Orações Perigosas

Craig Groeschel · Capítulo 2 de 31

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Orações Perigosas

Introdução

I N T R O D U Ç Ã O

Por que suas orações precisam ser perigosas

— EI, CRAIG, VOCÊ ACREDITA que Deus ainda ressuscita os mortos?

— Claro — respondi. — Você não?

— Tenho certeza disso porque morro de tédio toda vez que ouço você orar.

Tentei acompanhá-lo na risada, mas a piada do meu amigo machucou — sobretudo pelo fato de ele ter razão. Eu estava começando a trabalhar no ministério e acabávamos de participar de uma reunião de oração. Esse meu parceiro me conhecia bem o suficiente para fazer esse tipo de provocação, mas desconfio que também quisesse me dar um recado. Sem saber como reagir, não apresentei defesa alguma enquanto processava a verdade contida no comentário. Não podia negar que ele dera voz a um segredo de que eu já tinha consciência, só não queria admitir que minhas orações eram assim patéticas.

Na condição de jovem pastor na época, eu tinha de saber tudo sobre oração. Tal como pregar e cumprimentar as pessoas depois do culto, o tema da oração era uma atribuição do cargo que eu precisava dominar. Acontece que as orações longas, eloquentes e vigorosas, com um foco bem definido e dirigidas ao Deus que eu não conseguia ver sempre representaram um desafio para mim. Não me sentia à vontade orando no dialeto da Revista e Corrigida — com seus tu és e vós sois — como se tentasse encenar uma peça de Shakespeare. Tampouco me satisfazia ficar divagando em tom indolente com o Criador e sustentador do Universo como se ele fosse “meu camarada”.

Quando de fato eu orava, tinha dificuldade para me concentrar por muito tempo. O que implicava em me esforçar dobrado da vez seguinte. Contudo, por mais que me empenhasse nas minhas tentativas, sempre parecia resvalar para a mesma e velha rotina.

Orava sobre as mesmas coisas. Do mesmo jeito. Mais ou menos pelo mesmo período.

Olhando para trás, hoje me pergunto se às vezes Deus ficou entediado com minhas orações. Quando pedia “Senhor, derrama sobre nós tua misericórdia e guarda-nos em segurança” imaginava-o respondendo: “Com o que você está preocupado? Respeite o limite de velocidade e use o cinto de segurança ao dirigir. Vai dar tudo certo”. Ou quando eu orava “Senhor, abençoa nossa comida” sabia que provavelmente ele pensava: É sério isso? Quer que eu abençoe macarrão com queijo de caixinha e um punhado de batatas fritas?

Estudando mais a Bíblia, maravilhei-me com a variedade de orações proferidas pelo povo de Deus. Não só eles oravam por coisas incrivelmente pessoais — para ter filhos, por exemplo (v. 1Samuel 1.27) — como suas orações costumavam ser muito práticas, por comida e provisão (v. Mateus 6.11) e também para serem salvos dos inimigos (v. Salmos 59.1,2). Às vezes, pareciam falar baixinho com um Deus amoroso. Outras vezes, gritavam com ele em agonia e frustração.

Costumavam suplicar a Deus cheios de franqueza. Depois clamavam das profundezas de sua angústia e se queixavam com Deus como um bebê cansado a se debater nos braços do pai ou da mãe. Oravam por ousadia para compartilhar a fé. Oravam para que muros internos e externos caíssem. Daniel orou a fim de que a boca de leões esfomeados fosse fechada, e Jonas para que o ventre de uma baleia esfomeada se abrisse. Gideão pediu que sua porção de lã ficasse molhada um dia e seca no outro. O povo de Deus orava caso se sentisse atarantado de alegria ou esmagado pelo sofrimento.

As orações deles eram sinceras. Desesperadas. Inflamadas. Intrépidas. Reais.

E lá estava eu orando para que Deus me conservasse em segurança e abençoasse meu hambúrguer com fritas.

Tinha razão o meu amigo.

Minhas orações eram de morrer de tédio.

Talvez você se identifique comigo. Não que você descreia da oração. Você acredita nela. Mas está preso a uma rotina. Ora pelas mesmas dificuldades e faz os mesmos pedidos. Sempre do mesmo jeito. Durante o mesmo intervalo de tempo. Isso quando tenta orar. Como eu, é provável que tenha consciência de que deveria orar mais. E com mais paixão. Mais fé. Quer falar com Deus e ouvi-lo, compartilhar de uma conversa íntima como faria com seu cônjuge ou melhor amigo. Deseja muito isso, mas não sabe muito bem como. De modo que suas orações se mantêm seguras.

Rasas. Sem graça. Previsíveis. Rançosas.

Chatas.

O alerta do meu amigo me convenceu de que chegara a hora de mudar minha vida de oração. Por tempo demais, tolerei orações sem brilho, desprovidas de fé e vazias na maior parte. Sabia que Deus pre-tendia mais para mim, e eu queria conhecê-lo em maior intimidade, embora hesitasse diante do que isso exigiria da minha parte.

Para chegar lá, comecei a abrir parte da minha bagagem espiritual. Durante anos, experimentara profunda vergonha por uma vida de oração pouco convincente — eu, um pastor. Se já lhe aconteceu de se sentir inseguro quanto à sua vida de oração, imagine como seria se você fosse pastor. O pressuposto é que eu seja um guerreiro de oração — cheio de fé ardente, implacável e de um poder desmedido, direcionado pelo Espírito. No entanto, descobria-me à deriva quando tentava orar.

No meio de uma oração, fosse ela silenciosa fosse em voz alta, minha mente começava a saltitar de um assunto para outro. Querido Deus celestial, oro para que o Senhor cure minha amiga que está com câncer. Opere na vida dela agora, em nome de... Preciso muito visitá-la no hospital outra vez. Ah não, esqueci de mandar trocar o óleo do carro!

E o cereal de casa acabou. As crianças vão me matar. Amy tem uma consulta médica marcada para hoje — será que pagamos a parcela deste mês do plano de saúde? Incrível como subiu este ano! Ah, sim, o sermão da semana... Ainda preciso encontrar uma ilustração impactante... Oh, sinto muito, Senhor, do que estávamos falando mesmo?

Para piorar ainda mais as coisas, sempre tive pavor de reuniões de oração. (Isso sim que é sentimento de culpa.) Parecem durar uma eternidade em companhia de pessoas que não só sabem orar como também amam fazê-lo. Sem falar que quando a gente é obrigado a dar as mãos para os outros na hora de orar, a situação se torna constrangedora no mesmo instante. De um lado está sempre o Torniquete. Quanto mais alto ele ora, mais aperta. “Deus, amarramos a obra do demônio, EM NOME DE Jesus!”. Ele aperta.

E aperta. E aperta. Os nós dos seus dedos vão ficando brancos à medida que você para de sentir o braço do cotovelo para baixo. Do outro lado, no entanto, costuma ficar o Peixe com sua mão fria, sem vida, quase a lhe escapar dos dedos. O Torniquete interrompe sua circulação enquanto o Peixe o deixa ansioso por dar um safanão e se livrar logo daquele apêndice pegajoso disfarçado de mão.

Ou, então, a especialista em oração de poder sempre se faz presente. É aquela pessoa que adora orar bem alto e cheia de si. Você sabe quem é, aquela que cita toneladas de versículos bíblicos e o faz se sentir ainda mais incompetente. “Deus, o Senhor disse em sua Palavra, lá em Deuteronômio 28, que seríamos cabeça e não cauda.

Senhor, sabemos por João 3.16 que amaste demais o mundo.” Com tantos números sendo disparados para todo lado, no fim você fica com a impressão de ter acabado de assistir a uma palestra sobre contabilidade.

Depois tem também o Competidor. Cristão novo, ainda na faculdade, vivenciei com frequência a necessidade que meu colega de quarto tinha de parecer melhor que eu na oração. Ele fazia orações demoradas e em voz alta, muito seguro de si, demonstrando seu vasto conhecimento de Deus e da Bíblia. Sentindo a pressão para não me deixar vencer, eu tratava de incrementar minha oração, mas via de regra acabava descobrindo que fora longe demais. Como não sabia muita coisa da Bíblia na época, limitava-me a elencar coisas que soavam poderosas e bíblicas.

— Deus, o Senhor disse em sua Palavra que não é apenas Jeová Jiré, mas também Jeová... er... deixe-me ver... Jeová Ni-... er... Nissan. Isso mesmo — o senhor é Jeová NISSAN! E, Deus, como o senhor é bom. O Senhor é bom até... er... Deus, o Senhor é bom até debaixo d’água! E sua Palavra é doce como mel nos nossos lábios, e tem um gosto tão bom que ela... er... derrete na boca da gente... e não nas nossas mãos. Oh, Deus, como um bom vizinho... o senhor está sempre por perto!

Meus problemas com a oração não acabavam por aqui. Com demasiada frequência, orar não tinha lógica para mim. Deus parecia responder bem depressa meus pedidos sem sentido, como na ocasião em que, quase por brincadeira, pedi que ele consertasse o ar-condicionado de casa que estava quebrado, e ele me atendeu. Em outras ocasiões, eu passava dias jejuando e meses orando até o limite das minhas forças para que Deus curasse um amigo de determinada enfermidade, e ele não o fazia. Às vezes, eu acreditava no poder da oração; outras vezes, me perguntava se tudo não passava de uma grande perda de tempo.

Desde aqueles anos iniciais, aprendi

muito sobre oração. Pelo simples motivo Deus odeia orações

espalhafatosas, por isso

de que Deus odeia orações não existe pressão alguma espalhafatosas, não existe pressão que se possa fazer na

oração; não existe um jeito

certo de orar a não ser se alguma que se possa fazer na oração; abrindo e sendo sincero com ele. não existe um jeito certo de orar a não ser se abrindo e sendo sincero com ele. Repetidas vezes, Jesus ralhou com os fariseus por se dedicarem a longas, sonoras e extravagantes orações carentes de autenticidade. Cristo nos ensinou: “ ‘E, quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas.

Eles gostam de ficar orando em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos outros. Eu asseguro que eles já receberam sua plena recompensa’ ” (Mateus 6.5).

Em vez de compridas, sonoras e extravagantes, as orações que movem Deus são simples, autênticas e profundamente sinceras.

Simples, todavia, não é o mesmo que seguro. Eis a razão pela qual me senti compelido a escrever este livro. O maior erro que cometi na minha vida de oração, o motivo pelo qual minhas orações eram tão sem graça, era porque eu exagerava na cautela ao orar. Eu vivia em uma zona de conforto em relação a Deus, construída sobre uma comunicação sem graça, frouxa. Eu nem pegava fogo, nem morria de frio. Minhas orações eram mornas. Mas orações inofensivas e mornas não nos levam para mais perto de Deus, nem nos ajudam a revelar seu amor para o mundo.

O perigo é fator intrínseco das orações.

Essa ideia acerca da oração me ocorreu quando li sobre Jesus conversando com o Pai no jardim do Getsêmani, pouco antes de dar a vida na cruz. Ciente do que estava por vir, Jesus perguntou a Deus se havia algum outro jeito. Então ele, que não era apenas um discípulo comum ou personagem bíblica, mas J-E-S-U-S, o Filho de Deus, fez uma oração vulnerável e perigosa de submissão: “ ‘[...] contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua’ ” (Lucas 22.42).

Jesus nunca nos pede para fazermos

algo que ele próprio não faria. Chama- Jesus nunca nos pede

para fazermos algo que ele

nos para uma vida de fé, não de conforto. próprio não faria. Chama-

nos para uma vida de fé,

não de conforto.

Em vez de nos achegarmos a ele em

busca de um estilo de vida mais seguro, fácil e livre de estresse, o Filho de Deus nos desafia a corrermos o risco de amarmos o outro mais que a nós mesmos.

Em vez de satisfazermos nossos desejos diários, ele nos chama para renegá-los em função de algo eterno. Em vez de vivermos pelo que queremos, ele nos diz para tomarmos nossa cruz diária e seguir o exemplo dele. Neste livro, aprofundaremos essas ideias por meio de três orações poderosas extraídas das Escrituras. Elas podem ser curtas. Podem ser simples. Podem ser diretas. Mas não são inofensivas.

Nas três partes em que o livro se divide, tentaremos provocar nossa fé, expandir nosso coração e abrir nossa vida para Deus fazendo estas três orações perigosas: SONDA-ME. QUEBRANTAME.

ENVIA-ME.

Quando procuramos nos comunicar com Deus por meio de uma oração verdadeira, vulnerável e íntima, ele não nos encerra em uma bolha de segurança espiritual. Em vez disso, estoura nossa bolha do “O que eu ganho com isso?” e nos convida a confiar nele quando não sabemos o que ele fará a seguir. Alguns dias nos sentimos abençoados. Outros dias enfrentamos desafios, oposição e perseguição. Mas todo momento de oração perigosa será repleto da presença de Deus.

Preocupa-me o fato de, para muita gente, a oração ser como comprar um bilhete de loteria, uma oportunidade para ter aqui na Terra uma vida livre de problemas, de estresse, de dor. Para outros, a oração é mera rotina sentimental. Como a declamação da letra de uma canção predileta, ou da cantiga de ninar mais amada na infância. Outros ainda só oram porque se sentem ainda mais culpados caso não o façam.

Acontece que nenhuma dessas orações reflete a vida que Jesus veio nos conceder.

Ele nos chamou para abandonarmos tudo a fim de segui-lo.

Quando um jovem rico e poderoso se aproximou de Jesus para tirar dúvidas espirituais complicadas, Jesus não baixou o padrão esperado de sua resposta. Pelo contrário: “Jesus olhou para ele e o amou. ‘Falta uma coisa para você’, disse ele. ‘Vá, venda tudo o que você possui e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me’” (Marcos 10.21).

Sempre me comoveu o fato de que antes de pedir ao homem que deixasse tudo, Jesus lhe apresentou uma solicitação em amor.

Queria o melhor para seu interlocutor, alguém que tinha tudo exteriormente, mas que ainda vivia com um vazio no interior. Jesus o amou e quase o desafiou a abandonar tudo a fim de o seguir.

Jesus não se limitava a desafiar as pessoas para que deixassem para trás a vontade própria. Também vivia uma fé perigosa. Tocava em leprosos. Demonstrava graça para com as prostitutas e se posicionava cheio de coragem diante do perigo. Depois nos disse que podíamos fazer o que ele fizera — e ainda mais.

Por isso, não podemos nos dar por satisfeitos pedindo “Deus, abençoe nossa comida” ou “sê comigo hoje”.

Você está preparado para mais? Cansou de não se arriscar? Está pronto para fazer orações audaciosas, cheias de fé, que honrem a Deus e transformem o mundo e vidas?

Se sim, então este livro é para você.

Mas não diga que não avisei. Haverá solavancos pelo caminho.

Quando começamos a pedir coisas como “sonda-me, quebrantame, envia-me” em oração, podemos ter de atravessar vales. Enfrentar ataques. Provações. Sofrimento. Dificuldades. Esmorecimento. Até ficar de coração partido. Mas haverá também haverá a alegria da fé, o assombro dos milagres, o alívio da entrega e o prazer de agradar a Deus.

É hora de parar de fazer orações seguras.

É hora de começar a conversar com Deus, conversar de verdade — e de ouvi-lo de verdade.

É hora de fazer orações perigosas.