Orações Perigosas
2.6 Susto
CAPÍTULO 2 . 6
Susto
Lá atrás, quando inaugurei nossa igreja, Gary, meu mentor, me deu a mais audaciosa garantia que eu já ouvira, mesmo sem querer: “Deus quebrantará você”.
Mostrou-se tão confiante nessa declaração profética que nem por um momento duvidei de suas palavras. Não só ele tinha firme convicção de que Deus acabaria por me quebrantar como estava ainda mais certo de que o Senhor faria bom uso disso. O quebrantamento me faria melhor. Aguçaria minha liderança. Aprofundaria minha fé. Aumentaria minha intimidade com Jesus.
De modo que passei a fazer uma das
“Deus, faça tudo que for orações mais perigosas que alguém pode
necessário para me libertar
do meu amor por este orar. “Deus, confio demais no Senhor. Sei
meu amor pelo conforto. mundo. Para crucificar que o Senhor me ama, que sempre
Quebrantame, Deus.” trabalha na minha vida. Se quer fazer
algo mais em mim, faça-o de uma vez.
Se for doloroso, dou as boas-vindas à dor.
Se quiser usar provações para me fortalecer, edifica minha fé, aproxima-me do Senhor e então as use. Deus, faça tudo o que for necessário para me libertar do meu amor por este mundo. Para crucificar meu amor pelo conforto. Quebrantame, Deus.”
Embora Deus não diga sim para todas as minhas orações, de algum modo, eu sabia ser bem provável que essa ele respondesse.
Acreditando que o quebrantamento viria, preparei-me para o que desse e viesse. Com certeza aconteceria. Agora. Hoje. Se não hoje, então amanhã. Em pouco tempo. Deus me quebrantaria. Por mais que confiasse nele, todo dia esperava e me perguntava: Será hoje?
O suspense e o pavor me matavam. Lembra-se daqueles brinquedos antigos da infância em que uma cobra de mola revestida de tecido bem colorido pulava fora quando mal se tirava a tampa da lata que a acondicionava? Versões mais sofisticadas envolviam uma caixinha com uma pequena manivela na lateral que, uma vez acionada, fazia soar uma música arrepiante. A tensão crescia a cada volta da manivela; ninguém sabia quando, mas em questão de segundos aconteceria: a tampa da caixa se abriria de supetão e um palhaço sorridente saltaria para fora, pregando o maior susto da sua vida. (Cá entre nós: por que alguém consideraria boa a ideia de criar um brinquedo que aterrorizasse crianças com cobras e palhaços?) Assim eu estava me sentindo. Dia após dia, a manivela girava.
A música arrepiante tocava. Quando eu menos esperasse, a caixa se abriria de um salto e Deus me quebrantaria.
Ouvira falar da dificuldade de se implantar uma igreja. Todo o mundo que dissera isso tinha razão. Apesar de experimentarmos muita coisa boa, muitas bênçãos e vidas transformadas, a dor de carregar esse peso, o trabalho duro e os sacrifícios costumavam parecer insuportáveis.
Poucos meses depois que começamos, nossa igreja perdeu as instalações cujo aluguel negociávamos e ficou sem local para as reuniões.
Deus, o que o Senhor está fazendo? Depois um jornalista escreveu um artigo bastante crítico a meu respeito questionando minha motivação e criando boatos e fofocas que machucaram minha família. Deus, por que o Senhor deixou isso acontecer? A carga de trabalho era de arrasar. A quantidade de horas a ele dedicada, extenuante. O fardo esmagador. Deus, não sei se darei conta de tanta coisa.
Pastor ainda jovem, cometi erros na liderança que magoaram pessoas. Amigos muito próximos ficaram bravos e abandonaram a igreja. Tive de dispensar membros da equipe. Incluindo um grande amigo. A sensação que me causou foi de morte. Outro era membro da minha família. A sensação foi pior que a morte.
À medida que os acontecimentos
Quando estiver dolorosos iam se desenrolando, eu ligava
quebrantado, você saberá.
Não terá dúvida nenhuma para Gary e lhe perguntava: — Já fui
quanto a esse fato. Não quebrantado? — Ao que Gary respondia precisará fazer essa
pergunta. com muita delicadeza: — Ainda não.
Depois de várias rodadas da mesma conversa, Gary afinal me falou: — Craig, quando estiver quebrantado, você saberá. Não terá dúvida nenhuma quanto a esse fato. Não precisará fazer essa pergunta.
Ele tinha razão.