O Vale dos Cavalos

Jean M. Auel · Capítulo 10 de 31

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O Vale dos Cavalos

Capítulo 8

- Olá! Olá! - gritava Jondalar, acenando enquanto corria para a beirada do rio.

O seu alívio não tinha limites. Já estava a ponto de desistir de tudo, mas o som de outra voz fez renascer as suas esperanças. Não ocorreu a ele a possibilidade das pessoas não serem de paz. Nada podia ser pior do que a total impotência em que se encontrava. E, de fato, não pareciam hostis.

O homem que o havia chamado suspendeu um rolo de corda atado a uma das extremidades do estranho pássaro aquático. Jondalar, então, percebeu não se tratar de uma criatura viva, mas de uma espécie de embarcação. O homem lhe atirou a corda. Jondalar deixou-a cair e se meteu dentro da água para buscá-la. Duas pessoas, segurando numa outra corda, saltaram a amurada do barco e vieram caminhando pela água que redemoinhava à altura de suas coxas. Uma delas veio tirar a amarra dele. Ela sorria da expressão de Jondalar que era de alívio e perplexidade, diante da total ignorância do que fazer com a corda molhada em suas mãos. Essa mesma pessoa arrastou o barco para mais perto e, depois de amarrar a corda numa árvore, foi examinar um outro cabo que se atava à ponta do galho de um tronco meio submerso.

Um outro ocupante da embarcação se alçou sobre a amurada e pulou para o tronco, testando-lhe a estabilidade. Ele disse algumas palavras numa língua desconhecida e uma prancha em forma de escada foi descida da amurada do barco para o tronco. Em seguida,ele voltou para ajudar uma mulher, que por sua vez ajudou uma terceira pessoa a descer pela prancha e caminhar pelo tronco até a praia, embora parecesse não haver necessidade disso, sendo mais uma questão de deferência.

Essa pessoa, sem dúvida alguma merecedora de todas as considerações, tinha um ar sereno, quase majestoso, mas com qualquer coisa de indefinível que Jondalar não sabia explicar, uma certa ambigüidade que o levou a encará-la. O vento bateu, soltando alguns fios de longos cabelos brancos atados na nuca, num penteado puxado para trás que deixava à mostra um rosto muito escanhoado - seria imberbe? - já marcado pelos anos, mas iluminado por uma pele macia e clara. Havia força na linha do maxilar, no queixo saliente. Seria firmeza de caráter?

Jondalar se deu conta de que estava em pé, dentro da água fria, quando lhe acenaram para sair. O exame mais de perto da figura não esclareceu o enigma e ele sentia que lhe escapava qualquer coisa importante. Parou, por um momento, e olhou para um rosto sorridente, de expressão interrogadora e olhos penetrantes, num tom indefinido que tanto podia ser cinza como cor de avelã. Jondalar, de repente, enrubesceu, atinando com certos traços que se insinuavam na misteriosa pessoa que, pacientemente, o aguardava de pé à sua frente. Foi então que ele procurou por sinais que lhe sugerissem ou identificassem o sexo.

A altura não ajudava: um pouco alto para mulher e um pouco baixo para homem. As roupas soltas e informes escondiam os detalhes físicos, até mesmo a maneira de andar deixava Jondalar intrigado. Quanto mais olhava, menos sabia e mais aliviado se sentia. Ele sabia da existência de pessoas assim. Seres que não eram uma coisa nem outra, ou então as duas ao mesmo tempo. Em geral, se alinhavam entre aqueles que serviam a Mãe. Tendo concentrados em suas pessoas poderes derivados dos elementos masculinos e femininos, eram tidos como extraordinários curandeiros.

Jondalar encontrava-se muito distante de sua terra natal e desconhecia os costumes daquela gente; entretanto, não tinha a menor dúvida de que a figura parada à sua frente era um curandeiro. Talvez fosse um servidor da Mãe... talvez não. Bom, não tinha importância. O que interessava é que Thonolan precisava de um curandeiro e havia aparecido um ou uma.

Mas como soubera que estávamos precisando de um curandeiro? E como vieram parar aqui?

Jondalar atirou outra tora na fogueira e ficou observando as fagulhas que subiam atrás da fumaça, perdendo-se na escuridão da noite. Ele deslizou o traseiro nu mais para dentro do saco de dormir e apoiou as costas contra uma pedra para admirar as chispas de fogo lançadas através do espaço. Uma figura parecendo flutuar entrou em seu campo de visão, vedando parte do céu salpicado de estrelas. Ele levou um momento até que os seus olhos, desajusta dos, se deslocassem das profundezas celestiais para a cabeça de uma moça que segurava uma cuia de chá fumegante.

Rapidamente se sentou, deixando entrever um pedaço da coxa nua. Agarrou, então, o saco de dormir, puxando-o para cima e dando uma olhada em suas calças e botas que secavam penduradas perto da fogueira. A moça lhe sorriu, e tão radiosamente, que ele, ao invés de ver uma mulher tímida, um tanto formal, de beleza plácida, enxergou uma esplêndida beldade de olhos esfuziantes. Jamais vira na vida transformação tão surpreendente e o sorriso com que devolveu o dela refletia todo o seu encantamento. Ela, no entanto,abaixou rápido a cabeça, escondendo uma risada marota, não querendo deixar embaraçado o desconhecido. Quando voltou a olhar para ele, os olhos guardavam apenas um leve brilho.

- Você tem um belo sorriso - disse Jondalar, pegando a cuia de chá.

Ela acenou a cabeça dizendo qualquer coisa, dando a entender a Jondalar que não o compreendera.

- Sei que não entende o que eu falo, mas mesmo assim quero dizer-lhe o quanto estou agradecido por vocês estarem aqui.

Ela o observava com mais atenção. Ele sentia que a vontade de se comunicar da moça era tão grande quanto a sua e continuou a falar, com medo de que, se parasse, ela fosse embora.

- É maravilhoso poder falar com você e saber que estão aqui - ele tomou um gole do chá. - Isso é muito gostoso. De que é? - perguntou, suspendendo a cuia e balançando a cabeça, dando a entender que estava gostando muito. - Parece com o gosto de camomila.

Ela mexeu a cabeça, como que agradecendo, e veio sentar-se perto da fogueira, respondendo-lhe com palavras incompreensíveis, tanto quanto as dele o eram para ela. Mas tinha uma voz agradável e pareceu compreender o seu desejo de companhia.

- Gostaria de poder agradecer. Não sei o que faria se vocês não tivessem aparecido - ele franziu a testa, preocupado, e ela lhe deu um sorriso compreensivo. - Gostaria também de poder perguntar como souberam que está vamos aqui e como o seu Zelandoni... ou o seu curandeiro, ou qualquer outro nome que vocês dão a ele, soube que tinha também de vir.

Ela lhe respondeu apontando para a barraca que fora erguida ali perto e que se iluminava com uma fogueira dentro. Ele abanou a cabeça desconsolado. A moça parecia quase compreendê-lo e ele, simplesmente, não entendia nada do que ela falava.

- Bom, tenho a impressão de que isso não tem importância - falou ele.- Mas gostaria de que o seu curandeiro me deixasse ficar com Thonolan. O meu irmão precisa saber que estou aqui. Não estou duvidando da capacidade do curandeiro. Simplesmente queria ficar com ele - Jondalar tinha o olhar tão ansioso que ela colocou a mão sobre o seu braço, de modo a tranqüilizá-lo. Ele tentou sorrir, mas o seu sofrimento era grande demais. A sua atenção foi então atraída para a barraca que se abriu, deixando passar uma mulher já de certa idade.

- Jetamio! - chamou a mulher, dizendo em seguida algumas outras palavras.

A moça se apressou em se levantar, mas Jondalar lhe segurou a mão, detendo-a.

- Jetamio? - perguntou ele, apontando-a com o dedo.

Ela confirmou com a cabeça.

- Jondalar - disse, batendo no peito.

- Jondalar - repetiu ela devagar. Então olhou para a barraca e, depois de bater levemente nele e nela, apontou na direção da tenda.

- Thonolan. O nome de meu irmão é Thonolan.

- Thonolan - falou ela se dirigindo apressada para a barraca.

Jondalar reparou que a moça mancava ligeiramente, mas isso parecia não atrapalhá-la em nada.

As calças ainda estavam úmidas, mas ele as vestiu assim mesmo e, com elas sem amarrar e descalço, deu uma corrida até um mato próximo. Desde que acordara, Jondalar vinha contendo as suas necessidades. As mudas de roupa que possuía haviam ficado na barraca onde o curandeiro tratava de Thonolan. A risada de Jetamio na véspera fez com que Jondalar pensasse duas vezes antes de sair para a área escondida atrás do mato, vestido apenas com a camiseta que usava debaixo da roupa. Além do que, não queria correr o risco de ir contra algum tabu ou costume das pessoas que o estavam ajudando.

Havia primeiro tentado levantar e caminhar metido no saco de dormir, mas custara tanto resolver meter-se nas suas calças - molhadas ou não - que estava a ponto de botar a vergonha de lado e dar uma corrida até o mato. As sim mesmo não escapou da risada de Jetamio.

- Tamio, não ria dele. Isso não é direito - falou a mulher. As suas palavras, entretanto, não tinham a menor força, pois ela própria não conseguia conter o riso.

- Oh, Rosh, eu não tinha intenção de rir dele, mas não consigo evitar. Você viu quando ele tentou caminhar dentro do seu saco de dormir? - ela tornou a rir, apesar do esforço para conter-se. - Por que simplesmente não se levanta e anda?

- Talvez porque os costumes sejam diferentes. Eles devem ter vindo de muito longe. Nunca vi roupas como as que usam e a língua também é completamente desconhecida. A maioria dos viajantes tem algumas palavras que são parecidas. Eles não. Há certas palavras que nem consigo pronunciar.

- Tem razão. Deve ser difícil para ele mostrar o corpo. Você devia ter visto como ficou vermelho ontem só porque eu vi um pedaço de sua coxa. Mas nunca vi ninguém que tivesse gostado tanto de nos encontrar.

- Não é para menos.

- Como está o outro? - perguntou Jetamio, novamente séria. - O shamud comentou qualquer coisa, Roshario?

- Acho que a inflamação está cedendo e a febre também. Pelo menos está dormindo agora mais sossegado, O shamud acha que ele foi atacado por um rinoceronte. Nem sei como conseguiu escapar. Ele não iria durar muito se o outro não tivesse tido aquela idéia de pedir socorro. Mesmo assim foi uma sorte encontrá-los. Mudo deve ter sorrido para eles. A Mãe sempre ajuda os homens bonitos.

- Mas não muito. . - não impediu que Thonolan fosse ferido. O modo como ele foi chifrado... você acha que ele volta ainda a caminhar?

- Se ele tiver a metade da força de vontade que você teve, voltará, Tamio - disse Roshario carinhosamente.

O rosto de Jetamio ficou vermelho.

- Acho que vou ver se o shamud está precisando de alguma coisa - ela se dirigiu para a barraca, fazendo o possível para não mancar.

- Por que você não leva para o altão o seu baú? - gritou.lhe Roshario.- Assim ele não precisará de usar calções molhados.

- Eu não sei qual é o dele.

- Leve os dois, desse modo sobrará mais espaço dentro da barraca. E pergunte ao shamud quando vamos embora... Ah, mais uma coisa. Qual o nome dele? Thonolan?

Jetamio fez que sim com a cabeça.

- Se vamos ficar aqui por algum tempo, Dolando vai precisar arrumar uma caçada. Nós não trouxemos muito comida. Com o rio desse jeito, tenho a impressão de que os ramudoi não vão conseguir pescar, se bem que acho que eles se dariam por muito felizes se não tiverem de pôr os pés na praia. Quanto a mim, gosto de sentir chão firme debaixo dos meus pés.

- Ora, Rosh, acho que estaria dizendo justamente o contrário se você, ao invés de Dolando, tivesse arrumado um ramudoi para companheiro.

Os olhos de Roshario ficaram sérios.

- Por acaso um desses remadores andou fazendo gracinhas para você? Eu posso não ser a sua mãe verdadeira, Jetamio, mas todo mundo sabe que você é como filha para mim. Se um homem não tem nem a delicadeza de pe dir, ele não é coisa que sirva para você. Não se pode confiar nesses homens de beira de rio.

- Não se preocupe, Rosh. Não pretendo fugir com nenhum remador... pelo menos por enquanto - falou Jetamio, com um sorriso de mofa.

- Tamio, há muito homem bom shamudo que gostaria de mudar para a nossa casa e... mas de que você está rindo?

Jetamio tapava a boca com as duas mãos, querendo engolir o riso que escapava estrangulado em meio a risadinhas abafadas. Roshario se virou na direção em que a outra olhava, e por sua vez tapou a boca para não cair também na gargalhada.

- É melhor eu ir buscar de uma vez esses baús - conseguiu por fim Jetamio dizer. Depois, voltou a rir novamente. - O nosso amigo altão precisa urgente de roupas secas. Ele parece um bebê de calças compridas -saiu cor rendo, mas Jondalar lhe ouviu o som das risadas antes que ela entrasse na barraca.

- Alegre, queridinha? - falou o curandeiro, levantando uma sobrancelha e com olhar zombeteiro.

- Ah, desculpe, não pretendia entrar aqui rindo. É que.- Ou eu já estou no outro mundo, ou então você é a donii que vai me levar para lá. Nenhuma mulher da terra poderia ser tão bonita assim. Só que não entendo uma palavra do que diz.

Jetamio e o shamud olharam na direção do homem ferido. Thonolan, esboçando fracamente um sorriso, tinha os olhos fixos em Jetamio. Ela ficou séria e veio ajoelhar-se junto dele.

- Oh, eu vim perturbá-lo! Como pude ser tão estabanada?

- Não pare de sorrir, minha bela donii - falou Thonolan, segurando-lhe a mão.

- Sim, querida, você deixou o rapaz perturbado, mas não se preocupe com isso. Imagino que ainda ficará mais perturbado com você por aqui.

Jetamio abanou a cabeça, olhando surpresa para o shamud.

- Eu vim só perguntar se você está precisando de qualquer coisa ou se posso ajudar de alguma maneira.

- Você já ajudou.

Ela o olhou ainda mais espantada. Às vezes, achava que não entendia nada do que o curandeiro falava.

O olhar penetrante do shamud adoçou-se, mas guardando uma ponta de ironia.

- Já fiz tudo o que podia. Agora, o resto é com ele. Nessa fase, qual quer coisa que lhe dê vontade de viver só pode fazer bem para ele. E você, minha querida, tem esse poder.

Jetamio ficou corada e abaixou a cabeça. Percebeu, então, que Thonolan ainda lhe segurava a mão. Ela olhou-o, vendo os seus olhos cinzas sorri dentes, e lhe devolveu um radioso sorriso.

O curandeiro limpou a garganta em voz alta e Jetamio, meio confusa, retirou a mão, dando-se conta de que estava parada encarando o desconhecido.

- Há uma coisa que você pode fazer. Já que ele está acordado e lúcido, talvez possamos lhe dar algo para comer. Se houver uma sopa pronta, acho que ele tomará, se for dada por você.

- Ah, mas claro. Eu vou buscar - disse ela, saindo às pressas, procurando disfarçar o embaraço. Ao surgir lá fora, deu com Roshario tentando falar com Jondalar que, apesar da falta de jeito, procurava ter um ar afável. Ela então tomou a enfiar-se dentro da barraca para completar o serviço que esquecera de fazer.

- Eu vim pegar os baús deles e Roshario quer saber quando Thonolan poderá ser removido.

- Como é que você disse que ele se chama?

- Thonolan. Foi esse o nome que o outro me falou.

- Diga a Roshario que dentro de um ou dois dias. Ele ainda não está em condições de enfrentar uma viagem por águas turbulentas.

- Como é que você sabe o meu nome, linda donii? E como é que vou perguntar o seu?

Ela, antes de sair com os baús, virou-se para Thonolan, dando-lhe um sorriso. Ele, sorrindo satisfeito, acomodou-se na cama. Foi então que levou um susto, reparando pela primeira vez na figura de cabelos brancos do curandeiro, exibindo um rosto enigmático, com um sorriso que ao mesmo tempo conseguia ser felino, inteligente, compreensivo e... - malévolo.

- Que coisa maravilhosa o amor jovem - comentou o shamud.

O significado das palavras Thonolan não compreendeu, mas não lhe passou despercebido o sarcasmo e a ironia com que foram ditas.

O tom da voz do curandeiro não era nem alto nem baixo. Thonolan olhou para ele, procurando alguma pista no modo de vestir e no jeito de ser que indicasse se estaria ele diante de uma mulher com voz de tenor alto, ou se de um homem com voz de contralto baixo. Ficou na mesma. No entanto, sem saber exatamente por que, relaxou-se, confiante, sentindo que em melhores mãos não poderia estar.

O alívio de Jondalar ao ver Jetamio saindo da barraca com os baús foi tão visível que ela ficou com remorsos por não ter feito isso antes. Ela não ignorava o problema dele, mas, por outro lado, ele lhe parecia tão cômico. Jondalar, depois de agradecer com uma profusão de palavras incompreensíveis, cujo sentido deu entretanto para perceber, se dirigiu para o terreno atrás do matagal. Ao se ver com roupas secas, sentiu-se tão melhor que chegou até a perdoar as risadas de Jetamio.

“Acho que estava parecendo meio ridículo com aquelas calças molha das e frias”, pensou. “Bom, a ajuda que nos estão dando compensa bem as risadinhas dela... mas o que eu não entendo é como souberam que estávamos aqui? Talvez o curandeiro tenha também outros poderes... isso explicaria. Por enquanto já me dou por muito satisfeito com os seus poderes de curar.” Ele se deteve por um momento. “Pelo menos esse poder acho que ele tem. Ainda não vi Thonolan, nem sei se ele está melhor ou não. Já é tempo de descobrir. Afinal de contas, é meu irmão. Eles não me podem impedir se eu quiser vê-lo.”

Ele voltou ao acampamento e deixou o seu baú perto da fogueira. Com cuidado, propositalmente devagar, estendeu as roupas para secar. Isso feito, encaminhou-se para a barraca.

Por pouco não deu um encontrão no curandeiro que saía no instante em que ele se agachava para entrar, O shamud passou-lhe um rabo de olho, sorriu-lhe sedutoramente, pôs-se de lado e, com um gesto de exagerada delicadeza, inclinou-se diante da figura atlética de Jondalar, cedendo-lhe a passagem.

Jondalar olhou com curiosidade para o curandeiro. Não havia a menor sombra de humildade nos penetrantes olhos que também o olhavam curiosos, e, se outros propósitos houvessem, estes se revelavam tão obscuros quanto a própria ambigüidade da cor deles. O sorriso que, ã primeira vista, lhe dera a impressão de sedutor, na verdade era sobretudo irônico. Jondalar sentiu que aquele, como muitos outros da mesma profissão, podia ser tanto um amigo extremado como um perigoso inimigo.

Ele concordou com a cabeça, como se reservasse para si o direito de to mar a decisão. Deu-lhe um sorriso de agradecimento, e entrou. Ficou surpreso ao ver que Jetamio chegara na sua frente. Ela apoiava a cabeça de flono lan, ao mesmo tempo que segurava uma cuia de osso junto aos lábios dele.

- Já devia ter previsto - falou Jondalar num sorriso que era pura ale gria, ao ver o irmão acordado e aparentemente muito melhor. - Você conseguiu outra vez.

Os dois olharam para Jondalar.

- O que é que eu consegui, meu irmão?

- Mal abriu os olhos e já conseguiu que a mulher mais bonita do lugar fosse servi-lo.

O riso de Thonolan foi a visão mais linda que Jondalar já teve na vida.

- Você tem razão quando diz que é ela a mulher mais bonita do lugar Thonolan deu um olhar temo para Jetamio. - Mas o que você está fazendo no mundo dos espíritos? Veja lá, enquanto eu estiver com um pé nele, lembre-se de que ela é a minha donii pessoal. Guarde esses olhos azuis para você, Jondalar.

- Não se preocupe comigo, irmãozinho. Todas as vezes que ela olha para mim, a única coisa que faz é rir.

- Para mim, ela pode rir o quanto quiser - disse Thonolan, dando para a moça um sorriso que foi prontamente devolvido. - Você já imaginou acordardo sono da morte com um sorriso deste? - enquanto ele a fitava nos olhos, aquilo que parecera ternura transformara-se em adoração.

Jondalar olhava ora para um, ora para outro. “O que está acontecendo aqui? Thonolan mal acabou de acordar. Esses dois não podem ter trocado uma palavra um com o outro, mas juro que o meu irmão está apaixonado.” Ele olhou novamente para Jetamio, agora mais objetivamente.

Os cabelos dela tinham um tom indefinido, mais para o castanho-claro, e ela era menor e mais magra do que as mulheres por quem em geral Thonolan se sentia atraído. Poderia quase ser confundida com uma criança: Tinha o rosto em forma de coração, traços regulares e, na realidade, era uma moça de aparência um tanto comum. Bonita, mas não excepcionalmente. - -bem, enquanto não sorrisse.

Então sim. Por alguma inexplicável alquimia, por algum misterioso jogo de luzes e sombras, por alguma sutil transformação no conjunto, ela se tornava linda, bela da cabeça aos pés. Era tão completa a transformação que o próprio Jondalar a havia considerado como uma mulher bonita. Ela tinha apenas de sorrir para criar essa impressão, embora ele pressentisse que o riso não fosse nela muito freqüente. Ele lembrou-se que, no princípio, lhe dera a impressão de uma moça séria e tímida, no entanto, vendo-a lá, dificilmente se acreditaria nisso. Mostrava-se radiosa, vibrando de vida e Thonolan a contemplava com um sorriso idiota, totalmente embevecido.

“Bom, o meu irmão já esteve outras vezes apaixonado”, disse Jondalar para si mesmo. “Espero que ela não leve a coisa muito a sério quando chegar o momento de partirmos.”

Um dos cordões que mantinha fechado o buraco para a saída da fumaça no teto da barraca estava arrebentado. Jondalar olhava pela abertura, mas sem prestar atenção. Achava-se bem desperto, deitado em seu saco de dormir, perguntando-se o que o teria tirado tão de repente das profundezas de seu sono. Estava inteiramente imóvel, mas ouvindo e cheirando, tentando detectar qualquer coisa fora do comum que o tivesse alertado para um possível e iminente perigo. Passado algum tempo, escorregou para fora do saco de dormir e olhou com atenção pelo buraco da barraca, mas não viu nada de anormal.

Algumas pessoas se reuniam ao redor da fogueira do acampamento. Ele se aproximou, ainda sentindo-se inquieto e tenso. Alguma coisa o incomodava, mas ele não sabia o quê. Thonolan? Não. Este, entre os sábios cuidados do shamud e a dedicada atenção de Jetamio, estava cada vez melhor. Não, não era Thonolan a causa de sua inquietação... não propriamente.

- Olá - falou ele para Jetamio, quando ela levantou os olhos, sorrindo-lhe.

Ela já não o achava tão risível. A preocupação comum com Thonolan os unira e se transformava numa boa amizade, embora a comunicação se limitasse a uns tantos gestos básicos e a algumas palavras aprendidas por ele.

Ela lhe deu uma cuia contendo um líquido quente. Ele agradeceu com as palavras cujo sentido já sabia, e que expressavam a idéia de gratidão. Desejava encontrar uma forma de retribuir a ajuda e a gentileza daquela gente. Bebeu um pouco do líquido, franziu o rosto e depois tomou mais. Era um chá de ervas, não desagradável, mas diferente. Em geral, tomavam pela manhã um caldo com gosto de carne. O seu olfato lhe dizia que o caixote de madeira fumegando perto da fogueira continha raízes, cereais e nada de carne. Um simples olhar bastava para explicar o porquê da mudança na alimentação. Não havia carne, ninguém até então safra para caçar.

Ele tomou de uma só vez a beberagem, botou a cuia no chão e se apressou a voltar para a barraca. Durante aquele tempo em que estava à espera, ha via terminado as lanças de amieiro, inclusive apontando-as com cabeças de sílex. Depois de apanhá-las no fundo da barraca e de retirar de dentro de seu baú diversas lanças de arremesso, voltou para a fogueira. Embora não falasse, não era difícil dar a entender que estava pretendendo caçar e, antes que o sol estivesse pouco mais alto no céu, um animado grupo de caçadores já se havia formado.

Jetamio se sentia dividida. Queria ficar com o rapaz de olhos sorridentes que lhe dava vontade de sorrir todas as vezes em que ele olhava para ela e, ao mesmo tempo, gostaria de participar dá caçada. Podendo, nunca perdia uma caçada, pelo menos desde que se sentiu apta a caçar. Roshario a incentivava.

- Vá, Tamio, ele está bem. Ë só por pouco tempo. O shamud dá conta de cuidar do rapaz sozinho. E depois, eu estou aqui.

O grupo já havia partido, quando Jetamio surgiu, correndo sem fôlego, ainda amarrando o capuz. Jondalar ficara curioso por saber se ela caçava. As mulheres Zelandonii freqüentemente o faziam. Era uma questão que ficava a critério da mulher ou que se fazia segundo o costume da Caverna. Em geral, depois que tinha filhos, ela ficava mais em casa, exceto nas caçadas de rodeio. Nesse caso, elas e todos que se achavam em boas condições físicas eram chamados a participar da battue, a tática usada para tocar os animais na direção das armadilhas ou levá-los às beiradas de precipícios.

Jondalar gostava de mulheres caçadoras, aliás como a maioria dos homens de sua Caverna. Ele, no entanto, sabia que este não era um gosto universalmente compartilhado. Diziam que as mulheres caçadoras davam melhores companheiras por haver aprendido a dar valor às coisas difíceis. A sua mãe fora caçadora falada, principalmente pelas suas proezas como rastreadora, e mesmo depois de ter tido filhos, freqüentemente participava de caçadas.

Eles esperaram Jetamio alcançá-los e, em seguida, se puseram a caminhar em passadas largas. Jondalar tinha a impressão de que a temperatura caíra, mas no passo em que iam não dava para ter muita certeza. Só sentiu real mente quando pararam ao lado de um riacho que serpenteava pela planície relvosa, em busca das águas da Mãe. Ao encher o odre, ele notou a camada grossa de gelo que se formara na beirada do córrego. A película ao redor do rosto limitava-lhe a visão dos lados e ele puxou o capuz para a nuca, mas dentro de pouco tempo não era o único a puxar de volta o capuz para cima da cabeça. O vento penetrava, entrando pela pele.

Alguém deu com o rastro de um animal, no sentido de montante, e to dos se reuniram ao redor das marcas, enquanto Jondalar as examinava. Uma família de rinocerontes também havia parado ali para tomar o seu gole de água há pouco tempo. Com um pau, Jondalar desenhou na areia molhada da margem um plano de ataque. Ele notou que os cristais de gelo começavam a empedrar no solo. Dolando, desenhando também com um pau, fez-lhe uma pergunta que Jondalar respondeu colocando alguns rabiscos a mais em seu desenho. Uma vez entendidos, todos se mostraram ansiosos para se porem novamente a caminho.

Com andar vivo e bem ritmado, começaram a seguir a trilha do animal. Logo as passadas rápidas os aqueceram e os capuzes outra vez foram afasta dos. Os longos cabelos louros de Jondalar estalavam com a ventania e se agarraram à pelúcia de seu capuz. Estava custando muito mais do que ele imaginava para alcançar os bichos. Quando, por fim, avistaram as enormes massas de lã cor de acaju, ele entendeu por que. Os animais se deslocavam muito mais rapidamente do que o normal, indo direto para o norte.

Jondalar, preocupado, olhou para cima, O céu era como uma imensa taça azul emborcada por cima de suas cabeças, apenas com algumas nuvens espaçadas ao longe - Nada levava a crer que uma tempestade armava-se. Ele, no entanto, estava pronto para voltar, pegar Thonolan e partir. Só que ninguém parecia com disposição de ir embora, principalmente depois da visão dos rinocerontes. Jondalar se perguntava se faria parte do acervo de conhecimentos daquela gente e previsão de nevascas a partir da emigração para o norte dos animais lanudos. Talvez fizesse, mas duvidava.

A idéia de caçar fora sua e seria difícil para ele dizer que agora estava desejando voltar para junto de Thonolan e deixá-lo a salvo. Como explicar, sem saber a língua, que uma tempestade estava a caminho, quando o céu se encontrava praticamente limpo de nuvens? Abanou a cabeça desistindo. Teriam, primeiro, que matar um rinoceronte.

Quando se aproximaram mais, Jondalar correu à frente, querendo ultrapassar um rinoceronte que ia atrás desgarrado, tini animal ainda jovem, não de todo adulto, com dificuldade de seguir junto com os outros. Ao saltar na frente do bicho, Jondalar gritou, agitando os braços, tentando atrair a sua atenção, de modo a desviá-lo do caminho, ou pelo menos atrasar-lhe a marcha. Mas o animal o ignorou, prosseguindo em frente, rumo ao norte, com a mesma firme obstinação que os seus companheiros. Parecia que iam ter problemas se quisessem desviar um daqueles bichos. Ele estava preocupado. A tempestade se aproximava mais rápido do que tinha imaginado.

Surpreso, viu com o rabo dos olhos que Jetamio o alcançara. O seu andar manco tornara-se mais visível, mais ela se locomovia com presteza. Inconscientemente, Jondalar balançou a cabeça num gesto de aprovação. O resto do grupo também se aproximava do campo de batalha, procurando cercar um só animal e pôr os outros para correr. Mas rinocerontes não são como certos animais de pastagem que andam aos bandos, gregários, fáceis de serem conduzidos ou espantados, cuja segurança e sobrevivência dependem do tamanho da manada. Os rinocerontes são animais independentes, rabugentos, quase nunca compondo um grupo maior do que o da família, e perigosamente imprevisível. Com eles, o caçador inteligente sabe que tem de ser precavido.

Por consentimento tácito, os caçadores se concentraram no animal jovem vindo atrás. Mas nem as suas corridas, nem os gritos o faziam alterar o ritmo da marcha rumo ao norte. Jetamio, por fim, conseguiu atrair-lhe a atenção, tirando o capuz e agitando-o no ar. O bicho então diminuiu as suas passa das e virou a cabeça na direção dela, parecendo realmente indeciso.

Isso deu ensejo para que os caçadores o alcançassem. Aqueles com lanças mais pesadas seguiam o animal mais de perto e os outros, com dardos leves, formavam um círculo por fora, prontos para partir, se necessário, em defesa da linha de frente. O rinoceronte parou, parecendo não se dar conta de que os seus companheiros rapidamente se distanciavam. Pôs-se a caminho, sem muita pressa, na direção do capuz balançando-se ao vento. Jondalar veio para mais perto de Jetamio e reparou que Dolando fazia o mesmo.

Um rapaz que Jondalar reconheceu como um daqueles que amarraram o barco, acenando também o capuz, passou-lhe à frente, O rinoceronte, confuso, interrompeu a corrida desembestada que fazia na direção de Jetamio e deu uma guinada para partir para cima do homem. Aquele era um alvo maior, fácil de ser seguido, mesmo com uma visão limitada como a sua. A presença de tantos caçadores o desnorteava, atrapalhando o seu excelente faro. No mo mento em que ele estava para chegar perto, uma outra figura em movimento saltou à sua frente, O bicho novamente empacou, tentando resolver qual dos dois alvos se mexendo iria seguir.

Ele mudou de direção, investindo contra o segundo, tão tentadoramente perto. Mas então outro caçador entrou em cena agitando uma enorme capa de pele, e quando ele ia aproximando-se mais um outro passou correndo, tão junto que chegou a dar um puxão na lã avermelhada de sua cara. O rinoceronte, cada vez mais confuso, mostrava-se enfurecido, com uma raiva assassina. Bufava, dava patadas no chão, e ao ver mais uma daquelas desconcertantes figuras movediças, lançou-se a toda velocidade contra ela.

Era o rapaz que pertencia à população ribeirinha e estava tendo dificuldade em não se deixar apanhar pelo animal. Quando ele virou de direção, o rinoceronte também virou, saindo velozmente em sua perseguição. Mas o bicho começava a dar sinais de cansaço. Vinha correndo de lá para cá, atrás de uma, atrás de outra daquelas irritantes figuras que lhe passavam pela frente, nunca conseguindo apanhá-las. Por fim, quando mais um caçador agitando o capuz atravessou-lhe a frente, ele parou, de cabeça baixa, com o imenso chifre dianteiro quase arrastando no chão. A atenção estava voltada para o vulto que se movia capengando, pouca coisa fora de seu alcance.

Jondalar correu com a lança empunhada para o alto. Era preciso matar o rinoceronte antes que ele recobrasse o fôlego. Dolando aproximou-se também com o mesmo propósito, enquanto os outros fechavam o cerco. Jetamio balançava o capuz, chegando cautelosa para perto do animal, tentando manter presa a sua atenção. Jondalar esperava que a aparência de cansaço do bicho fosse verdadeira.

Todos tinham o pensamento concentrado em Jetamio e no rinoceronte.

Jondalar - sem saber por que - olhou para o norte, talvez percebendo com o canto dos olhos a sombra de um movimento nessa direção.

- Cuidado! - gritou, correndo em frente. - Olhem para lá - dizia apontando para o norte. - Um outro rinoceronte!

O seu comportamento, no entanto, parecia inteiramente fora de propósito. Ninguém entendia o que ele dizia e nem via a fúria com que o outro rinoceronte vinha, correndo diretamente para cima deles.

- Jetamio, Jetamio! Olhe para o norte! -. gritou novamente, agitando o braço e apontando com a lança.

Ela olhou na direção em que Jondalar apontava, dando um grito de aviso para o rapaz que parecia ser o alvo da fêmea. Esquecendo por momento o rinoceronte que caçavam, todos correram em socorro do outro. De repente, o filhote de rinoceronte, talvez por já estar descansado, ou então por se sentir encorajado pelo cheiro da fêmea de sua espécie, arremessou-se contra a pessoa que lhe acenava com um capuz, provocando-o tão de perto.

A sorte de Jetamio foi justamente estar tifo perto. Com isso, o animal não teve tempo de ganhar velocidade. O seu bufado no momento em que ele partiu para o ataque trouxe de volta a atenção dela e a de Jondalar. Jetamio lançou-se para trás, conseguindo desviar-se da chifrada e passou a correr atrás do bicho.

O rinoceronte diminuiu a carreira, procurando pelo alvo que lhe escapara e sem focalizar os olhos no vulto do homem alto que, com grandes passadas, se aproximava dele. Então, foi tarde demais, O pequenino olho já não pôde focalizar mais nada. Jondalar cravara a sua pesada lança na vulnerável abertura, enfiando-a até o cérebro. No instante seguinte, a visão acabou de sumir completamente com a lança de Jetamio enterrada no outro olho. O animal pareceu surpreso, depois cambaleou e caiu sobre os joelhos. Quando a vida deixou de sustentá-lo, tombou.

Ouviu-se um grito e dois dos caçadores levantaram os olhos, correndo, em diferentes direções. A fêmea vinha disparada para pegá-los, mas diminuiu a corrida ao passar perto do filhote caído. Ainda deu mais uns passos adiante, depois veio para junto do animal tombado na terra com uma lança espetada em cada olho. Ela cutucou.o com o chifre, incentivando-o a levantar-se. Virou, então, de um lado para outro, pôs o peso do corpo sobre as patas da direita, depois sobre as da esquerda, parecendo querer tomar uma resolução.

Alguns dos caçadores tentavam despertar-lhe a atenção, balançando à sua frente os seus capuzes e capas, mas ela não os via, ou talvez preferisse ignorá-los. Cutucou de novo o filhote caído, mas então, atendendo a algum instinto superior, virou-se novamente na direção do norte.

- Pode acreditar, Thonolan. Foi por pouco. Felizmente aquela fêmea estava mesmo decidida a ir para o norte... ela não tinha a menor intenção de ficar para trás.

- Você acha que a neve está para chegar? - perguntou Thonolan, olhando para o seu curativo e depois para a expressão preocupada de seu irmão.

Jondalar balançou a cabeça afirmativamente.

- O problema é que não sei como dizer a Dolando que devemos sair daqui por causa de uma tempestade que não se vê nem sombra no céu. E mesmo que soubesse falar, não sei se eles iriam compreender.

- Há dias que venho sentindo cheiro de neve. A tempestade que se está formando é das grandes.

Jondalar sentia que a temperatura continuava a cair e teve certeza disso na manhã seguinte quando partiu uma película de gelo formada em cima do chá que ficara esquecido numa cuia perto da fogueira. Outra vez, ele tentou expressar a sua preocupação, aparentemente sem êxito e, nervoso, ficava vigiando o céu à procura de indícios mais precisos sobre a mudança do tempo. Se não fosse pelo perigo iminente, teria até ficado feliz se visse nuvens pesadas despejar a sua carga de gelo sobre as montanhas.

Ao primeiro sinal de que estavam levantando acampamento, ele desarmou a barraca e arrumou os dois baús, o dele e o de Thonolan. Dolando, ao ver-lhe a presteza, sorriu, fazendo um gesto de aprovação. Em seguida, apontou para a margem do rio. O sorriso, no entanto, era nervoso e o olhar de preocupação. Jondalar ficou ainda mais apreensivo ao ver as águas se revolvendo em redemoinhos e a barcaça sacudindo-se com os trancos e esticando as cordas.

Alguns homens vieram pegar os baús, que foram acomodados perto da carcaça do rinoceronte, congelada e cortada em pedaços. As suas expressões mostravam-se mais tranqüilas, mas Jondalar não as achou também encorajadoras. Entretanto, por mais ansioso que estivesse para partir, não se sentia nem um pouco confiante no meio de transporte que iam usar. Ele não tinha idéia de como fariam para colocar Thonolan dentro do barco. Voltou, então. Talvez pudesse ser útil em alguma coisa.

Sabendo que em certas ocasiões a melhor ajuda que se pode dar é simplesmente não atravancar o trabalho dos outros, ele ficou apenas observando, enquanto o acampamento era desarmado com rapidez e eficiência. Agora começava a reparar em certos detalhes no vestuário que diferenciavam aqueles que armaram as barracas em terra, que se referiam a si mesmos como shamudoi, dos outros - os ramudoi - que tinham permanecido no barco. No entanto, não pareciam formar duas tribos diferentes.

Havia intimidade, muita brincadeira entre os homens, nada daquelas cortesias cerimoniosas que expressam tensões latentes quando diferentes povos se encontram. Pareciam falar a mesma língua, faziam as refeições em comum e trabalhavam em conjunto. Reparou ainda que, em terra, o encarrega do parecia ser Dolando, enquanto no barco os homens se voltavam para um outro, quando desejavam obter instruções.

O curandeiro saiu da barraca seguido de dois homens carregando Thonolan numa engenhosa padiola. Dois troncos saídos do bosque de amieiros sustentavam uma rede feita com cordas trazidas da barcaça à qual Thonolan estava firmemente atado. Jondalar correu para eles, reparando que Roshario começara a desarmar a tenda circular. Os olhares dela para o céu e na direção do rio convenceram Jondalar que estava tão temerosa da viagem quanto ele.

- Aquelas nuvens parecem carregadas de neve - falou Thonolan, quando o seu irmão se pôs a andar junto dele, ao lado da padiola. - Não dá para ver nem os cumes das montanhas. Um pouco mais para o norte já deve estar nevando. Pode crer. Nessa minha nova posição se tem outra visão do mundo.

Jondalar olhou para as nuvens que se revolviam sobre as montanhas, escondendo os picos gelados e embolando-se umas sobre as outras na pressa de preencher todo o espaço azul. A expressão carregada de Jondalar e o seu cenho franzido, cheio de preocupação, eram tão ameaçadores quanto o céu, mas ele procurava disfarçar o medo.

- É a sua desculpa para ir deitado? - falou, tentando esboçar um sorriso.

Ao chegarem ao tronco que se projetava para dentro do rio, Jondalar se afastou e ficou observando dois barqueiros equilibrando-se com as suas cargas por cima da tora balançando e depois subindo, com a maca levantada para o alto, a escadinha parecendo ainda mais precária. Compreendeu, então, por que Thonolan fora tão bem amarrado. Ele seguiu atrás, com certa dificuldade para equilibrar-se e olhou cheio de admiração para os homens da barcaça.

Alguns flocos brancos já começavam a cair quando Roshario e o shamud entregaram a dois ramudoi os couros e os paus da tenda embrulhada como uma trouxa e, em seguida, eles próprios atravessaram o tronco. O mesmo espírito do céu refletia-se no rio: turvo, revolvendo-se em ondas violentas, com a umidade acumulada nas montanhas cada vez mais se fazendo sentir nos terrenos ribeirinhos.

A tora balançava-se com movimentos diferentes ao do barco. Jondalar inclinou-se sobre a amurada e estendeu a mão para Roshario, que a aceitou com olhar agradecido. Por um triz ela não despencava do último degrau da prancha e caía dentro da água. O shamud tampouco teve escrúpulos de aceitar a ajuda e também deu um olhar de agradecimento a Jondalar, tão sincero quanto o de Roshario.

Um homem ainda se achava na margem. Ele soltou a amarra, correu pelo tronco e subiu a bordo. A escadinha foi em seguida rapidamente recolhida. A barcaça ainda ancorada tentava desprender-se para seguir junto com as correntezas. Estava contida apenas por uma corda e os remos de cabos compridos empunhados pelos homens. Com um puxão brusco, a corda foi solta e a embarcação depois de um sacolejo forte buscou a sua liberdade. Jondalar se agarrava firme à amurada, enquanto ela aos trancos ganhava a correnteza principal da Irmã.

A tempestade rapidamente avolumava-se e os flocos redemoinhando em volta diminuíam a visibilidade. Restos e objetos variados viajavam com eles, flutuando em diferentes velocidades: pesadas toras encharcadas, ramagens enredadas umas às outras, cadáveres inchados de água e, de vez em quando, algum pequeno monte de gelo que fazia Jondalar pensar numa possível colisão. Ele observava a margem deslizando diante de seus olhos, quando a sua atenção foi atraída para o grupo de amieiros no alto do morro. Alguma coisa, amarrada a uma das árvores, balançava-se com o vento. Uma rajada súbita desprendeu-a e a carregou na direção do rio. Enquanto voava, ele reparou no couro duro, cheio de manchas escuras. Era a sua túnica de verão. Teria ficado todo esse tempo balançando-se no alto da árvore? A túnica ainda flutuou por algum tempo até que ficou completamente encharcada e afundou.

Thonolan fora desamarrado da padiola e apoiado contra a amurada do barco. Estava pálido, sofrendo e com medo, mas sorrindo valentemente para Jetamio, ao seu lado. Jondalar com a expressão carregada, recordando-se de seu medo e pânico, veio acomodar-se perto dos dois. Depois, lembrou-se de sua enorme alegria quando pela primeira vez avistou o barco. “Como teriam sabido que ele se achava lá?”, perguntou-se novamente. De repente ocorreu-lhe uma idéia. “Teria sido a túnica voando ao vento que lhes indicou a sua posição? Mas como sabiam que tinham de vir? E sobretudo de vir com o shamud?”

A violência das correntezas sacudia a barcaça de um lado para outro. Jondalar, intrigado com a sua solidez, pôs-se a examinar a construção. O fundo do barco era uma peça sólida, mais larga na parte central e feita do tronco inteiro de uma árvore. O seu tamanho aumentava com fileiras de tábuas imbricadas e amarradas umas às outras, que alargavam o fundo e subiam formando os lados juntados na proa. Ao longo das amuradas, em espaços regulares, foram colocados suportes para as tábuas que serviam de assentos aos remadores. Três deles achavam-se na frente, no primeiro banco.

O olhar de Jondalar, enquanto acompanhava a estrutura do barco, passou sem ver por um tronco que se chocara contra a proa. Ele então voltou a olhar, sentindo o coração bater forte. Próximo à frente do barco, em meio ao emaranhado dos galhos saídos do tronco, estava a sua túnica de couro com manchas escuras de sangue.

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