Orações Perigosas
2.8 Unidos pelo quebrantamento
CAPÍTULO 2 . 8
Unidos pelo quebrantamento
GARY DISSE QUE EU saberia quando fosse quebrantado. Que não precisaria consultar ninguém a esse respeito. No momento em que ouvi a voz da viúva do meu melhor amigo, eu soube, sem sombra de dúvida, que acontecera. Daquele ponto em diante a vida seria diferente. E eu nunca mais seria o mesmo.
Mas não aconteceu só comigo. Todas as pessoas mais próximas a Jason sofriam e se afligiam e experimentavam a dor da perda de igual modo. Tínhamos o coração partido, não só porque o perdêramos, mas pelas circunstâncias envolvidas em sua morte. Os dias seguintes foram confusos. Fizemos o melhor que estava ao nosso alcance para nos confortarmos uns aos outros, tentando ao mesmo tempo ajudar a família de Jason a tomar decisões importantes.
Depois da tragédia, eles nunca mais voltaram à casa em que o encontraram. A esposa e os filhos vieram morar conosco durante o período de transição. Chorávamos até o meio da noite e adormecíamos quando a exaustão nos impedia até de derramar mais lágrimas.
Os dias posteriores à morte de alguém são sempre estranhos.
Ao mesmo tempo que se chora o falecimento da pessoa, também se traça planos para o funeral — momento de celebração do amor que se acaba de perder. Vários dias mais tarde, oficiei o funeral do meu amigo. Só havia lugares para as pessoas permanecerem em pé. Em meio à minha tristeza profunda, tentei de alguma forma oferecer esperança aos que sofriam do meu lado.
Embora ninguém ali soubesse, as últimas palavras que Jason e eu trocamos seriam lamentadas para sempre. Ele errara. Pecara.
Mentira. Traíra a Deus e a mim. Mas essa traição não me importava mais. Era apenas um instante no tempo. Uma decisão ruim tomada por um homem desesperado que não enxergara outra saída.
Independentemente do que ele fizera, eu sabia que deveria ter agido com mais presteza de modo a reparar nossa amizade. Meu coração se endurecera, e meu orgulho obstinado e ego ferido se intrometeram, impedindo-me de perdoá-lo e de descobrir uma maneira de ajudá-lo. Inundado pela culpa, tenho a impressão de que passei dias inteiros chorando. Dúvidas tomaram conta da minha cabeça. Por que ele não me contou que passava dificuldades? Por que não se abriu? Olhando para trás, percebo sinais do seu tormento. Por que não reparei neles antes? Por que nossa última conversa teve de ser tão horrível? Por que não lhe estendi a mão mais cedo?
Tentei pregar no domingo seguinte. Apesar de ter o sermão esquematizado e de começar a pregá-lo, em poucos minutos sabia não haver a menor possibilidade de concluí-lo. De modo que, diante de um pequeno grupo de pessoas, caí em prantos. Em uma das ocasiões mais transparentes da minha vida pública, falei de toda a dor e quebrantamento que experimentáramos desde a fundação da igreja.
Antes da morte de Jason, sentia-me machucado. Exausto.
Assoberbado. Com medo.
Depois da sua morte, fiquei destruído. Despedaçado. Quebrado. Ferido.
Entre lágrimas, revelei para a igreja meu sentimento de culpa.
Culpa por não ter estendido a mão para Jason. Por não ter feito mais.
Por desconhecer seu sofrimento. Acontece que minha culpa ia muito além da tragédia do meu amigo. Sentime culpado por não ser um pai melhor devido ao fato de me concentrar tanto no desenvolvimento da nossa igreja. E culpado por não ser um pastor melhor ao me esforçar demais tentando ser o suficiente para minha esposa e meus filhos.
Por mais que me esforçasse, simplesmente eu não era bom o suficiente.
Contei para a igreja do quebrantamento que experimentava e Por mais que me
esforçasse, simplesmente
que necessitava mais do que apenas eu não era bom o oração. suficiente. Necessitava amor. Graça. Necessitava-os como amigos.
Precisava mais de Deus, mais do que conhecera no passado.
Naquele dia, algo mudou na nossa jovem igreja. Passou de um pequeno agrupamento de pessoas reunidas para uma comunidade cheia de graça de verdade. Quando pedi apoio, quase todo o mundo saiu do assento e foi para a frente orar, chorar e adorar. Alguns se ajoelharam. Outros ergueram as mãos para o céu. Outros ainda colocaram as mãos sobre nossos ombros a fim de orar por mim e por nossa família. Todos experimentáramos aquela perda.
Estávamos quebrantados juntos.
É fácil impressionar com nossa força,
mas as verdadeiras conexões são É fácil impressionar com
nossa força, mas as
forjadas por meio de fraquezas verdadeiras conexões são compartilhadas. Podemos impressionar forjadas por meio de
fraquezas compartilhadas.
as pessoas com o que somos capazes de fazer, mas a verdade é que nos conectamos nas nossas lutas comuns. Eis uma das bênçãos do quebrantamento. Podemos lutar para sermos fortes. Mostrar nosso melhor quando postamos selfies. E jamais permitir que nos vejam para baixo. Mas, quando nos quebrantamos juntos, a criação dos laços é mais profunda do que somos capazes de imaginar — em especial na família de Deus. Como a perseguição, que sempre une, fortalece e encoraja os cristãos que sofrem juntos, assim o quebrantamento cria um vínculo que resiste ao teste do tempo.
Se em vez de evitar o quebrantamento nós o acolhêssemos?
Déssemos as boas-vindas a ele? Até orássemos por ele?
“Deus, quebrantame.”