O Vale dos Cavalos

Jean M. Auel · Capítulo 24 de 31

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O Vale dos Cavalos

Capítulo 22

- Querer falar direito... Dun-da-laá.

- Mas você diz o meu nome perfeitamente.

- Não! Ayla falar errado - ela abanou a cabeça.

- Falar certo.

- Jondalar. Jon-dadar.

-Zon...

- Zon, não. Jon... Jondalar - disse ele articulando muito devagar.

- Zon... Jon - continuou ela, pelejando com aqueles sons desconhecidos. - Jon-da-larr - conseguiu por fim dizer, enfatizando o som gutural do r.

- Bem. Muito bem.

Ayla sorriu, triunfante. Depois, com um sorriso meio de mofa, falou:

- Jon-da-lar du Zelan-do-nii.

Ele lhe havia dito o nome de seu povo mais vezes do que o seu nome propriamente e ela vinha treinando escondido.

- Ótimo! - Jondalar estava sinceramente surpreso. Ela ainda não o pronunciara perfeitamente, mas só um zelandonii perceberia a diferença. A calorosa aprovação valeu os esforços feitos e ela deu um belo sorriso de vitória.

- O que é zelandonii?

- É a minha gente. O povo que nasceu da Mãe e que vive em terras mui to distantes a sudoeste daqui. Doni significa a Grande Mãe da Terra. Os Filhos da Terra, acho que essa é a melhor forma de explicar. Na verdade todos chamam a si mesmos, cada qual em sua língua, Filhos da Terra, que é a mesma coisa que “povo”.

Eles estavam de frente um para o outro, encostados contra dois troncos opostos de vidoeiros, pertencentes a um grupo de árvores cujos caules se desenvolveram em diversos troncos grossos provindos de uma base comum. Embora usando um bordão e mancando ainda bastante, Jondalar dava graças por estar na verdosa campina do vale. Desde os primeiros passos vacilantes, ele não parara um só dia de se esforçar e fazer progressos. A primeira descida fora um penoso sacrifício e também um triunfo. A volta acabou tomando-se até mais fácil.

Ele ainda não sabia como Ayla, sem ajuda nenhuma, dera com ele na caverna. Afinal, se alguém a tinha auxiliado, onde estava essa pessoa? Era uma pergunta que há muito queria fazer, mas primeiro ela não iria entendê-lo, de, pois lhe pareceu impróprio perguntar só por perguntar, no sentido de mera mente satisfazer a sua curiosidade. Esperava pelo momento propício, que pareceu por fim ter chegado.

- Quem é o seu povo, Ayla? Onde vive?

O sorriso sumiu de seu rosto. Ele estava quase arrependido de haver perguntado. Depois de um longo silêncio, quando já achava que a pergunta não havia sido entendida, ela falou:

- Nenhum povo. Ayla de nenhum povo - respondeu, desencostando da árvore e saindo da sombra. Jondalar pegou o bastão em que se apoiava e foi mancando atrás dela.

- Mas você tem de ter um povo. Deve ter tido a sua mãe. Quem cuidou de você? Quem a ensinou tratar das pessoas? Onde está o seu povo nesse mo mento, Ayla? Por que você está sozinha?

Ela caminhava na frente, olhando para o chão. Não estava evitando as perguntas. . - precisava responder-lhe. Nenhuma mulher dos clãs podia recusar-se a responder uma pergunta feita por um homem. Na verdade, nos das, todas as perguntas eram respondidas, fossem elas feitas por um homem ou por uma mulher. No entanto, no caso das mulheres, estas não faziam perguntas de caráter pessoal ao homem e eles raramente se questionavam entre si. Em geral só a mulher era indagada. As perguntas de Jondalar lhe traziam lembranças, mas algumas Ayla não sabia como responder e para outras não tinha resposta.

- Se você não quiser contar...

- Não - ela olhou para ele e abanou a cabeça. - Ayla contar - os seus olhos pareciam confusos. - Não saber palavras.

Jondalar novamente ficou em dúvida se deveria ou não ter levantado o assunto, mas estava curioso e ela, por seu lado, parecia disposta a responder. Pararam junto ao bloco de pedra que se desprendera do penhasco para alojar-se no meio da campina. Ele se sentou numa beirada onde a pedra partira, fazendo um banco com encosto e um assento de boa altura.

- Como chama a sua gente, Ayla? - perguntou Jondalar.

Ayla pensou por um momento.

- Gente... homem, mulher... criança... - ela novamente abanou a cabeça, sem saber como explicar. - Os clãs - disse, enquanto fazia um gesto que expressava o conceito.

- Como uma família? Uma família é composta por um homem, uma mulher e os filhos, todos vivendo numa casa... bom, em geral.

Ela confirmou com a cabeça.

- Família... maior.

- Seria um pequeno grupo? Diversas famílias vivendo juntas formam uma Caverna - explicava Jondalar - mesmo que não morem numa.

- Sim. Como um clã pequeno. Muita gente, como os clãs.

Quando ela disse a palavra pela primeira vez, ele quase não a ouviu e nem percebeu o gesto que Ayla fez com a m Era uma palavra gutural, dita em tom baixo, pronunciada, segundo pareceu a Jondalar, engolindo o miolo da sílaba. Nunca imaginaria aquele som como correspondendo a uma palavra. Até então as únicas palavras que ouvira da boca de Ayla foram as que ele lhe ensinou. Jondalar estava interessado.

- Glun? - falou, tentando imitá-la.

A pronúncia parecia, mas não estava inteiramente correta.

- Ayla não dizer direito palavras de Jondalar. Jondalar não dizer direito palavras de Ayla. Jondalar falar bonito.

- Eu pensava que você não conhecesse nenhuma palavra, Ayla. Nunca a ouvi falar em sua língua.

- Não conhecer muitas palavras. Os elas não falar com palavras.

Jondalar não entendeu.

- Se não falam com palavras, então como fazem?

- Eles falar... com mãos - disse ela, sabendo que, de certa forma, não era bem assim.

Ayla reparou que, inconscientemente, gesticulava enquanto se esforçava para encontrar as palavras. Ao ver a cara de espanto de Jondalar, pegou-lhe as mãos e as guiou num certo tipo de movimento, enquanto mais uma vez dizia:

- Os clãs não falar com muitas palavras. Os clãs falar... com mãos.

A testa de Jondalar foi aos poucos perdendo as rugas. Ele, por fim, começava a compreender.

- Você está querendo me dizer que o seu povo fala com as mãos? Mostre como. Diga alguma coisa na sua língua.

Ayla pensou por um instante.

- Tenho tantas coisas para dizer a você, mas preciso antes aprender a falar a sua língua. Agora, a sua forma de vida é a única que me resta. Como posso lhe dizer quem é o meu povo? Eu não sou mais uma mulher dos clãs. Como posso explicar que estou morta? Que eu não tenho um povo? Para os clãs, estou caminhando no outro mundo, tal como o homem que viajava com você. O seu germano, acho eu. O seu irmão.

“Gostaria de lhe dizer que fiz os sinais sobre a sua sepultura, para que aliviasse um pouco a dor em seu coração, Jondalar. Gostaria de lhe dizer também que, apesar de não conhecê-lo, eu lamentei a sua morte.

“Eu não sei quem eu sou e nem de que povo venho. Devo ter tido mãe e uma família que se pareciam comigo... e com você também. Mas só conheço essas pessoas como os Outros. Iza é a única mãe de que me lembro. Foi ela quem me ensinou as mágicas de curar e fez de mim uma curandeira. Agora, está morta. E também Creb.

“Jondalar, sinto uma enorme vontade de conversar com você sobre Iza, Creb e Dure.” Ela neste ponto fez uma pausa para pegar o fôlego. “Meu filho também foi separado de mim, mas ele vive. Esse é o meu único consolo. E agora, também você, depois que o Leão da Caverna o trouxe para cá. Eu tinha medo de que os homens dos Outros fossem iguais a Broud, mas você é parecido com Creb, gentil e paciente. Quero pensar em você como sendo, um dia, o meu companheiro. Quando eu o encontrei, achei que tinha sido trazido para cá por essa razão. Imagino que quis acreditar nisso porque eu me sentia muito sozinha, desejando imensamente ter alguém para companhia e você é o primeiro homem dos Outros que eu vejo... pelo menos que eu me lembre. Pouco importava quem você fosse, eu apenas estava querendo um companheiro. Agora é diferente. Cada dia que passa, mais eu gosto de você. Sei que existem várias pessoas dos Outros vivendo não muito longe daqui, e que há, além de você, outros homens. Um deles talvez pudesse se tomar o meu companheiro. Mas eu não quero e tenho medo de que depois de você sarar, não vá querer permanecer aqui comigo. Também tenho medo de perdê-lo. Gostaria de poder lhe dizer que eu me sinto muito... muito agradecida por você estar aqui.”

Ela se interrompeu, mas sentindo que ainda havia mais coisas a dizer.

Jondalar a observava e não era de todo incompreensível o que ela dizia. Os movimentos - não só os gestos que fazia com as mãos, mas o jogo facial, os olhos, a postura - eram tão expressivos que ele se sentia profundamente comovido. Ela fazia lembrar uma dançarina silenciosa, exceto pelos sons ásperos que, estranhamente, se harmonizavam com os delicados movimentos. Ele percebia unicamente através do plano emocional. De forma alguma poderia acre ditar que o que sentia fosse o expressado por ela. No entanto, quando Ayla se interrompeu, sabia que ela tinha passado algo. Também percebera que aquela língua de movimentos e gestos não era, como imaginara, uma extensão da gesticulação que ele às vezes usava para enfatizar o seu discurso. No caso dela, antes, dava a impressão de que os sons eram o que enfatizava os movimentos.

Ao terminar, Ayla por alguns momentos ficou parada, pensativa, de pois, graciosamente, deixou-se cair aos pés dele, permanecendo de cabeça baixa. Jondalar ficou esperando. Vendo que ela não se mexia, começou a se sentir embaraçado. Ayla parecia estar aguardando por ele, fazendo-o sentir como se ela estivesse lhe prestando uma homenagem. Tal deferência, dirigida à Grande Mãe Terra, seda perfeita, mas a Mãe, sabia-se, era ciumenta e não veria com bons olhos um filho receber uma homenagem que só a ela era devida.

Por fim Jondalar abaixou-se e lhe tocou no braço.

- Levante-se Ayla. O que você está fazendo?

Um toque no braço não era exatamente um tapinha no ombro, mas era o mais próximo que ela poderia imaginar como o sinal que se usava nos clãs para permitir à mulher falar. Então, ergueu os olhos.

- Mulher dos clãs sentar quando querer falar. Ayla querer falar com Jondalar.

- Mas você não precisa ficar sentada no chão para falar comigo - ele segurou-a, procurando levantá-la. - Se está querendo falar, pois então fale normalmente.

Ayla insistia em permanecer onde se achava.

- É costume dos clãs. - Os seus olhos se mostravam suplicantes, pedindo-lhe que a entendesse. - Ayla querer falar... - A frustração era grande e as lágrimas começaram a brotar. Novamente ela tentou. - Ayla não falar direito. Ayla querer contar. Jondalar dar fala para Ayla... querer contar...

- Está você tentando dizer obrigado?

- Obrigado? O que é isto?

Ele fez uma pausa.

- Bom, Ayla, você salvou a minha vida, tem cuidado de mim, tratado dos meus ferimentos e me dado comida. Por tudo isto eu digo: muito obrigado.

Ela franziu o rosto.

- Ser diferente. Quando homem estar ferido, Ayla tomar conta. Ayla tomar conta de todo homem. Jondalar ensinar Ayla falar... é mais. É mais que obrigado - ela olhava, aflita, ansiando por que ele pudesse entendê-la.

- Você pode não falar direito, mas se comunica muito bem. Agora levante-se, senão vou ter também de ficar abaixado junto de você. Sei que é curandeira e que o seu ofício é o de cuidar de todos que estejam precisando de ajuda. Você pode achar que não seja nada de mais ter salvado a minha vi da, mas isso não me faz menos agradecido. Para mim, não custa nada ensinar a minha língua, ensiná-la a falar, mas começo a perceber que isso é uma coisa muito importante para você e que se sente assim agradecida. O meu costume é dizer muito obrigado. O seu, eu acho mais bonito. Por favor, agora levante-se.

Ayla sentiu que ele entendera. O sorriso dela transmitia mais gratidão do que poderia imaginar. Aquela era uma idéia difícil de ser comunicada e que lhe era muito importante. Sentia-se exultante com o seu sucesso. A sua alegria precisava se expandir e para isso nada como se pôr em ação. Huiin e o potro não estavam longe. Ela soltou um assovio forte e estridente. A égua levantou as orelhas, vindo galopando na sua direção. Ayla saiu correndo e deu um salto, indo aterrissar suavemente no seu lombo.

Com o potro seguindo de perto, deu uma longa volta pela campina. Tão grande era a atenção que vinha dedicando a Jondalar que desde que o encontrara pouco tinha montado. E agora aquela cavalgada era uma deliciosa sensação de liberdade. Voltando ao ponto de partida, encontrou Jondalar esperando-a. A sua boca já não estava mais aberta como quando a vira partir em cima da égua, mas sentia um frio percorrendo pela sua espinha, enquanto imaginava se não seda aquela mulher um ser sobrenatural ou, quem sabe, até mesmo uma donii. Vagamente ele se lembrava de um sonho no qual aparecia um espírito protetor na forma de uma moça afastando dele um enorme leão.

Mas então se lembrou da frustração muito humana de Ayla quando não conseguia se fazer entender. “Certamente nenhuma forma de espírito da Grande Mãe Terra teria problemas dessa ordem. Contudo, não restava dúvida de que tinha um jeito fora do comum para lidar com animais. Passarinhos que atendiam o seu chamado para comer em suas mãos, uma égua que, lhe ouvindo o assovio, corria para se deixar montar... e agora mais essa desse povo que não fala com palavras, mas por gestos. “Ayla, neste dia, dera muito o que pensar”, dizia a si mesmo Jondalar, enquanto coçava o potrinho. Quanto mais pensava nela, mais misteriosa ela lhe parecia.

Se o seu povo não falava, ele podia agora entender por que ela não sabia falar. Mas que povo era esse? Onde estaria vivendo? Ayla disse que não pertencia a nenhum povo e que vivia sozinha no vale. .Mas, neste caso, com quem aprendera o seu ofício de curandeira? E esse seu fantástico dom para lidar com animais, de onde vinha? Onde teria ela conseguido as pedras-de-fogo? Era jovem demais para ser uma Zelandoni com tamanhos poderes. Em geral, se levava muitos anos, quase sempre vividos em retiro, para se obter o domínio de tais artes. Seria essa a gente dela? Ele sabia da existência de certos grupos de servidores da Mãe que se devotavam ao conhecimento dos profundos mistérios da vida. Eram pessoas altamente respeitadas. Zelandoni havia passado muitos anos com um desses grupos. O shamud também lhe falaria sobre certas provas que os servidores da Mãe se impõem para alcançarem sabedoria e o do mínio de suas artes. Será que Ayla teria vivido com um desses grupos que falavam só por gestos? E que agora morava sozinha para aperfeiçoar-se nos seus conhecimentos?

“E você, Jondalar, pensando em gozar dos prazeres com ela. Não é de admirar que tivesse reagido daquela maneira. Mas que desperdício, bonita como é e abdicar dos prazeres. Mas, bonita ou não, Jondalar, você vai respeitar-lhe a vontade.”

Enquanto isso o potrinho dava marradas, esfregando-se contra ele, pro curando ter carícias mais caprichadas daquelas mãos que sempre acabavam encontrando os lugares certos para coçar-lhe os comichões em seu couro trocando de pêlo. Jondalar ficava encantado de se ver procurado pelo potro. Até então, cavalos para ele não tinham outra significação que a de alimento. Nunca lhe ocorrera que pudessem ser animais amigos e sensíveis e que gostassem de suas carícias.

Ayla, feliz, sorriu, vendo a amizade que se formava entre os dois. Ela lembrou-se de urna idéia que tivera e naturalmente a explicou para Jondalar.

- Jondalar poder dar nome para potro?

- Dar um nome para o potro? Você quer que eu dê um nome para o animal? - ele não sabia direito o que pensar, mas estava encantado. - Eu não sei, Ayla. Nunca pensei em dar nome a nada e muito menos a um cavalo. Como se dá nome a um cavalo?

Ayla percebia o seu ar confuso. Era uma idéia que ela própria não havia aceitado de imediato. Os nomes tinham um certo peso, uma significação especial. Era o que identificava. Identificar Huiin como indivíduo único, separado do conceito de cavalo, tinha suas conseqüências. Com esse nome não mais a égua era um mero animal fazendo parte das manadas que rondavam pelas estepes. Estava associada aos humanos, confiada a uma pessoa da qual dependia a sua segurança. Ela era única em sua espécie, a única a ter um nome.

No entanto, isso impunha obrigações a Ayla. O conforto e o bem-estar do animal não só exigiam-lhe bastante trabalho, como também era motivo de preocupações. A égua estava sempre presente em seu pensamento. As suas vi das estavam inextricavelmente enredadas.

Foi principalmente após a volta de Huiin que Ayla se dera conta da relação que se tinha estabelecido entre ela e a égua. Agora, embora não calculada- mente ou de forma planejada, o pedido a Jondalar não era destituído de in tenção. Ela desejava que permanecesse lá. Se Jondalar se afeiçoasse ao cavalinho era mais uma razão para que ele ficasse onde o animal tinha de estar, isto é, no vale com Huiin e ela.

Mas não havia necessidade de pressioná-lo. Por algum tempo ele não iria a nenhum lugar, pelo menos enquanto a sua perna não estivesse totalmente curada.

Ayla acordou sobressaltada. A caverna estava às escuras. Ela ficou deita da de costas, fitando a densa escuridão e procurando novamente dormir. Depois, resolveu sair da cama - havia cavado uma cova rasa no chão de terra, ao lado da outra que era usada por Jondalar - e ir até a entrada da caverna. No meio do caminho, ouviu o bufado de Huiin reconhecendo a sua passagem por lá.

“Outra vez deixei a fogueira apagar”, pensou ela, enquanto caminhava ao longo da parede. “Jondalar não conhece direito a caverna, e isso tem de estar mais iluminado para ele poder se levantar no meio da noite.”Chegando à entrada, ela resolveu ficar um pouco do lado de fora. A lua, numa fase de quarto, por enquanto se achava bem por cima da borda do penhasco da margem oposta, mas logo estaria desaparecendo atrás das rochas. O meio da noite já havia passado e a madrugada não poderia tardar muito. Embaixo, a escuridão era apenas quebrada pelo brilho prateado das estrelas refletindo-se no rio rumorejante.

A mudança da cor no céu se fazia quase imperceptivelmente, mas era sentida em algum nível do inconsciente. Sem saber por que, Ayla resolveu não voltar para a cama. Ficou observando a lua apagando-se, antes de ser tragada pelo paredão da margem oposta. Quando os últimos vislumbres de luz foram eclipsados, ela se estremeceu com um arrepio de mau agouro.

Aos poucos, o céu clareava, enquanto as estrelas iam perdendo-se dentro de um azul luminoso. Ao longe, na outra extremidade do vale, o horizonte já estava vermelho. Um sol em brasa, dilatando-se na forma de um arco perfeito, lançava, das fronteiras da terra, chispas de fogo sobre o vale.

- Deve estar havendo um incêndio nos campos do lado leste - falou Jondalar.

Ayla virou-se. A figura dele estava banhada pelo brilho pálido da orbe incandescente que lhe punha nos olhos uma cor de lavanda, nunca consegui da pela luz da fogueira.

- Sim. Incêndio grande. Grande. Muita fumaça... Não saber você acordado.

- Eu já estou acordado há muito tempo. Estava esperando que você voltasse e, como não apareceu, resolvi levantar. A fogueira está apagada.

- Eu sei. Outra vez Ayla esquecer. Não fazer direito para durar toda a noite.

- Abafar. Você não abafou o fogo, por isso a fogueira apagou.

Ele a seguiu de volta à caverna abaixando a cabeça ao passar pela porta de entrada. Era mais por precaução do que por necessidade. A abertura da entrada, embora não fosse das maiores, tinha altura suficiente para que ele passasse. Ayla pegou as duas pedras de fazer fogo e as acendalhas.

- Você disse que encontrou essa pedra-de-fogo na praia? Ainda existe mais delas lá?

- Sim. Não muitas. Água carregar... levar.

- Alguma inundação? Isto é, o rio transbordou e carregou as pedras fogo? Talvez devêssemos apanhar todas as que sobraram.

Ayla, com ar vago, concordou com a cabeça. Tinha outros planos para aquele dia. Desejava poder contar com a ajuda de Jondalar, mas não sabia como levantar o assunto. A carne começava a rarear e ela não sabia se ele tinha objeções a fazer se ela saísse para caçar. De vez em quando caçava com a sua funda e Jondalar não perguntava de onde haviam saído os hamsters e jerbos gigantes que trazia para a caverna. Mas eram caças pequenas que matava com funda, e estas até mesmo os homens dos clãs permitiam. O que estava precisando, entretanto, era de um bom e grande animal e isso significava sair com Huiin e cavar uma armadilha.

Não que ela estivesse ansiando pela caçada. Teria preferido caçar com Neném, só que o leão não estava mais lá. Mas a falta de seu companheiro era, de suas preocupações, a menor. Jondalar a preocupava mais. Sabia que mesmo que ele se opusesse, ela não deixaria de caçar. Afinal não pertencia ao clã de Jondalar. Ela estava em sua caverna e ele não se achava inteiramente curado. No entanto, Jondalar parecia estar gostando do vale, de Huiin, do potrinho e até dela. Não tinha vontade de atrapalhar as coisas. Por outro lado sabia, por experiência própria, que os homens não gostavam de mulheres caçadoras, mas que outra alternativa tinha?

Ela queria mais do que a simples concordância de Jondalar. Estava precisando de sua colaboração. Não desejava levar o potro à caçada, pois no momento do estouro da manada o animalzinho poderia machucar-se. Mas ela tinha certeza de que o potro não a seguiria se Jondalar lhe fizesse companhia. Não seria por muito tempo. Ela podia localizar a manada, cavar a armadilha e voltar no dia seguinte para pegar a caça. Mas como pedir a um homem para ficar fazendo companhia a um potrinho, enquanto ela estivesse fora caçando?

Ao preparar a sopa para a refeição matinal, um olhar para o seu minguado suprimento de carne seca convenceu-a de que alguma coisa tinha de ser feita o quanto antes. Resolveu que um bom modo de abordar o assunto seria se, primeiro, expusesse de forma atenuada o seu gosto por caçadas, dando-lhe uma bela demonstração de sua perícia com a funda. Conforme a reação, sabe ria ou não se poderia pedir-lhe ajuda.

Os dois haviam criado o hábito de todas as manhãs darem uma caminha da ao longo da vegetação bordeando o rio. Era um bom exercício para ele e o passeio encantava Ayla. Naquela manhã, ela enfiou a funda na correia de sua cintura. Tudo que necessitava era da cooperação de algum animalzinho pondo-se ao alcance de sua pontaria.

As suas esperanças se concretizaram quando, afastando-se da margem e entrando na campina, o barulho dos seus passos fez levantar vôo um casal de pássaros. Ao vê-los, ela imediatamente passou a mão na funda e em algumas pedras. Enquanto derrubava o primeiro, o outro ganhou velocidade, mas a segunda pedrada acertou-o também em cheio. Antes de ir buscá-los, Ayla deu uma olhada em Jondalar. A cara era de espanto, mas o importante é que havia nela um sorriso.

- Isso é fantástico, mulher. É assim que você vem apanhando os animais? Pensava que fizesse armadilhas com laços. Que arma é esta?

Ayla lhe entregou a tira de couro e foi pegar os pássaros.

- Acho que o nome disto é funda - disse Jondalar, depois que ela voltou. - Willomar me falou de uma arma como esta. Na ocasião não cheguei a imaginar direito como era, mas deve ser esta. Você é uma grande atiradora, Ayla. Mesmo que a pessoa leve jeito, essa é uma arma que requer muito treino e perícia.

- Você não importa de eu caçar?

- Sé você não caçar, quem iria fazer isto?

- Homens dos clãs não gostar mulheres caçadoras.

Jondalar a examinava. Ela estava preocupada, ansiosa. Talvez os homens não gostassem de mulheres que caçassem, mas isso não a impediu de aprender a caçar. Por que teria escolhido precisamente aquele dia para lhe dar aquela demonstração de sua pontaria? Por que estaria querendo a sua aprovação?

- A maioria das mulheres Zelandonii caçam, principalmente na juventude. Minha mãe era conhecida por ser uma excelente rastreadora. Não sei por que uma mulher não possa caçar, desde é claro que ela queira. Eu gosto de mulheres caçadoras, Ayla.

Ele percebeu a sua tensão desaparecer. Sem dúvida havia dito o que ela desejava ouvir. E era a pura verdade. No entanto, não sabia por que isso parecia tão importante para ela.

- Precisar sair para caçar. Precisar ajuda.

- Bem que eu gostaria, mas acho que ainda não tenho condições.

- Você não ir, você tomar conta do potro. Eu levar Huiin.

- Ah, então é isso! Você quer que eu fique com o potro para que possa sair com a égua, não é? - ele deu uma risada. - Bom, não deixa de ser uma inversão de costumes. Em geral, depois de uma mulher ter filhos, é ela quem fica com as crianças. Ao homem cabe caçar para eles. Mas, claro, eu fico com o potro. Alguém tem de caçar e eu não quero que o pobrezinho seja ferido.

O sorriso dela foi de alívio. Ele não se importava. Realmente não dava a mínima importância.

- Antes de planejar a sua caçada, você deveria dar uma olhada no lado das estepes que pegou fogo. Com um incêndio desse, é capaz de nem ter necessidade de caçar.

- Caçada com fogo? - perguntou ela.

- Às vezes manadas inteiras morrem intoxicadas pela fumaça e a pessoa nada mais tem a fazer do que ir lá buscar a sua carne já cozinhada. Existe uma história engraçada sobre um homem que encontrou uma caça depois de um incêndio nos campos e os problemas que ele teve de enfrentar na Caverna para provar que a carne tinha sido assada por ele mesmo. Essa é uma velha história...

Um sorriso se esboçava no seu rosto. Ela havia compreendido. “De fato um incêndio que rapidamente se propagasse nas estepes podia dar cabo de uma manada inteira, e eu não precisaria cavar uma armadilha”, pensou Ayla.

Quando ela retirou as traves e os arreios que amarravam as cestas, Jondalar ficou intrigado, sem entender a finalidade daquela complicada tralha.

- Huiin trazer carne para a caverna - explicou ela, apontando para os paus e as correias. - Huiin trazer você para a caverna - acrescentou.

- Ah, então foi assim que eu vim parar aqui! Há tempos que queria saber como tinha sido isso possível. Achava que outras pessoas me tivessem encontrado e trazido para cá.

- Não outras pessoas.. Eu encontrar você e o outro homem.

O rosto de Jondalar tomou-se tenso e sombrio. Ele não esperava que ela fosse mencionar Thonolan e, de repente, se sentiu tomado de dor e saudade.

- Você tinha de deixá-lo lá? Não podia ter trazido também o meu ir mão? - falou ele, investindo contra ela.

- Homem morto, Jondalar. Você ferido... muito ferido - disse Ayla, novamente lamentando não poder expressar-se. Ela gostaria de contar que havia enterrado o homem e que sofrera com a sua morte, mas como dizer? Quando muito conseguia trocar informações; jamais poderia discorrer sobre um assunto. Queria falar sobre certos pensamentos que nem mesmo sabia se eram possíveis de serem traduzidos em palavras. Era como se estivesse asfixiada. No primeiro dia, ela o amparara na dor, mas se via agora impossibilitada de compartilhar de seu sofrimento.

Gostaria de ter o desembaraço dele com as palavras, de poder dispô-las em ordem tão naturalmente como ele o fazia, de possuir a sua liberdade de expressão. Mas havia uma barreira que não conseguia cruzar, uma lacuna que, quando estava prestes a vencer, lhe escapava. A intuição lhe dizia que poderia fazê-lo, que era apenas uma questão de encontrar a chave que abria o conheci mento fechado nela.

- Desculpe, Ayla. Não devia ter gritado com você dessa maneira, mas Thonolan era meu irmão - disse quase chorando.

- Irmão... você e o outro homem... ter mesma mãe?

- Sim, eu e ele tínhamos a mesma mãe.

Ela fez que sim com a cabeça e se virou na direção da égua. Desejava poder dizer-lhe que sabia o que era a afeição entre germanos, da afeição especial que unia dois homens nascidos da mesma mãe. Creb e Brun haviam sido irmãos.

Depois de amarrar as cestas aos arreios, ela entrou para buscar as lanças que, por serem grandes demais para passar pela entrada, tinham de ser arrumadas do lado de fora da caverna. Enquanto observava, Jondalar percebeu que o cavalo não representava apenas uma companhia para a mulher. Era-lhe sem dúvida de grande valia. Ele jamais havia imaginado o quanto podia um cavalo ser útil. Mas, ali, estava outra das espantosas contradições de Ayla. Era capaz de usar o animal de uma maneira que ele nunca vira outro povo fazer, um verdadeiro progresso, mas por outro lado a sua lança não podia ser mais primitiva.

msadas que rondavam pelas este Ele já caçara com muitos povos. Cada um tinha a sua forma particular de lança que, entretanto, não chegava a variar muito de uma para outra. Já a de Ayla era radicalmente diferente de todas as outras. Contudo, havia algo na lança que não lhe parecia de todo desconhecido. O pau era liso e reto com uma ponta aguda e temperada a fogo, mas não deixava de ser um instrumento tosco e grosseiro. Visivelmente não fora construído para ser arremessado, sendo mais grosso do que a lança que ele tinha usado para matar o rinoceronte. Como conseguiria aproximar-se de um animal empunhando um pedaço de pau pesado como aquele? Quando Ayla voltasse, ele perguntaria. Agora, seria tomar muito tempo. Ela estava aprendendo a língua, mas ainda falava com muita dificuldade.

Antes de Ayla partir com Huiin, Jondalar conduziu o potro para dentro da caverna, lá ficando a conversar com o animal, coçando-o e paparicando-o até ter certeza de que Ayla e a égua já estivessem longe. Parecia estranho estar sozinho na caverna, sabendo que a mulher ficaria fora quase todo o dia. Com a ajuda de seu bordão, ele se levantou. Então, cedendo à curiosidade, pegou uma lamparina e a acendeu. Deixou o bordão de lado - dentro da caverna não precisaria dele - empalmou a lamparina e se pôs a caminhar ao longo das paredes, querendo saber até onde conduziam e também para ter uma idéia da dimensão da caverna. Não houve surpresa quanto ao tamanho: era o que ele imaginara e, fora o pequeno nicho, não havia nenhuma outra passagem. O nicho, porém, o intrigava. Tudo indicava que o lugar fora recentemente ocupado por um leão da caverna, guardando, inclusive, as suas pegadas.

Depois de examinar o restante, ficou convencido de que Ayla já habitava o lugar há alguns anos. Mas os vestígios de um leão lá lhe pareciam incompreensíveis. Deveria ter-se enganado. Voltou a examinar o nicho com mais atenção. Não. Não havia dúvida, um leão morara naquele canto e não há mui to tempo.

Mais um mistério. Será que algum dia ainda conseguiria decifrar todos estes desconcertantes enigmas?

Ele apanhou uma das cestas de Ayla - pelo visto, nunca usada -resolvido a descer à praia para procurar pedras-de-fogo. Podia, pelo menos, tentar ser útil a ela. Com o potro saltando adiante dele e ajudado pelo cajado, desceu a custo o caminho da caverna. Chegando embaixo, encostou o cajado contra o paredão rochoso, próximo à pilha de ossos. Ficaria feliz quando não precisasse mais daquele pedaço de pau.

Por um momento parou para coçar e afagar o potrinho que fuçava a sua mão. Depois, soltou uma gargalhada vendo o cavalinho correr para dentro de uma poça de terra solta, onde ele e a mãe costumavam chafurdar-se deliciados. Ali, ficou a contorcer-se de patas para o ar e soltando ganidos de prazer. Quando se levantou, sacudiu-se, atirando terra em todas as direções e, em seguida, foi para um dos seus lugares prediletos, à sombra de um pé de salgueiro, onde se deitou para descansar.

Sem pressa, Jondalar se pôs a caminhar pela praia, com a cabeça abaixada, examinando as pedras no chão.

- Achei uma! - gritou excitado, assustando o potrinho. Depois se sentiu meio idiota. - Aqui está mais uma - falou sorrindo, encabulado. Então se abaixou para pegar a pedra de cor cinza-amarelada. Mas parou ao ver uma outra maior. - Há sílex nesta praia.

“Ora veja! Ela consegue as pedras para suas ferramentas bem aqui. Você também poderia arrumar um martelo de pedra e um furador e fazer deter minadas ferramentas, Jondalar! Algumas boas e afiadas lâminas e também um buril Ele tomou a ficar de pé e examinou a pilha de ossos e pedras que o rio havia atirado contra o penhasco. “É possível que eu encontre também um bom osso e um chifre de veado. Você podia inclusive fazer uma lança mais decente para ela.”

“Só que talvez ela não queria uma lança 'mais decente'. Pode ser que tenha os seus motivos para usar as que fabrica. Mas isso não quer dizer que não faça uma para você, Jondalar. Isso é melhor do que ficar sentado o dia inteiro. Você, se quisesse, podia também esculpir um pouco. Antigamente até que tinha uma boa mão para entalhar.”

Ele revirou a pilha, depois pôs-se a remexer na parte debaixo do monturo, por entre o mato crescido, à procura de pedaços de ossos soltos, caveiras e chifres. Deu com dezenas de pedras-de-fogo, enquanto procurava por um bom martelo de pedra.

A primeira batida no córtex do nódulo de sílex encontrou-o com um sorriso nos lábios. Ele não sabia o quanto estava saudoso de seu trabalho. Agora que dispunha de pederneira, pensava em um mundo de coisas que poderia fabricar. Queria uma boa faca e um machado, ambas as ferramentas com cabo. Também desejava fabricar algumas lanças e um furador para consertar as suas roupas. Ayla talvez gostasse de seus instrumentos. Iria mostrá-los a ela.

O dia, afinal, não se tinha arrastado tão enfadonho como ele temera. Antes que tivesse ajuntado e embrulhado as suas novas ferramentas num pano de couro emprestado de Ayla, o sol já começava a baixar no céu. Ao chegar a caverna, o potrinho o cutucava, pedindo-lhe atenção. Imaginava que o animal estivesse com fome. Ayla havia deixado uma papa de cereais cozi dos. O cavalinho primeiro recusou, depois acabou comendo. Mas isto foi no meio do dia. Onde estaria ela?

Quando a noite baixou, Jondalar ficou realmente preocupado. O potro estava precisando de Huiin. Ayla já devia estar de volta. Foi aguardá-la no patamar. Resolveu fazer uma fogueira para orientá-la no caso de estar perdida. “Ora, ela não iria perder-se”, pensou mas ainda assim fez a fogueira.

Já era bem tarde quando Ayla finalmente voltou. Jondalar ouviu os passos de Huiin e desceu ao seu encontro com o potrinho saltando na frente dele. Ayla apeou na praia e arrastou a carcaça de um animal para fora do jorrão. Ajeitava paus para subir pelo estreito caminho, quando Jondalar chegou ao sopé do penhasco. Ela tinha uma tocha na mão, acesa no fogo das estepes. Jondalar a segurou para que ajeitasse uma segunda caça no jorrão. Ele capengou na sua direção, querendo ajudar, mas não foi preciso. Observando-a manobrar com o peso daquela imensa massa morta, não só sentiu-lhe a força, como também percebeu como Ayla a tinha adquirido. O cavalo e o jorrão ajudavam, talvez fossem até indispensáveis, mas ela continuava sendo uma só.

O potrinho procurava, ansioso, pelas tetas da mãe, mas Ayla o afastou durante a subida.

- Você certo, Jondalar - falou ela, depois que chegaram ao patamar.-Incêndio grande. Nunca ver antes incêndio tão grande. Longe daqui. Mui to, muito animal morto.

Alguma coisa na voz de Ayla fez com que ele a olhasse atentamente. Ayla estava exausta e a carnificina que presenciara lhe deixara os olhos fundos e extenuados. Tinha as mãos negras e a cara e a roupa manchadas de fuligem e sangue. Após desatar os arreios e o jorrão, abraçou-se a Huiin, com a cabeça encostada em seu pescoço, entregando-se ao cansaço, enquanto a égua, com a cabeça abaixada e as patas dianteiras afastadas, deixava a sua cria se saciar em seus úberes intumescidos. Também o animal estava cansado.

- Esse incêndio deve ter acontecido muito longe dali. Já é tarde. Você levou o dia inteiro andando a cavalo? - perguntou Jondalar.

Ela levantou a cabeça e se virou para ele. Por um momento quase se havia esquecido da presença de Jondalar.

- Sim, dia inteiro - ela respirou fundo. Ainda não podia deixar-se levar pelo cansaço. Tinha muito o que fazer. - Muito animal morto. Outros também querer comida... muito lobo, hiena, leão. Tinha um, eu não conhecer ainda... dentes grandes - falou, pondo os dedos indicadores na boca aberta como se fossem dois longos caninos.

- Mas então você viu o tigre-dos-dentes-de-sabre! Achava que este animal não existisse. Um velho, que costumava contar histórias nas reuniões de verão, dizia ter visto um animal deste na sua mocidade, mas ninguém acreditava. Você viu mesmo um? - ele já começava a lamentar não ter podido ir.

Ela confirmou com a cabeça. Depois fechou os olhos, estremecendo com os ombros.

- Botar medo em Huiin. Tigre ficar na espreita, mas funda espantar e eu fugir com Huiin.

Os olhos de Jondalar se arregalaram com aquela descrição em termos simples, expressados de forma sincopada.

- Você conseguiu botar para correr um tigre-dos-dentes-de-sabre com a sua funda...? Nossa Mãe, Ayla!

- Muita carne. Tigre não precisar de Huiin. Funda espantar - ela tinha vontade de contar, de relatar como foi e de falar e compartilhar do medo que sentiu, mas lhe faltavam os meios. Estava cansada demais para pensar nos gestos e tentar sintonizá-los com as palavras que sabia.

“Não é de admirar que esteja tão cansada”, pensou Jondalar. “Talvez eu tenha feito uma bobagem sugerindo que ela fosse pegar animais nas terras incendiadas. Bom, de qualquer maneira ela trouxe duas corças. Mas haja nervos para enfrentar um desses tigres assassinos. Que mulher!”

Ayla deu uma olhada nas mãos, pegou a tocha que Jondalar deixara fim. cada no chão e se voltou para descer outra vez à praia. Chegando à beirada do rio, suspendeu a mão, iluminando ao redor. Arrancou um pé de caperiçoba e esmigalhou as folhas e as raízes junto com areia e água. Depois de esfregar as mãos e o tosto com essa papa, limpando a sujeira da viagem, tornou a subir.

Chegando à caverna, sentiu-se feliz ao ver que Jondalar havia posto pedras de cozinhar para esquentar. Era exatamente o que estava querendo, uma boa cuia de chá quente. Antes de ter saído pela manhã, havia preparado alguma coisa para comer e esperava que agora ele não a fizesse cozinhar. Não era o momento para se preocupar com comida. Tinha duas corças para pelar e cortar em pedaços e serem postos para secar.

Havia procurado por dois animais que não estivessem chamuscados, pois queda guardar-lhes os couros. Ao começar o trabalho, lembrou-se de que ainda não fizera as novas facas que pretendia. Com o uso, diminutas lascas iam se soltando das beiradas e as facas acabavam ficando cegas. Sempre era melhor fabricar novas e deixar as velhas para tipos de serviços que não requeriam um fio amolado, como o de raspar, por exemplo.

A faca cega punha.lhe os nervos à flor da pele. Enquanto cortava o couro, lágrimas de desânimo e cansaço escorregavam pelo seu rosto.

- Ayla, o que está acontecendo? - perguntou Jondalar.

Ela, sem responder, pôs-se a cortar o couro ainda com mais raiva. Não podia explicar. Ele tirou a faca da mão e a examinou.

- Você está cansada. Por que não se deita e descansa um pouco?

Ela disse não com a cabeça, embora desejasse desesperadamente fazer o que Jondalar dizia.

- Ter de tirar a pele, pôr carne para secar. Não poder esperar. Hienas vir roubar.

Ele não se deu ao trabalho de sugerir que poderiam trazer a carne para dentro da caverna. Não valia a pena argumentar com ela.

- Eu fico vigiando - falou Jondalar. - Você está precisando de um descanso. Entre e vá se deitar, Ayla.

Ela não podia estar mais agradecida. Ele vigiando a carne! Nem chegara a pensar em pedir uma coisa desta, pois não estava acostumada a ter gente ajudando-a. Entrou meio cambaleante na caverna e, com uma imensa sensação de alívio, caiu na cama. Queria dizer a ele o quanto se sentia agradecida, mas os seus olhos encheram-se mais uma vez de lágrimas. Sabia que qualquer tentativa neste sentido seda em vão. Ela não sabia falar!

Durante a noite, Jondalar entrou e saiu seguidamente da caverna. De vez em quando ele ficava parado ao lado da cama de Ayla, observando-a dormir. Ela estava inquieta, batendo com os braços e balbuciando em sonho coisas ininteligíveis.

Ayla caminhava em meio à neblina chorando e pedindo por ajuda. Uma mulher alta, de feições indistintas e com a figura envolta pela névoa, surgiu para tomá-la nos braços.

- Eu disse que tomaria cuidado, mãe. Mas para onde você foi? Por que não veio quando eu chamei? Chamei, chamei e você não apareceu. Onde você estava, mãe? Mãe! Não suma outra vez! Não me deixe!

A visão da mulher alta desapareceu. A neblina clareava, deixando entrever a figura de uma outra mulher, essa baixa e atarracada. As suas pernas, musculosas e fortes, eram ligeiramente arqueadas para fora, mas ela caminhava reta, erguida sobre os seus pés. O nariz, largo e adunco, ficava como um arco alto por cima da boca. A ausência de queixo era compensada por mandíbulas muito acentuadas que se projetavam para a frente do rosto. A testa baixa escorregava para trás, mas a cabeça era grande. Pescoço curto e grosso. Os supercílios salientes com espessas sobrancelhas sombreavam os grandes olhos castanhos, inteligentes e cheios de amor e tristeza.

- Iza! - gritou Ayla, acenando-lhe. - Iza, me ajude! Por favor, me ajude! - Mas Iza olhava-a com ar zombeteiro. - Iza, você não me ouve? Por que não me entende?

- Ninguém pode entendê-la, se você não falar direito - respondeu uma outra voz. Ayla viu um homem caminhando com a ajuda de um cajado. Era velho e aleijado. Um braço fora amputado na altura do ombro. O lado esquerdo do rosto estava desfigurado por uma hedionda cicatriz e pela falta do olho, mas o olho do lado direito transmitia força, inteligência e bondade.- Você precisa aprender a falar, Ayla - disse Creb por meio dos gestos que fazia só com uma das mãos. No entanto, ela o ouvia. Ele falava com a voz de Jondalar.

- Como eu posso falar, Creb? Não consigo me lembrar. Ajude-me, Creb!

- O seu totem é o Leão da Caverna - disse o velho mog-ur.

Nisso, em meio a um clarão alaranjado, um tigre saltou sobre um auroque, engalfinhando-se com o imenso bisão de pele castanho-avermelhada, que foi ao chão, berrando apavorado. Ayla, ofegante, observava o tigre-dos-dentes-de-sabre rosnar para ela, com as pernas e o focinho pingando sangue. A besta avançava na sua direção mostrando as afiadas presas que cada vez se torna varri mais longas e pontudas. Ela estava metida dentro de uma minúscula gruta, espremendo o corpo contra a parede de pedra em suas costas. Um leão da caverna rugiu.

- Não, não! - gritava ela.Uma gigantesca pata com as garras de fora alcançou-lhe a coxa esquerda, rasgando a sua carne com quatro riscos paralelos.

- Não! Não! Eu não posso... não posso! - gritava, perdida no nevoeiro redemoinhando à sua volta. - Eu não posso lembrar!

A mulher alta surgiu estendendo-lhe os braços.

- Eu vim para ajudá-la...

Por instantes, a neblina dissipou, permitindo que Ayla visse um rosto, não muito diferente do seu. Então, tomada de uma terrível náusea, viu o chão abrir-se e de dentro brotar emanações com o cheiro azedo de coisas úmidas e podres.

- Mãe! Mãeee!

- Ayla, Ayla! O que é isto? - dizia Jondalar, sacudindo-a. Ele estava no patamar quando lhe ouviu gritando palavras numa língua desconhecida. Correu para dentro mancando, numa rapidez que não se imaginava capaz.

Ayla se sentou e ele a tomou nos braços.

- Oh, Jondalar, foi um sonho horrível. Um pesadelo que sempre me vem - falou ela aos soluços.

- Já passou, Ayla. Está tudo bem agora.

- Foi um terremoto. Foi assim que ela morreu... num terremoto.

- Quem?

- A minha mãe. E Creb também. Oh, Jondalar, tenho horror de terremotos - disse tremendo, com ele abraçando-a.

Jondalar segurou-lhe nos ombros e afastou para olhá-la de frente.

- Conte sobre este sonho, Ayla.

- Desde que eu me entendo por gente que tenho esses sonhos. Eles estão sempre voltando. Num, eu estou dentro de uma pequena gruta, querendo escapar de uma enorme pata que me quer pegar. Acho que foi assim que o meu totem me marcou. Do outro, nunca pude lembrar-me. Mas, todas as vezes que eu acordava dele, era tremendo e enjoada. Hoje, pela primeira vez, consigo lembrar do que sonhei. Eu vi, Jondalar. Eu vi a minha mãe.

- Ayla, você está se ouvindo?

- O que quer dizer?

- Você está falando, Ayla. Falando!!

Ayla já soube falar. Não na língua em que estava expressando-se, mas a compreensão, o ritmo e o sentido da língua falada já fizeram parte de sua vida. Havia esquecido porque a sua sobrevivência passara a depender de um outro modo de comunicação e também porque quis apagar da memória a tragédia que a pusera sozinha no mundo. Inconscientemente, vinha memorizando mais do que o simples vocabulário que Jondalar lhe ensinava. A sintaxe, a gramática e a acentuação integravam os sons que lhe ouvia saindo da boca.

Como toda criança começando a falar, Ayla, da mesma forma, tinha a aptidão e o desejo de aprender. Faltava-lhe apenas o exercício da fala. A sua motivação, porém, era mais forte do que a de uma criança, bem como possuía uma memória mais apurada. Ela aprendia mais rapidamente. Embora não conseguisse reproduzir exatamente algumas das entonações e inflexões de Jondalar, falava como uma verdadeira nativa da língua dele.

- Estou mesmo! Eu posso, Jondalar! Posso pensar por palavras!

Foi então que os dois tomaram consciência de que se achavam abraça dos e Jondalar deixou cair os braços.

- Já amanheceu? - perguntou Ayla, reparando na luz que se filtrava pela boca da entrada e pela abertura no teto. Ela afastou as cobertas. - Nossa Mãe! Tenho de botar logo essa carne para secar - também as expressões mais particulares de Jondalar haviam sido aprendidas.

Ele sorriu. Era qualquer coisa de impressionante ouvi-la tão de repente falando, mas não deixava de ser cômico escutá-la dizendo as suas frases de uma forma extremamente original.

Ela correu à entrada. Mas então ficou paralisada. Esfregou os olhos e olhou outra vez. A carne, muito bem cortada em forma de lingüetas, estava pendurada numa série de cordas estendidas de fora a fora do patamar, com diversas pequenas fogueiras armadas em meio aos varais. Será que estava ainda sonhando? Teriam as mulheres do clã se juntado lá para ajudá-la?

- No caso de estar com fome, há um pedaço do quarto traseiro assando na fogueira - falou ele com displicência e sorrindo orgulhoso.

- Como?! Foi você quem fez isso?

- Foi - o sorriso ampliou-se ainda mais. A reação dela à pequenina surpresa que pretendera ultrapassava em muito as suas expectativas. Podia não estar ainda em condições de caçar, mas tirar a pele e cortar a carne dos animais que ela trazia era uma coisa que poderia perfeitamente fazer, sobretudo agora com as suas novas facas.

- Mas você é homem! - falou ela espantada.

A pequenina surpresa era muito mais surpreendente do que ele poderia supor. Nos povos clânicos, a aquisição dos conhecimentos necessários à sobre vivência era extraída da memória. Neles, o instinto havia evoluído na forma de lembranças das realizações e feitos de seus antepassados, um tipo de memória que armazenavam na parte posterior do cérebro e que se transmitia por herança. Como homens e mulheres haviam atravessado gerações fazendo trabalhos diferentes, as memórias de uns e outros acabaram, por sua vez, também diferenciadas. Cada sexo tinha as suas funções específicas e um não sabia realizar a do outro.

Um homem dos clãs poderia achar ou caçar uma corça e trazê-la à caverna. Podia até tirar a pele do animal, embora não tão eficientemente como uma mulher. Se realmente fosse pressionado, conseguiria cortar a carne em nacos, mas nunca lhe ocorreria fatiá-la para secar e, mesmo que lhe ocorresse, não saberia como fazê-lo. Sem dúvida alguma jamais cortaria aqueles pedaços de carne que Ayla tinha diante de seus olhos; finos e fatiados de modo a secarem uniformemente.

- Será que um homem não pode cortar uma carne? - Jondalar não ignorava que alguns povos tinham costumes diferentes no que dizia respeito à divisão de trabalho entre homens e mulheres, mas ele pensara só em ajudá-la e nunca ofendê-la.

- Nos clãs, as mulheres não caçam e os homens não preparam comida- tentou Ayla explicar.

- Mas você caça.

A observação pegou-a de surpresa. Sem perceber, ela havia assumido a posição de uma verdadeira mulher dos clãs.

- Mas... eu não pertenço realmente aos das - falou Ayla, confusa. - Eu sou como você, Jondalar. Pertenço aos Outros.

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