Orações Perigosas
3.2 Quando Deus chamar, atenda
CAPÍTULO 3 . 2
Quando Deus chamar, atenda
SE LHE DIGO “ALGUÉM me ligou”, você suporá que um amigo, parente ou membro da igreja digitou o número do meu celular na esperança de conversar comigo ou me deixar uma mensagem (sim, ainda se pode usar o telefone para fazer chamadas de verdade para as pessoas — mesmo parecendo que eles sejam usados cada vez menos com esse propósito). Muito antes dos nossos celulares, telefones fixos e aparelhos portáteis, existiu outro tipo de “chamada” — um convite da parte de Deus para o servirmos, via de regra de maneira específica, única. Seu chamado costuma exigir que você abra mão dos próprios planos e preferências e vá para onde ele lhe disser, quando e como ele disser, para encontrar quem ele disser e fazer o que ele disser.
Rendição completa.
Não é fácil atender a esse chamado e talvez nos sintamos tentados a imaginar várias escapatórias. Podemos até pensar, com razão, que nos falta qualificação, adequação ou preparo para o que Deus nos pede para fazer. Mas isso não é problema. Veja bem, ele nunca chama gente perfeita. Deus chama homens e mulheres imperfeitos, falhos, fracos, idênticos a você e a mim. Só quer pessoas dispostas a serem vasos, convidando-as para lhes usar a vida de modo que façam diferença para ele.
Sempre que me sinto inadequado ou
desqualificado, lembro-me de que Deus Deus nunca chama gente
perfeita. Ele chama
chamou Moisés, um assassino; Davi, um homens e mulheres adúltero; e Raabe, uma prostituta. Ele imperfeitos, falhos, fracos, idênticos a você e a mim.
não apenas chamou quem tinha feito coisas terríveis como também pessoas incomuns, inseguras e incoerentes. Basta ver alguns mensageiros, ministros, profetas e líderes escolhidos por Deus. Tem Noé, que se embebedou; Isaque, um sonhador; José, que foi abandonado; e Gideão, o medroso. Tem Jeremias, jovem demais; e Abraão, velho demais. Elias, que lutava contra a depressão. Tem Noemi, que se tornou uma mulher amargurada. Marta era pessimista. E João Batista comia insetos.
Longe de serem os Vingadores, foi esse pessoal. Muito distantes de qualquer conjunto de supersantos. Mesmo assim, Deus os chamou e usou, apesar de estarem longe da perfeição.
Deus não mudou. O Deus que chamou gente imperfeita é o mesmo que continua fazendo isso. Agora chama você. Ele convida você, estimula você, atrai você. O chamado divino inspira você a viver além de você mesmo, a não permitir que a vida tenha a ver só com o seu conforto, mas a render-se totalmente ao apelo que o Senhor lhe dirige. A ir. Servir. Edificar. Amar. Lutar. Orar. Doar-se. Liderar.
Então, como você responde quando Deus o chama? No Antigo Testamento, vemos no mínimo três reações diferentes. O profeta Jonas representa uma das mais comuns: “Eis-me aqui, Senhor, só que eu não vou”.
Assim que detectou a carência da cidade de Nínive, o Deus do Universo escolheu Jonas para pregar ao povo local, pecador e rebelde. Ora, Jonas contava com os atributos necessários para isso. Tinha o vigor. A habilidade. Mas lhe faltava a disponibilidade. Não estava disposto a ir e descaradamente respondeu para Deus: “Não”. Por favor, entenda: quando Deus falou, deixou clara sua incumbência: “Vá depressa à grande cidade de Nínive e pregue contra ela, porque a sua maldade subiu até a minha presença” (Jonas 1.2).
Jonas poderia ter respondido: “Sim, como o Senhor quiser, Deus. O senhor é o meu Senhor, farei o que me pede”. Mas não foi o que aconteceu. Em vez de manifestar um coração voluntário, Jonas relutou. Não se limitou a hesitar ou a inventar desculpas; ele fugiu da presença de Deus (v. Jonas 1.3). Vejo-me na obrigação de perguntar: Jonas pensou mesmo que conseguiria ir longe o bastante? Ou ele só queria estabelecer sua negativa momento a momento, de modo a evitar a verdade? Enterrando a cabeça na areia — ou, no caso de Jonas, na barriga de um grande peixe. Tentando fingir — acalentando a expectativa de — que Deus simplesmente o deixaria em paz. Ou mudaria de ideia acerca do que o chamara para fazer.
Já lhe aconteceu de responder dessa maneira? Talvez você tenha percebido uma sugestão divina, um convite para fazer alguma coisa que a ele interessava. Pode ter sido algo pequeno como dar um presente ou compartilhar uma ideia. Ou algo mais relevante como mudar de atividade profissional ou pedir alguém em casamento. Todavia, igual a Jonas, você hesitou. Enrolou. Por fim, tomou o rumo contrário.
Sei que eu já agi assim. Certa vez, eu voltava do trabalho para casa. Apesar de morarmos a uma pequena distância de carro da cidade, estamos perto de milhares de acres de terra não urbanizada.
Não raro passamos por estradas vicinais sem avistar um único carro ou caminhão. Um dia, seguindo para casa, espantei-me ao ver uma senhora de 60 e tantos anos ou mais parada sozinha no acostamento.
Não vi nenhum automóvel parado nas proximidades que talvez tivesse quebrado. Só a senhora, em pé ao lado da valeta na lateral da pista.
Aquilo me incomodou. O que ela está fazendo aqui, no meio do nada? Será que se perdeu? Está à procura de alguma coisa? Ou esperando alguém? Ou apenas fazendo uma caminhada? Que estranho. Todo o meu interior me disse para parar e ver se estava tudo bem. Perguntar se ela precisava de alguma coisa. Confiava em que Deus me levava a agir, mas também sabia que parar seria uma demonstração de bom senso, um gesto de pura decência humana.
No entanto, passei por ela e continuei dirigindo.
Por que não parei? Por que não fui conversar com ela? Ver se poderia ajudá-la? Não faço a menor ideia. Tentei racionalizar minha reação. Com certeza está tudo bem com ela. Ninguém andaria por esta estrada sem motivo algum. Ela não acenou para que eu diminuísse a velocidade nem tentou me chamar.
Mas esse momento de egoísmo me assombra desde então.
Por que não parei? Por que não obedeci à sugestão divina? Por que não lhe ofereci ajuda? Pelo amor de Deus, sou pastor! Pressupõe-se que seja servo de Deus. Seu vaso. Suas mãos e pés. Todavia, como Jonas, assumi uma postura egoísta: “Eis-me aqui, Senhor.
Não vou a lugar algum”.
A segunda resposta ao chamado de Deus pode não ter um caráter rebelde tão manifesto, mas é igualmente perigosa para nossa saúde espiritual. Ao ver o poder opressor do faraó sobre o povo escolhido, Deus chamou Moisés e disse: “ ‘Vá, pois, agora; eu o envio ao faraó para tirar do Egito o meu povo, os israelitas’ ” (Êxodo 3.10). Não poderia ser mais claro, certo? Deus o informou: “Estou enviando você. Agora vá! De todas as pessoas vivas hoje, você foi a que escolhi. Aquela que chamei. Você tem o necessário para isso. Eu o estou enviando”.
Mas Moisés reagiu de maneira
diferente de Jonas. Em vez de viver na Em vez de viver na
confiança do chamado
confiança do chamado divino, ele se divino, Moisés se escondeu em sua própria insegurança. escondeu em sua própria
insegurança
Quando Deus chamou seu vaso escolhido, Moisés respondeu: “[...]
‘Quem sou eu para apresentar-me ao faraó e tirar os israelitas do Egito?’ ” (Êxodo 3.11).
Em seguida, mais que depressa, elencou para o Senhor todos os motivos pelos quais ele não era a pessoa certa. “Não sou bom orador.
Gaguejo. Não sou o ideal para a função. Qualquer outra pessoa seria bem melhor que eu.”
Ainda hoje fazemos isso. Quando Deus nos desafia a dar, retrucamos: “Mas Deus, não tenho muito nem para mim mesmo.
Outra pessoa pode dar mais”. Quando Deus nos chama para servir, às vezes racionalizamos: “Não tenho tempo suficiente. Com certeza há candidatos melhores que eu para exercerem esse papel”. Quando Deus nos instiga a fazermos determinada coisa, somos tentados a relacionar para ele todas as razões pelas quais não somos a melhor pessoa para atendê-lo. Não sabemos o bastante. Não somos talentosos o bastante. Não somos bons o bastante. Muitos outros são mais qualificados do que nós.
Eis-me aqui, Deus, mas envia outra pessoa.
Existe outra resposta. Que não é mera declaração dirigida para Deus, mas uma oração. E perigosa, como você já deve ter adivinhado. Não se trata de uma oração segura, inofensiva ou egocêntrica. A de que falo requer grande fé. Quase sempre conduz à ação, por isso arriscada. Provavelmente o levará a fazer algo que pode não parecer natural ou fácil. A deixar para trás sua comodidade.
Isaías fez uma oração assim, de disponibilidade incondicional à presença de Deus. O profeta do Antigo Testamento relata seu encontro com o Santo de Israel quando Deus perguntou: “[...] Quem enviarei como mensageiro a este povo? Quem irá por nós?” (Isaías 6.8a, Nova Versão Transformadora). Sem conhecer os detalhes, nem saber quando ou onde, Isaías fez a seguinte oração, espantosa e transformadora da vida: “[...] Aqui estou. Envia-me!” (Isaías 6.8b, Nova Versão Transformadora).