O Vale dos Cavalos
Capítulo 11
- Jondalar, você não é obrigado a permanecer aqui só porque eu quero ficar.
- E o que faz você pensar que estou aqui só por sua causa? -respondeu Jondalar, com mais irrita o do que pretendia deixar transparecer. Não era intenção sua parecer melindrado com o assunto, mas no comentário de Thonolan havia mais verdade do que gostaria de admitir.
Ele já esperava por isso. Apenas não queria acreditar que o seu irmão fosse realmente querer ficar e tomar Jetamio para companheira. Se bem que ele próprio se surpreendeu com a sua pronta decisão de também querer ficar com os Sharamudoi. Não gostaria de voltar sozinho. Era uma viagem longa demais para fazer sem Thonolan e havia também qualquer coisa mais do que isso. Aquilo que o movera a dar uma pronta resposta quando decidiu fazer pela primeira vez essa viagem com o seu irmão.
- Você não devia ter vindo comigo.
Por momento, Jondalar ficou imaginando como o seu irmão podia saber tão bem de seus pensamentos.
- Eu tinha o pressentimento de que nunca iria voltar para casa. Não que esperasse encontrar a única mulher que poderia amar na vida, mas eu sentia que ficaria viajando até encontrar uma razão para parar - Os Sharamudoi são boa gente... aliás, acho que a maioria das pessoas é, depois que se passa a conhecê-las. Eu não me importo de ficar aqui e me tornar um deles. Mas você, Jondalar, você é um Zelandonii, Seja lá onde você estiver, será sempre um Zelandonii. Você nunca se sentirá perfeitamente bem em outro lugar. Volte, meu irmão. Faça feliz uma daquelas mulheres que andavam atrás de você. Instale-se definitivamente num lugar e forme uma grande família e conte aos filhos de sua casa da grande viagem que fez e do irmão que não voltou. Quem sabe algum dos seus, ou dos meus, resolva talvez um dia fazer também uma longa viagem para encontrar os parentes?
- Por que eu sou mais Zelandonii do que você? O que o faz achar que não posso ser aqui tão feliz quanto você?
- Por uma razão muito simples. Você não está apaixonado. E ainda que estivesse, estaria fazendo planos para levar a mulher com você e não para ficar aqui com ela.
- Por que você não leva Jetamio conosco para casa? Ela é competente, tem força de vontade e é uma pessoa que sabe tomar conta de si mesma. Daria urna boa mulher Zelandonii. Inclusive caça com os melhores caçadores. Irá se entender muito bem com todo mundo.
- Eu não quero perder tempo. Seria um ano inteiro perdido na viagem. Encontrei a mulher com quem quero viver. Pretendo colocar a minha cabeça no lugar, me estabelecer e dar uma oportunidade a Jetamio para constituir família.
- Onde está aquele meu irmão que iria viajar até a foz do Grande Rio Mãe?
- Algum dia chegarei lá. Não há pressa. Você sabe que não fica tão longe assim. Talvez vá com Dolando na próxima vez em que ele for buscar sal. Poderia levar Jetamio comigo. Acho que ela gostaria, mas sei que não irá querer ficar muito tempo longe daqui. A casa significa muito para ela. Jetamio nunca conheceu a sua mãe verdadeira, e quase morreu de paralisia. O seu povo é importante para ela. E eu entendo, Jondalar, afinal tenho um irmão parecido.
- Por que você está tão certo de tudo isso? - Jondalar abaixou os olhos, evitando o olhar do irmão. - Por que acha que não estou apaixonado? Serenio é urna bela mulher e Darvo... - ele sorriu, fazendo desaparecer um pouco as rugas de preocupação em sua testa - precisa ter um homem por perto. Talvez algum dia se tome até um bom cortador de sílex.
- Ora Jondalar, não é de hoje que eu o conheço. Mesmo vivendo com uma mulher, isso não significa que esteja apaixonado por ela. Eu sei que você gosta do garoto, mas não é razão para ficar aqui e se comprometer com a mãe. Até que esse é um bom motivo para tomar Serenio como companheira, mas não uma razão para ficar aqui. Volte e, se quiser, ache uma mulher mais velha e cheia de filhos para transformar todos em cortadores de sílex. Mas vá para casa, Jondalar.
Antes que Jondalar pudesse responder, entrou correndo, ofegante, um garoto, perto de seus dez anos. Era alto para a sua idade, mas magro, com um formato de rosto comprido e os traços delicados e finos demais para um menino. Os cabelos castanho-claros eram lisos e não muito espessos, mas os olhos cor de aveia eram vivos e brilhando com inteligência.
- Jondalar! - exclamou ele. - Estive procurando-o por toda parte. Dolando já está pronto e os homens do rio estão esperando.
- Diga que já estamos indo, Darvo - falou Jondalar em sharamudoi.Ele se virara para seguir o garoto que tinha saído correndo na frente, mas parou. - Acho que a praxe manda que eu expresse os meus votos de felicidade - disse com um sorriso no rosto que não deixava dúvidas quanto à sua sinceridade. - De uma certa forma, eu já esperava que você fosse formalizar a sua união. Mas quanto a se ver livre de mim, pode esquecer. Não é todo o dia que um homem tem um irmão encontrando a mulher de seus sonhos. Não perde ria por nada no mundo a sua cerimônia de núpcias.
O sorriso de Thonolan iluminou todo o seu rosto.
- Você sabe, Jondalar, a primeira coisa que eu pensei quando vi Jetamio foi que ela era um belo espírito da Mãe que tinha vindo para tomar agradável a minha viagem para o outro mundo. E eu iria com ela sem a menor hesitação... e ainda vou.
Enquanto Jondalar se punha atrás de Thonolan para sair, ele tinha a testa franzida. Não gostava de pensar no seu irmão como um homem capaz de seguir uma mulher até a morte.
O caminho, passando por uma densa floresta, ia em ziguezague, cheio de altos e baixos, de modo a suavizar a descida da íngreme encosta. Enquanto os dois subiam para o alto da montanha, a passagem se estreitava, fechada por um paredão rochoso que os punha à beira do precipício, quando, então, contornava o penhasco, numa estradinha laboriosamente cavada na pedra, que mal dava passagem para dois. Jondalar ia atrás de Thonolan. Ele ainda sentia um aperto na virilha cada vez que passava por ali e olhava embaixo o largo e profundo Grande Rio Mãe, apesar de já estar lá desde o último inverno, morando com os Shamudoi, da Caverna de Dolando. Contudo, aquele acesso ainda era melhor do que os outros.
Nem todas as pessoas designadas pelo nome da caverna viviam em caverna. Era comum encontrar cabanas erguidas nos campos. Mas os abrigos naturais nas rochas eram procurados e valorizados, sobretudo nas épocas mais duras do inverno. Uma caverna ou uma pedreira em balanço podia ser uma localização desejável, que em outras condições seria rejeitada. Dificuldades aparentemente insuperáveis tinham de ser sobrepujadas para se conseguir uma dessas moradas permanentes. Jondalar já vivera em cavernas situadas em íngremes penhascos com estreitas passagens, beirando precipícios, mas nenhuma como esta dos Shamudoi.
Em estágios anteriores, a crosta da terra composta de rochas sedimentares, calcárias e xisto erguera-se na formação das montanhas de picos nevados. Mas os cristais de rocha de maior dureza, expelidos durante as erupções vulcânicas - causadas pelas convulsões da terra - foram misturados as rochas menos consistentes. Toda a planície por onde haviam passado os dois irmãos, no verão anterior - que já fora a bacia de um vasto mar interno - estava cercada de montanhas. Ao longo das eras, o canal do mar cavou sua passagem através de uma serra -. outrora ligada à grande cadeia de montanhas do norte - e secou a bacia.
As montanhas, entretanto, somente recuaram onde a matéria se mostrava inconsistente, permitindo nada mais do que uma estreita garganta limitada por rochedos impenetráveis. O Grande Rio Mãe mais a Irmã e muitos canais e riachos passavam todos, formando um fabuloso caudal, pela mesma garganta. Em seu curso de mais de 150 quilômetros, havia uma série de quatro gargantas que faziam o portal para os terrenos baixos, quando então o rio encontra ria o seu destino. Em certos pontos, o rio chegava a ter um quilômetro de largura, em outros nem 200 metros havia a separar os penhascos.
No lento processo de abrir um caminho de mais de uma centena de quilômetros, atravessando cadeias montanhosas, as águas do mar em recuo formaram rios, cataratas, lagunas e lagos, muitos dos quais deixariam marcas. No alto do penhasco à esquerda, próximo à primeira das estreitas gargantas, achava-se um vasto recôncavo: uma larga plataforma com uma superfície surpreendentemente plana. Lá existira uma pequena baía, o recôncavo de um lago, formado pela ação constante das águas e do tempo. O lago há muito desaparecera, deixando um terraço em forma de U, muito acima do atual nível das águas, e tão alto que nem mesmo durante as enchentes de primavera, que alteravam enormemente o nível do rio, esse se aproximava de sua borda.
Um grande campo coberto de relva circundava o íngreme terraço, embora a camada de terra não fosse profunda, como se podia ver por alguns buracos rasos usados para cozinhar. A uma certa distância começavam aparecer, em meio ao relvado, arbustos e árvores que se agarravam aos paredões escarpados, subindo por estes. Próximo à face posterior do penhasco, as árvores atingiam tamanho respeitável e o matagal tornava-se mais denso, cobrindo a encosta. De lado, chegando perto da muralha do fundo, estava o melhor do terraço: uma pedreira de arenito que projetava-se em balanço, deixando um vão embaixo. Ali encontravam-se cabanas de madeira, dividindo a área em unidades habitacionais, posicionadas ao redor de um espaço mais ou menos circular, com uma casa principal e algumas outras menores. Era a entrada e o lugar de reuniões.
Do lado oposto, o terreno apresentava outra valiosa característica: uma cascata alta e fina que descia do rebordo do penhasco, desenhando-se pelas pedras para bater sobre uma rocha saliente e, dali, cair num gracioso lago, fluindo ao longo do paredão, até a extremidade do terraço, onde Dolando e mais alguns homens esperavam por Thonolan e Jondalar.
Dolando, ao ver os dois surgindo na curva da pedreira, acenou para eles e, em seguida, começou a descer o caminho rente ao precipício. Jondalar ia atrás do irmão. Quando ele chegou ao paredão do fundo, Thonolan já estava descendo por uma precária trilha margeando o riacho que rolava pela encosta, passando por uma série de patamares, até encontrar o rio embaixo. Certos trechos da trilha seriam intransitáveis se não fossem os degraus pacientemente esculpidos nas rochas e uma grossa corda para servir de corrimão. Só o borrifar constante da água já bastava para tornar o caminho perigosamente escorregadio, até mesmo no verão. No inverno, era uma massa intransponível de pingentes congelados.
Na primavera, apesar de mudado pelas corredeiras e haver fragmentos de gelo dificultando a passagem, os Sharamudoi - tanto os Shamudoi, caça dores de camurças, como os Ramudoi, a população ribeirinha - subiam e desciam por lá como os antílopes que habitavam a região. Enquanto observava o seu irmão fazendo a descida com ar displicente, como se tivesse andado por ali toda a sua vida, Jondalar pensava que pelo menos numa coisa Thonolan tinha razão. Ele, ainda que passasse lá o resto de sua vida, jamais se acostumaria com aquele caminho que levava ao terraço no alto da montanha. Deu uma olhada para o rio, revolvendo-se tumultuosamente lá embaixo, e voltou a sentir o costumeiro aperto nas virilhas. Então respirou fundo, cerrou os dentes, e avançou pelo caminho.
Diversas vezes deu graças por haver ali a corda, quando sentia o seu pé escorregando sobre algum pedaço de gelo invisível. Só quando chegou lá em baixo é que soltou, aliviado, a respiração. O ancoradouro, feito de troncos amarrados uns aos outros, boiando e se sacudindo com a correnteza, era de uma estabilidade reconfortante. Sobre a plataforma que o cobria em mais da metade havia uma série de construções de madeira, parecidas às que existiam debaixo da pedreira no terraço da montanha.
Ao passar pela plataforma, Jondalar foi cumprimentando os moradores das casas flutuantes, enquanto na ponta do ancoradouro Thonolan preparava-se para entrar num dos barcos lá estacionados. Logo que Jondalar entrou, soltaram as amarras e começaram a subir o rio, tocando o barco com remos de cabos compridos. Conversava-se o mínimo. As correntezas com o degelo da primavera tornavam-se ainda mais fortes e profundas - Os homens de Dolando limitavam-se a vigiar os escombros flutuando, enquanto os Ramudoi remavam. Jondalar instalou-se na parte traseira do barco e ali ficou pensando naquela singular relação que os Sharamudoi mantinham entre si.
Os povos que havia conhecido tinham se especializado segundo critérios diferentes, e ele muitas vezes se perguntava o que levava as pessoas a se decidirem por uma determinada forma de trabalho. Em algumas populações, os homens estavam habituados a realizar certos tipos de serviços e as mulheres outros. Com o decorrer do tempo, as funções foram ficando tão associadas ao sexo que nenhuma mulher faria aquilo que era considerado como trabalho de homem, e nenhum homem faria qualquer coisa tida como uma atribuição feminina. Já em outras, as obrigações e os serviços domésticos, a tendência era basear-se no critério da idade. Aos jovens, caberia os trabalhos mais pesados, deixando-se aos velhos as ocupações mais sedentárias. Em certos grupos, a educação das crianças estava totalmente a cargo das mulheres, enquanto em outros, grande parte da responsabilidade de orientar e educar cabia às pessoas de idade, sem distinção de sexo.
Com os Sharamudoi, a especialização se fez de uma forma que determinou a formação de dois grupos distintos, mas ligados por relação de parentes co. Os shamudoi caçavam camurças e outros animais nos altos picos das montanhas e penhascos, enquanto os ramudoi especializaram-se na caça - pois o processo empregado era mais ode uma caçada do que o de uma pescaria - do enorme esturjão que chegava a medir nove metros de comprimento. Também pescavam grandes carpas, percas e lúcios. A divisão do trabalho os levou a ser duas tribos distintas, mas as necessidades mútuas os conservavam unidos.
Os shamudoi haviam desenvolvido grandemente a técnica de tratar o couro da camurça. As belas peles, macias e aveludadas, que produziam eram únicas e muitas tribos vinham de longe exclusivamente para negociá-las. O segredo de sua fabricação, eles o mantinham rigorosamente guardado, mas Jondalar conseguiu saber que usavam no processo de curtição o óleo de certos peixes. Com isso os shamudoi precisavam manter estreito relacionamento com os ramudoi. Por outro lado, os barcos feitos de carvalho, com encaixes de pinho e faia e manchões laterais, presos por estilhas de teixo e salgueiro, faziam com que a população ribeirinha precisasse se valer dos conhecimentos dos moradores das montanhas para achar-lhes as madeiras adequadas.
Cada família shamudoi tinha a sua contrapartida ramudoi e o relaciona mento entre as duas tribos fundamentava-se numa complexa relação de parentesco que podia ou não se fazer através de laços de sangue. Jondalar ainda não sabia ao certo como se processavam essas relações, mas depois que o seu irmão e Jetamio se tomassem companheiros, Thonolan seria aquinhoado com uma infinidade de “primos” pertencentes aos dois grupos, embora Jetamio não tivesse nenhum parente vivo que fosse relacionado a ela pelo sangue. Havia algumas obrigações mútuas que se esperava dos dois; apenas no caso de Thonolan isso envolvia pouca coisa mais do que o uso de certas formas de tratamento quando ele se dirigisse aos membros de sua nova família.
Como não estivesse selada a sua união, ele ainda tinha toda a liberdade de partir, se assim o desejasse, mas se ficasse seria muito bem acolhido. No entanto, os laços que uniam os dois grupos eram tão fortes que, caso as mora- aias se tornassem demasiadamente pequenas e uma ou duas famílias dos shamudoi resolvessem mudar pan iniciar uma nova Caverna, as contrapartidas ramudoi teriam também de ir junto.
No caso de uma das famílias querer mudar e a outra não, se fazia necessário a celebração de certos ritos sacramentando a troca de laços. Em princípio, os shamudoi poderiam insistir e os ramudoi seriam obrigados a segui-los, pois em questões relacionadas à terra a decisão ficava com os shamudoi. Os ramudoi, entretanto, tinham também o seu peso. Poderiam, por exemplo, recusar a transportar os seus parentes shamudoi ou não querer ajudá-los a pro curar um bom lugar para morar, uma vez que tudo que se referisse à água era da competência deles. Na prática, porém, as decisões de questões importantes, como a mudança de moradia, eram em geral tomadas em conjunto.
Havia ainda outros laços - referentes tanto à vida prática como espiritual - que fortaleciam a relação, muitos dos quais centrados nas embarcações. Apesar de que as decisões nesse campo fossem prerrogativa dos ramudoi, os barcos, como bem, pertenciam aos shamudoi e, como tal, eles tinham uma participação nos produtos obtidos com o seu uso, mas proporcionalmente ao que davam em troca. Novamente, na prática, a questão se passava de forma menos complicada do que regiam as regras para resolver disputas. A participação subentendida do produto e o respeito pelos territórios, direitos e a competência do outro faziam com que fossem raras as disputas.
A construção dos barcos eram o resultado do esforço conjunto, pois os shamudoi entravam com os produtos da terra e os ramudoi com a sua experiência do rio. Isso dava aos shamudoi o legítimo direito de reivindicar o uso da embarcação. Os rituais reforçavam ainda mais os laços, já que nenhuma mulher, fosse ela de qualquer dos dois grupos, poderia ter como companheiro um homem que não pudesse reclamar os seus direitos sobre uma embarcação. Thonolan, desta forma, teria de ajudar na construção ou nos reparos de um barco para poder unir-se à mulher que amava.
Jondalar também aguardava ansioso a construção do barco. Achava-se curioso sobre o inusitado meio de transporte, querendo saber como era fabricado, impulsionado para dentro da água e conduzido. No entanto, preferia que a sua curiosidade fosse satisfeita por algum outro motivo e não pelo fato de seu irmão ter resolvido se ligar a uma mulher shamudoi. Mas desde o princípio aquele povo o interessara. A facilidade com que navegavam pelo rio e com que caçavam o gigantesco esturjão demonstrava um lado de desenvolvi mento que nunca encontrara em nenhum outro povo, e tampouco ouvira falar.
Eles conheciam o rio em todos os seus aspectos. Jondalar só conseguira atinar com o seu real volume quando viu as águas dos outros cursos reunidas num mesmo caudal e, assim mesmo, sem que estivessem no seu ponto mais alto. Contudo, não foi olhando do barco que o tamanho do rio se tornou claro que ele. Durante o inverno, quando a trilha da catarata se cobria de gelo, tornando-se intransitável, mas com os ramudoi ainda embaixo, sem precisar de subir para viver com os seus parentes montanheses, a comunicação se fazia por meio de cordas e enormes tabuados pendurados na borda do terraço dos shamudoi e abaixados até o ancoradouro dos ramudoi.
Quando ele e Thonolan chegaram, a cascata ainda não estava congelada, mas o seu irmão não tinha condições de subir pela precária trilha, de modo que foram os dois içados dentro de uma cesta.
Foi então que ele viu pela primeira vez o rio em perspectiva e começou a entendê-lo em toda a sua magnitude. O sangue sumira-lhe do rosto e o coração batia forte, olhando para baixo e vendo a água e as montanhas contornando-a na margem oposta. Ele se viu maravilhado, profundamente reverente diante da Mãe que se formava de muitas nascentes num portentoso ato da criação.Ele não demorou a saber da existência de outro caminho para o terraço. Esse era mais fácil, mas com a desvantagem de ser mais comprido e não tão espetacular. Fazia parte de uma trilha que seguia do oeste para leste, sobre os passos das montanhas, e levava á vasta planície junto ao rio no extremo oriental do desfiladeiro. Aparte ocidental da trilha nas fraldas das montanhas, ainda em terras altas, conduzindo à série de quatro gargantas, era mais acidentada, mas em alguns pontos descia até a margem do rio. E naquele momento eles justamente se dirigiam para um desses trechos de terreno. A barca começava a largar o centro do rio para ir ao encontro de um grupo de pessoas que, enfileiradas na praia de areia cinza, lhes acenavam com gestos largos. Foi então que Jondalar, ouvindo uma exclamação, se viu despertado de seus pensamentos e olhou ao redor.
- Jondalar! Olhe ali - falou Thonolan, apontando para frente.
Com sinistra refulgência, vinha vindo para cima deles, trazido pela cor rente central, a massa farpada e faiscante de um colossal iceberg Ao refletir-se, as facetas de cristal nas bordas translúcidas criavam em volta do monólito um halo de vibrações fantasmagóricas. Nos sombrios recessos de um tom azul-esverdeado, o carne indestrutível. Os homens, com a mestria de experimenta dos remadores, mudaram a direção e a velocidade do barco. Depois, levantando os remos da água, pararam para observar a luminosa muralha de gelo deslizar a sua fria indiferença.
- Nunca dê as costas para a Mãe - ouviu Jondalar um dos remadores dizendo.
- Acho que foi trazida pela Irmã - comentou um outro ao lado.
- Como o... gelo chegou aqui, Carlono? - perguntou Jondalar.
- Iceberg - respondeu Carlono, ensinando-lhe apalavra. -Talvez tenha vindo daquelas montanhas, de alguma geleira se mexendo por lá - falou, apontando com o queixo por cima do ombro na direção dos cumes brancos e voltando, em seguida, a remar. - Ou, quem sabe, se de algum lugar bem mais ao norte e trazido para cá pela Irmã que é muito mais profunda e não tem tantos canais... principalmente nesta época do ano. Esse iceberg é muito maior do que imaginamos. Uma grande parte dele vai debaixo da água.
- Incrível... um iceberg com este tamanho e vindo de tão longe - falou Jondalar.
- Todas as primaveras eles surgem. Nem sempre tão grandes como es te. Mas não demoram muito para se derreterem. O gelo está puído e basta uma boa trombada para se espatifarem inteiramente. Mais para frente há uma pedra bem no meio do rio, pouca coisa acima da superfície. Não acredito que esse icerberg chegue a ultrapassar a garganta - acrescentou Carlono.
- Uma boa trombada e somos nós que vamos espatifar - disse Markeno.
- Por isso é que nunca se deve dar as costas para a Mãe.
- Markeno tem razão - falou Carlono. - Nunca faça pouco caso dela. Esse rio acaba sempre achando uma maneira desagradável de se fazer notado.
- Conheço algumas mulheres assim. E você também, não é, Jondalar?
Jondalar logo se lembrou de Marona. Pelo sorriso de seu irmão, deduziu de quem Thonolan estava falando. Já há algum tempo que ele não pensava na mulher que contava tornar-se sua companheira na Reunião de Verão. Algum dia ainda voltaria a vê-la? Pensou com uma pontinha de saudade. Marona era uma bela mulher, mas Serenio também. Talvez ele devesse pedi-la. Sob certos aspectos, Serenio era até melhor do que Marona. Ela era mais velha do que ele, mas mulheres mais velhas sempre o haviam atraído. Por que não tomá-la para companheira na mesma ocasião em que Thonolan fosse unir-se a Jetamio e também ficar por aqui?
“Há quanto tempo já estamos fora? Mais de um ano... foi na primavera passada quando partimos da Caverna de Dalanar. E Thonolan agora não pretende voltar mais. Está todo mundo muito empolgado com o caso dele e Jetamio. Mas talvez você deva esperar, Jondalar, não queira roubar a festa dos dois... Além disso, Serenio poderia achar que estou fazendo isso só por espírito de imitação... - Talvez mais tarde...
- Por que demoraram tanto? - perguntou alguém da praia. - Já faz tempo que estamos esperando e viemos pelo caminho mais comprido.
- Tivemos de procurar por esses dois. Acho que eles estavam tentando esconder-se - respondeu Markeno, rindo.
- Tarde demais para esconder-se, Thonolan. Você já foi pescado por essa aqui - disse um homem que vinha caminhando pela água atrás de Jetamio, para ajudar a trazer o barco à praia. Ele fazia gestos de estar arremessando um arpão e puxando-o para encaixar o anzol.
Jetamio corou, mas depois sorriu.
- Bom Barono, você tem de admitir que apanhei um peixão.
- Você é boa pescadora. Antes, ele sempre conseguiu escapar - falou Jondalar.
Todos riram. Ainda não dominava bem a língua, mas as pessoas gostaram de vê-lo participando da conversa. Ele entendia melhor do que falava.
- E o que se precisa para pescar um grandão como você, Jondalar? -perguntou Barono.
- A isca certa - gracejou Thonolan, sorrindo para Jetamio.
O barco foi trazido à estreita praia de cascalho e, após os ocupantes terem saltado, suspenderam a embarcação, carregando-a por uma encosta até chegarem a uma grande área cercada por uma densa floresta de carvalho. Visivelmente o lugar era utilizado há muitos anos. Toras, tocos e fragmentos de madeira espalhavam-se pelo chão. A fogueira ficava em frente a uru galpão erguido num dos lados da clareira, e combustível ali era o que não faltava. Alguns troncos, por permanecerem tanto tempo lá, haviam apodrecido. Percebia-se atividade por toda parte. Várias áreas do terreno estavam ocupadas por barcos em diferentes estágios de fabricação.
Aquele que os trouxera foi posto no chão, e logo os recém-chegados se dirigiram para a beirada da fogueira, acenando-lhes convidativamente com o seu calor. Alguns dos que já se achavam lá pararam para se juntar ao grupo. Um perfumado chá de ervas fumegava num cocho, cavado numa tora, que rapidamente se esvaziou com as cuias que se iam mergulhando dentro. Perto, uma pilha de pedras redondas para cozinhar, trazidas da margem do rio e, atrás do cocho, jogado no meio de um charco lamacento, um bolo de folhas encharcadas que já não se sabia mais de que plantas tinham sido.
Terminado o chá dentro do cocho, prepararam-se para enchê-lo outra vez. Dois homens rodaram a grossa tora para esvaziá-la da borra no fundo, enquanto um terceiro colocava pedras para esquentar na fogueira. O chá era mantido no cocho, à disposição de quem quisesse se servir e as pedras estavam sempre quentes para aquecer as cujas quando estas se esfriassem. Depois de fazer muitas troças do futuro casal, as pessoas resolveram deixá-lo em paz e cada uma largou de lado a sua cuia de madeira ou fibra impermeável, voltando ao que fazia antes. A Thonolan, para iniciá-lo nos mistérios da construção de barcos, deram um trabalho que não exigia habilidade: derrubar árvores.
Jondalar, engajado numa conversa com Carlono sobre o assunto favorito do chefe dos ramudoi - barcos - encorajava-o com perguntas.
- Qual a melhor madeira para barcos?
Carlono, satisfeito consigo e com o interesse de Jondalar, um rapaz visivelmente inteligente, passou, animado, a dar explicações.
- A madeira verde de carvalho é a melhor. É resistente, flexível e, ao mesmo tempo, forte, sem ser pesada. Quando seca, perde a flexibilidade, mas se pode cortá-la no inverno e guardar as toras dentro de poças ou nos brejos, por um ano ou até mesmo dois. Mais tempo do que isso ficará muito encharcada e difícil de ser trabalhada. O barco depois de pronto poderá ter problemas de equilíbrio na água. Mas o importante é saber escolher a árvore certa - enquanto falava, Carlono tomava o rumo da floresta.
- Pelo tamanho, não é? - perguntou Jondalar.
- Não só pelo tamanho. Ë necessário que a árvore seja alta e tenha o tronco reto para a construção do fundo e dos pranchões laterais. - Carlono conduziu Jondalar ao bosque formado por uma massa compacta de carvalhos.
Nas florestas muito densas as árvores crescem procurando pelo sol.
- Jondalar! - era a voz de Thonolan, chamando-o. Surpreso, ele levantou os olhos vendo Thonolan e alguns outros ao redor de um imenso carvalho, cercado de outras árvores altas e retas, cujos galhos começavam a abrir-se no alto do tronco. - Que bom vê-lo por aqui! O seu irmãozinho anda precisando de um pouco de ajuda. Você sabe que, enquanto não for feito um novo barco, Jetamio não poderá ser a minha companheira e isso aqui - falou apontando para a árvore - tem de ser derrubado para os “cintados”. Só que eu não sei o que seja isso. Veja o tamanho desse mamute! Não sabia que árvores podiam crescer tanto assim... vai levar uma eternidade para cortá-la. Quando este barco ficar pronto, já vou estar velho demais para ter uma companheira.
Jondalar sorria, sacudindo a cabeça.
- Cintados são as tábuas com que se constrói as laterais dos barcos maiores. Se pretende ser um sharamudoi, devia já estar sabendo dessas coisas.
- Vou ser um shamudoi. Negócio de barco eu deixo para os ramudoi. Caçar camurça é uma coisa de que entendo. Já cacei muitos íbices e carneiros nos altos das montanhas. Como é? Vai ajudar agora, ou não? Estamos precisando de braços fortes.
- Para não ver a pobre Jetamio esperando por um velhinho encarquilhado, acho que vou. Além disso me interessa saber como se faz -falou Jondalar. Em seguida, virou-se para Carlono e disse em sharamudoi: -Eu ajudar Thonolan. Mais tarde, conversar outra vez, certo?
Carlono sorriu concordando e se afastou para observar as primeiras lascas de madeira saltarem. Mas ele não se demorou lá. Levariam quase todo o dia para abater o gigante da floresta e, quando isso acontecesse, estaria todo mundo reunido ao redor da árvore.
Começaram a saltar os estilhaços arrancados da árvore pelos golpes que partiam do alto e desciam quase perpendicularmente para encontrar os cortes horizontais, feitos mais embaixo. O machado de pedra não fazia cortes pro fundos. A lâmina tinha de ser forte, por isso era um tanto grossa e não pene trava fundo na madeira. Ao passarem a trabalhar nas proximidades do centro do tronco, a madeira parecia mais carcomida do que propriamente cortada; no entanto a cada lasca saída, um pouquinho mais perto iam ficando do coração do velho gigante.
O dia já chegava ao seu f quando deram um machado a Thonolan. Todos pararam com o que estavam fazendo para se postar perto da árvore. A Thonolan cabia a honra de dar os últimos golpes. Então, ouvindo os estalidos denunciadores e vendo a imensa árvore balançando, ele deu um pulo para trás. Primeiro, lentamente, depois pegando impulso, o magnífico carvalho tombou, estraçalhando os galhos das velhas árvores vizinhas e carregando consigo as menores, O colosso rachado perdera a resistência e caiu estrondosamente, ricocheteando no chão, por alguns instantes ainda tremendo, até jazer imóvel.
O silêncio invadiu a floresta. Mesmo os pássaros calaram-se como que tomados de profunda reverência. O velho e majestoso carvalho, separado de suas raízes vitais, fora vencido e, em meio às sombras da floresta muda, a visão da chaga viva em seu toco. Então, solene e em silêncio, Dolando ajoelhou se e, com as mãos, cavou um buraco no toco, onde depositou uma bolota.
- Que Mudo, a nossa abençoada Mãe Terra, aceite essa oferenda e dê vida a uma nova árvore - falou, cobrindo a semente com terra e despejando em cima uma cuia de água.
Quando começaram a subir a longa trilha que levava ao terraço na montanha, o sol já ia no horizonte pondo rajas de ouro nas nuvens. Depois, antes de alcançarem o velho platô, as cores no espectro transmudavam do ouro para bronze e, por fim, para o malva-escuro. Ao fazerem a curva do paredão rochoso, Jondalar sentiu-se tocado pela beleza sem limites do panorama à sua frente. Deu alguns passos junto da borda do penhasco, pelo menos uma vez sem reparar no precipício, tão emocionado estava com a vista. O Grande Rio Mãe, sereno e copioso, espelhando as oscilações do céu e as sombrias montanhas arredondadas na outra margem, via-se animado em sua superfície luminosamente acetinada pelos movimentos das correntezas em seu interior.
- É bonito, não é?
Jondalar se virou na direção da voz e sorriu para a mulher que se acercara dele.
- Muito bonito, Serenio.
- Essa noite haverá um banquete em honra de Jetamio e Thonolan. Eles estão esperando. Você deve ir.
Ela se voltou para ir embora, mas ele segurou a sua mão, prendendo-a, observando as últimas luzes do sol refletindo em seus olhos.
Nela havia uma plácida gentileza, um sentido de intemporalidade que nada tinha a ver com a sua idade. Era apenas alguns anos mais velha do que ele. Tampouco seria alguma coisa relacionada à renúncia, antes à falta de exigência e esperança. A morte do primeiro companheiro, depois a de seu segundo amor, antes mesmo de se unir a este, e por fim a perda do filho que abençoaria a segunda união a haviam afinado com a dor. E, aprendendo a conviver com as suas tristezas, desenvolveu a capacidade de absorver a dos outros. Quaisquer que fossem as mágoas ou decepções, as pessoas as levavam para Serenio, que nunca as deixava sem algum alívio ou consolo, pois que o seu gesto de compreensão nada pedia em troca.
Pelo efeito calmante que exercia nos doentes ou nas pessoas aflitas por causa de seus entes queridos, Serenio era freqüentemente chamada para ajudar o shamud. Com isso, acabou adquirindo alguns conhecimentos médicos. Foi assim que Jondalar veio a conhecê-la, quando ela ajudava o curandeiro no tratamento de Thonolan. Quando o seu irmão começou a andar, já suficiente mente recuperado para poder ir viver na casa de Dolando e Roshario, e sobre tudo na companhia de Jetamio, Jondalar foi morar com Serenio e o seu filho Darvo. Ele não havia pedido e nem ela esperava que o fizesse.
“Os seus olhos parecem sempre pensativos”, falou ele para si mesmo, enquanto se curvava para cumprimentá-la com um beijo, antes de se dirigirem à fogueira. Ele jamais conseguira penetrar nas profundezas daquele olhar. “Sou-lhe grato por isso”, pensou, afastando imediatamente a idéia indesejada. Era como se ela o conhecesse melhor do que ele próprio se conhecia. Como se ela soubesse de sua incapacidade de se dar por inteiro, de apaixonar-se, tal co mo Thonolan fora capaz. Chegava inclusive a dar a impressão de saber que seu modo de suprir a deficiência no plano afetivo era fazendo amor com uma perícia tão consumada que a fazia sempre sair exausta das relações Ela não era propriamente reservada. Sorridente, comunicava-se com facilidade e não de todo inacessível. As únicas vezes que ele surpreendia alguma expressão mais reveladora era quando a via olhando para o filho.
- Por que demoraram tanto? - falou o garoto, vendo-os chegar. - Já estamos prontos para comer, mas ninguém quer começar sem vocês.
Darvo havia visto Jondalar com a sua mãe na borda do penhasco, mas preferiu não interferir. De início, ficara ressentido por não ter mais a atenção exclusiva da mãe. Depois, porém, descobriu que, ao invés de estar dividindo com um outro o tempo da sua mãe, ganhara mais uma pessoa para atendê-lo. Jondalar conversava com ele, contava-lhe as suas aventuras de viagem, falava-lhe sobre caçadas, sobre os costumes de seu povo e também sabia ouvi-lo com sincero interesse. E o melhor, Jondalar começara a mostrar-lhe algumas técnicas de fabricar instrumentos que o garoto pegava com grande facilidade, para surpresa de todos os dois.
Darvo ficou felicíssimo quando Thonolan resolveu tomar Jetamio para companheira e se estabelecer definitivamente lá, pois o seu grande desejo era o de que Jondalar fizesse o mesmo em relação à sua mãe. Muito consciente de seu papel, tratava de colocar-se fora do caminho dos dois sempre que os via juntos, fazendo o possível para não atrapalhar a relação. Não imaginava que com isso, positivamente, estava fomentando-a.
De fato a idéia estivera no pensamento de Jondalar o dia inteiro. Volta e meia percebia-se avaliando Serenio. Cabelos mais para louro do que castanho, um pouco mais claro do que o do filho. Sem ser magra, dava essa impressão devido à altura. Era das poucas mulheres que conhecia que lhe batia pelo queixo. E ele gostava. Achava confortável a altura dela. A semelhança entre mãe e filho era grande, até mesmo nos olhos cor de avelã, embora faltasse ao garoto a expressão de placidez. E nela os traços finos ficavam bonitos.
“Poderia ser feliz com ela”, pensou. 'Por que não pedi-la?” E naquele momento mesmo realmente desejava-a, queria viver com Serenio.
- Serenio?
Ela o olhou, sentindo-se cativa daqueles olhos inacreditavelmente azuis, expressando necessidade e desejo. A força de seu carisma -inconsciente, por isso mesmo mais poderoso - apanhou-a desprevenida, rompendo a muralha que laboriosamente erguera para defender-se do sofrimento. Estava aberta, vulnerável, quase que contra a vontade, sentindo-se atraída.
- Jondalar... - A aceitação estava implícita no timbre da voz.
- Eu... pensar muito hoje - ele lutava com os problemas da língua. A maioria dos conceitos podia expressá-los, mas estava tendo dificuldade em transmitir o pensamento. - Thonolan... meu irmão... viemos de longe sempre juntos. Agora, ele ama Jetamio, deseja ficar. Se você... eu quero.
- Ora vocês dois aí. Todo mundo está com fome e a comida... era Thonolan, mas logo se interrompeu ao perceber os dois muito juntos, perdi dos um nos olhos do outro. - Desculpe, irmão. Acho que estou atrapalhando.
Eles se afastaram, o momento tinha passado.
- Tudo bem, Thonolan. Não devíamos estar deixando todo mundo esperar. Podemos conversar depois - disse Jondalar.
Quando voltou a olhar para Serenio, ela parecia surpresa e confusa, co mo se não compreendesse o que lhe acontecera, esforçando-se para escudar-se outra vez em sua serenidade.
Eles foram para a área abrigada pela pedreira de arenito, sentindo o calor da grande fogueira armada na casa principal. À chegada dos dois, todas as pessoas se acomodaram em tomo de Thonolan e Jetamio, que se postavam de pé no espaço central vazio, atrás da fogueira. A festa de compromisso dava início a um passo marcado por uma série de rituais que culminariam com a cerimônia matrimonial. Neste meio tempo, a comunicação e o contato entre Thonolan e Jetamio seriam extremamente vigiados.
Um caloroso sentido de comunidade permeava a atmosfera envolvendo o novo casal. Thonolan e Jetamio se deram as mãos, vendo apenas perfeição nos olhos um do outro, nada querendo senão proclamarem a sua felicidade ao mundo e selarem o seu compromisso de uma vez. O shamud deu um passo à frente. Os dois se ajoelharam para que o curandeiro e guia espiritual lhes colo casse na cabeça uma coroa de pilriteiros floridos. O casal foi, então, sempre de mãos dadas, dar três voltas ao redor das pessoas, contornando a fogueira, para depois ser trazido ao seu lugar que fechava com o amor deles o círculo que unia a Caverna dos Sharamudoi.
O shamud voltou-se para os dois e, com os braços dirigidos ao alto, falou:
- O círculo começa e termina no mesmo ponto. A vida também é como o círculo. Começa e termina na Grande Mãe, a Primeira Mãe que em sua solidão criou todas as formas de vida - era uma voz vibrante que se fazia ouvir em meio ao silêncio das pessoas e estalidos das chamas. -Abençoada seja Mudo, começo e fim de nossas vidas. Dela viemos, para ela voltamos. De tudo e em tudo, ela nos abastece. Somos os seus filhos e dela emana as riquezas, que prodigaliza generosamente. De seu corpo obtemos o nosso sustento: comida, água e abrigos. Do seu espírito, a graça da sabedoria e do amor, da habilidade, da inteligência, da inspiração e da amizade. Mas a maior de todas as suas dádivas nos advém de seu infinito amor. A Grande Mãe Terra regozija-se com a felicidade de seus filhos. Compraz-se com as nossas alegrias, por isso nos concedeu a maravilha da graça do prazer. Nós a honramos e reverenciamos quando compartilhamos desta sublime graça. Mas às filhas abençoadas, ela concedeu o maior de todos os seus bens, contemplou-as com o seu próprio poder: a faculdade de criar vida.
Nesse ponto, o shamud olhou para a moça.
- Jetamio, você está entre aquelas que são abençoadas. Se honrar Mu do, sob todos os seus aspectos, você será contemplada com o dom da Mãe, o dom de gerar vida e dar à luz. Mas o espírito da vida que você gera é uma graça que vem da Grande Mãe.
E continuou:
- Thonolan, você ao assumir o compromisso de sustentar alguém torna-se como a Mãe que todos abastece. Por honrá-la desta maneira, ela poderá também contemplá-lo com o poder da criação, de modo que possa ser de seu espírito o filho nascido da mulher sob a sua guarda, ou de uma outra que também haja sido abençoada por Mudo.
O shamud levantou os olhos, dirigindo-se agora a todos.
- Sempre que cada um de nós estiver cuidando ou provendo com o sustento do outro, estará honrando a Mãe e será por isso abençoado com os frutos de suas dádivas.
Após o shamud afastar-se, Thonolan e Jetamio, sorrindo um para o outro, foram sentar sobre uma esteira. Era o sinal esperado para que o banquete fosse iniciado. Os dois foram os primeiros a serem servidos com uma bebida alcoólica suave, feita de flores de dente-de-leão e mel, e posta em fermentação na última lua nova. Em seguida a bebida foi passada de mão em mão para que todos se servissem.
Os aromas apetitosos deu-lhes a consciência do quanto fora duro aquele dia. Mesmo para os que permaneceram no terraço havia sido também um dia trabalhoso, como se podia constatar pelo primeiro prato a surgir, deliciosa-mente cheirando. Um magnífico salmão, apanhado naquela manhã e assado sobre pranchas perto da fogueira, foi trazido a Thonolan e Jetamio por Markeno e Tholie, a contrapartida familiar deles do lado ramudoi. Como tempero, foi servido um molho feito de labaça silvestre, cozida e triturada até o ponto de pasta.
Jondalar imediatamente apreciou aquele gosto travoso, novo ao seu paladar. Dava um toque perfeito ao peixe. Para acompanhamento, foram trazidas umas pequeninas sementes servidas em cestas que eles iam passando ao redor. Quando Tholie sentou-se, ele perguntou o que eram.
- São de faias que apanhamos no outono passado - respondeu ela. Depois pôs-se a explicar em detalhes como, com pequeninas lâminas de pedra, se removiam as cascas de fora, extremamente duras, para se retirar as sementes que eram torradas em peneiras com brasas e passadas depois no sal marinho. O segredo estava em revolvê-las constantemente de modo a não se deixar que as peneiras se queimassem e nem as sementes.
- O sal foi um dos presentes de noivado de Tholie. Ela quem o trouxe- explicou Jetamio.
- São muitos os mamutoi que vivem perto do mar, Tholie? -perguntou Jondalar.
- Não, O nosso acampamento era um dos que se achavam mais perto do Mar Beram. A maioria dos mamutoi vivem mais ao norte. É um povo caça dor de mamutes - disse ela, orgulhosa. - Todos os anos, viajamos ao norte para caçar.
- Como foi você conseguir uma companheira mamutoi - indagou Jondalar a Markeno.
- Eu a raptei - respondeu ele, dando uma piscadela para a companheira, uma moça rechonchuda.
Tholie sorriu.
- É verdade - falou ela. - Mas naturalmente tudo se arranjou.
- Nós nos encontramos quando eu fiz uma viagem ao leste para negócios. Eu e ela fomos juntos até o delta do Rio Mãe. Era a minha primeira viagem. Pouco estava ligando se Tholie era sharamudoi ou mamutoi, só sabia que não voltaria para casa sem ela.
Markeno e Tholie contaram, então, as dificuldades que tiveram de enfrentar para poder unirem-se. Foram necessárias muitas negociações até que se chegasse a um acerto, mas assim mesmo ele teve de raptá-la para contornar alguns obstáculos. Ela estava firmemente decidida e a união não se realizaria sem o seu consentimento. Havia precedentes. São raras, mas uniões semelhantes às vezes acontecem.
Os povoados não eram muitos e tão distanciados uns dos outros que, praticamente, não havia violação de territórios. Isso fazia com que se constituísse numa novidade os pouquíssimos contatos com os estrangeiros que vez por outra apareciam. Embora desconfiadas, no início, as pessoas de modo geral não se mostravam hostis e o comum era ser bem recebido. Quase todos os povos caçadores estavam habituados a viajar grandes distâncias, normalmente para acompanhar as manadas em suas migrações sazonais e havia também aqueles que tinham já uma velha tradição de empreender viagens individuais.
Os atritos quase sempre se originavam da proximidade. A hostilidade, se existisse, tendia a ser intramuros, passada dentro da comunidade. As personalidades violentas eram controladas por códigos de comportamento e, na maioria das vezes, se viam reprimidas pelos costumes de caráter ritualístico, apesar destes não estarem muito enraizados. Os sharamudoi e os mamutoi mantinham boas relações de negócios e entre os dois povos havia semelhanças de língua e costumes. Assim, por exemplo, para os primeiros, a Grande.Mãe Terra era chamada Mudo, enquanto que o segundo a conhecia como Mut, mas tratava-se da mesma deusa, a antepassada primordial, a primeira Mãe.
Os mamutoi tinham um alto conceito de si mesmos que transparecia em suas atitudes calorosas e francas. Como grupo, não temiam nenhum outro, afinal eram eles os destemidos caçadores de mamute. Atrevidos, confiantes, um tanto ingênuos e convencidos de que o resto do mundo os via segundo a imagem que faziam de si mesmos. Apesar de que as discussões parecessem a Markeno intermináveis, os ajustes necessários à união dos dois não se constituíram num obstáculo intransponível.
Tholie era uma típica representante de seu povo: expansiva, amiga, certa de que todos gostavam dela. E, com efeito, dificilmente se podia resistir à sua natureza sincera e expansiva. Tampouco as pessoas se ofendiam com o caráter pessoal de suas perguntas, pois sabiam não haver intenção de malícia. Era simplesmente interesse e ela não via por que reprimir a sua curiosidade.
Uma garota aproximou-se carregando um bebê.
- Shamio acordou, Tholie. Acho que ela está com fome,
A mãe agradeceu com a cabeça e deu o seio ao bebê, sem interromper a conversa ou deixar de comer. Enquanto isso, foram servidos outros tipos de nozes: amendoins frescos e sementes de olmo em salmoura. Os amendoins eram uns tubérculos adocicados e pareciam um pouco com as cenouras silvestres, Jondalar os conhecia. À primeira mordida, tinha-se a impressão de uma castanha, em seguida o gosto de rabanete surgia como uma surpresa. O seu sabor picante era muito apreciado pela Caverna. Jondalar estava em dúvida se gostava ou não, O segundo prato, apresentado ao jovem casal, foi trazido por Dolando e Roshario: um esplêndido cozido de camurça que tinha a acompanhá-lo um generoso vinho de uva-do-monte.
- Estava achando o peixe delicioso, mas esse cozido está soberbo -falou Jondalar para o seu irmão.
- Jetamio disse que é um prato tradicional da cozinha deles. O tempero é feito com folhas de murta-de-cheiro. A casca da planta é usada para tingir a pele da camurça, é o que dá ao couro o seu tom amarelado. Essa murta cresce nos brejos. Há muitos pés nos terrenos alagadiços onde a Mãe se junta com a Irmã. A minha sorte foi justamente eles estarem lá colhendo murta, no outono passado, senão nunca nos teriam achado.
Jondalar tinha a testa franzida com as lembranças daquele tempo de aflições.
- Tem razão, foi muita sorte nossa. Ainda continuo querendo achar uma maneira de agradecer a essas pessoas - subitamente, lembrando-se de que o seu irmão estava para tomar-se numa “dessas pessoas”, aprofundou ainda mais as rugas da testa.
- Esse vinho é um presente de noivado para Jetamio - disse Serenio.
Jondalar pegou a cuia e sorveu um gole, aprovando com a cabeça.
- É bem. Muito bem.
- Bem, não. Bom. Muito bom - corrigiu Tholie. - É muito bom - ela não possuía qualquer escrúpulo em corrigi-lo. Ela própria ainda tinha problemas com a língua e dava como certo que ele também gostaria de falar corretamente.
- Muito bom - repetiu Jondalar, sorrindo para a mulherzinha baixota e gorducha com um bebê colado ao seu enorme seio. Ele gostava de Tholie que, com a sua franqueza e o seu temperamento extrovertido, desarmava a natureza tímida e reservada dos outros.
Virando-se, então, para o irmão, disse:
- Ela tem razão, Thonolan. Esse vinho é muito bom. Até mesmo nossa mãe iria concordar e ninguém faz melhores vinhos do que Marthona. Acho que ela também iria gostar muito de Jetamio - dizendo isto, arrependeu-se. Thonolan jamais iria levar a companheira para conhecer a sua mãe. Provavelmente nunca voltariam a ver Marthona.
-. Jondalar, você precisa falar sharamudoi. Ninguém entende zelandonii aqui. Além disso, iria aprender mais depressa se você se obrigasse a falar sharamudoi o tempo todo - disse Tholie, inclinando o corpo para a frente, cheia de sincero interesse. Falava por experiência própria.
Jondalar ficou confuso, mas não zangado. Tholie era tão sincera, além do mais fora indelicadeza sua falar numa Língua que ninguém entendia. Ele enrubesceu, dando um sorriso encabulado.
Tholie notou-lhe a falta de jeito. O fato de ser franca não significava que fosse insensível.
- Por que não aprendemos todos a língua um do outro? Vamos acabar esquecendo até a nossa, se de vez em quando não treinarmos um pouco. zelandonii é uma língua tão melodiosa, adoraria aprendê-la - falou, sorrindo na direção de Thonolan e Jondalar. - Todos os dias podemos tirar um tempinho para treinar - proclamou, como se todos estivessem perfeitamente de acordo.
- Tholie, você pode estar querendo aprender zelandonii, mas talvez eles não tenham interesse em aprender mamutoi. Será que não pensou nisso? - disse Markeno.
Desta vez, foi ela quem ficou vermelha.
-. Não. Realmente não - respondeu, ao mesmo tempo surpresa e decepcionada, dando-se enfim conta de sua presunção.
- Bom, eu quero aprender mamutoi e zelandonii. Acho uma boa idéia- falou Jetamio com ar decidido.
-. Eu também acho uma boa idéia, Tholie -. disse por sua vez Jondalar.
- Ora, que salada estamos nós aqui arrumando. A metade ramudoi tem uma parte mamutoi e a metade shamudoi vai ter uma parte zelandonii -falou Markeno, sorrindo com ternura para a sua companheira.
Era visível a afeição que um tinha pelo outro. Os dois formavam uma boa dupla, achava Jondalar, sem conseguir deixar de dar um sorriso. Markeno era um homem tão alto quanto ele, apenas um pouco menos musculoso. Quando estava perto da companheira, as características físicas se acentuavam ainda mais. Tholie, baixota e gorda, e ele alto e magro.
- Há lugar para mais alguém? - perguntou Serenio. - Seria interessante aprender zelandonii, e acho que pode ser bom para Darvo se ele aprender mamutoi. Quem sabe se algum dia talvez queira fazer viagens de negócios?
- Por que não? - falou Thonolan, rindo. - Para qualquer canto que se vai, saber outras línguas sempre ajuda - ele olhou para o irmão. - Mas não será por isso que se vai deixar de entender uma linda mulher, não é, Jondalar? Principalmente quando se tem um belo par de olhos azuis - disse rindo, em zelandonii.
Jondalar sorria, ouvindo a pilhéria do irmão.
- Você devia estar falando em sharamudoi - disse Jondalar, dando uma piscadela para Tholie. Com uma faca na mão esquerda, ele espetou um legume dentro de seu prato, à maneira corno via os sharamudoi fazendo e que para ele era um gesto meio forçado. - Como se chama isto?- perguntou a ela. .- Em zelandonii é cogumelo.
Tholie disse-lhe o nome tanto em sua língua como em sharamudoi. Ele então fincou um talo verde e o suspendeu, indagando-a com os olhos.
- Isso é talo de bardana - falou Jetamio, logo percebendo que o no me significaria pouco para ele. Ela se levantou para pegar numa pilha de lixo, perto da área de cozinhar, algumas folhas murchas, mas ainda reconhecíveis.- Bardana - repetiu, mostrando-lhe o pedaço de uma folha sem talo de cor cinza-esverdeado, grande e peluda.
Jondalar balançou a cabeça dando a entender que conhecia, e Jetamio estendeu em sua direção uma outra verde, também grande e larga, que tinha um cheiro inconfundível.
- Claro! Sabia que estava reconhecendo o gosto - falou ele para o ir mão. - Mas nunca tinha visto a folha. Como se chama? - perguntou, voltando-se novamente para Jetamio.
- Trambo - respondeu ela. Tholie não tinha na língua mamutoi nenhuma palavra para designar a planta, mas a folha, mostrada em seguida por Jetamio, ela a conhecia.
- Isso é um tipo de alga - disse. - Eu a trouxe comigo. Dá no mar e é muito bom para engrossar o caldo dos cozidos - tentava explicar, sem mui ta certeza de estar sendo compreendida. As algas foram usadas porque, além de dar consistência e um certo sabor exótico ao tradicional prato dos shamudoi, expressavam a estreita relação de Tholie com o novo casal. - Já estão quase acabando. Foram dadas também como presente de noivado - ela firmou o bebê, com a cabecinha contra o seu ombro, e se pôs a dar-lhe palmadinhas nas costas. - Você já fez a sua oferenda à árvore sagrada, Tamio?
Jetamio abaixou a cabeça, sorrindo pudicamente. Era uma pergunta que em geral não se fazia tão abertamente, no máximo poderia ser insinuada.
- Espero que a Mãe abençoe a minha união com um bebê tão forte e saudável quanto o seu, Tholie. Shamio já acabou de mamar?
- Ela gosta de sugar só pelo prazer de chupar. Se eu deixar, fica agarra da no seio o dia inteiro. Você quer segurá-la? Preciso sair um pouquinho.
Quando Tholie voltou, o assunto da conversa havia mudado. A comida fora retirada e se serviu mais vinho. Alguém ensaiava um ritmo num tambor de uma só face, ao mesmo tempo que improvisava a letra de uma canção. Tholie pegou de volta o bebê e Thonolan e Jetamio se levantaram para tentar sair às escondidas, mas logo um bando de pessoas, todas rindo muito, se aproximou fazendo um círculo ao redor dos dois.
Era costume os noivos largarem a festa mais cedo para que pudessem ter alguns momentos só para eles, antes do período de separação que antecedia o matrimônio. Mas como convidados de honra não podiam sair com as pessoas ainda presentes. Isso seria indelicadeza. Embora todo mundo soubesse, tinham de escapar num momento em que ninguém estivesse vendo. Era uma brincadeira, e se esperava que eles representassem o seu papel, fazendo menção de estar saindo, enquanto os outros fingiam não perceber, para depois surpreendê-los em pleno ato, obrigando-os a pedir desculpas. No fim, depois de muita troça e pilhérias, acabavam deixando os dois sair.
- Você não está com pressa nenhuma de ir embora, não é, Jondalar? -perguntou alguém.
- Já está ficando tarde - respondeu Thonolan, sorrindo.
- Ora, está cedo. Sirva-se de um pouco mais, Tamio.
- Não agüento comer mais nada.
- Então tome um copo de vinho. Thonolan, você não iria fazer a desfeita de recusar esse esplêndido vinho de Tamio.
- Bem... nesse caso, aceito um golinho.
- E para você, Tamio, um pouquinho mais?
Ela se inclinou para Thonolan, olhando significativamente numa direção.
- Tudo bem, só mais um gole. Mas nós estamos sem cuias, alguém vai ter de buscá-las.
- Claro. Vocês esperam aqui, não? - falou um deles, se levantando para pegar as cuias, enquanto as outras pessoas fingiam observá-la, dando oportunidade para que Thonolan e Jetamio corressem e fossem esconder-se nas sombras atrás da fogueira.
- Thonolan... Jetamio, vocês aqui? Pensei que fossem beber um pouco de vinho conosco.
- Ah... e vamos. Só estamos dando uma voltinha. Bom, você sabe como é, depois de termos comido tanto... - explicava Jetamio.
Jondalar, perto de Serenio, sentia vontade de prosseguir a conversa anteriormente começada. Os dois estavam divertindo-se com a farsa. Ele inclinou o corpo para perto dela, pedindo-lhe em segredo que saísse logo que a brincadeira cansasse e que Thonolan e Jetamio houvessem saído. Se tivesse de comprometer-se, teria de ser naquele momento, antes que as suas dúvidas voltassem e o fizessem recuar.
Estavam todos alegres, meio tontos. As uvas-do-monte da última colheita estavam especialmente doces e o vinho ficara mais forte do que de costume. As pessoas rodopiavam ao redor de Thonolan e Jetamio, rindo, pilheriando com os dois. Alguns haviam começado a cantar uma canção em forma de perguntas e respostas, enquanto alguém punha o cozido para requentar e um outro, depois de despejar o resto de chá na cuia, foi botar mais água para ferver. As crianças, ainda muito despertas, corriam umas atrás das outras. As atividades se revezavam e a confusão reinava por toda parte.
Então uma criança, aos berros e correndo, deu um encontrão num homem, não muito bem das pernas, que cambaleou e se chocou contra uma mulher carregando uma cuia de chá quente.
Aconteceu no exato momento quando era maior a algazarra e em meio aos gritos das pessoas acompanhando a corrida do casal que fugia.
Ninguém ouviu o primeiro choro, mas os insistentes gemidos de dor do bebê fizeram com que rapidamente se pusessem em silêncio.
- Meu bebê! Meu bebê se queimou - gritava Tholie.
- Oh, santa Doni - murmurou Jondalar, precipitando-se com Serenio na direção de Tholie, que soluçava com o bebê aos prantos no seu colo.
Todos ao mesmo tempo queriam ajudar. A confusão era ainda pior do que antes.
- Afastem-se, deixem o shamud passar - o efeito calmante da presença de Serenio se fazia sentir.
O shamud, rápido, tirou a roupa da criança.
- Água fria, Serenio. Depressa! Não! Espere. Darvo, você busca a água e Serenio traz cascas de tília. . - sabe onde estão?
- Sei - respondeu e correndo.
- Roshario, há água quente? Se não houver, ponha para esquentar. Precisamos preparar uma tisana de tília e um chá mais fraco para dar como sedativo. As cascas de tua têm de ser escaldadas para fazer as duas coisas.
Darvo chegou trazendo um recipiente derramando pela borda a água que pegou do lago.
- Ótimo, meu filho. Você foi rápido - falou o shamud com um sorriso de aprovação. Em seguida, borrifou com água fria as partes vermelhas e inflamadas que já começavam a empolar. - Precisamos de alguma coisa macia para pôr um curativo em cima, enquanto a tisana não ficar pronta -ele viu uma folha de bardana no chão. - Jetamio, o que é isso?
- Bardana. Havia no cozido - respondeu ela.
- Sobrou alguma? Isto é, folhas?
- Só usamos os talos. Há um montão delas.
- Então traga.
Jetamio correu até a pilha de lixo, voltando com as mãos cheias de folhas rasgadas. O shamud as mergulhou dentro da água, colocando-as em segui da sobre os lugares queimados, tanto da mãe como da filha. À medida que os efeitos calmantes da planta foram fazendo-se sentir, o choro da criança começou a amainar, convertendo-se em soluços intercalados com espasmos.
- Isso ajuda a passar a dor - disse Tholie, que só percebera estar queimada depois do shamud
haver falado. No momento em que o chá despejou, ela estava sentada e conversando, com o bebê satisfeito, tranqüilamente ma mando e, então, não viu mais nada do que a dor de sua filha. - Shamio vai ficar boa?
- A queimadura vai empolar, mas não ficará qualquer cicatriz.
- Oh, Tholie, eu sinto muito - disse Jetamio. - Coitadinha de Shamio e de você também.
Tholie tentava fazer com que o bebê voltasse a mamar, mas ele, agora associando esse ato com a dor, resistia. A lembrança daquele prazer, por fim, acabou prevalecendo, e Shamio parou de chorar, agarrando novamente o seio, para alívio de Tholie.
- Por que você e Thonolan ainda estão aqui? - perguntou ela. - Essa é a última noite em que vão poder ficar juntos.
- Não posso ir embora sabendo que você e Shamio não estão bem. Eu gostaria de ajudar em alguma coisa que fosse preciso.
O bebê voltara a ficar inquieto. A bardana melhorava apenas um pouco e a queimadura ainda doía bastante.
- Serenio, a tisana está pronta? - perguntou o curandeiro, substituindo as folhas por outras mais empapadas de água fria.
- As cascas de tília já ferveram bastante, mas vai levar algum tempo para esfriar. Acho que vou levar para fora, assim irá mais rápido.
- Esfriar! Esfriar! - gritou de repente Thonolan, saindo do abrigo sob a pedreira.
- Aonde ele vai? - perguntou Jetamio.
Jondalar sacudiu os ombros, abanando a cabeça. A resposta veio quando Thonolan, ofegante, entrou de volta correndo. Ele tinha nas mãos alguns pedaços de gelo gotejando, tirados no caminho que levava ao rio.
- Isso serve? - perguntou, mostrando.
O shamud olhou para Jondalar.
- O rapaz é brilhante - disse o shamud ironicamente, como se não esperasse tanta genialidade da parte de Thonolan.
As propriedades da tília serviam ao mesmo tempo para amortecer a dor e fazer dormir. Tanto Tholie como o bebê adormeceram. Thonolan e Jetamio foram, por fim, convencidos a retirarem-se e terem os seus momentos sozinhos. Mas a alegria despreocupada da festa de compromisso dos dois havia desaparecido. Ninguém queria dizer, mas o acidente deixou uma sombra de tristeza na união deles.
Jondalar, Serenio, Markeno e o shamud permaneceram sentados nas proximidades da maior das casas, aproveitando o resto do calor das brasas já quase apagadas e bebendo vinho enquanto conversavam num meio tom de voz. Todos tinham ido dormir e Serenio insistia com Markeno para que fizesse o mesmo.
- Não há nada que você possa fazer, Markeno. Não há por que ficar de pé. Eu fico com as duas e você vai dormir.
- Ela tem razão, Markeno - falou o shamud. - As duas estão passando bem. E você, Serenio, vá também descansar.
Ela se levantou para ir, mais para encorajar Markeno do que propriamente porque o desejasse. Os outros também se levantaram. Serenio pôs de lado a sua cuia e tocou de leve no rosto de Jondalar, encaminhando-se, em seguida, com Markeno na direção das casas.
- Se precisar, eu o acordarei - falou ao sair.
Depois de ter ido embora, Jondalar despejou as últimas gotas da borra do vinho em duas cuias, oferecendo uma à enigmática figura do shamud que o aguardava, meio encoberto pelas sombras silenciosas. O curandeiro aceitou-a, dando por implícito que os dois tinham o que se dizer. Jondalar raspou da beirada da fogueira as últimas brasas, amontoando-as no centro, e acrescentou mais lenha até ter uma fogueira bem acesa. Por alguns momentos, em silêncio, e sorvendo goles de vinho, ficaram de cócoras, batidos pelo calor trêmulo das chamas.
Ao olhar para cima, Jondalar viu que estava sendo examinado por aqueles olhos de cor indefinida e que à luz da fogueira eram simplesmente escuros. Havia força e inteligência neles, mas com a mesma intensidade ele lhe devolvia o exame. As chamas crepitando com estalidos sombreavam o velho rosto, dando certa indistinção aos seus traços, mas mesmo à luz do dia Jondalar nunca pôde perceber-lhe quaisquer características específicas, fora a idade. E até essa era misteriosa.
Havia personalidade naquele rosto enrugado. Isso lhe emprestava um to que de juventude, apesar da longa cabeleira branca e desgrenhada. Talvez a figura sob aquelas vestes soltas e largas fosse magra e frágil, no entanto o andar se mostrava lépido, cheio de elasticidade. Somente as mãos não deixavam margem para dúvidas quanto à idade. Mas mesmo com todos os nós de reumatismo e as veias azuis marchetando a pele pergaminhosa, não se via qualquer tremor na cuia que elas levavam aos lábios.
O movimento partiu o contato de olhos. Jondalar achou que o shamud o tivesse feito intencionalmente para aliviar a tensão crescente. Ele também tomou um gole.
- O shamud, bom curandeiro. Pessoa de muito talento.
- Essa é uma graça que recebi de Mudo.
Jondalar procurava descobrir algum traço no timbre ou no tom da voz capaz de revelar um lado mais preponderante da androgenia do curandeiro. Apenas para satisfazer a curiosidade que há tempos lhe remoia o espírito. Ainda não conseguira chegar a uma conclusão se seria o shamud homem ou mulher. A sua impressão era a de que, apesar da neutralidade do gênero, o curandeiro não havia levado uma vida celibatária. Os seus ditos sarcásticos quase sempre vinham acompanhados de olhares carregados de malícia. Ele queria perguntar, mas não sabia como abordar o assunto em termos delicados.
- A vida do shamud não é fácil. Ser preciso renunciar muitas coisas -ensaiou Jondalar. - O curandeiro nunca quis ter companheira?
Por um instante aqueles olhos inescrutáveis arregalaram-se. Então ou viu-se um sardônica gargalhada. Jondalar, confuso, sentiu subir-lhe no rosto uma onda de calor.
- Que pessoa é essa, Jondalar, você acha que poderia unir-se a mim? Bom, se você tivesse aparecido nos meus anos de juventude, talvez eu ficasse tentado. Ah... mas teria você sucumbido aos meus encantos? Ainda que tivesse ofertado à árvore sagrada um colar de contas, poderia eu tê-lo na minha cama? - falou abaixando a cabeça, numa atitude um tanto recatada.
Por um momento, Jondalar estava convencido de que conversava com uma moça.
- Será que eu deveria ser mais prudente nas minhas palavras? Você é um homem com apetites muito apurados. Será que eu conseguiria aguçar-lhe a curiosidade para novos prazeres?
Jondalar enrubesceu, certo de que se enganara. No entanto, via-se estranhamente atraído pelo olhar libidinoso do shamud e a graça felina que ele projetava nos movimentos sinuosos de seu corpo. Claro, o curandeiro era homem. Só que nos seus prazeres era um homem com os gostos de uma mulher. Muitos curandeiros reuniam em suas pessoas a origem feminina e masculina, ao mesmo tempo. Isso lhes dava maiores poderes. Novamente fez-se ouvir a risada sardônica.
- Mas se para o curandeiro a vida já é difícil, quanto mais então não seria para o companheiro ou a companheira dele? A primeira preocupação de um homem deve ser com a sua cara-metade. Por exemplo, seria difícil abandonar alguém como Serenio no meio da noite para ir tratar de um doente. Além disso, os períodos de abstinência podem ser muito longos...
O shamud inclinava-se para a frente, falando de homem para homem. Os seus olhos brilhavam com o pensamento de uma mulher encantadora como Serenio. Jondalar, estupefato, abanava a cabeça sem compreender. Mas então um movimento de ombro revelou uma forma de masculinidade de natureza diferente. Algo inexistente nele.
- ...e não sei se gostaria de deixá-la exposta à voracidade dos homens que estariam rondando por perto.
O shamud era mulher. Mas não uma mulher que pudesse sentir-se atraída por ele ou ele por ela, como qualquer coisa mais do que uma simples amizade. Com efeito, o poder do curandeiro advinha de seus dois sexos originais, mas esse era o de uma mulher com gostos masculinos.
O shamud voltou a dar uma sonora gargalhada. Na voz, nenhum sinal mais indicativo de seu sexo. Um pedido de compreensão humana no mudo diálogo de olhos nos olhos. O velho curandeiro, então, prosseguiu:
- Diga-me, Jondalar, qual dos dois sou eu? Com qual você poderia unir-se? Alguns tentam, de um modo ou de outro, encontrar uma relação, mas raramente estas são duradouras. Os nossos dons não nos chegam simples mente como bênçãos. Um curandeiro não tem identidade, exceto em sentido muito lato. Ele perdeu o seu nome pessoal e oblitera o seu eu para assumir a essência de todos. Há recompensas, mas normalmente nessas não se acha incluído o prazer de uma vida em família. Quando se é jovem, nascer predestinado não é necessariamente algo desejável. É difícil ser diferente. Às vezes não se deseja perder a identidade. Mas pouco importa... esse é o seu destino. Não há outra alternativa para aquele que leva ao mesmo tempo em seu corpo a essência do homem e da mulher.
À luz mortiça da fogueira, o shamud parecia tão velho quanto a própria terra. Com os olhos perdidos nas brasas, era como se estivesse vivendo num outro tempo, num outro lugar. Jondalar levantou-se para reavivar o fogo. Quando as chamas se desprenderam, o curandeiro endireitou o corpo, reassumindo a expressão irônica.
- Isso foi há muito tempo... mas houve suas compensações. Principal mente as que estão ligadas à descoberta do talento e da aquisição do saber. Quando a Mãe chama alguém para o seu serviço, nem tudo é sacrifício.
- Com os Zelandonii é diferente. Nem todos que servem à Mãe saber coisas na juventude. Diferente do shamud. Uma vez pensei também servi Doni. Mas não todos são chamados - falou Jondalar. As rugas em sua testa e os lábios contraídos, sugerindo um amargor ainda não superado, deixavam o shamud curioso. Havia mágoas profundamente enterradas no peito daquele belo rapaz, parecendo tão privilegiado da sorte.
- É verdade, nem todos aqueles que desejam são chamados e nem todos os que são chamados têm o mesmo talento ou vocação. Quando não se tiver certeza, há meios para descobrir-se. São aqueles que usamos para pôr à prova a nossa fé e força de vontade. Isso pode ser bastante esclarecedor, a pessoa acaba conhecendo-se a si mesma, mais do que desejaria. O meu conselho para os que querem entrar no serviço da Mãe é o de que, primeiro, vivam sozinhos. Se não conseguirem isto, jamais passarão pelas provas mais duras.
- Que espécie de provas?
O shamud nunca se mostrara tão franco e Jondalar se via fascinado.
- Por exemplo, os períodos de abstinência, quando devemos renunciar a todos os prazeres. Os períodos de silêncio, quando não podemos falar a ninguém. Os períodos de jejum, quando passamos o máximo de tempo possível sem dormir. Há ainda outras. Aprendemos a usar esses métodos na busca de respostas e de revelações da Mãe - São usados principalmente por aqueles que estão sendo iniciados. Após algum tempo, aprende-se a submeter a mente à vontade, mas é salutar recorrer-se a estes métodos de vez em quando.
Houve um longo silêncio. O shamud conseguira levar a conversa, contornando as questões que Jondalar realmente gostaria de abordar. Contudo, ele não pôde deixar de perguntar:
- O shamud, que sabe de muitas coisas, poderia dizer o que significa... tudo isto? - disse, abrindo os braços num gesto amplo e vago.
- Sim. Entendo o que está querendo dizer. Você está preocupado com o seu irmão, depois do que aconteceu esta noite e, de modo geral, com ele e Jetamio... e também com você.
Jondalar confirmou com a cabeça.
- Nada é certo... você sabe disto.
Jondalar tomou a balançar a cabeça.
O shamud o examinava, tentando decidir-se até que ponto poderia abrir-se e se aprofundar em suas revelações. Então o velho rosto enrugado se voltou para a fogueira, com uma expressão perdida nos olhos. Jondalar sentiu-o distanciar, como se houvesse surgido um imenso espaço entre os dois, embora nenhum deles se tivesse arredado do lugar.
- É forte o amar que você tem pelo seu irmão - a voz ecoava abafada, lúgubre, como ressoando do além. - Você tem medo de que esse sentimento seja demasiado e o faça viver a vida dele e não a sua. Mas você se engana. É ele quem o conduz para onde você tem de ir, para lugares onde por si mesmo jamais iria. Você está seguindo o seu destino, não o de seu irmão. Vocês seguirão juntos apenas por uns tempos. As suas forças, Jondalar, são de naturezas diferentes. Quando suas necessidades forem muito grandes, a sua força também o será. Senti que você estava precisando de mim, antes até de acharmos a sua camisa ensangüentada na tora que me foi enviada.
- Eu não enviei a tora. Foi sorte. Foi simplesmente por acaso.
- Não foi por acaso que eu senti a sua necessidade. Outros também sentiram. Não se pode negá-lo, Jondalar. Nem mesmo a Mudo o negaria. Esse é um dom seu. Mas cuidado com as graças que provêm da Mãe, pois elas o tomam seu devedor. Para ser tão bem-dotado como é, Jondalar, Mudo deve ter algum propósito em relação a você. Nada é dado sem retomo. Nem mesmo a dádiva do prazer se constitui numa simples graça. Nela há uma intenção, embora possamos não saber qual seja. Lembre-se disso: você está apenas obedecendo os desígnios da Mãe. Não precisa ser chamado, você nasceu para o seu destino. Mas será posto à prova. Você irá causar dor e sofrerá por isso.
Subitamente os olhos de Jondalar arregalaram-se, surpresos.
- Você será ferido. Na busca da satisfação, encontrará muitas desilusões, e na procura da verdade só achará a dúvida. Mas há compensações. Você nasceu privilegiado: física e mentalmente. Você tem grande capacidade, excepcionais talentos e é dotado de extraordinária sensibilidade. Os seus tormentos resultam de seus privilégios. A você foi dado demasiadamente, irá aprender com o próprio sofrimento. E lembre-se também disso: servir à Mãe não é só sacrifício. Você encontrará o que busca. É o seu destino.
- Mas.. . Thonolan?
- Eu sinto uma ruptura. O destino dele se faz diferente. Ele deve seguir o seu próprio caminho. É um agraciado de Mudo.
Jondalar franziu o rosto. O Zelandonii já dissera algo semelhante e isso não significava necessariamente fortuna. Dizem que a Grande Mãe tem ciúmes de seus filhos diletos e que não tarda a chamá-los de volta. Ele ficou esperando, mas o shamud nada mais disse. Toda a parte da conversa referente à “necessidade”, “força” e “intenções da Mãe” ele não entendera muito bem. Aqueles que servem à Mãe freqüentemente falam por meias palavras, mas ele sentia que não gostava do que havia por trás.
Quando o fogo apagou, levantou-se para ir embora. Começou a andar na direção das casas atrás do ressalto na pedreira, mas o shamud não havia ter minado.
- Não! A mãe e o bebê não! - gritou uma voz súplice em meio à escuridão.
Jondalar, apanhado de surpresa, sentiu um calafrio passar-lhe pela espinha. Perguntou-se se Tholie e a filhinha estariam pior do que ele imaginava. E por que ficou ele tremendo, se não fazia frio?
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