O Vale dos Cavalos
Capítulo 2
- Mas então, Jondalar, por que você resolveu vir comigo? - perguntou um rapaz de cabelos castanhos, enquanto desmontava uma barraca feita de diversos panos de couro amarrados uns aos outros. - Você disse a Marona que ia apenas visitar Dalanar e me mostrar o caminho. A sua intenção era só a de fazer uma pequena viagem, antes de instalar-se na sua casa. Esperava-se que você fosse à Reunião de Verão com os Lanzadonii e chegasse a tempo ainda para o matrimônio. Ela vai ficar furiosa e n sou eu quem gostaria de ter a raiva daquela mulher voltada contra mim. Tem certeza de que não está simplesmente querendo fugir dela? - o tom de Thonolan era despreocupado, mas a expressão séria de seus olhos estava carregada de intenções.
- O que faz você pensar, meu irmão, que seja o único na família com vontade de viajar? Não estava imaginando que eu iria deixá-lo ir sozinho, não é? Isso nunca. Alguém tem de ir junto, porque senão quem na sua volta iria vigiar as lorotas e o mundo de histórias que iria contar? Além do mais, alguém tem de ir para livrá-lo das encrencas - falou um homem alto e louro, enquanto abaixava-se para entrar na barraca.
Dentro, havia altura suficiente para se ficar confortavelmente sentado, ou de joelhos, mas não de pé. O espaço também era suficientemente grande para acomodar os sacos de dormir e a tralha que carregavam. A barraca era sustentada por três paus enfileirados no centro e, no meio, próximo do varão mais alto, havia um buraco com uma aba que podia ser fechada quando chovesse ou aberta para deixar escapar a fumaça, se quisessem armar uma fogueira. Jondalar arrancou os paus e saiu de rastro pela abertura, trazendo-os para fora.
- Ora, você me livrar de encrencas... - disse Thonolan. - Eu é que vou precisar de quatro olhos, dois na frente e dois atrás para ver o que vem vindo por aí no seu encalço. Espere e verá o que vai acontecer quando Marona descobrir que você não foi com Dalanar e os Lanzadonii à Reunião de Verão. Para agarrá-lo, Jondalar, essa mulher é capaz até de transformar-se numa donii de asas e sair voando por cima das geleiras - os dois juntos começaram a dobrar a barraca. - Não é de hoje que aquela ali anda de olho em você. E logo agora que pensava que conseguira pegá-lo, você arruma uma viagem para fazer, Jondalar? Está me parecendo que arranjou essa desculpa só para não enfiar a mão no laço que o zelandoni iria apertar. Será que o meu irmão é daqueles que têm medo de matrimônio? - eles puseram a barraca junto dos dois baús que carregavam às costas. - A maioria dos homens de sua idade já está com casa e um ou dois filhos - acrescentou Thonolan, esquivando-se do soco que o irmão fingia querer-lhe dar. Ele agora se abriu num amplo sorriso que lhe iluminava os olhos cinzas.
- A maioria dos homens de minha idade! Olha quem fala. Eu sou só três anos mais velho do que você - falou Jondalar, fingindo raiva. Então, de modo inteiramente inesperado, por isso mesmo ainda mais surpreendente, ele soltou uma sonora gargalhada, franca, cheia de espontaneidade. Ver os dois irmãos era como ver a noite e o dia. Thonolan, o mais baixo e de cabelos castanhos, era de temperamento mais afável. Tinha natureza calo rosa e um riso fácil e contagioso que rapidamente o tomava numa pessoa que rida. Já Jondalar, mais sério, estava freqüentemente com a testa franzida, nu ma atitude de concentração, ou talvez na de um homem preocupado. O seu riso era também fácil, principalmente se perto do irmão, só que poucas vezes ria em voz alta, mas quando o fazia, o abandono era total e de forma completamente inesperada.
- E como você pode garantir que a Marona já não tem um filho para levar à minha casa quando voltarmos? - perguntou Jondalar, enquanto os dois enrolavam um pano de couro que tanto servia para forrar o chão como para armar uma barraca menor, só de um varal.
- E como você pode garantir que ela não tenha resolvido que o meu esquivo irmão seja o único homem digno de seus encantos? A Marona realmente sabe agradar um homem... isto é, quando ela quer. Mas aquele seu gênio... Até agora você foi o único que já conseguiu manobrá-la. Bem sabe Dom que há uma quantidade de homens por aí que gostaria de apanhá-la, com mau gênio e tudo - os dois achavam-se de frente um para o outro, com o pano de couro entre eles. - Por que você não pega Marona para companheira, Jondalar? Há anos que todo mundo espera por isso.
Thonolan falava sério. Os olhos muito azuis de Jondalar ficaram confusos e ele franziu a testa.
- Talvez seja porque todo mundo esteja esperando - respondeu. - Eu não sei, Thonolan. Para ser franco, eu também espero que isso um dia aconteça. Quem mais poderia eu ter para companheira?
- Quem? Ora, Jondalar, qualquer mulher que você quisesse. Em todas as cavernas não há uma só mulher sem companheiro. Não existem muitas, mas qualquer uma, ao primeiro aceno seu, sairia correndo para atar o nó com Jondalar dos Zelandonii, irmão de Joharran, chefe da Noria Caverna, para não mencionar que é irmão de Thonolan, o ousado e corajoso aventureiro.
- Você esqueceu de dizer filho de Marthona, a chefe anterior da Noria Caverna, e irmão de Folara, a bela filha de Marthona, ou que ainda o será quando crescer - Jondalar deu um sorriso. - Se você pretende citar todas as minhas relações, não se esqueça também de falar nos abençoados de Doni.
- E quem poderia se esquecer deles? - disse Thonolan, pegando os sacos de dormir. Eram feitos de duas peles cortadas de modo a servir para uru homem adulto, e amarradas dos lados e no pé com um cordão na abertura para ser puxado. - De que estávamos mesmo falando? Até Joplaya, eu acho que gostaria de você para companheiro, Jondalar.
Os dois começaram a arrumar os baús. Era como se fossem caixotes duros, com a parte superior mais estreita, feitos de couro cru, preso em ripas de madeira e seguros por correias que se ajustavam ao ombro através de uma fileira de botões esculpidos em marfim. Os botões eram presos passando uma tira de couro por um único buraco central e se atando a urna outra tira com um nó na frente que tornava a passar pelo mesmo buraco e a entrar no seguinte.
- Você sabe que dela eu não posso ser companheiro. Joplaya é minha prima. E além do mais, você não devia levá-la muito a sério. Joplaya gosta muito de provocar. Ficamos bons amigos quando fui viver com Dalanar para aprender o meu ofício. Ele ensinava a nós dois ao mesmo tempo. Ela é uma das melhores talhadoras de pedra que conheço. Mas nunca lhe diga que fiz esse elogio. Nós estamos sempre competindo e ela me iria jogar isto na cara.
Jondalar apanhou uma pesada sacola onde guardava a suas ferramentas e alguns pedaços de sílex. O seu pensamento estava em Dalanar e na Caverna que ele havia fundado. Os Lanzadonii estavam aumentando. Cada vez mais gente se unia a eles e as famílias começavam a expandir-se. “Dentro de pouco tempo já existirá uma Segunda Caverna de Lanzadonil”, pensou, guardando a sacola dentro do seu baú e botando por cima os utensílios de cozinha, comi das e outros objetos. O rolo de dormir e a barraca foram postos em seguida. Dois dos paus seriam levados num suporte do lado esquerdo do baú. Thonolan carregaria o couro para cobrir o chão e o terceiro pau. Do lado direito dos baús havia suportes especiais, onde levavam diversas lanças. Thonolan foi encher o seu odre, que era feito do estômago de um animal e revestido com couro. Quando fazia muito frio, como no platô das geleiras por onde haviam acabado de passar, eles carregavam os odres por dentro das parkas, junto da pele, para que o calor do corpo derretesse a neve. Numa geleira não havia combustíveis para fogueira. No momento, era onde se encontravam, e ainda não tinham descido bastante no terreno para acharem água corrente.
- Pois eu lhe digo, Jondalar - falou Thonolan, levantando os olhos. -Fico satisfeito por Joplaya não ser minha prima. Acho que desistiria da viagem para ter aquela mulher como companheira. Você nunca me contou que ela era tão bonita. Nunca vi ninguém como Joplaya. Nenhum homem consegue vê-la, sem se apaixonar por ela. Dou graças por ter nascido de Marthona depois de sua união com Willomar e não enquanto ela ainda era companheira de Dalanar. Pelo menos, isso me dá alguma chance.
- É, Joplaya é bem bonita. Isso não se discute. Há uns três anos que não a vejo. Esperava que ela já tivesse por esse tempo arrumado um companheiro. Fico contente por Dalanar ter resolvido levar os Lanzadonli à Reunião dos Zelandonii, neste verão. Somente com uma Caverna não há muito o que escolher. Isso dará oportunidade a Joplaya para encontrar-se com outros homens.
- E também deixará Marona com ciúmes. Chego a lamentar não assistir o encontro das duas. Marona está muito mal-acostumada. Ela é sempre a beldade das Reuniões. Ela vai odiar Joplaya. E agora, sem você lá, tenho a impressão de que a Reunião não vai ter nenhuma graça para Marona.
- É verdade, Thonolan. Ela vai se sentir atingida. Vai ficar furiosa e eu lhe dou razão. Marona tem um péssimo gênio, mas é boa mulher. Tudo que está precisando é de arrumar o companheiro certo. Mas ela sabe como agradar um homem. Quando fico perto dela, estou pronto para atar o nó, mas depois, longe... não sei não, Thonolan - ele tinha a testa franzida, enquanto passava o cinto ao redor de sua parka, já com o odre colocado por dentro.
- Diga uma coisa - perguntou Thonolan, novamente com expressivo séria - como você se sentiria se ela resolvesse tomar um outro para companheiro, enquanto estamos fora? Você deve saber.
Jondalar atava o cinto, pensando na resposta.
Eu ficaria sentido, ou o meu orgulho ficaria... bom, não sei direito. Mas não iria culpá-la por isso. Ela merece alguém melhor do que eu. Alguém que não fosse largá-la no último momento para fazer uma viagem. E se ela for feliz, ficarei feliz por ela.
- Foi o que pensei - disse Thonolan, abrindo-se num sorriso. - Bom, meu irmão, se é para manter a dianteira dessa donil que está vindo aí atrás de você, é melhor nos pormos logo a caminho.
Thonolan terminou de arrumar o baú e levantou a parka, desvestindo o braço de uma das mangas, de modo a pendurar o odre a tiracolo, sob o agasalho.
As parkas tinham um modelo simples, fácil de ser cortado. A parte da frente e das costas eram duas peças mais ou menos retangulares, presas nos ombros e nos lados. Dois retângulos menores, dobrados e costurados na for ma de tubo e presos no corpo da roupa, faziam as mangas. Os capuzes também eram presos e tinham uma franja de pele de carcaju ao redor, de modo a não grudar nele o gelo formado com a umidade da respiração. As parkas costumavam ser belamente ornamentadas com trabalhos de contas, feitas de ossos, marfim, conchas, dentes de animais e também com as pontas pretas dos rabos de arminhos. Vestiam-se pela cabeça, ficando como uma túnica solta, batendo na metade da coxa, que se ajustava na cintura com uma correia.
Debaixo das parkas eles vestiam camisas macias de pele de gamo, corta das de maneira semelhante, e calças de pele, cruzadas na frente e seguras por urna tira na cintura. As mitenes, forradas de pelúcia, estavam atadas a um comprido cordão que passava por dentro de uma alça nas costas da par/az, de modo que se pudesse retirá-las com rapidez, sem o risco de deixá-las cair ou perder. As botas, com solas grossas - como mocassins -, envolviam o pé inteiro e se prendiam a um tipo de couro mais macio que se ajustava à perna com dobras e correias enroladas. Dentro, havia um forro solto de feltro - fabricado com lã de carneiro úmida e batida até que resultasse um tecido de fibras emaranhadas. Em dias particularmente frios e úmidos, calçavam, por cima das botas, intestinos de animais, uma matéria impermeável e flexível. Era, no entanto, um material muito fino que rasgava com facilidade e, por isso, usado só em casos de necessidade.
- Thonolan, até onde mesmo você pretende ir? Você não estava falando sério quando disse que iria até a foz do Rio Mãe, não é? - perguntou Jondalar pegando uma machadinha de pedra com o cabo curto e grosso, que pendurou numa alça em seu cinto, onde já se achava uma faca de pedra com cabo de osso.
Thonolan, que estava calçando uma raqueta para neve, parou.
- Jondalar, foi exatamente o que eu quis dizer - respondeu, sem a menor sombra de estar brincando.
- Talvez não estejamos de volta nem para a Reunião de Verão do ano que vem.
- Está pensando em desistir? Não é obrigado a vir comigo, meu irmão. Falo sério. Não vou ficar zangado se você voltar daqui. Além de tudo, foi uma decisão impensada essa sua de querer viajar. Você sabe tanto quanto eu que talvez nunca mais voltemos para casa. Mas se quiser ir, decida logo, do contrário, só conseguirá atravessar de volta essa geleira depois do próximo inverno.
- Não. Não foi uma decisão impensada. Há muito tempo que venho querendo fazer uma viagem e chegou agora a ocasião - disse Jondalar de mo do categórico, mas, como pareceu a Thonolan, com um toque de indizível amargura. Então, como se querendo espantar esse sentimento, Jondalar passou a falar num tom mais despreocupado. - Jamais fiz de fato uma viagem para valer e, se não for desta vez, nunca mais será. Está resolvido, irmãozinho, daqui para frente vou ficar colado em você.
O céu estava claro e o sol, refletindo na brancura virginal que se estendia à frente deles, ofuscava-lhes a vista. Era primavera, mas na altitude em que se achavam a paisagem não dava nenhuma mostra da estação. Jondalar tirou um par de óculos escuros que trazia na sacola pendurada em seu cinto. Era uma peça de madeira, talhada de forma a cobrir os olhos e com apenas uma fenda cortada horizontalmente. Ele a amarrou ao redor da cabeça. Em seguida, fazendo rápido movimento de torcer o pé, enrolou o cordão do sapato de neve no engate na ponta do pé e no outro na altura do tornozelo. Prepara do para caminhar, foi buscar o baú.
Fora Thonolan quem havia feito os sapatos de neve, mas a sua verdadeira especialidade era a fabricação de lanças. Ele carregava consigo o seu nivela dor, um objeto feito do chifre de um veado, sem as pontas dos galhos e com um furo na extremidade. A ferramenta era adornada com o intrincado desenho de uma cena primaveril, cheia de bichos e plantas. Em parte era para honrar a Grande Mac Terra, na intenção de persuadi-la a atrair os espíritos dos animais para as pontas das lanças produzidas com aquela ferramenta, e também porque Thonolan sentia prazer em esculpir. Seria inevitável que algumas lanças se perdessem durante as caçadas, e ele teria de fazer outras para reposição. O nivelador era principalmente usado na extremidade da lança, onde não era possível segurá-la. Enfiando a haste no furo, obtinha-se um ponto de apoio adicional. Thonolan sabia trabalhar a madeira, aquecendo-a no vapor ou com pedras quentes, de modo a desentortá-la para uma lança ou, ao contrário, curvá-la, quando era o caso de fabricar raquetas. Eram dois aspectos de uma mesma técnica.
Jondalar virou o corpo, querendo ver se o seu irmão estava pronto. Fazendo um sinal de concordância com a cabeça, os dois se puseram a caminho, descendo pela encosta que ia dar numa pequena floresta. À direita, para além das terras baixas, bem arborizadas, viram o promontório alpino coberto de neve e, muito ao longe, os picos irregulares e gelados das montanhas setentrionais da imponente cordilheira. Do lado sudeste, as refulgências de um dos picos pairava muito mais acima do que as dos vizinhos.
Comparativamente, os altiplanos por que eles haviam acabado de passar não eram mais do que uma pequena colina, um maciço sobrado da erosão de montanhas muito mais antigas do que os altos picos do sul. Mas, assim mesmo, eram bastante altos e bem próximos da acidentada cordilheira com as suas fantásticas geleiras - que coroavam e envolviam as montanhas até uma certa altura - para manter uma coberta de gelo durante o ano inteiro no seu cume relativamente enorme. Algum dia, quando a geleira continental retrocedesse ao seu habitat polar, aqueles altiplanos seriam sombreados por urna floresta. Por enquanto, não passavam de uma geleira sobre um platô, uma ver são em miniatura dos imensos lençóis de gelo que faziam uma ponte ligando o norte com o resto da terra.
Quando os dois irmãos alcançaram a pequena floresta embaixo, retiraram os óculos que protegiam os olhos, mas diminuíam o campo de visão. Um pouco mais adiante, baixando mais na encosta, encontraram um pequeno riacho, originado do degelo que, vazando pelas fissuras da rocha, corria sob o solo, para depois emergir filtrado e limpo de impurezas numa fonte espumosa. Como muitos outros córregos igualmente nascidos de geleiras, este também corria entre margens cobertas de neve.
- O que você acha? - perguntou Thonolan, apontando na direção do riacho. - É por aqui que Dalanar disse que ele deveria estar.
- Se for o Danúbio, logo ficaremos sabendo. Iremos ter certeza de que estamos seguindo o Rio Mãe quando chegarmos a três rios pequenos que, de pois de se encontrarem, correm no rumo do leste Foi isto que ele disse. Tenho a impressão de que no fim qualquer um desses riachos acabará nos levando ao grande rio.
- Bom, vamos ficar ao lado esquerdo. Mais tarde, já não vai ser tão fácil cruzar de margem.
- Isso é verdade, mas os Losadunai vivem na margem direita e poderíamos dar uma parada numa de suas Cavernas. Dizem que do lado esquerdo é território dos cabeças-chatas.
- Jondalar, nós não vamos parar nos Losadunai - falou Thonolan, sorrindo, mas firme no seu intento. - Você sabe que eles vão querer obrigar-nos a ficar e já demoramos demais nos Lanzadonil. Se tivéssemos ficado lá um pouco mais, já não poderíamos atravessar a geleira. Teríamos de ter dado a volta e passar pelo território dos cabeças-chatas que fica ao norte dali. Pretendo ir avançando, e quanto mais ao sul menos cabeças-chatas haverá. Bom, mas mesmo que haja, que importância tem? Você não está com medo de um punhado de cabeças-chatas, ou está? Sabe o que dizem? Que não há a menor diferença entre matar um cabeça-chata e um animal.
- Não sei não - falou Jondalar, franzindo a testa preocupado. - Não tenho muita certeza se gostaria de entrar neste momento em luta com um urso. Ouvi dizer que os cabeças-chatas têm inteligência e há pessoas que chegam a afirmar que eles são quase humanos.
- Inteligência, pode ser que tenham, mas não falam. Não passam de animais.
- O que está me preocupando, Thonolan, não são cabeças-chatas. Se estou querendo ir até os Losadunai, é porque eles conhecem bem esta região e poderiam botar-nos no caminho certo. Não precisamos ficar muito tempo com eles... apenas o suficiente para determinar a nossa posição e rumo. Eles podem nos dar alguns pontos de referência, dizer o que nos espera pela frente. E poderemos conversar com eles. Dalanar disse que alguns falam zelandonii. A idéia é essa. Se você concordar em parar agora, concordo em não fazer nenhuma outra parada, a não ser quando estivermos de volta.
- Já que faz tanta questão, tudo bem.
Os dois procuraram um lugar para atravessar. As margens cobertas de gelo, agora mais afastadas, não davam para que pulassem de um para outra. Ao verem uma árvore tombada fazendo uma ponte natural sobre o córrego, encaminharam-se na sua direção. Jondalar foi na frente. Segurou num galho e botou o pé numa das raízes descobertas. Thonolan olhava ao seu redor, esperando a vez.
- Jondalar! Cuidado! - gritou de repente.
Uma pedra passou zunindo pela cabeça de Jondalar. No mesmo momento em que ele se atirou no chão, alertado pelo grito, apanhou uma de suas lanças. Thonolan também já tinha uma na mão e se achava agachado, olhando na direção de onde partira a pedra. Ele percebeu movimentos atrás da galhada sem folhas de um arbusto e arremessou a sua lança. Enquanto apanhava outra lança, seis figuras surgiram do matagal próximo.
Eles estavam cercados.
- Cabeças-chatas! - gritou Thonolan, dando um passo para trás e fazendo pontaria.
- Espere, Thonolan! - gritou Jondalar. - Eles estão em maior número.
- O grandão parece que é o chefe do bando. Se eu conseguir pegá-lo, o resto talvez fuja - ele tornou a levantar o braço, botando-o na posição de atirar.
- Não! Eles podem nos atacar antes que a gente consiga pegar a segunda lança. Por enquanto estão mantendo-se à distância. Não fazem movimento. - Jondalar, devagar, levantou-se do chão, com a arma pronta para ser usada. - Não se mexa, Thonolan. Deixe que a iniciativa seja deles. Mas fique de olho no grandão. Ele está vendo que você faz pontaria na sua direção.
Jondalar, confuso, examinava o grandalhão dos cabeças-chatas, sentindo que os enormes olhos castanhos do outro também o examinavam. Até então, nunca estivera tão perto deles e se via surpreso. Aqueles cabeças-chatas não correspondiam às idéias preconceituosas que formara sobre eles. Os olhos do grandão se achavam meio escondidos pelos supercílios extremamente salientes que mais ressaltados ainda ficavam com as sobrancelhas, fortes e espessas. O nariz era grande, estreito, quase como um bico, contribuindo para que os olhos parecessem profundamente enterrados no rosto. A barba cerrada, meio encaracolada, escondia a cara. Olhando para um outro mais jovem, com a barba apenas começando a despontar, Jondalar viu que eles não tinham queixo, apenas mandíbulas muito salientes. Os cabelos eram castanhos e fartos, como a barba, e era provável que fossem muito cabeludos também no corpo, sobretudo na parte superior das costas. Ele não sabia dizer ao certo porque as roupas de pele que usavam lhes cobriam o torso. Os braços e os ombros, apesar da temperatura gelada, estavam descobertos. Mas a pouca vesti menta não surpreendia tanto Jondalar como o fato de se acharem vestidos. Já mais algum animal foi visto usando roupas e carregando armas. E todos seguravam compridas lanças de madeira - feitas, sem dúvida, para serem estocadas e não atiradas -de pontas agudas, parecendo bem perigosas. Alguns dos outros, além de lanças, carregavam pesadas maças, feitas das patas dianteiras dos enormes animais de pastagem.
“Não são propriamente mandíbulas de animal”, pensou Jondalar. “Se riam só um pouco mais pronunciadas. Da mesma forma, o nariz... poderia ser considerado simplesmente como um nariz grande. A cabeça, aí que de fato está a diferença.”Ao invés de uma testa alta e bem formada como a dele ou a de Thonolan, os cabeças-chatas tinham-na baixa, que saía dos supercílios e escorregava para trás, dilatando-se na parte posterior. Era como se o alto da cabeça - que Jondalar enxergava por inteiro - tivesse sido amassado e puxado para trás. Quando ele se erguera, com o seu metro e noventa, se avantajou em mais de trinta centímetros sobre o mais alto dos cabeças-chatas. Mesmo o metro e oitenta de Thonolan fazia com que ele parecesse um gigante, perto daquele que aparentemente era o chefe. Mas só na altura.Jondalar e o seu irmão eram homens fortes, mas os dois se sentiam magricelas ao lado dos cabeças-chatas, dotados de uma bem desenvolvida musculatura. Eles tinham o tórax em forma de barril, braços e pernas musculosos e arqueados, fazendo uma curvatura para fora, mas caminhavam eretos e com facilidade como qualquer ser humano. Quanto mais Jondalar os observava, mais eles lhe pareciam homens, só que diferentes de qualquer outro que já conhecera na vida.
Por um longo tempo, cheio de tensão, ninguém se mexeu. Thonolan, agachado, tinha a sua lança em posição de atirar. Jondalar, de pé, agarrava a sua, firme, pronto para seguir o lance do irmão. Os seis cabeças-chatas, cercando-os, estavam imóveis como pedra, mas Jondalar não duvidava da rapidez com que podiam a qualquer instante partir para o ataque. Chegara-se a um impasse, os dois lados guardando distância e a mente de Jondalar trabalhava rápido, tentando encontrar uma saída.
De repente, o grandão emitiu um grunhido e acenou com o braço. Thonolan por um triz não atirou a lança, percebendo ainda a tempo o gesto de Jondalar, detendo-o. O rapazinho dos cabeças-chatas saiu correndo na direção do matagal, de onde eles haviam surgido. Instantes depois, o garoto voltou, carregando a lança atirada por Thonolan que, muito espantado, recebeu-a de volta. Em seguida, o rapazinho se dirigiu ao tronco, servindo de ponte sobre o riacho, e apanhou lá uma pedra. Voltou e se encaminhou na direção do grandalhão, diante do qual pareceu respeitosamente inclinar a cabeça. Pouco depois, sem fazer o menor ruído, todos os seis desapareceram no meio do matagal.
Ao perceber que haviam ido embora, Thonolan soltou um suspiro de alívio.
- Pensei que não fossemos escapar desta! Mas pelo menos um deles eu levaria comigo. Só gostaria de saber o que significou isso tudo.
- Não tenho muita certeza - falou Jondalar - mas me dá a impressão de que o rapazinho começou uma coisa que o grandão não quis encampar e posso garantir a você que não foi por medo. Ele mostrou muito sangue-frio, parado ali enfrentando a sua lança, e depois ao fazer o movimento que fez.
- Talvez não soubesse que outra coisa poderia fazer.
- Não. Ele sabia muito bem. Viu perfeitamente quando você atirou a lança. Senão, não teria dito ao rapaz para pegar a arma e devolvê-la a você.
- Acha mesmo que ele disse ao garoto para fazer isso? Eles não falam.
- Não sei. Mas de algum modo o grandalhão disse ao rapazinho para lhe devolver a lança e buscar a pedra. Foi como se com isso eles nos quisessem dizer que os dois lados estavam quites. Como ninguém saiu ferido, imagino que foi isso o que aconteceu. Sabe de uma coisa? Não tenho muita certeza se os cabeças-chatas são de fato animais. Esses eram inteligentes. Eu não sabia que usassem roupas, carregassem armas e andassem igual a nós.
- Bom, mas porque s chamados de cabeças-chatas, agora eu sei. O bando todo era mal-encarado. Eu é que não gostaria de engalfinhar-me com um deles.
- Disso sei eu. Quebrariam o seu braço como se esse parecesse um simples galhinho de planta. Sempre pensei que fossem pequenos.
- Pequenos não, baixotes. De modo algum pequenos, meu irmão. Bom, devo admitir que você estava certo. Vamos fazer uma visita aos Losadunai. Eles vivem tão perto daqui, que devem saber mais coisas sobre os cabeças-chatas. Além disso, está parecendo que o Grande Rio Mãe é um marco de fronteira, talvez os cabeças-chatas não nos queiram invadindo o lado deles.
Durante vários dias, os dois caminharam à procura dos pontos de referência fornecidos por Dalanar, seguindo o riacho, cujas características, naquele estágio de formação, não diferiam dos outros córregos, riachos e canais que desciam pela encosta. Havia sido meramente por convenção que se escolhera um daqueles fluxos de água para berço do Grande Rio Mãe. A maioria dos cursos se juntavam para formar a cabeceira do grande rio que iria descer pelas colinas e serpentear através das planícies, percorrendo mais de três mil quilômetros, antes de despejar toda a carga de suas águas e detritos no mar inter no, situado longinquamente a sudoeste.
As rochas cristalinas do maciço, que davam origem ao caudaloso rio, estavam dentre as mais antigas da Terra e o seu largo leito fora formado pelas numerosas pressões que suspenderam e preguearam as montanhas de pródigas refulgências. Mais de trezentos tributários - muitos dos quais grandes rios - drenando as encostas e cordilheiras iam juntar-se ao volumoso caudal. Algum dia a fama deste rio ainda iria estender-se às mais longínquas paragens desse planeta e as suas águas barrentas e lodosas seriam vistas como azuis.
Embora atenuada pelos maciços e montanhas, a influência dos ambientes oceânico (a oeste) e continental (a leste) se fazia sentir. A vida animal e vegetal desenvolvia-se nas tundras e florestas de coníferas do lado ocidental, e nas estepes na parte oriental. Nas encostas montanhosas, viam-se íbices, camurças e carneiros selvagens, enquanto nas florestas o animal mais comum era o cervo. O tarpã, um cavalo selvagem que algum dia ainda seria domesticado, pastava nas baixadas e terrados ribeirinhos e, deslizando, furtiva e silenciosamente em meio às sombras, iam os lobos, linces e leopardos brancos. Também lá marcavam as suas presenças, acordando depois de longa hibernação, os ursos marrons, de regime onívoro. Já os colossais ursos da caverna, vegetarianos, fariam a sua aparição um pouco mais tarde. Além desses, uma quantidade de pequenos mamíferos começavam a pôr os focinhos para fora de suas tocas de inverno.
Às encostas eram florestadas principalmente com pinheiros, embora servissem também os pinhos prateados, os abetos e vidoeiros. Os amieiros prevaleciam nas ribeiras e em geral apareciam misturados com salgueiros, choupos e, mais raramente, com as faias de folhas pubescentes e os carvalhos, reduzi dos a alguma coisa pouco mais que arbusto.
A margem esquerda gradualmente elevava-se no terreno. Jondalar e Thonolan escalaram a subida até atingirem o cume de uma alta colina. De lá, contemplando a paisagem, viram uma bela região selvagem e escarpada, cujas saliências e reentrâncias a neve aplainava. O disfarce, entretanto dificultava- lhes a viagem.
Não viam nenhum sinal de qualquer Caverna - isto é, um grupo de pes soas, socialmente organizadas, que não necessariamente viviam em cavernas - nada daqueles que se autodenominavam Losadunai. Jondalar começava a achar que não iriam encontrá-los.
- Olhe! - apontou Thonolan.
Jondalar olhou na direção indicada, vendo uma pequenina espiral de fumaça saindo do meio de um bosque. Puseram-se a correr e, logo, foram dar com um grupo de pessoas reunidas ao redor de uma fogueira. Os dois irmãos se introduziram no meio delas, com as mãos erguidas e as palmas voltadas para cima, na forma da saudação entendida como amistosa e bem-intencionada.
- Eu sou Thonolan dos Zelandonii. Esse é o meu irmão Jondalar. Esta mos em viagem. Alguém aqui fala a nossa língua?
Um homem de meia-idade deu um passo à frente com as mãos levanta das da mesma maneira.
- Eu sou Ladum dos Losadunai. Em nome de Duna, a Grande Mãe Terra, lhes damos as nossas boas-vindas - ele agarrou as duas mãos de Thonolan e, em seguida, fez o mesmo com Jondalar. - Venham se sentar perto do fogo. Daqui a pouco iremos comer, vocês aceitam?
- É muita generosidade de sua parte - respondeu Jondalar, cerimoniosamente.- Em minha viagem ao oeste, eu me hospedei numa das Cavernas dos Zelandonii. Isso foi há muitos anos, mas os Zelandonii são sempre bem-vindos - ele os conduziu para uma grande tora, perto da fogueira, sob uma construção que a abrigava dos ventos e mau tempo. -Bom, agora descansem. Tirem os seus baús das costas. Vocês devem ter saído da geleira há pouco tempo, não é?
- Já há alguns dias - respondeu Thonolan, livrando-se de sua tralha.
- Se fossem cruzá-la agora, já seria tarde. O xaroco chegará a qualquer momento.
- O xaroco? - perguntou Thonolan.
- Sim, o vento da primavera. Um vento quente e seco que sopra do sudoeste e com tanta força que chega a partir as árvores e arrancá-las pelas raízes. Mas é um vento que derrete a neve rapidamente. Dentro de alguns dias tu do isso aqui vai desaparecer e as plantas vão surgir - explicava Laduni, fazendo um amplo gesto com o braço, indicando a neve. - Se o xaroco pegar alguém durante a travessia da geleira, pode ser fatal. O gelo vai derretendo e as fendas imediatamente começam a aparecer. As pontes e as construções de gelo cedem, enquanto córregos e até mesmo rios passam a correr pelo gelo.
- E isso provoca esplim - acrescentou uma moça pegando o fio da conversa de Laduni.- Esplim? - perguntou Thonolan, dirigindo-se a ela.
- Sim, os espíritos maus que voam no vento. Por causa deles todo mundo fica nervoso. Pessoas que nunca brigaram antes passam a discutir. Outras, que sempre foram felizes, ficam chorando o tempo todo. São espíritos que põem as pessoas doentes e as que já estavam ficam para morrer. Sempre ajuda um pouco se você estiver prevenido, mas o mau humor das pessoas é geral.
- Onde você aprendeu a falar zelandonil tão bem? - perguntou Thonolan, sorrindo e já um tanto encantado com a jovem que era uma moça atraente.
Ela lhe devolveu o olhar com a mesma franqueza, mas, ao invés de responder-lhe, olhou na direção de Laduni.
- Thonolan dos Zelandonii, esta é Filonia dos Losadunai e filha de minha casa – disse Laduni que, imediatamente, percebera a intenção do olhar da moça para ele: um pedido para que fosse formalmente apresentada. Com isso, Thonolan ficaria sabendo que ela era urna mulher que se tinha em alta conta e que não conversava com estranhos sem as devidas apresentações, ainda que esses estivessem só de viagem e fossem rapazes bonitos e interessantes.
Thonolan estendeu-lhe as mãos, cumprimentando-a na forma convencional. Os seus olhos mostravam admiração ao mesmo tempo que a avaliava criticamente. Por instante, ela hesitou, como se refletindo, depois pôs as mãos nas dele. Thonolan a puxou para mais perto de si.
- Filonia dos Losadunai, Thonolan dos Zelandonii se sente honrado por ter a Grande Mãe Terra o favorecido com a dádiva de sua presença -falou com um sorriso maroto.
Filonia enrubesceu com a insinuação atrevida. Ela sabia, embora as palavras fossem tão formais quanto o gesto, o que ele pretendia com a alusão à Mãe Terra e a sua dádiva. Um frêmito de gozo passou-lhe pelo corpo quando ele a tocou e os seus olhos brilhavam convidativamente.
- Agora me diga - prosseguiu Thonolan - onde aprendeu zelandonii?
- Numa viagem que fiz com o meu primo. Nós cruzamos a geleira e durante algum tempo vivemos numa Caverna Zelandonil. Antes disso, Laduni já nos tinha ensinado um pouco. Muitas vezes, para não esquecer, ele conversa conosco na língua de vocês. De tanto em tantos anos, cruza a geleira a negócios. Ele fez questão que eu soubesse falar bem a sua língua.
Thonolan ainda lhe segurava as mãos e sorria para ela.
- Não é comum mulheres fazerem viagens longas e perigosas. E se acontecesse de Dom abençoá-la?
- Na verdade, não foi tão longa assim - respondeu, desvanecida com o visível encantamento de Thonolan. - Daria tempo para que eu soubesse e voltasse antes.
- Não - insistiu Thonolan - foi uma viagem longa. Uma viagem que só os homens costumam fazer.
Jondalar, que observava o jogo dos dois, voltou-se para Laduni.
- Lá está ele novamente fazendo das suas - disse rindo. - O meu irmão sempre escolhe a mulher mais bonita do lugar e quando menos se espera ela está caída por ele.
Laduni deu uma risadinha.
- Filonia ainda está muito jovem. Foi no verão passado que os seus ri tos de passagem se realizaram. Mas, desde então, não têm faltado admiradores para virar a sua cabeça. Ah, poder ser jovem!... Ah, poder voltar à juventude e gozar da dádiva dos prazeres que nos concede a nossa Grande Mãe Terra. Não que tenha deixado de ter os meus prazeres, mas eu vivo bem com a minha companheira e já não tenho muita vontade de sair por aí à cata de novidades - ele se virou para Jondalar. - Somos aqui um pequeno grupo de caçadores e não temos muitas mulheres conosco, mas você não terá dificuldade em encontrar alguma que queira compartilhar com você das dádivas dos prazeres. Se não se agradar de nenhuma, temos urna grande Caverna e os visitantes são sempre motivo para um festival em honra da Mãe.
- Lamento, mas acho que não vamos poder ir com você para a sua Caverna. Estamos apenas começando e Thonolan está pretendendo fazer uma longa viagem. Ele está ansioso para se pôr a caminho. Talvez na volta, se você nos der as indicações necessárias.
- É uma pena que não possam visitar-nos. Ultimamente não temos tido muitos visitantes. Até onde vocês planejam ir?
- Thonolan está falando em seguir o Danúbio até o ponto onde ele ter mina. Mas no início todos falam em grandes viagens, isso é o que ainda veremos.
- Pensei que os Zelandonii vivessem perto das Grandes Águas. Pelo me nos viviam quando eu fiz a minha viagem. Nessa ocasião, percorri longo traje to para oeste e depois rumei para o sul. Você disse que estão apenas começando?
- Eu explico. Você tem razão. As Grandes Águas distam só alguns dias de nossa Caverna, mas Dalanar dos Lanzadonii era o companheiro de minha mãe quando eu nasci e a sua Caverna é como se fosse minha casa. Eu vivi lá durante três anos para aprender o meu ofício. O meu irmão e eu estávamos com eles. Por enquanto, a nossa viagem se resume na travessia da geleira e nos poucos dias que gastamos para chegar até aqui.
- Dalanar! Mas claro! Por isso você me pareceu conhecido. Você deve ser o filho de seu espírito. É muito parecido com ele. E é também talhador Dalanar é o melhor talhador que já conheci. Eu pretendo visitá-lo no ano que vem para arrumar um pouco de sílex da mina dos Lanzadonji. São as melhores pedras que há.
As pessoas começavam a se reunir ao redor do fogo com gamelas de madeira, e o cheiro delicioso que vinha delas fez Jondalar lembrar-se da sua fome. Ele pegou o seu baú que atravancava o caminho. Então, ocorreu-lhe uma idéia.
- Laduni, eu trouxe comigo algumas pedras dos Lanzadonii. Tinha in tenção de ir substituindo as ferramentas que fossem quebrando durante a viagem, mas estão muito pesadas para carregar. Seria ótimo se eu pudesse ficar livre, pelo menos de uma parte deste peso.
Os olhos de Laduni se iluminaram.
- Eu aceito e fico muito agradecido, mas gostaria de lhe dar alguma coisa em troca. Não que me importe em levar o melhor num negócio, mas não gostaria de passar a perna num filho da casa de Dalanar.
Jondalar sorriu.
- Você já está me aliviando do peso e nos oferecendo essa apetitosa comida.
- Ainda não é o suficiente para pagar a qualidade das pedras dos Lanzadonii. Você está facilitando muito a transação, Jondalar, e isso fere o meu orgulho.
Jondalar soltou uma risada. Às pessoas ao redor, divertidas com toda aquela conversa, também riram.
- Está bem, Laduni. Nesse caso não vou facilitar o negócio. No momento, não há nada que eu queira. Só estava pensando em aliviar um pouco a minha carga, mas futuramente lhe direi qual será a minha reivindicação. Ainda está disposto a fechar o negócio?
- Agora é ele quem está querendo me passar para trás - disse Laduni, rindo para as pessoas à sua volta. - Pelo menos diga o que será.
- Como é que vou dizer? Mas na volta eu passo aqui para pegar, concorda?
-. E como é que posso saber se vou poder dar o que me vai pedir?
- Não vou pedir nada que você não me possa dar.
- Os seus termos são duros, Jondalar. Mas, podendo, darei o que me pedir. Está fechado.
Jondalar abriu o baú e, depois de retirar as coisas de cima, retirou a sua sacola e deu a Laduni dois nódulos de sílex já prontos para serem trabalhados.
- Foi Dalanar quem escolheu esses nódulos e fez o trabalho inicial -falou Jondalar.
Laduni se achava visivelmente encantado com a perspectiva de possuir dois nódulos de sílex, escolhidos e preparados por Dalanar para o filho de sua casa, mas ele murmurou bastante alto para que todos o ouvissem:
- Estou provavelmente nesse instante vendendo a minha vida por dois pedaços de pedra.
Ninguém mencionou a possibilidade de que talvez Jondalar jamais voltasse para pegar a sua parte no negócio.
- Jondalar, você pretende ficar aí conversando a vida toda? - falou Thonolan. - Fomos convidados para comer e essa vitela cheira deliciosamente - no seu rosto havia um largo sorriso e Filonia estava ao seu lado.
- A comida realmente está pronta - disse ela - e a caçada foi tão boa que quase não tivemos necessidade de usar a carne seca que trouxemos. Bom, agora que já não estão carregando tanta coisa e que sobrou espaço na bagagem, vocês podem levar alguma, não querem? - acrescentou, sorrindo timidamente para Laduni.
- Seria um prazer. Laduni, você ainda não me apresentou a essa encantadora filha de sua casa - falou Jondalar.
- É horrível ter a filha de sua própria casa pondo a perder os seus bons negócios - rosnou ele, sorrindo cheio de orgulho. - Jondalar dos Zelandonii, apresento Filonia dos Losadunai.
Ela se virou para olhar o rapaz e, de repente, se encontrou perdida num par de olhos muito azuis que lhe sorriam irresistivelmente. Então, tomada por um misto de emoções, corou ao sentir-se, agora, atraída pelo outro irmão. Embaraçada, abaixou a cabeça.
- Jondalar! Não pense que não enxerguei aquele brilho nos seus olhos. Lembre-se que eu a vi primeiro - pilheriou Thonolan. - Venha, Filonia, vou tirá-la daqui. Escute o meu conselho, mantenha-se afastada do meu irmão. Sei o que estou dizendo, não queira envolver-se com ele - e, virando-se para Laduni, disse, fingindo-se ofendido: - Ele está sempre me pregando dessas peças. Um olhar e é tudo que ele precisa fazer. Ah, se eu tivesse nascido com os predicados do meu irmão...
- Você está cheio de predicados, irmãozinho. Mais do que um homem precisa - falou Jondalar, soltando a sua gargalhada calorosa e contagiante.
Filonia voltou-se para Thonolan e pareceu aliviada por achá-lo ainda tão atraente quanto antes. Ele passou o braço ao redor do seu ombro e a conduziu para o outro lado da fogueira, mas ela voltou a cabeça para olhar, mais uma vez, Jondalar. Já com um sorriso mais confiante, disse:
- Sempre que recebemos visitantes na Caverna, realizamos um festival em honra de Duna.
- Eles não irão à Caverna, Filonia - falou Laduni.
Por momento, a moça pareceu decepcionada.
- Ah, poder ser jovem - repetiu Laduni, olhando para Thonolan e reprimindo uma risadinha. - Sabe? As mulheres que honram Duna, freqüente mente, são as que parecem ser mais abençoadas com filhos. A Grande Mãe sorri para aquelas que apreciam as suas dádivas.
Jondalar pôs o seu baú atrás do tronco e se aproximou da fogueira. Um ensopado de veado cozinhava num caldeirão de couro suspenso sobre a fogueira por uma armação feita de ossos. O líquido fervendo, apesar de muito quente, conservava o recipiente numa temperatura relativamente baixa que não o deixava pegar fogo, pois o grau de combustão do couro era muito mais elevado do que o guisado fervente.
Uma mulher entregou-lhe uma cuja de madeira, servida com o ensopado cheirando deliciosamente. Usando a sua faca de pedra, ele comeu a carne seca e os legumes (raízes levadas para lá pelos caçadores), que espetava dentro da cuia; depois tomou o caldo restante. Quando terminou, a mulher lhe trouxe uma cuia menor contendo um chá de ervas. Ele deu um sorriso de agradecimento. Ela era mais velha do que ele, o número de anos suficiente para já ter trocado a beleza de sua juventude por uma outra mais verdadeira, a que só a maturidade dá. Ela lhe sorriu de volta e se sentou ao seu lado.
- Fala zelandonil? - perguntou Jondalar.
- Entendo melhor do que falo.
- Devo pedir a Laduni para nos apresentar, ou posso perguntar direta mente o seu nome?
Ela lhe sorriu com aquele algo de condescendência, próprio de mulheres mais velhas.
- Somente as mocinhas precisam de apresentações. Eu sou Lanalia. Você, Jondalar?
- Sim - respondeu ele. Os seus olhos revelavam a excitação que sentia com a proximidade da perna dela. Lanalia devolveu-lhe o olhar, fitando-o cheia de ardor. A mão dele escorregou-lhe pela coxa e ela inclinou o corpo, num movimento encorajador, prometendo outras intimidades. Ele balançou a cabeça aceitando o convite, desnecessariamente, aliás. Os seus olhos também a convidavam. Ela o olhou por cima do ombro e ele seguiu o olhar, vendo Laduni vindo na direção dos dois. Então ela relaxou, assumindo uma postura tranqüila ao seu lado. A promessa ficaria para mais tarde.
Instantes depois chegou Laduni. Thonolan, com Filonia, veio se juntar a eles perto da fogueira. Logo todos estavam amontoados ao redor dos dois visitantes, contando histórias e fazendo brincadeiras que iam sendo traduzidas para os que não entendiam. Por fim, Jondalar resolveu abordar assunto mais sério.
- Você sabe alguma coisa das pessoas que vivem na parte baixa do rio, Laduni?
- Nós costumávamos ser visitados por alguns dos Sarmunai. Eles vivem ao norte do rio, mas isso já foi há anos. Às vezes os jovens em suas viagens, depois de muito passarem pelo mesmo caminho, resolvem mudar o seu trajeto que já ficou conhecido demais e não tão interessante. Passada uma ou duas gerações, só os velhos irão lembrar do antigo trajeto que se transforma nova mente numa emocionante aventura. Todo jovem acha que a sua descoberta é única, pouco importa se os seus antepassados já fizeram a mesma coisa.
- Mas para ele é - falou Jondalar, sem querer prosseguir num assunto que dava margem para grandes digressões. Ele precisava obter informações concretas antes de se deixar levar por alguma discussão que poderia ser agradável, mas sem resultados práticos e imediatos. - Você poderia contar alguma coisa sobre os seus costumes? Você conhece a língua deles? Sabe como cumprimentam? O que devemos evitar e o que poderia ofendê-los?
- Não sei muito a respeito deles e o pouco que sei não é recente. Há alguns anos atrás, um homem foi para o leste e nunca mais voltou. Ninguém sabe o que aconteceu, talvez tenha até se decidido estabelecer em algum outro lugar - contou Laduni. - Dizem que eles fazem suas dunai de barro. Mas tudo isso não passa de conversa. Não posso entender por que alguém iria reproduzir em barro imagens sagradas da Mãe. As figuras se quebrariam depois de secas.
- Talvez porque o barro guarde intimidade com a terra. Há pessoas que gostam de pedra por essa razão.
Enquanto falava, inconscientemente, Jondalar levou a mão a um saquinho atado ao seu cinto, ali apalpando uma estatueta de pedra que representava uma mulher obesa. Uma figura de enormes seios, ventre grande e saliente, e volumosas nádegas e coxas. Os braços e pernas eram insignificantes, o que importava eram os aspectos da maternidade, por isso os membros mostravam-se apenas sugeridos. A cabeça era como um caroço com o rosto desfigurado, meio tapado por algo sugerindo uma cabeleira.
Doni, a Grande Mãe Terra, Velha Ancestral, a Primeira Mãe, a Criadora, o Sustento de toda a vida, Aquela que abençoava todas as mulheres com o seu poder de criar e produzir filhos, ninguém podia ver-lhe o rosto que inspirava pavor reverente. Nenhuma das pequeninas imagens portadoras de seu espírito jamais ousara sugerir-lhe o rosto. Até mesmo quando ela se revelava em sonhos, as suas feições em geral se mostravam indistintas, embora os homens vissem o seu corpo como o de uma jovem núbil. Havia mulheres que afirmavam poder assumir a forma de seu espírito e voar como os ventos para levar felicidade ou tirar vinganças. As vinganças da Mãe que podiam assumir pro porções terríveis.
Se zangada ou desrespeitada, era capaz de atos monstruosos. O mais ameaçador, porém, era a perda da dádiva do prazer, concedida quando uma mulher se dignava a entregar-se a um homem. A Grande Mie, diziam alguns daqueles que a serviam, podia dar ao homem o poder de usufruir de suas dá- clivas com tantas mulheres quanto ele o desejasse e tantas vezes quanto o quisesse, mas poderia também fazê-lo encolher de modo a não dar prazer a ninguém e tampouco para ele próprio.
Jondalar, distraído, acariciava os seios pendurados da donii dentro de sua sacolinha, pensando na viagem e desejando ser favorecido com a sorte. Era fato que havia os que jamais regressavam, mas isso também fazia parte da aventura. Thonolan fez uma pergunta a Laduni que trouxe a sua atenção de volta.
- O que você sabe sobre os cabeças-chatas que vivem aqui nas redondezas? Há alguns dias atrás nós topamos com um bando deles. Estava certo de que íamos terminar a nossa viagem ali mesmo, naquele lugar.
Todos imediatamente voltaram a atenção para Thonolan.
- O que aconteceu? - perguntou Laduni com a voz tensa.
Thonolan relatou o incidente que haviam tido com os cabeças-chatas.
- Charoli! - exclamou Laduni.
- Quem é Charoli? - perguntou Jondalar.
- Um rapaz da Caverna dos Tomasi e o mentor de um grupo de baderneiros que resolveu se divertir à custa dos cabeças-chatas. Nunca tivemos problemas com eles. Nós ficamos do nosso lado do rio e eles no seu. Quando cruzamos para o outro lado, se põem fora de nosso caminho, a não ser que nos demoremos muito por lá. Então eles deixam bem claro que estão nos vigiando. E é o bastante. Qualquer um fica nervoso sabendo que está sendo observa do por um bando de cabeças-chatas.
- Disso sei eu! - falou Thonolan. - Mas o que você quer dizer com se divertir às custas dos cabeças-chatas? Eu preferia não arrumar nenhuma espécie de encrenca com eles.
- Tudo começou como brincadeira. Era um desafio para ver quem corria e encostava a m num cabeça-chata. Eles podem ficar bem bravos quando incomodados. Depois, um grupo começou a reunir-se para provocar qualquer cabeça-chata que fosse encontrado sozinho. Faziam roda em tomo dele e se punham a irritá-lo, tentando fazer com que saísse em perseguição. Os cabeças chatas têm muito fôlego e pernas curtas. Normalmente, um homem ganha na corrida, mas que ele trate de n parar de correr. Não tenho muita certeza de como começou realmente, mas parece que o grupo de Charoli passou a agredir fisicamente. Imagino que um daqueles cabeças-chatas que andavam provocando tenha conseguido pegar alguém e o bando pulou na defesa do amigo. O fato é que a coisa se tomou um hábito, mas mesmo sendo um só cabeça-chata contra todo o bando, eles nunca saíam sem levar uma boa surra.
- Não dá para acreditar - falou Thonolan.
- E o que fizeram depois foi pior - acrescentou Filonia.
- Filonia, isso é nojento! Não quero vê-la falando sobre essas coisas! -disse Laduni realmente zangado.
- Mas o que fizeram? - perguntou Jondalar. - Se na nossa viagem vamos ter de passar por territórios de cabeças-chatas, é melhor que fiquemos sabendo.
- É. Imagino que tenha razão, Jondalar. Apenas não gosto de conversar sobre esse assunto na frente de Filonia.
- Eu já sou uma mulher feita - declarou ela, mas sem convicção na voz.
Laduni a olhou, parecendo refletir. Depois resolveu-se.
- Os machos passaram a sair só aos pares ou em grupos e dessa forma não dava para o bando de Charoli enfrentá-los. Por isso, passaram a provocar as fêmeas dos cabeças-chatas que não lutam. Não havia graça no desafio. Elas se limitam a encolher-se de medo e depois fogem. Foi então que resolveram fazer um outro tipo de brincadeira com elas. Não sei quem desafiou quem primeiro... provavelmente Charoli insuflou a turma. Isso é bem o tipo de coisa que ela faria.
- Insuflou para quê? - perguntou Jondalar.
- Começaram a violar as fêmeas dos cabeças-chatas e... - Laduni não conseguiu concluir. Ele pulou sobre os pés, vermelho de raiva. Estava inteira mente fora de si - É abominável! Um insulto à Mãe. É debochar de suas dá divas. Pior do que animais! Pior até do que os cabeças-chatas!
- Você está dizendo que eles obtiveram prazer com fêmeas de cabeças chatas? Que elas foram violadas? Uma fêmea de cabeça-chata? - falou Thonolan.
- E eles ainda se vangloriavam disso! - comentou Filonia. - Um homem que tivesse tido prazer com uma cabeça-chata não encostaria a m em mim.
- Filonia! Eu proíbo que fale dessas coisas! Não quero ouvir de sua boca algo tão sórdido e imundo - disse Laduni, furioso e com um olhar duro como pedra.
- Sim, Laduni - respondeu ela, abaixando a cabeça envergonhada.
- Não consigo imaginar o que devem ter sentido com uma coisa dessas - observou Jondalar. - Talvez fosse esse o motivo por que o rapaz deles tenha me atacado. Percebi na ocasião que estavam com raiva. Já ouvi dizer que talvez fossem humanos e se são...
- Também já ouvi esse tipo de conversa - falou Laduni, ainda procurando acalmar-se - mas não acredite nisso!
- O chefe do bando que encontramos era inteligente e eles caminhavam sobre as pernas, da mesma forma que nós.
- Os ursos também às vezes caminhavam sobre as suas patas traseiras. Não, os cabeças-chatas são animais. Animais inteligentes, mas animais -Laduni se esforçava para controlar-se, consciente do mal-estar reinante. -Em geral, são inofensivos, a não ser quando incomodados. A raiva não deve ser por causa das fêmeas. Duvido que compreendam como urna coisa dessas possa ser um desrespeito para com a Mãe. Estão zangados por causa das provocações e das surras. Todas as vezes que se irrita um animal, ele se defende atacando.
- Acho que o bando de Charoli arrumou para nós alguns problemas -falou Thonolan. - Estávamos querendo ir pela margem direita para não ter mos o trabalho de cruzar quando o rio se toma no Grande Rio Mãe.
Laduni sorriu. Com a mudança do assunto, a sua raiva foi embora tão depressa quanto havia chegado.
- O Grande Rio Mãe tem tributários que são verdadeiros rios, Thonolan. Se vocês pretendem segui-lo até a foz, precisam ir acostumando-se a atravessar de uma margem para outra. Vou dar uma sugestão. Conservem-se deste lado até passarem pelo grande redemoinho. Nesse ponto, as águas se separam em canais que passam a correr por terras planas. Os afluentes menores são sempre mais fáceis de ser atravessados do que grandes rios. Além disso, o clima nessa ocasião já estará quente. Se quiserem visitar os Sarmunai, sigam para o norte, depois de fazerem a travessia.
- Qual é a distância daqui até o redemoinho? - perguntou Jondalar.
- Eu vou riscar um mapa para vocês - falou Laduni, pegando a sua faca de sílex. - Lanalia, me traga um pedaço de cortiça. Talvez alguém mais aqui possa fornecer outros pontos de referência. Calculando o tempo necessário para as travessias de rios e para as suas caçadas durante a viagem, deverão chegar no lugar onde o rio dobra em direção ao sul lá pelo verão.
- Verão - repetiu Jondalar com expressão pensativa. - Já estou tão cansado de gelo e neve que mal consigo esperar pelo verão. Até que viria bem a calhar um pouco de calor - ele sentiu novamente a perna de Lanalia junto à sua e pôs a mão sobre a coxa dela.
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