O Vale dos Cavalos
Capítulo 19
A primavera no vale era uma flamejante explosão de cores, onde predominava o verde vernal. No entanto, uma mudança no tempo chegara para alarmar e diminuir o costumeiro entusiasmo de Ayla pela estação. Depois de fazer uma entrada tardia, o inverno se impôs duramente, com pesadas nevascas. E agora as primeiras inundações da primavera, com uma violência desmedida, carregavam o gelo derretendo-se.
Emergindo pela estreita garganta a montante do rio, a torrente de água chocava-se com tamanha força contra a ponta do penhasco que, em cima, a caverna de Ayla chegava a sacolejar. O nível das águas estava prestes a atingir o patamar. Ayla preocupava-se com Huiin. Ela, se necessário, poderia ir até as estepes, mas para um cavalo, sobretudo para uma égua prenhe, a subida era pesada demais. Ansiosa, passava os dias observando o rio cada vez mais al to, revolvendo-se em ondas que batiam no paredão para depois voltarem redemoinhando ao redor da parte exterior da borda. A jusante, metade do vale achava-se submerso e o matagal ao longo do curso usual do pequeno rio estava completamente inundado.
Certa noite, quando as inundações estavam no seu auge, Ayla pulou da cama, acordada por um barulho surdo, parecido a um trovão, vindo do chão da caverna. Ela ficou petrificada. Só depois, quando as enchentes começaram a ceder, é que soube explicar. Um enorme bloco de pedra, colidindo contra o penhasco da caverna, desencadeara uma avalanche de ondas que penetraram pela rocha. Com o impacto, uma parte da barreira rochosa rompera-se, jogando um enorme pedaço do paredão dentro do rio.
Obrigado a achar um novo caminho de modo a contornar a obstrução de suas águas, o rio mudou o seu curso. A fenda na rocha trouxe uma passagem bastante conveniente, mas a praia agora estava mais estreita. Uma imensa pilha formada de ossos, madeiras e pedras tinha sido varrida de lá. O bloco de pedra, que parecia formado da mesma rocha que a garganta, fora alojar-se não muito distante do paredão da caverna.
Apesar de toda essa nova redistribuição da paisagem e das inúmeras plantas arrancadas pelas raízes, só as mais fracas sucumbiram. Quase toda a vegetação perene subitamente brotou de suas bem assentadas bases e novos rebentos passaram a encher os buracos vazios. Depressa, as feridas na rocha nua e na terra estavam cobertas, dando uma ilusão de perenidade. Não tardou muito a nova paisagem estar com um aspecto que parecia ter sido sempre o dela.
Ayla adaptou-se às mudanças em seu vale. Para cada pedaço de pedra ou de madeira a que estava acostumada dar um determinado uso, ela encontrou um substituto. No entanto o acontecimento deixou-a marcada. A sua caverna e o vale já não lhe inspiravam a mesma segurança. Em todas as primaveras ela passava por um período de indecisão, pois se tivesse de abandonar o vale e sair em busca dos Outros, isso teria de ser feito durante essa época do ano. Precisava, no caso de não encontrar ninguém, se dar tempo para a viagem e achar um novo lugar para passar o inverno.
Nessa primavera a decisão parecia mais difícil do que nunca. Após a doença, temia ser apanhada de surpresa pelo frio do final do outono ou do princípio do inverno e, por outro lado, a sua caverna já não lhe parecia tão segura quanto antes. A doença a tornara mais consciente dos perigos a que se achava exposta e do quanto necessitava da companhia de seres humanos. Mesmo depois de ter os seus animais de volta, sentia que eles não bastavam para preencher o vazio de sua vida. Eram amigos e lhe respondiam, mas a comunicação não deixava de ser muito limitada. Ela não podia compartilhar idéias, relatar experiências, contar histórias, expressar admiração por alguma descoberta ou um novo feito. Ali não havia ninguém para lhe dar uma olhada de aprovação. Ninguém para aplacar os seus medos ou consolá-la de suas tristezas. No entanto, até que ponto estaria disposta a trocar a sua independência e liberdade pelo conforto da segurança e da companhia de outras pessoas?
Ela se dera conta da vida limitada que tinha levado, depois que provara o gosto da liberdade. Gostava de tomar as suas próprias decisões e nada sabia sobre o seu povo de origem, nada a respeito de sua vida antes de ir para o clã. Ignorava o quanto os Outros iriam exigir-lhe, sabia apenas que havia certas coisas que não estava disposta a ceder. Huiin era uma delas. Não iria pela segunda vez desistir do cavalo. Caçar não sabia se poderia tão facilmente deixar de fazê-lo, e rir? Será que iriam impedi-la disto?
Havia um problema bem maior que tornava todos os outros insignificantes. Mas deste ela procurava não tomar conhecimento. E se os Outros não a aceitassem? Um clã formado pelos Outros talvez não estivesse disposto a ter em seu meio uma mulher que insistia em possuir uma égua como companheira e que gostava de caçar e rir. No entanto, se ela desistisse de tudo e, ainda assim, eles a recusassem? Enquanto não os encontrasse, sempre havia alguma esperança. Mas o que seria dela se tivesse de viver toda a sua vida sozinha?
Estes pensamentos passaram a atormentá-la desde que os primeiros blocos de neve começaram a derreter-se. Agora, graças às circunstâncias, podia protelar a sua decisão. Não tiraria Huiin do vale, um lugar que ela tão bem conhecia, enquanto a égua não tivesse parido. Ela sabia que, em geral, as crias de cavalos nascem em determinada época da primavera. Como curandeira, estava sempre de olho em Huiin. Já assistira diversos partos de mulheres para saber que a égua poderia entrar em trabalho de um momento para outro. Por isso nenhuma expedição de caça era empreendida, e só saía para pequenas cavalgadas, no intuito exclusivo de fazer um pouco de exercício.
- Acho que saímos do rumo daquele acampamento mamutoi, Thonolan. Andamos demais para leste - falou Jondalar. Eles seguiam o rasto de uma manada de gigantescos veados, pensando em refazer as suas provisões, que começavam a escassear.
- Eu não... Olhe! - disse Thonolan, apontando para um animal desconfiado. Era um enorme veado de chifres palmados que fazia uma armação de mais de três metros. Sem saber se o veado pressentira o perigo, Jondalar ficou à espera para ver se o animal soltava o seu bramido de alarme. Mas, antes que o animal tivesse tempo de emitir qualquer som, surgiu uma corça cor rendo diretamente para cima deles. Thonolan atirou a sua lança de ponta de pedra à maneira dos mamutoi, de modo a cravar a lâmina entre as costelas. A pontaria foi perfeita. A corça tombou quase junto de seus pés.
No entanto, antes que pudessem reivindicar o feito, descobriram o motivo do veado estar tão nervoso e porque a corça praticamente se oferecera à lança deles. Tensos, ficaram observando uma leoa da caverna galopando na direção de onde se achavam. Por um momento a fera pareceu confusa com o animal tombado no chão. Era algo inusitado. Um animal morto e não por ela. Mas não hesitou por muito tempo. Farejou a corça para se certificar de que estava realmente morta e a abocanhou pelo pescoço, passando a arrastá-la.
Thonolan ficou indignado.- Essa leoa miserável roubou a minha caça!- Essa leoa miserável também estava atrás do mesmo animal que você. E se acha que a corça lhe pertence, eu é que não vou discutir com ela.
- Pois eu vou.
- Não seja ridículo - falou Jondalar com desdém. - Você não vai conseguir tirar um veado da boca de uma leoa.
- Não vou desistir sem pelo menos tentar.
- Esqueça essa corça, Thonolan. Podemos encontrar uma outra caça -disse Jondalar, acompanhando o seu irmão que já ia em busca da leoa.
- Só quero ver para onde ela levou o animal. Deve ser uma leoa desgarrada, do contrário toda família já estaria aqui dando em cima do bicho. Acho que é nômade e que está arrastando a corça para algum lugar escondido dos outros leões. Podemos ver para onde ela foi. Em algum momento vai ter de afastar-se e, então, podemos pegar um pouco de carne fresca para nós.
- Eu é que não quero carne fresca tirada da boca de uma leoa da caverna.
- Mas essa carne não é dela. Eu é que cacei a corça. Além disso, a minha lança ainda está cravada no animal.
Inútil discutir. Eles seguiram a leoa até uma garganta sem saída. O chão estava coalhado de pedras caídas dos paredões. Ficaram observando. Como Thonolan havia previsto, a leoa pouco depois se afastou. Ele, então, se dirigiu para a garganta.
- Thonolan, não vá! Você não sabe quando essa leoa vai voltar.
- Vou apenas pegar a minha lança e um pouco de carne - ele se pôs a engatinhar por cima da beirada do penhasco, desprendendo cascalhos que caíam dentro da garganta. Jondalar, com relutância, ia atrás.
O território a leste do vale tomara-se tão conhecido que Ayla começou a fartar-se de estar lá, principalmente depois que deixara de caçar. Há dias fazia um tempo feio e chuvoso. Assim, quando, já pronta para montar, viu um sol quente dissolvendo as nuvens, não suportou a idéia de novamente estar batendo pelos mesmos terrenos.
Depois de amarrar as cestas e os paus que lhe serviam de jorrão, desceu com Huiin pelo íngreme caminho que ia dar na praia e contornou o penhasco. Ao invés de ir para as estepes, preferiu percorrer todo o vale. Ao chegar ao fim da campina, onde o rio virava para o sul, ela reparou na abrupta colina cascalhosa que uma vez escalara para ter uma visão do lado oeste. Para o cavalo, entretanto, era uma subida perigosa. Isso a animou a ir mais adiante para ver se havia alguma saída mais acessível para a parte oeste do vale. Enquanto prosseguia na direção sul, olhava ao seu redor, com ávida curiosidade, O território era novo para ela. “Por que nunca viera para aquelas bandas?” O alto paredão rochoso gradativamente convertia-se numa colina já menos alcantilada. Ao ver um ponto raso no rio, ela instigou Huiin a fazer a travessia.
A paisagem era a de um campo aberto, diferindo apenas em alguns de talhes que a tornavam mais interessante. Seguiu a cavalo até encontrar-se nu ma região um tanto acidentada com gargantas pedregosas e altiplanos abruptos e escarpados. Havia ido mais longe do que planejara. Estava perto de uma garganta pensando em voltar quando ouviu qualquer coisa que a deixou gelada, fazendo o seu coração disparar: o rugido trovejante de um leão da caverna e... um grito humano.
Ela parou, ouvindo as batidas de seu coração ressoar em seus ouvidos. Fazia tanto tempo que não escutava um som humano, Sim, era humano e qualquer coisa mais. Um som emitido por alguém de sua espécie. Tão assombrada estava que não conseguia raciocinar. Havia apelo no grito... um grito de socorro. Mas ela não podia enfrentar um leão da caverna e nem expor a vida de Huiin.
Apesar de que a ordem dada a Huiin fosse, quando muito, um leve sinal sugerido pelo corpo, a égua lhe sentiu a aflição e se virou na direção do desfiladeiro. Ayla se aproximou devagar, desmontou e olhou dentro da garganta. Não havia saída, apenas uma muralha cascalhenta na outra extremidade. O leão rosnou, exibindo a sua juba avermelhada. Foi, então, que ela percebeu a atitude de Huiin, sem demonstrar nem um pouco de nervosismo. Ela sabia por que.
- Ora, é Neném! Aquele é Neném, Huiin! - imediatamente começou a correr para a garganta, esquecida de que talvez lá se achassem outros leões. Tampouco se lembrou de que Neném deixara de ser o seu jovial companheiro de caçadas e era agora um enorme e perigoso leão. Desse leão da caverna, não tinha medo.
Ela subiu por umas pedras salientes e foi ao seu encontro. Neném virou-se e rosnou.
- Pare com isto, Neném! - ordenou por meio de gestos que enfatizava com alguns sons. O leão ficou quieto e logo ela estava ao seu lado, tirando-o do caminho para ver o que ele apanhara. O animal estava mais do que acostumado com Ayla e a atitude dela era firme demais para que ele pensasse em resistir-lhe. Afastou-se, como sempre o fizera quando Ayla queria tirar-lhe da boca algum animal em cuja pele estava interessada, ou por desejar ficar com uma parte da carne para ela. Além do mais, Neném não estava com fome, pois já havia comido a gigantesca corça que a leoa lhe trouxera. Havia atacado apenas para defender o seu território e, mesmo assim, hesitara. Os humanos não faziam o seu gênero de caça. Tinham o cheiro muito parecido ao da mulher que o criara, um cheiro que era tanto de mãe como de um bom companheiro de caçadas.
Havia dois deles lá, viu Ayla. Ela ajoelhou-se para examiná-los. Estava principalmente preocupada como curandeira, mas o seu espanto e curiosidade eram também enormes. Sabia que eram homens dos Outros, embora fossem os primeiros que se lembrava de haver visto. Nunca conseguira visualizar-lhes as figuras, mas no momento em que bateu os olhos nos dois soube por que Oda dissera que os homens dos Outros eram parecidos com ela.
Imediatamente viu que não havia esperanças para aquele que tinha cabelos mais escuros. Ele estava caído numa posição desconjuntada, com o pescoço partido. As marcas de dentes na garganta explicavam tudo. Embora ela nunca o tivesse visto, a sua morte a entristecia. Lágrimas de pesar lhe encheram os olhos. Não porque o amasse, mas sentia que perdera qualquer coisa de muito valiosa, antes de ter tido a oportunidade de apreciá-la. Estava arrasada. A primeira vez que via alguém de sua espécie, esse estava morto.
Ela gostaria de conhecer-lhe a história e honrá-lo com um funeral, mas um exame mais atento no outro a fez compreender que isto era impossível. O que tinha cabelos amarelos ainda respirava, mas a sua vida estava esvaindo através de um rasgão aberto na perna. A única esperança seria levá-lo o mais rapidamente para a caverna, onde ela poderia tratá-lo. Não havia tempo para fazer um enterro apropriado.
Neném farejava o homem de cabelos escuros, enquanto Ayla estancava o sangue da perna do outro com um torniquete feito de couro da funda e uma pedra lisa. Ao terminar, tirou o leão de perto do cadáver. “Sei que está morto, Neném, mas ele não é para você”, disse para si mesma. O leão saltou da borda do paredão e foi verificar se a corça ainda permanecia num buraco na rocha onde ele a deixara. Pelos seus rosnados, Ayla sabia que estava preparando-se para comer.
Depois que o sangue passou a jorrar em menor quantidade, ela assoviou chamando Huiin e desceu da borda do penhasco para armar o jorrão. A égua agora estava mais nervosa e Ayla lembrou-se de que Neném tinha uma companheira. Ela a abraçou, fazendo-lhe algumas carícias para acalmá-la e, em seguida, foi examinar a esteira amarrada entre os dois paus que iam arrastados atrás do cavalo. O trançado estava forte, daria para agüentar o peso do homem de cabelos amarelos. Mas havia o outro e ela não sabia o que fazer com ele. Não queria deixá-lo para os leões.
Ao subir de volta pelas pedras, reparou que uma rocha no fundo da garganta estava solta, numa posição desequilibrada com unia parte assentada sobre um enorme bloco que, por sua vez, parecia também em desequilíbrio. Subitamente se lembrou de como Iza fora enterrada. O corpo da velha curandeira havia sido colocado numa cavidade do chão da caverna e coberto por pedras e cascalhos. Isso lhe deu uma idéia. Ela arrastou o cadáver para o fundo da garganta, deixando-o junto do escorregamento de pedras.
Neném, com o focinho sujo do sangue da corça, chegou para ver o que Ayla fazia. Depois seguiu-a, farejando o homem que ela arrastava para a borda da pedreira, onde Huiin, desconfiada, esperava com o jorrão já atado ao seu lombo.
- Agora saia do caminho, Neném!
Com cuidado, Ayla procurou acomodar o homem no jorrão. As pálpebras tremeram e ele soltou alguns gemidos de dor. Depois, voltou a fechar os olhos. Felizmente estava desacordado. Era um homem pesado e o esforço que Ayla tinha de fazer para removê-lo seria muito doloroso se ele estivesse consciente. Quando, por fim, viu que o homem estava bem seguro na padiola, pegou uma comprida e pesada lança e se dirigiu outra vez para o fundo da garganta. Pesarosa, olhou para o homem morto no chão. Apoiou a lança contra uma pedra e, na língua formal dos clãs, se dirigiu com gestos silenciosos ao mundo dos espíritos.
Ela vira como Creb, o velho mog-ur, com os seus gestos fluídicos e elo quentes, havia encomendado o corpo de Iza aos espíritos extraterrenos. Esses mesmos gestos ela os usara quando encontrou o corpo do feiticeiro na caverna, em meio aos escombros provocados por um terremoto. No entanto, nunca entendeu o sentido daquela gesticulação. Isso não era importante, conhecia-lhe a intenção. Enquanto realizava os ritos, belos e silenciosos, que poriam aquele estranho desconhecido no caminho do mundo espiritual, velhas lembranças desfilavam diante de seus olhos cheios de lágrimas.
Então, fazendo da lança uma alavanca, do mesmo modo como usava o seu pau de cavar para remover pesadas toras ou levantar raízes, ela deslocou o enorme bloco e saltou para trás, pondo-se ao abrigo da chuva de pedras que despencou sobre o morto.
Antes que a poeira houvesse assentado, já tinha conduzido Huiin para fora da garganta. Montou e começou o longo trajeto de volta. As paradas foram apenas para ver como passava o homem e colher algumas raízes de confrei. Ela, entretanto, sentia-se dividida. Ao mesmo tempo que tinha pressa de levá-lo para a caverna, não queria exigir muito de Huiin. Só depois que conseguiu passar com o homem pelo rio e ver a ponta do penhasco é que relaxou um pouco. E só quando parou para trocar a posição dos paus do jorrão, antes de iniciar a subida para a caverna, é que se permitiu acreditar que havia conseguido chegar em casa com o homem ainda vivo.
Ela conduziu Huiin para dentro, acendeu uma fogueira para ferver água, desamarrou o homem e o arrastou para o lugar que era o dela na caverna. Tirou os arreios da égua e a abraçou cheia de gratidão. Passou em revista o estoque de ervas medicinais, separando as que iria precisar. Então, antes de dar seqüência aos preparativos, segurou no amuleto e respirou profundamente.
Os pensamentos estavam tumultuados demais para que pudesse formular uma prece especial ao seu totem. Via-se tomada por inexplicáveis desejos e esperanças vagas e confusas, mas queria ajudar aquele homem. Queria a força de seu poderoso totem para auxiliá-la no trabalho de salvá-lo. Não podia deixá-lo morrer. Não sabia exatamente por que, mas jamais alguma coisa fora tão importante. Fosse lá o que tivesse de fazer, aquele homem não podia morrer.
Ela pôs mais lenha na fogueira e verificou a temperatura da água dentro de um pote de couro, suspenso diretamente sobre o fogo. Quando viu que estava soltando fumaça, jogou pétalas de cravina dentro. Por fim, dirigiu-se para o homem ainda inconsciente. Pelos rasgões na roupa deduziu que, além do ferimento na coxa direita, havia outros. Ela precisava despi-lo, mas o traje que o homem usava não era a manta amarrada por correias com que estava acostumada.
Ao examinar com mais atenção para ver como iria fazer, descobriu que o couro da roupa havia sido cortado em peças separadas que se juntavam por meio de cordões, de modo a vestir os braços, as pernas e o corpo. Ela estudou as junturas com cuidado. Resolveu que, para tratar a perna, o melhor seria se cortasse as calças. Mais surpresa ficou quando, depois de cortar a roupa de fora, encontrou uma outra diferente de tudo quanto já vira na vida. Pedaços de conchas, ossos, dentes de animais e penas coloridas estavam nela presos numa forma bem ordenada. Seria uma espécie de amuleto? Não gostava da idéia de cortá-la, mas não havia outro jeito. Ela o fez com cuidado, procurando seguir o desenho e conservá-lo tanto quanto possível.
Sob a vestimenta enfeitada havia outra, cobrindo a parte inferior do corpo. As pernas estavam vestidas com peças separadas e costuradas com cordões. Depois, as duas se juntavam numa só peça que era amarrada ao redor da cintura à maneira de uma sacola que se fechava com um cordão de puxar, mas com uma aba sobrepondo-se à outra na parte da frente, de modo a deixar uma abertura. Essa também ela cortou e, de passagem, viu que realmente estava diante de um homem. Removeu o torniquete e retirou devagar o couro duro e empapado de sangue da perna dilacerada. Durante o caminho, havia parado algumas vezes para afrouxar o torniquete e comprimir as artérias com a mão, tanto para controlar o sangramento como para permitir a circulação da perna. Quando certas medidas e precauções não eram devidamente tomadas, um torniquete às vezes podia provocar a perda de um membro.
Quando chegou a vez dos calçados, novamente ela se surpreendeu. Também estes eram cortados e costurados de modo a tomar a forma dos pés. Resolveu tirá-los, cortando entre os cordões e correias de enrolar. A ferida na perna outra vez sangrava, mas não muito. Ela fez um rápido exame para saber da extensão dos outros machucados. Eram ferimentos e arranhões superficiais, mas sempre havia a possibilidade de infecções. Todo ferimento causa do por garras de leão tinha tendência a inflamar-se perigosamente. Isso acontecia até mesmo com os pequenos arranhões que Neném lhe deixava na pele. Mas infecções não eram a sua primeira preocupação. A perna sim. Um outro ferimento, uma feia inchação na cabeça, provavelmente causada pelo tombo no momento em que foi atacado, ela olhou só por alto. Não sabia dizer se era ou não grave, mas não tinha tempo para pensar nisto agora; a perna começara a sangrar.
Ao mesmo tempo em que apertava a virilha, limpava o ferimento com uma pele de coelho – raspada e espichada até tornar-se numa pelica macia e absorvente - que mergulhava na infusão morna de cravinas. O líquido era adstringente e anti-séptico. Seria depois usado também para conter o sangue dos ferimentos menores. Ela limpou o machucado por dentro e por fora. Sob a pele, via uma parte da musculatura da coxa rompida. Pegou pó de raiz de gerânio e esparramou em quantidade sobre a ferida. O efeito coagulante foi imediato. Enquanto mantinha apertado o ponto de compressão da artéria com uma das mãos, com a outra ela enxaguava as raízes de confrei. Depois mastigou-as até tomá-las numa pasta que cuspiu dentro do pote contendo a solução de cravinas. Seria usada num curativo a ser aplicado diretamente sobre a ferida aberta. Ela repôs os músculos no lugar e procurou fechar o feri mento, apertando-o. No entanto, ao retirar as mãos, a ferida voltou a abrir-se e os músculos escorregaram, saindo da posição.
Novamente ela tornou a fechar, mas sabendo que a ferida não se manteria assim. Não acreditava que uma faixa enrolada firme ao redor da coxa fosse funcionar, além disso não queria que a cicatrização se fizesse defeituosamente e mais tarde fosse trazer problemas irremediáveis para o homem. “Se ao me nos pudesse ficar ali sentada mantendo aquele corte fechado até que se desse a cicatrização”, pensou, sentindo-se impotente e desejando que lia estivesse ao seu lado. Tinha certeza de que a velha curandeira saberia o que fazer, apesar de que ela própria nunca aprendeu a tratar um caso como aquele.
Mas então se lembrou de uma coisa. Foi quando perguntou a Iza como poderia se tornar uma curandeira de sua linha. “Eu não sou sua filha, lia”, disse ela naquela ocasião. “Para dizer a verdade, nem sei o que significam estas memórias de que vocês falam...”
Iza explicou-lhe, então, que a elevada posição social das curandeiras de sua linha se devia ao fato de serem elas as melhores. As mães passavam às filhas o conhecimento com que nasciam e mais alguns outros advindos da experiência. Ayla fora treinada por lia que lhe ensinara tudo o que podia, tal vez não tudo o que soubesse, mas o bastante para que ela fosse uma boa curandeira, pois Ayla possuía algo mais. Era uma espécie de dom, disse Iza.Você não tem as memórias, minha filha, mas possui uma maneira particular de pensar, de entender... uma maneira de saber como ajudar...
“Se ao menos pudesse pensar numa maneira para ajudar este homem”, pensou Ayla, olhando para a pilha de roupas que cortara para despi-lo. Uma idéia lhe ocorreu. Ela soltou a perna e pegou numa das peças de roupa- Eram partes cortadas separadamente e depois juntadas com um fio de tendões. Ela separou os pedaços da vestimenta, examinando como eles se amarravam uns aos outros. O cordão passava por um furo de uma peça e depois se enfiava pelo furo da outra, juntando as partes.
Para fabricar travessas de cascas de vidoeiro, ela fazia algo parecido, furando buracos e ligando as extremidades com um nó. Será que seria possível fazer a mesma coisa na perna do homem? Amarrar aquele rasgão até que a pele se fechasse?
Rapidamente ela se levantou e trouxe o que parecia ser uns gravetos marrons e secos que, na verdade, eram tendões ressequidos tirados de uma corça. Usando uma pedra lisa e arredondada como martelo, bateu na tira seca, até reduzi-la a compridos fios de fibras de colágeno. Separou-os e pegou um fio fino e duro do tecido conjuntivo, que mergulhou na solução da cravina. Igual ao couro, o tendão ficava flexível depois de molhado e quando seco, não tratado, era duro e teso. Uma vez os fios preparados, ela passou em revista as suas facas e furadores, escolhendo qual instrumento seria melhor para fazer furos na carne do homem. Lembrou-se, então, de que guardava algumas estilhas de uma árvore atingida por um raio. Era o que lia usava para furar bolhas, furúnculos e inchações que precisavam ser drenadas. Para o que ela tinha em mente, as estilhas deviam servir.
Lavou o sangue escorrido, sem saber ainda direito como começar. Quando fincou a estilha fazendo o primeiro furo, o homem se mexeu resmungando. O trabalho precisava ser feito rapidamente. Ela enfiou o fio no furo e, depois de passá-lo no buraco oposto, puxou as duas pontas, amarrando-as com um nó.
Resolveu que não devia dar muitos nós, pois não tinha certeza se conseguiria removê-los mais tarde. Fez apenas quatro ao longo do corte e mais três para firmar os músculos no lugar. Ao terminar, sorriu olhando para os nós amarrando a carne do homem. Havia dado certo, O corte não se abriu mais e os músculos tinham parado no lugar. Se a ferida cicatrizasse normalmente, sem inflamar, ele poderia no futuro usar a sua perna sem maiores problemas.
Ela fez uma compressa com raízes de confrei e enfaixou a perna com um couro macio. Em seguida, cuidadosamente, limpou os outros machucados e arranhões, quase todos no peito e ao redor do ombro direito, O galo na cabeça incomodava-a, mas não havia ferimento, apenas inchação. Preparou uma solução de flores de arnica, fazendo uma compressa que fixou sobre o lugar inchado com uma tira de couro amarrada em volta da cabeça.
Por fim, permitiu-se relaxar, sentando sobre os calcanhares, Quando ele acordasse, havia remédios que ela lhe poderia dar, mas por enquanto havia feito tudo o que podia, E então, endireitando uma pequenina ruga no couro enfaixando a perna, pela primeira vez olhou realmente para o homem.
Ele não era robusto como os homens dos clãs. Musculoso sim e com pernas incrivelmente compridas. Os cabelos dourados que se encaracolavam no peito ficavam como uma penugem brilhante sobre os braços. A pele era pálida. O pêlo do corpo era menos abundante e mais fino do que o dos homens que conhecera. Ele era mais comprido e delgado, mas não que fosse diferente. O membro flácido repousava em meio a macios caracóis dourados. Ela esticou a mão para sentir-lhes a textura, Nisso, recuou, reparando numa cicatriz recente e num machucado sobre as costelas, começando a desaparecer. Ele devia ter sofrido outros ferimentos há pouco tempo.
Ela se aproximou, querendo ver-lhe o rosto. Era chato em comparação com os dos homens dos clãs. A boca de lábios carnudos estava relaxa da. As mandíbulas não eram tão acentuadas, mas o queixo era forte, com uma risca no meio. Ela tocou no dela, lembrando-se de que o do seu filho também era partido. Ninguém nos clãs tinha este tipo de queixo. A forma do nariz não se mostrava muito diferente. O nariz da raça clânica era adunco e comprido. O do homem era menor. Os olhos fechados pareciam muito separados e salientes no rosto. Mas, então, ela percebeu que lhe faltava as pesa das sobrancelhas para sombreá-los. A testa, vincada com ligeiras rugas de preocupação, era alta e reta. Aos olhos dela, acostumados apenas com as pessoas dos clãs, parecia muito ressaltada. Ela tocou para senti-la e depois levou a mão na dela. Eram iguais. Como devia parecer estranha às pessoas dos clãs.
Os cabelos do homem eram longos, lisos e amarelos. Uma parte deles ainda se achava presa na nuca por uma tira, mas no geral fazia uma massa emaranhada. “Como os meus, só que mais claros”, pensou ela. Pareciam com alguma coisa que já vira antes. Subitamente, estarrecida, lembrou-se. O sonho! O seu sonho com o homem dos Outros. Ela não conseguira ver-lhe o rosto, mas os cabelos no sonho apareceram amarelos.
Cobriu-lhe o corpo e, em seguida, saiu rápido para o patamar. Surpresa, viu que ainda era dia, com a tarde começando a cair. Tanta coisa havia acontecido, tanta energia concentrada - mental, física e emocional -fora expandi da tão intensamente que imaginara que fosse muito mais tarde. Ela tentava arranjar os pensamentos, mas eles se enredavam confusamente.
Por que teria resolvido justamente neste dia ir para o lado oeste das estepes? Por que estaria ela lá no momento preciso em que o homem gritou? Por que, com tantos leões nas estepes, fora exatamente Neném que o atacou? Só podia ter sido o seu totem que a conduzira para lá; E o que dizer de seu sonho com um homem de cabelos amarelos? Seria esse o homem? Por que te ria sido ele levado para lá? Ela não sabia que significação poderia ter esse homem em sua vida, mas percebia que esta jamais seria daqui por diante a mesma. Finalmente havia visto o rosto dos Outros.
Sentindo Huiin atrás fuçando a sua mão, ela se virou. A égua pôs a cabeça sobre o seu ombro. Ela estendeu os braços enlaçando-lhe o pescoço, depois encostou a cabeça nele. Por algum tempo deixou-se ficar colada ao animal, querendo preservar a intimidade e o conforto daquela sua vida, sentindo-se um pouco temerosa do futuro. Então, pôs-se a afagar Huiin com tapinhas, percebendo os movimentos do potrinho dentro da barriga.
- Já não deve demorar muito, não é, Huiin? Graças a você pude trazer o homem hoje para cá. Sozinha, nunca teria conseguido.
“Bom, é melhor eu entrar e ver se ele está bem”, pensou, nervosa, com medo de que pudesse acontecer alguma coisa se o deixasse sozinho, ainda que por apenas um momento. Ele não se havia mexido. Assim mesmo, ela plantou-se ao seu lado, observando-lhe a respiração, sem conseguir desviar os olhos dele. Foi então que notou algo estranho. Ele não tinha barba! Todos os homens que já vira possuíam barba cerrada e escura. Será que os homens dos Outros eram imberbes?
Ela encostou a mão no seu queixo, sentindo o pêlo áspero e espetado começando a crescer. “Alguma barba ele tinha, mas tão curta”, concluiu espantada e abanando a cabeça. Apesar de grande e musculoso, subitamente a figura dele pareceu-lhe ser mais a de um menino do que a de um homem adulto.
Ele virou a cabeça, gemeu e murmurou qualquer coisa. Eram palavras ininteligíveis, embora houvesse algo nelas que a fazia sentir como se devesse entendê-las. Ela pôs a mão na sua testa e depois na face. A febre subia. “E melhor ver se consigo que ele tome um pouco de chá de salgueiro”, pensou.
Enquanto esperava a água do chá ferver, ela fez uma nova vistoria no seu estoque de ervas medicinais. Nunca soube o motivo que a levara a fazer uma farmácia tão completa como a que tinha, quando não havia ninguém ali, fora ela, para ser tratado. Fizera-o simplesmente por hábito. Agora, no entanto, dava graças por isso. Havia muitas plantas que ela não tinha achado no vale ou nas estepes e que nas cercanias da antiga caverna eram facilmente encontradas. Mas as que se achavam lá bastavam, além de que estava colhendo algumas outras que não existiam nas regiões mais ao sul. Iza lhe ensinara como testar nela própria uma planta desconhecida - fosse para ser usada como remédio ou comida - mas ela ainda se achava um tanto insegura de suas novas aquisições, pelo menos para usá-las no homem.
Além das cascas de salgueiro, ela separou uma outra planta de uso bem conhecido. Tinha um caule peludo que, ao invés de ter as folhas prendendo-se a ele, parecia brotar do meio de grandes folhas de duas pontas. Quando ela acolheu, a planta estava carregada de flores brancas que agora eram murchas e marrons. Lembravam tanto a agrimônia que Ayla sempre achou que fosse uma variedade desta erva, até que, na reunião dos clãs, soube por urna curandeira do seu verdadeiro nome: eupatório. A mulher a usava com o mesmo fim que ela. A planta era posta para ferver até se obter um xarope espesso e isso levava tempo. Fazia suar muito e era um medicamento forte. Ayla não tinha vontade de usá-lo no homem, enfraquecido pela perda de sangue, a não ser que fosse necessário. No entanto, era melhor estar prevenida.
Lembrou-se de folhas de alfafa. Quando embebidas em água quente, ajudavam na coagulação do sangue. Ela vira algumas no campo.. . e um bom caldo de carne também ajudaria o homem recuperar as suas forças. A curandeira que existia nela havia voltado a pensar, já não estava mais tão perdida em suas confusões anteriores. Desde o princípio uma só idéia a movia: aquele homem precisava viver.
Ela conseguiu, aninhando a cabeça dele em seu colo, lhe dar um pouco de chá de salgueiro. As pálpebras tremeram e ele murmurou qualquer coisa, mas continuava desacordado. Os cortes e arranhões tinham ficado quentes e vermelhos. A perna visivelmente estava mais inchada. Ela substituiu o curativo e fez uma nova compressa para o machucado na cabeça. Pelo menos a inchação começava a ceder. Ao anoitecer, a sua preocupação aumentou. O seu desejo era o de que Creb estivesse lá invocando espíritos para ajudá-la no tratamento, tal como ele fazia quando ela cuidava de lia em sua doença.
Depois que escureceu o homem começou a ficar agitado, se sacudindo e gritando. Uma palavra era constantemente repetida em meio a outras que ela suspeitava fossem avisos de alarme. Ayla achava que talvez fosse o nome de alguém, possivelmente do outro homem.
Por volta do meio da noite, ela, com uma colher de osso, lhe deu em pequenos goles o xarope de agrimônia. Era amargo e ele procurou repelir o medicamento abrindo de repente os olhos, mas não havia qualquer sinal de reconhecimento vindo de suas profundezas obscurecidas. Passado algum tempo, ela lhe deu um chá de datura, e foi mais fácil. Ele tomou-o como se quisesse lavar a boca do outro gosto ruim e amargo. Ayla dava graças por ter encontrado datura perto do vale, uma planta que tanto servia para aliviar as dores como para fazer dormir.
Àquela noite ficou de vigília, esperando a febre ceder, mas somente pouco antes do amanhecer é que ela, depois de atingir o seu máximo, começou a baixar. Então lavou-lhe o corpo, empapado de suor, com água fria, trocou as cobertas da cama e os curativos. A partir daí, ele dormiu mais sossega do, enquanto ela cochilava sobre uma pele ao seu lado.
De repente, ela se encontrou olhando para o sol brilhante que chegava pela boca da caverna. Por que estaria tão alerta? Ao se virar para o lado, deu com o homem, e todo o dia anterior desfilou pela sua mente. Ele parecia tranqüilo e dormindo normalmente. Ela se deixou ficar deitada quieta. Então, ou viu a respiração pesada de Huiin. Rápido, se levantou, indo para o outro lado da caverna.
- Huiin - disse excitada - chegou o momento?
A égua não precisava responder.
Ayla já ajudara nos partos de muitas crianças e ela própria tinha um filho, mas no caso de uma égua aquela era a primeira vez. Huiin, no entanto, sabia o que fazer, o que não impedia de parecer agradecida por ter a presença confortadora de Ayla ao seu lado. Foi somente já no fim, com o potro quase todo expelido, é que ela ajudou a puxá-lo. Então, feliz, sorriu vendo Huiin lamber o pêlo marrom e esfiapado do seu rebento.
- Essa é a primeira vez que eu vejo uma mulher servindo de parteira para uma égua - falou Jondalar.
Ayla imediatamente girou o corpo e olhou para o homem que, apoiado sobre um dos cotovelos, a observava.
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