Orações Perigosas
1.6 Desvenda meus pecados
CAPÍTULO 1 . 6
Desvenda meus pecados
SE A ORAÇÃO DE Davi ainda não lhe parecer perigosa o suficiente, gostaria de adverti-lo com toda delicadeza. As coisas estão prestes a ficar ainda mais intensas.
Davi foi chamado de “homem segundo o coração de Deus” (v. 1Samuel 13.14 e Atos 13.22). Dedicado a cumprir a vontade de Deus, era um homem que adorava com paixão, doava de forma extravagante e liderava com toda bravura. Todavia, também cometeu erros — e dos grandes. Como você e eu, ele era tentado a pecar e nem sempre tomava a decisão certa. Mesmo depois de conhecer a bondade de Deus e de ter andado com ele a maior parte da vida, Davi pôs tudo a perder. Por isso, esses trechos perigosos de sua oração: “Sonda-me, ó Deus [...] conhece o meu coração [...]. Vê se em minha conduta algo te ofende e dirige-me pelo caminho eterno” (Salmos 139.23,24).
Mostra-me se estou fazendo algo que te ofende ou fere o teu coração.
Ouvir a resposta divina para esses trechos da oração pode representar um difícil desafio. Difícil porque a maioria de nós é mestre em racionalizar os próprios atos equivocados. Se for como eu, você é bom em acusar os outros e, na mesma medida, em dar desculpas a seu próprio respeito. Consigo apontar seus defeitos, mas tenho excelente explicação para o motivo pelo qual faço algo que talvez você considere inadequado. Sou bom em fazer aquilo contra o qual Jesus advertiu em Mateus 7. Sou capaz de apontar o cisco no seu olho ao mesmo tempo que ignoro a viga no meu.
Como ouvir de Deus alguma conduta
sua que o ofende? Permita-me sugerir Se for como eu, você é
bom em acusar os outros
três coisas a considerar enquanto você e, na mesma medida, em
busca o coração de Deus com essa dar desculpas a seu
próprio respeito.
oração perigosa.
Primeiro, considere o que as pessoas lhe têm dito a seu respeito. Existe uma área na sua vida, hábitos, relacionamentos ou atitudes que outras pessoas têm sugerido que precisa mudar? Existe alguma área na sua vida questionada pelos outros? Entes queridos expressaram preocupação por você, ou lhe pediram para considerar a possibilidade de procurar ajuda?
Quando cursava o seminário, assisti a uma aula sobre aconselhamento em que a professora nos ensinou um princípio de que jamais me esquecerei. Ela sugeriu que, se mais de duas pessoas que você ama e em quem confia derem a entender que há um problema na sua vida, a reação mais correta da sua parte seria reconhecer que tem um problema e tratá-lo de imediato.
O bom senso da professora não me saiu mais da cabeça. Ao pedir para Deus mostrar se você tem adotado alguma conduta ofensiva, comece com o que as pessoas têm dito a você. Existe alguma coisa que seus entes queridos insinuam que seja prejudicial ou desaconselhável?
Talvez já lhe tenham dado a entender que você joga videogames demais. As pessoas estão preocupadas, pois você tem mais a oferecer e está deixando de aproveitar coisas mais importantes na vida.
Talvez alguém tenha sugerido que você bebe demais. Ou que tem problemas com analgésicos. Ou que come em excesso. Se mais de dois amigos ou familiares da sua confiança têm tocado nessa possibilidade, talvez seja hora de parar e lhes dar atenção.
Talvez você tenha tido experiências de namoro ruins. Os amigos continuam a lembrá-lo de que você vive dizendo sim para o tipo errado de pessoa. Em vez de defender seus atos, talvez seja hora de considerar a possibilidade de mudar seus padrões.
Em anos recentes, vi-me afinal obrigado a parar e reconhecer que havia algo fora de ordem na minha vida. Várias pessoas tinham insinuado que eu era escravo do celular. Amy, minha esposa, era quem falava isso mais alto e sem rodeios. Os suspiros e revirar de olhos dos meus filhos diziam muito também.
Em vez de levar a sério seus comentários afetuosos, meus mecanismos de defesa foram acionados. O especialista em racionalizar tudo veio à tona. Estou ocupado com algo importante. Para ser um bom pastor preciso estar disponível para as pessoas. Sou líder de uma igreja e minha opinião é importante. Posso ser uma boa testemunha estando presente nas redes sociais. Preciso muito ver qual está sendo o desempenho da minha postagem mais recente no Instagram e conferir para saber se há comentários necessitando da minha atenção.
Seria de imaginar que bastava dar ouvidos a Amy e às crianças.
Mas, quando algumas pessoas do escritório mencionaram o problema, o conselho da minha antiga professora de seminário começou a retumbar dentro da minha cabeça. Por isso decidi orar: Mostra-me, Deus. Vê se há alguma atitude ofensiva em mim. Tenho mesmo um problema?
Foi assistindo a um jogo de futebol do meu filho que Deus respondeu a essa oração. Na verdade, ocupado em responder a uma mensagem de texto, perdi um escanteio impressionante cobrado pelo meu filho e aproveitado por seu companheiro de equipe para cabecear para o gol. Com isso a equipe assumiu a liderança por 1 a 0 contra o time líder do campeonato. Depois, quase no fim do segundo tempo, com o placar em 1 a 1, a minutos do término da partida, perdi o gol feito pelo meu filho que decidiu o jogo por estar conferindo uma postagem em determinada rede social.
Deus me mostrou com muita clareza: eu agora me dava por satisfeito com a imitação da realidade, deixando passar o que de fato importava. Estava deixando de viver a minha vida de verdade, perdendo momentos preciosos com as pessoas que mais amava.
E você? Tem alguma coisa que as
pessoas vêm tentando ajudá-lo a Provérbios 12.15 diz: “O
caminho do insensato
enxergar acerca de você mesmo que parece-lhe justo, mas o precisa mudar? Provérbios 12.15 diz: “O sábio ouve os conselhos”.
caminho do insensato parece-lhe justo, mas o sábio ouve os conselhos”. Talvez seja hora de parar e prestar atenção. Deus pode falar com você por intermédio daqueles que mais o amam.
Além de levar em consideração o que as pessoas têm dito a você, atente também para as próprias racionalizações. Tem alguma coisa errada na sua vida, mas você continua a ignorar os graciosos sinais de advertência enviados por Deus?
Para ser franco, a capacidade que tenho para racionalizar o pecado é assustadora. Apesar de agora até parecer engraçada, uma história ilustra essa ideia como nenhuma outra. Anos atrás, ralhei com a igreja em tom de brincadeira, repreendendo aqueles que dirigem pelo acostamento durante os grandes engarrafamentos.
É bem possível que você já tenha visto isso acontecer. O trânsito para na rodovia e formam-se quilômetros de congestionamento.
Inevitavelmente surge um motorista que envereda pelo acostamento do lado direito da estrada e ultrapassa todo o mundo que está respeitando as regras. No sermão daquele domingo, fiz piada para que pessoas assim atendam o chamado de Deus antes que ele as mande direto para o inferno.
No dia seguinte, segunda-feira, lá ia eu para o escritório da igreja de manhã bem cedo. Por alguma razão, havia mais trânsito que o habitual na frente da nossa igreja. A fila de carros se estendia por cerca de 800 metros. Enchi-me de paciência para esperar, tentando intuir por que não saíamos do lugar. Depois de vários minutos sem avançar nem um centímetro, dei uma espiada à minha direita. Nossa igreja era proprietária de toda a extensão de terra entre o local onde eu estava parado e a entrada do estacionamento. Racionalizei que, se o terreno era da igreja, eu tinha o direito de dirigir em cima dela. Foi o que fiz. Ultrapassei os outros motoristas pelo acostamento.
Mal sabia eu que passava bem ao lado de Mark Dawson, um dos membros da igreja. Do assento do passageiro do carro dele, seu filho, Alex, gritou: — Papai, lá vai um daqueles motoristas que o pastor Craig odeia tanto! — Mal concluía a frase e ele emendava, entre chocado e entristecido: — Mas papai! Aquele é o pastor Craig!
Menos de 24 horas depois de esbravejar sobre como é errado dirigir pelo acostamento, foi exatamente o que fiz.
Senhor, mostra-me se há alguma atitude ofensiva em mim.
Reflita sobre o que você tem racionalizado. Existe uma área na sua vida acerca da qual outras pessoas vêm expressando preocupação? E você tem se defendido? Não vejo nada demais nisso. Sou capaz de lidar com a situação. Esse é apenas o meu jeito de levar a vida. De qualquer forma, não estou fazendo mal a ninguém. A vida é minha.
Quem é você para me julgar? Não tenho um problema. Estou ótimo.
Cuide dos seus problemas e me deixe em paz para cuidar dos meus.
Temos aqui mais um motivo pelo qual
Necessitamos do auxílio essa oração perigosa é não apenas
divino para enxergar o
pecado difícil de identificar importante como imperiosa.
pelo espelho. Necessitamos do auxílio divino para
enxergar o pecado difícil de identificar
pelo espelho. Se não formos cuidadosos, podemos acabar como as pessoas descritas por Davi no salmo 36, em que ele declara com vigor: “Ele se acha tão importante, que não percebe nem rejeita o seu pecado. As palavras da sua boca são maldosas e traiçoeiras; abandonou o bom senso e não quer fazer o bem” (Salmos 36.2,3).
Com que frequência nos achamos importantes demais? Não sou como esse homem. Estou ótimo espiritualmente. Não tenho problema algum. Sem nem o saber, nosso coração traiçoeiro nos engana e leva a ignorar o pecado por nós cometido. E as racionalizações continuam.
• Não há nada errado em ver pornografia. Todo o mundo vê. Além do mais, eu poderia estar fazendo coisa bem pior. Não prejudico ninguém com isso.
• Não tenho problema de temperamento. Não gritaria se você não fizesse sempre a mesma coisa. A culpa não é minha se você me deixa furioso.
• Não tenho problema com bebida. Só tomo umas cervejinhas para me ajudar a relaxar. É diferente de virar uma garrafa de uísque de uma vez ou coisa parecida.
• Não estou fofocando. Não posso fazer nada se as pessoas me contam as coisas. Só estou repassando informações provavelmente verdadeiras. Além disso, ajuda as pessoas a saberem pelo que devem orar.
• Para mim o jogo não é um problema, mas pura diversão. Consigo parar a hora que quiser.
• Não sou egoísta. Apenas gosto de coisas boas. Quero o que tenho direito. Dei duro a vida inteira. Mereço coisas boas na vida.
O rei Davi sabia tudo de racionalização. Jamais conheceremos a história exata que ele contou para si mesmo antes de levar Bate-Seba para a cama e então assassinar o marido inocente dela, Urias, a fim de encobrir o que fizera. (A história completa está em 2Samuel 11 e 12). No entanto, sabedor de como a mente humana funciona, suponho que tenha dito para si mesmo algo mais ou menos assim: Mereço me distrair um pouquinho. Lutei e venci diversas batalhas. Agora preciso me desconectar.
Por esse motivo, ao passear pelo telhado do palácio para relaxar, talvez bebericando seu drinque favorito, o rei nota uma bela mulher várias portas adiante.
Uau... Que espetáculo! Quem é a moça no telhado? Estou me sentindo bastante solitário. Adoraria ter companhia. Gostaria de conhecê-la. Só para descobrir quem é. Não farei nada. Só preciso de alguém com quem conversar.
Tendo enviado um servo para buscá-la e trazê-la ao palácio, com certeza suas racionalizações continuaram.
Ela está se sentindo solitária. É provável que o marido não faça ideia do que tem em casa. O rei sou eu. Mereço um pouco de atenção. Ninguém vai descobrir nada, nunca. Além do mais, tenho minhas necessidades.
Assim por diante, sem parar. Um passo de cada vez. Davi tratou de se convencer com mentiras e mais mentiras.
A experiência tem me ensinado que, quando assumo posição de defesa, é um indício de que preciso prestar bastante atenção e me manter aberto ao que Deus quiser me mostrar. Se alguém estiver sugerindo uma mudança em sua vida e você responder esbravejando, saiba que o mais sábio da sua parte seria escutar. Se sente que Deus o está convencendo de alguma culpa e mais que depressa você lhe responde que não precisa mudar nada na sua vida, saiba que esse é um sinal claro da necessidade de parar um pouco e refletir sobre a advertência que Deus está dando.
Descobri que, quanto mais me convenço de estar certo em relação a alguma coisa, mais provável é que esteja equivocado.
Foi uma lição que aprendi da pior maneira possível, lógico.
Pastor em início de carreira, vi dezenas de pessoas sábias se achegarem e me dizerem que, de vez em quando, eu era grosseiro demais na pregação. Preocupavam-se com que meu senso de humor fosse de mau gosto na melhor das hipóteses, e inadequado na pior.
Não arredei pé.
Mal sabiam eles que eu tinha uma estratégia. Como um sujeito a quem repugnavam os pregadores religiosos em excesso, mais santos que o próprio Deus, eu estava determinado a mostrar para todo o mundo que era alguém comum. Divertia-me como todo mundo. E tinha um senso de humor que as pessoas apreciariam.
O problema era que meu padrão visava estabelecer conexão com todo o mundo, mas não honrar a Deus.
Depois que dezenas de pessoas tentaram me ajudar a ver o erro do meu modo de agir, enfim eu vi a luz, graças ao auxílio de um sujeito.
Depois de me visitar por alguns
minutos após o almoço, ele experimentou Está disposto a pedir para
Deus mostrar a você se
uma abordagem diferente a fim de me isso é algo que ele gostaria
abrir os olhos para os meus problemas. que você mudasse? Começou elogiando com sinceridade a minha pregação. Tinha amado minha paixão. Reconhecia minha devoção aos estudos. Admirava a coragem com que eu pregava sobre temas difíceis.
Passou então a me incentivar em relação à minha fé em Deus. Muito franco, disse saber que eu amava as pessoas necessitadas de Cristo e que eu desejava honrar a Jesus com o meu estilo de vida.
Enquanto continuava a me edificar com suas palavras, disse saber que eu tinha consciência de que muita gente andava preocupada com meu humor grosseiro. Esse homem sábio me contou que confiava em mim e que, se havia um problema comigo, sabia que eu daria ouvidos para Deus. Em vez de me acusar, encorajou-me: — Está disposto a pedir para Deus mostrar a você se isso é algo que ele gostaria que você mudasse?
Por causa do espírito amoroso dele, concordei em dirigir a pergunta para Deus. Na verdade, não pensava ouvir nada diferente da parte do Senhor. Ele conhecia meu coração. Compreendia meu plano.
De modo que me limitei apenas a fazer uma oração perigosa.
“Mostra-me se estou errado, Deus. Mostra-me se preciso mudar.”
Nada aconteceu.
Nada mesmo.
Até a primeira vez que preguei depois de orar assim.
Por acaso era um “fim de semana de promoção”, e as crianças da igreja passariam para nova série ou classe. Catie, minha filha mais velha, em virtude da idade, deixara a escolinha das crianças.
Aquele seria seu primeiro domingo com os adultos, entre os quais passaria a participar da adoração todos os domingos.
Comecei a pregar com confiança e
A área em que me sentira paixão, olhando de rabo de olho para
tão seguro de estar certo
era exatamente a área em minha preciosa filhinha sentada junto a
que estava mais errado. Amy (que também achava que eu ia
longe demais com meu humor). Eu
estava prestes a fazer uma piada que alguns considerariam questionável quando, de repente, me ocorreu: Não quero que minha filha ouça isso. Gostaria que ela jamais dissesse uma coisa dessas. Em um instante, Deus conseguiu se comunicar comigo. As pessoas estavam certas. Eu, errado. Inadvertidamente, vinha sendo desonroso para com Deus e desrespeitoso para com muita gente incrível.
A área em que me sentira tão seguro de estar certo era exatamente a área em que estava mais errado.
Negar a verdade não altera os fatos.
Eu vinha pecando contra Deus e necessitara de uma oração perigosa para aceitar a dolorosa realidade.