Orações Perigosas
2.5 Partindo o pão.
CAPÍTULO 2 . 5
Partindo o pão
DO FRASCO DE PERFUME em pedaços, Marcos desvia nossa atenção para outra cena em que o próprio Jesus fragmenta alguma coisa. Não um frasco, mas sim o pão à mesa por ele partilhada com seus discípulos. Tampouco foi durante uma refeição qualquer, mas naquela que ficou conhecida como a última ceia, o derradeiro encontro de Jesus, antes de sua morte, com todos os amigos mais chegados e de confiança. Nessa refeição íntima, Jesus lhes ofereceu pão e vinho, utilizando o trigo e a uva como apoios visuais para anunciar os próprios sofrimento e morte iminentes.
Em seguida, convidou os discípulos a celebrarem a mesma refeição simbólica em memória dele nos anos vindouros: “Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, deu graças, partiu-o, e o deu aos discípulos, dizendo: ‘Tomem; isto é o meu corpo’. Em seguida tomou o cálice, deu graças, ofereceu-o aos discípulos, e todos beberam. E disse-lhes: ‘Isto é o meu sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos’” (Marcos 14.22-24).
Observe o que exatamente Jesus estava fazendo. Ele partiu o pão e explicou que o gesto de partir simbolizava o que lhe aconteceria. Seu corpo seria partido, ferido e esmagado. Suas costas carregariam as listras do açoite brutal de chicotes. Seu rosto seria ensanguentado por punhos, e sua cabeça, perfurada por uma coroa de espinhos. Suas mãos e pés seriam pregados a vigas de madeira.
Ele penderia da cruz enquanto a multidão lhe cuspia. Zombava dele. Maldizia-o. Jesus seria rodeado por dois ladrões condenados — embora ele próprio nada tivesse feito de errado. Lutaria para respirar. Bradaria com Deus de tanta dor. Perdoaria os que o penduraram ali. E entregaria sua vida por nós.
Como o pão que ele serviu à mesa, o corpo de Jesus seria partido. Então, depois de compartilhar do pão com os discípulos, ele ergueria um cálice de vinho. Lenta, deliberada e afetuosamente, ex-plicaria que o vinho representava seu sangue. Em breve derramaria seu sangue para cobrir os pecados de homens culpados. Ele era o Cordeiro de Deus. O Cordeiro sacrificial seria imolado.
Olhando nos olhos daqueles que
“Ninguém tem maior amor escolhera, Jesus sabia que Pedro o
do que aquele que dá a
sua vida pelos seus negaria e que Judas o trairia. No entanto,
amigos (João 15.13). continuou a amá-los e explicou que
precisava oferecer-lhes a vida (v. Marcos
14.12-31). Como já lhes ensinara: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos (João 15.13).
Seu corpo seria partido e seu sangue derramado.
O Evangelho de Lucas descreve a mesma refeição, mas observa algo não mencionado por Marcos. Diz Lucas: “Tomando o pão, [Jesus] deu graças, partiu-o e o deu aos discípulos dizendo: ‘Isto é o meu corpo dado em favor de vocês; façam isto em memória de mim’” (Lucas 22.19).
Quase todos os estudiosos da Bíblia concordam que o ensino de Jesus, “façam isto”, proporciona aos discípulos um modo de recordar, honrar e celebrar sua morte e ressurreição. Em consequência disso, há séculos os seguidores de Cristo se reúnem e participam do ato de partir o pão e oferecer vinho, compartilhando de ambos em um ato de adoração. Conhecido como santa ceia, ceia do Senhor ou eucaristia, esse partilhar do pão e do vinho nos ajuda a recordar o sacrifício extraordinário, o preço pago por Jesus, a fim de que pudéssemos ser perdoados e estar em eterna comunhão com o Pai.
No entanto, há estudiosos que acreditam — e concordo com eles — que a instrução de Jesus “façam isto” abrangia mais que um ato simples e breve, um ritual envolvendo pão e vinho. Alguns creem que Jesus “fez isto” referindo-se à maneira pela qual devemos viver. Não recordamos de Jesus apenas durante a ceia na igreja; lembramo-nos dele no nosso estilo de vida diária. Porque o corpo de Cristo foi partido, porque seu sangue foi derramado em nosso favor, também deveríamos viver por ele dia após dia, partidos e derramados.
A princípio, isso pode soar pouco atraente. Quem quer ser “partido” e “derramado”? Na melhor das hipóteses, parece doloroso e, na pior, terrível. Mas é na entrega da vida que encontramos real alegria. Em vez de buscar a satisfação da nossa vontade, rendemo-nos à vontade dele. Em vez de tentarmos alcançar a plenitude de tudo que desejamos, esvaziamos nossa vida de modo a fazermos alguma diferença na vida das pessoas.
Jerome e Shanna, amigos nossos,
acolheram tantas crianças necessitadas Quem quer ser “partido” e
“derramado”? Na melhor
que nem sei muito bem se eles mesmos das hipóteses, parece conseguiriam dizer quantas crianças em doloroso e, na pior, terrível.
Mas é na entrega da vida
que encontramos real
alegria.
sofrimento já ajudaram. No processo, passaram inúmeras noites chorando.
Padeceram em razão de desapontamentos.
E têm se doado a ponto de doer. Em sua entrega altruísta, contudo, têm encontrado alegria. Quando lhes perguntei se fariam alguma coisa diferente, sem hesitar responderam em uníssono: — De jeito nenhum. Temos recebido tanto. Agora é nossa vez de retribuir.
Jerome e Shanna conhecem por experiência própria a bênção de se viver partido e derramado.
É difícil imaginar o que os discípulos devem ter pensado e sentido naquele momento, reunidos em torno da mesa na companhia do Filho de Deus. Não queriam que ele morresse. O mais provável é que nem acreditassem nessa possibilidade. Por isso me pergunto se lembranças de tudo que Jesus dissera antes lhes inundaram a mente. “Oh... uau... agora faz sentido! Jesus nos disse que, se quiséssemos ser seus discípulos, devíamos negar a nós mesmos, tomarmos a cruz e segui-lo” (v. Mateus 16.24).
Devemos ainda morrer para nós mesmos, de modo a podermos viver para ele. Partidos e derramados.
Então pode ser que os discípulos
“Pois quem quiser salvar a tenham se lembrado do que Jesus disse
sua vida a perderá, mas
quem perder a sua vida depois de convidá-los a tomar a própria
encontrará” (Mateus por minha causa a cruz. Fora tão enigmático na época. Não
16.25). fizera sentido no contexto em que apenas
caminhavam juntos, conversando com Jesus. Agora, à luz dos acontecimentos recentes, tudo se tornara mais inteligível. Jesus dissera: “Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá, mas quem perder a sua vida por minha causa a encontrará” (Mateus 16.25). Ele não nos convida para uma vida de conforto e sossego, mas de entrega e sacrifício. Nosso maior desejo não deveria ser no sentido de que nossa vontade seja feita, mas a vontade do Senhor. Ele nos convida a morrermos para nossa vida, de modo a que possamos viver minuto a minuto, dia a dia — por Jesus. A deixarmos para trás nossa sala de estar aconchegante e as orações seguras para sabermos o que significa ser partido por causa das outras pessoas.
E se, ao orientar “façam isto”, Jesus não se referisse apenas a um ritual que executamos de vez em quando na igreja? E se ele também nos chamasse para sermos partidos e derramados todos os dias? E se nos convidasse para uma vida de humildade, sacrifício, generosidade e alegria? E se, em vez de orar “Deus, cuida de mim, proteja-me e me abençoe” nós o convidássemos para realizar algo mais profundo na nossa vida?
E se reconhecêssemos que fardos, com a ajuda de Deus, podem se converter em bênçãos? E se aceitássemos a verdade de que os problemas podem nos tornar mais fortes? Que as provações são capazes de fortalecer-nos a fé? Que o sofrimento pode nos deixar mais compassivos para com o suplício alheio? Que a dor pode nos levar mais para perto de Cristo?
E se tivéssemos a coragem, a audácia, a fé de orar: “Deus, quebranta-me?”. E se também levássemos uma vida partida e derramada por Cristo?