O Vale dos Cavalos

Jean M. Auel · Capítulo 23 de 31

Páginas do PDF

O Vale dos Cavalos

Capítulo 21

- Ayla, não agüento mais ficar dentro dessa caverna. Olhe para o sol. Eu já posso me movimentar pelo menos para ir até lá fora.

Ela não entendeu tudo que ele disse, mas percebeu que era uma queixa e teve pena de seu sofrimento.

- Pontos - disse, tocando num dos nós. - Cortar pontos. Manha ver perna.

Ele sorriu, como se tivesse acabado de vencer uma batalha.- Com que então vai tirar os pontos e amanhã de manhã vou poder sair da caverna, não é?

Falando ou não a língua, Ayla não iria comprometer-se mais do que pretendia.

- Ver - disse com veemência. - Ayla ver... - ela lutava com o seu reduzido vocabulário. - Perna. - - não pronta. Dun-da-laá não sair.

Jondalar voltou a sorrir. Sabia que tinha forçado o sentido das palavras dela, esperando que Ayla fosse concordar com ele, mas ela não caíra na sua conversa e insistira para fazer-se entendida. Ele se sentia satisfeito. Podia não sair da caverna no dia seguinte, mas isso demonstrava que finalmente ela começava a aprender um pouco.

Ensinar Ayla a falar tomou-se um desafio e os progressos dela davam-lhe prazer. No entanto os avanços se faziam de forma desigual. Ele estava intrigado com o seu processo de aprender. Era espantosa a extensão do vocabulário que Ayla já possuía. Ela parecia ter a capacidade de memorizar as palavras tão logo ele lhe fosse dando o significado. Um dia ficou uma tarde quase inteira dizendo-lhe os nomes de tudo que ele e ela pudessem lembrar e, quando terminaram, Ayla repetiu todas as palavras com as suas associações corretamente. Mas a pronúncia lhe era difícil. Ela não conseguia reproduzir, por mais que se esforçasse, determinados sons. E realmente esforçava-se.

Mas ele gostava de seu jeito de falar. Ela tinha uma voz grave e agradável, com uma sonoridade exótica que vinha de seu estranho modo de acentuar as palavras. Jondalar preferiu, por enquanto, não corrigir a maneira como ela juntava as palavras. A correção do discurso ficaria para mais tarde. As dificuldades dela tomaram-se mais visíveis quando começaram a passar das palavras que designavam coisas específicas e ações. Os mais simples conceitos abstratos eram problemas. Ela, por exemplo, queria uma palavra para cada matiz de cor. Não podia entender como o verde-escuro dos pinheiros e o claro dos salgueiros fossem os dois escritos pela mesma palavra. Quando conseguia perceber uma forma de abstração do pensamento, parecia que a idéia lhe chegava como uma revelação ou algo há muito tempo esquecido.

Certa vez ele fez um comentário elogioso sobre a sua fantástica memória. Ela achou difícil entendê-lo ou acreditar.

- Não, Dun-da-laá. Ayla não lembrar bem. Ayla, menina pequena, tentar muito. Não boa memória. Tentar, tentar. Todo tempo tentar.

Jondalar abanava a cabeça, desejando ter tão boa memória quanto ela ou a sua persistência e imensa vontade de aprender. Todos os dias ele notava progressos, mas ela nunca estava satisfeita. Contudo, quanto mais aumentava a possibilidade de comunicação entre os dois, mais se aprofundava o mistério de Ayla. Quanto mais ele sabia sobre ela, mais perguntas iam ficando sem respostas. Para certas coisas, era uma mulher extraordinariamente capaz e inteligente, para outras, ingênua e ignorante ao extremo. Com isto ele nunca tinha muita certeza como julgá-la. Algumas de suas técnicas - como a de fazer fogo - eram das mais avançadas que já vira na vida, enquanto outras eram tão primitivas que ele quase não acreditava que houvesse alguém usando-as.

De uma coisa, porém, Jondalar não tinha dúvida: estivesse ou não o povo dela vivendo nas redondezas, Ayla era perfeitamente capaz de tomar conta de si mesma. E dele também, confirmou, vendo-a colocar de lado as cobertas para examinar-lhe a perna ferida.

Ela já tinha pronta a solução anti-séptica, mas estava nervosa enquanto se preparava para tirar os pontos. Não achava que a ferida fosse abrir, a cicatrização estava tendo um encaminhamento normal, mas era uma técnica nova, nunca usada, por isso se via insegura. Há dias já vinha pensando em retirar os pontos, e agora a queixa de Jondalar a fez resolver-se.

Debruçou-se sobre a perna, olhando com atenção os pontos. Com cuidado, puxou a ponta de um dos fios, feitos do tendão de uma corça. A pele crescera agarrada à linha e se suspendeu junta. Ela se perguntava se deveria ter esperado tanto tempo. Bom, era tarde para pensar nisso agora. Segurou entre os dedos o nó e, com a faca mais afiada que possuía - uma que nunca fora usa da - cortou o mais próximo possível do nó. Depois de dar uns puxões para experimentar, viu que o ponto sairia facilmente. Botou, então, o nó entre os dentes e deu um puxão rápido, de uma só vez. A linha saiu.

Jondalar estremeceu, recuando com o corpo. O corte não se abriu. Ela apenas lamentava estar causando-lhe aquele pequeno desconforto. Um fio de sangue escorreu do lugar onde a pele se rompera ligeiramente, mas os músculos e a carne estavam bem cicatrizados. Desconforto era um pequeno preço a pagar. Ela resolveu retirar os outros pontos o mais depressa possível para acabar de uma vez com aqueles instantes desagradáveis. Jondalar apertava os dentes e cerrava as mãos cada vez que sentia um dos puxões. Por fim, os dois se inclinaram sobre a perna, querendo ver o resultado.

Ayla decidiu que se tudo corresse bem daria licença para que ele se firmasse sobre a perna e saísse um pouco da caverna. Pegou a faca, a vasilha com a solução anti-séptica, e se levantou. Jondalar reteve-a.

- Posso ver essa faca? - perguntou, apontando.

Ela lhe deu o objeto e ficou observando-o, enquanto ele o examinava.

- Mas isto é sílex! Não é uma simples lâmina. Foi feita com uma certa técnica, mas só que muito primitiva. Nem mesmo cabo tem, apenas um retoque de um lado para não ferir a pessoa. Onde você conseguiu isso, Ayla? Quem fez a faca?

- Ayla fazer.

Ela sabia que ele estava comentando sobre a qualidade do trabalho do objeto. Queria explicar-lhe que não era tão boa ferramenteira como Droog, mas que havia aprendido a talhar com o melhor dos talhadores de pedra dos clãs. Jondalar examinava a faca minuciosamente e, segundo parecia, com certa surpresa. Ayla gostaria de discutir as qualidades do instrumento, as propriedades do sílex, mas infelizmente lhe era impossível. Faltava-lhe o vocabulário específico e a compreensão necessária para formular conceitos. Era desalentador.

Estava louca de vontade de falar, de conversar sobre qualquer coisa com ele. Há tantos anos que não trocava idéias com uma pessoa. Só agora, depois da chegada de Jondalar, é que realmente se dava conta do isto lhe fazia falta. Sentia-se como se estivesse diante de um banquete, provando só de suas migalhas, ao invés de estar devorando as iguanas.

Jondalar devolveu-lhe a faca, balançando a cabeça espantado. Era afia da e, sem dúvida, bastante satisfatória. Entretanto, mais curioso ainda havia ficado. Ayla era tão competente quanto qualquer zelandonii, com conheci mentos de técnicas avançadíssimas, como essa dos pontos. No entanto, que faca mais primitiva! Se ele ao menos pudesse lhe fazer algumas perguntas, fazê-la entender e ela lhe contar... E por que não conseguia falar? Estava aprendendo agora rapidamente. Então, por que não teria aprendido antes?

Fazer Ayla falar tornara-se uma suprema ambição, para ele e para ela.

Jondalar acordou cedo. A caverna ainda estava escura, mas já se via, pela entrada e pelo buraco no teto, os primeiros alvores da madrugada. A luz, perceptivelmente, ia ficando mais clara, enquanto ele observava as reentrâncias e saliências na parede ganharem forma. Vez por outra, fechava os olhos para continuar vendo as formas que ficaram gravadas em seu cérebro. Precisava se levantar e ir lá fora para olhar outras coisas. Sentia-se cada vez mais excitado, certo de que aquele seria o grande dia. Impaciente, estava a ponto de sacudir a mulher que dormia ao seu lado. Ia tocá-la, mas parou com a mão no ar, mudando de idéia.

Ayla dormia com o corpo enroscado e as peles empilhadas ao seu redor. Ele sabia que estava ocupando o lugar dela dormir na caverna. As peles de Ayla se achavam sobre uma esteira colocada ao seu lado e não numa cavidade no chão - como a dele - revestida por um acolchoado de palha. Ela dormia vestida, pronta para pular ao primeiro chamado. Subitamente, virou-se, ficando deitada de costas. Jondalar a examinava com atenção, procurando ver se havia nela algum traço marcante que desse uma pista sobre a sua origem.

A forma do rosto, com a estrutura óssea das maçãs, se comparada com a das mulheres zelandonii, tinha um quê particular, mas não havia nada fora do comum em Ayla, anão ser o fato de ser extraordinariamente bonita. “Não. Não era uma questão só de beleza”, pensou ele, concluindo, agora que a olhava em profundidade. “Havia algo em suas feições que seria reconhecido como belo por qualquer padrão de beleza.”

Quanto ao feitio dos cabelos - presos em tranças regulares, deixadas soltas dos lados e atrás, e na frente embutidas umas sob as outras - não era comum, mas ele já vira outros arranjos de modo até mais estranho. Algumas das tranças se haviam desfeito e o cabelo fora puxado para trás da orelha, caindo em desalinho. Uma das bochechas estava manchada de carvão. Então ele se deu conta de que, desde que recobrara a consciência - e provavelmente isso já devia estar acontecendo antes - ela só o largava por alguns instantes. Nada escapava aos seus cuidados e...

O fio de seus pensamentos foi interrompido por Ayla que abriu os olhos, soltando um gritinho de surpresa.

Ela não estava acostumada a abrir os olhos e dar com uma cara na sua frente, sobretudo uma com um par de brilhantes olhos azuis e uma barba loura desgrenhada. Rapidamente se sentou. Tão depressa, que por um momento se sentiu meio tonta, mas logo recuperou o domínio de si e se levantou para atiçar o fogo. Estava apagado. Novamente ela se esquecera de abafar a fogueira. Foi buscar o material para fazer um novo fogo.

- Você podia me mostrar como faz fogo, Ayla? - perguntou Jondalar quando a viu apanhando as pedras.

Desta vez ela compreendeu.

- Não difícil - disse, trazendo as pedras e as acendalhas para perto da cama. - Ayla mostrar - ela bateu uma pedra contra outra. Em seguida, fez um montículo de fibras vegetais e felpa de cardo, e lhe deu a pirita de feno e o pedaço de sílex.

O sílex, Jondalar imediatamente o reconheceu. A outra, achava já ter visto também, mas jamais lhe teria ocorrido usar as duas para qualquer coisa que fosse, sobretudo para fazer fogo. Ele bateu uma contra outra como viu Ayla fazendo. Nada, apenas duas pedras se chocando uma contra outra e soltando, segundo lhe pareceu, uma minúscula faísca. Bateu novamente, já quase não acreditando que pudesse produzir fogo com pedras, apesar de ter visto Ayla fazê-lo diversas vezes. Uma faísca grande, agora, pulou das pedras. O seu espanto logo se transformou em interesse. Após algumas tentativas mais, ajudado por Ayla, ele tinha uma pequena fogueira crepitando ao seu lado. Olhou, então, outra vez para as pedras.

- Quem lhe ensinou a fazer fogo desta maneira?

Ayla sabia o que ele lhe perguntava, mas como explicar?

- Ayla fazer - respondeu.

- Sim, eu sei que você faz. Mas quem lhe mostrou?

- Ayla mostrar - como lhe contar sobre aquele dia em que descobrira as pedras-de-fogo, quando ela se vira sem fogueira e com a machadinha que brada? Por um momento, meteu a cabeça entre as mãos, tentando ver se conseguia explicar. Depois, triste, olhou para ele, abanando a cabeça. - Ayla não saber falar.

Ele percebeu toda a sua frustração.

- Irá saber, Ayla, e então medi Isso não vai demorar muito. Você é uma mulher surpreendente - ele deu um sorriso. - É hoje que vou sair, não é?

- Ayla ver... - ela afastou as cobertas para examinar a perna. No lugar dos pontos formaram-se pequeninas cascas e o estado geral da perna ia indo bem. Já era tempo de fazê-lo levantar e tentar saber de suas verdadeiras condições. - Sim. Dun-da-laá sair.

O sorriso que se estampou no rosto dele foi o maior que Ayla já vira em toda a sua vida. Jondalar se sentia como um rapazinho indo para a Reunião de Verão depois de um longo inverno.

- Bom, então vamos lá, mulher - ele empurrou as peles, louco para se levantar e sair.

O entusiasmo era contagioso. Ela devolveu o sorriso, mas havia ainda uma restrição.

- Dun-dalaá comer comida.

Não demorou muito a ficar pronta. Ela só teve de fazer o chá, a comida fora preparada na véspera. Ela levou cereais para Huiin e ficou alguns momentos escovando-lhe os pêlos com uma escova de cardo, O potrinho não foi esquecido, e também ganhou as suas carícias e escovadelas. Jondalar observava-a. Já tinha reparado antes em Ayla com a égua, mas aquela era a primeira vez que a via fazendo certos sons parecidíssimos com o relinchar de um cavalo e outros guturais com as sílabas mutiladas. Os gestos e sinais que ela fazia com as mãos nada lhe diziam, era como se não os visse. Ele não sabia que também faziam parte da língua que Ayla usava para se comunicar com o animal, mas, por uma razão qualquer, sentia que ela estava conversando com a égua e que esta a entendia.

Enquanto Ayla fazia festinhas nos seus bichos, ele se perguntava que mágica teria ela usado para cativar os animais daquela maneira. Ele próprio já se sentia também cativo. Foi então que, surpreso e encantado, viu Ayla trazendo a égua e o potro na sua direção. Jondalar nunca tinha acariciado um cavalo, nem chegado tão perto de um potrinho felpudo. A total confiança e falta de medo dos animais conquistaram-no. Principalmente o cavalinho parecia ter simpatizado com ele depois das primeiras cautelosas palmadinhas, logo transformadas em afagos e coçadelas nos indefectíveis lugares de sempre.

Ele se lembrou de que ainda não dissera a Ayla o nome do animal. Então falou, apontando:

-Cavalo.

Mas Huiin tinha um nome próprio e Ayla fez não com a cabeça.

- Huiin - replicou.

Para ele, os sons que ela emitiu não expressavam nenhum nome. Eram apenas uma perfeita imitação da voz do cavalo. Jondalar estava perplexo. Ela não era capaz de falar uma língua, mas sabia falar como um cavalo. Conversar com um cavalo, seria isso possível? Só podia ser mágica e das grandes.

Pensando que a expressão de perplexidade dele era por não estar entendendo, Ayla bateu no peito dela e disse o seu nome. Depois apontou para Jondalar e disse o dele. Por fim para Huiin e mais uma vez relinchou.

- É esse o nome da égua, Ayla? Eu não consigo fazer sons assim. Não sei falar com cavalos.

Depois de uma segunda demonstração mais paciente, ele fez uma tentativa, mas soou como uma palavra lembrando a voz do cavalo. Mas ela pareceu ficar satisfeita e conduziu os animais de volta ao lugar deles na caverna.

- Ele está me ensinando a falar com palavras, Huiin. Vou aprender to das as suas palavras. Eu tinha de dizer o seu nome para o homem. Agora te mos de pensar num para o seu filho. Será que você gostaria de que Dun-dalaá escolhesse o nome de seu bebê?

Jondalar já havia ouvido falar de certos zelandonii que tinham a capacidade de atrair animais para os caçadores. Havia inclusive homens que sabiam imitar a voz de alguns animais para fazê-los chegar perto. Mas nunca soube de ninguém que conversasse com um animal e muito menos que o convencesse a morar junto com ele. No entanto, por causa dela, uma égua selvagem havia parido bem na frente de seus olhos e deixado que ele tocasse no seu filhote. Subitamente, cheio de admiração e também com um pouco de medo, atinara com o que a mulher tinha feito. Quem era ela? Que tipo de magia possuía? Entretanto, observando Ayla, com um sorriso feliz no rosto, vindo na sua direção, ele nada via de extraordinário nela. Uma mulher como qualquer outra, só que podia falar com cavalos e não com gente.

- Dun-da-laá ir lá fora?

Ele já quase havia se esquecido. O seu rosto iluminou-se cheio de impa ciência. Antes que ela tivesse tempo de alcançá-lo, ele já estava tentando levantar-se. Todo o entusiasmo de repente desaparecera. Tal era a sua fraqueza que qualquer movimento lhe causava dor. Por um momento, achou que fosse ficar nauseado e tonto, depois melhorou. Ayla viu o seu sorriso entusiasmado transformar-se numa careta de dor e ele empalidecer.

- Acho que vou precisar de um pouco de ajuda - disse Jondalar, aflito, forçando um sorriso.

- Ayla ajudar - falou, oferecendo-lhe o ombro para servir de apoio, ao mesmo tempo que estendia a mão para auxiliá-lo. No início, ele não quis jogar muito peso sobre Ayla, mas ao ver que ela o agüentava bem, que tinha força e sabia como puxá-lo para levantar-se, lhe aceitou a ajuda.

Finalmente ficou de pé, firmando-se sobre a perna boa e escorando-se num dos paus do engradado. Ayla olhou para ele e os seus olhos se arregalaram e o queixo caiu. Ela sabia que o corpo de Jondalar era mais comprido do que o de qualquer homem dos clãs, mas ainda não havia visualizado o comprimento no sentido da altura, nem como seria ele de pé. Nunca vira ninguém tão alto.

Desde que deixara de ser criança, não se lembrava de alguma vez ter de levantar os olhos para olhar alguém. Mesmo antes de ficar adulta, já era mais alta do que qualquer pessoa dos clãs, inclusive mais alta do que qualquer homem. Sempre fora grande e feia. Muito alta, pálida e de rosto achatado. Nenhum homem a queria, nem mesmo depois que o seu poderoso totem foi der rotado, apesar de que todos houvessem gostado de ser o possuidor do totem que vencera o seu Leão da Caverna, permitindo que ela engravidasse. Nem mesmo sabendo que o seu filho seria infeliz, se ela não tivesse companheiro antes do seu nascimento, eles a quiseram. E Dure foi infeliz. Iam matá-lo. Disseram que era uma criança deformada. Foi Brun quem o aceitou. Mas o seu filho havia triunfado sobre a sua má fortuna. Agora teria forças para sobrepujar a desgraça de haver perdido a mãe. Ele seria alto - ela já havia notado isto antes de partir - mas não tanto quanto Jondalar.

Perto daquele homem ela se sentia realmente pequena. A primeira impressão que teve de Jondalar foi a de que ele era muito jovem, e jovem para ela tinha a conotação de pequeno. Olhando-o nessa nova perspectiva, reparou que a sua barba crescera. Não sabia por que ele antes estava sem barba quando o encontrara. Agora, reparando nos pêlos duros e dourados que lhe despontavam do queixo, via que não era nenhum menino, mas um homem. Um homem alto, forte e plenamente adulto.

Jondalar, sem entender o motivo, sorria vendo a expressão de espanto no rosto de Ayla Também ela era mais alta do que tinha imaginado. A maneira dela se locomover e portar-se dava a impressão de alguém de estatura muito mais baixa. Realmente era bem alta e gostava de mulheres altas. Eram as que em geral atraíam os seus olhares, se bem que Ayla atrairia o olhar de qualquer homem, achava ele.

- Bom, vamos. Já esperamos muito.

- Ela havia tomado consciência da proximidade do corpo nu de Jondalar.

- Dun-da-laá precisar vestido - disse Ayla usando a palavra que Jondalar lhe dera para designar a roupa que ela usava, embora estivesse se referindo a um traje para ele. - Precisar cobrir - ela apontou para o seu membro. Essa palavra também ele ainda não tinha ensinado. Então por qualquer razão inexplicável, ela corou.

Não por acanhamento, pois já vira muitas vezes homens e mulheres nus. Também não era por qualquer coisa ligada à preocupação. Ele precisava estar protegido neste local, porque tinha de precaver não contra acidentes ou insetos, mas contra os espíritos malignos. Embora as mulheres dos clãs não participassem dos rituais masculinos, ela sabia que os homens não gostavam de ter os seus membros descobertos quando saíam. Mas por que realmente o seu rosto estava corado e quente e o interior de seu corpo palpitante, isso ela não sabia.

Jondalar olhou para o seu corpo. Ele também era supersticioso em relação ao seu membro, só que as suas superstições não envolviam uma peça de roupa. Se um inimigo seu induzisse algum zelandonii a fazer baixar as forças do mal sobre ele ou se alguma mulher lhe lançasse uma praga, seria preciso muito mais do que um simples trapinho para protegê-lo.

A sua preocupação era no sentido de que talvez estivesse cometendo alguma gafe social, que como estrangeiro poderia ser perdoada, mas a prudência mandava que, quase estivesse vi se prestasse o máximo de atenção a todo e qualquer detalhe das normas, de modo a evitar possíveis ofensas. Ele vira para onde Ayla tinha apontado e percebera o seu rubor, deduzindo imediatamente que ela achava impróprio que saísse com o seu membro descoberto. De qualquer forma, sentar nu sobre uma pedra dura era algo muito desconfortável e acabaria restringindo-lhe os movimentos. De repente surgiu o pensamento dele, apoiado sobre uma perna só, agarrando-se a um poste e tão louco para sair que nem percebeu estar nu. O grotesco da situação arrancou-lhe uma estrondosa gargalhada.

Jondalar não podia saber do efeito de suas risadas sobre Ayla. Para ele, rir era tão natural quanto respirar. Ayla, no entanto, havia crescido entre pessoas que não riam; que, inclusive, encaravam o seu riso com tal estranheza que ela se viu obrigada a cortá-lo de sua vida para poder adaptar-se mais facilmente. Era uma das tantas coisas que ela teve de pagar para ter a sua sobrevivência garantida. Só depois que o seu filho nasceu é que voltou a descobrir o prazer de rir. Essa era uma das características que ele herdara dela. Embora soubesse que, incentivando as risadas de seu filho, estava cometendo algo de censurável, ela, quando se via sozinha com ele, não conseguia resistir à vontade de fazer-lhe cócegas para vê-lo soltar as suas gostosas risadinhas de bebê.

Para Ayla o riso comportava unia carga de significado muito maior do que a de uma simples e espontânea resposta a um estímulo. Representava o único elo que tinha com o seu filho, a parte dela que via nele e que era expressão de sua própria identidade. O filhote de leão que ela adorava lhe havia feito dar boas risadas que muito contribuíram para fortalecer essa expressão. Rir era qualquer coisa de que não estava disposta a abdicar. Isso seria abdicar da lembrança do filho e desistir do seu próprio eu.

Ela nunca pensara na possibilidade de que alguém mais no mundo pudesse rir. Fora ela e Durc, não se lembrava de ninguém mais rindo. A risada muito particular de Jondalar - calorosa, exultante, franca - era um convite ao riso. Quando ele ria havia um prazer irrefreável. Ayla adorou as suas risadas do primeiro momento que as escutou. Contrariamente, aos homens dos das, para quem o riso era motivo de censura, o próprio som do riso de Jondalar já o sancionava. Era mais do que um riso. Um convite impossível de ser recusado.

E Ayla não recusou. Passado o primeiro momento de surpresa, sorriu. Depois, riu francamente. Não sabia o que estava havendo ali de engraçado. Ria porque Jondalar ria.

- Dun-da-laá - falou quando já estava mais serena - qual a palavra para esses ha, ha, ha, que fazemos?

- Rir? Riso?

- Qual... palavra certa?

- Todas as duas. Quando fazemos isso é rir. Por exemplo, nós rimos. E quando falamos sobre a coisa é riso - explicou ele.

Ayla ficou por um instante pensativa. A palavra não expressava tudo o que ele havia dito. Falar não é só dizer palavras. Ela já conhecia muitas palavras, mas sempre ficava frustrada quando tentava exprimir os seus pensamentos. Havia um modo de arrumá-los e um certo sentido que não conseguia pegar. Apesar de entender a maior parte do que Jondalar dizia, as palavras para ela serviam apenas para dar uma pista. A compreensão se fazia muito mais pela sua capacidade de ler a linguagem não intencional do corpo dele. Ayla sentia que faltava precisão e profundidade em suas conversas. Pior ainda era a sensação de que sabia falar se pudesse lembrar e a tensão insuportável que lhe sobrevinha - tal como um doloroso nó que precisava desfazer - sempre que estava prestes a consegui-lo.

- Dun-da-laá, rir?

- Sim, correto.

- Ayla rir. Ayla gostar rir.

- Mas agora “Jondalar gostar sair”. Onde estão as minhas roupas?

Ayla foi buscar as roupas que cortara no corpo dele. Além de mancha das, haviam sido feitas em farrapos pelas garras do leão. As contas e os outros motivos bordados na camisa estavam despencando.

- Devo ter ficado muito ferido mesmo - falou Jondalar suspendendo as calças e olhando para o couro duro com o sangue coagulado nelas. - Não dão para ser usadas.

Ayla pensava a mesma coisa. Ela foi até onde tinha o seu depósito de mantimentos e voltou trazendo algumas compridas correias e um pano de couro ainda não usado, que começou a enrolar na cintura dele, à moda dos homens dos das.

- Eu faço isso, Ayla - disse Jondalar, passando o pano por entre as pernas e o suspendendo na frente e atrás, de modo a arrumar uma tanga. -Mas se você me der uma ajudazinha, seria bom - acrescentou, enquanto pro curava prender a correia na cintura.

Ela o ajudou na amarração, depois ofereceu-lhe o ombro como suporte e fez sinais para que ele se apoiasse sobre a perna. Jondalar firmou o pé no chão e, cautelosamente, fez menção de andar. Doía mais do que imaginara. Começava a duvidar se iria consegui-lo. Mas, armando-se de coragem, apoiou-se pesadamente sobre Ayla e deu um pequeno passo arrastando o pé, depois um segundo. Quando atingiram a entrada, deu um luminoso sorriso para Ayla. Então, olhou para o patamar de pedra e os pinheiros crescendo próximos ao penhasco do outro lado do rio.

Ela o deixou ali, amparando-se na parede da caverna, enquanto buscava uma esteira e uma pele para colocar na beirada do patamar de onde ele poderia ter a bela vista do vale. Voltou, então, para ajudá-lo novamente. Ele estava cansado e cheio de dores, quando, por fim, acomodou-se sobre as peles, vendo pela primeira vez a paisagem que o rodeava, mas inteiramente feliz consigo mesmo.

Huiin e o seu potrinho estavam na campina embaixo. Os animais haviam saído da caverna pouco depois que Ayla os levara para cumprimentar Jondalar. O vale era um frondoso paraíso encravado no meio das áridas estepes. Ele jamais poderia imaginar a existência daquele lugar. Virando o corpo, viu a estreita garganta a montante do rio e um pedaço da praia rochosa. A sua atenção, entretanto, foi outra vez atraída para o verdoso vale que se estendia ao longo do rio até ser cortado por uma curva muito ao longe.

A primeira conclusão a que ele chegou foi a de que Ayla vivia ali sozinha. Não havia o menor sinal de outra habitação. Por alguns momentos ela ficou sentada junto dele, depois entrou na caverna para voltar trazendo um punhado de sementes. Então franziu os lábios, soprando melodiosos gorjeios tremulados, ao mesmo tempo que atirava as sementes ao seu redor. Jondalar, espantado, viu chegar um passarinho que se pôs a picar os grãos. Logo um bando de cores e tamanhos diversos estava rodopiando em volta dela, com bater de asas e picando saltitantes as sementes no chão.

Os diferentes cantos - gorjeios, trilos, grasnados - enchiam o ar, enquanto na terra a disputa se fazia num espetáculo de plumas que subiam leva das pelo vento. Jondalar custou a acreditar nos seus ouvidos quando descobriu que muitos daqueles cantos saíam dos lábios da mulher. Ela podia produzir toda uma gama de sons. Às vezes detinha-se num determinado canto, chamando um pássaro que vinha pousar-lhe no dedo para fazer com ela um dueto. Alguns, Ayla os levou até Jondalar que os tocava, antes que eles batessem as suas asas e voassem.

Quando as sementes acabaram, quase todos foram embora, menos um, de plumagem negra, que lá ficou para continuar trocando o seu canto com Ayla. Era um tordo que ela imitava à perfeição nas múltiplas variações de seu sonoro canto.

Quando o passarinho se foi, Jondalar respirou fundo. Ele vinha prendendo a respiração, sem querer perturbar o espetáculo de pássaros montado por Ayla.

- Onde você aprendeu isso? É lindo, Ayla. Nunca tinha conseguido chegar tão perto de passarinhos.

Ela lhe sorriu, sem saber direito o que ele dizia, mas notando o seu ar impressionado. Então assoviou novamente um outro canto, esperando que ele dissesse o nome do pássaro. Mas Jondalar apenas sorriu, cumprimentando-a por aquele magnífico talento. Ela tentou mais uma vez e, depois de tentar mais uma segunda, resolveu desistir. Ele não entendia o que ela queria e sua testa franzia-se com o pensamento voltado para alguma outra coisa. “Ela podia imitar com muito mais perfeição os cantos dos pássaros do que o shamud o fazia com a sua flauta! Será que a mulher comungava com os espíritos da Mãe, através dos pássaros?” Um passarinho baixou do céu, aterrissando nos pés de Ayla. Jondalar olhou-o desconfiado.

Mas a apreensão logo desapareceu na alegria de estar ao sol, sentindo a brisa fresca e olhando para o belo vale à sua frente. Ayla também se via transbordante de felicidade na companhia dele - Era tão difícil acreditar que Jondalar estivesse sentado no patamar de sua caverna, que ela tinha medo de fechar os olhos e não encontrá-lo lá quando tornasse a abri-los. Finalmente, convencida da realidade dele, fechou-os só para saber quanto tempo agüentaria sem olhar para ele e pelo prazer de vê-lo ainda lá quando voltasse a descerrá-los. E se acontecesse de ele falar enquanto ela estivesse de olhos fechados, o som grave e trovejante de sua voz seria mais uma dádiva caída do céu.

Depois que o sol estava alto, fazendo-se notar com o seu calor, as águas cintilantes do rio atraíram a atenção de Ayla. Ela, desde que ele chegara, temerosa de deixá-lo sozinho, havia abandonado os seus banhos matinais. Mas agora via que ele estava bem e se precisasse dela teria apenas que lhe gritar.

- Ayla ir para água - falou, gesticulando com os braços como se nadasse.

- Nadar - disse Jondalar, repetindo-lhe os gestos. - A palavra é nadar e bem que eu gostaria de poder ir com você.

- Nadá - tentou ela, devagar.

- Nadar - corrigiu-a Jondalar.

- Nadar - tomou a repetir Ayla. Ele confirmou com a cabeça e ela começou a descer para a praia. “Ainda vai custar um pouco até que Dun-da-la possa andar por esse caminho... na volta vou levar para ele um pouco de água fresca”, pensou Ayla. “Mas a perna está indo bem. Acho que vai poder caminhar normalmente. Talvez fique mancando um pouco, mas nada que vá prejudicá-lo. Tomara?”

Na praia, depois que desatou a correia da roupa, ela resolveu que lavaria também os cabelos. Saiu, então, à procura de raízes de saboeiro. Olhando para cima, viu Jondalar e lhe acenou. De volta à praia, se dirigiu para um lugar, fora do campo de visão dele, sentando-se na beirada de um enorme bloco de pedra que, até a primavera, havia feito parte do penhasco. Ali começou a desfazer as tranças. Um novo lago, formado depois da recomposição da paisagem, tornara-se o seu lugar predileto para tomar banho. Era profundo e a pedra perto tinha uma cavidade que ela usava para socar as raízes de saboeiro, de modo a desprender-lhes a substância saponácea.

Jondalar tomou a vê-la quando, já com os cabelos lavados, nadava subindo o rio. As suas braçadas eram fortes e regulares. Na volta, ela preguiçosa mente, deixou-se arrastar pela correnteza até o bloco de pedra, onde se sentou para secar ao sol, enquanto desembaraçava os cabelos com um pauzinho e os escovava com espinhos de cardo. Quando finalmente enxugaram, o calor já estava forte: Embora Jondalar não a tivesse chamado, ela começava a preocupar-se. “Ele já deve estar cansado...”, pensou. Então, dando uma olhada na roupa, achou que já era tempo de trocá-la por uma limpa. Pegou-a do chão e subiu, carregando-a na mão.

Jondalar estava sentindo o sol multo mais do que Ayla. Era primavera quando ele e Thonolan haviam começado a viagem. O pouco bronzeado que adquirira depois de haver saído do acampamento mamutoi sumira durante o tempo em que esteve encerrado na caverna de Ayla. A sua cor era ainda a do inverno, ou pelo menos fora até ele sair para sentar-se no patamar. A queima dura do sol o incomodava, mas Ayla não se achava à vista. Resolveu, então, ignorar o desconforto, não querendo importuná-la naqueles poucos momentos que ela se dava, após tanto tempo de dedicada atenção. Ele começava a se perguntar por que estaria Ayla demorando tanto. Louco para vê-la voltar, olhava ora para o lado do caminho, ora para o rio, imaginando que talvez ela tivesse resolvido entrar novamente na água.

Ele tinha os olhos postos em outra direção, quando Ayla surgiu na ponta do patamar. Um único olhar para as costas vermelhas e irritadas foi o bastante para enchê-la de vergonha. “Olhe só que queimadura! Que curandeira sou eu para deixar um doente tanto tempo debaixo do sol!” Ela correu para ele.

Jondalar, ao ouvir o barulho dos passos, virou-se. Dava graças por Ayla estar de volta, mas não deixava de se sentir também um pouquinho contrariado por ela não ter chegado antes. Mas então, pouco importavam as queimaduras. De boca aberta, sem respirar, olhava pasmo para a mulher nua que, à luz do sol brilhante, caminhava na sua direção.

Enquanto ela andava, a pele morena e dourada ondulava com uma musculatura lisa e forte, desenvolvida por toda uma vida dura de trabalho. As per nas magnificamente modeladas eram maculadas na sua perfeição apenas por uma pequena cicatriz na coxa esquerda. De onde se achava, dava para ele ver as nádegas firmes e arredondadas, e, acima da penugem castanha do púbis, a curva de um ventre marcado por ligeiras estrias de gravidez. Gravidez? Os seios amplos, mas belamente formados, eram empinados como os de uma me nina e com aréolas cor-de-rosa e mamilos pontudos. Os braços longos, bem proporcionados, revelavam a sua força latente.

Ayla fora criada entre pessoas, tanto homens como mulheres, fortes por natureza. Para dar conta dos trabalhos exigidos das mulheres clânicas -levantar e carregar pesos, cortar lenha, curtir couro - o seu corpo foi obrigado a desenvolver a força muscular necessária. A caça dera elasticidade aos seus movimentos e a sobrevivência no seu mundo solitário dependia da força de seu trabalho.

Era provavelmente a mulher mais forte que Jondalar já vira. “Não é de admirar que tenha conseguido me levantar e agüentar com o meu peso”, falou ele para si mesmo. E sem dúvida também era a mulher de corpo mais escultural que ele já vira. Mas não era só o corpo. De início, ele a julgara como simplesmente uma mulher bonita, mas então ainda não a tinha visto em plena luz do dia.

Ayla tinha pescoço longo - com uma minúscula cicatriz na garganta -maxilares delicados, lábios canudos, nariz fino e reto, maçãs altas e olhos azuis-acinzentados. As feições finamente cinzeladas se casavam todas em per feita harmonia. As longas pestanas e as sobrancelhas em arco eram num tom castanho-claro, um pouco mais escuras que as ondas caindo soltas de seus cabelos dourados, brilhando ao sol.

- Oh, Mãe! - disse Jondalar suspirando.

Ele não tinha palavras para descrevê-la. O efeito total era deslumbrante. Era encantadora, estonteante, magnífica. Nunca vira mulher mais bela. Por que ela escondia aquele corpo espetacular sob uma roupa enorme, sem forma? Por que prendia aquela gloriosa cabeleira com tranças? E ele que pensara que ela fosse apenas bonita. Por que não a teria visto antes?

Enquanto ela cruzava a distância que os separava, ele sentiu o início de uma ereção, logo tomada numa exigência palpitante, premente. Desejava-a com uma urgência que nunca sentira por outra mulher. As suas mãos ansiavam por acariciar aquele corpo perfeito, para descobrir os seus lugares secretos. Ele queda explorar, provar, dar-lhe os prazeres. Sem se perguntar se teria condições, já estava pronto para possuí-la quando, respirando-lhe o cheiro da pele quente, ela se debruçou, aproximando. Por outro lado, sentia que ela não era uma mulher que se pudesse abordar facilmente.

- Dun-da.laá! Voltar. Estar... fogo... - falou Ayla procurando por uma palavra que expressasse a vermelhidão de sua queimadura. Então, ela hesitou, freada pelo magnetismo animalesco de seu olhar, atraída para as profundezas daqueles olhos intensamente azuis. O coração batia forte, os joelhos fraquejavam, o rosto ardia e o corpo lhe tremia com aquela súbita umidade entre as coxas.

Não sabia o que havia de errado com ela. Virou a cabeça para o lado,desviando à força os seus olhos dos dele. O olhar caiu sobre o membro empinado, desenhando-se sob a tanga. Súbito, uma vontade irreprimível de estender a mão, de tocar... Ela fechou os olhos, respirando fundo, tentando dominar o tremor. Ao abri-los, procurou evitar-lhe o olhar.

- Ayla ajudar Dun-dalaá entrar na caverna.

A queimadura doía e ele se sentia cansado, depois de tanto tempo do lado de fora, mas mesmo assim o seu fogoso desejo se manteve inflamado enquanto fazia a curta e penosa caminhada, apoiado sobre ela, em contato coma sua nudez. Depois de acomodá-lo na cama, Ayla correu até onde estava o seu estoque de ervas medicinais e, em seguida, saiu.

Ele se pôs a imaginar onde poderia ter ido. Compreendeu, ao vê-la entrar trazendo um punhado de folhas grandes e peludas, de tom verde-acinzentado. Eram bardanas. Ayla retirou-lhes o grosso veio central e as rasgou dentro de uma vasilha. Acrescentou água e, com uma pedra, as macerou como papa.

O desconforto era grande e a queimadura parecia arder ainda mais. Súbito, ele sentiu o mingau frio e refrescante em suas costas, dando mais uma vez graças por Ayla ser curandeira.

- Ahhh. - - que coisa boa... - gemeu ele, enquanto ela com as mãos espalhava as folhas úmidas. Jondalar estava consciente da sua nudez. Até aquele momento Ayla ainda não parara para se vestir e, agora, ajoelhada ao seu lado, ele lhe sentia a proximidade como uma emanação palpável. O cheiro da pele quente e de outros misteriosos odores femininos o excitavam. Ele esticou o braço, correndo com a mão pela coxa, até encontrar as nádegas.

Ayla empertigou-se, imediatamente parando o que fazia. Com os sentidos todos voltados para a mão que a acariciava, mantinha-se rígida sem saber o que ele fazia e o que se esperava dela. Apenas sabia que não queria que ele interrompesse. Ele subiu com a mão querendo tocar-lhe no mamilo. Um arrepio forte correu-lhe pelo corpo, fazendo-a suspirar.

Jondalar ficou surpreso, vendo-lhe a expressão de espanto. Não era perfeitamente normal um homem querer tocar numa bela mulher? Principalmente que, juntos como estavam, já ficavam tocando um no outro? Ele retrocedeu com a mão, sem saber o que pensar. “Ela se comporta como se nunca tivesse sido tocada por um homem. No entanto é uma mulher e não uma garotinha ingênua. Afinal, aquelas estrias na barriga eram um indício claro de que já devia ter tido algum filho, embora por lá não se visse o menor sinal de criança. Bom, ela não era a primeira mulher a perder o seu filho e, para ter sido abençoada pela Mãe, certamente deveria ter tido os seus ritos de passagem.”

O corpo dela ainda vibrava de suas carícias. Ela não sabia por que ele parara. Então se levantou e afastou-se.

“Talvez ela não goste de mim”, pensou Jondalar. Nesse caso, por que ficara tão colada a ele, quando era tão óbvio que a desejava? Mas ela não podia satisfazer-lhe, pois estava tratando de sua queimadura. Além disso, nada em suas maneiras sugeria qualquer coisa nesse sentido. De fato, parecia completamente alheia ao efeito que tinha causado sobre ele. Estaria assim tão acostumada com esse tipo de resposta à sua beleza? Por outro lado, não era a indiferença fria de uma mulher experiente. Mas como uma mulher com aquela aparência podia não saber o efeito que exercia sobre os homens?

Jondalar pegou o pedaço de uma folha macerada que caiu de suas costas. Os sharamudoi também usavam bardana em queimaduras - “Ela sabe das coisas. Mas claro! Ah, Jondalar, como pode você ser tão imbecil? O shamud não lhe contou sobre as provas por que passam aqueles que servem à Mãe? Ela deve ter renunciado aos prazeres. Não é de admirar que esconda a sua beleza sob aquela pavorosa roupa sem forma. Ela nunca teria se aproximado se você não estivesse com essa queimadura, seu idiota. E aí você a agarra como qualquer adolescente descarado.”

A sua perna latejava e, apesar do medicamento ter melhorado um pouco, a queimadura ainda incomodava. Ele se deitou, procurando uma posição de lado, e fechou os olhos. Estava com sede, mas não queria virar-se para pegar o odre justamente quando encontrara uma posição mais suportável. Sentia-se miserável, pelas dores e pela grosseria que achava ter cometido. Estava realmente envergonhado.

Ele não se sentia humilhado por cometer gafes há muito tempo, desde que era um garotinho. Havia se educado no autocontrole até que isto se tomara numa verdadeira arte. Agora ultrapassara os limites e fora rejeitado. Aquela bela mulher que tinha desejado mais do que qualquer outra o rejeitara. Ele sabia como se passariam as coisas daqui por diante. Ela agiria como se nada houvesse acontecido, mas iria evitá-lo sempre que pudesse. Quando Mo lhe fosse possível manter-se afastada, saberia pôr uma distância entre os dois. Se ria fria e arredia. A sua boca poderia sorrir, mas os olhos estariam dizendo a verdade. Não haveria calor neles; pior ainda: mostrariam piedade.

Ayla, depois de vestir uma roupa limpa, foi trançar os cabelos, envergonhada por ter deixado Jondalar pegar uma queimadura de sol. Era culpa dela. Ele não tinha condições para se pôr ao abrigo do sol. Ela se divertia, to mando banho de rio e lavando os cabelos, quando deveria estar prestando atenção ao doente. “E espera-se que eu seja uma curandeira, uma curandeira da estirpe de Iza, da mais prestigiosa linha de curandeiras dos clãs. O que diria Iza de tamanha desatenção, de tanta falta de cuidados com um doente?” Ayla se sentia acabrunhada. Ele havia passado tão mal, sofrido tanto e ela ainda lhe fora arrumar mais sofrimentos.

Mas não era só por isso que Ayla se sentia aflita. Jondalar a havia tocado. O calor da mão dele ainda estava na sua coxa. Sabia exatamente onde tinha sido tocada. Era como se as suaves carícias a tivessem marcado a fogo. Por que teria ele tocado no mamilo? Aquele ponto ainda ardia com o seu to que. O membro dele havia estado na plenitude de sua virilidade e ela sabia o que isto significava. Quantas vezes já vira os homens fazendo o sinal convencionado quando queriam aliviar as suas necessidades? Broud lhe fazia o sinal, mas ela - lembrou-se, estremecendo - odiava ver o seu membro duro e intumescido.

No entanto agora se sentia diferente. Teria até gostado se Jondalar lhe houvesse feito o sinal.

“Não seja ridícula. Como poderia ele com aquela perna? Mal se agüenta nela.”

Mas o seu sexo estava duro quando ela voltara do rio e os seus olhos... À lembrança dos olhos de Jondalar, ela estremeceu. Estavam tão azuis, revelando a sua necessidade, mostrando...

Ela não soube completar. Parou de fazer as tranças, entregando-se às lembranças de Jondalar. Ele a havia tocado e...

Subitamente, ela interrompeu o fio de seus pensamentos e se sentou com o corpo reto. Não teria ele feito o sinal? Será que parou por ela não se mostrar receptiva? Uma mulher deve sempre estar disponível para atender às necessidades do homem. Essa era uma das regras básicas que toda mulher dos clãs aprendia quando o seu espírito entrava pela primeira vez em luta e sangrava. Do mesmo modo como aprendia também as posturas e os gestos, quase imperceptíveis, que animavam o homem a querer aliviar as suas necessidades. Ela nunca havia entendido por que uma mulher iria querer ter uma atitude dessas, mas agora sabia.

Queria que aquele homem aliviasse as suas necessidades com ela, mas qual seria o sinal dele? “Se, por um lado, eu não conheço o seu sinal, por outro ele também desconhece os meus gestos. E se eu recusá-lo s saber? Tal vez ele nunca mais tome a tentar. Mas será que realmente ele me quis? Eu sou tão feia e grande...”

Depois de prender a última das tranças, ela foi atiçar o fogo para preparar um remédio contra dor. Quando chegou trazendo-o, ele deitava-se de lado na cama. Bom, já que conseguira acalmar-se sozinho, ela não iria incomodá-lo. Sentou-se de pernas cruzadas ao lado da cama e esperou que ele abrisse os olhos. Jondalar não se mexia, mas ela sabia que não estava dormindo. A sua respiração não era regular e a testa contraía-se, revelando um certo mal-estar.

Jondalar, ao ouvir-lhe os passos, fechara os olhos fingindo dormir. Ele esperava, com os nervos tensos, reagindo contra a vontade de abri-los e ver se Ayla se achava lá. “Por que está ela tão quieta? Por que não vai embora?” Ele estava deitado sobre um braço que começou a ficar dormente com a falta de circulação. Se não mudasse logo de posição, ficaria insuportável. A per na latejava. Tinha vontade também de mexê-la, pois já estava cansado de mantê-la na mesma posição. O rosto comichava com a barba crescendo e as costas pegavam fogo. Talvez ela já não estivesse mais lá. Talvez tivesse ido embora, sem que ele lhe percebesse os movimentos. Ou será que ficara ali, olhando para ele?

Ayla observava com toda a atenção. Havia olhado para aquele homem mais do que para qualquer pessoa em sua vida. Não era de bom-tom as mulheres dos clãs olharem diretamente para os homens, mas ela já se havia permitido uma série de outras infrações. Teria se esquecido das regras de boas maneiras que Iza lhe ensinara? Já não se lembrava mais dos cuidados devidos a um doente? Ela olhava para o chão, segurando sobre o colo a cuia de chá de datura. Aquela era a forma correta de uma mulher abordar o homem: sentada no chão, de cabeça baixa, esperando que ele lhe desse um tapinha no ombro como sinal do reconhecimento de sua presença. Já era tempo de que ela voltasse a lembrar-se das regras da boa educação.

Jondalar abriu ligeiramente os olhos, tentando ver se Ayla se achava lá, mas sem querer que ela soubesse que estava acordado. Ele viu um pé e, rapidamente, tomou a fechar os olhos, Sim, ela estava, Por que ficava ali sentada? Que poderia estar esperando? Por que não ia embora e o deixava sozinho com as suas mágoas e humilhações? Ele tomou a espiar por entre as pálpebras semicerradas. O pé não saíra do lugar. Ela estava sentada de pernas cruzadas e segurava uma cuia. Oh, Doni, ele estava morto de sede, Seria para ele aquela cuia com um líquido? Será que ela estava esperando que acordasse para lhe dar algum remédio? Mas se quisesse poderia sacudi-lo. Não precisava ficar esperando.

Ele abriu os olhos, Ayla se achava sentada, de cabeça baixa, olhando para o chão, Vestia uma de suas roupas sem forma e os cabelos estavam presos por uma série de tranças. A sua aparência era limpa e esfregada. Desaparecera a mancha de carvão da bochecha. A roupa estava limpa, feita de uma pele ainda não usada. Sentada, de cabeça baixa, ela tinha um jeito tão natural, tão simples. Nenhum artifício, nenhuma falsa modéstia e nada de olhares de esguelha, maliciosos.

As tranças contribuíam para essa impressão, bem como a roupa cheia dobras e papos que lhe camuflavam o corpo. Esse era o truque, o artifício que usava para esconder o seu corpo de mulher adulta e os belos e sedosos cabelos. Não podia esconder o rosto, mas essa sua maneira de olhar para baixo e para os lados desviava a atenção dela. Por que se mantinha escondida? Devia ser pela prova que se havia imposto. A maioria das mulheres que ele conhecia estariam se pavoneando com aquele magnífico corpo, tirando o melhor partido daquela gloriosa cabeleira dourada e dariam tudo para ter um rosto tão belo.

Observando-a em sua imobilidade, Jondalar se esquecera de seus incômodos. Por que estaria tão quieta? Talvez não quisesse olhar para ele, cogitou novamente, sentindo vergonha e se lembrando de sua dor. Já não agüentava mais, precisava mudar de posição.

Ayla olhou para cima quando o viu mexendo com o braço. Afinal, por mais comportada que se mostrasse, se ele não conhecia a significação de sua postura, como iria dar-lhe o tapinha no ombro? Jondalar estava surpreso de ver-lhe a expressão envergonhada e compungida, com os olhos sinceramente suplicantes. Nada de condenação, piedade ou rejeição. Parecia, antes, embaraçada. Mas que motivo teria para estar envergonhada?

Ela lhe deu a cuia. Ele tomou um gole, fazendo uma careta pelo amargor, e em seguida bebeu o resto e pegou o odre para lavar o gosto da boca. Sem conseguir ajeitar-se direito, voltou a deitar. Então, ela tornou a sentá-lo e endireitou as peles na cama. Ele não voltou a deitar imediatamente.

- Ayla, há tanta coisa sobre você que eu gostaria de saber e que não posso. Ignoro onde aprendeu a sua arte de curar. - - nem sei como vim parar aqui. Tudo que sei é que lhe sou grato. Você salvou a minha vida e, o mais importante, salvou a minha perna. Sem ela, mesmo que tivesse vivido, jamais poderia voltar para casa. Desculpe ter me comportado como um idiota, mas você é tão linda, Ayla, Eu não sabia. Você disfarça muito bem a sua beleza. Nem sei por que faz isso, mas deve ter os seus motivos. Você está aprendendo depressa. Talvez, quando souber falar um pouco mais, me possa contar... se você quiser e puder falar, se não, aceito as coisas como estão. Sei que não entende tudo o que estou dizendo, mas quero, assim mesmo, falar. Nunca mais voltarei a incomodá-la, Ayla.

OceanofPDF.com