O Vale dos Cavalos

Jean M. Auel · Capítulo 19 de 31

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O Vale dos Cavalos

Capítulo 17

Jondalar saiu do vão sob a pedreira e olhou o terraço coberto de neve que terminava abruptamente num precipício. Os altos paredões laterais emolduravam os contornos brancos e arredondados das colinas do outro lado do rio. Dano, que já esperava por ele, acenou-lhe. O rapaz se achava ao lado do toco de uma árvore, próximo à pedreira, a uma certa distância do ponto onde começava o campo, no lugar em que Jondalar havia escolhido para fazer as suas ferramentas. Era em pleno céu aberto, com boa luz e longe do caminho das pessoas que, assim, não corriam o risco de pisar em alguma lasca de pederneira. Ele se encaminhou na direção de Dano.

- Jondalar, espere um momento.

- Thonolan?! - disse Jondalar sorrindo e esperando o seu irmão alcançá-lo. Eles se puseram a caminhar juntos pela neve endurecida. - Eu prometi a Dano que esta manhã iria lhe ensinar algumas técnicas especiais. Como está Shamio?

- Agora está bem. Começa a sarar de sua gripe. Mas ela nos deixou preocupados. Jetamio nem conseguia dormir por causa da tosse dela. Temos pensado em alargar o espaço de nossa casa. Queremos ver se no próximo inverno já estamos com tudo pronto.

Jondalar sondou Thonolan com os olhos. Será que as responsabilidades com uma companheira e com uma família que estava crescendo haviam muda do o seu jeito folgazão? Mas a sua expressão de felicidade era uma constante. Subitamente Thonolan enrubesceu e se abriu num grande sorriso de satisfação.

- Meu irmão, eu tenho uma coisa para lhe contar. Você reparou como Jetamio está com as formas mais arredondadas? Eu pensava que fosse só um jeito de quem está com saúde e bem instalado na vida. Mas não. Jetamio foi outra vez abençoada.

- Isso é ótimo, Thonolan. Eu bem sei o quanto ela deseja ter um filho.

- Ela já sabia há muito tempo, mas não me quis dizer. Não queria que eu ficasse preocupado. Desta vez parece que ela vai conservar a criança. O shamud falou para não darmos a coisa como certa, mas se tudo correr bem, o bebê nascerá na primavera. Jetamio disse que tem certeza de que é uma criança de meu espírito.

- E ela deve saber. Mas quem diria, o boa-vida do meu irmão com casa e companheira esperando filho!

O riso de Thonolan se alargou ainda mais. A felicidade nele era tão visível que Jondalar não pôde também deixar de dar um sorriso. “Está tão satisfeito que parece até que é ele quem vai ter a criança”, pensou Jondalar.

- Ali, à esquerda - falou Dolando em voz baixa. Ele apontava para um bloco de pedra erguendo-se da crista de um penhasco que lhes tomava todo o campo de visão. Jondalar olhou, mas estava emocionado demais para focalizar os olhos em qualquer coisa que não fosse de extrema grandiosidade. Atrás deles estava a floresta pela qual haviam passado. Na parte mais baixa, ela era formada por carvalhos que a certa altura começavam ceder terreno às faias. No alto, dominavam os pinheiros e abetos, árvores que eram mais familiares a Jondalar. Ele já havia visto de longe a crosta da terra elevar-se em picos até mais grandiosos, mas ao deixarem para trás as árvores, a inesperada imponência do espetáculo o fazia prender a respiração. Apesar da vista já lhe ser bastante conhecida, ela ainda o emocionava como se a estivesse vendo pela primeira vez.

A proximidade dos cumes montanhosos o assombrava. Havia um senti do de imediato, como se lhe bastasse estender o braço para tocar no tempo. Em reverente silêncio, o presente falava da sublevação das forças naturais da terra prenhe, parindo a rocha nua. Sem a floresta, o arcabouço da Grande Mãe ficava exposto, nu, naquela vertiginosa paisagem. Para mais além, o céu, de um azul forte e enorme, era um pano de fundo para os ofuscantes reflexos do sol que fragmentavam os cristais de gelo colados às rachaduras e brechas da pradaria alpina, batida pelos ventos.

-Estou vendo! - falou Thonolan. - Um pouco mais para a direita, Jondalar. Viu? Naquela ponta do penhasco...

Jondalar mexia com os olhos até que por fim enxergou a pequenina e graciosa camurça equilibrando-se na beirada do precipício. O animal ainda conservava um pouco de sua pele de inverno, mas em alguns pontos ela já começava a ficar com os tons acinzentados de verão, que a fazia confundir-se com a rocha. Dois pequenos chifres saíam retos de sua testa e se curvavam nas pontas para trás. Era como um antílope que lembrasse um cabrito.

- Estou vendo agora - disse Jondalar. - Lá está ele.

- Talvez não seja ele. As fêmeas também têm chifres - corrigiu Dolando.

- Lembra muito um íbice, não, Thonolan? Só que menores... e os chifres também são. Mas, assim, de longe.

- Como fazem os Zelandonii para caçar íbices, Jondalar? - perguntou uma moça. Nos seus olhos havia um brilho de interesse e curiosidade e também de amor.

Ela era apenas uns poucos anos mais velha do que Darvo e, no momento, estava vivendo uma paixão juvenil por Jondalar. Nascera shamudoi, mas fora criada no rio pelo fato do segundo companheiro de sua mãe ser ramudoi. Agora a mãe terminara a sua relação de forma intempestuosa, trazendo-a de volta aos shamudoi. Ela não estava tão acostumada às escarpadas montanhas como a maioria das meninas shamudoi e só recentemente mostrara vontade de caçar camurças, depois de descobrir a admiração de Jondalar pelas mulheres que caçavam. Para sua surpresa, se viu extremamente interessada.

- Na verdade, não sei muito, Rakario - respondeu Jondalar, dando-lhe um sorriso gentil. Ele já percebera a paixão da garota. Nada podia fazer senão responder delicadamente, embora não desejasse encorajá-la. - Havia íbices nas montanhas que ficavam ao sul de onde morávamos e também em outras mais a leste, mas nós não caçávamos em terrenos altos. Ficavam muito distantes. De vez em quando, nas reuniões de verão, formava-se um grupo para sair numa expedição de caça, mas eu ia junto apenas para me divertir, já me dando por satisfeito em seguir as instruções dos caçadores mais experimentados. Estou ainda aprendendo, Rakario. Pergunte a Dolando que é exímio na caça de animais monteses.

A camurça saltou para um lugar mais elevado, pondo-se calmamente a olhar a vista de seu novo posto de observação.

- Como se pode pegar um animal que dá um salto deste? - Rakario suspirou em muda admiração, vendo a graça natural e a segurança com que o animalzinho firmava os seus pés. - E se segurar num lugar tão pequeno?

- Quando pegarmos um, Rakario, dê uma olhada nos pés - falou Dolando. - Somente o contorno deles é duro. A parte de dentro é flexível como a palma de sua mão. Por isso é que não escorregam ou se desequilibram. A parte macia, do lado de dentro, agarra, e a do lado de fora firma. O importante, quando se caça camurças, é lembrar que elas olham sempre para baixo. Estão sempre vigiando o lugar por onde caminham e sabem o que há sob os seus pés. Os olhos são muito afastados um do outro e situados mais para trás na cabeça, desse modo enxergando o que se passa dos lados, mas não o que vem do alto. Essa é a vantagem que a gente leva. Quando se consegue aproximar por cima delas, é possível agarrá-las por trás. Mas para isto é preciso mui ta cautela e paciência.

- E se elas se mexerem antes de você conseguir chegar perto? -perguntou Rakario.

- Olhe para cima. Está vendo o tom de verde daquela relva? Aquilo é um verdadeiro banquete depois das forragens de inverno. A camurça que está lá é a vigia. As outras, machos, fêmeas e filhotes, estão metidas entre as pedras e folhagens. Se a comida estiver boa, elas não se mexem muito, pelo menos enquanto não sentirem nenhum perigo por perto.

- Por que estamos aqui parados conversando? Vamos logo - falou Darvo.

Ele estava irritado com Rakario, que o tempo todo se mantinha pendurada em Jondalar e também impaciente, querendo que começassem logo a caçar. Já acompanhara alguns caçadores de outras vezes, mas só para pegar o rasto, observar e aprender. Jondalar sempre o levava quando saía com os shamudoi para caçar. Desta vez, no entanto, Darvo havia recebido licença para tentar pegar um animal. Se o conseguisse, seria o primeiro a matá-lo e, por isso, merecedor de atenções especiais. Mas ele não estava obrigado a fazê-lo, poderia ser naquele ou em outro dia qualquer. Haveria mais ocasiões. Pegar uma camurça, um animal ágil e extremamente adaptado àquele meio, era empresa das mais difíceis. Qualquer um que conseguisse aproximar-se do animal deveria tentar. Se fossem assustadas e se pusessem a correr, seria impossível seguir as camurças num terreno cheio de buracos e esconderijos.

Dolando começou a subir por uma formação rochosa, cuja estratificação se fazia obliquamente em linhas paralelas. As camadas mais moles de depósitos sedimentários da parte externa se haviam desgastado, deixando muito convenientemente alguns degraus para que eles firmassem os pés. A subida que os levaria a se pôr à retaguarda das camurças seria cansativa, mas não perigosa. Não era preciso ter grandes habilidades de alpinista.

O bando de caçadores seguia atrás de seu chefe. Jondalar esperava para se pôr ao fim da fila. Quase todos já haviam começado a subida, quando ele ouviu a voz de Serenio chamando-o. Surpreso, virou-se. Serenio não gostava de caçar. Raramente ultrapassava os limites do terreno onde ficavam as mora dias. Jondalar não podia imaginar o que a teria levado lá, mas, vendo-lhe a expressão do rosto, sentiu um calafrio passando pelo seu corpo. Ela viera cor rendo e teve de dar algum tempo até poder respirar e falar.

- Ainda bem... que consegui alcançá-los. Preciso encontrar Thonolan... Jetamio... trabalho de parto... - Ela conseguiu recompor-se, depois de alguns momentos.

Jondalar tampou os cantos da boca e gritou:

- Thonolan! Thonolan!

Uma das figuras que ia mais à frente na fila virou-se. Jondalar acenou-lhe.

O silencio que se seguiu entre os dois, enquanto esperavam, era embaraçoso. Ele queria perguntar se Jetamio estava bem, mas qualquer coisa o impedia.

- Quando começou o trabalho de parto? - perguntou por fim.

- Ontem à noite, ela estava sentindo dores nas costas, mas não falou nada com Thonolan. Ele estava querendo muito vir a essa caçada e ela tinha medo de que, se contasse, ele desistisse. Falou apenas que não tinha muita certeza se já eram as dores do parto. Tenho a impressão de que queria fazer para ele uma surpresa. Quando Thonolan chegasse, o bebê já teria nascido -explicava Serenio. - Jetamio não queria preocupá-lo e nem que ele ficasse nervoso enquanto ela estivesse no seu trabalho de parto.

“Isso é bem de Jetamio, não querer preocupar Thonolan e ele é louco por ela”, disse Jondalar para si mesmo. De repente, lhe ocorreu um pensa mento sombrio. “Mas se Jetamio queria fazer uma surpresa, por que Serenio teria vindo aqui procurar Thonolan?”

- Está acontecendo algum problema, não é?

Serenio abaixou a cabeça, fechou os olhos e respirou fundo antes de responder.

- O bebê estava em posição errada e ela era muito estreita para que ele passasse - O shamud acha que foi por causa da paralisia que ela teve há uns anos atrás. Ele me pediu para buscar Thonolari... e você também para ajudar o seu irmão nesse momento.

- Oh, não! Santa Doni, não!

- Não! Não pode ser! Por que isso? Por que ida a Mãe abençoá-la com um filho para depois levar os dois?

Thonolan, dando murros na palma da mão, andava feito um louco de uni lado para outro, na casa onde vivera com Jetamio. Jondalar se via inteiramente impotente, não tendo nada a oferecer, fora o consolo de sua presença. E ninguém podia fazer alguma coisa também. Thonolan, na sua terrível dor, expulsava todo mundo que se aproximasse dele.

- Jondalar, por que logo ela? Por que a Mãe teve de levá-la? Jetamio teve tão pouca coisa neste mundo e sofreu muito... Era pedir tanto assim? Ter um filho? Alguém que fosse de sua carne e sangue?

- Não sei, Thonolan. Nem mesmo um Zelandoni saberia responder suas perguntas.

- Mas por que isso? Por que tanto sofrimento? - Thonolan havia para do em frente ao irmão e falava suplicante. - Ela quase não me reconheceu quando eu cheguei. Jondalar, ela estava tão sentida. Eu via isto nos seus olhos. Por que tinha de morrer?

- Ninguém sabe por que a Mãe dá e tira a vida.

- A Mãe! Ora a Mãe! Ela pouco está se importando. Eu e Jetamio, nós dois a honrarmos, e de que adiantou? Nem por isso deixou de levá-la. Eu odeio a Mãe! - novamente ele voltou a andar de lá para cá.

- Jondalar... - era Roshario quem chamava, hesitando em entrar.

Jondalar saiu.

- O que é?

- O shamud abriu para tirar o bebê, depois que ela... - Roshario pestanejava, querendo conter as lágrimas. - Ele achava que talvez pudesse salvar a criança... isso às vezes é possível. Mas já não dava mais. Era um menino. Não sei se você vai querer ou não dizer para Thonolan.

- Obrigado, Roshario.

Jondalar percebia que ela estivera chorando. Jetamio era como se fosse sua filha. Fora Roshario quem a criara, quem cuidara dela na doença e depois durante o longo período de convalescença. E agora havia acompanhado toda a agonia do malfadado parto. De repente, Thonolan passou pelos dois, esbarrando neles com seu velho baú de viagem. Ele se dirigia para o caminho que contornava o penhasco.

- Acho que agora não é uma boa ocasião. Eu falo com ele depois -disse Jondalar, correndo atrás de seu irmão. - Onde você está indo? -indagou, quando conseguiu alcançá-lo.

- Vou embora. Nunca deveria ter parado aqui. Ainda não cheguei ao fim de minha viagem.

- Você não pode partir agora - disse Jondalar, segurando-o pelo braço.

Thonolan contorceu-se com força, desvencilhando-se.

- Por que não? O que me prende aqui? - falou, soluçando.

Jondalar novamente segurou-o, obrigando-o a girar com o corpo. O rosto estava tão transtornado pela dor que Jondalar quase não o reconhecia. Era um sofrimento profundo demais que lhe dilacerava a própria alma. No entanto, houve ocasiões que ele chegou a invejar a felicidade de Thonolan no seu amor por Jetamio que o fazia pensar em sua inaptidão para amar. Teria vali do a pena? Será que o amor valia tantas dores e aflições? Um pesar tão amargo?

- Você vai deixar que Jetamio e o filho dela sejam enterrados sem você estar presente?

- Filho? Como você sabe que era um filho?

- O shamud tirou a criança. Achou que talvez desse para salvar o bebê, mas infelizmente foi impossível.

- Não quero ver a criança que matou Jetamio.

- Thonolan, Thonolan. Foi Jetamio quem pediu para ser abençoada. Ela queria engravidar e se sentia feliz com isto. Você teria coragem de impedir essa felicidade? Teria preferido que Jetamio tivesse uma vida longa e triste? Uma vida sem filhos e sempre ansiando por tê-los? Ela conheceu o amor e a felicidade. Primeiro por ter se unido a você e depois por ser abençoada pela Mãe. Foi por pouco tempo, é verdade, mas ela me disse que jamais poderia ter sonhado em ser tão feliz como foi junto de você. Falou também que nada lhe dava tanta alegria como você saber que estava esperando um filho. Um filho seu, como ela dizia, Thonolan. Um filho de seu espírito. Talvez a Mãe soubesse que tinha de ser um ou outro, e por isso preferiu dar a ela esta alegria.

- Jondalar, ela nem me reconheceu - falou Thonolan, com a voz embargada.

- O shamud deu qualquer coisa para que ela tomasse quando o fim já estava próximo. Não havia esperança da criança nascer e deste modo Jetamio não sofreria tanto. Mas ela sabia que você estava lá.

- A Mãe, quando levou Jetamio, carregou tudo. Eu, que estava cheio de amor, agora estou vazio. Nada sobrou em mim. Como pode ter ela morri do? - Thonolan começou a cambalear. Jondalar estendeu as mãos para ampará-lo no momento em que ia cair, depois o apoiou contra o ombro, enquanto ele chorava o seu imenso desespero.

- Por que não para casa, Thonolan? Se formos agora, lá pelo inverno teremos chegado à geleira e na primavera já estaremos em casa. Por que você quer ir para o leste? - dizia Jondalar com um tom saudoso na voz.

- Você vai, Jondalar. Já devia ter feito isto há muito tempo. Eu sempre disse que você sempre foi e será um Zelandonii. Quanto a mim, sigo para o leste.

- Você dizia que a sua viagem seria até a foz do Grande Rio Mãe. Mas depois que chegar ao Mar Beran, o que pretende fazer?

- Quem sabe? Talvez eu prossiga, contornando o mar. Talvez vá para o norte caçar mamutes com o povo de Tholie. Os mamutoi dizem que há uma outra cadeia de montanhas, bem longe, a leste. A palavra casa não tem a menor significação para mim, Jondalar. Prefiro bem mais sair à cata de coisas novas. Já é tempo de pegarmos caminhos diferentes, meu irmão. Você segue para oeste e eu para leste.

- Se você não quer voltar, por que então não ficar aqui mesmo?

- Sim, por que não ficar aqui, Thonolan? - falou Dolando, que apareceu para se juntar a eles. - E você também, Jondalar... seja como shamudoi ou ramudoi, tanto faz. Vocês agora pertencem a este lugar. Aqui têm família e amigos. Vai nos dar muita pena ver os dois partirem.

- Dolando, você sabe que eu estava disposto a passar o resto de minha vida aqui, mas agora não posso. Tudo aqui está cheio demais de Jetamio. Eu lembro que nunca mais vou tê-la. Desculpe, Dolando, vou sentir saudades de todo mundo, mas tenho de Ir embora.

Dolando concordou com a cabeça. Não desejava forçá-los a ficar, mas queria que eles soubessem que lá poderiam contar sempre com uma família.

- Quando vão partir?

- No máximo dentro de alguns poucos dias - respondeu Thonolan. -Eu gostaria de acertar ainda um negócio, Dolando. Não vou levar nada comigo, fora roupa e certas coisas necessárias à viagem, mas queria ver se dava para conseguir um pequeno barco.

- Tenho certeza de que isso pode ser arranjado. Vocês vão descer o rio... e depois? Para leste? Nunca mais vão voltar para Zelandonii?

- Quanto a mim, eu vou para o leste - falou Thonolan.

- E você, Jondalar?

- Ainda não sei. Há Serenio, Darvo...

Dolando balançou a cabeça, dando a entender que compreendia. Jondalar não chegara a formalizar a sua união com Serenio, mas Dolando sabia que, nem por isso, a decisão seria mais fácil. Ele tanto podia ir para leste, oeste, ou ficar. Que rumo iria tomar era o que todos se perguntavam.

- Roshario está cozinhando o dia inteiro. Acho que faz isso para se manter ocupada e não ter tempo de pensar - disse Dolando. - Dará grande prazer a ela se vocês forem comer conosco. Ela gostaria que Serenio e Darvo também fossem. E mais prazer ainda teria se comesse um pouco, Thonolan. Roshario está muito preocupada com você.

“Deve estar também sendo muito duro para Dolando”, pensou Jondalar. Ele estivera tão absorvido com Thonolan que se esquecera da dor da Caverna. Ali fora o lar dela. Dolando a tratara como se fosse uma filha de sua casa. Jetamio era chegada a muitas pessoas. Tholie e Markeno eram a sua família. Ele sabia que Serenio havia estado chorando e Darvo mostrava-se triste, sem querer falar.

- Vou perguntar a Serenio - disse Jondalar. - Tenho certeza de que Darvo gostaria de vir. Talvez vocês devam contar só com ele. Eu preciso ter uma conversa com Serenio.

Os três caminharam de volta e pararam por alguns instantes junto da fogueira na casa central. Tinham falado pouco, mas gostaram de ter estado juntos. Haviam sido alguns momentos tristes e saudosos e sabiam que logo esta riam ocorrendo mudanças que os impediriam de voltar a se juntarem.

A sombra do penhasco começava a pôr um frio de tarde no terraço, embora do lado da frente se visse o sol incidindo sobre a garganta do rio. Ali, junto da fogueira e à luz do lusco-fusco, era quase como se nada houvesse mudado, como se estivessem quase esquecidos da terrível tragédia. Os três se deixavam ficar, querendo segurar o tempo, cada um entregue ao seu pensa mento que, se fosse exposto, iria surpreendê-los por se saberem pensando nas mesmas coisas. Eles reviam os acontecimentos que levaram os dois Zelandonii para a Caverna e todos se perguntavam se algum dia ainda voltariam a se encontrar.

- Vocês não vão resolver entrar? - perguntou, por fim, Roshario, sem agüentar esperar mais. Ela não queria perturbá-los. Sentia-lhes a necessidade daqueles últimos momentos de silenciosa comunhão. Nisso, o shamud e Serenio saíram de suas cabanas e Darvo largou a companhia de alguns meninos que se agrupavam a uma pequena distância. Outras pessoas também se aproximaram da fogueira. O clima estava irremediavelmente quebrado. Roshario, então, conduziu todos para a sua moradia, inclusive Jondalar e Serenio, que não se demoraram muito.

Os dois, em silêncio, caminharam para a borda do penhasco e depois fizeram a volta do paredão, dirigindo-se a um tronco caído que fazia um banco confortável para se observar o pôr-do-sol a montante do rio. A natureza, com um panorama de matizes metálicos, conspirava, na pura beleza do ocaso, para o silêncio deles. Ao brilho dos raios descendentes, o cinza plúmbeo das nuvens, iluminando como prata, esparramava um fulgor de ouro que se estilhaçava no rio. Então, os tons de fogo transformavam o ouro em cobre brunido que o bronze obscurecia para desaparecer novamente em meio à prata.

Quando os tons prateados já estavam esmaecidos, apenas levemente manchando as sombras, Jondalar chegou a uma conclusão. Ele virou a cabeça, encarando Serenio. “Sem dúvida é uma mulher bonita”, pensou. “De convívio fácil e agradável.” Ele ia abrir a boca para falar, mas...

- Vamos voltar? - disse Serenio.

- Serenio... eu... bom, nós temos vivido juntos e...

Ela tapou-lhe a boca com um dedo, silenciando-o.

- Agora não. Vamos voltar.

A voz tinha uma nota de insistência e os olhos revelavam desejo. Ele segurou-lhe a mão e beijou primeiro os dedos para depois abri-la e beijar a palma. A boca, sequiosa para explorar outras áreas, encontrou o pulso e per correu o braço, querendo tocar nas dobras da parte interna do cotovelo, escondido pela manga que ele afastou.

Suspirando, olhos fechados, cabeça jogada para trás, toda ela era convite. Com uma das mãos apoiando-lhe a cabeça, ele beijou a garganta palpitante. Depois a orelha, a boca. Ela estava expectante, ávida. Beijava-a devagar, com amor, saboreando a maciez sob a língua, as pregas do palato, e atraindo-lhe a língua para a sua boca. Quando se separaram, ela ofegava pesadamente. A mão tocou nele, sentindo-lhe a resposta quente e latejante.

- Vamos voltar - repetiu ela, numa voz rouca.

- Por que voltar? Por que não aqui?

- Se ficarmos aqui, irá terminar muito depressa. Quero o calor das peles e da fogueira para não precisarmos correr.

Nos últimos tempos, o amor deles era feito não com fastio, dir-se-ia, antes, de forma maquinal. Sabiam como dar prazer um ao outro e tendiam a cair numa rotina, explorando e inovando apenas raramente. Essa noite, Jondalar percebeu, Serenio não estava querendo o trivial. E ele estava ansioso por satisfazê-la. Segurando a sua cabeça entre as mãos, beijou-a nos olhos, na ponta do nariz, nas faces e na orelha, que bafejou levemente com o seu hálito quente. Depois, mordiscou-lhe o lóbulo e procurou novamente a garganta. Quando a sua boca encontrou mais uma vez a dela, ele a beijou apaixonadamente, ao mesmo tempo que lhe puxava o corpo para mais perto.

- Acho que devemos ir, Serenio - disse, suspirando em seu ouvido.

- Era o que eu dizia.

Com o braço passando-lhe por cima do ombro e o dela ao redor de sua cintura, os dois caminharam de volta, contornando o penhasco. Desta vez, ele não se pôs atrás para permitir a passagem de um de cada vez. Nem mesmo reparou no precipício que se despencava abruptamente ao seu lado.

Estava escuro no terraço, tanto pelo negrume da noite como pelas sombras que o alto paredão projetava, impedindo a luz do luar de filtrar-se para lá. No céu, apenas algumas poucas estrelas despontavam por entre as nuvens. Quando eles atingiram o vão embaixo da pedreira, era mais tarde do que imaginavam. Ninguém se achava junto da fogueira central, embora a lenha ainda estivesse queimando com altas labaredas. Viram Dolando e Roshamio e mais algumas outras pessoas dentro de suas casas. Na entrada da deles, Darvo e Thonolan jogavam um jogo feito com peças esculpidas de osso. Nas longas noites de inverno, ele e o irmão costumavam jogá-lo, o que podia levar a metade de uma noite. Era absorvente e ajudava a esquecer as preocupações.

A casa em que vivia com Serenio estava escura. Ele empilhou alguma lenha no lugar da fogueira e foi buscar uma brasa na casa central para acendê-la. Feito isto, atravessou duas tábuas na entrada e estendeu de lado a lado um pano de couro, construindo um ambiente aconchegante e privado.

Enquanto Serenio buscava as cuias de beber, ele tirou a roupa que usava externamente. Em seguida, apanhou o odre com suco de uva-do-monte e serviu aos dois. A premência para satisfazer os seus desejos havia passado. A caminhada de volta dera tempo para ele pensar. “Ela é a mulher mais encantadora e ardente que já conheci”, pensava, saboreando o suco caloroso. “Já devia há muito tempo ter formalizado a nossa união. Talvez ela e Darvo gostassem de voltar comigo para casa. Bom, seja aqui ou lá, quero Serenio para minha companheira.”

Sentia-se aliviado com a decisão. Era menos um problema a ser resolvido. Mostrava-se feliz pela decisão. Era o certo, o devido. Por que demorara tanto a tomá-la?

- Serenio, eu tomei uma decisão. Não sei se já lhe disse o quanto você significa para mim.

- Agora não - falou ela, pondo de lado a cuia e lhe rodeando o pescoço com os braços. Levou, então, os lábios para junto dos dele, pressionando com força. Foi um beijo longo, demorado, vagaroso, que devolveu o ar dor perdido.

“Ela tem razão”, pensou Jondalar, “a conversa pode ficar para depois.”

Quando o calor da paixão voltou a se impor, ele a conduziu ao tablado de dormir, coberto de peles. A fogueira esquecida punha uma fraca luz no ambiente, enquanto ele lhe explorava a redescobria o corpo. Serenio jamais deixara de corresponder, mas desta vez ela se abria para ele de uma maneira como nunca o fizera. Repetidamente, encontrou a sua satisfação, embora não conseguisse absorvê-lo em sua totalidade. Os auges se sucediam, um atrás do outro, e quando Jondalar pensava ter atingido o seu limite, ela, valendo-se das técnicas dele, aos poucos tomava a reanimá-lo. Num último esforço extasiante, alcançaram o prazeroso alívio e, exaustos, se deixaram ficar deitados, por fim satisfeitos.

Como estavam dormiram, nus, por cima das peles. Quando a fogueira apagou, o frio da madrugada os acordou. Enquanto ela fazia uma outra fogueira, acesa nas últimas brasas, ele vestiu uma túnica e saiu para encher o odre. Na volta, o calor dentro da casa era reconfortante, principalmente de pois do rápido mergulho que dera no lago gelado. Sentia-se revigorado, bem- disposto, e tifo perfeitamente satisfeito que estava pronto para qualquer coisa que surgisse. Serenio pós algumas pedras para esquentar e, em seguida, saiu para fazer suas necessidades. Ao voltar, estava tão molhada quanto ele.

- Você está tremendo - falou Jondalar, embrulhando-a numa pele.

- Você pareceu gostar tanto de seu mergulho que eu também resolvi dar um. Mas que frio! - disse sorrindo.

- O chá está quase pronto. Vou lhe trazer uma cuia. Fique aqui senta da - disse ele, forçando-a a reclinar-se no tablado e empilhando uma quantidade de peles ao seu redor, até que ela ficasse apenas com o rosto do lado de fora. “Não seria nada mal se eu resolvesse levar a minha vida com uma mulher como Serenio”, pensou. “Será que conseguiria convencê-la a ir comigo para casa?”A lembrança de Thonolan veio deixar uma nota triste em seus pensa mentos. “...Ah, se eu pudesse convencê-lo também a vir comigo. Não posso entender essa sua mania de querer ir para o leste.”

Ele entregou a Serenio uma cuia contendo chá de betônica, pegou outra para si e veio se sentar na beirada do tablado.

- Serenio, você algum dia já pensou em fazer uma viagem?

- Você está se referindo a uma viagem para algum lugar que eu não conheço? Para um lugar onde as pessoas falam uma língua que eu não entendo? Não, Jondalar, nunca senti muita vontade de fazer esse tipo de viagem.

- Mas você entende zelandonii e muito bem. Quando resolvemos com Tholie e os outros aprender línguas, fiquei surpreso da rapidez com que você aprendia. Não será como se tivesse de aprender uma língua inteiramente desconhecida.

- O que você está querendo dizer, Jondalar?

Ele sorriu.

- Estou querendo tentar persuadi-la a ir comigo para minha casa, depois que tivermos formalizado a nossa união. Você irá gostar dos Zelandonii.

- O que você quer dizer com “depois de formalizarmos a nossa união”? O que o leva a pensar que faremos uma coisa dessas?

Ele ficou confuso. “Claro, deveria ter consultado Serenio antes. Não poderia ter posto esta idéia de viagem assim tão de supetão. As mulheres gostam de ser consultadas, não querem que as coisas sejam apresentadas a elas como fato consumado.” Ele deu um sorriso sem graça.

- Eu resolvi que já era tempo de formalizarmos esse nosso arranjo. Já devia ter feito isso antes, Serenio. Você é uma linda e encantadora mulher e Darvo também é um ótimo garoto. Ficaria muito orgulhoso de tê-lo como um filho legítimo de minha casa. Mas estava esperançoso que você pudesse considerar a idéia de viajar comigo. - - de ir viver com os Zelandonii. Natural mente, se você não quiser...

- Jondalar, você não pode decidir sozinho essa questão de formalizar o nosso arranjo. Eu não pretendo ser a sua companheira. Há muito tempo que já resolvi sobre isto.

Jondalar ficou vermelho, sentindo-se extremamente embaraçado. Nunca lhe passara pela cabeça o fato de Serenio não querer tornar-se sua companheira. Ele vira só o seu lado, preocupado apenas com os seus sentimentos, sem imaginar que ela talvez não o considerasse digno.

- Eu... eu peço... desculpas, Serenio. Pensei que você também gostasse de mim. Não deveria ter sido tão presumido. Você me deveria ter dito para ir embora... eu acharia um outro lugar - ele se levantou e começou a reunir algumas de suas coisas.

- Jondalar, o que está fazendo?

- Pegando as minhas coisas para mudar daqui.

- E por que vai querer mudar?

- Não é que eu deseje, mas você não me quer aqui e...

- Depois de uma noite como essa, como pode dizer que eu não o desejo? O que tem isso a ver com a formalização de nossa união?

Ele voltou e veio sentar-se na beirada do tablado, ficando a olhá-la dentro dos olhos, enigmáticos como sempre.

- Por que não quer ser a minha companheira, Serenio? Será que eu não sou... bastante homem para você.

- Você... não ser bastante homem...? - disse com a voz embargada. Ela tinha os olhos fechados, pestanejando. Por fim, deu um profundo suspiro e falou: - Oh, Jondalar! Você não ser suficientemente homem! Se não for, quem mais poderá ser nesta terra? E este é justamente o problema. Você é homem demais, tudo em você é demais. Eu não agüentaria conviver com essa idéia.

- Eu não entendo. Se estou querendo que seja a minha companheira, por que me vem dizer que sou bom demais para você?

- Realmente não pode entender, não é? Você me deu demais, Jondalar.- já me deu mais do que qualquer outro homem. Se fosse sua companheira, eu teria demasiado, mais do que qualquer outra mulher já teve na vida. Elas ficariam invejosas. Iriam querer que os seus homens fossem tifo generosos, bons e afetuosos quanto você. Elas já sabem que uma simples carícia sua é capaz de fazê-las sentir-se mais vivas, mais... Oh, Jondalar, você é tudo que uma mulher pode desejar.

- Se eu sou tudo isto que você diz, por que então não se toma minha companheira?

- Porque você não me ama.

- Serenio... mas eu...

- Sim, eu sei. À sua maneira, você me ama. Gosta de mim, jamais faria uma coisa que me magoasse e seria bom e maravilhoso o tempo todo. Mas eu estaria sempre sabendo que você não me ama. Ainda que chegasse a convencer-me do contrário, lá no fundo eu saberia. E, então, começaria a perguntar-me o que há de errado comigo, o que está me faltando e por que você não pode amar-me.

Jondalar ouvia de cabeça baixa.

- Serenio, um homem pode ser o companheiro de uma mulher sem amar desta maneira como você fala - ele olhou ansioso para ela. - Quando há outras coisas entre um homem e uma mulher, quando os dois têm um afeto sincero um pelo outro, eles podem levar uma vida feliz.

- É verdade. Algumas pessoas conseguem isto. Algum dia eu tomarei a me unir a alguém e se houver mais coisas entre mim e o meu companheiro, pode ser que não seja necessário que um ame “outro. Mas, com você, isto não é possível, Jondalar.

- Por que comigo não?

Era tão grande a tristeza que via nos olhos dele que ela quase resolveu reconsiderar tudo o que havia dito.

- Por que eu iria amá-lo, Jondalar. É uma coisa que não posso evitar. Iria amá-lo e todos os dias estaria morrendo um pouco, sabendo que você não me ama do mesmo modo. Nenhuma mulher consegue ficar sem amá-lo, Jondalar. E cada vez que fizéssemos amor, como esta noite, por exemplo, mais espedaçada eu estaria por dentro. Com todo esse meu amor e desejo, e sabendo que por mais que você quisesse não poderia correspondê-lo, depois de algum tempo eu estaria ressequida, vazia, e acabaria achando um jeito de tomar a sua vida tão desgraçada quanto a minha. E, no íntimo, você continuaria a mesma pessoa maravilhosa, dedicada e generosa porque conhece os motivos que me levaram a uma tão grande transformação. Você iria se odiar por isto, Jondalar. No fim, todo mundo estaria se perguntando o porquê de um homem como você estar agüentando uma velha amarga e rabugenta. Não, Jondalar, não gostaria de fazer este mal. - nem a você, nem a mim.

Ele se levantou, foi até a entrada e voltou.

- Serenio, por que eu não consigo amar? Os outros homens, eu vejo, se apaixonam. O que há de errado comigo? - o seu olhar era tão angustiado que sofria por ele, amando-o até mais e desejando que, de alguma forma, ele pudesse amá-la.

- Eu não sei, Jondalar. Talvez você ainda não tenha encontrado a mulher certa. Quem sabe se a Mãe não lhe está reservando alguém especial? Ela não costuma fazer muitos iguais a você. Realmente, arcar com um homem como você é dificílimo. A maioria das mulheres não conseguiriam. Se todo o seu amor for concentrado numa só, ela não resistirá, a não ser que seja uma mulher favorecida pela Mãe com predicados iguais aos seus. Ainda que me amasse, eu não sei se poderia conviver com o seu amor. Se você amar uma mulher tanto quanto ama o seu irmão, ele terá de ser muito forte.

- Ora veja, eu não consigo me apaixonar, mas mesmo que isto acontecesse, nenhuma mulher agüentaria o meu amor - falou ele, dando um riso amargo e irônico. - Com isto, é para ficarmos desconfiados das graças que a Mãe nos concede - os seus olhos à luz rubra da fogueira mostravam-se num tom escuro de violeta e cheios de apreensão. - O que você quer dizer com “se amar uma mulher tanto quando ama o seu irmão?” Se nenhuma mulher é forte bastante para arcar com o meu amor, você está com isso pretendendo dizer que eu preciso... de um homem?

Serenio deu um sorriso, depois acabou rindo.

- Absolutamente. Eu não estou dizendo que ama o seu irmão como um homem ama uma mulher. Você não é o shamud que tem o corpo de um sexo e inclinações do outro. A essas alturas, você já saberia, já teria atendido os apelos de sua verdadeira vocação e, tal como o shamud, teria encontrado aí um amor. Não - prosseguiu ela, sentindo uma onda de calor com o seu pensamento - você gosta muito do corpo de uma mulher. Mas isto não impede que você ame o seu irmão mais do que tudo neste mundo. Foi por esta razão que desejei tanto tê-lo esta noite. Quando Thonolan partir, você irá junto e eu nunca mais vou vê-lo, Jondalar.

Logo que Serenio acabou de dizer isso, percebeu que ela tinha razão. Pouco importava o que antes havia decidido: quando chegasse a ocasião, iria embora com Thonolan.

- Como sabia disso, Serenio? Eu jamais poderia desconfiar. Quando cheguei aqui, estava certo de que seria a minha companheira e que eu fria instalar-me definitivamente com os sharamudoi, no caso de você não querer voltar comigo.

- Acho que todo mundo sabe que você sempre acompanhará Thonolan para qualquer lugar que ele for, O shamud disse que esse é o seu destino.

A curiosidade de Jondalar sobre o shamud nunca fora satisfeita. De repente, ele perguntou:

- Diga-me uma coisa, Serenio. O shamud é homem ou mulher?

- Você quer realmente saber?

Ele pensou melhor.

- Não. Acho que não tem importância. O shamud não quis dizer-me... talvez o mistério seja importante para... ele?

Seguiu-se, então, um silêncio. Jondalar olhava para Serenio, querendo reter a imagem dela naquele instante. Os cabelos ainda estavam molhados e em desalinho, mas ela já se sentia aquecida e afastara as peles para o lado.

- E quanto a você, Serenio? O que pretende fazer?

- Eu o amo, Jondalar - disse simplesmente, como se apenas constatas se um fato. - Não vai ser fácil esquecê-lo, mas você me deu algo. Eu tinha medo de amar. Foram tantas as coisas que eu amei e perdi que acabei afastando o amor de minha vida. Sabia que iria perdê-lo também, mas mesmo assim eu o amei. Agora sei que posso voltar a amar e, se outra vez perder, nem por isso o amor deixará de existir para mim. Isto foi você quem me deu e... talvez tenha dado outra coisa também - surgiu um sorriso misterioso. - Pode ser que daqui a uns tempos alguém que eu vá amar muito entre na minha vida. Ainda está cedo para se ter certeza, mas acho que fui abençoada pela Mãe. Depois que perdi o meu último filho, pensava que isso não fosse mais possível... afinal, tantos anos sem receber a sua bênção. Deve ser uma criança de seu espírito, Jondalar. Se o bebê sair com os seus olhos, eu saberei.

A testa de Jondalar vincou com as suas costumeiras ruga.

- Serenio, neste caso eu devo ficar. Na sua casa não há um homem para sustentar a criança e você.

- Jondalar, não precisa preocupar-se. Jamais uma mãe e o seu filho deixaram de ser amparados. Mudo disse que todas as mulheres que ela abençoa devem ser ajudadas. Por isso, criou os homens, para que eles levem, às mies, as dádivas da Grande Mãe Terra. A Caverna, tal como a Mãe, mantém os seus filhos. Ela irá cuidar de mim e do meu bebê. Você deve seguir o seu destino, e eu o meu. Não quero esquecê-lo, Jondalar, e se tiver um filho de seu espírito, pensarei em você da mesma forma como penso no homem que amei quando Darvo nasceu.

Serenio havia mudado, mas continuava a mesma mulher que nada pedia, que nenhuma obrigação impunha. Ele a abraçou. Ela o olhou dentro de seus irresistíveis olhos azuis. Os dela nada escondiam: o amor, a tristeza por per dê-lo, e ao mesmo tempo a alegria pelo tesouro que carregava em seu ventre. Através de uma fenda na parede viram uma luz pálida anunciando o novo dia. Ele se levantou.

- Onde você vai, Jondalar?

- Só um instantinho lá fora. Bebi muito chá .- ele deu um sorriso que lhe iluminou os olhos. - Mas não deixe a cama esfriar, a noite ainda não acabou - disse, enquanto se inclinava para beijá-la. - Serenio... - a voz era embargada pela emoção - você significa para mim mais do que qualquer outra mulher que já conheci em minha vida.

Não era o bastante. Ele iria partir, mas ela sabia que, se pedisse, ele fica ria. Só que não o fez e, em troca, ele lhe deu o máximo que conseguia dar de si. No entanto, era mais do que qualquer mulher já recebera.

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