O Vale dos Cavalos

Jean M. Auel · Capítulo 3 de 31

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O Vale dos Cavalos

Capítulo 1

Ayla estava morta. Pouco importava se a chuva gelada fosse como agulhadas esfolando-lhe a pele. Rajadas violentas chicoteavam a capa de pele de urso contra as suas pernas, enquanto se dobrava sob o vento e apertava com força o capuz de carcaju sob o queixo.

Estariam aquelas árvores lá adiante? Ela se lembrava de ter visto, mais cedo, no horizonte,uma fileira irregular de densa vegetação e desejava ter prestado mais atenção ou que a sua memória fosse tão boa como a das pessoas dos clã Ainda se considerava como uma delas,embora nunca o tivesse sido e agora estivesse morta.

Curvou a cabeça e se inclinou à força do vento. A tempestade que viera ululando do lado norte se abatera de repente e ela procurava desesperadamente por um abrigo. A caverna já ficara bastante atrás e a região lhe era desconhecida. A lua havia completado todo um ciclo de fases desde que partira, mas ainda não tinha idéia para onde estava indo.

Para o norte, para o continente, além da península, era tudo que sabia. Iza dissera-lhe na noite em que morreu, que partisse, pois Broud ao se tornar chefe acharia um meio de feri-la. Iza tinha acertado. Broud conseguira atingi-la muito mais do que se poderia imaginar.

“Não era justo ele ter tirado Durc de mim”, pensou Ayla. “Durc é meu filho e tampouco tinha Broud razão para amaldiçoar-me. Foi ele quem colocou os espíritos enraivecidos e quem provocou o terremoto.” Bom, pelo me nos desta vez ela sabia o que a esperava. Mas tudo aconteceu tão rápido que até mesmo o clã levou algum tempo para compreender e fechar os olhos para ela. Só não puderam impedir que Durc a visse, apesar de estar morta para todos.

Broud, num rompante de cólera, a amaldiçoara. Quando Brun pela primeira vez a amaldiçoou, havia preparado o espírito das pessoas e ele teve motivos para proceder assim. Era uma coisa que todos sabiam que precisava ser feita; além disso, Brun lhe dera uma chance de viver.

Ela levantou a cabeça e uma rajada gelada fustigou-lhe o rosto. Já anoitecia, dentro de pouco tempo estaria escuro. Sentia os pés dormentes. A neve derretida encharcava-lhe os calçados de couro, apesar de forrados com capim. A vista de um pinheiro baixo e retorcido lhe trouxe algum alívio.

As árvores eram raras nas estepes. Cresciam apenas em lugares com umidade bastante para sustentá-las. Uma fileira dupla de pinheiros, vidoeiros ou salgueiros, que o vento esculpia de forma atarracada e assimétrica, indicava freqüentemente algum curso d’água. Era uma visão agradável, em épocas de seca, numa região com poucos mananciais de água. Quando as tempestades, descendo das grandes geleiras setentrionais, rugiam pelas planícies descampadas, essas árvores ofereciam proteção, ainda que exígua.

Mais alguns passos levaram-na à beira de um rio, na verdade um estreito canal de água correndo entre as margens geladas. Ela se dirigiu para oeste, seguindo rio abaixo, à procura de vegetação mais densa, capaz de lhe oferecer melhor abrigo que os arbustos nas proximidades.

Caminhava devagar e penosamente com o capuz descido sobre o rosto. Subitamente o vento cessou e ela levantou os olhos. A margem oposta achava-se resguardada por uma pequena ribanceira. O capim forrando os calçados pouco adiantava para aquecer os pés quando a água gelada começou a infiltrar-se através do couro, mas se sentiu contente por se ver livre do vento. O paredão de terra na margem fora cavado, deixando uma furna com uma saliência colmada de raízes entrelaçadas e uma vegetação velha e emaranhada, proporcionando, embaixo, um lugar razoavelmente seco.

Desatou as correias ensopadas que lhe prendiam o cesto às costas, encolheu os ombros deixando-o cair, e pegou em seguida um pesado couro de auroque e um galho forte desprovido de ramas. Armou uma tenda baixa, que fixou com pedras e toras de madeira e o galho na parte da frente sustentando a abertura.

Afrouxou com os dentes as tiras das luvas. Eram duas peças de couro, mais ou menos redondas, forradas de pelúcia e franzidas nos pulsos, com uma abertura na palma, de modo a permitir a passagem do polegar. Os abrigos para os pés eram feitos da mesma maneira, sem a abertura e, com esforço, ela desatou os cordões empapados que os amarravam em volta dos tornozelos. Ao removê-los, teve o cuidado de guardar a palha que se achava dentro.

Colocou a capa de pele de urso no chão dentro da tenda, com a parte molhada para baixo e, por cima, botou a palha úmida, o par de calçados e as luvas. Arrastou-se então para debaixo da barraca, enrolou-se na pele, puxou a cesta para tapar a abertura e ficou esfregando os pés gelados. Quando, por fim, sentiu o seu ninho de peles aquecido, enroscou o corpo e fechou os olhos.

O inverno estertorava os seus últimos bafos gelados, relutante, sem querer abrir caminho à primavera. Mas a nova estação era uma namorada caprichosa. Em meio às sobras do frio glacial, viam-se pequeninos indícios já prometendo apetitosamente o calor do próximo verão. Uma mudança repentina no tempo trouxe durante a noite nova tempestade.

Ayla acordou com os reflexos de um sol deslumbrante, cintilando nas manchas de neve e gelo ao longo das margens e sob um radioso céu extremamente azul. Nesgas de nuvens corriam em direção ao sul. Arrastou-se para fora da tenda e correu descalça até a beirada da água, levando o odre. Ignorando o frio, encheu-o, tomou um grande gole e correu de volta. Depois de aliviar-se, tornou a meter-se dentro de sua pele para aquecer-se.

Mas não pôde permanecer quieta por muito tempo. Passado o perigo da tempestade, estava ansiosa para sair e ir ao encontro do sol. Vestiu os calçados, secos com o calor do corpo, e amarrou a pele de urso por cima da roupa de couro com que dormira. Retirou da cesta um pedaço de carne seca e guardou a tenda e as luvas, para então retomar a sua caminhada, mastigando o naco de carne.

O curso do riacho seguia quase reto, descendo suavemente por uma colina e era fácil o caminhar. Murmurava baixinho uma cantilena desafinada, enquanto olhava algumas manchas verdes nos arbustos próximos à margem. Vez ou outra, uma florzinha, metendo corajosamente a sua cara através dos flocos de neve, a fazia sorrir. Um bloco de gelo se desprendeu, caindo perto. Por algum tempo acompanhou-o com o olhar, até que ele sumisse, levado pela correnteza.

Quando ela saiu da caverna, a primavera já havia começado na extremidade sul da península, mas a temperatura lá era mais quente, fazendo com que a estação se iniciasse com certa antecedência. A cadeia de montanhas representava uma barreira para as ventanias inclementes, e as brisas, vindas do mar interno, além de aquecer, irrigavam a estreita faixa litorânea e as vertentes voltadas para o sul, proporcionando à região um clima temperado.

O terreno na planície era mais frio. Havia contornado a extremidade oriental da cordilheira, mas na medida em que ia atravessando os descampados — rumo ao norte —, a estação também avançava no mesmo passo. Parecia que a temperatura era sempre aquela de um princípio de primavera, jamais esquentando-se.

Os gritos esganiçados das aves marinhas atraíram-lhe a atenção. Olhou para o alto, vendo uma quantidade de pássaros, parecidos com gaivotas, com as suas asas distendidas, num vôo de voltas doces e tranqüilas. “O mar deve estar perto”, pensou. “Está na época dos pássaros fazerem os seus ninhos... isso significa que vou ter alguns ovos. “Resolveu apressar o passo. “... E também bons mexilhões agarrados nas pedras... mariscos, lapas e algumas poças cheias de anêmonas.”

O sol se achava quase a prumo no céu, quando ela chegou a uma baía bem resguardada que era formada pela costa sul do continente e pelo flanco noroeste da península. Havia finalmente alcançado a larga passagem que ligava o pontal ao continente.

Desvencilhando-se da cesta, subiu por uma encosta escarpada que dominava a paisagem. Do lado do mar, as ressacas haviam esculpido blocos dentados no maciço paredão rochoso. Um bando de andorinhas e pombos estrilou raivoso quando ela roubou-lhe os ovos, quebrando-os e engolindo-os, ainda quentes do calor dos ninhos. Antes de descer, enfiou mais alguns numa dobra de sua roupa.

Na praia, retirou os calçados e foi até a rebentação para limpar a areia dos mexilhões apanhados nas pedras ao nível do mar. Em seguida, se dirigiu às poças, deixadas pelas vazantes das marés, para catar as anêmonas, que acolheram as suas pétalas de mentira ao se sentirem tocadas. As anêmonas da região, entretanto, tinham cor e forma diferentes das que conhecia, por isso resolveu deixá-las e completar o seu almoço com alguns mariscos que se achavam na superfície, num ponto onde a praia fazia uma ligeira depressão. Não acendeu nenhuma fogueira, preferiu saborear ao natural as dádivas que o mar punha à sua disposição.

Depois de se ter fartado de ovos e frutos do mar, descansou por algum tempo no sopé do rochedo e voltou a escalá-lo novamente, querendo obter uma melhor visão da costa e da terra firme. Chegando ao topo, sentou-se, contornando os joelhos com os braços e se pôs a olhar a paisagem que se estendia para além da baía. O vento lhe batia no rosto, trazendo o aroma da vida copiosa desenvolvendo-se nas profundezas das águas.

A costa meridional do continente fazia uma curva suave que levava na direção oeste. Por trás de uma pequena fileira de árvores, ela pôde enxergar uma vasta planície que não apresentava muita diferença da fria pradaria da península, mas não percebeu o menor sinal de habitação humana.

“Bom, aí estão”, disse a si mesma, “as terras que se acham para além da península. E agora, Iza, para onde eu vou? Você disse que os Outros se encontravam aqui, mas não estou vendo qualquer indício de gente.” Enquanto observava a vastidão das terras inteiramente desabitadas, os seus pensamentos voltaram para a pavorosa noite em que Iza morreu, há três anos atrás.

- Você não é dos clãs, Ayla. Você nasceu dos Outros e pertence a eles. Você tem de ir embora, minha filha. Precisa encontrar o seu povo.

- Ir embora! Mas para onde eu iria, Iza? Eu não conheço ninguém dos Outros. Nem sei onde iria procurá-los.

- No norte, Ayla. Vá para o norte. Há muitos deles no norte daqui... no continente,passando a península. Você não pode ficar no clã. Broud vai achar um jeito de fazer mal a você. Vá embora e encontre os Outros, menina. Encontre a sua gente e um companheiro para você.

Ela não fora embora naquela ocasião. Não conseguira. Bom, e agora era a única coisa que podia fazer. Precisava encontrar os Outros. Não havia ninguém mais e ela estava impedida para sempre de voltar. Nunca mais tornaria a ver o seu filho.

As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto. Até agora ainda não tinha chorado. Quando partiu, a sua vida estava em jogo e a dor era um luxo que não se podia permitir. Mas uma vez abarreira das lágrimas rompida, não conseguiu mais conter-se.

- Durc... meu bebê - soluçava com o rosto enterrado nas mãos. - Por que Broud foi tirá-lo de mim?

Ela chorava pelo filho, pelo clã que deixara para trás e por Iza, a única mãe que se lembrava de ter tido. E chorava também por se ver sozinha e com medo do mundo desconhecido que a aguardava. Mas não chorou por Creb que a amara como se ela lhe pertencesse. Ainda não chegara o tempo. A dor era muito recente e ela não estava pronta para suportá-la.

Quando as lágrimas se esgotaram, percebeu-se olhando fixamente para a rebentação muito lá embaixo, a uma grande distância. As ondas se quebravam, atirando ao alto jatos de espuma para depois fazer torvelinhos ao redor das pedras escarpadas.

Seria tão fácil...

“Não!”, pensou, pondo-se de pé. “Eu disse a Broud que ele poderia tirar o meu filho, que poderia obrigar-me a partir e a lançar sobre mim a maldição de morte, mas que jamais ele poderia me obrigar a morrer!”

Ela sentia na boca o gosto do sal e um meio sorriso passou-lhe pelo rosto. As suas lágrimas sempre haviam preocupado Iza e Creb. Os olhos das pessoas dos clãs não vertiam água, anão ser que estivessem doentes. Os de Durc também não. Ele se parecia muito com ela, inclusive fazia os sons com a boca que ela podia emitir, mas os seus olhos castanhos eram da raça clânica.

Rapidamente tornou a descer, e enquanto suspendia a cesta nas costas, ainda pensava no problema de seus olhos. Seriam fracos? Ou os Outros teriam também olhos que aguavam? Depois um novo pensamento bateu-lhe na mente: precisava encontrar a sua gente, encontrar o seu companheiro.

Ela se pôs a seguir a costa que rumava para oeste, passando por diversos riachos e canais que iam ter no mar interno, até que por fim chegou às margens de um grande rio. Pegou, então, o rumo para o norte, passando a acompanhar aquele curso de água forte e caudaloso dirigindo-se para o interior do continente. Procurava por um ponto onde desse para atravessá-lo. No caminho, encontrou uma fileira de pinheiros e lanços de beira de praia, formando um bosque de árvores anãs, onde vez por outra surgia alguma de porte gigantesco, dominando as companheiras raquíticas.

Cada vez mais ansiosa com o passar dos dias, seguia todos os meandros do curso, acompanhando cada uma de suas curvas ou desvios. O no a estava trazendo de volta na direção do oriente, mais ou menos no rumo nordeste. Não queria ir naquela direção. Havia clãs que caçavam na parte oriental da península. Na sua jornada para o norte, o plano era pegar o rumo do oeste. Não queria correr o risco de encontrar alguém dos clãs, ainda mais com uma maldição de morte pesando sobre ela. Precisava achar uma maneira de cruzar aquelas águas.

Quando o rio repartiu-se em dois canais, separados por uma ilha, juncada de pedregulhos e com alguns arbustos colando-se às rochas da praia, resolveu arriscar a travessia. Alguns grandes blocos de pedra no canal, do outro lado da ilha, lhe davam a esperança de que aquele ponto fosse suficiente mente raso para poder atravessar. Ela era boa nadadora, mas não queria ter a sua cesta e roupas molhadas. Levaria muito tempo depois para secar e as noites ainda estavam frias.

Andava de lá para cá na margem, observando a velocidade das correntezas. Por fim, achou que sabia onde era menor a profundidade. Tirou a roupa, empilhou tudo sobre o cesto, que suspendeu por cima da cabeça, e entrou na água. As pedras sob os pés eram escorregadias e a correnteza ameaçava o seu equilíbrio. A água batia-lhe pela cintura quando estava a meio caminho do primeiro canal, mas conseguiu sem maiores dificuldades alcançar a ilha. O segundo canal era mais largo. Não tinha muita certeza se conseguiria cruzá-lo. Já havia, no entanto, feito a metade da travessia e não desejava naquele ponto desistir.

Passou mais da metade, quando o rio se aprofundou e ela ficou com a água batendo à altura do pescoço e andando nas pontas dos pés. A cesta, ela a mantinha levantada por cima da cabeça.

Subitamente, faltou o chão, a cabeça balançou e ela, sem querer, engoliu um pouco de água. Logo depois, já não dava mais pé e teve de apoiar a cesta sobre a cabeça, segurando-a com uma das mãos, enquanto a outra procurava impulsionar o corpo na direção da margem oposta. Por um instante, a correnteza a arrastou, mas logo sentiu o fundo de pedras sob os pés, e momentos depois já estava caminhando na margem.

Deixando o rio para trás, Ayla pôs-se novamente a caminhar pelas estepes. Como os dias de sol eram em maior número que os de chuva, o verão acabou impondo-se e passando à frente dela na marcha rumo ao norte. Os brotos nas árvores e arbustos transformaram-se em folhas e os galhos e ramos nos pinheiros expunham agora as suas folhas tenras, num tom ainda verde-claro. Enquanto caminhava ia apanhando-as para mastigar. Gostava de sentir o seu sabor ligeiramente amargo.

Ela caíra na rotina de viajar durante todo o dia, até o anoitecer, quando então procurava algum córrego ou riacho para acampar por perto. A água era ainda abundante na região.Tanto as chuvas de primavera como o degelo nos terrenos mais ao norte estavam fazendo os riachos transbordar, enchendo as bacias e valas que posteriormente seriam fossos secos ou, na melhor das hipóteses, pobres córregos lamacentos. A fartura de água era passageira. A umidade rapidamente seria absorvida, mas antes dando tempo para a planície florescer.

Praticamente da noite para o dia a terra cobria-se de flores nos tons mais variados: amarelo,branco, púrpura. O azulão e o vermelho forte existiam, mas em menor quantidade. Vistas a distância, as cores misturavam-se ao verde, predominantemente claro, da relva recém-brotada. Ayla se encantava com a beleza da estação; a primavera sempre fora a época do ano de que mais gostava.

Com a planície regurgitando de vida, ela passou a depender menos do parco suprimento que trouxera consigo, começando a retirar, cada vez mais, o seu sustento da terra. Isso em nada atrasava a sua marcha. Todas as mulheres dos clãs, quando em viagem, sabiam como coletar - folhas de sílex, ela limpou um galho forte de suas folhas e brotos e lhe aguçou uma das extremidades, de modo a usá-lo como pau para rapidamente cavar da terra as raízes e bulbos. Coletar era fácil. Não tinha ninguém para alimentar, a não ser ela própria.

Ayla, entretanto, levava uma vantagem sobre as outras mulheres dos clãs. Ela caçava. De fato, só com funda, mas até os homens - uma vez aceita a idéia de uma mulher caçadora - eram unânimes em admitir não haver ninguém melhor do clã com uma funda do que ela. Aprendera a atirar sozinha e a sua destreza com a arma lhe custara caro.

Com o reverdecer da relva e o despontar dos brotos, os esquilos, hamsters gigantes,coelhos, lebres e grandes gerbos foram atraídos para fora de suas tocas de inverno. Ayla voltou novamente a usar a sua funda, guardada na correia que mantinha a roupa fechada em seu corpo. O pau de cavar também era trazido enfiado na mesma correia; já a sacola de remédios, ela a pendurava no cinto que amarrava a roupa interior.

A comida era farta, já a lenha e o fogo eram mais difíceis de ser obtidos. Contudo, dava para acender uma fogueira. Em geral, havia mato e pequenas árvores que conseguiram sobreviver ao longo dos riachos sazonais, onde quase sempre também se achavam galhos espalhados pelo chão. Quando acontecia de encontrar madeira seca ou estrume, ela os recolhia. Mas nem todas as noites acendia a fogueira. Muitas vezes não dispunha de material adequado, que estava verde ou molhado, ou porque se sentisse cansada e não quisesse se dar ao trabalho.

De qualquer modo, não gostava de dormir ao ar livre sem a proteção de uma fogueira. A imensa planície alimentava grande quantidade de animais de pastagem que, por sua vez, eram presas dos caçadores de quatro patas. Com o fogo, ela mantinha a bicharada a distância. Quando estavam em viagem, era costume nos clãs um homem de alta posição social carregar uma brasa, de modo a dar partida no fogo nos lugares em que paravam, mas não havia lhe ocorrido trazer o material necessário à fabricação de fogo e, agora, lembrando-se, perguntava-se por que não pensara nisso antes. Só com um pau e uma tábua para servir de base era difícil fazer fogo, sobretudo se as acendalhas estivessem verdes ou úmidas. Quando encontrou um esqueleto de auroque, achou que os seus problemas estavam solucionados.

A lua havia passado por outro ciclo de fases e a primavera chuvosa começava a esquentar, já num clima de princípio de verão. Ela ainda continuava caminhando pela planície litorânea que fazia uma suave descida na direção do mar interno. Vasas levadas pelas enchentes da estação formavam freqüentemente vastos estuários, parcial ou completamente fechados por bancos de areia que os transformavam em lagos e lagunas salobras.

Ela havia acampado numa região seca. Ao retomar a caminhada na manhã seguinte, com o sol já alto no céu, deu com um lago. O aspecto era de água estagnada, insalubre, mas o seu odre estava quase vazio. Resolveu assim mesmo tentar. Mergulhou a mão, colheu uma amostra, mas logo cuspiu. A água estava podre e teve de tomar um gole de seu odre para lavar a boca.

“Imagino que aquele auroque tenha bebido dessa água”, disse para si mesma, olhando para a carcaça de ossos esbranquiçados e a caveira com chifres compridos e afunilados. Deixou então, para trás, a lagoa em meio à lúgubre paisagem, mas o pensamento continuou voltado para a ossada branca. A caveira com os seus chifres compridos não lhe saía da mente, aqueles cornos curvos e ocos...

Quase de tarde, fez uma parada perto de um riacho, resolvida a acender uma fogueira para assar o coelho que caçara. Sentada sob o sol quente e girando um pauzinho nas palmas das mãos contra uma tábua, pensava em Grod, desejando que ele surgisse ali com o seu carvão aceso.

De repente, ficou de pé, meteu o pauzinho, a tábua e o coelho no cesto e voltou correndo pelo caminho. Chegando ao lago, olhou para o crânio do auroque. Grod sempre levava um carvão aceso acondicionado em musgos e liquens dentro de um chifre de auroque. Se tivesse um, ela também poderia carregar fogo para onde quer que fosse.

Dando puxões no chifre para arrancá-lo, sentia um certo peso na consciência. Às mulheres dos clãs não transportavam fogo. Isso não era permitido. “Mas, se não for eu, quem irá carregar fogo para mim?”, pensou, dando um safanão forte e desprendendo o chifre. Em seguida, foi embora depressa, como se o simples pensamento da coisa proibida fosse capaz de fazer surgir uma multidão de olhares reprovadores.

Houve épocas em que a sobrevivência dependera da adaptação a um modo de vida estranho à sua natureza. Agora, dependia de sua capacidade de superar os condicionamentos da infância e pensar por si mesma. O chifre de auroque foi apenas o primeiro passo na busca da sobrevivência.

No entanto, transportar fogo dava mais trabalho do que imaginara. Pela manhã, procurou por musgos secos para enrolar o carvão. Mas essa coisa, que não tinha a menor dificuldade em encontrar nos terrenos bem reflorestados da caverna, não existia nos campos abertos e secos. Por fim, resolveu que tinha de contentar-se com capim. Para sua tristeza, o carvão estava apagado quando foi novamente sentar o seu acampamento. Sabia que era possível reavivar uma brasa. Estava acostumada a abafar as fogueiras para que estas durassem a noite inteira. O conhecimento, ela o possuía, mas foram precisos muitos carvões apagado se muitas tentativas, até que descobrisse o jeito de preservar o fogo e carregá-lo de um acampamento para outro. O chifre de auroque também ia amarrado na correia em sua cintura.

Ayla sempre acabava descobrindo meios de cruzar a pé os riachos que lhe atravessavam pelo caminho. No entanto, o rio com que agora se defrontava era extremamente largo. Era preciso encontrar alguma outra solução. Há dias o vinha seguindo na contracorrente. O curso, porém, dobrava, indo de volta para o nordeste e jamais a largura entre as margens diminuía.

Embora acreditasse estar fora dos territórios freqüentados pelos clã não desejava pegar o rumo do leste. Isso significava voltar para eles. Não podia regressar, não queria ir naquela direção e tampouco podia ficar acampa da ao lado do rio, em pleno campo aberto. Tinha de atravessar, não lhe restava nenhuma outra alternativa.

Achava que poderia conseguir - sempre fora boa nadadora - mas não com uma cesta sobre a cabeça, onde carregava todos os seus objetos neste mundo. Os seus preciosos bens, esse era o problema.

Havia armado uma pequena fogueira e se sentou ao lado, abrigada por uma árvore caída, cujos galhos desfolhados se banhavam na água. O sol da tarde cintilava no fluxo rápido e constante das correntezas. De vez em quando, passavam boiando alguns detritos. A cena fazia-a lembrar do riacho que corria perto da caverna e que ia desembocar no mar interno, onde faziam as suas pescarias de esturjões e salmões. Sentia prazer em nadar naquelas ocasiões, apesar de Iza ficar preocupada. Ela não se lembrava de como havia aprendido a nadar, parecia-lhe que era uma coisa que sempre soubera fazer.

“Não podia entender por que ninguém, a não ser eu, gostava de na dar”, disse consigo. “As pessoas me achavam esquisita por isso... bom, até o dia em que Ona quase morreu afogada.”

Lembrava-se de que todo mundo, então, tinha ficado agradecido a ela por ter salvo a vida da garota. Brun, inclusive, chegou a ajudá-la a sair da água. Naquele dia, teve a grata sensação de se ver acolhida como se de fato fizesse parte do clã. Então, não importaram pernas longas e retas, corpo es guio, cabelos louros, olhos azuis e testa alta. Depois disso, algumas pessoas no clã resolveram aprender a nadar, mas não conseguiam boiar direito e ficavam com muito medo quando perdiam o pé dentro da água.

“Será que Durc conseguiria aprender? Ele nunca foi tão pesado como os bebês dos clãs. Também nunca será tão musculoso quanto a maioria dos homens. Acho que conseguirá.

“Mas, quem iria ensinar? Eu não estou lá e Uba não sabe. Ela cuidará de Durc e gosta tanto dele quanto eu, só que não sabe nadar. Brun também não. Caçar sim, isso ele pode ensinar. E também poderá protegê-lo. Não irá deixar Broud fazer mal ao meu filho. Ele prometeu... mesmo naquele mo mento em que era obrigado a não me enxergar. Brun foi um bom chefe, mui to diferente de Broud...

“Será que Durc começou a se formar dentro de mim por causa de Broud?” Ela estremeceu com a lembrança de Broud forçando-a. “Iza havia dito que os homens só faziam aquilo com mulheres de que gostavam, mas Broud fez comigo porque ele sabia o quanto eu detestava a coisa. Todo mundo diz que são os espíritos dos totens que geram os bebês. Mas nenhum homem tinha um totem com força bastante para derrotar o meu Leão da Caverna. Eu só fiquei grávida depois que Broud começou a me forçar e todos ficaram muito admirados. Ninguém podia imaginar que eu fosse ter um bebê...

“Gostaria de poder ver Durc crescido. Ele já é bem alto para a sua ida de. Nisso, me puxou. Irá ser o homem mais alto do clã. Tenho certeza de que.

- “Não! Não estou certa de nada. Só sei que jamais voltarei a ver Durc.

“Pare de pensar nele”, ordenou-se, enxugando uma lágrima. Em segui da, se levantou e caminhou até abeirada da água. “De nada adianta pensar nele e não será isso que me vai ajudar a atravessar o rio.”

Achava-se tão distraída com os seus pensamentos que nem notara uma tora parecida a uma forquilha boiando perto da margem. Com os olhos fixos e indiferentes olhava os galhos da árvore caída aprisionarem no emaranhado de suas ramas o tronco que por longos momentos ficou dando encontrões e lutando para desvencilhar-se. Quando por fim teve a atenção despertada, as possibilidades de uma tora como aquela surgiram-lhe diante dos olhos.

Ela foi até o banco de areia e arrastou a tora para a margem. Era a par te de cima do tronco de uma árvore de porte avantajado que devia ter sido recentemente partido pela enchente do rio, em algum ponto perto da cabeceira. A madeira ainda não se achava muito encharcada.Com uma machadinha que guardava numa dobra de sua roupa, ela podou o galho maior da forquilha, de modo a igualá-lo com o outro, e depois limpou-os das ramas menores,deixando dois tocos relativamente compridos.

Após dar uma olhada rápida a sua volta, se dirigiu a um grupo de vidoeiros que tinham os seus galhos revestidos de cipós. Com um puxão forte, conseguiu desprender uma corda comprida e resistente. Enquanto voltava foi arrancando as folhas. Estendeu no chão o pano de couro que carregava na cesta. Já era tempo de fazer o inventário de seus pertences e dar uma nova arrumação na cesta.

Por baixo de tudo, botou as perneiras e as luvas, junto com a roupa forrada de pele, já que agora usava o traje de verão. Até a chegada do inverno não iria precisar dessas coisas. Por um momento, ficou parada. Onde será que ela estaria no inverno? perguntou-se. Bom, não iria preocupar-se com isso agora. Quando pegou a manta de couro macio que usava para firmar Durc em seus quadris, ficou novamente parada por alguns instantes. Ela não precisava da manta. Não era uma peça necessária à sua sobrevivência. Só a trouxe porque era uma coisa que havia estado em íntimo contato com ele. Ela encostou o couro no rosto, depois dobrou-o com cuidado, tornando a guardá-lo na cesta. Por cima, botou as tiras de couro absorvente que trouxera para usar durante as menstruações. Em seguida, guardou o par extra de calçados. Estava andando descalça, mas quando chovia ou fazia frio, punha um outro, já velho e bastante gasto. Fora uma boa coisa ter trazido dois pares.

O próximo passo foi fazer o levantamento da comida de que dispunha. Ainda havia um pote com açúcar de ácer. Ela abriu e botou um torrão na boca. Será que algum dia ainda comeria açúcar quando este tivesse acabado? Era o que se perguntava.

Ainda dispunha de uma certa quantidade de bolos de viagem, daqueles que os homens levavam em suas caçadas e feitos de farinha de carne seca, misturada com gordura derretida e frutas secas. A lembrança de um bom toucinho gordo botou-lhe a boca cheia de água. Os animais que matava tinham poucas partes gordas. Se não fossem os legumes e verduras que colhia, acabaria aos poucos morrendo de fome com um regime quase exclusivamente à base de proteínas. Gordura e carboidratos são de certa forma necessários.

Meteu os bolos de viagem na cesta, resistindo à tentação de comer um. Ficariam para ocasiões mais prementes. Depois guardou algumas tiras de carne seca - duras como couro, mas nutritivas - umas tantas maçãs, um punhado de avelãs, algumas sacolas com cereais provindos das planícies perto da caverna, e atirou fora uma raiz podre. Por cima da comida, botou uma cuia e uma bacia, o capuz de carcaju e os calçados velhos.

Desatou da correia de sua cintura a sacola de remédios e esfregou-a, limpando o pêlo lustroso e impermeável do couro de lontra, sentindo sob os dedos os ossos do rabo e dos pés. O cordão que fechava a sacola era enfia do ao redor da abertura do pescoço, e a cabeça do bicho, singularmente chata, fora deixada presa atrás do pescoço, como uma aba que servia de tampa. A sacola tinha sido feita por Iza, que lhe deu quando ela se tornou a curandeira do clã. Era um legado de mãe para filha.

Pela primeira vez, então, depois de muitos anos, Ayla recordou-se de outra sacola de medicamentos, também feita por Iza, a que Creb queimou quando ela recebeu a sua primeira maldição. Brun fora, naquela ocasião, obrigado a amaldiçoá-la. As mulheres são proibidas de pegar em armas e ela, já há tempos, vinha atirando com uma funda. Brun, no entanto, havia permitido a sua volta. Era uma chance que ele lhe dava no caso de que ela sobrevivesse. “Talvez ele tenha me dado muito mais chance do que imagina”, pensou. “Não sei se ainda estaria viva se não tivesse aprendido o quanto uma maldição de morte faz a pessoa ter vontade de realmente viver. Se não fosse por Durc, acho que da primeira vez foi mais duro. Quando vi Creb queimando tudo que era meu, a minha vontade era de morrer.”

Até então, ela ainda não tinha podido pensar em Creb. A dor era muito recente e o sofrimento ainda bastante vivo. Havia amado igualmente os dois: o velho feiticeiro e Iza. Creb e Brun eram ambos germanos de Iza. Como tivera um braço amputado e possuísse só um olho, Creb jamais caçara em sua vida, mas assim mesmo foi o homem mais reverenciado de todos os clãs. Ele era o Mogur, temido e respeitado - com o seu rosto marcado por cicatrizes e a falta do olho - capaz de inspirar medo ao mais corajoso dos caçadores. Ayla, entretanto, conhecia o lado gentil de sua natureza.

Creb a tinha protegido, olhado por ela e a amado como a filha da companheira que nunca teve. No caso de Iza, ela tivera tempo para acostumar-se com a idéia de sua morte, acontecida há três anos atrás, e quanto a Durc, embora sofresse com a separação, sabia que ele estava vivo. Mas por Creb ainda não chorara. Subitamente, toda a dor que vinha guardando no peito, desde o terremoto que o matara, explodiu e gritou alto o seu nome.

- Creb! Oh, Creb, por que você foi entrar na caverna? Por que teve de morrer?

Era um soluçar forte que abafava com a sacola de pele de lontra. Então, vindo lá do fundo de seu ser, subiu-lhe à garganta uma lamúria aguda e sentida que a ninava, embalando-lhe a angústia, a dor e o desespero. Mas, ali, não havia uma pessoa querida para se juntar ao seu pranto e solidarizar-se com a sua desgraça. Sofria sozinha e sofria por estar só.

Quando, por fim, cessaram os lamentos, se sentia esgotada, mas aliviada. Passado algum tempo, foi até o rio e lavou o rosto. Em seguida, meteu a sacola de medicamentos na cesta. Não precisava vistoriar o seu conteúdo, pois sabia exatamente o que havia dentro.

Passou a mão na madeira de cavar, mas subitamente a atirou longe. No lugar da dor surgiu a raiva que fortalecia o seu espírito de determinação. “Não! Broud não me fará morrer.”

Respirou fundo e se obrigou a continuar a arrumar a cesta. Jogou no seu interior o chifre de auroque e os materiais que usava como acendalhas. A medida seguinte foi esvaziar as dobras da sua roupa, retirando uma série de ferramentas e pedras que lá guardava. De uma das dobras, sacou uma pedra redonda que atirou ao alto e tomou a pegar. Qualquer pedra de certo tamanho servia para ser lançada com funda, mas a pontaria se fazia com maior precisão quando as pedras eram redondas e lisas. Guardou as poucas que tinha.

O próximo objeto foi a funda, uma tira de couro de veado, com um bojo no meio, onde se firmava a pedra e com as extremidades em ponta que, no caso, estavam já retorcidas pelo uso. Guardou-a, pois isso estava fora de qual quer cogitação. Por fim, desatou um comprido cordão de couro que se enredava pela sua vestimenta de pele de camurça, de modo a produzir as muitas dobras onde carregava coisas. A roupa se desmontou e ela ficou nua, apenas com um saquinho pendurando-se num cordão passado ao redor do pescoço. Era o seu amuleto. Com um ligeiro calafrio, ela o retirou pela cabeça. Sentia-se mais nua sem o amuleto do que sem a roupa. Os pequeninos objetos duros que levava dentro do saquinho lhe davam confiança.

Bom, ali se achava a soma total de seus bens. Tudo quanto precisava para sobreviver: os seus utensílios e mais conhecimento, capacidade, experiência, força de vontade, inteligência e coragem.

Rapidamente, enrolou na roupa o amuleto e as ferramentas, colocando tudo dentro da cesta,

que embrulhou na pele de urso e amarrou com o cordão comprido tirado da vestimenta. Para completar, envolveu a trouxa com o couro de auroque da barraca, a qual, com o cipó, atou à tora em forma de for quilha.

Por alguns momentos, ficou olhando para o rio, pensando no seu totem, depois chutou areia para cima da fogueira e meteu a tora, com o seu precioso patrimônio no rio, a jusante da galhada da árvore. Alojando-se na extremidade da forquilha, ela agarrou os dois tocos da frente e se lançou com a sua jangada às águas, ainda geladas do degelo. Ofegando, quase sem poder respirar, o seu corpo foi ficando insensível, à medida que se acostumava com a temperatura. A correnteza apoderou-se da tora, tentando cumprir a sua missão de levá-la ao mar. As ondas a sacudiam, mas os dois galhos da forquilha não a deixavam virar. Batendo vigorosamente com os pés, Ayla valia-se de todas as suas forças na tentativa de varar as correntezas e dirigir-se para a margem oposta.

O avanço era de uma lentidão angustiante. Cada vez que ela olhava para o outro lado do rio, estava mais distante do que supunha. A sua velocidade era muito maior no sentido do rio abaixo do que no da margem pretendida. O rio a carregava para um ponto muito distante daquele que pensava iria aportar. Sentia-se cansada e o frio abaixava perigosamente a temperatura de seu corpo. Ela tremia. Os músculos doíam. Era como se fosse ficar eternamente batendo pernas com pedras atadas aos seus pés.

Exausta, ela acabou se rendendo à força inexorável da correnteza. O rio passou, então a ter o comando das ações, arrastando-a de volta na direção da corrente, com ela desesperada, agarrando-se aos dois tocos, sem conseguir manter o controle de seu arremedo de jangada.

À frente, o curso do rio mudava. Deixava de seguir na direção sul para fazer uma curva abrupta e pegar o rumo oeste, contornando uma ponta de terra. Ela já havia percorrido três quartos do percurso, através da torrente vertiginosa, até que se deixou vencer pelo cansaço. Mas, então, avistando a praia rochosa do outro lado, numa atitude de firme determinação, voltou outra vez a ter o controle da situação.

Lutava para continuar batendo as pernas e chegar em terra, antes que o curso fizesse a volta. Ia com os olhos fechados, inteiramente concentrada nas batidas, até que, de repente, foi despertada por um solavanco e sentiu que o tronco raspava contra o chão, parando.

Ela não conseguia mexer-se. Meio submersa, deixou-se ficar deitada, com as mãos agarradas aos dois tocos. Nisso, uma violenta onda veio desprender a tora das pedras, enchendo-a de pânico. Foi, então, que se obrigou a ficar de joelhos e a empurrar o tronco, até conseguir encalhá-lo na praia. Feito isso, voltou ao rio.

Era-lhe impossível permanecer dentro da água por muito tempo. Tremendo convulsivamente, engatinhou até o banco de areia para tentar desatar os nós do cipó que, depois de muita peleja, acabaram soltando-se. Com as mãos tremendo, arrastou a trouxa na direção da praia. Os nós da correia ainda mostravam-se mais difíceis de serem desatados.

A providência veio em seu socorro. A tira de couro desgastara-se num determinado ponto, permitindo que ela a arrebentasse e pusesse a cesta de lado. Apanhou então a pele de urso, enrolando-a no corpo. Quando final mente parou de tremer, já estava dormindo.

Após a perigosa travessia, ela tomou a direção norte, desviando-se ligeiramente para o ocidente. Os dias de verão iam esquentando, enquanto ela batia os terrenos das estepes à procura de algum indício de vida humana. As flores que haviam abrilhantado a curta primavera murcharam e o pasto, agora, chegava à altura da cintura.

A sua alimentação se viu acrescida de alfafa, trevo e o amendoim, ligeiramente adocicado e rico em amido, que encontrava seguindo o rastro de suas ramas espalhadas pela superfície. Os astrágalos, além das raízes, a presenteavam com as vagens cheias de suas sementes verdes e ovaladas, e ela não tinha a menor dificuldade em distinguir as variedades comestíveis das outras venenosas. O tempo do florescimento dos hemerocales passou, mas as suas raízes continuavam tenras e suculentas. Algumas groselhas baixas amadurecidas precocemente, começavam a mudar de cor e havia sempre verduras frescas; mostardas, urtigas e diferentes variedades de quenopódios.

Não faltavam alvos para a sua funda. A planície estava repleta de castores, esquilos, grandes gerbos, lebres marrons - no inverno brancas - e ocasionalmente algum hamster gigante, um animal onívoro, caçador de ratos. Os galináceos de vôo rasteiro e as perdizes constituíam-se num banquete especial. Ayla, entretanto, jamais conseguia comer uma ptármiga sem se lembrar de que essa ave gorducha, de plumagem nos pés, era a favorita de Creb.

Mas esses eram animais pequenos. Havia outros que também se regalavam com a magnificência da planície no verão. Ela via extensas manadas de cervos: gamos vermelhos, renas e os gigantescos veados de enormes galhadas; bandos compactos de cavalos e de onagros - um e outro muito parecidos; imensos bisões e, de vez em quando, uma família inteira de antílopes-saigas cruzava-lhe o caminho. O gado selvagem de couro marrom-avermelhado - com touros atingindo dois metros de altura - vinha acompanhado dos bezerros, nascidos na primavera e mamando nos volumosos úberes das vacas. A boca de Ayla enchia-se de água pensando no gosto da carne tenra dos bichinhos ainda alimentados a leite. Mas a sua funda não era arma para matar auroques. Um bando de mamutes lanosos passou na sua habitual romaria ao norte e uma falange de bois almiscarados, com as crias na retaguarda, enfrentava galhardamente uma alcatéia de lobos. Muito cautelosamente, ela evitou uma família mal-encarada de rinocerontes lanosos. “O totem de Broud”, pensou, e muito apropriadamente.

O terreno, à medida que ela caminhava cada vez mais para o norte, começou a apresentar mudanças. Passou a ficar mais seco e estéril. Ela havia atingido os bem definidos limites no nordeste, das úmidas e nevoentas estepes continentais. Para além, seguida sempre dos íngremes paredões das colossais geleiras, ficava a árida planície de loesse, uma paisagem que existiu ao tempo das grandes massas de gelo sobre a Terra, durante o período glaciário.

As geleiras, vastos lençóis de gelo que atravessavam o continente de lado a lado, se difundiam pelo hemisfério norte. Quase um quarto da superfície da Terra achava-se soterrado sob o peso incomensurável e esmagador do gelo. A água, então fechada em prisões, fazia com que se abaixasse o nível nos oceanos, ampliando as costas e modificando a forma da Terra. Nenhum rincão do globo estava isento da influência das geleiras. As chuvas inundavam as regiões equatoriais e os desertos se encolhiam, mas era na orla do gelo que os efeitos se faziam mais sentir.

Toda essa imensa vastidão gelada necessariamente tinha de esfriar o ar, tornando a atmosfera úmida que se condensava e caía na forma de neve. Entretanto, mais para perto do centro, a alta pressão se estabilizava, criando uma temperatura extremamente fria e seca que empurrava a nevasca para os bordos, onde se expandiam as monumentais geleiras. O gelo se fazia praticamente unânime em toda a sua extensão, um verdadeiro lençol com espessura que chegava a atingir bem mais de um quilômetro e meio.

Com a neve caindo sobre o gelo e alimentando as geleiras, a terra, imediatamente ao sul delas, era seca e gélida. A pressão alta e constante sobre o centro causava a queda atmosférica, canalizando o ar frio e seco para pressões mais baixas. O vento soprando do norte jamais parava nas estepes. Apenas a sua intensidade variava. No seu caminho, ele levantava o pó das rochas pulverizadas nos limites variáveis das geleiras trituradoras. As partículas vindas no ar iam sendo peneiradas até chegar a uma textura pouquinha coisa mais grossa do que a poeira da argila. Isso era o loesse que se depositava por várias centenas de quilômetros e adquiria uma profundidade de muitos metros, até que se transformava no próprio solo.

No inverno, as ventanias ululantes açoitavam espalhando a pouca neve que caía nessas paragens frias e desoladas. A Terra, contudo, prosseguia girando em torno de seu eixo inclinado e as estações continuavam se revezando. Bastava uma média anual de temperatura, apenas alguns graus mais baixos, para desencadear a formação de uma geleira. Poucos dias de calor de nada adiantavam, se não fossem suficientes para alterar a média.

Na primavera, a crosta da geleira esquentava e a parca neve que caía se derretia, filtrando-se livremente pelas estepes. A água amaciava suficientemente o solo, acima da camada de permafrost, para que nele brotassem gramíneas e plantas de raízes pouco profundas. O pasto crescia rápido, como se no seu coração as sementes soubessem que a vida seria curta. Quando o vergo chegasse pela metade, o feno já estaria alto e seco, era uma pradaria sem fim, com uns poucos bolsões de tundra e floresta boreal, espalhados nas cercanias dos oceanos.

Nas regiões próximas à orla do gelo, onde a cobertura de neve era pequena, havia forragem no ano inteiro para milhares de animais de pastagem que se haviam adaptado às temperaturas glaciais e também para os carnívoros que se adaptam a qualquer clima, contanto que não lhes faltem presas. Assim é que se podia ver um mamute pastando ao pé de um parede de gelo, alçando o seu brilho azulado a quase dois mil metros de altura.

Os rios e córregos alimentados pelo degelo cortavam a espessa camada de loesse ou de rocha sedimentária, resultante dos cristais da plataforma granítica no do continente. Profundas ravinas e desfiladeiros cortados por rios eram comuns naqueles descampados. Os rios supriam de umidade e os desfiladeiros eram uma proteção contra os ventos. Até mesmo na planície de loesse existiam vales verdes.

A estação esquentava, e, à medida que os dias se sucediam, Ayla cada vez mais ia ficando cansada de sua vida itinerante, da monotonia da planície, do sol impiedoso e do vento constante. A sua pele estava grossa, rachada e descascando. Os lábios gretados, os olhos ardendo e a garganta sempre em poeirada. Vez por outra, ela encontrava algum vale, atravessado por um rio, mais verde e arborizado do que as estepes, nenhum porém a prendendo por muito tempo. Todos estavam vazios de vida humana.

Embora o céu quase sempre estivesse claro, a busca infrutífera a deixava temerosa e preocupada. A terra era governada pelo inverno. Mesmo nos dias mais quentes de verão, a lembrança do frio glacial estava presente no espírito. Era preciso que a comida fosse armazenada e um abrigo encontrado para que pudesse sobreviver à longa e cruel estação Desde o princípio da primavera que vinha caminhando, e começava a imaginar se não estaria fadada a ficar eternamente rodando pelas estepes, ou então quem sabe, acabar morrendo apesar de todos os esforços.

No fim de um dia exatamente igual ao de todos os outros, ela acampara numa região sem água. Havia matado um animal, mas o carvão estava apagado e a lenha era cada vez mais rara. Sem se dar ao trabalho de acender uma fogueira, deu algumas dentadas na carne crua. Estava sem apetite. Jogou fora o resto da marmota, apesar da caça também rarear. Talvez não tivesse reparado ainda nesse fato. A coleta também se mostrava difícil. O solo estava duro, coberto por uma vegetação velha e emaranhada. O vento era uma constante.

Dormiu mal, assediada por pesadelos, e acordou inquieta. Não tinha nada para comer. Até mesmo a marmota que atirara fora havia desaparecido. Tomou um gole de água que tinha gosto insípido, parecendo choca. Arrumou a cesta e se pôs a caminho, rumando para o norte.

Por volta do meio do dia, encontrou o leito de um rio com algumas poças d’água. O seu sabor era acre, mas encheu assim mesmo o odre. Desenterrou algumas raízes de taboa, viscosas e molengas, e foi mastigando-as, enquanto caminhava com passos cansados. Não tinha vontade de prosseguir, mas não sabia o que mais poderia fazer. Sem ânimo, inteiramente apática, não se dava muito conta da direção por que estava indo. Só reparou num bando de leões esquentando-se ao sol, quando ouviu um rugido ameaçador.

O medo se apossou dela, despertando a sua consciência. Retrocedeu no caminho e tomou o rumo do leste, evitando o território dos leões. Já havia caminhado o suficiente na direção norte. Era o espírito do Leão da Caverna que a protegia e não o animal na sua forma concreta. Só pelo fato dele ser o seu totem, não significava isso que ela estivesse a salvo de seus ataques.

Na verdade, fora justamente por causa do ataque de um leão que Creb descobriu o seu totem. Ela ainda conservava na coxa esquerda a cicatriz na forma de quatro riscas paralelas e, volta e meia, tinha pesadelos com uma gigantesca garra de leão tentando infiltrar-se por uma fenda, onde ela se havia escondido, quando era uma menina de cinco anos. Lembrava-se de ter sonhado com aquela pata na noite anterior. Creb lhe dissera que ela fora posta à prova para que soubesse se era digna ou não de seu totem e que fora marcada pelo animal para provar que ele a escolhera. Instintivamente, ela levou a mão à perna, sentindo o sinal na pele. “Uma coisa que eu gostaria de saber é por que o Leão da Caverna me escolheu”, pensou.

A luz do sol ofuscava-lhe a vista, enquanto vagarosamente subia por um aclive, à procura de um lugar onde pudesse instalar-se. Outra vez, terras secas. Em todo caso, sentia-se satisfeita por ter o odre cheio, Mas, dentro de pouco tempo, teria de encontrar água. Estava cansada e com fome, e também aborrecida por causa de seu descuido. Não deveria ter chegado tão perto dos leões da caverna.

Seria um aviso? Um modo de dizer que é apenas uma questão de tempo? Que no fim acabaria morrendo? Com que direito pensou que poderia escapar de uma maldição de morte?

A luz no horizonte era tão brilhante que ela por pouco não viu a descida repentina que fazia o platô onde se achava. De pé sobre a beirada e abrigando os olhos com a mão, viu embaixo uma ravina. Era um pequeno rio de águas luminosas e flanqueado por árvores e plantas de porte médio. Passada uma garganta de paredões rochosos, estendia-se um vale verde, fresco e bem abrigado. Lá embaixo, a uma certa distância, no meio do campo, os últimos raios de sol incidiam sobre uma manada de cavalos pacificamente pastando.

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