Orações Perigosas

Craig Groeschel · Capítulo 19 de 31

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Orações Perigosas

2.9 Abençoado pelo quebrantamento

CAPÍTULO 2 . 9

Abençoado pelo quebrantamento

Tenho o mesmo parceiro de malhação há vinte e cinco anos. Seu nome na verdade é John, mas eu o chamo de Paco porque, bem...acho Paco um nome melhor para parceiro de malhação. Embora mais velho que eu, o cara é robusto. Nunca o vi socar ninguém e é bonzinho demais para insultar quem quer que seja, mas não tenho dúvida de que, se um dia a situação sair do controle, farei questão de que ele esteja do meu lado da briga.

Você já deve ter imaginado que Paco e eu não choramos juntos.

Não conversamos muito sobre nossos sentimentos.

Somos parceiros de malhação, não amigos que choram no ombro um do outro.

Mas então aconteceu. De repente, Paco começou a perceber um zumbido incômodo no ouvido. Foi quando vi um lado diferente do meu parceiro durão desconhecido para mim. Eu não sabia grande coisa sobre zumbido no ouvido, mas, a partir do momento que vi o sofrimento de Paco, aprendi que suplício terrível ele pode ser. Para algumas pessoas, o zumbido constante não para nunca.

E não tem cura. Nos casos mais graves (como o de Paco), entendo que seja como um trem atravessando o cérebro. Vinte e quatro horas por dia. Todos os dias.

Existem dispositivos que se pode utilizar, mas, para muita gente, a dor é insuportável. A tragédia: o caso de Paco era um dos piores que seus médicos já tinham visto.

Depois de viajar para se consultar com os maiores especialistas, o melhor conselho que Paco recebeu veio de um companheiro de aflição. O homem explicou que o barulho nunca mais iria embora.

E que a única maneira de suportá-lo era chegando o mais perto que já se esteve de Deus e dedicando a vida a servir os outros.

Parece loucura, não? Basta engolir a dor e sorrir, ao mesmo tempo agindo como se estivesse tudo bem. Lembro-me de quando Paco me contou sobre o conselho desse camarada. Achei uma bobagem. Uma inutilidade. Mas Paco não vira ninguém mais com zumbido grave no ouvido tão bem como aquele homem. Assim, sem ter nada a perder, decidiu experimentar.

Todos os dias se apresentava diante de Deus como nunca. Lendo a Palavra viva do Senhor. Meditando em sua verdade e amor.

Adorando. Orando. Jejuando. John e a esposa, Jennifer, deram início a um pequeno grupo e começaram a se dedicar a outras pessoas.

“Adotaram” uma mãe solteira e os respectivos filhos, passando a servi-los com todo desprendimento. Ao doarem as próprias vidas, o estrondo no cérebro dele não diminuiu nem um pouco, mas de alguma forma John começou a melhorar. A dor não se aplacou, mas a alegria dele aumentou.

Certo dia, tentávamos nos exercitar um pouco na academia quando John me explicou que o zumbido é a pior dor que ele jamais conseguiria imaginar. Todavia, por graça divina, nunca estivera mais próximo do Senhor do que naquele momento. Contou-me que encontrara alegria no quebrantamento.

Não sei dizer com certeza quem começou a ficar com os olhos marejados primeiro, ele ou eu. Mas ali, na frente de todos que estavam na academia, dois amigos de uma vida inteira foram incapazes de conter as lágrimas.

No quebrantamento e na dedicação da

No quebrantamento, própria vida aos outros, John encontrou

costumamos experimentar

as maiores bênçãos de esperança. Em meio à dor, descobriu

Deus. uma paz celestial que não tinha palavras

para explicar. Eu a descobrira na minha

vida. Mas agora a via nele também.

No quebrantamento, costumamos experimentar as maiores bênçãos de Deus.

Reconheço: fazer essa oração requer tremenda fé. Exige divino atrevimento. Entendo por que muita gente jamais clamaria por quebrantamento. Mas na outra margem da plena confiança em Deus está uma bênção que não se pode encontrar no conforto e no sossego.

Entrei em pânico quando Gary me contou que eu seria quebrantado. Quis evitá-lo a qualquer custo. Se tivesse tentado evitar a dor, no entanto, teria ficado sem as bênçãos.

O apóstolo Paulo clamou desesperado a Deus por cura e libertação de um tormento desconhecido para nós. Em três ocasiões diferentes, ele suplicou, implorou e rogou a Deus que o levasse embora. Mas Deus disse não, e Paulo descobriu algo que de outra

forma não conheceria.[Nota 1]

A graça de Deus basta.

Quem são aqueles que Deus mais usa?

Os quebrantados e dependentes dele.

Deus usa os quebrantados

e dependentes dele. Durante a última ceia, Pedro ouviu

Jesus explicar que seu corpo seria

partido. Bem pouco tempo depois, quando o Senhor já fora preso, Pedro viveu seu quebrantamento mais profundo. Três vezes negou o simples fato de conhecer Cristo. Na terceira vez, a Bíblia diz que alguém lhe perguntou se ele estivera com Jesus. “Pedro respondeu: ‘Homem, não sei do que você está falando!’ Falava ele ainda, quando o galo cantou. O Senhor voltou-se e olhou diretamente para Pedro [...]” (Lucas 22.60,61).

Passei anos sem dar atenção à última parte: “O Senhor voltou-se e olhou diretamente para Pedro”.

Pedro negou conhecê-lo. Jesus viu a negação. Os olhares de ambos se cruzaram. Já imaginou a vergonha, a dor, o quebrantamento que Pedro sentiu? Por isso, quando experimentou a graça de Jesus depois da ressurreição, ninguém estava mais preparado que ele para pregar no dia do Pentecoste. Deus escolheu Pedro como peça fundamental de sua Igreja aqui. Para anunciar às pessoas que abandonassem os pecados que praticavam. Porque Pedro abandonara o dele.

Anos mais tarde, ao lhe pedirem para negar Cristo, Pedro dessa vez se recusou. Quando os inimigos de Cristo quiseram crucificar esse apóstolo em cima de uma cruz, a tradição conta que ele não quis morrer como morrera seu Salvador. Em vez disso, pediu para ser crucificado de cabeça para baixo. O mesmo homem que se acovardara de medo permaneceu intrépido na fé. Era um homem diferente.

Pedro foi partido e derramado.

Podemos não ser partidos como aconteceu a Pedro, ou como alguém que conhecemos, mas todos enfrentaremos momentos na vida em que temos uma escolha a fazer. Quando Gary me contou que eu seria quebrantado, a princípio lutei para evitar a ideia. À medida que minha confiança e fé em Deus foram crescendo, não só a aceitei como encontrei coragem para orar por isso. Contudo, tinha uma coisa no quebrantamento que eu não compreendia.

O verdadeiro quebrantamento diante de Deus não é um evento único, mas uma decisão diária. Paulo disse: “Dia após dia, morro! [...]” (1Coríntios 15.31, Nova Almeida Atualizada). Qual o significado disso?

Todos os dias ele optava por crucificar os próprios desejos de modo a poder viver inteiramente para os desejos de Deus.

Cada um de nós é chamado para morrer todos os dias. Para ser partido e derramado. Para se tornar dependente do Espírito de Deus. Para confiar que ele proverá nosso conforto, nossa direção, nossa fonte de poder.

Quebrantar-se não é um instante apenas gerado a partir de um acontecimento doloroso. Trata-se de uma escolha diária por morrer para o orgulho. Por crucificar a volúpia. Por aniquilar o egoísmo.

No lugar de uma vida sossegada, é a opção por uma vida de fé.

Você talvez o experimente quando faz o que é certo, mas é criticado por quem não compreende. Ou quando reage com amor em vez de raiva a alguém que o ataca. Ou quando opta por ser fiel agindo conforme a direção que acredita ser de Deus, mesmo não fazendo muito sentido e com seus colegas de trabalho o ridicularizando por causa disso.

Se não quiser, não faça essa oração perigosa. Muita gente não o culparia por isso. Incluo-me nesse grupo, com certeza.

Mas, se tiver coragem de proferir essa oração, então se prepare.

Esteja pronto para conhecer Deus e ser por ele conhecido de um modo que você nunca vivenciou antes.

Se estiver atravessando lutas

Quando as coisas se financeiras, dependa de Deus e confie

complicam, muitos fogem

de Deus. Não faça isso. em sua provisão. Se sua vida estiver em

Fuja para junto dele. frangalhos, despedace-se com ela.

Confie que Deus será o que você precisa.

Ajuste seu coração. Oriente seus passos.

Se recebeu um diagnóstico ruim do médico ou teme pela saúde de alguém a quem ama, ore a Jesus, aquele que curou enfermos e fez milagres na vida de pessoas comuns.

Quando as coisas se complicam, muitos fogem de Deus. Não faça isso. Fuja para junto dele. E não lute contra o quebrantamento.

Tire da cabeça a ideia de tentar parecer forte. Seja fraco. Vulnerável.

Partido. É na sua fraqueza que você descobre a força que ele tem.

Em cacos, você encontra as bênçãos dele.

Permita-me lembrá-lo de que não falamos aqui de cristianismo avançado. Quebrantamento não é só para monges e missionários. Na verdade, ele é o primeiro passo. Faz parte do cristianismo básico. O evangelho convida para vir e morrer. Morrer para os pecados. Morrer para o passado. Morrer para a carne. E morrer para os medos.

Não se trata de um compromisso

confortável, Jamais insultarei meu displicente, de meio

Deus pensando pequeno

expediente com Cristo. Mas de ou pondo a segurança em submissão radical e arrojada à vontade primeiro lugar. dele para a sua vida.

Você pode preferir não se arriscar nunca.

Minha intuição, no entanto, diz que você deseja mais que isso. Eu escolho diferente. Sou um homem intrépido, cheio de fé, capaz de apostar tudo de uma só vez. Jamais insultarei meu Deus pensando pequeno ou pondo a segurança em primeiro lugar. Se do outro lado do quebrantamento existem bênçãos, quebrantame então.

Quando a pecadora conheceu a graça de Cristo, partiu seu frasco valioso e derramou todo o perfume que ele continha.

Ao olhar para aqueles a quem amava e pensar em quem estava por vir, Jesus fez uma escolha. Optou pelo quebrantamento. Teve o corpo partido por você e o sangue derramado pelos seus pecados.

Quer mais? Sabe que tem mais? Quer glorificar a Deus? Então “vá para cima”. Ore. Dê um passo à frente.

Viva partido e derramado.

Está pronto?

É preciso fé. Não falo de uma oração segura. Não resta dúvida de que é perigosa.

No entanto, as mais profundas bênçãos de Deus o aguardam do outro lado.

“Senhor, quebrantame.”

 

Notas do Capítulo 2.9

Nota 1 - Você encontra a súplica de Paulo por libertação de algo a que ele dá o nome de “espinho na carne” em 2Coríntios 12.5-8. Mas observe que nos versículos 9 e 10 o apóstolo afirma que o espinho, apesar de difícil de suportar, leva-o a agradecer a Deus e

reconhecer que, quando está fraco, Deus o fortalece. [Voltar]

P A R T E 3

 

Envia-me

 

Então ouvi o Senhor perguntar:

“Quem enviarei como mensageiro a este povo?

Quem irá por nós?”. E eu respondi:

“Aqui estou; envia-me”.

— Isaías 6.8, Nova Versão Transformadora