Orações Perigosas

Craig Groeschel · Capítulo 3 de 31

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Orações Perigosas

P a R T e 1

 

Sonda-me

 

Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece as minhas inquietações.

Vê se em minha conduta algo te ofende

e dirige-me pelo caminho eterno.

— Salmos 139.23,24

CAPÍTULO 1.1

 

Sonda-me

 

UMA DAS MINHAS PRIMEIRAS descobertas acerca da oração aconteceu anos atrás, quando minha mãe passou por uma cirurgia.

A família toda, inclusive eu, reuniu-se no quarto dela no hospital para tentar assegurá-la de que tudo correria bem em seu procedimento cirúrgico da manhã seguinte. Era compreensível que estivesse nervosa a ponto de, quando um homem de meia-idade trajando terno preto e colarinho eclesiástico bateu na porta e perguntou se gostaria de receber uma oração, ela exclamar:

— Ora, claro que quero que o senhor ore por mim!

Ele sorriu e fez um aceno de cabeça, confiante na própria conduta enquanto sacava do bolso um livrinho surrado de capa de couro. Posicionado ao lado da cama dela, perguntou:

— A senhora tem alguma preferência de denominação?

— Eu sou só... bem... só uma cristã comum. Não tem nenhuma denominação que eu prefira. Sou apenas protestante.

Ela frequentara uma escola luterana na infância, eu sabia, mas também sabia que nossa família frequentava uma igreja metodista desde que me entendia por gente. Nada disso parecia ter muita importância, na verdade. No entanto, ao que tudo indicava, o capelão não compartilhava da nossa atitude casual em relação às denominações.

— Er... sinto muito, minha senhora — protestou ele, transferindo o peso do corpo de uma perna para a outra. — Se a senhora pudesse escolher a denominação com que se sente mais confortável, ajudaria muito para eu saber que oração devo ler.

— Bem, vamos de metodista então. — E mamãe sorriu educadamente, ansiosa por ajudar o capelão a realizar seu trabalho.

Aliviado, o homem lhe retribuiu o sorriso e folheou seu livrinho até encontrar a página desejada. Então começou a ler. Para ser bem franco, só sabíamos que aquilo era uma oração porque ele o dissera. Em tom constante e animado, o capelão poderia estar lendo uma quadrinha infantil ou sua lista de supermercado.

Antes que tivesse a oportunidade de chegar ao fim, mamãe o interrompeu. Você precisaria conhecer minha mãe para entender todo o impacto causado por sua interrupção. Ela é a pessoa mais gentil, mais atenciosa, mais afetuosa que se pode encontrar. Seria capaz de dar seu último dólar, atravessar a cidade para ajudá-lo e escrever uma nota de agradecimento de três páginas para expressar seu contentamento pelo presente que você lhe enviou. Uma mulher tão amável quanto possível — mas também conhecida pelo gênio um tanto difícil. Não só gosta de se divertir, como raras vezes mede as palavras. Se lhe passa pela cabeça, ela fala. Sem reservas.

Enquanto o capelão lia a oração indicada para os metodistas, minha mãe o interrompeu. Alto o suficiente para ser ouvida longe, até pelas enfermeiras da sala de enfermagem, ela pediu toda feliz: — Alguém pode por favor encontrar para mim um capelão capaz de fazer as próprias orações?

A princípio tentamos não rir, mas não conseguimos nos segurar. Até o capelão, pobre sujeito, se viu na obrigação de abrir um sorriso largo. Na minha família, todo o mundo ainda ri baixinho quando rememoramos essa história acerca da avaliação sincera da mamãe sobre a oração daquele homem. Mas com isso ela defendeu uma ideia interessante.

A oração que provém do coração é

pessoal e inconfundível. Claro que não A oração que provém do

coração é pessoal e

há nada errado em ler uma oração, ou inconfundível. usar as palavras de outra pessoa para orar. Na verdade, a leitura de orações pode ser um bom ponto de partida para aprender a fazer as próprias orações. Com o tempo, no entanto, se quiser conhecer a Deus na intimidade, você começará a lhe dirigir orações mais espontâneas, originárias do seu coração. À medida que sua fé for crescendo, é provável que as orações brotem do seu interior.

Talvez você nem saiba expressá-las em palavras. São simples comunicação entre você e o Pai, o Deus todo-poderoso. Profundamente pessoais e tão exclusivas quanto suas digitais.

Você não precisa ir muito longe nos Salmos para encontrar clamores sinceros oriundos do coração de Davi. Ele discutia com Deus. Queixava-se com Deus. Apresentava-lhe pedidos. Das profundezas de própria alma, Davi bradava para o Pai celestial: “Até quando, Senhor? Para sempre te esquecerás de mim? Até quando esconderás de mim o teu rosto? Até quando terei inquietações e tristeza no coração dia após dia? Até quando o meu inimigo triunfará sobre mim?” (Salmos 13.1,2).

Receio, contudo, que muitos de nós não se sintam à vontade orando aberta e livremente. Presumimos a existência de um jeito certo, ou melhor, ou mais eloquente de fazer isso. Tendemos a fraquejar e orar pelas mesmas coisas repetidamente. Ficamos entediados pelas nossas orações.

Se nos entediamos orando, pergunto-me então se de fato estávamos em oração.