O Vale dos Cavalos

Jean M. Auel · Capítulo 25 de 31

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O Vale dos Cavalos

Capítulo 23

Ayla freou Huiin, saltou e deu o odre pingando água para Jondalar. Ele o pegou e sedentamente bebeu alguns goles. Estavam bem longe do vale, quase nas estepes e um tanto distanciados do rio.

A relva dourada, batida pelo vento, ondulava ao redor dos dois. Haviam colhido sorgo e centeio silvestre numa área onde cresciam vários cereais, inclusive trigo de duas espécies diferentes e os pés de cevada que se inclinavam ao peso de suas espigas ainda verdes. Era um serviço duro e tedioso o de colher espiga por espiga e retirar-lhes as pequeninas e duras sementes. Os grãos redondos do sorgo iam sendo postos numa cesta com uma divisória dentro e pendurada no pescoço, de modo a deixar as mãos livres. O sorgo era separado com facilidade, mas mesmo assim seria necessário um segundo joeiramento. Já o centeio, no outro lado da divisória, se desprendia com apenas algumas sacudidelas.

Ayla pendurou a cesta no pescoço e se pôs imediatamente a trabalhar. Jondalar logo depois seguiu-lhe o exemplo e ficaram os dois lado a lado colhendo. Passado algum tempo, ele se virou perguntando:

- Como é andar a cavalo, Ayla?

- É difícil explicar - respondeu, fazendo em seguida uma pausa para pensar. - Quando se corre é emocionante. Mas também não deixa de ser quando se anda devagar. Montar Huiin me faz bem.

Ela voltou a trabalhar, mas logo depois parou outra vez.

- Você gostaria de experimentar?

-O quê?

- Montar em Huiin.

Jondalar examinou-a, procurando saber se realmente estava sendo sincera no seu oferecimento. Já há algum tempo ele vinha querendo montar, mas Ayla parecia manter uma relação tão pessoal com o animal que lhe era difícil abordar o assunto.

- Bem que gostaria, mas será que Huiin vai deixar?

- Não sei - ela olhou para o sol querendo ver em que momento do dia estavam. Em seguida rodou o cesto para as costas. - Mas poderemos saber.

-Agora?

Ela confirmou com a cabeça, já preparada para voltar.

- Pensei que você tivesse ido buscar água para continuarmos depois com a nossa colheita.

- Realmente, mas eu me havia esquecido de como anda rápido o serviço quando ele é feito a quatro mãos. Estava só dando uma olhada na minha cesta. Não estou acostumada a ser ajudada.

Jondalar estava sempre surpreendendo-a com os seus múltiplos talentos. Além de ter boa vontade, era capaz de fazer qualquer coisa que ela fazia. E se ele não soubesse, aprendia. Não só tinha curiosidade, como se mostrava interessado em tudo. Ayla se via nele. Isso a fazia sentir como devia ter ela parecido estranha às pessoas dos das. Contudo elas a aceitaram e procuraram ajustá-la aos seus padrões.

Jondalar deu um piparote na cesta, jogando-a às costas, pondo-se a caminhar ao seu lado.

- Estou pronto para dar esse dia por encerrado. Você já está mais do que abastecida, Ayla. Além disso, a cevada e o trigo ainda não estão no ponto. Não entendo por que quer tanto cereal.

- É para Huiin e o potrinho. Os dois também vão precisar de capim. Huiin sai para comer no inverno, mas quando a neve está muito alta, uma quantidade de cavalos morre.

A explicação foi suficiente para que ele não fizesse qualquer outra objeção. Voltaram caminhando pela relva crescida, e, como não estavam mais em serviço, gozando o calor do sol batendo diretamente sobre as suas peles nuas. Jondalar usava apenas uma tanga e tinha a pele tão bronzeada quanto a de Ayla, agora vestida com o seu traje de verão: um pano de couro que ia da cintura às coxas, cuja finalidade maior era a de provê-la com muitas dobras e bolsos para carregar a funda, ferramentas e outros objetos. Fora isso, a única outra peça que levava no corpo era o pequeno saquinho de couro pendurado no pescoço. Por diversas vezes Jondalar se surpreendeu admirando-lhe o físico forte e flexível, mas não fez nenhum gesto para tocá-la e nem ela encorajava qualquer coisa nesse sentido.

Montar Huiin era o que o mobilizava no momento, O que fatia o cavalo? Se necessário, saberia como se safar. Não fosse por ainda mancar um pouquinho, a sua perna poderia ser dada como curada e, com o tempo, ele achava que não iria ficar nenhum defeito. O tratamento de Ayla fora miraculoso. Ele não tinha como agradecer-lhe. Já estava pensando em ir embora, não havia mais razão para prolongar a sua estadia, mas ela parecia não ter pressa em vê-lo partir, e assim ia protelando a viagem. Queria ajudá-la a preparar-se para o próximo inverno, pelo menos isso lhe devia.

E ela tinha também de pensar nos cavalos. Era uma coisa que não havia ocorrido a ele.

- Estocar comida para os cavalos lhe dá muito trabalho, não é?

- Não muito.

- Eu estive pensando. Você disse que precisa guardar capim também, não é? Será que não daria jeito de cortar os pés inteiros dos cereais e levá-los para a caverna? Assim, ao invés de colher só as sementes - ele apontou para as cestas - você sacudiria os grãos numa cesta e ficaria depois com a palha.

Ayla parou. O seu rosto franzia-se, enquanto ela pensava na idéia.

- Talvez... Se cortarmos os pés inteiros e coloca-los depois para secar, os grãos quando forem sacudidos vão soltar-se... É, vale a pena tentar - um belo sorriso espalhou-se pelo seu rosto. - Jondalar, acho que vai dar certo!

O entusiasmo dela era tanto e tão sincero que ele não pôde deixar de também. A admiração e a atração que sentia por Ayla, o prazer que só de olhá-la, tudo isto se espelhava em seus olhos maravilhosamente sedutores.

A resposta veio franca e espontânea.

- Jondalar, gosto tanto quando você sorri para mim... com a boca... com os olhos.

Ele soltou a sua inesperada risada, exuberante, divertida, franca. “Ela é tão natural”, pensou. “Acho que não conseguiria ser outra coisa senão essa pessoa direta e sincera que é. Que mulher fantástica!”

Ayla acompanhou-o na explosão de alegria. Contagiada pelo bom humor de Jondalar, o seu sorriso foi alargando-se até explodir numa expressão de total júbilo incontido.

Quando conseguiram controlar-se, os dois estavam arquejantes, enxugando as lágrimas em meio às risadas que ameaçavam voltar. Nenhum deles saberia dizer o que havia de tão prodigiosamente engraçado. Era um riso que se auto-alimentava, que lhes servia para aliviar as tensões acumuladas.

Quando novamente voltaram a caminhar, Jondalar passou o braço ao redor da cintura de Ayla, num reflexo carinhoso da alegria que haviam com partilhado. Sentindo-a retesar, imediatamente soltou-a. Havia prometido a si e também a Ayla - mesmo que na ocasião ela não tivesse compreendido -que jamais a forçaria. Se Ayla fizera votos de abster-se dos prazeres, ele não iria criar uma situação embaraçosa em que ela se visse obrigada a recusá-lo. Até agora vinha mantendo-se extremamente respeitoso.

No entanto, sentindo exalar-lhe da pele quente o forte perfume feminino olhando os seus seios fartos e intumescidos, pensou subitamente no longo tempo que já fazia que não se deitava com uma mulher e o formato de sua tanga denunciava-lhe a natureza dos pensamentos. Ele apressou o passo, que rendo disfarçar a intumescência que estava visível demais. Era tudo que podia fazer para conter o ímpeto e se impedir de avançar sobre Ayla. Suas passadas foram alargando-se até estar praticamente correndo.

- Oh, Doni, como desejo essa mulher! - murmurou em voz baixa.

As lágrimas se comprimiam nos cantos dos olhos de Ayla, enquanto o observava, disparado na frente dela, cada vez se afastando mais. “O que eu fiz de errado? Por que ele foge de mim? Por que não faz o sinal? Está tifo claro que está precisando. Por que não quer aliviar as suas necessidades comigo? Será que sou tão feia assim?” Ela estremeceu lembrando-se do braço cíngindo-a pela cintura. Ele exalava pelas narinas o seu cheiro de homem. Não querendo encará-lo, sentindo-se tal quando era criança e fazia alguma coisa que sabia errada - só que desta vez não tinha noção do que fizera - ela se pôs a andar devagar, arrastando os pés.

Chegando ao matagal perto do rio, Jondalar procurou por uma sombra fresca, O seu desejo era tanto que não conseguia reprimir-se. Logo que se viu atrás da espessa cortina de folhas, fora da vista de Ayla, jatos de um líquido branco viscoso derramaram-se em espasmos sobre o chão e, ainda segurando o seu membro intumescido, encostou a cabeça numa árvore, tremendo. Estava simplesmente aliviando-se, nada mais do que isso. Pelo menos agora já poderia olhar para Ayla sem atirar-se a ela e violentá-la.

Apanhou um pau para desprender a terra no chão e cobrir a essência de seus prazeres com um produto da Mãe, O Zelandoni lhe dissera que derramar as dádivas da Mãe, como ele acabara de fazer, era desperdício, mas que, se necessário, as dádivas deveriam ser devolvidas a ela: despejadas no chão e de, pois tapadas com terra. O Zelandoni tinha toda razão. Era mesmo um desperdício, e não tivera o menor prazer.

Ele caminhou ao longo do rio, com vergonha de aparecer na frente dela. Ayla esperava junto do enorme bloco de pedra, abraçada com o potro e a cabeça enterrada no pescoço de Huiin. Parecia tão desamparada, assim abraçada aos animais, buscando neles consolo e apoio. No entanto, seria ele quem deve ria estar dando-lhe este apoio. Tinha certeza de que fora o causador de suas tristezas e estava envergonhado como se houvesse cometido algum ato repreensível. Relutante, saiu do matagal.

- Há ocasiões em que um homem não consegue esperar para fazer pipi- mentiu Jondalar, sorrindo sem graça.

Ayla ficou surpresa. Por que diria ele palavras que não correspondiam com a verdade? Ela sabia o que havia feito. Tinha se aliviado.

Um homem dos clãs, no caso de querer aliviar-se, para isso pediria até a companheira do chefe. Se Jondalar não podia controlar a sua necessidade e se lá não havia outra mulher, deveria ter-lhe feito o sinal, por mais feia que fosse ela. Nenhum homem adulto se aliviava sozinho. Só adolescentes, que tinham alcançado a maturidade física e não haviam ainda matado o seu primeiro animal, pensariam em tal coisa. Mas Jondalar, ao invés de fazer-lhe o sinal, preferiu resolver o seu problema sozinho. Ela estava mais do que magoada. Sentia-se humilhada.

Ayla ignorou-lhe as palavras e evitou olhá-lo de frente.

- Se quiser montar, eu fico segurando Huiin, enquanto você sobe na pedra para poder passar a perna por cima do seu lombo. Vou falar com Huiin que você quer dar uma volta. Talvez ela deixe.

Jondalar se lembrou que fora por isso que haviam interrompido a colheita. O que teria acontecido com o entusiasmo dele? Como poderiam as coisas ter mudado tanto durante esse pouco tempo que gastaram para ir de um lado ao outro do vale? Tentando dar a impressão de que tudo continuava na mesma, subiu na pedra, enquanto Ayla trazia a égua para perto. Ele também evitava olhar diretamente para ela.

- Como você faz para Huiin entender a direção que está querendo ir?

Ayla teve de pensar um pouco antes de responder.

- Não sou eu quem faço Ruim ir numa determinada direção. Ela quer ir para onde eu tenho vontade de ir.

- Mas como o animal sabe para onde você quer ir?

- Não sei... - realmente ela não sabia. Nunca pensara nisso antes.

Jondalar resolveu desistir. Estava disposto a ir onde a égua o levasse, se é que ela estivesse disposta a isso. Ele apoiou a mão sobre o fio do lombo de Ruim para se firmar e com muita cautela montou.

Huiin empinou as orelhas. Sabia que não era Ayla. A carga estava mais pesada e faltava aquela sensação imediata de comando dada pela tensão muscular das coxas e pernas de Ayla. Mas a mulher estava perto, segurando-lhe a cabeça e o homem não era um desconhecido. Incerta, ensaiou curvetas, mas logo se acalmou.

- O que faço agora? - perguntou Jondalar, sem noção do que fazer com as mãos e sentado sobre o animal, com as suas compridas pernas escanchadas, balançando no ar.

Ayla afagava Huiin, tranqüilizando-o. Depois, dirigiu-se a ele numa língua que era um misto de gestos da língua clânica e palavras em zelandonii.

- Jondalar gostaria que você o levasse para um passeio, Huiin. - O tom instigador da voz e as mãos exercendo uma leve pressão eram indicações suficientes para que o animal, muito afinado com o comando de Ayla, se pusesse a andar. - Se você precisar segurar, passe os braços ao redor do pescoço de Huiin - aconselhou ela.

Acostumada a levar peso no seu lombo, a égua não deu pinotes, nem empacou, mas sem alguém para guiá-la, caminhava hesitante. Jondalar levou o corpo à frente para acariciar-lhe o pescoço, pensando em tranqüilizar não só ela como a si próprio. O gesto era parecido com o que Ayla fazia quando que ria apressar a andadura do animal. Um súbito sacolejão fez com que Jondalar imediatamente seguisse o conselho de Ayla. Ele se abraçou ao pescoço do animal com o corpo todo jogado à frente. Para Huiin, esse era o sinal de correr.

O cavalo disparou num galope desenfreado pelo campo afora. Jondalar agarrava-se ao seu pescoço com todas as forças. A sua longa cabeleira voava para trás. Ele sentia o vento batendo forte contra o rosto. Quando, por fim, ousou abrir um pouquinho os olhos, viu a terra passando por ele numa velocidade vertiginosa. Era assustador e emocionante! Entendia agora por que Ayla não soube descrever a sensação. Era como deslizar por uma colina gelada no inverno ou como quando o imenso esturjão o havia arrastado pelo rio acima. Os seus olhos foram atraídos por uma mancha indistinta movimentando-se ao seu lado. Era o potrinho halo que corria emparelhado com a mãe. Um assovio fino e penetrante chegou aos ouvidos de Jondalar. Imediatamente a égua fez uma curva fechada e galopou de volta.

- Ei, sente-se direito! - gritou ela para Jondalar quando Huiin já estava mais perto. Ele se sentou reto. A égua começou a diminuir a velocidade e veio num meio galope até o bloco de pedra, onde parou.

Jondalar tremia ligeiramente ao desmontar, mas os seus olhos brilhavam excitados. Ayla afagou os flancos suados de Huiin que, em seguida, foi trotando para a praia perto da caverna. Jondalar e ela foram atrás.

- Você viu o potro correndo junto de Huiin o tempo todo? Ele é um verdadeiro campeão!

Pelo modo como Jondalar falava, Ayla percebia que a palavra tinha um certo sentido que ela não estava pegando.

- O que você quer dizer com campeão?

- Nas reuniões de verão há diversas modalidades de competições, mas as mais emocionantes são as corridas - explicava ele. - Dentre os participantes, há alguns corredores que realmente se esforçam e estes, de alguma forma, acabam sempre sendo campeões. A palavra, por extensão, passou a designar toda pessoa que luta para vencer em alguma coisa, aquela que tem por objetivo alcançar um determinado tipo de vitória. É uma palavra de aprovação, de incentivo... dita como um elogio. O potrinho é um campeão. Ele gosta de vencer.

Continuaram a caminhar. O silêncio, entre eles, foi ficando cada vez mais constrangedor. Por fim, Jondalar, querendo romper o mutismo, perguntou:

- Eu não entendi direito. Pensei que você não tivesse uma maneira de se comunicar com Huiin. Quando eu sentei com o corpo reto, ela começou a diminuir a velocidade.

- Nunca havia pensado nisto antes. Foi só quando eu vi os dois se aproximando é que me ocorreu que você tinha de endireitar o corpo para Huiin parar de correr. Não soube explicar isto antes. Só percebi naquele momento em que era preciso que diminuísse a sua velocidade.

- Mas, neste caso, existe uma maneira de você se fazer entendida pelo cavalo. São sinais... certos tipos de sinais que você passa para ele. Será que o potrinho conseguiria também aprender estes sinais?

Ao contornarem o penhasco na parte onde este fazia a ponta para dentro do rio, encontraram Huiin rolando na lama da beirada do rio. Junto dela estava o potrinho de pernas para o ar. Jondalar, sorrindo, parou para observar, enquanto Ayla, de cabeça baixa, continuou a caminhar. Ele a alcançou na subida da caverna.

- Ayla...

Ela se virou. Ele não soube como prosseguir.

- Ayla... eu... eu gostaria de lhe dizer muito obrigado.

Essa era outra palavra que ela tinha certa dificuldade em compreender. A língua clânica não possuía nenhuma expressão de sentido correspondente. Para ter a sua sobrevivência garantida, os membros de cada um dos pequenos clãs dependiam tanto uns dos outros que a ajuda mútua passou a ser um fato normal da vida. Dizer obrigado seria o mesmo que uma criança agradecer à mãe pelos cuidados que tinha com ela ou que a mãe esperasse isto de seu filho. Favores ou presentes impunham obrigações. Deviam ser retribuídos com algo da mesma espécie e valor que aquilo que fora dado ou feito, e nem sempre eram recebidos com prazer.

Nos clãs, o que mais se aproximava do sentido de “obrigado” era um tipo de gratidão que uma pessoa devia a outra que lhe era superior na hierarquia social. Como, por exemplo - e este era ocaso mais comum - a gratidão que uma mulher sentia por um homem que a dispensasse de algum serviço ou obrigação. A Ayla, pareceu que Jondalar a estava agradecendo pelo passeio que dera no cavalo.

Jondalar, Huiin deixou que se sentasse no seu lombo. Por que você diz “muito obrigado” para mim?

- Porque foi você quem me proporcionou este passeio, Ayla. E não é só isso. Eu tenho que lhe agradecer por muito mais coisas. Você tem feito de mais por mim... você me tratou e...

- Será que o potro de Huiin iria agradecê-la por ela tomar conta dele? Por que obrigado?

- Mas você salvou a minha vida.

- Eu sou uma curandeira, Jondalar - ela procurava lhe explicar que quando alguém salva a vida de uma pessoa, essa dá em troca uma parte de seu espírito para o seu salvador, que fica para sempre obrigado a protegê-la. De fato, as duas pessoas ficam mais ligadas do que se tivessem nascidas germanas. Mas ela era uma curandeira. Uma parte do espírito de cada pessoa lhe tinha sido dada junto com o pedaço de dióxido de manganês negro que carregava no seu amuleto. Ninguém estava obrigado a lhe dar mais nada. - Não há por que agradecer, Jondalar - falou Ayla.

- Sei que não é necessário. Sei também que é uma curandeira, mas é importante para mim que saiba como eu me sinto. As pessoas agradecem pela ajuda que recebem. Diz-se muito obrigado por uma questão de cortesia... de costume.

Eles subiam o caminho da caverna um atrás do outro. Ayla não respondeu, mas o comentário de Jondalar a fez lembrar-se de Creb lhe explicando que era falta de educação olhar para além das pedras que delimitavam dentro da caverna a casa de um homem. Ela havia tido mais dificuldade em aprender os costumes do que a língua dos clãs. Jondalar, agora, lhe dizia que era costume as pessoas expressarem a gratidão que sentiam uma pela outra, uma cortesia, mas isso a confundia ainda mais.

Como poderia ele querer expressar gratidão, quando há bem poucos instantes a estava envergonhando? Se um homem dos clãs lhe tivesse demonstrado tamanho desprezo, ela deixaria de existir para ele. Ia ser muito difícil entender os costumes de Jondalar. De uma certa forma ela percebia, mas nem por isso se sentia menos humilhada.

Ele tentou romper a barreira que se levantara entre ambos. Deteve-a no momento em que ela ia entrar na caverna.

- Desculpe-me se de algum modo a ofendi.

- Ofendi? Não entendo esta palavra.

- Acho que, por minha causa, você ficou zangada e se sentiu mal.

- Não. Eu não fiquei zangada, mas é verdade que me senti mal.

A admissão o deixou desconcertado.

- Perdoe-me - disse ele.

- Perdoe-me? Isso também é cortesia? Um costume? Isso não me faz sentir melhor, Jondalar.

Ele passou a mão pelos cabelos. Ayla estava certa. Fosse o que fosse que havia feito - e ele sabia que fizera alguma coisa - desculpas de nada adiantavam. Também de nada resolvia ele fugir da questão, evitando encarar o problema de frente, apenas por estar com medo de criar novos embaraços.

Ela entrou na caverna, pôs de lado a sua cesta e atiçou a fogueira para começar a preparar a refeição da noite. Jondalar a seguiu, colocou a cesta dele ao lado da dela, puxou para perto do fogo uma esteira e se sentou para observá-la.

Ayla costumava usar algumas das ferramentas que ele lhe dera de, pois de haver cortado a corça. Na verdade gostava delas, mas para alguns trabalhos preferia servir-se da faca sem cabo a que estava habituada e Jondalar via que ela a manejava - uma lasca de sílex muito mais grossa do que as suas lâminas - com a mesma destreza que tinham as pessoas habituadas às finas lâminas providas de cabo. Experimentado cortador de sílex, julgava, avaliava e comparava os méritos de um e outro tipo. Não que um instrumento fosse mais fácil de usar do que o outro, pois afinal toda faca afiada era capaz de cortar. A questão é a enorme quantidade de sílex no estado bruto que cada um desses instrumentos gasta na sua fabricação, além de que carregá-los não deixa também de se constituir num outro problema.

Ayla se sentia nervosa com ele observando-a nos mínimos detalhes. Finalmente ela se levantou e foi buscar camomila para fazer chá, esperando que isso a acalmasse e que fosse um meio de desviar a atenção de Jondalar. Ele se deu conta de que mais uma vez estava evitando enfrentar o problema. Resolveu criar coragem e abordar diretamente o assunto.

- Você tem razão, Ayla. Pedir desculpas não significa muito, mas não sei que outra coisa lhe possa dizer. Não sei o que fiz para deixá-la tão ofendi da assim. Diga-me, por favor, por que se sentiu mal?

“Ele devia novamente estar falando palavras falsas. Seria possível que não soubesse? Mas parecia realmente confuso.” Ela baixou os olhos, desejando que aquela pergunta não tivesse sido feita. Já era ruim demais ter de sofrer semelhante humilhação. Discutir o assunto, pior ainda. Mas a pergunta fora feita.

- Sinto-me mal porque... porque não sou aceitável - disse, sem erguer os olhos que estavam fixos na cuia de chá em seu colo.

- O que você quer dizer com “não aceitável”? Não entendo.

“Por que fazia ele essas perguntas? Para que se sentisse ainda pior? Ayla encarou-o. Jondalar tinha o corpo curvado para a frente. A postura e os olhos evidenciavam sinceridade e falavam também de sua angústia.

- Nenhum homem dos clãs, tendo uma mulher aceitável por perto, pensaria em se aliviar sozinho - ela corou com a confissão do próprio fracasso. Abaixou os olhos e ficou olhando para as mãos. - Você estava cheio de necessidade e assim mesmo fugiu de mim. Ainda acha que eu não tenho motivos para me sentir mal?

- Você está dizendo que se sentiu ofendida por não ter eu.. . - ele jogou o corpo para trás, levantando os olhos para o teto. - Oh, Doni! Como pode você ser tão idiota, Jondalar?

Ela o olhou surpresa.

- Achava que não queria ser incomodada, Ayla. Estava procurando respeitar a sua vontade. O meu desejo era muito forte naquele momento. Não pude Mas todas as vezes que eu a tocava, sentia o seu corpo estremecer. Como pode pensar que um homem não a ache aceitável?

Subitamente foi-se fazendo o entendimento, derretendo o gelo em seu dolorido coração. Jondalar a queria! Ele pensava que era ela quem não o que. ria! Novamente os costumes atrapalhando. Costumes diferentes.

- Jondalar, bastava você ter feito o sinal.. Que importância tem o fato de eu querer ou não?

- Claro que tem importância o que você quer. Você não... - ele ficou subitamente vermelho - você não me quer? - o seu olhar se mostrava inseguro, temeroso de uma rejeição. Ela conhecia o sentimento. Apenas estava surpresa de vê-lo num homem. Mas era algo que serviu para dissipar qualquer dúvida que ainda restasse e que fez despertar uma onda de calor e ternura.

- Eu o desejo, Jondalar. Desejei-o desde a primeira vez que o vi. Na ocasião em que estava doente, muito doente, quando ainda não sabia se iria viver, eu ficava olhando-o; e sentia. - . dentro de mim crescendo esse senti mento. Mas você nunca fez o sinal para mim - ela abaixou os olhos outra vez. Havia falado mais do que pretendia. As mulheres clânicas eram mais sutis em seus gestos convidativos.

- E eu, todo esse tempo pensando... Mas que sinal é este de que você tanto fala?

- Nos clãs, quando um homem deseja uma mulher, ele faz o sinal.

- Mostre.

Ela fez o gesto e corou. Normalmente não era um sinal feito por mulheres.

- Isso é tudo? Basta que eu faça isso? E depois o que faz você?

Espantado, ele viu Ayla levantar-se, ajoelhar-se e se pôr à sua disposição.

- Você está dizendo que basta um homem fazer esse sinal para que a mulher se ponha assim? Só isso e os dois já estão prontos?

- Um homem nunca faz o sinal se já não estiver pronto. E hoje, você estava pronto, não é?

Foi a vez dele corar. Havia se esquecido de que “estava pronto” e como! E também do que tinha feito para se impedir de cometer uma violência. Teria dado tudo, então, para saber desse sinal.

- E se a mulher não quiser o homem? Ou se ela ainda não estiver pronta?

- Quando o homem faz o sinal, a mulher tem de se colocar em posição. - Ela se lembrou de Broud. O seu rosto anuviou-se com a lembrança de uma época marcada pelo aviltamento de sua pessoa.

- Em qualquer momento, Ayla? - a expressão de sofrimento no rosto dela o fazia pensar. - Mesmo que seja a primeira vez para a mulher?

Ela confirmou com a cabeça.

- Foi assim que aconteceu com você? Algum homem lhe fez um sinal?

Ela fechou os olhos, engoliu em seco e tomou a confirmar.

Jondalar estava indignado e estupefato.

- Você está querendo dizer que não há ritos de passagem? Que não há ninguém para tomar conta e impedir um homem de se exceder? Que espécie de povo é esse? Será que eles não ligam para a primeira vez de uma menina? Que deixam qualquer homem no auge de seu calor pegar uma inocente mocinha? Violentá-la, sem que ela esteja ainda pronta? Pouco importando se vai ou não machucar? - ele se havia levantado e andava furioso de um lado para outro. - É cruel! Desumano! Como pode alguém permitir tal coisa? Será que não têm compaixão? Que absolutamente não se importam com coisa alguma?

A explosão era tão inesperada que Ayla deixou-se ficar sentada, de olhos arregalados, vendo-o cada vez mais exaltado em sua cólera esbravejante. Mas, então, ela começou a abanar a cabeça, negando-lhe a veracidade das palavras que se tomaram extremamente insultuosas.

- Não! - disse por fim com voz firme. - Isso não é verdade, Jondalar. Eles se importam sim! Iza me encontrou e tomou conta de mim. Eles meado taram. Trouxeram-me para o clã, mesmo eu pertencendo a um outro povo. Eles não eram obrigados a me aceitar e aceitaram. Creb não podia saber que Broud me machucava. Ele nunca teve companheira. Não podia entender deste tipo de problema de mulher. Além disso, Broud estava no seu direito. Quando fiquei grávida, lia cuidou de mim. Ela chegou a ficar doente para conseguir um remédio de que eu precisava para não perder o meu filho. Se não fosse l eu teria morrido quando o meu filho nasceu. E Brun aceitou a criança, apesar de todos acharem que ela era deformada. Mas isso não é verdade. O meu filho é forte e sadio... - ela se interrompeu, percebendo Jondalar olhando-a fixamente.

- Você tem um filho? Onde está ele?

Ayla ainda não falara de seu filho. Apesar de já ter passado muito tempo, era-lhe doloroso falar dele. Sabia que qualquer menção ao assunto acaba ria levantando perguntas.

- É verdade. Eu tenho um filho. Ele ainda vive com os clãs. Quando Broud me obrigou a partir, eu o deixei com Uba.

- Obrigou-a a partir? Como assim? - perguntou Jondalar, voltando a sentar-se. Então, Ayla tinha um filho. Ele estava certo quando imaginara que ela já havia estado grávida. - Por que alguém obrigaria uma mulher a abandonar o seu filho? Quem é esse Broud?

Como poderia ela explicar? Por um momento, fechou os olhos para pensar.

- Ele é o atual chefe. Antes dele, na ocasião em que fui encontrada, o chefe era Brun, o homem que deu licença para que Creb me incorporasse ao clã. Mas Brun ficou velho e passou para Broud o seu lugar de chefe do nosso clã. Broud sempre teve ódio de mim. Já me odiava desde que eu era menina.

- Foi esse homem quem a machucou, não é?

- Quando eu me tornei mulher, lia me falou do sinal, mas ela me disse também que os homens não costumam se aliviar com mulheres de que não gostam. Broud fazia isto comigo porque sentia-se feliz com uma coisa que sabia ser abominada por mim. Mas eu tenho a impressão de que ele agia a mando do meu totem. O espírito do Leão da Caverna sabia o quanto eu queria ter um filho.

- O que tem esse Broud a ver com o seu filho? A Grande Mãe Terra só abençoa quando for de sua vontade. O seu filho foi do espírito dele?

- Para Creb, são os espíritos que fazem os bebês. Ele dizia que quando uma mulher engole o espírito de um totem masculino, se esse for suficiente mente forte para vencer o espírito do totem feminino e lhe retirar a força vi tal, uma nova vida começará a crescer dentro da mulher.

- Essa é uma estranha maneira de tratar a questão. É a nossa Mãe que mistura o espírito de um homem com o de uma mulher quando a Mãe deseja abençoar uma de suas filhas.

- Eu não acredito que sejam os espíritos que fazem os bebês. Nem os espíritos dos totens, nem nesta mistura de espíritos feita por essa sua Grande Mãe. Acho que a vida começa porque um homem põe o seu órgão cheio dentro de uma mulher. É por isso que os homens sentem tanta necessidade de se aliviarem e porque as mulheres querem tanto os homens.

- Isso não pode ser, Ayla. Você sabe quantas vezes é possível um homem botar a sua virilidade dentro de uma mulher? Ela jamais poderia ter ta manha quantidade de filhos. Um homem faz uma mulher com a dádiva do prazer que lhe concede a Mãe. Ele abre a mulher para que os espíritos possam entrar. Mas a dádiva da vida, a mais sagrada de todas as dádivas da Mãe, essa só é concedida às mulheres. S vocês que recebem os espíritos, criam vida e se tomam mães, do mesmo jeito que a Grande Mãe Terra. O homem que nunca deixa de honrá-la, que sabe ser reconhecido pelas dádivas que lhe são concedidas e que assume o compromisso de cuidar de uma mulher com os seus filhos, o espírito dele, Doni talvez escolha para as crianças nascidas em sua casa.

- O que é a dádiva do prazer?

- Ah, então é isso! Você nunca conheceu os prazeres, não é? - falou Jondalar, espantando-se quando pensou na idéia. - Não é de admirar que não entendesse quando eu... Bom, Ayla, você é uma mulher que foi abençoada com um filho sem ter conhecido os primeiros ritos. Esses clãs de que você tanto fala são muito estranhos. Em toda a minha vida nunca encontrei uma pessoa que não tivesse conhecimento da Mãe e de suas dádivas. A dos prazeres, Ayla, é concedida quando um homem e uma mulher sentem que se querem e se entregam um ao outro.

- Quando um homem está cheio e precisando aliviar as suas necessidades, não é assim? É isto que você chama de dádiva do prazer, quando o homem põe o seu órgão no lugar por onde passam os bebês? -disse ela.

- É. Mas não é só isto, existem mais coisas.

- Pode ser. Mas todo mundo dizia que por causa do meu totem forte demais não poderia ter filho e eu tive. Não houve quem não ficasse surpreso. E o meu filho não nasceu defeituoso. O que acontece é que ele tem alguns traços meus e outros da gente dos clãs. Agora veja bem, Jondalar: eu só fiquei grávida depois que Broud começou a fazer o sinal para mim. Nenhum homem me queria. Eu sou muito grande e feia. Nem mesmo na reunião dos clãs encontrei um homem que me quisesse tomar, apesar de que fosse reconhecida como filha de lia e tivesse o conceito dela.

Qualquer coisa na história de Ayla começava a inquietar Jondalar, sem que ele pudesse atinar por quê.

- Você disse que foi encontrada por uma curandeira. - qual é mesmo o nome dela? Iza, não? Onde ela a encontrou? De onde você vinha?

- Eu não sei. Iza falava que eu pertencia aos Outros. . - de outras pessoas parecidas comigo. Como você, Jondalar. Tudo que sei de mim é depois de já estar vivendo no clã. Da minha vida anterior eu não tenho qualquer lembrança. Nem mesmo de minha mãe eu me lembro. Você é o único homem que já vi parecido comigo.

Enquanto ouvia, Jondalar sentia o estômago revolvendo-se.

- Na reunião dos clãs, uma mulher me contou uma história sobre um homem dos Outros. Eu passei a ter medo deles até que, então, eu o conheci, Jondalar. Essa mulher era mãe de um bebê, uma menina muito parecida com Durc. Poderia até ser minha filha. Oda queria arranjar o meu filho para companheiro de sua filhinha. Eles, no clã dela, também diziam que o seu bebê era defeituoso, mas a minha opinião é que o seu bebê foi formado quando um homem dos Outros forçou Oda. Ele quis aliviar as suas necessidades nela.

- O homem forçou a mulher?

- E também matou uma filha que ela já tinha. Oda estava na companhia de mais duas mulheres quando surgiram vários homens dos Outros. Mas eles não fizeram o sinal. Quando um deles agarrou Oda, a filhinha dela caiu e bateu com a cabeça numa pedra.

De repente Jondalar lembrou-se do grupo de rapazes pertencentes a uma Caverna em terras do oeste. Ele não queria tirar conclusões apressadas, mas se havia uma turma daquele tipo, por que não haveria outras?

- Ayla, você está a todo instante dizendo que não se parece com a gente dos clãs. Por quê? Como são essas pessoas diferentes de você?

- Elas são bem mais baixas. Daí eu ter ficado tão espantada quando você e levantou. Eu sempre fui mais alta do que qualquer pessoa. Inclusive mais alta que os homens. Por isso eles não me quiseram. Sou alta demais e também muito feia.

- E o que mais? - ele não queria perguntar, mas não conseguia impedir-se. Precisava saber.

- Os olhos são castanhos, lia achava que havia qualquer coisa de errado com os meus por eles serem da cor do céu. Durc saiu com os olhos deles e as... não sei como explicar. As sobrancelhas são grossas, mas a testa de meu filho é igual à minha. As cabeças são mais chatas...

- Cabeças-chatas! - disse Jondalar com os lábios se contraindo numa careta de nojo. - Nossa Mãe, Ayla! Você esteve vivendo com esses animais! Você deixou que um daqueles machos... - Ele teve um estremecimento. -Você é mãe de uma aberração, nascida da mistura de espíritos... meio humano, meio animal! - como se tivesse tocado em alguma coisa repelente, ele deu um salto, recuando com o corpo. Era uma reação preconceituosa, baseada em pressupostos cruéis e irracionais, nunca questionados pelas pessoas de seu meio.

Ayla, de início, não compreendeu. Olhava para Jondalar, espantada, franzindo o rosto. Mas lhe via a expressão de repugnância, igual à dela quando pensava em hienas. Subitamente, as palavras ganharam sentido.

Animais?! Ele estava chamando as pessoas que ela amava de animais? Então o seu adorável e bondoso Creb - que dentre os sagrados homens dos clãs era simplesmente o mais temido e poderoso de todos - não passava de um animal? E Iza, que a tinha criado, lhe servido de mãe e ensinado o seu ofício, também Iza não passava de uma hiena fedorenta? E Durc?! O seu filho?

- O que você quer dizer com animais? - falou Ayla gritando, de pé, encarando-o. Nunca antes havia levantado a voz. Ela própria se surpreendia com o seu volume e a agressividade com que falava. - Então Creb e lia são animais? O meu filho, metade bicho, metade gente? As pessoas dos clãs não passam de hienas fedorentas?

“Por acaso animais costumam recolher uma menina que estava à beira da morte? Iriam aceitá-la em seu meio? Iriam tratar desta criança e criá-la? Onde você acha que eu aprendi a achar alimentos? E a cozinhar, quem você pensa que me ensinou? Onde poderia eu ter aprendido o meu ofício de curandeira? Se essas pessoas fossem animais, hoje eu não estaria viva, e nem você também, Jondalar.

“Você diz que as pessoas dos clãs são animais e que os Outros são humanos, não é? Pois então lembre-se disto: esses animais salvaram uma criança dos Outros, enquanto que esses que você diz que são humanos mataram uma das deles. Se eu tivesse de escolher entre os dois, ficaria com os que você chama de hienas fedorentas.

Ela saiu intempestivamente da caverna e desceu à praia, onde assoviou chamando Huiin.

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