Orações Perigosas
2.4 Quebrantado e livre
CAPÍTULO 2 . 4
Quebrantado e livre
Quando olho para trás, entendo por que meu pequeno grupo reagiu como faz a maioria de nós quando consideramos a possibilidade de pedir em oração algo tão ousado, na verdade tão maluco quanto “quebrantame”. Mas desconfio que quem reage assim não se dá conta de que, ao nos resguardar para jamais nos expor a perigo algum, corremos o risco de perder algo muito mais precioso que segurança e conforto. Não percebemos que bênçãos talvez estejam do outro lado do quebrantamento promovido por Deus.
Vejo essas bênçãos virem à tona em
duas cenas poderosas da vida de Cristo, Não percebemos que
bênçãos talvez estejam do
ambas descritas no livro de Marcos. outro lado do Curioso notar que elas aparecem uma quebrantamento
promovido por Deus.
atrás da outra. Embora possa parecer que não têm relação entre si, há nelas um tema bastante plausível. Algo se quebrou, de modo que alguma outra coisa pode ser liberada.
No primeiro exemplo, Marcos descreve a cena dramática em que uma visita indesejada se infiltra em um jantar para o qual Jesus fora convidado. A visita era uma prostituta, e os tempos não mudaram muito em relação a como as pessoas veem essas mulheres.
As outras mulheres, na maioria, as desprezam. A maioria dos homens as vê como objetos de transações comerciais, ou as julgam, ou as duas coisas. No entanto, precisamos ter em mente que mulher nenhuma cresce almejando ser “de vida fácil”, como minha avó costumava chamá-las. Na maior parte dos casos, o desespero leva alguém a vender o próprio corpo a fim de sobreviver. É provável que muitas se sintam impotentes e encurraladas, sem alternativa para melhorar de vida.
O mesmo acontecia na época de Jesus. Se uma moça se tornava prostituta, isso se devia a um desespero desmedido. Não tivera escapatória. Talvez fosse mãe solteira e temesse ver os filhos passando fome. Talvez tivesse sido vendida como escrava e não enxergasse outra saída. Talvez tivesse sido abusada a vida inteira, não tivesse autoestima nenhuma e não se acreditasse digna de outra coisa além de usar o corpo para continuar viva.
Não conhecemos muitos detalhes sobre a mulher da história.
Mas sabemos o que ela fazia para ganhar a vida. E também sabemos que em algum lugar, em algum momento, de alguma forma, ela encontrou o amor de Cristo. Não temos a informação exata de quando ela encontrou Jesus ou o que ele lhe disse. Desconhecemos se outras pessoas observaram sua transformação, ou se ela experimentou o amor de Deus sozinha, em algum ponto de uma estrada empoeirada. A única coisa de que temos certeza é de seu encontro com Cristo. E de que ela tinha certeza de que Jesus era diferente.
De alguma forma, em algum momento, ele lhe demonstrou amor incondicional, quando até então ela só conhecera o abuso. Tratou-a com dignidade. Mostrou-lhe respeito. Honrou-a quando os outros foram pródigos em cobri-la de vergonha. Jesus teria lhe demonstrado o mesmo amor, a mesma graça, a mesma misericórdia que oferecia a cada pecador arrependido que cruzava seu caminho. Apesar de humilhada, Jesus a ajudou a se sentir digna. Apesar da sensação de não ter valor algum, ele lhe mostrou que a verdade era o contrário. Embora ela fosse culpada de pecado, Jesus lhe estendeu graça.
Assim, essa mulher quis fazer alguma coisa para demonstrar gratidão. Sabendo que Jesus e os discípulos estavam na casa de Simão, o leproso, ela entrou ali a fim de manifestar agradecimento ao Redentor. Se foi proposital ou por acaso não está claro, mas o valor de sua oferta extraordinária não nos é revelado. Provavelmente ela adquiriu esse que seria seu bem mais precioso, um frasco de perfume exótico, e em um gesto desenfreado de adoração e devoção, “[...] quebrou o perfume sobre a cabeça de Jesus” (Marcos 14.3).
À primeira vista, isso talvez não pareça grande coisa. Muito bem, ela quebrou um frasco de Chanel? Que importância tem isso?
Sua plateia, no entanto, reconheceu na mesma hora a multifacetada importância do presente. Um tesouro tão raro e dispendioso teria custado o equivalente a um ano de salário.
Reflita um instante. Quanto você ganha por ano? Agora imagine, de uma hora para outra, em uma demonstração única de adoração, dar essa quantia inteira para Jesus. Foi o que a mulher fez.
Quebrou o frasco e ofereceu todo o conteúdo.
Lembre-se, a mulher não tinha um
trabalho que amava. Um ano de salário Quanto você ganha por
ano? Agora imagine, de
para ela equivalia a um ano de vergonha. uma hora para outra, em
Um ano de humilhação. Um ano de uma demonstração única
de adoração, dar essa pecado. Quantos encontros terríveis ela quantia inteira para Jesus. Foi o que a mulher fez.
tivera aquele ano? Quantos homens a Quebrou o frasco e usaram? Contudo, ela quebrou o frasco e ofereceu todo o conteúdo.
adorou Jesus.
O presente repentino chocou alguns dos convidados presentes na casa. Estupefatos, eles esbravejaram indignados uns com os outros. “‘[...] Que desperdício!
Esse perfume poderia ser vendido pelo valor do salário de um ano, e o dinheiro, distribuído entre os pobres’. Eles fuzilavam a mulher com os olhos” (Marcos 14.4,5 A Mensagem). Talvez você e eu reagíssemos da mesma forma. Parece algo tão perdulário, uma manobra maluca.
Mas não era apenas uma manobra. A magnitude do gesto abnegado de devoção não parou no valor financeiro do conteúdo do frasco.
Na época, os perfumes eram tão raros que as mulheres comuns nem pensavam em comprá-los ou usá-los. Pelo simples fato de não ser factível. Custavam caro demais. Quem então se disporia a desperdiçar tanto dinheiro em uma fragrância? Mulheres como a do trecho que estamos estudando. Alguns teólogos acreditam que só usavam perfume as mulheres que “trabalhavam nas ruas”. O perfume funcionava como uma espécie de publicidade. Quem o usava passava uma mensagem ousada e aromática. “Estou disponível... mas tenho um preço”.
Assim, ao quebrar o frasco e derramar
Jesus, aqui está a minha a fragrância valiosa, a mulher da história
vida. Ela é toda sua. Não
retenho nada para mim não estava apenas se desfazendo do agora.
dinheiro que ganhara.
Desfazia-se ainda de seu passado, da profissão, de seu sustento. O perfume representava não só a atividade que ela exercia, mas também o que ela poderia usar para suscitar futuros “negócios”. Ao quebrar o frasco, ela fechava toda porta que pudesse representar uma opção de fuga ou retrocesso em relação à atitude tomada naquele instante. Não havia mais volta. Ela derramou todo o perfume sobre Jesus, simbolizando que lhe entregava toda sua vida.
A mulher quebrou o frasco e despejou tudo o que ele continha.
Libertou-o. E se entregou.
Seu gesto falava mais que quaisquer palavras.
Jesus, aqui está a minha vida.
Ela é toda sua.
Não retenho nada para mim agora.
“Senhor, pode ficar com tudo.”