Os Filhos da Noite
Capítulo 10
VISITAS
Após um funeral matutino na igreja de Gate of Heaven, no sul de Boston, Thomas Coughlin foi sepultado para o descanso eterno no cemitério de Cedar Grove, em Dorchester. Joe não teve autorização para comparecer ao enterro, mas leu a respeito em um exemplar do Traveler que um dos guardas vendidos a Maso lhe passou naquela noite.
Dois ex-prefeitos, Honey Fitz e Andrew Peters, estiveram presentes na cerimônia, assim como o prefeito em exercício James Michael Curley. Compareceram também dois ex-governadores, cinco ex-promotores distritais e dois promotores-gerais.
Policiais vieram de toda parte — agentes municipais e estaduais, aposentados e da ativa, de lugares tão ao sul quanto Delaware e tão ao norte quanto Bangor, no Maine. De todas as patentes, de todas as especialidades. Na foto que ilustrava a matéria, o rio Neponset serpenteava ao longo do limite mais afastado do cemitério, mas Joe mal conseguia vê-lo porque os chapéus e uniformes azuis dominavam a paisagem.
Aquilo era poder, pensou. Aquilo era um legado.
E pensou também, quase ao mesmo tempo: e daí?
Então o funeral de seu pai tinha levado mil homens a um cemitério às margens do Neponset. E algum dia, decerto, cadetes estudariam no prédio Thomas X. Coughlin da Academia de Polícia de Boston, ou passageiros atravessariam sacolejando a ponte Coughlin a caminho do trabalho de manhã.
Maravilha.
Ainda assim, morte era morte. Para sempre era para sempre. Não havia edifício, legado ou ponte batizada em sua homenagem que pudesse mudar isso.
Você só tinha uma única vida garantida, de modo que era melhor vivê-la.
Pousou o jornal ao seu lado na cama. Era um colchão novo, e estava à sua espera na cela depois do trabalho na véspera junto com uma mesinha lateral, uma cadeira e uma lamparina de mesa a querosene. Ele encontrou os fósforos na gaveta da mesinha ao lado de um pente novo.
Apagou a lamparina com um sopro e ficou sentado no escuro, fumando. Escutou o barulho das fábricas e das barcas no rio assinalando umas às outras sua presença nas passagens estreitas. Abriu a tampa do relógio do pai, tornou a fechá-la, em seguida abriu outra vez. Abre-fecha, abre-fecha, abre-fecha, enquanto o cheiro químico das fábricas subia e entrava pela janela alta da cela.
Seu pai estava morto. Ele não era mais filho de ninguém.
Era um homem sem história e sem perspectivas. Uma página em branco, sem vínculo com ninguém.
Sentiu-se um peregrino que houvesse deixado para trás a costa de uma terra natal que jamais tornaria a ver, atravessado um mar negro sob um céu igualmente negro, e aportado no novo mundo que aguardava, ainda sem forma definida, como sempre estivera aguardando.
Por ele.
Para que desse ao país um nome, para que o transformasse à sua imagem de modo que esse país pudesse abraçar seus valores e exportá-los mundo afora.
Fechou o relógio, fechou a mão em torno do relógio e fechou os olhos até vislumbrar a costa desse país novo, até ver o céu negro lá em cima dar lugar a uma distante coleção de estrelas brancas que derramaram seu brilho sobre ele e sobre o pequeno trecho de água que restava entre ele e seu país.
Sentirei sua falta. Chorarei sua morte. Mas agora estou renascido. E realmente livre.
Dois dias depois do funeral, Danny fez sua última visita.
Inclinou-se para junto da grade e perguntou: “Como tem passado, caçulinha?”.
“Estou encontrando meu caminho”, respondeu Joe. “E você?”
“Ah, sabe como é”, disse Danny.
“Não sei, não”, retrucou Joe. “Eu não sei de nada. Você foi embora para Tulsa com Nora e Luther há oito anos, e desde então tudo o que escutei foram boatos.”
Danny admitiu o fato com um meneio de cabeça. Pescou os cigarros no bolso, acendeu um, e demorou antes de responder. “Eu e Luther abrimos um negócio juntos lá em Tulsa. Construção civil. Construíamos casas nos bairros negros. Estávamos indo bem. Nada extraordinário, mas estávamos indo bem. Eu também era vice-xerife. Dá para acreditar?
Joe sorriu. “Usava um chapéu de caubói?”
“Meu filho, eu usava revólveres de seis tiros”, respondeu Danny com um sotaque forçado. “Um de cada lado do quadril.”
Joe riu. “E aquelas gravatas fininhas de laço?”
Danny também riu. “Naturalmente. E botas.”
“Com esporas?”
Danny estreitou os olhos e fez que não com a cabeça. “É preciso saber impor limites.”
Joe ainda estava rindo um pouco quando perguntou: “E o que aconteceu? Ouvimos falar alguma coisa sobre um motim, foi isso mesmo?”.
A luz dentro de Danny se apagou. “Tacaram fogo em tudo.”
“Em Tulsa inteira?”
“É, na parte negra de Tulsa. Luther morava em um bairro chamado Greenwood. Certa noite, na cadeia, uns brancos apareceram para linchar um negro porque ele tinha posto a mão na xoxota de uma branca dentro de um elevador. A verdade, porém, era que a moça vinha saindo com o rapaz em segredo havia muitos meses. Ele terminou tudo e ela não gostou, então prestou a queixa fajuta e tivemos de prendê-lo. Estávamos prestes a soltar o garoto por falta de provas quando todos os homens brancos respeitáveis de Tulsa apareceram com suas cordas na mão. Aí um bando de negros também apareceu, entre os quais Luther. E os negros, bom, eles estavam armados. Ninguém esperava por isso. Então a turma do linchamento foi embora. Naquela noite.” Danny apagou o cigarro com o calcanhar. “Na manhã seguinte, os brancos atravessaram os trilhos do trem e foram mostrar aos rapazes negros o que acontece quando se aponta uma arma para um deles.”
“Então o motim foi isso.”
Danny fez que não com a cabeça. “Motim coisíssima nenhuma. Foi um massacre. Eles balearam ou tacaram fogo em todos os negros que viram: crianças, mulheres, velhos, não fazia a menor diferença. Os atiradores eram todos pilares da comunidade, veja bem, frequentadores da igreja, rotarianos. No final, os putos passaram voando naqueles aviõezinhos usados para jogar pesticida nas lavouras, lançando granadas e bombas de fabricação caseira em cima dos prédios. Os negros começaram a sair correndo dos prédios em chamas, e os brancos tinham montado ninhos de metralhadoras. Abateram todo mundo em plena rua, nada mais, nada menos. Centenas de pessoas morreram. Centenas, simplesmente caídas pelas ruas. Pareciam meras trouxas de roupa manchadas de vermelho durante a lavagem.” Danny uniu as mãos atrás da cabeça e soprou o ar por entre os lábios. “Depois percorri a cidade para recolher os corpos em carretas, sabe? E não conseguia parar de pensar: onde está meu país? Onde foi parar o meu país?”
Nenhum dos dois disse nada por um bom tempo, até Joe perguntar: “E Luther?”.
Danny ergueu uma das mãos. “Ele sobreviveu. Da última vez que o vi, estava indo para Chicago com a mulher e o filho. Sabe o que é mais estranho nesse tipo de... de acontecimento, Joe?”, perguntou ele. “É que você sobrevive, e é como se carregasse uma espécie de vergonha. Não consigo nem explicar direito. É simplesmente uma vergonha, grande como o seu corpo inteiro. E sabe todas as outras pessoas que sobreviveram? Elas também carregam a mesma vergonha. E ninguém consegue se encarar nos olhos. Todo mundo está impregnado com o fedor do que aconteceu e tentando entender como passar o resto da vida com esse cheiro. Então é claro que você não quer que mais ninguém com o mesmo cheiro chegue perto para impregnar você mais ainda.”
“E Nora?”, perguntou Joe.
Danny concordou. “Ainda estamos juntos.”
“Têm filhos?”
Danny fez que não com a cabeça. “Você acha que eu deixaria você circular por aí sem saber que era tio?”
“Só vi você uma vez em oito anos, Dan. Sei lá o que você faria.”
Danny concordou, e Joe viu algo de que até então só havia desconfiado — alguma coisa em seu irmão, bem no âmago dele, estava quebrada.
No entanto, bem na hora em que ele pensou isso, um pedaço do antigo Danny voltou com um sorrisinho maroto. “Eu e Nora passamos os últimos anos em Nova York.”
“Fazendo o quê?”
“Espetáculos.”
“Espetáculos?”
“Filmes. É como dizem por lá... espetáculos. Quer dizer, é meio confuso, porque várias pessoas também chamam peças de teatro de espetáculos. Mas enfim, Joe, filmes. Cinema. Espetáculos.”
“Você trabalha no cinema?”
Danny aquiesceu, agora animado. “Foi Nora quem começou. Ela arrumou trabalho em uma empresa chamada Silver Frame, você conhece? São judeus, mas boa gente. Ela administrava toda a contabilidade da empresa, e aí eles lhe pediram para fazer uns servicinhos por fora, de publicidade e até de figurino. A empresa na época era assim, todo mundo fazia de tudo, os diretores preparavam café e os câmeras saíam para passear com o cachorro da atriz principal.”
“No cinema?”, repetiu Joe.
Danny riu. “Mas espere, vai ficar melhor ainda. Os chefes dela me conheceram e um deles, Herm Silver, um cara sensacional, cheio de recursos, me perguntou... está preparado? Me perguntou se eu fazia cenas de dublê.”
“Que diabo são cenas de dublê?”, Joe acendeu um cigarro.
“Sabe quando você vê um ator caindo do cavalo? Não é ele. É um dublê. Um profissional. Sempre que um ator escorrega em uma casca de banana, tropeça no meio-fio ou sai correndo por uma rua? Da próxima vez, olhe com atenção para a tela, porque não é ele. Sou eu, ou alguém como eu.”
“Espere um pouco, quantos filmes você já fez?”, quis saber Joe.
Danny passou alguns instantes pensando. “Acho que uns setenta e cinco.”
“Setenta e cinco?”, Joe tirou o cigarro da boca.
“Quer dizer, vários deles foram curtas. Curtas são...”
“Ora, eu sei o que são curtas.”
“Mas não sabia o que eram cenas de dublê, sabia?”
Joe ergueu o dedo médio para ele.
“Então, sim, eu fiz um montão de filmes. Cheguei até a escrever alguns dos curtas.”
A boca de Joe se escancarou. “Você escreveu...?”
Danny assentiu. “Coisas pequenas. Meninos do Lower East Side tentam dar banho no cachorro de uma senhora rica, perdem o cachorro, a dona liga para a polícia, seguem-se várias peripécias, esse tipo de coisa.”
Joe deixou o cigarro cair no chão antes de este lhe queimar os dedos. “Quantos você já escreveu?”
“Até agora cinco, mas Herm acha que eu levo jeito e quer que eu tente escrever um longa em breve, que vire roteirista.”
“O que é roteirista?”
“O cara que escreve os filmes, seu gênio”, respondeu Danny, mostrando por sua vez o dedo do meio para Joe.
“Então espere, e onde Nora entra nessa história?”
“Ela está na Califórnia.”
“Pensei que vocês morassem em Nova York.”
“Estávamos morando. Mas a Silver Frame fez uns dois filmes bem baratos recentemente que viraram sucessos. Enquanto isso, a porra da Edison está processando todo mundo em Nova York por causa das patentes das câmeras, mas na Califórnia essas patentes não querem dizer merda nenhuma. Além do mais, o clima lá é bom trezentos e sessenta dias por ano, então está todo mundo indo para lá. Os irmãos Silver calcularam que é a hora certa. Nora se mudou na semana passada, porque ela agora é chefe de produção... sério, ela está subindo que nem uma flecha. E eles agendaram cenas de dublê para mim em um filme chamado Os justiceiros do Pecos daqui a três semanas. Só voltei para avisar ao pai que estava indo para o Oeste outra vez, dizer a ele para talvez ir nos visitar quando estivesse aposentado. Não sabia quando tornaria a vê-lo. Caramba, não sabia quando tornaria a ver você.”
“Estou feliz por você”, disse Joe, ainda balançando a cabeça por causa do absurdo da situação. A vida de Danny era uma vida americana de almanaque: boxeador, policial, sindicalista, empresário, vice-xerife, dublê, escritor em ascensão.
“Venha”, disse seu irmão.
“O quê?”
“Quando sair daqui. Venha ficar conosco. Estou falando sério. Ganhe dinheiro para cair do cavalo e se jogar por vidraças de açúcar feitas para parecer vidro. Passe o resto do tempo deitado debaixo do sol, conheça uma aspirante a atriz à beira da piscina.”
Por alguns instantes, Joe conseguiu visualizar o que Danny dizia: uma outra vida, um sonho de água azul, mulheres de pele cor de mel, palmeiras.
“É só uma viagem rápida de trem de duas semanas, caçulinha.”
Joe riu mais um pouco ao imaginar aquilo.
“É um bom trabalho”, disse Danny. “Se algum dia quiser ir para lá trabalhar comigo, posso treinar você.”
Ainda sorrindo, Joe fez que não com a cabeça.
“É um trabalho honesto”, disse Danny.
“Eu sei”, disse Joe.
“Você poderia parar de viver uma vida em que tem de passar o tempo inteiro olhando por cima do próprio ombro.”
“Não é isso.”
“O que é, então?” Danny parecia genuinamente curioso.
“A noite. Ela tem seu próprio conjunto de regras.”
“O dia também tem regras.”
“Ah, eu sei”, disse Joe. “Só que elas não me agradam.”
Os dois passaram muito tempo se encarando através da grade.
“Não entendo”, disse Danny baixinho.
“Eu sei que não”, disse Joe. “Você é um cara que compra esse papo de um mundo dividido entre mocinhos e bandidos. Um agiota quebra a perna de alguém por não pagar uma dívida, um banqueiro expulsa alguém de casa pelo mesmo motivo, e você acha que existe uma diferença, como se o banqueiro estivesse apenas fazendo o seu trabalho, mas o agiota fosse um criminoso. Eu gosto do agiota porque ele não finge ser nada além do que é, e acho que o banqueiro deveria estar sentado aqui onde estou agora. Não quero viver uma vida em que vá pagar as porras dos meus impostos, buscar limonada para o patrão no piquenique da empresa e comprar seguro de vida. Uma vida em que vá ficar velho e gordo para poder virar sócio de clube só para cavalheiros em Back Bay, fumar charutos com um bando de babacas em alguma salinha dos fundos, falar sobre minhas partidas de squash e as notas dos meus filhos na escola. Em que vá morrer sentado em frente à minha mesa de trabalho, e antes mesmo de a terra ser despejada sobre o caixão eles já terão tirado meu nome da porta da sala.”
“Mas assim é a vida”, disse Danny.
“Assim é um tipo de vida. Você quer jogar segundo as regras deles? Vá em frente. Mas eu acho as regras deles uma babaquice. Acho que as únicas regras que existem são as que um homem cria para si mesmo.”
Novamente os dois ficaram se observando através da grade. Durante toda a sua infância, Danny havia sido o herói de Joe. Caramba, ele havia sido o seu deus. E agora deus não passava de um homem que ganhava a vida caindo de cavalos, que ganhava a vida fingindo levar tiros.
“Nossa, como você cresceu”, comentou Danny baixinho.
“Pois é”, retrucou Joe.
Danny pôs os cigarros no bolso e o chapéu na cabeça.
“Uma pena”, falou.
Dentro do presídio, a guerra White-Pescatore foi praticamente ganha na noite em que três soldados de White foram baleados no telhado durante uma “tentativa de fuga”.
Mesmo assim, as escaramuças continuaram e as rixas ficaram mais intensas. Ao longo dos seis meses seguintes, Joe aprendeu que as guerras na verdade não acabam nunca. Mesmo enquanto ele, Maso e o resto da gangue Pescatore no presídio consolidavam seu poder, era impossível dizer se este ou aquele guarda fora pago para agir contra eles ou se este ou aquele detento merecia confiança.
Micky Baer foi atacado no pátio com um pedaço de metal por um homem que, conforme se descobriu depois, era casado com a irmã do finado Dom Pokaski. Micky sobreviveu, mas passaria o resto da vida com problemas para mijar. Ficaram sabendo lá de fora que Guard Colvin estava apostando todas as suas fichas em Syd Mayo, cupincha de White. E Colvin estava perdendo.
Então Holly Peletos, assassino a soldo de White, apareceu para cumprir cinco anos por homicídio involuntário e começou a soltar a língua no refeitório falando sobre troca da guarda. Assim, tiveram de jogá-lo da galeria.
Havia semanas em que Joe passava duas ou três noites sem dormir de tanto medo, ou porque ficava tentando prever todas as possibilidades, ou porque seu coração não parava de bater dentro do peito como se estivesse tentando se libertar.
Você dizia a si mesmo que não seria atingido.
Dizia a si mesmo que aquele lugar não iria devorar sua alma.
Mas o que dizia a si mesmo acima de tudo era: eu vou viver.
Vou sair deste lugar.
Custe o que custar.
Maso foi solto em uma manhã de primavera de 1928.
“A próxima vez que você vai me ver será no dia de visita”, disse ele a Joe. “Vou estar do outro lado daquela grade.”
Joe apertou sua mão. “Cuide-se.”
“Mandei meu advogado começar a trabalhar no seu caso. Você vai sair em breve. Fique alerta, garoto, fique vivo.”
Joe tentou buscar consolo nessas palavras, mas sabia que, caso não passassem disso — palavras —, teria de cumprir uma pena que lhe pareceria ter o dobro da duração, pois ele teria permitido que a esperança entrasse. Assim que Maso deixasse aquele lugar para trás, poderia muito facilmente deixar Joe para trás também.
Ou então poderia dar a Joe um pedaço de cenoura apenas suficiente para que ele continuasse gerenciando sua operação atrás daqueles muros em seu nome, sem nenhuma intenção de contratá-lo quando ele saísse.
Fosse como fosse, Joe não podia fazer nada a não ser ficar sentado esperando para ver como as coisas iriam se desenrolar.
Quando Maso saiu, foi difícil não perceber. O que estivera fervendo em fogo brando de dentro do presídio foi banhado com gasolina do lado de fora. Maio Assassino, na alcunha inventada pelos jornais, deixou Boston pela primeira vez parecida com Detroit ou Chicago. Os soldados de Maso atacaram os contadores, destiladores, caminhões e soldados de White como se aquilo fosse uma estação aberta de caça. E era mesmo. Em um mês, Maso expulsou White de Boston, e seus poucos soldados remanescentes fugiram correndo atrás dele.
No presídio, foi como se a harmonia houvesse sido injetada no sistema de fornecimento de água. Os esfaqueamentos cessaram. Pelo restante do ano de 1928, ninguém mais foi jogado de nenhuma galeria ou apunhalado na fila da comida. Joe soube que a paz realmente chegara à Penitenciária de Charlestown quando conseguiu fechar negócio com dois dos melhores destiladores encarcerados de Albert White para que estes operassem por trás dos muros. Em pouco tempo, os guardas estavam contrabandeando gim para fora da Penitenciária de Charlestown, e a qualidade da bebida era tão boa que logo lhe rendeu um nome popular, Código Penal.
Joe dormia profundamente pela primeira vez desde que havia entrado pelos portões da frente, no verão de 1927. Teve tempo também de chorar pelo pai e de chorar por Emma, processo que havia represado, uma vez que teria atraído seus pensamentos para lugares que estes não deveriam visitar enquanto houvesse gente conspirando contra ele.
A brincadeira mais cruel que Deus fez com Joe durante a segunda metade de 1928 foi mandar Emma visitá-lo durante o sono. Ele sentia a perna dela se esgueirar por entre as suas, sentia o cheiro das gotinhas de perfume que ela passava atrás de cada orelha, abria os olhos e se deparava com os dela a três centímetros dos seus, sentia seu hálito nos lábios. Erguia os braços do colchão para poder alisar com as mãos suas costas nuas. Então abria os olhos de verdade.
Ninguém.
Somente a escuridão.
E ele rezava. Pedia a Deus para permitir que ela estivesse viva, mesmo que nunca mais tornasse a vê-la. Por favor, permita que ela esteja viva.
Mas Deus, quer ela esteja viva ou morta, seria possível por favor, por favor parar de mandá-la visitar meus sonhos? Não posso perdê-la repetidas vezes. É demais. É cruel demais. Senhor, tende piedade, pedia Joe.
Mas Deus não teve.
As visitas prosseguiram — e prosseguiriam — pelo restante do tempo de Joe na Penitenciária de Charlestown.
Seu pai nunca o visitava. No entanto, Joe sentia sua presença de um jeito que jamais sentira quando ele estava vivo. Às vezes ficava sentado na cama, abrindo e fechando a tampa do relógio, abrindo e fechando, e imaginava conversas que os dois poderiam ter tido caso todos os antigos pecados e expectativas frustradas não os tivessem atrapalhado.
Me fale sobre a mãe.
O que você quer saber?
Quem era ela?
Uma moça assustada. Uma moça muito assustada, Joseph.
Assustada com o quê?
Com o mundo lá fora.
O que tem no mundo lá fora?
Tudo o que ela não entendia.
Ela me amava?
À sua maneira.
Isso não é amor.
Para ela era. Não pense que ela abandonou você.
O que devo pensar, então?
Que ela ficou por sua causa. Caso contrário, teria deixado todos nós anos antes.
Não sinto saudade dela.
Engraçado. Eu sinto.
Joe fitava a escuridão. Sinto saudade sua.
Você logo vai me ver.
Depois de encaminhar as operações de destilaria e contrabando no presídio, bem como a rede de extorsão em troca de proteção, Joe teve tempo de sobra para ler. Graças a Lancelot Hudson Neto, leu praticamente tudo o que havia na biblioteca do presídio, uma façanha e tanto.
Lancelot Hudson Neto era o único homem rico de que alguém conseguia lembrar que fora condenado a uma pena em regime fechado na Penitenciária de Charlestown. Mas o crime de Lancelot fora tão ultrajante e tão público — ele havia jogado a esposa adúltera, Catherine, do telhado de sua casa de quatro andares em Beacon Street no meio do desfile do Dia da Independência de 1919 que passava por Beacon Hill — que mesmo as famílias mais tradicionais da cidade haviam largado a porcelana fina por tempo suficiente para concluir que, se houve algum dia uma chance de entregar um dos seus à plebe, era aquela. Lancelot Hudson Neto havia cumprido sete anos em Charlestown por homicídio involuntário. Ainda que não fossem propriamente trabalhos forçados, o regime da pena era fechado, suavizado apenas pelos livros que ele conseguira contrabandear para dentro do presídio, arranjo este condicionado ao fato de ele os deixar lá quando saísse. Joe leu pelo menos uns cem livros da coleção de Hudson. Dava para saber que eram dele porque, no canto superior direito da folha de rosto, ele escrevera com uma caligrafia miúda e apertada: “Propriedade original de Lancelot Hudson Neto. Vá se foder”. Joe leu Dumas, Dickens e Twain. Leu Malthus, Adam Smith, Marx & Engels, Maquiavel, os ensaios federalistas em defesa da Constituição original dos Estados Unidos e os Sofismas econômicos de Bastiat. Esgotada a coleção de Hudson, leu tudo o mais que estivesse à mão — romances baratos e faroestes, em sua maioria —, bem como revistas e jornais cuja entrada era permitida pela administração. Tornou-se praticamente um especialista em detectar que palavras ou frases inteiras eram censuradas.
Ao folhear uma edição do Boston Traveler, deparou-se com um artigo sobre um incêndio no terminal rodoviário da Viação Costa Leste, na St. James Avenue. Uma fiação elétrica puída fizera chover faíscas sobre a árvore de Natal do terminal. Em pouco tempo, o prédio havia pegado fogo. A respiração de Joe encurtou e travou enquanto ele estudava as fotografias do estrago. O guarda-volumes no qual havia guardado as economias de sua vida, incluindo os sessenta e dois mil dólares do assalto ao banco em Pittsfield, aparecia no canto de uma das imagens. Estava caído de lado sob uma das vigas do teto, o metal preto feito terra.
Joe não soube dizer que sensação era pior: a de que nunca mais iria respirar ou a de estar prestes a vomitar fogo pela traqueia.
Segundo a matéria, o prédio fora destruído por completo. Nada se salvara. Joe achou difícil acreditar nisso. Algum dia, quando tivesse tempo, iria descobrir qual dos funcionários da Viação Costa Leste havia se aposentado jovem e, segundo os boatos, levava a vida em grande estilo no exterior.
Até lá, iria precisar de um emprego.
Maso lhe ofereceu um no final daquele inverno, o mesmo dia em que informou a Joe que seu recurso estava caminhando a passos céleres.
“Você vai sair daqui logo logo”, disse-lhe Maso através da grade.
“Com todo o respeito, logo logo quando?”, indagou Joe.
“Antes do verão.”
Joe sorriu. “Sério?”
Maso aquiesceu. “Mas juízes não são baratos. Você vai ter que trabalhar por isso.”
“Por que não nos consideramos quites por eu não ter matado você?”
Maso estreitou os olhos; agora era um senhor distinto, de sobretudo de caxemira e terno de lã enfeitado com um cravo branco na lapela que combinava com a faixa de seda do chapéu. “Parece justo. A propósito, nosso amigo sr. White está fazendo bastante barulho em Tampa.”
“Tampa?”
Maso assentiu. “Ele ainda domina alguns lugares por lá. Não consigo pegar todos porque Nova York tem participação, e eles deixaram bem claro que não devo me meter com eles agora. Ele também traz o rum para o Norte pelas nossas rotas, e tampouco posso fazer nada em relação a isso. Mas, como ele está invadindo meu território lá no Sul, o pessoal de Nova York nos deu permissão para tirá-lo da jogada.”
“Permissão em que nível?”, perguntou Joe.
“Qualquer coisa exceto matá-lo.”
“Certo. O que você vai fazer, então?”
“Não é o que eu vou fazer. É o que você vai fazer, Joe. Quero que você assuma os negócios lá.”
“Mas quem administra Tampa é Lou Ormino.”
“Ele vai decidir que não quer mais essa dor de cabeça.”
“E vai decidir isso quando?”
“Uns dez minutos antes de você chegar lá.”
Joe pensou um pouco. “Tampa, é?”
“Lá faz calor.”
“Não me importo com calor.”
“Você nunca sentiu um calor feito o de lá.”
Joe deu de ombros. O velho tinha tendência a exagerar. “Vou precisar de alguém de confiança lá.”
“Sabia que você diria isso.”
“Ah, é?”
Maso aquiesceu. “Já está feito. Ele está lá há seis meses.”
“Onde o encontrou?”
“Montreal.”
“Seis meses?”, indagou Joe. “Há quanto tempo você está planejando isso?”
“Desde que Lou Ormino começou a pôr uma parte do meu lucro no bolso e Albert White apareceu para passar a mão no resto.” Ele se inclinou para a frente. “Se você descer lá e resolver a situação, Joe, vai passar o resto da vida vivendo feito um rei.”
“Quer dizer que, se eu assumir, vamos ser sócios meio a meio?”
“Não”, respondeu Maso.
“Mas Lou Ormino é seu sócio meio a meio.”
“E veja só no que isso vai dar.” Maso encarou Joe com seu verdadeiro rosto através da grade metálica.
“Então quanto eu vou levar?”
“Vinte por cento.”
“Vinte e cinco”, rebateu Joe.
“Fechado”, respondeu Maso, com uma centelha nos olhos que mostrou que teria subido até trinta. “Mas é melhor fazer por merecer.”