O Vale dos Cavalos
Capítulo 29
Ayla se revirava na cama, não perfeitamente acordada, mas consciente de alguma coisa incomodando-a, O volume debaixo dela só desapareceu quando, por fim, acordou para pega-lo. Suspendeu-o contra a fraca luz da fogueira, já quase extinta, e viu a silhueta da donii. Subitamente lembrou-se. O dia da véspera surgiu-lhe em seus mínimos detalhes, conscientizando-a do corpo quente de Jondalar, deitado ao seu lado.
“Com certeza, dormimos depois de havermos gozado dos prazeres”, pensou. Feliz, aconchegou-se nele e fechou os olhos. Mas o sono não veio. Diante dela passava fragmentos de cenas que iam esboçando-se e ganhando formas. A caçada, a volta de Neném, os primeiros ritos e, sobrepondo-se a tu do, a figura de Jondalar. Nenhuma palavra que conhecia era capaz de descrever os seus sentimentos por ele e a indizível alegria que estes lhe despertavam. Pensou em Jondalar até não se agüentar mais. Silenciosamente deslizou para fora da cama, carregando consigo a estatueta de marfim.
Enquanto se dirigia para a entrada, viu Huiin e Campeão aconchega dos um ao outro. A égua soltou um relincho baixinho, marcando a sua presença, Ayla se encaminhou para onde estavam os cavalos.
- Para você foi também assim, Huiin? - falou Ayla com doçura. O seu garanhão também lhe deu prazer? Oh, Huiin, eu não sabia que isso pode ria ser tão maravilhoso. Como pode ter sido uma coisa tão horrível com Broud e tão fantástica com Jondalar?
O cavalinho fuçou-a, também querendo atenção. Ela o coçou, acariciando-o, e depois o abraçou.
- Não importa o que Jondalar diz, Huiin. Acho que foi o garanhão que deu Campeão a você. Ele tem até a mesma cor e não há muitos cavalos marrons por aqui. Poderia ter sido o espírito do garanhão, mas acho difícil.
“Eu queria ter um filhinho. Um bebê de Jondalar, mas não posso. Como faria quando Jondalar fosse embora? - ela ficou branca, quase em pânico.- Ir embora! Oh, Huiin, Jondalar está indo embora - dizendo isto, saiu em disparada da caverna, descendo o caminho, mais pelo tato do que propriamente vendo por onde ia passando. As lágrimas deixavam-na quase cega. Correu pela praia, até o paredão lhe barrar o caminho. Ali agachou-se junto ao penhasco, entregando-se ao choro. “Jondalar está indo embora. O que vou fazer? Como vou agüentar isso? O que posso fazer para que ele fique? Nada!”
Ela se abraçava, acocorada junto da muralha de pedra, como se tentando escapar de um golpe fulminante. Depois que Jondalar partisse estaria sozinha. Pior d que sozinha. “O que farei sem ele? Talvez devesse partir também, encontrar algumas pessoas dos Outros e ficar com elas. Não. Não posso fazer isso. Iriam me perguntar de onde venho e os Outros têm ódio dos clãs. Para eles eu sou uma aberração, a não ser que diga palavras que não correspondam à verdade.”
“Isso eu não posso. Não posso envergonhar Creb e Iza. Eles me amaram e cuidaram de mim quando eu precisei. Uba é minha irmã. Está agora criando o meu filho. O clã é a minha família. Quando não tinha ninguém, o clã tomou conta de mim e os Outros não me querem.
“Mas Jondalar está de partida. Vou ter de viver aqui sozinha o resto de minha vida. Antes estivesse morta. Broud me amaldiçoou, e no fim ele acabou vencendo. Como posso viver sem Jondalar?”
Ayla chorou até não ter mais lágrimas e restar um triste e desolado vazio dentro dela. Ao enxugar os olhos com as costas da mão, reparou que continuava segurando a donii. Ela rodou a estatueta na mão, maravilhando-se tanto com a idéia de se reproduzir num pedaço de marfim a pequena figura de uma mulher, como com o lavor da obra. Ao luar, a figura ficava ainda mais parecida com ela. Os cabelos esculpidos como tranças, o traçado dos olhos, o formato do nariz e das faces, tudo lembrava o rosto que, uma vez, vira refletido nas águas paradas de um lago.
Por que teria Jondalar posto o seu rosto nesta imagem da Mãe Terra, tão venerada pelos Outros? Teria realmente o espírito dela ficado prisioneiro e ligado àquela que ele chamava Doni? Creb lhe havia dito que pelo seu amuleto estava ligada ao Leão da Caverna e a Ursus, o Grande Urso da Caverna, totem de todos os elas. Além do mais, quando ela fora feita curandeira, havia recebido uma parte do espírito de todos os membros dos elas e esses não foram devolvidos aos seus donos, após a sua maldição de morte.
Os clãs e os Outros, os totens e a Mãe tinham todos direito a uma porção desta parte invisível dela, chamada espírito. “O meu espírito deve estar confuso”, pensou ela. “Eu sei, porque também estou.”
Um vento frio a fez querer voltar para a caverna. Lá, pôs de lado a carne fria que estava no espeto e acendeu uma pequena fogueira, procurando não perturbar Jondalar. Em seguida, colocou água para esquentar, pensando em fazer um chá que a relaxasse. Ainda estava difícil de dormir. Enquanto esperava, ficou olhando as chamas e lembrando-se das vezes em que ficara parada com os olhos fixos no fogo para ver algo com aparência de vida. As labaredas dançavam sobre as toras, saboreando-as num crepitar de vaivéns saltitantes para, por fim, acabar devorando-as.
- Doni! É você? - gritou Jondalar em sonho.
Ayla deu um pulo e correu para vê-lo. Ele estava agitado, remexendo-se, sem dúvida sonhando. Ela não sabia se deveria ou não acordá-lo. Subitamente os olhos dele se arregalaram, olhando espantado.
- Você está bem, Jondalar? - perguntou ela.
- Ayla? Ayla! É você?
- Sim, sou eu.
Ele voltou a fechar os olhos, murmurando qualquer coisa incompreensível. Não havia chegado a acordar. Era um meio torpor que também fazia parte de seu sonho, mas já estava mais calmo. Ela ficou observando, até vê-lo relaxado. Depois voltou para junto da fogueira. Enquanto tomava o chá, as chamas se apagaram. O sono acabou chegando. Tirou a roupa, arrastou-se para junto de Jondalar, e puxou as peles, se cobrindo. O calor dele ao seu lado a fez pensar no frio que iria sentir depois que ele se fosse e, do fundo de seu imenso reservatório, brotou um novo jorrar de lágrimas. Por fim dormiu, em balada pelo próprio choro.
Jondalar, ofegando, corria já quase sem fôlego, tentando chegar à entrada da caverna que via adiante dele. Ao olhar para cima deu com um imenso leão, acaçapado, pronto para saltar. “Não, Mãe! Thonolan! Thonolan!” No que o leão saltou, surgiu a Mãe. A uma ordem sua a fera deu as costas e foi embora.
- Doni! É você! É você!
A Mãe voltou-se, e ele pôde ver seu rosto, O rosto era a doni esculpida à semelhança de Ayla. Ele a chamou:
- Ayla! Ayla! É você?
O rosto esculpido ganhou vida. Os cabelos formavam um halo de ouro circundado por um brilho vermelho.
- Sim, sou eu.
A donii com o rosto de Ayla se diluiu, substituída pela antiqüíssima imagem que ele dera de presente, a que estivera por muitas gerações em sua família. Uma figura volumosa, de ventre grande, começou a expandir-se até ficar do tamanho de uma montanha. Foi, então, que a Mãe começou a parir. Os primeiros a saírem das profundezas de sua caverna foram os seres do mar, expelidos em meio a formidáveis jatos de águas germinativas. Em seguida vieram os insetos e pássaros. Depois foi a vez dos animais terrestres: coelhos, veados, bisões, mamutes, leões da caverna e, muito ao longe, Jondalar viu através de um véu de neblina as formas indistintas do ser humano.
Enquanto a neblina se dissipava, as formas ganhavam definição, aproximando-se dele. Mas quê?! Cabeças-chatas! Eles o viram e se afastaram cor rendo. Uma mulher voltou-se para olhá-lo. O rosto era o de Ayla. Jondalar correu para ela, mas a neblina envolveu-o, fechando-se ao redor da figura dela.
Tateando, querendo alcançá-la, ouvia à distância um rumorejar semelhante ao de uma catarata. Tomava-se mais alto, aproximando-se ameaçadoramente. Ele se viu engolido por uma torrente humana que emergia do colossal útero da Mãe Terra, representada na forma de uma montanha com o rosto de Ayla.
Jondalar forçava o seu caminho através da multidão, lutando para chegar a ela. Finalmente conseguiu alcançar a grande caverna. Ele entrou. A sua virilidade palpitava, enquanto as dobras quentes e úmidas o rodeavam e iam encerrando-o em suas profundezas prazerosas. Ele bombeava furiosamente, tomado de um gozo infinito. Foi, então, que lhe viu o rosto banhado de lágrimas. O corpo dela sacudia-se com os soluços. Ele quis consolá-la, dizer-lhe para não chorar, mas não podia. Então sentiu que estava sendo expulso.
Novamente se viu no meio da imensa massa humana expelida do útero da Mãe. Todas as pessoas usavam camisas bordadas com contas. Ele tentava abrir caminho querendo voltar, mas a multidão o arrastava, tal com um tronco aprisionado no caudal das águas germinativas... um tronco que descia pelo Grande Rio Mãe, levando uma camisa ensangüentada presa a ele.
Com o pescoço esticado, olhando para trás, ele viu Ayla, de pé, na boca de entrada da caverna. Os soluços dela ecoavam em seus ouvidos. Nisso, com estrondo ensurdecedor, a caverna se desmorona numa monumental chuva de pedras. Ele estava sozinho e chorava.
Jondalar abriu os olhos. A escuridão o cercava. A pequena fogueira de Ayla havia consumido toda a lenha. O negrume era total, e ele não tinha muita certeza se estava ou não acordado. As paredes da caverna mostravam-se indefinidas, sem nenhum ponto de referência que o ajudasse a situar-se. Por tudo que via, ele bem poderia estar suspenso por cima de um abismo sem fundo. As formas surgidas em seu sonho eram mais substanciais. Pequenos fragmentos do sonho cruzavam-lhe pela mente, reforçando as suas dimensões no pensamento consciente.
Enquanto a escuridão se atenuava e os contornos das pedras e aberturas na parede ganhavam maior definição, Jondalar elaborava as imagens sonhadas, atribuindo-lhes significados. Não era sempre que se lembrava de seus sonhos, mas este fora tão real, tão palpável, que deveria conter alguma mensagem da Mãe. O que estada ela tentando comunicar-lhe? Ele desejava ter ali um Zelandoni que o ajudasse na interpretação.
Quando as primeiras luzes do dia começaram a penetrar na caverna, ele reparou na massa de cabelos louros emoldurando o rosto de Ayla adormecida e no calor que vinha de seu corpo. Ficou observando-a, enquanto as sombras aos poucos se iam desfazendo, O seu desejo era lhe dar um beijo, mas não queria acordá-la. Levou aos lábios uma das compridas tranças douradas e, em seguida, levantou-se em silêncio. Ainda encontrou um pouco de chá momo, despejou numa cuia para tomá-lo, e se dirigiu à entrada.
Vestido só com uma tanga, sentia frio, mas ele resolveu ignorar, embora o pensamento das roupas que Ayla lhe fizera passasse constantemente pela cabeça. Ficou vendo o céu clareando do lado do ocidente e as formas no vale aos poucos se desenhando. Continuava ainda às voltas com o seu sonho, pro curando por um fio que o levasse a desenredar o mistério.
Por que teria Doni lhe mostrado que toda vida vem dela? Ele sabia disso. Esse era um fato aceito. Por que teria ela aparecido em seu sonho parindo todos os peixes, pássaros, animais, e...
Cabeças-chatas! Claro! A mãe estava lhe revelando que o povo dos das também era filho dela. Por que até agora nunca alguém deixara isto claro? Jamais puseram em dúvida que toda a vida procedia dela. Então por que seria esse um povo tão vilipendiado? Era uma gente chamada de animal, como se animal fosse qualquer coisa ruim. Por que eram os cabeças-chatas considera do um mal na terra?
Porque não eram animais e sim seres humanos, de uma outra espécie, mas humanos. Isso era o que Ayla vinha dizendo durante todo esse tempo. Seria este o motivo de um deles ter o seu rosto?
Ele podia compreender a razão por que o rosto de Ayla estava na donii que esculpira... a que dominara o leão em seu sonho... ninguém acredita ria que Ayla realmente tivesse feito isto. Chegava a ser mais inverossímil do que o próprio sonho... Mas por que estaria o rosto dela na donii que fora de sua família? E por que a própria Grande Mãe Terra se parecia com Ayla?
Ele sabia que jamais iria entender inteiramente o seu sonho. No entanto, havia algo importante que lhe escapava. Vendo e revendo as cenas, se lembrou de Ayla junto à caverna prestes e desmoronar. Quase chegou a lhe gritar para que fugisse.
Com os olhos fixos no horizonte e os pensamentos todos voltados para dentro de si, sentia o mesmo desamparo e tristeza que o havia possuído quando, em seu sonho, se vira sozinho sem Ayla. Lágrimas surgiram nos olhos, molhando-lhe o rosto. Porque sentia tamanho desespero? O que não estaria conseguindo perceber?
Lembrou-se das pessoas que saíam da Caverna, todas vestidas com camisas bordadas de contas. Ayla havia consertado a sua. Fez roupas para ele e nunca tinha costurado em sua vida. As suas roupas de viagem, aquelas que iria usar quando fosse embora.
Ir embora? Abandonar Ayla? Raios de fogo se elevavam do horizonte. Ele fechou os olhos vendo um brilho dourado e ardente.
“Oh, Mãe! Que grande imbecil você é, Jondalar! Deixar Ayla? Como pôde pensar numa coisa desta? Você ama Ayla! Por que tem sido tão cego? Por que foi preciso um sonho com a Mãe para poder compreender uma coisa tão simples, que até mesmo uma criança enxergaria?
“Era como se um enorme peso tivesse sido tirado de seus ombros. Sentia-se leve, com uma sensação de radiosa liberdade. “Eu amo Ayla? Finalmente aconteceu para mim. Eu amo? Nunca pensei que isso fosse possível, mas estou amando. Amo Ayla!”
Em sua alegria, estava pronto para proclamar o seu amor ao mundo, pronto para atirar-se a Ayla e lhe contar. “Nunca disse a uma mulher que eu a amava”, pensou enquanto corria para o interior da caverna. Ayla, entre tanto, dormia.
Ele tomou a sair e trouxe um pouco de lenha. Com um pedaço de sílex e a pedra-de-fogo - uma coisa que ainda o deixava maravilhado - num instante estava com a fogueira acesa. Ao menos uma vez conseguira acordar antes de Ayla e, para variar, queria surpreendê-la com o chá já preparado. Achou onde estavam as folhas de hortelã e fez o chá. Ayla, no entanto, continuava dormindo.
Ele ficou olhando-a, observando a sua respiração, os seus movimentos. Adorava vê-la assim, com os seus longos cabelos soltos. Teve vontade de acordá-la... mas não. Ela devia estar cansada. Já era dia e ainda continuava dormindo.
Ele foi para a praia, pegou um graveto para limpar os dentes e resolveu nadar um pouco. Saiu da água, refrescado, cheio de energia e faminto. Eles não tinham tido tempo de comer na véspera. Lembrando-se do motivo, sorriu. O pensamento lhe trouxe uma ereção.
“Você obrigou o pobre coitado a fazer abstinência durante todo este verão”, pensou, rindo. “O seu fazedor de mulher não tem culpa de estar tão faminto, principalmente agora que sabe o que andou perdendo. Mas não puxe muito por ela. Ayla deve estar precisando descansar... não está acostumada com isso.” Ele subiu às pressas pelo caminho e entrou na caverna silenciosamente. Os cavalos já haviam descido para pastar. Deviam ter saído enquanto ele nadava e Ayla ainda não acordara. “Será que ela está bem? Tal vez fosse melhor despertá-la.” Ayla se virou, deixando à mostra um seio. Ele se viu reforçado em seus ímpetos anteriores.
Achou melhor se conter e foi até a fogueira se servir de um pouco de chá para esperar. Reparou, então, que Ayla fazia alguns movimentos inconscientes, apalpando como se procurasse por alguma coisa.
- Jondalar! Jondalar! Onde está você? - gritou ela, assustada.
- Estou aqui - respondeu ele, correndo para tomá-la nos braços. Ficou abraçando-a até que se acalmasse. - Está bem agora? Vou lhe trazer uma cuia de chá - ele foi buscar uma cuia para Ayla.
Ela bebericou um pouquinho, depois tomou um grande gole.
- Quem fez isso?
- Eu. Queria fazer uma surpresa para você. Mas o chá já não está mui to quente.
- Você fez o chá? Para mim?
- Claro que para você. Ayla, você é a primeira mulher para quem vou dizer isto: eu a amo, Ayla.
- Amo? O que é isto? - perguntou, querendo ter certeza de uma coisa que mal ousava acreditar ser possível. - O que quer dizer amo?
- O que quer dizer... ?! Jondalar, seu idiota, pretensioso! - ele se pôs de pé. - Ora veja, o grande Jondalar, o querido das mulheres! Até você acre ditava nisso. Tão cuidadoso em não dizer a palavra que imaginava que todas estivessem morrendo por ouvir. Tão orgulhoso de nunca havê-la pronunciado... Finalmente está apaixonado e não tem coragem de confessar nem para você mesmo. Foi preciso que Doni tivesse de lhe aparecer em sonho para que resolvesse admitir o seu amor por uma mulher. Estava crente que ela fosse desmaiar de tanta felicidade e, quando acaba, a pobre nem sabe o significado da palavra.
Ayla, atônita, observava-o naquele estranho palavrório, andando de lá para cá, investindo furiosamente contra si mesmo, por causa de uma coisa que chamava amor. Ela precisava saber o que era isso.
- Jondalar, o que quer dizer amor? - ela estava séria e a voz indicava uma certa preocupação.
Ele se ajoelhou na frente dela.
- É uma palavra que há muito tempo já lhe devia ter ensinado. Amor é o sentimento que uma pessoa tem por outra de quem ela gosta muito. É o que as mães sentem pelos filhos ou o que um homem sente pelo irmão. Quando é entre um homem e uma mulher significa que eles se gostam tanto que têm necessidade de viverem juntos, que não conseguem ficar separados um do outro.
Enquanto o escutava, ela tinha os olhos fechados e os seus lábios tremiam ligeiramente. “Será que estava ouvindo direito? Estaria realmente entendendo?”
- Jondalar, eu não conhecia a palavra, mas sabia o que ela queria dizer. Desde que você chegou que eu sei, e quanto mais o tempo passa, mais sentido essa palavra tem para mim. Quantas vezes desejei ter uma palavra que exprimisse os meus sentimentos! - ela fechou os olhos, mas as lágrimas teimavam em sair. Lágrimas de alegria e alívio. - Jondalar... eu também o amo.
Ele a puxou para junto de seu corpo e a beijou ternamente, abraçando-a como um tesouro que acabara de encontrar e com medo de quebrá-lo ou perdê-lo. Ayla passou o braço ao redor dele, querendo ter certeza de que Jondalar não era um sonho que desapareceria no momento em que o soltas se. Ele beijou-lhe a boca e o rosto salgado pelas lágrimas. Ela encostou a cabeça no seu peito e ele, com o rosto enterrado na cabeleira loura, enxugava nela os seus olhos também molhados.
Não conseguia falar. Ficou abraçado a ela, pensando na sorte inacreditável que teve em achá-la. Foi preciso que viajasse ao fim da terra para encontrar a mulher que poderia amar e, agora, nada no mundo o faria deixá-la.
- Por que simplesmente não ficamos aqui? Esse vale tem tudo. Agora somos dois, será mais fácil. Temos os atirado e Huiin é uma ajuda. Campeão com o tempo também será - falou Ayla.
Eles caminhavam pela campina, apenas para passear e conversar. Já haviam colhido todo o cereal de que precisavam, estavam com uma boa pro visão de carne seca que duraria todo o inverno e outra de frutas, raízes e plantas diversas, tanto alimentícias como medicinais. Os materiais para os trabalhos de artesanato que pretendiam fazer durante o inverno também já estavam arrumados. Ayla iria tentar fazer roupas bordadas de contas e Jondalar pensava em esculpir peças para um jogo que tinha intenção de ensinar a ela. Mas a maior alegria de Ayla era se saber amada por Jondalar. J não estaria mais sozinha.
- É um vale bonito - disse Jondalar.
“Por que não permanecer com ela aqui? Thonolan quis ficar ao lado de Jetamio”, pensou ele. “Mas lá, os dois não estavam sozinhos. Até quando suportaria ficar sem ter mais gente por perto? Por três anos Ayla havia vivido só. Eles no futuro não estariam sozinhos. Veja Dalanar. . quando começou com a sua Caverna, ele só tinha ele mesmo, Jerika, e o companheiro da mãe dela, Hochaman. Aos poucos, foram chegando mais pessoas e nascendo as crianças. Já estavam, inclusive, projetando dar partida para uma segunda Caverna de Lanzadonii. Por que não poderia ele também fundar uma Caverna, igual a Dalanar? Talvez possa, Jondalar, mas seja lá o que você fizer, será sempre junto com Ayla.”
- Você precisa conhecer outras pessoas, Ayla, e eu quero levá-la para casa comigo. Sei que será uma viagem longa, mas acho que podemos fazê-la em um ano. Você vai gostar de minha mãe e tenho certeza de que Marthona também gostará de você. Do mesmo jeito o meu irmão Joharran e a minha irmã Folara, que a estas alturas deve estar uma moça. E também Dalanar.
Ayla abaixou a cabeça, depois olhou para cima.
- Não sei se vão gostar muito de mim, depois de descobrirem de onde eu venho. Será que vão me aceitar quando souberem que tenho um filho que nasceu quando eu vivia com esse povo tão odiado? Um filho que para eles não passa de uma aberração da natureza?
- Você não vai podei passar escondida o resto de sua vida. Essa mulher Iza não lhe disse para procurar a sua gente? Ela estava certa e você sabe disso. Não será fácil... não vou enganá-la. A maioria das pessoas não sabe que os clãs são formados por seres humanos. Mas você me fez compreender isso e há muita gente que tem sérias dúvidas a respeito. As pessoas, de uma certa forma, são razoáveis, Ayla. Uma vez que passarem a conhecê-la, gostarão de você. Além disso, estarei ao seu lado.
- Eu não sei. Não podemos pensar um pouco mais?
- Caro.
“De qualquer jeito”, pensou Jondalar, “até a primavera não vamos poder empreender nenhuma grande viagem. Enquanto isto, ela terá tempo para pensar. Mas poderíamos chegar até os sharamudoi, antes que o inverno comece. Ou senão passá-lo aqui mesmo.”
Ayla deu um sorriso, sentindo-se verdadeiramente aliviada e apressou o passo. Ela vinha num caminhai arrastado, demorando-se em seus pensamentos. Sabia que Jondalar sentia falta de sua família e de seu povo. E sabia também que se ele resolvesse viajar, o acompanharia para qualquer lugar que fosse. Mas tinha esperança que, depois de estarem instalados lá para o inverno, ele se decidisse a ficar e construir com ela a sua Caverna no vale.
Estavam bem distanciados do rio, quase chegando à colina que ia dar nas estepes. Ayla, então, se abaixou para pegar qualquer coisa.
- Veja o meu chifre de auroque! - falou, limpando a sujeira do objeto e reparando no seu interior chamuscado. - Era nele que eu carregava fogo. Encontrei o chifre enquanto estava viajando, depois de ter largado o clã – as lembranças acudiram-lhe ao pensamento. - Foi nele que eu levei a brasa que acendeu as tochas para espantar os cavalos. Essa foi a primeira vez que cavei uma armadilha no chão. Quem caiu no buraco foi a mãe de Huiin. Quando as hienas quiseram apanhar a potranquinha, eu espantei esses bichos horrorosos e trouxe Huiin para a caverna. Quanta coisa então já aconteceu depois disso...
- Quase todo mundo carrega fogo nas viagens, mas com as nossas pedras de fazer fogo não precisamos nos preocupar - subitamente ele tinha a testa enrugada. Ayla já sabia que o seu pensamento estava concentrado em alguma coisa. - Nós temos um bom estoque de pedras, não é? E não estamos precisando de mais nada.
- É verdade, já estamos com tudo pronto.
- Então por que não fazemos uma viagem? Uma pequena viagem -acrescentou, vendo a expressão aflita de Ayla. - Você ainda não explorou os terrenos do lado oeste. Por que não pegamos alguma comida, as barracas, peles de dormir, e vamos dar uma olhada por lá? Não precisamos ir muito longe.
- E o que será de Huiin e Campeão?
- Podemos levar os dois conosco. Huiin, inclusive, pode nos carregar um pouco e ajudar a levar os mantimentos. Seria divertido... só nós dois, Ayla.
Viajar só por distração era algo novo para ela e difícil de aceitar. Por outro lado, não via também por que não fazê-lo.
- É... acho que podemos. Só nós dois... é, por que não? “Talvez não seja uma má idéia examinar os terrenos daquele lado”, pensou.
- A camada de terra não é muita aqui atrás, mas é o melhor lugar para um esconderijo - falou Ayla. - E podemos usar algumas das pedras sol tas no chão.
Jondalar suspendeu a tocha para espalhar mais a luz.
- O que você acha se, ao invés de um, fizermos uma porção de esconderijos? Assim, se algum bicho descobrir, não perdemos tudo. Que tal? Não acha uma boa idéia?
Jondalar dirigiu o facho de luz para iluminar as gretas entre as pedras caídas no fundo da caverna.
- Uma vez eu dei uma olhada aqui atrás e tive a impressão de ter visto sinais de algum leão da caverna.
- Esse era o lugar de Neném. Quando eu vim para cá, também vi sinais de leões, mas já bem antigos. Achei que era um aviso que o meu totem estava me mandando para não continuar a viagem e resolvi passar o inverno aqui. Nunca pensei que fosse viver tanto tempo neste lugar. Agora imagino que o aviso era para que eu ficasse aqui à sua espera. Você deve ter sido guia do para cá pelo espírito do Leão da Caverna. Você foi escolhido, Jondalar, e hoje tem um totem tão forte quanto o meu.
- Sempre achei que Doni fosse o meu guia espiritual.
- Talvez ela seja o seu guia, mas o Leão da Caverna o escolheu.
- Pode ser que você tenha razão. Os espíritos de todas as criaturas pertencem a Doni e o Leão da Caverna também é um espírito dela. Os caminhos da Mãe são misteriosos.
- É muito dura a vida com um totem como o Leão da Caverna, Jondalar. As suas provas têm sido muito difíceis. Quantas vezes achei que não fosse agüentar viver, mas então obtinha as suas graças, que compensavam todo o sofrimento. De todas as graças que recebi, acho que a maior delas foi você - falou, acrescentando em voz baixa.
Jondalar fincou a tocha numa fenda e a tomou nos braços. Ela era tão sincera, tão espontânea. O beijo que lhe deu foi correspondido com tanto ar dor que ele quase se deixou levar pelo seu desejo.
- Vamos parar por aqui - falou ele, passando o braço ao redor dos ombros dela e deixando um espaço entre os dois - ou do contrário nunca conseguiremos nos arrumar para essa viagem. Acho que você tem o toque de Haduma.
- O que é o toque de Haduma?
- Haduma foi uma velha que encontramos. Ela era mãe de seis gerações e muito reverenciada pelos seus descendentes. Tinha muitos poderes da Mãe. Os homens acreditavam que quando a virilidade deles era tocada por Haduma, eles tinham tantas ereções quanto o desejassem e podiam satisfazer qualquer mulher, ou até muitas de uma só vez. A maioria dos homens deseja isso. Há mulheres que usam de truques para excitar um homem. Mas no seu caso, tu do que tem a fazer é chegar perto de mim, Ayla. Hoje de manhã, na noite passada... quantas vezes fizemos ontem? E anteontem? Nunca tive capacidade para tanto e nunca desejei tanto. Mas se não pararmos agora, nunca vamos deixar esses depósitos em ordem.
Eles retiraram pedras, removeram outras maiores com alavanca e prepararam os lugares de seus esconderijos. À medida que o dia passava, Jondalar começou a achar Ayla arredia e mais silenciosa do que normalmente. Ele não sabia se seria por alguma coisa que teria feito ou dito. Talvez ele não devesse mostrar-se tão voraz. Não era possível achar que ela estivesse sempre disponível para ele a qualquer instante que a desejasse.
Ele havia conhecido muitas mulheres que gostavam de se mostrar difíceis e de fazer o homem penar pelos seus prazeres, embora os prazeres fossem delas também. Isso poucas vezes se constituiu em problema para ele, mas tinha aprendido a não parecer muito ávido. Se o homem se mostrasse reservado, ele passava a ser um desafio para a mulher.
Quando começaram a remover a comida para o fundo da caverna, Ayla parecia ainda mais distante. Constantemente estava abaixando a cabeça e se deixava ficar imóvel, ajoelhada, antes de apanhar os fardos de carne seca ou as cestas com raízes.
Depois, quando tiveram de descer à praia para pegar mais pedras e levá-las à caverna para empilhá-las ao redor dos seus estoques de inverno, Ayla estava visivelmente aborrecida. Jondalar tinha certeza de que era ele a causa, mas não sabia o que fizera de errado. No final da tarde viu-a, furiosa, tentando levantar um bloco de pedra muito mais pesado do que poderia agüentar.
- Nós não vamos precisar dessa pedra, Ayla. Acho que devíamos, agora, descansar. Trabalhamos o dia todo. Que tal nadar um pouco?
Ela largou a pedra, afastou os cabelos dos olhos, desfez o nó da correia, deixando a roupa cair, e retirou o amuleto. Jondalar sentiu as suas conhecidas contrações na virilha. Sempre lhe sobrevinham quando via o corpo dela. “Ayla parece uma leoa andando”, pensou, admirando a graça sinuosa de seus movimentos esquivos. Ele retirou a tanga e foi atrás correndo.
As braçadas dela subindo o rio eram tão vigorosas que ele resolveu esperar pela sua volta, na descida, deixando que o exercício desgastasse um pouco a irritação. Encontrou-a mansamente boiando, trazida pela correnteza. Estava mais relaxada. Quando virou o corpo para nadar, ele correu a mão pelas suas costas, fazendo-a deslizar pelas reentrâncias da cintura e pela suave curvatura das nádegas.
Ela passou-lhe à frente, nadando, e saiu da água. Ele foi encontrá-la já com o amuleto pendurado no pescoço e apanhando a roupa para vestir.
- Ayla, o que eu fiz de errado? - perguntou, de pé na frente dela, com água pingando de seu corpo.
- Você, nada. Quem fez fui eu.
- Mas você não está fazendo nada de errado.
- Não? Pois estou sim. Passei o dia inteiro querendo provocá-lo, mas parece que você não entende os gestos dos clãs.
Quando Ayla se tornara mulher, Iza, além de lhe explicar como ela de via se cuidar nos períodos de sangramento e como se limpar após ter estado com um homem, lhe falou também dos gestos e posturas de que a mulher se vale para que o homem tenha vontade de lhe fazer o sinal. Se bem que no caso de Ayla, Iza achasse que essas seriam informações desnecessárias. Por mais que Ayla fizesse gestos, era bem pouco provável que algum homem do clã fosse corresponder-lhe.
- Eu sei que quando você me toca de determinada maneira, ou põe os seus lábios sobre os meus, está fazendo um sinal para mim. Mas eu não conheço um sinal seu, Jondalar. Não sei como excitá-lo.
- Ayla, para você me excitar basta que fique perto de mim.
- Não é isto que eu quero falar. Não sei como lhe dizer que estou que rendo que você goze dos prazeres comigo. Eu não sei... bem, você disse que algumas mulheres sabem de coisas que excitam um homem e...
- Oh, Ayla, é por isso que está zangada? Você quer saber como me ex citar?
Ela confirmou, abaixando a cabeça, sentindo-se envergonhada. As mulheres dos das jamais se mostravam tão oferecidas. Elas davam a entender o seu desejo a um homem com excessivo pudor, como se mal agüentassem a vista do macho em toda a sua glória e poder. Contudo, ainda assim, conseguiam que ele ficasse sabendo que o estavam achando absolutamente irresistível.
- Olhe como você consegue me excitar, mulher - falou Jondalar, consciente de estar tendo uma ereção enquanto conversava com ela. Ele não conseguia evitá-lo, nem esconder. O seu desejo estava tão visível que Ayla não conseguiu reprimir um sorriso. - Oh, Ayla, Ayla! - disse, arrebatando-a no ar. - Será que não sabe que basta estar viva para me excitar?
Carregando-a nos braços, se pôs a caminhar pela praia e depois começou a fazer a subida da caverna.
- Será que não sabe que só de olhá-la eu fico excitado? Eu a desejei no momento em que pus os olhos em você - prosseguiu, enquanto fazia a subida, com Ayla no colo, olhando-o extremamente surpresa. - Você é tão mulher que não precisa usar de nenhum truque para excitar um homem. Você não necessita aprender nada. Tudo que faz só me leva a querê-la cada vez mais - eles chegaram na entrada. - Quando me quiser, basta que diga ou que faça isso - falou, beijando-a em seguida.
Ele a carregou e a colocou sobre a cama de peles. Novamente a beijou com a boca aberta, provando-lhe docemente a língua. Ela sentia entre os dois a virilidade dura e quente. Ele se sentou. No seu rosto havia um sorriso meio de troça.
- Você disse que passou o dia inteiro tentando me excitar. O que acha que estava fazendo de tão provocante? - perguntou, fazendo um gesto inteiramente inesperado para Ayla.
Os olhos dela se esbugalharam, surpresos.
- Jondalar! É isso! Esse é o sinal!
- Se você pretende fazer esses gestos dos clãs para mim, é bom que eu saiba entendê-los.
- Mas... eu - ela podia não saber o que dizer, mas sabia o que fazer. Levantou-se e ajoelhou-se de costas para ele, com as pernas afastadas, oferecendo-se.
Ele havia feito o sinal apenas como piada, não esperava ver-se estimulado tão rapidamente. À vista dos traseiros roliços e firmes, pondo à mostra a fenda de uma rosa tão convidativo, era irresistível. Antes que se desse conta, estava de joelhos atrás dela penetrando em suas profundezas quentes e palpitantes.
No momento em que ela se colocou na posição, a lembrança de Broud tomou-lhe o pensamento. Pela primeira vez, se pudesse, teria recusado Jondalar. No entanto, por mais repulsivas que fossem as associações, o condiciona mento para obedecer àquele sinal era mais forte.
Ele montou e mergulhou. Sentindo-se preenchida, ela soltou um grito com o inesperado prazer. A posição lhe permitia sentir pressões em novas zonas e as carícias e fricções excitavam diferentemente. Ela empinou-se para ir ao seu encontro quando ele tornou a mergulhar. Subitamente, com ele bombeando e forcejando, Ayla se lembrou de Huiin com o garanhão baio. O pensamento lhe trouxe uma onda de deliciosos ardores, sentidos em meio às vibrações dos estiramentos latejantes. Novamente afastou-se, empinando-se para ele, seguindo-lhe o ritmo com gemidos e gritos.
A tensão aumentava rapidamente. Os movimentos dela e a ansiedade dele impunham certa pressa.
- Ayla! Oh mulher linda e selvagem! - dizia ofegando, enquanto bombeava seguidamente. Então, segurando-lhe os quadris, puxou-a para si e a encheu. Ayla mais uma vez se empinou ao seu encontro e ele se lançou, estremecendo-se prazerosamente.
Por um momento, trementes, ficaram onde estavam. A cabeça de Ayla pendurava-se molemente. Ele a abraçou e fez com que ela girasse o corpo junto com o seu, ficando deitados de lado. Ela, com as costas aninhadas no corpo dele, ainda prendendo-lhe a virilidade. Ele se enroscou nela e esticou o braço para alcançar o seu seio.
- Sou obrigado a concordar - falou Jondalar, passado algum tempo -que esse sinal não é de todo mau - ele lhe beijou a nuca e depois a orelha.
- No princípio, fiquei com um pouco de medo, mas com você, Jondalar, tudo dá certo. Tudo é prazer - disse Ayla, aconchegando-se mais a ele.
- Jondalar, o que você está procurando? - indagou Ayla, do patamar.
- Estou tentando ver se encontro mais algumas pedras-de-fogo.
- Não é necessário. A primeira das pedras que comecei a usar está inteira, só tem algumas riscas. Ainda vai durar muito. Não precisamos de mais.
- Eu sei, mas é que vi algumas e estava querendo saber quantas mais poderia encontrar. Você está pronta?
- Estou. Acho que não me esqueci de nada. Também não vamos poder ficar fora muito tempo... quando menos se espera o clima começa a mudar. Às vezes pela manhã faz calor e de tarde já está nevando - falou Ayla, enquanto descia para a praia.
Jondalar guardou as pedras, deu mais uma olhada à sua volta e, distraidamente, levantou os olhos na direção de Ayla. Então a ornou com atenção.
- Ayla, o que é isso que você está usando?
- Você não gosta?
- Claro que gosto. Mas onde arrumou esta roupa?
- Enquanto eu fazia a sua, fiz uma para mim também. Apenas copiei. Não sei se serve para uma mulher usar. Talvez seja uma roupa só para homens. A camisa, eu não soube bordá-la. Você acha que estou bem?
- Acho que sim. Na verdade, não me lembro se as roupas de mulheres eram muito diferentes das dos homens. Talvez a camisa tivesse de ser um pouco mais comprida e os enfeites postos de outra maneira. Essa é uma roupa mamutoi. Eu perdi a minha quando chegamos na foz do Grande Rio Mãe. Fica muito bem em você, Ayla, e acho que também vai gostar mais de andar com ela quando chegar o frio. Você vai ver como esquenta e é confortável.
- Que bom que gostou. Queria vestir... a sua moda...
- A minha moda... nem sei se ainda tenho uma moda. Olhe só para nós! Um homem, uma mulher, dois cavalos e um deles carregado de mantimentos. Parece tão estranho viajar levando nas mãos só lanças e atiradores. E imagine, o que eu mais carrego dentro de minha sacola são pedras. Acho que, se nos vissem, as pessoas iriam ficar bem espantadas. Mas eu mesmo me espanto comigo. Desde que você me encontrou que já não sou o mesmo homem. Você me transformou, mulher, e eu a amo por isso.
- Eu também estou mudada e o amo, Jondalar.
- Bom, para que lado vamos?
Enquanto faziam a travessia do vale, seguidos pela égua e o seu potro, Ayla sentia-se como se estivesse perdendo alguma coisa. Ao atingirem a curva no fim da campina, ela olhou para trás.
- Jondalar, veja! Os cavalos voltaram para o vale. Desde que cheguei aqui, eles nunca mais apareceram. Foram embora depois que matei a mãe de Huiin. Fico feliz que tenham voltado. Sempre achei que esse vale era deles.
- É a mesma manada?
- Não sei. O garanhão era amarelo, como Huiin. Não estou vendo nenhum garanhão, só a égua madrinha. Já faz tanto tempo.
Também Huiin havia visto os cavalos. Ela relinchou alto cumprimentando-os. Eles a responderam. As orelhas de Campeão ergueram-se atentas na direção da manada. Mas então Huiin foi atrás da mulher, com o potro acompanhando-a.
Ayla seguiu o rio na direção sul e o cruzou ao ver a alta colina do outro lado. Quando chegaram em cima do morro, fizeram uma parada, e ela e Jondalar montaram na égua. Guiando-se pelos pontos na paisagem que lhe serviam de referência, ela tomou o rumo sudoeste. O terreno se tomava mais acidentado, cheio de reentrâncias e pregas, com gargantas pedrogosas e escarpadas colinas que formavam as bases de vários altiplanos. Ao se aproximarem de urna passagem ladeada por Íngremes paredões de rocha, ela apeou e examinou o chão à sua volta. Não havia nenhum indício de excremento fresco. Ela se dirigiu para uma garganta sem saída e subiu por uma pedra caída do paredão, encaminhando-se com Jondalar para a parte do fundo da garganta.
- É este o lugar, Jondalar - falou, enquanto tirava uma sacola do interior da túnica e a entregava a ele.
Jondalar reconheceu a área.
- O que é isso? - perguntou, suspendendo a sacola na direção dela.
- Terra vermelha... para ser posta na sepultura dele.
Ele fez sim com a cabeça, emocionado demais para falar. Sentindo a pressão das lágrimas em seus olhos, esforçava-se por contê-las. Então, despejou em sua mão um pouco do ocre e esparramou sobre as pedras e a sepultura. Depois pegou mais um punhado e tomou a esparramar. Ayla esperava, enquanto Jondalar com os olhos úmidos mirava fixamente o monte de pedras. Quando ele se voltou para ir embora, Ayla fez um gesto sobre a sepultura de Thonolan.
Eles cavalgaram durante um certo tempo em silêncio, até que Sonda-lar voltasse a falar.
- Ele foi uru dos filhos diletos da Mãe. Ela quis levá-lo de volta.
Depois de andarem mais um pouco, perguntou:
- Que gesto era aquele que você fez?
- Estava pedindo ao Grande Urso da Caverna que o protegesse e que ele fosse feliz. Significa “vá com Ursus”.
- Ayla, eu não a agradeci quando você me contou, mas agora o faço. Sou-lhe grato por havê-lo enterrado e por pedir aos totens dos clãs que o ajudassem. Acho que, por sua causa, o meu irmão poderá encontrar o seu caminho para o mundo dos espíritos.
- Você disse que ele era corajoso. Acho que aqueles que são corajosos não precisam de ajuda para encontrar o seu caminho. Para eles essa é uma emocionante aventura.
- Ele era corajoso e gostava de aventuras. Pobre Thonolan, tão cheio de vida... Parecia que procurava viver tudo de uma só vez. Eu nunca teria feito essa viagem se não fosse por ele - Jondalar tinha Ayla cingida em seus braços e a apertou mais contra o seu corpo. - E também nunca a teria encontrado. Foi isto que o shamud quis dizer quando me falou sobre o meu destino “...É ele quem o conduz para onde você tem de ir, para lugares onde por si mesmo jamais iria...” Foram essas as suas palavras. Thonolan me conduziu a você e depois seguiu para o outro mundo, acompanhando o amor dele. Eu não queria que ele se fosse, mas agora posso entendê-lo.
Eles rumavam na direção oeste e, à medida que avançavam, o terreno se tomava menos acidentado, cedendo novamente lugar às planícies abertas, atravessadas pelos rios e riachos que brotavam nas geleiras ao norte. Vez por outra os cursos de água passavam por entre altos penhascos para, em seguida, serpentear por vales quase planos. As poucas árvores que ornavam as estepes eram amesquinhadas em sua luta pela sobrevivência e até mesmo aquelas, crescendo nas proximidades das águas que lhes alimentavam as raízes, tinham as suas formas desfiguradas, como se houvessem sido congeladas no ato de se curvarem às impiedosas rajadas dos ventos.
Jondalar e Ayla sempre que lhes era possível faziam as suas paradas nos vales, tanto pelo abrigo contra as ventanias como pela lenha que lá encontravam. Somente neles crescia com vigor os pés de salgueiro, lanços, pinheiros e vidoeiros. O mesmo já não se dava com os animais. As estepes se constituíam numa reserva colossal da vida selvagem. Agora, com a nova arma, os dois tinham, sempre que o desejassem, carne fresca. Os restos de suas matanças deixavam aos outros predadores e carnívoros.
A viagem já durava uma metade do ciclo das fases da lua, quando mais um dia amanheceu, quente e com a atmosfera inusitadamente parada. Depois de passarem caminhando a maior parte da manhã, eles montaram ao ver à distância uma elevação sombreada de verde. Excitado com o calor do corpo de Ayla junto ao seu, Jondalar enfiou a mão por baixo da túnica para acariciá-la. Eles chegaram no topo da colina e viram embaixo um belo vale regado por um grande rio. O sol ia alto no céu quando chegaram à margem.
- Devemos ir para o norte ou para o sul, Jondalar?
- Nem uma coisa, nem outra. Vamos acampar aqui.
Ela protestou. Suas objeções se deviam apenas ao fato de não estar acostumada a parar tão cedo. Quando Jondalar lhe mordiscou a nuca e lhe apertou o seio, compreendeu que não havia motivo nenhum que o levasse a prosseguir e muitos para que ficassem.
- Tudo bem, vamos então acampar - falou ela, passando uma perna por cima do lombo de Huiin e apeando.
Jondalar também apeou e a ajudou a retirar as cestas para que a égua pudesse descansar e pastar. Ele tomou Ayla nos braços e enquanto a beijava enfiou outra vez a mão por baixo da sua túnica.
-Por que você não me deixa tirar a roupa? - disse ela.
Ele sorria, vendo-a tirar a túnica pela cabeça e desamarrar o nó na cintura que prendia o resto da roupa. Enquanto retirava a dele, passando-a também pela cabeça, ouviu a risadinha de Ayla. Ao olhar, ela não estava lá. A sua risada vinha, agora, da direção do rio. Ela estava saltando para dentro da água.
- Resolvi nadar um pouco - gritou Ayla.
Jondalar deu um largo sorriso, retirou as calças e foi atrás. O rio era pro fundo, com uma correnteza forte e a água estava fria. Ayla nadava rápido na contracorrente e ele tinha dificuldade de alcançá-la. Por fim, quando conseguiu, agarrou-a e lhe deu um beijo. Mas ela se desvencilhou do abraço e rindo correu para a praia.
Ele foi atrás. Quando chegou à praia, Ayla já estava correndo pelo vale. Novamente tomou a agarrá-la e ela mais uma vez conseguiu escapar. Ele saiu em perseguição, pondo todas as forças em suas penas. Finalmente pegou-a pela cintura.
- Desta vez você não me escapa, mulher - disse, apertando-a. - Essa perseguição vai acabar me cansando e depois não vou conseguir lhe dar os prazeres - ele estava deliciado com a brincadeira.
- Eu não quero que você me dê os prazeres - falou Ayla.
O queixo dele caiu e as rugas imediatamente surgiram em sua testa.
- Você não quer que eu...? - perguntou, soltando-a.
- Os prazeres desta vez serão dados por mim.
O coração de Jondalar voltou a bater.
- Mas você me dá sempre prazer, Ayla - ele voltou a tomá-la nos braços.
- Eu sei que você gosta de me fazer sentir os prazeres, mas não é isto que quero dizer - os olhos dela estavam sérios. - Eu quero aprender a lhe dar prazer, Jondalar.
Ele não conseguia resistir-lhe. Quando a puxou para mais perto e a beijou avidamente como se a quisesse sorvê-la por inteiro, a virilidade estava dura entre os dois. Ela lhe devolveu o beijo na mesma medida. Então se beijaram demoradamente, saboreando-se, se tocando e se explorando mutuamente.
- Eu vou lhe mostrar como você pode me dar prazer, Ayla - falou, pegando-a pela mão e indo para uma área, perto do rio, coberta de relva verde. Quando se sentaram, ele voltou a beijá-la, procurando, em seguida, pela orelha e nuca, ao mesmo tempo que, delicadamente, a forçava a reclinar-se. Estava com uma das mãos no seio e a língua prestes a tocá-lo, quando ela se sentou.
- Eu quero lhe dar prazer.
- Ayla, me agrada tanto fazê-la sentir prazer, que não sei como poderia me dar mais do que já sinto.
- Você gostaria menos?
Jondalar jogou a cabeça para trás, riu e a abraçou. Ela sorriu, sem saber ao certo o que o estava divertindo.
- Não existe nada que você faça que eu vá gostar menos - ele a fitava com os seus vibrantes olhos azuis. - Oh, mulher, eu a amo!
- E eu também o amo, Jondalar. Quando você sorri dessa maneira, quando olha desse jeito e principalmente quando dá as suas risadas, eu me sinto tão cheia de amor... Nos clãs, ninguém ria e as pessoas não gostavam quando me viam rindo. Nunca mais quero voltar a viver com pessoas que não me deixam rir.
- E você deve rir, Ayla, e sorrir também. Você tem um lindo sorriso.
Ela não pôde evitar o sorriso que veio aos seus lábios, ouvindo-lhe as palavras.
- Oh, Ayla... Ayla - falou ele, enterrando o rosto em seu pescoço e acariciando-a.
- Jondalar, adoro quando você me toca e me beija no pescoço, mas eu queria saber do que você gosta.
Ele sorriu com o canto dos lábios.
- Eu já não consigo conter-me. Você me excita demais. De que você gostaria, Ayla? Faça comigo aquilo que você gostar.
- E você gostaria?
- Experimente.
Ela o forçou a deitar-se e se curvou para beijá-lo com a boca aberta e usando a língua. Ele correspondia, mas mantendo-se imóvel Ayla começou por beijar-lhe o pescoço, tremulando com a língua ligeiramente. Sentindo-o estremecer, olhou-o, querendo conferir.
- Você gosta?
- Sim, eu gosto, Ayla.
E gostava. Manter-se controlado, enquanto ela fazia os seus avanços exploratórios, excitava-o de um modo como nem em sonhos imaginava. O seu corpo se incendiava com aquele leve roçar da língua. Ela estava insegura de si, tão inexperiente quanto uma menina que tivesse chegado à puberdade e que ainda não houvesse passado pelos primeiros ritos. No entanto, nunca uma mulher foi tão desejada. Por serem proibidos, aqueles beijos eram mais excitantes do que as mais ardentes e sensuais carícias de uma mulher experiente.
A maioria das mulheres, de uma certa maneira, era disponível. Ayla não. Até então, fora intocável. Nos cantos escuros das cavernas, os homens- fossem rapazes ou velhos - iam à loucura com as carícias secretas de mocinhas inexperientes. O maior medo das mães era o de que as filhas se tornas sem moças logo depois das reuniões de verão, quando tinham de enfrentar um longo inverno, antes da próxima reunião. Carícias e beijos não eram coisas novas para a maioria das meninas, e para algumas, Jondalar sabia, os primeiros ri tos não eram exatamente os primeiros, mas ele jamais iria desgraçá-las revelando-lhes o segredo.
Conhecia esse tipo de atração que as mocinhas exerciam sobre os homens, pois isso fazia parte das alegrias numa cerimônia de passagem e era justamente a atração que estava sentindo por Ayla. Ela beijou-lhe o pescoço. Ele estremeceu e fechou os olhos, entregando-se às carícias.
Desenhando círculos úmidos em seu corpo e sentindo a sua própria excitação crescer, ela foi abaixando. Para ele, era quase uma tortura, uma deliciosa tortura feita de cócegas e estímulos abrasadores. Quando chegou ao umbigo, não conseguiu resistir, e delicadamente forçou a cabeça dela um pouco mais para baixo, permitindo que sentisse no rosto a sua lança vigorosa e quente. Ela ofegava pesadamente com as vibrações interiores de seu corpo. Os tremeliques de língua eram mais do que ele podia suportar. Conduziu-lhe a cabeça na direção de seu órgão rígido e ereto. Ela levantou os olhos.
- Você quer que eu...
- Só se você quiser, Ayla.
- Você gosta?
- Gosto, Ayla.
- Eu quero.
Uma cálida umidade envolveu a ponta de seu órgão latejante e, depois, mais do que a ponta. Ele gemeu. A língua dela explorava a cabeça roliça e macia, conhecendo a pequena fissura e descobrindo a textura da pele. Ficou mais confiante quando as suas ações começaram a provocar expressões de prazer. Ela vibrava com as próprias palpitações internas. A língua girava ao redor, circunscrevendo-lhe a forma. Ele chamava-a pelo nome, enquanto ela atuava com a língua mais ativamente e a umidade invadia-lhe o interior das coxas.
Ele se sentia chupado em meio às sensações úmidas e quentes dos movi mentos se fazendo para cima e para baixo.
- Oh Doni! Oh mulher! Ayla, Ayla! Onde você aprendeu isto?
Ela procurava saber o quanto dele era capaz de absorver, abocanhando-o até quase engasgar-se. Os gritos e gemidos a animavam a prosseguir cada vez mais, até que ele começou a alçar para vir ao seu encontro.
Então, percebendo a necessidade que ele sentia de suas profundezas -e a sua própria necessidade - ela se levantou e montou, fazendo-se penetrar pelo membro dilatado em toda a sua avantajada plenitude. Ao curvar-se, gozou o prazer de ser alcançada em suas profundidades.
Ele levantou os olhos, arregalando-se com a magnífica visão dela. Iluminando por trás os seus cabelos, o sol transformava-os num halo dourado. Ela tinha os olhos cerrados, a boca aberta e o rosto transfigurado em êxtase. Ao jogar o corpo para trás, os seios esculturais projetaram-se, com os mamilos levemente mais rosados retesando-se. O seu corpo sinuoso brilhava ao sol. Dentro dele, profundamente entranhada, a virilidade de Jondalar estava prestes a explodir em seu arrebatamento.
Ela se ergueu ao longo do órgão e baixou quando ele, com a respiração presa, subiu ao seu encontro. Mesmo que tentasse controlá-la, já não poderia conter a força que rompia dentro dele. Berrou quando ela tomou a erguer-se. Ayla apertou-se contra ele, sentindo jorrar os prazeres de seu corpo estremecendo.
Ele buscou-a e, ao atraí-la para si, tocou-lhe com a boca os mamilos. Passados os instantes em que o prazer se foi esvaindo, ela rolou para o lado, liberta. Jondalar levantou-se, inclinando-se para beijá-la, depois buscou-lhe os seios para focinhar entre eles. Chupou um, chupou outro, e tomou a beijá-la. Por fim recostou-se ao seu lado, aninhando-lhe a cabeça.
- Eu gosto de lhe dar prazer, Jondalar.
- Nunca ninguém me deu tanto quanto você, Ayla.
- Mas gosta mais quando é você quem dá os prazeres.
- Não é exatamente que eu goste mais... Diga-me uma coisa: você me conhece tão bem assim?
- É porque você se orgulha daquilo que aprendeu. Esse é um talento seu como o de fazer ferramentas - ela riu. - Jondalar tem dois talentos. É m fazedor de ferramenta e um fazedor de mulher - disse ela, com arzinho satisfeito.
Ele deu uma gargalhada.
- Bela piada - não estava longe da verdade e era uma troça que já tinha sido feita antes com ele. - Mas você tem razão. Gosto de lhe dar prazer. Gosto de seu corpo, gosto de você inteira.
- Eu gosto quando você me dá prazer também. Enche as medidas do amor dentro de mim. Você pode me dar todo o prazer que quiser, só que de vez em quando quero ser eu a dar os prazeres.
Ele tomou a rir.
- Estou de acordo. Já que você tem tanta vontade de aprender, posso ensinar-lhe mais. Um pode dar prazer ao outro, você bem sabe. Gostaria que tivesse sido minha vez de “encher as medidas do amor” em você. Mas foi tão boa que nem o toque de Haduma conseguiria me levantar outra vez.
Ayla calou-se por um momento.
- Não teria importância, Jondalar.
- O que não teria importância?
- Mesmo que a sua virilidade nunca mais tomasse a levantar-se, ainda assim você encheria as minhas medidas.
- Não diga uma coisa dessas! - ele riu, mas teve um ligeiro arrepio.
- A sua virilidade tomará a levantar-se - disse ela com grande solenidade. Depois deu uma risadinha.
- Onde você arrumou tanta malícia, mulher? Há coisas com que não se brinca - disse ele, fingindo-se ofendido. E riu. Estava surpreendido e satisfeito com o tom brincalhão dela e com a descoberta que começava a fazer do senso de humor.
- Gosto de fazê-lo rir. Rir com você é quase tão bom como fazer amor. Quero que você sempre ria comigo. Porque, então, acho que você nunca dei xará de gostar de mim.
- Deixar de gostar de você? - perguntou ele, aprumando o corpo e olhando para ela. - Ayla, procurei por você toda a minha vida, sem saber que estava procurando. Você é tudo o que eu sempre quis. Tudo aquilo que sempre sonhei numa mulher, e mais ainda. Você é um enigma fascinante, um paradoxo. Você é totalmente sincera, aberta, não esconde nada; no entanto, a mulher mais misteriosa que já conheci.
“Você é forte, autoconfiante, inteiramente capaz de cuidar de si mesma e de mim; apesar disso, você não se incomodaria de prostrar-se aos meus pés, se eu deixasse, tão naturalmente como eu me curvaria diante de Doni. Você é destemida, corajosa, salvou a minha vida, tratou de mim até eu ficar bom; caçou a minha comida, providenciou o meu bem estar. Você não precisa de mim. Mas me faz ter vontade de protegê-la, cuidá-la, não deixar que nada de mau lhe aconteça.
“Poderia viver com você toda a minha vida, sem chegar jamais a conhecê-la realmente; há em você profundidades que muitas existências não bastariam para explorar, sendo sábia e ancestral como a Mãe e tão fresca e jovem quanto uma mocinha nos seus primeiros ritos. E você é a mulher mais linda que eu já vi. Nem consigo acreditar que tive tamanha sorte. Não pensava que fosse capaz de amar alguém. Agora sei que estava apenas esperando por você. Achava que o amor para mim fosse impossível, Ayla. Amo-a mais do que a própria vida.
Ayla tinha lágrimas nos olhos. Ele beijou-lhe as pálpebras e a abraçou bem apertado como se tivesse medo de perdê-la.
Quando despertaram na manhã seguinte, havia uma fina camada de neve no chão. Soltaram a abertura da barraca e se meteram outra vez sob as peles, mas os dois se sentiam tristes.
- Já é tempo de voltar, Jondalar.
- Acho que sim - falou ele, olhando para a sua respiração saindo numa baforada de vapor. - A estação ainda está no princípio. Não há perigo de enfrentar tempestades.
- Nunca se sabe. O tempo às vezes surpreende.
Eles, por fim, se levantaram e desmontaram o acampamento. A funda de Ayla derrubou um grande jerbo que surgiu de sua toca subterrânea com os seus rápidos pulinhos sobre os dois pés. Ela o apanhou pelo rabo que tinha o dobro do comprimento de seu corpo e o suspendeu às costas pelas patas traseiras, providas de garras duras como cascos. No acampamento, rapidamente pelou-o e colocou-o para assar no espeto.
- Estou triste de voltar - falou Ayla, enquanto Jondalar armava a fogueira. - Foi... divertido. Viajar por viajar, parando onde desse vontade, sem termos de nos preocupar com cargas d fardos. Acampar durante o dia só por que dava vontade de nadar ou fazer amor. Que bom você ter tido essa idéia.
- Também estou triste por ter terminado, Ayla. Foi uma boa viagem.
Ele se levantou para ir buscar mais lenha, encaminhando-se na direção do rio. Ayla ajudou. Contornaram uma curva e encontraram uma pilha de galhos tombados, apodrecendo no chão. De repente Ayla ouviu um barulho. Ela levantou a cabeça e procurou por Jondalar.
- Ei! Você aí! - chamou uma voz.
Um pequeno grupo de pessoas se encaminhava na direção deles, acenando-lhes. Ayla agarrou-se a Jondalar, e o braço dele cercou-a protetoramente, tranqüilizando-a.
- Não se preocupe, Ayla. Eles são mamutoi. É aquela gente que eu lhe falei que se orgulha de caçar mamutes. Eles acham que somos mamutoi também.
Quando as pessoas se aproximaram, Ayla, com surpresa e assombro, virou-se para Jondalar.
- Olhe, Jondalar, estão sorrindo - disse ela. - Estão sorrindo para mim.
Fim
OceanofPDF.com
Você terminou O Vale dos Cavalos
Jean M. Auel