coisa. É pena não se poder atirar uma lança com uma funda, mas... ele se interrompeu, deixando a frase por acabar. - Fico imaginando se... a sua testa franzia-se. O pensamento era fantástico demais, exigindo-lhe a atenção imediata. - Não, acho que não... Onde podemos arrumar os fustes?
- Perto do rio, Jondalar, existe alguma razão que me impeça de ajudar na fabricação das lanças? Aprenderia mais depressa com você por perto para me dizer o que estou fazendo de errado. Preciso aproveitar a sua presença.
- Ah, claro - respondeu. Mas, enquanto estava descendo o caminho da praia, ele tinha uma certa sensação de peso. E que tinha esquecido de sua partida e se sentia triste por ser lembrado.
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