O Vale dos Cavalos
Capítulo 24
Jondalar estava estarrecido. Ele acompanhou-a e se pôs a observá-la do patamar. Com um salto acrobático, ela pulou no lombo da égua e saiu galopando pelo vale. O fato de Ayla ter sido sempre uma pessoa serena e dócil tornava ainda mais surpreendente aquele súbito rompante de cólera.
Por outro lado, Jondalar sempre se acreditara justo, sem preconceitos em relação aos cabeças-chatas. Achava que se devia deixá-los em paz e, tanto quanto possível, evitar incomodá-los. Jamais matara um deles propositalmente. Mas a idéia de um homem usando uma fêmea de cabeça-chata para os seus prazeres ofendia-lhe a sensibilidade, e o contrário, que um macho pudesse fazer a mesma coisa com uma mulher, era algo de impensável que revolvia todos os nervos de seu corpo. Era a profanação da mulher.
E ele que tanto a desejara. Lembrando-se das histórias contadas entre risadinhas por garotos e rapazes, sentiu um aperto nas virilhas, como se tivesse sido contaminado e o seu membro já estivesse murchando e caindo de podre. Por alguma especial graça da Grande Mãe, ele fora poupado.
E pior ainda, ela parira uma aberração, uma cria de espíritos malignos. Coisa que, entre pessoas decentes, era imprópria até para falar. A própria existência de um ser desses era veementemente negada por alguns, apesar dos insistentes falatórios a respeito.
Ayla, certamente, jamais negara a sua história. Ali ficara de pé, admitindo com toda a franqueza, defendendo o seu filho tão veementemente como qualquer mãe que visse o seu filho caluniado. Ela se sentira insultada, furiosa por ele ter falado em termos depreciativos. Teria realmente sido criada por um bando de cabeças-chatas?
Ele havia encontrado alguns durante a viagem. Chegara mesmo a se perguntar se de fato seriam animais. Houve inclusive aquele incidente com o macho e a fêmea mais velha. Agora, voltando a pensar na coisa, a faca que o macho tinha usado para cortar a sua batida de peixe não era igual à de Ayla? E a mãe dele? Ela usava um couro enrolado no corpo, tal como Ayla. Tinha até os mesmos maneirismos de Ayla. Principalmente no princípio, com aquela sua mania de olhar para o chão, como se querendo esconder-se dele. As peles na cama dela tinham a mesma textura que a pele de lobo que lhe haviam emprestado. E a lança! Aquela lança pesada e primitiva de Ayla não era igual àquelas carregadas pelo bando de cabeças-chatas que ele e Thonolan encontraram na saída a geleira?
Durante todo esse tempo estava tudo ali, bem à sua frente. Bastava ele ter olhado. Por que teria inventado essa história de Ayla ser uma servidora da Mãe? De alguém que se estava pondo à prova para aperfeiçoar-se em suas virtudes? Será que Ayla teria de fato aprendido o seu ofício com uma curandeira cabeça-chata?
Ele a via cavalgando ao longe no vale. Ela esteve magnífica em sua raiva. Ele conhecera muitas mulheres que, por qualquer razão, levantavam a voz. Marona era uma. Podia ser uma verdadeira megera de voz estridente, briguenta e mal-humorada, lembrou-se pensando na mulher à qual fora prometido. Eram pessoas voluntariosas que tinham um tipo de força que o atraía. Ele gostava de mulheres fortes. Constituíam-se num desafio. Sabiam manter-se firmes e não se curvavam facilmente quando ele tinha um de seus rompantes de raiva, por sinal agora raros. Em Ayla, apesar de sua serenidade, suspeitava um interior de ferro. “Lá está ela no seu cavalo”, disse para si mesmo. “Uma mulher notável... linda.”
Subitamente, como se tivesse recebido um jato de água fria, ele se deu conta do que fizera. O sangue fugiu-lhe do rosto. Afinal, Ayla havia salvo a sua vida e ele a repeliu como algo asqueroso. Apagara com uma sórdida repulsa os cuidados que lhe foram dispensados generosamente. Havia chamado o seu filho de aberração, uma criança que sem dúvida ela amava. Sentia-se mortificado por tanta insensibilidade.
Ele entrou na caverna e se atirou na cama. Na cairia dela. Esse tempo to do havia dormido na cama da mulher que acabara de vilmente desprezar.
- Oh, Doni! - gritou. - Como foi me deixar fazer isso? Por que não veio em meu socorro? Por que não me impediu?
Enterrou a cabeça nas peles, sentindo-se um desgraçado, de uma maneira como há muito tempo não sentia. Pensava que isso já não fosse mais acontecer-lhe. Havia agido sem pensar, tal como fazia quando era um rapazinho. Será que nunca iria aprender? Por que não usara de discrição? Logo estaria indo embora. A sua perna já estava curada. Por que não se tinha controlado até o momento de partir?
Com efeito, o que estava ele fazendo ainda ali? Por que já não teria agradecido a ela e se mandado? Nada mais o impedia. Por que tinha ele de ficar lá e crivá-la com perguntas sobre coisas que não eram de sua conta? Então poderia lembrar-se dela no futuro como a bela e misteriosa mulher que vivia sozinha num vale. A mulher que encantava animais e lhe salvara a vida.
“Ora, Jondalar, porque você bem sabe que não consegue resistir a uma bela e misteriosa mulher.”
“E por que tudo isto o estava incomodando tanto? Que diferença fazia se ela tinha vivido com cabeças-chatas?”
“Porque queria essa mulher, Jondalar, e depois pensou que ela não fosse bastante boa para você, por ter ela... permitido...”
“Que imbecil! Você não ouviu? Ela não permitiu. Foi violentada. Não teve ritos de passagem. E você a culpa! Ela estava lhe contando, abrindo-se com você e aliviando a sua dor e, então, o que faz você, seu idiota?”
“Você é pior do que o cabeça-chata, Jondalar. Pelo menos esse ela sabia como ele se sentia. Ele a odiava, Só pensava em feri-la. E você? Ela confiava em você. Ela lhe disse como se sentia a seu respeito. Você, Jondalar, que quis tanto essa mulher, só não a teve por medo de ver o seu orgulho ferido.”
“Se prestasse mais atenção a ela e não se preocupasse tanto com você, deveria ter reparado que Ayla não se comportava como uma mulher experiente. Agia como uma mocinha amedrontada. Será que já não teve muitas garotinhas em sua vida para saber a diferença?”
“Só que Ayla não se parece com uma mocinha amedrontada. Não. Ela é simplesmente a mulher mais linda que você já viu. Tão bela, tão inteligente e tão segura de si que ficou com medo de se ver recusado. Você, o grande Jondalar, o querido de todas as mulheres! Mas pode estar certo de que ela não vai querer mais saber de você.”
“E você a pensar que ela fosse uma mulher segura, quando nem mesmo sabe que é bonita. Pensa realmente que é grande demais e feia. Como pode alguém achá-la feia?”
“Você se esqueceu de que ela cresceu entre cabeças-chatas? Quem poderia imaginar que eles se dessem conta da diferença que existe entre eles e nós? Mas quem poderia imaginar também que eles fossem criar uma menina? Será que nós faríamos o mesmo com uma criança deles? Quantos anos teria, então, Ayla? Devia ser muito novinha. A cicatriz na perna é antiga. Deve ter sido pavoroso. Imagine, perdida sozinha nesse mundo e ainda ferida por um leão.”
“E tratada por cabeças-chatas! Como é que um cabeça-chata poderia saber tratar de alguém? Mas Ayla é uma ótima curandeira e aprendeu com eles. Tão boa que chegou a pensar que ela fosse uma servidora da Mãe. Você devia, Jondalar, era trocar o seu ofício de ferramenteiro pelo de contador de lorotas. Não quis enxergar a verdade clara diante de seus olhos. Mas, agora, que sabe da história, isso faz alguma diferença? Você está menos vivo porque ela aprendeu o seu ofício com cabeças-chatas? É ela menos bonita porque... pariu uma aberração? Mas o que faz com que o filho dela seja uma aberração da natureza?”
“Você ainda quer essa mulher, Jondalar.”
“Tarde demais. Ela nunca mais iria acreditar e confiar em você.” Ele se viu invadido por uma nova onda de vergonha. Com as mãos fechadas, pôs-se a dar murros nas peles. “Seu idiota! Oh, seu estúpido, estúpido idiota! Você estragou tudo, seu cretino. Por que não vai embora?”
“Porque não pode. Você vai ter de enfrentá-la, Jondalar.”
“Você não tem roupas, não tem armas, não tem comida. Você não pode viajar de mãos abanando.”
“Onde vai conseguir víveres? E todas as outras coisas? Esse lugar é de Ayla. Terá de conseguir com ela. Pelo menos alguns pedaços de sílex terá de lhe pedir. Se tiver ferramentas, você poderá fazer algumas lanças. Só assim poderá caçar para ter comida, peles e roupas. E também fazer um saco de dormir e um baú para carregar as coisas. Mas isso tudo leva tempo. Depois, um ano viajando ou até mais.. . vai ser triste sem Thonolan.”
Ele enterrou-se no meio das peles. “Por que Thonolan teve de morrer? Por que aquele leão não me matou no seu lugar?” As lágrimas se comprimiam nos cantos de seus olhos. “Thonolan não teria agido tão estupidamente como eu. Queria saber onde fica esse desfiladeiro. Pobre irmão. Espero que um zelandonii o tenha ajudado no seu caminho para o outro mundo. É horrível pensar que os seus ossos estejam por aí jogados, roídos pelas feras.”
O barulho de cascos vindo da direção do caminho da praia o fez pensar que Ayla se aproximava. Era apenas o potrinho. Ele se levantou, saiu para o patamar, e ficou olhando o vale embaixo. Ayla não estava à vista.
- O que há, meu amiguinho? Você ficou para trás? A culpa é minha, mas elas logo vão estar de volta... não por mim, mas por você. Além disso, Ayla vive aqui. . - sozinha. Há quanto tempo já estaria morando nesse lugar? Só, sem ninguém. Não sei se eu conseguiria fazer o mesmo.
“Aí está você, chorando pela sua imbecilidade, e olhe só pelo que ela tem passado. E não está chorando. É uma mulher fantástica. Linda. Esplêndida. E você, Jondalar cretino, perdeu tudo isso, Oh, Doni, daria tudo para poder endireitar as coisas.”
Jondalar estava enganado. Ayla chorava. Chorava de uma maneira como nunca o fizera. Mas o seu choro não a fazia menos forte, apenas a ajudava no sofrimento. Ela pusera Huiin para galopar até que o vale tivesse ficado muito para trás. Então parou na curva de um rio que era tributário do outro perto da caverna, O terreno na parte interna da curva freqüentemente se via inundado pelas enchentes que deixavam uma camada de aluvião fazendo uma fértil base para as plantas que cresciam lá. Era um lugar onde ela costumava caçar ptármigas, além de outros tipos de galináceos e animais que iam desde a marmota até gigantescos cervos que iam para aquela área de irresistível verdume.
Ela deu a volta com a perna por cima do lombo de Huiin e apeou. Bebeu um gole de água e lavou o rosto sujo, riscado de lágrimas. Sentia-se como se estivesse acordando de um pesadelo. O dia inteiro se constituíra numa série estonteante de altos vertiginosos e baixos angustiantes, em vôos e mergulhos cada vez mais extremados. Achava que não conseguiria agüentar mais nada, fosse numa ou noutra direção.
A manhã tinha começado bem. Jondalar insistira em ajudá-la a colher cereais e ela ficara surpresa com a sua rapidez para aprender. Tinha certeza de que era a primeira vez que ele fazia aquele trabalho, mas bastou mostrar lhe para que, imediatamente, pegasse o jeito. No entanto, melhor do que o par extra de mãos para ajudá-la, era a companhia. Mesmo que não se falas sem, a presença dele ao seu lado a fazia sentir o quanto estava saudosa do convívio de pessoas.
Depois, houve um ligeiro desentendimento. Nada sério. Ela queria continuar colhendo e ele parar. O odre havia ficado vazio. Quando voltou do rio, percebeu a vontade dele de montar em Huiin. Havia pensado que isto pode ria conservá-lo mais tempo no vale. Jondalar gostava do potro e, se tivesse prazer em montar, era possível que permanecesse até o filhote de Huiin ficar maior. Imediatamente aceitara o seu oferecimento. Então ficaram muito alegres e se puseram a rir. Desde que Neném fora embora que ela não ria tanto. Adorava as risadas de Jondalar. Só de ouvi-las já ficava com outro ânimo.
“Depois, ele tocou em mim”, pensou. “Ninguém nos clãs tinha aquele jeito de tocar, pelo menos fora das fronteiras de pedras de suas casas. De noite, talvez. Afinal, ninguém sabe o que um homem faz com a sua companheira debaixo das peles. Era bem possível que até tocassem nas mulheres como Jondalar. Será que todos os Outros fazem isso do lado de fora de suas casas? Eu gostei de ser tocada. Por que teria fugido?”
Quando ele se aliviou sozinho, ela teve vontade de morrer, tanta era a sua vergonha. Estava certa de ser a mulher mais feia do mundo. Depois na caverna, ele disse que a queria, que pensava que era ela quem não o quisesse. Quase chorou de tanta felicidade. Pelo modo como ele a olhava, percebia a sua paixão ir em crescendo, num sentimento de desejo e atração cada vez mais forte. Havia ficado tão zangado, ouvindo-a falar de Broud, que ela chegou a se convencer, naquele instante, de que era amada. “Quem sabe se numa outra vez quando estiver precisando aliviar-se...”
Mas nunca se esquecerá da maneira como Jondalar a olhou. Parecia que ele estava diante de um pedaço de carne nojenta e podre. Chegou até a estremecer-se.
“Iza e Creb não são animais! São pessoas. Pessoas que me amavam e que cuidaram de mim. Por que Jondalar os odiaria tanto? A terra havia sido antes deles. A espécie de Jondalar... a minha espécie veio depois. Será que é assim a minha gente?”
“Dou graças por ter deixado Durc com o clã. Poderiam pensar que ele é deformado. Broud pode odiá-lo por ser meu filho, mas nunca ele será tratado como animal... como uma aberração. Foi essa a palavra usada e ele não precisava explicar o significado para mim.”
As lágrimas voltaram-lhe aos olhos. “Meu bebê, meu filhinho... você não é deformado. É forte e saudável. E tampouco é animal ou... aberração.”
“Como poderia ele ter mudado tão depressa? Estava olhando para mim com os seus olhos azuis, olhando... e, então, deu um pulo como se eu fosse queimá-lo ou como se eu fosse um daqueles espíritos malignos com nomes conhecidos só pelos mog-urs. Chega a ser pior do que uma maldição de morte. Na maldição, as pessoas apenas se afastam e deixam de me enxergar, como se eu já estivesse morta e não pertencesse a este mundo. Mas não olham para mim como se eu fosse... uma aberração?”
O sol abaixava no céu, trazendo o frio da tarde. Mesmo no mais quente do verão, fazia frio nas estepes durante a noite. Na sua roupa de verão, ela tremia. “Se eu tivesse me lembrado de trazer a barraca e peles... Não. Huiin ficaria indócil por causa do potro. Além disso, ela precisa de dar de mamar para ele.”
Ayla se levantou para voltar. Huiin ergueu a cabeça da relva e veio trotando na sua direção, espantando, no caminho, um casal de ptármigas. A reação de Ayla foi quase incontinenti. Ao mesmo tempo que puxava a funda da cintura, se abaixava para pegar pedras. Os pássaros mal haviam saído do chão, quando voltaram a cair, um depois do outro. Ela foi buscá-los e procurar pelo ninho. Mas nisso, parou.
“Ora, para que estou querendo ovos? Será que vou fazer o prato predileto de Creb para Jondalar? Por que iria eu cozinhar para ele? Principalmente esse prato, o de que Creb mais gostava?” Mas, ao dar com o ninho - um pequeno buraco na terra onde encontravam sete ovos - ela encolheu os ombros e os pegou com cuidado.
Depositou-os ao lado das ptármigas, perto do rio, e foi pegar a palha de algumas plantas que cresciam na beirada da água. Em poucos instantes teceu uma cesta que, depois de usada para carregar os ovos, seria jogada fora. Aproveitou também a palha para amarrar as patas do casal de pássaros. Os seus pés já começavam a se revestir de uma plumagem mais espessa que faria para eles um sapato de inverno.
Inverno. Ela estremeceu. Não queria pensar nisso. Seria frio e triste. Mas o inverno nunca estava inteiramente fora das cogitações. O verão era apenas o tempo de se preparar para ele.
E Jondalar estava indo embora. Ela sabia disso. Uma idiotice pensar que fosse ficar no vale. Por que iria? Se ela tivesse um povo, ficaria? Sem ele, agora seria muito pior... mesmo tendo olhado para ela daquela maneira.
- Por que teve Jondalar de aparecer na minha vida?
Ela se assustou com a sua própria voz. Não estava acostumada a se ouvir falando sozinha.
- Mas agora eu posso falar. Pelo menos isso Jondalar fez por mim. Se eu encontrar pessoas vou poder conversar. E eu sei que existe muita gente vi vendo a oeste daqui. Iza tinha razão. Deve haver uma quantidade de gente, um mundo de Outros.
Ela colocou as ptármigas no lombo de Huiin, pendurando uma de cada lado, e ajeitou a cesta de ovos entre as coxas. “...Eu venho dos Outros... 'Encontre um companheiro', me dizia Iza. Pensei que Jondalar tivesse sido enviado para mim pelo meu totem. Mas alguém enviado pelo meu totem me olha ria daquela maneira?”
- Como pôde ele ter olhado assim para mim? - gritou em meio a um profundo e sentido soluço. - Oh, Leão da Caverna, eu nunca mais quero ficar sozinha... - ela se deixava levar pela égua, com o corpo mole, desolada, novamente abandonando-se Às lágrimas. Huiin reparava na falta de comando, mas não tinha importância. Sabia o caminho. Passado algum tempo, Ayla endireitou o corpo. - Ninguém vai me fazer ficar aqui. Já devia há muito tempo estar procurando por gente. Agora eu posso falar. Posso dizer às pessoas que Huiin não é um cavalo para ser comido - continuava ela a falar em voz alta. - Vou estar com tudo preparado e na primavera que vem eu parto - sabia que desta vez não iria protelar a sua saída do vale.
“Jondalar ainda não está indo embora. Ele vai precisar de roupas e armas. Talvez esteja aqui para me ensinar, a mando do Leão da Caverna. Neste caso, eu tenho de aprender tudo, antes que ele vá embora. Vou ficar observando-o, fazendo-lhe perguntas. Estou pouco ligando para o seu jeito de me olhar. Nesses anos todos que eu vivi no clã, Broud não deixou um dia de me odiar. Saberei agüentar, mesmo Jondalar... me odiando.” Ela fechou os olhos, querendo reprimir as lágrimas.
Então, lembrando-se do que Creb lhe dissera há muito tempo, segurou no amuleto: “Quando você encontrar um sinal enviado pelo seu totem, guarde-o no amuleto. Isso lhe trará sorte.” E estavam todos eles ali guardados dentro daquele saquinho. “Oh, Leão da Caverna, tenho estado tão sozinha nesses anos todos! Ponha um pouco de sorte no meu amuleto.”
O sol já se pusera atrás da garganta na montante do rio, quando ela chegou ao vale. Dentro de pouco tempo estaria escuro. Jondalar viu-a e correu para a praia. Ayla havia instigado Huiin a galopar e por um triz não esbarrou nele na curva do penhasco. Por pouco não caiu, com o susto da égua. Jondalar quis ampará-la, mas retirou rapidamente a mão ao tocar-lhe no corpo nu. Estava certo de que ela o desprezava.
“Ele me odeia”, pensou Ayla. “Não suporta nem tocar em mim.” Ela engoliu um soluço e ordenou que Huiin prosseguisse. O cavalo atravessou a praia cascalhenta e subiu para a caverna com Ayla montada. Na entrada, apeou e correu para dentro, desejando ter um outro lugar para ir. A sua vontade seria esconder-se. Deixou os ovos perto da fogueira e apanhou um monte de peles, que levou para a área onde tinha os seus mantimentos. Botou as peles em meio às cestas, esteiras e bacias e se meteu dentro delas com a cabeça coberta.
Momentos depois ouviu o barulho do casco de Huiin seguido pelo do potro. Estava tremendo, lutando contra as lágrimas e toda ouvidos para os movimentos de Jondalar dentro da caverna. Queria que ele saísse para poder chorar.
Jondalar aproximou-se. Ela sabia que ele estava lá, embora não lhe ouvisse o barulho dos passos de pés descalços pisando no chão de terra.
- Ayla - chamou ele.
Ela não respondeu.
- Ayla, eu lhe trouxe um pouco de chá.
Ela se mantinha imóvel.
- Ayla, você não precisa vir para cá. Eu me mudo para o outro lugar da fogueira.
“Ele me odeia. Não suporta nem ficar perto de mim”, pensou ela.
- Sei que isso de nada adianta, mas eu preciso falar com você. Perdoe-me, Ayla. Não tenho palavras para expressar o quanto estou sentido. Você não merecia o que eu fiz. Não precisa me responder, mas eu tenho que falar, Ayla. Você sempre foi honesta comigo. Para mudar um pouco, já é tempo de eu também me mostrar franco e leal com você.
“Não faço outra coisa senão pensar desde que você saiu com Huiin. Não sei por que eu fiz... enfim, agi daquela maneira, mas vou ver se consigo explicar. Depois do ataque daquele leão, quando eu acordei aqui, não tinha noção de onde me encontrava. Não entendia por que você não falava comigo. Você era um mistério. Que estaria uma moça fazendo aqui sozinha? Foi então que comecei a inventar uma história a seu respeito. Imaginei que fosse uma zelandoni que se estava submetendo a um tipo de provação... que fosse uma mulher sagrada atendendo ao chamado da Mãe. Quando me vi recusado nas grosseiras tentativas que fiz para compartilhar dos prazeres com você, pensei que a abstinência fosse também uma das provas que se havia imposto. Passei, então, a formar uma idéia de que os clãs se constituíam num estranho grupo de zelandoni do qual você fazia parte.
Ayla, apesar de que ainda permanecesse imóvel, havia parado de tremer e escutava.
- Eu só pensava em mim, Ayla - ele se agachou, sentando-se sobre as pernas. - Não sei se você vai acreditar, mas eu... bom, sempre fui considera do como... digamos, um homem atraente. Era eu quem escolhia as mulheres e no seu caso me vi rejeitado. Não estava acostumado a isso. Sentia o meu orgulho ferido e não queda admitir a possibilidade de uma recusa. Acho que foi por isso que inventei essa história sobre você. Precisava me dar uma desculpa, já que parecia não querer nada comigo.
“Mas se eu tivesse prestado mais atenção, veda que você não era nenhuma mulher vivida que estava me rejeitando e sim qualquer coisa como urna mocinha antes de seus primeiros ritos.. - insegura, um pouco amedronta da e querendo agradar. Se alguém tinha de saber disso, seria.. -bom, não interessa.
Ayla afastou as cobertas e tão grande era a sua tensão que escutava as batidas de seu coração.
- Tudo que via era Ayla, uma mulher feita. Acredite em mim, você tem uma aparência muito diferente da de uma menina. Achei que brincava comigo quando me disse que era grande e feia. E estava falando sério, não é? Real mente você se acha assim. Talvez para os cabe... para as pessoas que a criaram, você fosse muito alta e diferente. Mas Ayla, precisa saber que não é grande e nem feia. Você é linda. A mulher mais linda que já vi em toda a minha vida.
Ela se havia virado e estava sentada.
- Eu? Linda? - falou. Mas subitamente, sem acreditar nas palavras dele, se meteu por entre as peles, temendo outra vez ser magoada. - Você está zombando de mim.
Jondalar estendeu a mão para tocar nela, mas desistiu, tomando a abaixá-la.
- Você tem razão em não querer acreditar em mim. Principalmente de pois. . - de hoje. Mas eu tenho que aceitar isso e tentar assim mesmo explicar. E difícil que alguém possa imaginar todas essas coisas por que você tem passado. Órfã criada por... pessoas diferentes, separada do filho, e por fim obrigada a abandonar o único lar que conheceu para vir morar aqui sozinha. Isso é uma provação que nenhum servidor da Mãe seria capaz de imaginar. Poucas pessoas conseguiriam sobreviver à vida que teve. Você, Ayla, tem um espírito forte, O seu interior é forte, mas vai precisar ser mais forte ainda. Você tem de saber o que pensam as pessoas sobre esse povo a quem dá o no me de clãs. E eu pensava como todo mundo, também achava que se tratassem de animais.
- Não são animais!
- Mas eu não sabia, Ayla. Há gente que tem ódio desses clãs de que você fala. Eu não sei por quê. Quando penso sobre isso, vejo que animais, isto é, animais de verdade, daqueles que caçamos, não são odiados. Talvez seja por que no fundo de seus corações, Ayla, as pessoas sabem que os cabeças-chatas... é assim que os chamamos, sejam humanos. Eles são tão diferentes que chegam a ser assustadores... ou, quem sabe, ameaçadores. Mas, mesmo assim, alguns homens violentaram mulheres cabeças-chatas para terem os seus prazeres com elas. Nem sei se seria justo falar deste modo, talvez melhor seja como você diz: “aliviar as necessidades”. Não posso entender por que se fala deles como animais, principalmente sabendo que há misturas de espíritos e que crianças nascem...
- Você tem certeza de que são espíritos? - perguntou Ayla. Ele falava com tanta certeza que era possível que tivesse razão.
- Seja o que for, você não é a única, Ayla, que teve um filho nascido da mistura de gente com cabeça-chata, apesar das pessoas não falarem.
- Eles são clânicos e humanos - interrompeu ela.
- Você vai ouvir muitas vezes essa palavra, Ayla. E bom que saiba. Também deve saber que um homem violentar uma mulher “clânica” não é um ato tão pavoroso quanto seria o da mulher que compartilha dos prazeres com um macho cabeça-chata. Isso, para muita gente, é indesculpável.
- Uma aberração?
Jondalar ficou pálido, mas não recuou.
- É, Ayla, uma aberração.
- Eu não sou uma aberração - falou ela, corada. - E Durc também não é uma aberração. Não gostava do que Broud fazia comigo, mas aquilo não era uma aberração. Se fosse um outro homem quem tivesse feito, que estivesse querendo apenas aliviar suas necessidades e não fazendo por ódio, eu teria aceitado como qualquer mulher dos clãs; Se pudesse eu teria ficado com eles. Mesmo na qualidade de segunda mulher de Broud. Faria qualquer coisa para poder ficar junto de meu filho. Pouco estou ligando para essas pessoas que não aprovam.
Ele tinha de admirá-la, mas sabia que a vida não seria fácil para ela.
- Ayla, não estou dizendo que você deva sentir vergonha. Estou apenas lhe avisando o que a espera. Quem sabe se você contasse que vinha de um outro povo e...
- Jondalar, por que você me diz para falar palavras que não são verdadeiras? Não entendo por quê. Nos clãs, ninguém fala inverdades. Logo seria sabido. Seria visto. Mesmo que a pessoa evite mencionar alguma coisa, fica-se sabendo. Às vezes por cortesia é permitido, mas se sabe. Eu posso ver quando você diz palavras que não são verdadeiras. O seu rosto me diz e também os seus ombros e as suas mãos.
Ele ficou vermelho. As suas mentiras eram tão visíveis assim? Dava graças por ter usado sempre da maior sinceridade. Ayla tinha muito o que lhe ensinar. A honestidade e a retidão de caráter eram parte dessa sua força interior.
- Não é que você tenha de aprender a mentir, apenas achei que deveria saber dessas coisas antes da minha partida.
Ela sentiu um nó formando-se no estômago e a garganta apertando-se. “Então ele vai embora.” A sua vontade era a de voltar e mergulhar dentro das peles e esconder a cabeça.
- Eu já imaginava que você fosse, mas não há nada ainda preparado para viajar. De que vai precisar?
- Se você pudesse me arrumar algumas de suas pedras de sílex, poderia fazer umas ferramentas e lanças. E se me dissesse onde estão as roupas com que cheguei, eu gostaria de consertá-las. Não sei se trouxe para cá, mas talvez a minha mochila ainda dê para ser usada.
- Mochila? O que é?
- É um bauzinho que eu carrego pendurado nas costas. Não existe uma palavra em zelandonii para isso. Mochila é o nome em mamutoi. Aquelas roupas que estava usando são mamutoi...
Ayla abanava a cabeça.
- Por que uma palavra diferente?
- Mamutoi é uma outra língua.
- Uma língua diferente? Mas que língua você me ensinou?
Jondalar sentiu um aperto no coração.
- Eu lhe ensinei a minha língua... a dos Zelandonii. Não pensei...
- Zelandonii... eles vivem para o lado do oeste? - Ayla se sentia in quieta.
- Bem... é. Mas bem longe no oeste. Os mamutoi vivem perto.
- Jondalar, você me ensinou uma língua falada por um povo que vive longe daqui e não a que falam as pessoas que moram perto. Por quê?
- Eu... não pensei sobre isso. Limitei-me a ensinar a minha língua -disse ele, de repente sentindo-se pessimamente. Nada que fazia dava certo.
- E você é a única pessoa que pode falar essa língua por aqui?
Ele confirmou com a cabeça.
O estômago dela dava voltas. Havia pensado que Jondalar fora enviado para ensinar-lhe a falar e, quando acabava, ela só podia conversar com ele.
- Jondalar, por que você não me ensinou a língua falada por todo mundo?
- Porque não existe esta língua.
- Eu me refiro à língua que você usa para falar com os seus espíritos ou, quem sabe, com a sua Grande Mãe.
- Não temos uma língua especial para falar com ela.
- Como você conversa com as pessoas que não sabem a sua língua.
- Aprendendo a nova língua. Eu sei três línguas e algumas palavras de outras.
Ayla voltara a tremer. Pensava que poderia sair do vale e falar com as pessoas que encontrasse. E, agora, o que faria? Ela levantou-se e ele fez o mesmo.
- Eu quero saber todas as palavras que você conhece, Jondalar. Preciso aprender a falar. Você tem de me ensinar... Você tem!
- Ayla, eu não posso lhe ensinar mais duas línguas. Isso leva tempo. Na verdade, nem sei falá-las direito. Uma língua não é feita só de palavras.
- Mas podemos começar por elas. Temos de começar desde o princípio. Qual é a palavra para fogo em mamutoi?
Ele lhe disse e, antes que tivesse tempo para fazer outras objeções, ela já estava perguntando uma série de palavras, na ordem em que tinha aprendido na língua zelandonií. Depois de já haver passado por uma longa lista, Jondalar voltou a interrompê-la.
- Ayla, de que adianta ficar dizendo um mundo de palavras. Você não vai conseguir lembrar-se de todas elas.
- Eu sei que a minha memória podia ser melhor. Mas vamos ver. Diga as palavras que eu não acertar.
Começando pela palavra fogo, ela repetiu nas duas línguas, de trás para diante, todas as palavras que tinham sido ditas. Quando terminou, Jondalar olhava pasmo para ela. Lembrou-se de que quando Ayla estava aprendendo zelandonii, a sua dificuldade não era a de memorizar o sentido das palavras, mas de aprender a estrutura e o conceito da língua.
- Como consegue fazer isto?
- Deixei de dizer alguma?
- Não. Absolutamente nenhuma.
Ela sorriu aliviada.
- Quando eu era menina, era muito pior. Tinha de ficar repetindo tudo muitas e muitas vezes. Nem sei como Iza e Creb tiveram paciência comigo. Sei que havia pessoas que achavam que eu não fosse muito inteligente. Agora estou melhor, mas foi preciso muito treino e exercício. Qualquer um lá nos clãs tinha melhor memória do que eu.
- Você está dizendo que a capacidade de memorizar do pessoal dos clãs é ainda maior do que a sua?
- As pessoas dos clãs não se esquecem de coisa alguma, mas já nascem sabendo de quase tudo de que precisam, de modo que não têm muito o que aprender. Tudo que têm de fazer é lembrar-se. Elas possuem as memórias... não sei como você chamaria isto. As crianças quando estão crescendo vão aprendendo a recorrer às suas memórias. Basta que sejam lembradas uma vez. Os adultos não precisam. Sabem como puxar pelas memórias. Como eu nasci sem as memórias da gente dos clãs, lia era obrigada a repetir seguidamente tu do aquilo que me ensinava, até que eu conseguisse dizer as minhas lições sem um erro.
Jondalar estava perplexo com a capacidade mnemônica de Ayla. Quanto às memórias, ele não havia entendido direito do que se tratava.
- Havia pessoas que não acreditavam ser possível eu me tornar uma curandeira já que me faltavam as memórias de Iza. Mas ela dizia que não tinha importância. Achava que, mesmo sem as memórias, eu daria boa curandeira porque encontrava outras qualidades em mim. Era qualquer coisa que ela dizia não entender direito como se processava, mas que me fazia descobrir os tratamentos corretos para as doenças. Como eu não possuía a memória do uso das plantas medicinais, ela me ensinou a testá-las para que eu pudesse, por mim mesma, descobrir o modo de empregá-las.
“As pessoas dos clãs também possuem uma antiga língua que é formada só de gestos, sem o emprego de qualquer som. Todos conhecem esta língua. É a que usam para celebrar cerimônias, se dirigirem aos espíritos e também parar se comunicarem quando não se entenderem. Eu também sei essa língua.
“Porque tive de aprender coisa por coisa, fui obrigada a desenvolver o meu poder de concentração e também a prestar muita atenção a tudo, para evitar de que tivesse de ser “lembrada” mais de uma vez e as pessoas não se mostrassem impacientes comigo.
- Será que estou entendendo direito? Você está dizendo que todos... esses clãs, além de possuírem a sua própria língua, têm uma outra, numa velha forma, que é entendida por todo mundo? Que todos podem falar... se comunicar entre si?
- Na reunião dos clãs todos puderam.
- Será que estamos falando do mesmo povo? Dos cabeças-chatas?
- Se for este o nome que você dá às pessoas dos clãs, acho que estamos. Eu já lhe disse qual a aparência delas - falou Ayla abaixando os olhos. - Foi quando você me disse que eu não passava de uma aberração.
Ela se lembrou dele estremecendo-se cheio de nojo e de seu olhar caloroso transmudando-se numa expressão fria de desprezo. Foi justamente quando lhe estava falando sobre os clãs e achando que os dois se estavam entendendo. Agora ele parecia não querer aceitar o que ela dizia. Subitamente se sentiu constrangida. Havia falado de uma maneira muito franca e aberta. Com passos rápidos, se dirigiu para a fogueira. Vendo as ptármigas e os ovos, postos lá por Jondalar, começou a depená-las para estar fazendo alguma coisa.
Jondalar havia percebido que a desconfiança dela havia aumentado. Ele a tinha magoado demais, nunca recuperaria outra vez a sua confiança, embora por um momento chegasse a pensar que ainda fosse possível. O desprezo que agora sentia era por ele próprio. Apanhou as peles de Ayla e as carregou de volta para a cama dela. Em seguida, pegou as que usava e as levou para um lugar do outro lado da fogueira.
Ayla pôs os pássaros de lado e correu para a cama. Não tinha vontade de ficar arrancando penas naquele instante e nem queria que ele lhe visse os olhos molhados.Jondalar procurou arrumar as peles ao redor dele, de um jeito confortável. “...Memórias, foi o que ela disse. Com que então cabeças-chatas possuíam um tipo especial de memória! E esta língua feita de gestos, conhecida por todos? Era fantástico. Difícil de acreditar, não fosse por um detalhe: Ayla não mentia.”
Acostumada ao silêncio e à solidão, Ayla sentia a presença de outra pessoa na caverna. Apesar de reconfortante, lhe era necessário um certo espírito de adaptação e ajustamento às novas circunstâncias. Além do mais, todos aqueles altos e baixos do dia acabaram por deixá-la esgotada, inteiramente exausta. Não queda sentir, pensar, reagir. Nada que tivesse a ver com o homem com quem dividia a sua caverna. Só queria descansar.
No entanto, o sono não vinha. Estava se sentindo tão confiante depois de ter aprendido a falar, concentrara-se, empenhara-se tanto para conseguir isto e, agora, era como se tivesse sido tapeada. Por que teria ele lhe ensinado a sua língua, sabendo que já estava de partida? Ela nunca mais o veria. Na primavera estaria largando o vale para sair em busca das pessoas que viviam per to de lá, e, quem sabe, também em busca de outro homem.
Mas não desejava outro homem. Queria Jondalar com os seus olhos e aquele seu jeito de tocar nela. Lembrou-se de como se sentira quando ele chegara. Jondalar era o primeiro homem do povo dela que via e, aos seus olhos, a sua figura representava a de todos os outros. Não era exatamente a de um indivíduo. Depois, ela não sabia quando ele deixara de ser um exemplo para se tomar unicamente Jondalar. Tudo que sabia é que sentia falta do som de sua respiração e do calor dele ao seu lado. A sua cama vazia casava-se perfeitamente com o vazio dentro dela.
O sono também não chegava para Jondalar. Não conseguia sentir-se confortável. Parecia frio o lado que estava acostumado a ter a proximidade de Ayla. A culpa que sentia era um tormento constante. Não se lembrava de um dia tão ruim na vida. Nem mesmo a língua havia ensinado certo. Quando iria Ayla precisar de zelandonii? Para se chegar à terra de seu povo era todo um ano de viagem e isso se não houvesse paradas maiores durante o caminho.
Ele pensou na viagem com o seu irmão. Tudo parecia tifo inútil. Quanto tempo já fazia que teriam partido? Três anos? Isso significava pelo menos uns quatro anos fora de casa. Quatro anos de vida perdidos. - sem nenhum propósito. O seu irmão morto. Jetamio e o filho do espírito de Thonolan também mortos. O que sobrou?
Desde os seus tempos de criança que procurava manter as suas emoções sob controle, mas ele também estava naquele momento enxugando os olhos nas peles. As lágrimas não eram só pelo irmão, mas por ele também. Pela oportunidade maravilhosa que perdera.
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