Orações Perigosas
2.3 Status quo
CAPÍTULO 2 . 3
Status quo
QUANDO PENSO EM ORAR “Senhor, quebrantame”, vem-me à cabeça a experiência que Amy e eu tivemos certa vez no nosso pequeno grupo. Na noite gelada de uma quarta-feira do mês de janeiro, enquanto se armava uma tempestade, acomodamo-nos em uma sala quente e aconchegante na companhia de outros sete ou oito casais para conversarmos exatamente sobre essa oração perigosa. Impressionou-me o contraste, se não a ironia, do tema que nos levara até ali para o encontro. Do lado de fora devia estar perto de 9 graus negativos, com sensação térmica ainda mais baixa. Apesar do tempo feio, ocupávamos uma sala de estar confortável, sentados em sofás de couro, tendo uma lareira a arder no canto. Com os estômagos cheios de chili e pão de milho, voltamo-nos então para o que significaria fazer uma oração perigosa.
Concordamos que todos desejávamos fazer a oração — e falávamos sério — mas não podíamos negar que temíamos as consequências. A primeira mulher a se pronunciar também levava a sério a possibilidade de orar assim, mas reconhecia a própria luta. Esposa amorosa e mãe de quatro filhos, seguia Jesus fielmente desde o segundo ano do ensino médio. Servia no ministério infantil na igreja, dizimava todo mês, abria a casa para crianças necessitadas de um lar temporário, frequentava o estudo bíblico semanal e costumava ser voluntária para orar em voz alta nos grupos.
No entanto, quando confrontada com a opção de pedir para Deus quebrantá-la, recusou-se.
— Sinto muito, mas sinto que devo ser sincera — disse ela.
— Não quero pedir para Deus me quebrantar. Tenho medo do que acontecerá. Sou mãe de quatro crianças. Amo-as demais. Pedir a Deus que me quebrante é uma oração assustadora demais para eu fazer algum dia. E se eu ficar doente, ou deprimida, ou ter de me afastar da minha família?
A maioria das demais pessoas presentes balançou a cabeça em concordância. Uma a uma, todas explicaram por que hesitavam, tinham medo e relutavam em fazer essa oração perigosa. De modo que continuamos a discutir o assunto, cada um se identificando e justificando por que não considerava tão simples fazer uma oração perigosa. Todos nós cristãos, recostados confortavelmente perto do fogo, tomando café quente com canções tocando baixinho no fundo.
No fim do encontro, embora ninguém
tivesse orado expressamente em voz O que perdemos ao nos
apegarmos ao nosso
alta, o clamor do nosso coração parecia conforto? claro: “Conserve-nos em nosso conforto, Deus. Mantenha-nos aquecidos e aconchegados. Não nos quebrante — seria doloroso demais. Por favor, faça apenas com que as coisas continuem seguindo em frente com tranquilidade”.
Contudo, a pergunta que fiz naquela ocasião permanece válida para todos nós hoje: o que perdemos ao nos apegarmos ao nosso conforto?
O que perdemos por estarmos tão comprometidos com evitar a dor e o desconforto?
Seria possível haver alguma coisa do outro lado do sofrimento que o faça valer a pena de algum modo?
O quebrantamento poderia ser tão necessário para o nosso crescimento quanto quebrar a casca que o envolve é para o filhote do passarinho? Ou sair do casulo é para a borboleta?
Ser quebrantado poderia nos libertar para mais do que somos capazes de imaginar?