Os Filhos da Noite
Capítulo 6
E TODOS OS PECADORES SÃO SANTOS
O motorista da ambulância deu a Thomas o primeiro indício do pesadelo de publicidade prestes a se abater sobre o Departamento de Polícia de Boston.
Quando estavam prendendo Joe na maca de madeira para suspendê-lo até a traseira da ambulância, o motorista perguntou: “Vocês jogaram esse menino do telhado?”.
A chuva caía fazendo um alarde tão grande que todos precisavam gritar.
Quem respondeu foi o ajudante e motorista de Thomas, sargento Michael Pooley: “As lesões dele foram sofridas antes da nossa chegada”.
“Ah, é?” O motorista da ambulância olhou de um para o outro enquanto a água se derramava pela aba preta de seu quepe branco. “Conta outra.”
Thomas podia sentir a temperatura aumentando no beco, mesmo debaixo de chuva, de modo que apontou para o filho deitado na maca. “Este homem participou do assassinato daqueles três policiais em New Hampshire.”
“Está se sentindo melhor agora, babaca?”, indagou o sargento Pooley.
Com os olhos pregados no relógio de pulso, o motorista da ambulância verificava a pulsação de Joe. “Eu leio o jornal. Na maioria dos dias, é quase só o que faço... fico sentado na ambulância lendo a porra do jornal. Esse menino era quem estava dirigindo. E quando eles o estavam perseguindo, alvejaram outro carro de polícia e despacharam os agentes para o inferno.” Ele pousou o pulso de Joe sobre o peito. “Mas não foi ele quem fez isso.”
Thomas olhou para o rosto de Joe — lábios pretos partidos, nariz achatado, olhos fechados de tão inchados, um osso malar afundado, sangue negro endurecido nos olhos, orelhas, nariz e cantos da boca. O sangue do sangue de Thomas. Sua cria.
“Mas, se ele não tivesse assaltado o banco, eles não estariam mortos”, falou.
“Se os outros policiais não tivessem usado a porra de uma metralhadora, eles não estariam mortos.” O motorista fechou as portas da ambulância, olhou para Pooley e Thomas, e Thomas ficou surpreso pela repulsa que detectou em seus olhos. “Vocês provavelmente acabaram de matar esse menino de porrada. Mas o criminoso é ele ?”
Dois carros de polícia encostaram atrás da ambulância, e os três sumiram noite adentro. Thomas teve de se lembrar diversas vezes de pensar no rapaz espancado dentro da ambulância como “Joe”. Pensar nele como “filho” era avassalador demais. Sua carne e sangue, e muito daquele sangue e parte daquela carne jaziam agora no chão daquele beco.
“Lançou o aviso de busca em nome de Albert White?”, perguntou ele a Pooley.
O sargento aquiesceu. “E de Loomis, Bones e Donnie não sei das quantas, mas imaginamos que seja Donnie Gishler, um dos homens de White.”
“Dê prioridade a Gishler. Avise a todas as unidades que ele talvez esteja com uma mulher no carro. Onde está Forman?”
Pooley fez um gesto com o queixo. “Lá dentro do beco.”
Thomas começou a andar e Pooley foi atrás. Quando chegaram ao grupo de policiais junto à porta de serviço do hotel, Thomas evitou olhar para a poça de sangue de Joe perto de seu pé direito, poça esta volumosa o suficiente para receber a chuva e mesmo assim conservar um tom vivo de vermelho. Em vez disso, concentrou-se no chefe de seus investigadores, Steve Forman.
“Alguma informação sobre os carros?”
Forman abriu seu bloquinho de taquigrafia.
“Segundo o lavador de pratos, um Cole Roadster ficou parado no beco entre oito e quinze e oito e meia. Depois disso, o lavador de pratos disse que o carro sumiu e foi substituído por um Dodge.”
O Dodge era o carro para dentro do qual estavam tentando arrastar Joe quando Thomas e a cavalaria chegaram.
“Quero que seja lançado um aviso de busca prioritário pelo Roadster”, disse Thomas. “O motorista se chama Donald Gishler. Talvez haja uma mulher no banco de trás, Emma Gould. Ela é dos Gould de Charlestown, Steve. Sabe de quem estou falando?”
“Ah, sei sim”, respondeu Forman.
“Não a filha de Bobo. Ela é filha de Ollie Gould.”
“Certo.”
“Mandem alguém verificar se ela não está sã e salva na cama em Union Street. Sargento Pooley?”
“Sim, comandante?”
“Já viu esse tal de Donnie Gishler ao vivo?”
Pooley fez que sim com a cabeça. “Deve ter um metro e sessenta e sete de altura e pesar uns oitenta e seis quilos. Costuma usar gorros de lã preta. Na última vez em que o vi, estava usando um bigode com as pontas curvas. A décima sexta deve ter uma foto dele.”
“Mande alguém buscar. E passe essa descrição para todas as unidades.”
Ele olhou para a poça de sangue do filho. Um dente boiava nela.
Thomas e Aiden, seu filho mais velho, não se falavam havia muitos anos, embora ele recebesse uma carta de vez em quando cheia de fatos neutros, mas sem informação pessoal alguma. Não sabia onde ele morava, ou sequer se estava vivo ou morto. O filho do meio, Connor, ficara cego durante as revoltas ligadas à greve da polícia em 1919. Fisicamente, havia se adaptado à enfermidade com uma presteza louvável, mas mentalmente esta havia exacerbado sua tendência à autocomiseração, e ele logo se refugiara no álcool. Depois de não conseguir se matar de tanto beber, havia encontrado a religião. Pouco depois de abandonar esse flerte (ao que parece Deus exigia mais de seus adoradores do que um caso de amor com o martírio), Connor fora morar no Educandário para Cegos e Aleijados Silas Abbotsford. Recebera um emprego de zelador — isso para um homem que fora o promotor público assistente mais jovem da história do estado, nomeado promotor principal em um caso de pena capital — e lá passava os seus dias, esfregando pisos que não conseguia ver. De tempos em tempos, ofereciam-lhe um cargo de professor no educandário, mas ele havia recusado todas as propostas sob o pretexto de que era tímido. Não havia nada de tímido em nenhum dos três filhos de Thomas. Connor simplesmente havia decidido se isolar de todas as pessoas que o amavam. O que, nesse caso, significava Thomas.
E agora ali estava o seu caçula, dedicado a uma vida no crime, uma vida de putas, contrabandistas de bebidas e capangas armados. Uma vida que sempre parecia prometer glamour e riqueza, mas que raramente proporcionava alguma das duas coisas. E agora, por causa de seus companheiros de atividade e dos homens do próprio Thomas, ele talvez não sobrevivesse àquela noite.
Parado debaixo da chuva, Thomas não conseguia sentir cheiro nenhum exceto o horrendo fedor de si mesmo.
“Encontrem a garota”, falou para Pooley e Forman.
Um agente de patrulha de Salem localizou Donnie Gishler e Emma Gould. Quando a perseguição terminou, nove viaturas já estavam envolvidas, todas de pequenas cidades do litoral norte de Massachusetts — Beverly, Peabody, Marblehead. Muitos policiais viram uma mulher no banco de trás do carro; muitos deles não viram; um alegou ter visto duas ou três moças no carro, mas posteriormente ficou confirmado que havia bebido. Depois de Donnie Gishler tirar duas viaturas da estrada em alta velocidade, danificando ambas, e depois de os agentes serem por ele alvejados (ainda que a mira tenha sido sofrível), eles revidaram.
O Cole Roadster de Donnie Gishler saiu da estrada às nove e cinquenta da noite, sob forte chuva. Estavam descendo a toda a Ocean Avenue de Marblehead, margeando a enseada de Lady’s Cove, quando um dos policiais por sorte acertou um tiro no pneu de Gishler, ou então — mais provável, a sessenta e cinco quilômetros por hora e debaixo de chuva — o pneu simplesmente estourou de tanto atrito. Nesse trecho da Ocean Avenue, havia bem pouca avenida e muito oceano. O Cole saiu da estrada sobre três rodas, caiu pelo acostamento e tombou; os pneus perderam o contato com o chão. O carro então mergulhou em dois metros e meio de água com duas das janelas espatifadas e afundou antes mesmo de a maioria dos policiais conseguir descer de seus veículos.
Um agente de patrulha de Beverly chamado Lew Burliegh se despiu até ficar só de roupa de baixo e entrou na água, mas estava escuro, mesmo depois de alguém ter a ideia de apontar os faróis das viaturas para lá. Lew Burliegh entrou na água gélida quatro vezes, o suficiente para ficar com hipotermia e passar um dia no hospital, mas não encontrou o carro.
Os mergulhadores o encontraram na tarde seguinte, pouco depois das duas, com Gishler ainda sentado no banco do motorista. Um pedaço do volante havia se soltado e entrado em seu corpo pela axila. A alavanca de marchas tinha perfurado a virilha. Mas não foi isso que o matou. Uma das mais de cinquenta balas disparadas pela polícia nessa noite o havia acertado atrás da cabeça. Mesmo que o pneu não houvesse estourado, o carro teria caído na água.
Encontraram uma faixa prateada e uma pena da mesma cor presas ao teto do carro, mas nenhum outro sinal de Emma Gould.
O tiroteio entre a polícia e os três gângsteres atrás do Hotel Statler entrou para a bruma da história da cidade uns dez minutos depois de ocorrido. E isso apesar de ninguém ter sido atingido e de, no meio da confusão, na realidade poucas balas terem sido disparadas. Os criminosos tiveram a sorte de fugir do beco no exato momento em que o público do teatro estava deixando os restaurantes e se encaminhando para o Colonial ou o Plymouth. Uma reencenação de Pigmalião em cartaz no Colonial tivera a lotação esgotada por três semanas, e o Plymouth havia provocado a ira da organização de censura Watch and Ward com uma montagem de O playboy do mundo ocidental. A organização havia despachado dezenas de manifestantes, mulheres desenxabidas com lábios contraídos de quem chupou limão e cordas vocais incansáveis, o que só fizera chamar atenção para a peça. A presença exaltada e estridente dessas mulheres não foi apenas um alento para as bilheterias; foi também um presente dos deuses para os gângsteres. O trio saiu do beco, com as rodas do carro a girar loucamente, e a polícia partiu pela rua em seu encalço mas, quando as mulheres da censura viram as armas, puseram-se a gritar, guinchar e apontar. Muitos casais a caminho do teatro foram se abrigar de forma estabanada e violenta em vãos de portas, e um chofer tentando se desviar bateu o Pierce-Arrow do patrão em um poste ao mesmo tempo que uma garoa fina se transformava subitamente em pé-d’água. Quando os agentes de polícia conseguiram se recuperar do susto, os gângsteres já tinham roubado um carro em Piedmont Street e se embrenhado na cidade agora fustigada por uma chuva inclemente.
O “Tiroteio do Statler” rendeu boas matérias. A narrativa começava de forma simples — heroicos policiais enfrentavam de arma em punho malfeitores responsáveis pelo assassinato de seus colegas, e conseguiam dominar e prender um deles. Logo, porém, ficava mais complicada. Oscar Fayette, motorista de ambulância, afirmava que o malfeitor preso tinha sido espancado pela polícia com tamanha violência que talvez não passasse daquela noite. Pouco depois da meia-noite, boatos não confirmados se espalharam pelas redações de Washington Street, segundo os quais uma mulher fora vista trancada em um carro que havia mergulhado nas águas de Lady’s Cove em Marblehead na velocidade máxima e desaparecido lá no fundo em menos de um minuto.
Então se espalhou a notícia de que um dos gângsteres envolvidos no Tiroteio do Statler era ninguém menos que o negociante Albert White. Até então, Albert White ocupava uma posição invejável na sociedade bostoniana — a de um possível contrabandista de bebidas, provável traficante de rum, talvez fora da lei. Todos partiam do princípio de que ele tinha participação nas atividades ilegais, mas a maioria conseguia acreditar que fosse capaz de se manter ao largo do caos que agora imperava nas ruas de toda grande cidade. Albert White era considerado um contrabandista de bebidas “do bem”. Afável provedor de um vício inofensivo, sempre muito distinto com seus ternos claros, capaz de deliciar uma plateia com histórias sobre seu heroísmo na guerra e seus dias de policial. Depois do Tiroteio do Statler, porém (apelido que E. M. Statler tentou sem sucesso fazer os jornais reconsiderarem), esse sentimento se extinguiu. A polícia emitiu um mandado de prisão para Albert. Quer acabasse conseguindo ou não escapar da lei, seus dias de convivência com pessoas respeitáveis pertenciam ao passado. O consenso nas saletas e salões de Beacon Hill era que as emoções proporcionadas pelas experiências alheias e transgressoras tinham seus limites.
Houve então a sina que coube ao subcomandante de polícia Thomas Coughlin, outrora considerado candidato certo ao cargo de secretário de Segurança e possivelmente ao Legislativo do estado. Quando as edições do dia seguinte revelaram que o malfeitor preso e espancado na cena do crime era filho do próprio Coughlin, a maioria dos leitores se absteve de julgá-lo em questões ligadas à paternidade, uma vez que a maioria conhecia as vicissitudes de se tentar criar filhos virtuosos na Gomorra do mundo atual. Mas então o colunista Billy Kelleher, do Examiner, escreveu sobre seu encontro com Joseph Coughlin na escadaria do Statler. Fora Kelleher quem chamara a polícia para relatar o que vira, e fora ele quem chegara ao beco a tempo de ver Thomas Coughlin entregar o filho às feras sob seu comando. Isso o público rejeitou — não conseguir criar o filho direito era uma coisa. Mandar espancá-lo até ele entrar em coma era outra bem diferente.
Quando Thomas foi convocado à sala do secretário de Segurança, em Pemberton Square, já sabia que jamais viria a ocupá-la.
Em pé atrás de sua mesa, o secretário de Segurança Herbert Wilson acenou para Thomas se sentar. Ele administrava a corporação desde 1922, depois de o secretário anterior, Edwin Upton Curtis, que causara mais danos à polícia do que o cáiser à Bélgica, ter o obséquio de sucumbir a um ataque cardíaco. “Sente-se, Tom.”
Thomas Coughlin detestava que o chamassem de Tom; detestava o caráter diminutivo do apelido, sua familiaridade insensível.
Sentou-se.
“Como está seu filho?”, perguntou-lhe o comandante Wilson.
“Em coma.”
Wilson aquiesceu e expirou lentamente pelas narinas. “E cada dia que ele passa assim, Tom, mais parece um santo.” O secretário olhou para ele por cima da mesa. “Você está um caco. Tem dormido direito?”
Thomas fez que não com a cabeça. “Não desde...” Havia passado as duas noites anteriores junto ao leito de hospital do filho, enumerando os próprios pecados e rezando a um Deus no qual praticamente já não acreditava. Segundo lhe dissera o médico, mesmo que Joe saísse do coma, era possível que ficasse com sequelas cerebrais. Enfurecido — tomado por aquela fúria incandescente que com razão metia medo em todo mundo, desde o merda do seu pai aos próprios filhos, passando pela mulher —, Thomas havia ordenado a outros homens que espancassem seu filho. Agora, pensava na própria vergonha como uma lâmina deixada sobre carvões em brasa até o aço enegrecer e espirais de fumaça rastejarem pelas bordas feito cobras. A ponta lhe perfurava a barriga abaixo da caixa torácica e penetrava as entranhas, cortando, cortando, até ele não conseguir mais ver nem respirar.
“Alguma outra informação sobre os outros dois, os Bartolo?”, indagou o secretário.
“Pensei que o senhor já soubesse.”
Wilson fez que não com a cabeça. “Estive em reunião de orçamento a manhã inteira.”
“Acabou de chegar no teletipo. Pegaram Paolo Bartolo.”
“Pegaram?”
“A polícia estadual de Vermont.”
“Vivo?”
Thomas fez que não com a cabeça.
Por algum motivo que eles talvez nunca viessem a entender, Paolo Bartolo estava dirigindo um carro lotado de presuntos em lata; o banco de trás estava repleto, e latas se empilhavam pelo piso do banco do carona. Quando ele furou um sinal vermelho em South Main Street na cidade de St. Alban’s, a uns vinte e quatro quilômetros da fronteira canadense, um agente de patrulha do estado tentou pará-lo. Paolo fugiu. O agente foi atrás, outros policiais do estado entraram na perseguição e acabaram fazendo o carro sair da estrada perto de uma fazenda de gado leiteiro em Enosburg Falls.
Ainda era preciso estabelecer se Paolo havia puxado uma arma ao sair do carro naquela aprazível tarde de primavera. Era possível que tivesse levado a mão ao cós. Também era possível que simplesmente não tivesse levantado as mãos depressa o suficiente. Levando em conta que Paolo ou seu irmão Dion haviam executado o agente de patrulha Jacob Zobe no acostamento de uma estrada bem parecida com aquela, os patrulheiros não se arriscaram. Cada um dos agentes disparou o revólver de serviço pelo menos duas vezes.
“Quantos policiais responderam ao chamado?”, indagou Wilson.
“Sete, secretário, acho eu.”
“E quantas balas atingiram o criminoso?”
“Ouvi dizer onze, mas só uma autópsia dentro dos conformes dirá a verdade.”
“E Dion Bartolo?”
“Imagino que esteja escondido em Montreal. Ou em algum lugar por perto. Dion sempre foi o mais inteligente dos dois. Quem teria a maior probabilidade de pôr a cabeça a prêmio é Paolo.”
O secretário pegou uma folha de papel de uma pequena pilha em cima da mesa e a pôs em cima de outra pequena pilha. Olhou pela janela, parecendo fascinado pela torre da Alfândega a alguns quarteirões dali. “Tom, o departamento não pode permitir que você saia desta sala com a mesma patente que entrou. Entende isso?”
“Entendo, secretário.” Thomas correu os olhos pela sala que passara os dez anos anteriores cobiçando e não experimentou nenhuma sensação de perda.
“E se eu o rebaixasse a capitão, teria que ter uma divisão para pôr sob o seu comando.”
“Coisa que o senhor não tem.”
“Coisa que eu não tenho.” O secretário se inclinou para a frente, com as mãos unidas. “A partir de agora você pode rezar exclusivamente pelo seu filho, Thomas, porque daqui a sua carreira não passa.”
“Ela não morreu”, disse Joe.
Fazia quatro horas que ele saíra do coma. Thomas havia chegado ao Hospital Geral de Massachusetts dez minutos depois da ligação do médico. Levara consigo o advogado Jack D’Jarvis, um homem baixinho, de idade avançada, sempre vestido com ternos de lã nos tons mais fáceis possíveis de esquecer — marrom cor de casca de árvore, cinza cor de areia úmida, pretos que pareciam ter sido deixados no sol por tempo demais. As gravatas em geral combinavam com os ternos; os colarinhos das camisas eram sempre amarelados e, nas raras ocasiões em que ele usava chapéu, este parecia demasiado grande para sua cabeça e ficava apoiado nas pontas das orelhas. Jack D’Jarvis parecia pronto para se aposentar e já fazia quase três décadas que exibia essa aparência, mas só as pessoas de fora tinham a burrice de acreditar nisso. Ele era o melhor advogado de defesa criminal da cidade, e pouca gente conseguia citar um segundo que chegasse perto. Ao longo dos anos, Jack D’Jarvis havia desmantelado pelo menos duas dezenas de casos sólidos que Thomas apresentara à promotoria pública. As pessoas diziam brincando que, quando Jack D’Jarvis morresse, passaria seu tempo no céu tentando tirar todos os seus ex-clientes do inferno.
Os médicos passaram duas horas examinando Joe enquanto Thomas e D’Jarvis descansavam do trajeto no corredor junto com o jovem agente de polícia que vigiava a porta do quarto.
“Não vou conseguir livrar a cara dele”, disse D’Jarvis.
“Eu sei.”
“Pode ficar descansado: a acusação de assassinato em segundo grau é uma farsa e o promotor do estado sabe disso. Mas o seu filho vai ter de cumprir pena.”
“De quanto?”
D’Jarvis deu de ombros. “Uns dez anos, eu chutaria.”
“Em Charlestown?” Thomas balançou a cabeça. “Não vai sobrar nada dele para sair por aquela porta.”
“Thomas, três policiais morreram.”
“Mas não foi ele quem matou.”
“E é por isso que ele não vai para a cadeira elétrica. Mas imagine que fosse qualquer outra pessoa que não o seu filho... você mesmo iria querer que ele pegasse vinte anos.”
“Mas ele é meu filho”, disse Thomas.
Os médicos saíram do quarto.
Um deles parou para falar com Thomas. “Não sei de que material o crânio dele é feito, mas estamos achando que não é osso.”
“Como assim, doutor?”
“Ele está bem. Não há sangramento craniano, nem perda de memória ou deficiências de fala. O nariz e metade das costelas estão quebrados, e ele vai levar algum tempo antes de urinar sem ver sangue na latrina, mas não há nenhuma sequela cerebral que eu possa constatar.”
Thomas e Jack D’Jarvis entraram no quarto e foram se sentar ao lado da cama de Joe, que os observou pelos olhos negros e inchados.
“Eu errei”, disse Thomas. “Errei feio. E com certeza não há desculpa para o que fiz.”
Joe falou por entre lábios pretos e cobertos de pontos. “Não deveria ter deixado eles me espancarem?”
Thomas aquiesceu. “Não deveria.”
“Por acaso está ficando banana comigo, coroa?”
Thomas fez que não com a cabeça. “Eu mesmo deveria ter espancado.”
A leve risada de Joe saiu pelas narinas. “Com todo o respeito, senhor, fico feliz por terem sido os seus homens. Se tivesse sido o senhor, eu poderia estar morto.”
Thomas sorriu. “Quer dizer que você não me odeia?”
“É a primeira vez que me lembro de gostar do senhor em dez anos.” Joe tentou se erguer do travesseiro, mas não conseguiu. “Onde está Emma?”
Jack D’Jarvis abriu a boca, mas Thomas o deteve com um aceno. Encarou o filho direto nos olhos e lhe contou o que havia acontecido em Marblehead.
Joe passou alguns instantes absorvendo, ruminando a informação. Então disse, com um tom de leve desespero: “Ela não morreu”.
“Morreu sim, filho. Mesmo que tivéssemos agido imediatamente naquela noite, Donnie Gishler não estava com disposição para ser capturado vivo. Ela morreu assim que entrou naquele carro.”
“Não há corpo”, disse Joe. “Então ela não morreu.”
“Joseph, eles nunca chegaram a encontrar metade dos corpos do Titanic, mas mesmo assim aqueles pobres coitados já não estão mais entre nós.”
“Não consigo acreditar nisso.”
“Não consegue? Ou não vai?”
“É a mesma coisa.”
“Muito pelo contrário.” Thomas balançou a cabeça. “Nós conseguimos reconstituir um pouco do que aconteceu naquela noite. Ela era amante de Albert White. Ela traiu você.”
“É, traiu”, disse Joe.
“E então?”
Apesar dos lábios costurados, Joe sorriu. “E eu estou cagando. Sou louco por ela.”
“Loucura não é amor”, falou seu pai.
“Então é o quê?”
“Loucura.”
“Com todo o respeito, pai, eu testemunhei seu casamento por dezoito anos, e aquilo não era amor.”
“Não, não era”, concordou seu pai. “Portanto, eu sei do que estou falando.” Ele deu um suspiro. “De toda forma, filho, ela se foi. Está tão morta quanto a sua mãe, que Deus a tenha.”
“E Albert?”, indagou Joe.
Thomas se sentou na beira da cama. “Foragido.”
“Mas dizem os boatos que está negociando um retorno”, disse Jack D’Jarvis.
“Quem é o senhor?”, perguntou-lhe Joe.
O advogado estendeu a mão. “John D’Jarvis, sr. Coughlin. A maioria das pessoas me chama de Jack.”
Os olhos inchados de Joe ficaram mais arregalados do que nunca desde a chegada de Thomas e Jack ao quarto.
“Caramba”, disse ele. “Já ouvi falar do senhor.”
“Eu também já ouvi falar do senhor”, retrucou D’Jarvis. “Infelizmente, o estado inteiro também ouviu. Por outro lado, uma das piores decisões que o seu pai já tomou talvez acabe se revelando a melhor coisa que poderia ter lhe acontecido.”
“Como assim?”, indagou Thomas.
“Por ter quase o matado de pancada, o senhor transformou seu filho em vítima. O promotor do estado não vai querer processá-lo. Ele vai processá-lo, mas não vai querer.”
“O atual promotor do estado é Bondurant, certo?”, perguntou Joe.
D’Jarvis aquiesceu. “O senhor o conhece?”
“De ouvir falar”, disse Joe, e o medo transpareceu em seu rosto machucado.
“Thomas?”, perguntou D’Jarvis, observando-o com cuidado. “Você conhece Bondurant?”
“Conheço, sim”, respondeu Thomas.
Calvin Bondurant havia desposado uma Lenox de Beacon Hill e gerado três graciosas filhas, uma das quais se casara recentemente com um Lodge, para grande interesse das colunas sociais. Ferrenho defensor da Lei Seca, Bondurant era um destemido cruzado no combate a qualquer forma de vício, que afirmava ser um produto das classes inferiores e das raças inferiores que vinham aportando naquela grande nação ao longo dos últimos setenta anos. Os últimos setenta anos de imigração haviam se limitado basicamente a duas raças — irlandeses e italianos —, de modo que o recado de Bondurant não primava pela sutileza. Dali a alguns anos, porém, quando ele se lançasse governador, os doadores de campanha de Beacon Hill e Back Bay saberiam que era o homem certo.
O secretário de Bondurant conduziu Thomas para dentro da sala do promotor em Kirby e fechou as portas atrás deles. Bondurant se virou de onde estava em pé junto à janela e encarou Thomas com um olhar sem emoção.
“Estava esperando você.”
Dez anos antes, Thomas havia detido Calvin Bondurant durante a batida a uma casa de cômodos. Bondurant estava se divertindo com várias garrafas de champanhe e um rapaz nu de ascendência mexicana. Além de uma próspera carreira na prostituição, o mexicano se revelou um ex-integrante da División del Norte de Pancho Villa, procurado em seu país natal sob acusações de alta traição. Thomas havia deportado o revolucionário de volta a Chihuahua e providenciara para que o nome de Bondurant fosse riscado dos autos.
“Bem, aqui estou.”
“Conseguiu transformar seu filho de criminoso em vítima. Um truque espantoso. Será que é tão inteligente assim, subcomandante?”
“Ninguém é tão inteligente assim”, respondeu Thomas.
Bondurant balançou a cabeça. “Não é verdade. Algumas pessoas são. E você pode muito bem ser uma delas. Diga a ele para se declarar culpado. Três policiais morreram naquela cidade. Os funerais vão dominar as manchetes de amanhã. Se ele se declarar culpado pelo assalto a banco e, sei lá eu, conduta imprudente, recomendarei doze.”
“Anos?”
“Por três policiais mortos? É uma pena leve, Thomas.”
“Cinco.”
“Como disse?”
“Cinco anos”, repetiu Thomas.
“Sem chance.” Bondurant balançou a cabeça.
Thomas permaneceu sentado na cadeira, sem se mexer.
Bondurant tornou a balançar a cabeça.
Thomas pousou o tornozelo de uma perna sobre a outra.
“Olhe aqui”, disse Bondurant.
Thomas inclinou a cabeça de leve.
“Permita que eu esclareça uma ou duas falsas impressões, subcomandante.”
“Investigador-chefe.”
“Como disse?”
“Fui rebaixado ontem para investigador-chefe.”
O sorriso não chegou aos lábios de Bondurant, mas atravessou seu olhar. Só uma centelha, depois sumiu. “Então não precisamos falar sobre a falsa impressão que eu ia esclarecer.”
“Não tenho nenhuma falsa impressão ou ilusão”, disse Thomas. “Sou um homem prático.” Ele sacou uma fotografia do bolso e a pôs sobre a mesa de Bondurant.
O promotor baixou os olhos para a imagem. Uma porta vermelha, desbotada, com o número 29 no centro. Era a porta de uma casa geminada em Back Bay. Dessa vez, a expressão que atravessou o olhar de Bondurant foi o oposto da alegria.
Thomas encostou um dedo na mesa do outro homem. “Se você transferir seus encontros para outro imóvel, eu vou saber em menos de uma hora. Pelo que ouvi dizer, está enchendo um cofre de guerra e tanto para a candidatura a governador. É melhor esse cofre ser bem fundo, excelência. Um homem com um cofre de guerra bem fundo é capaz de enfrentar qualquer adversário.” Thomas pôs o chapéu na cabeça. Ajeitou o centro da aba até se certificar de que estava direito.
Bondurant seguiu olhando para o pedaço de papel sobre a mesa. “Vou ver o que posso fazer.”
“Ver o que você pode fazer tem muito pouco interesse para mim.”
“Eu sou um só.”
“Cinco”, disse Thomas. “Ele vai pegar cinco anos.”
Foi preciso mais quinze dias antes de um antebraço de mulher ir dar na costa de Nahant. Três dias depois disso, um pescador ao largo de Lynn capturou um fêmur em sua rede. O médico-legista declarou que o fêmur e o antebraço pertenciam ao mesmo indivíduo — uma mulher de vinte e poucos anos, provavelmente de origem norte-europeia, sardenta e de pele clara.
No caso estado de Massachusetts versus Joseph Coughlin, Joe se declarou culpado de incitação ao crime e assalto à mão armada. Foi condenado a cinco anos e quatro meses de prisão.
Tinha certeza de que ela estava viva.
Tinha certeza porque a alternativa era algo com o qual não conseguia viver. Tinha fé na existência dela porque não ter essa fé o fazia sentir-se desamparado, amputado.
“Ela morreu”, disse-lhe o pai pouco antes de ele ser transferido da Cadeia do Condado de Suffolk para a Penitenciária de Charlestown.
“Não morreu, não.”
“Seja sensato.”
“Ninguém a viu dentro do carro quando ele saiu da estrada.”
“Em alta velocidade, debaixo de chuva e à noite? Eles a puseram naquele carro, filho. O carro saiu da estrada. Ela morreu e foi levada para o mar.”
“Só acredito quando vir o corpo.”
“As partes do corpo não bastaram?” Seu pai ergueu uma das mãos para se desculpar. Quando tornou a falar, a voz saiu mais suave. “O que vai ser preciso para você escutar a voz da razão?”
“A voz da razão não diz que ela morreu. Não quando eu sei que ela está viva.”
Quanto mais Joe repetia isso, mais certeza tinha de que ela estava morta. Sentia isso do mesmo jeito que podia sentir que ela o havia amado, embora o tivesse traído. Mas, se admitisse, se encarasse esse fato, o que lhe restaria a não ser cinco anos na pior prisão do nordeste do país? Sem amigos, sem Deus, sem família.
“Ela está viva, pai.”
O pai passou algum tempo a observá-lo. “O que você amava nela?”
“Não entendi.”
“O que você amava naquela mulher?”
Joe buscou as palavras certas. Acabou topando com algumas que lhe pareceram menos inadequadas do que as outras. “Comigo, ela estava se transformando em algo diferente do que mostrava para o resto do mundo. Algo mais suave, sei lá.”
“Isso é amar uma possibilidade, não uma pessoa.”
“E como é que o senhor iria saber?”
Ouvir isso fez seu pai inclinar a cabeça. “Você foi o filho que deveria ter encurtado a distância entre sua mãe e mim. Sabia disso?”
“Eu sabia sobre a distância”, respondeu Joe.
“Então viu como o plano deu certo. As pessoas não consertam umas às outras, Joseph. E elas nunca se transformam em nada a não ser no que sempre foram.”
“Não acredito nisso”, disse Joe.
“Não acredita? Ou não quer acreditar?” Seu pai fechou os olhos. “Cada respiração que damos é uma sorte, filho.” Quando os abriu, estavam rosados nos cantos. “Realização profissional? Depende da sorte... de nascer no lugar certo, na hora certa, com a cor certa. De viver tempo suficiente para estar no lugar certo na hora certa e fazer fortuna. Sim, sim, trabalho árduo e talento podem compensar a diferença. São coisas cruciais, e você sabe que eu jamais iria afirmar o contrário. Mas a base de todas as vidas é sorte. Boa ou má. Sorte é vida, e vida é sorte. E a sorte começa a escorrer no mesmo instante em que chega à sua mão. Não desperdice a sua se consumindo por uma mulher morta que nunca mereceu você.”
Joe contraiu o maxilar, mas tudo o que disse foi: “Cada um faz a própria sorte, pai”.
“Às vezes”, concordou Thomas. “Mas outras vezes é a sorte que faz você.”
Os dois passaram algum tempo sentados em silêncio. O coração de Joe nunca tinha batido tão forte. Desferia socos em seu peito como um punho descontrolado. Ele sentiu pena do próprio coração como sentiria pena de algo externo a si mesmo, um cão vadio em noite de chuva, talvez.
Seu pai conferiu o relógio e tornou a guardá-lo no colete. “Na sua primeira semana lá dentro, alguém provavelmente vai ameaçar você. Ou na segunda, no máximo. Você vai ver o que ele quer nos olhos, quer ele diga ou não.”
Joe sentiu a boca muito seca.
“Então alguma outra pessoa, um cara bacana de verdade, vai defender você no pátio ou no refeitório. E, depois de fazer o outro sujeito recuar, vai lhe oferecer proteção pelo resto da sua pena. Escute o que vou dizer, Joe: é esse cara que você precisa machucar. Machucar tanto que ele nunca mais consiga ficar forte o suficiente para machucar você. Mire no cotovelo ou no joelho. Ou nos dois.”
Os batimentos cardíacos de Joe chegaram a uma artéria em seu pescoço. “E aí eles vão me deixar em paz?”
Seu pai lhe deu um sorriso contraído e começou a menear a cabeça, mas o sorriso desapareceu e o meneio de cabeça foi junto. “Não, não vão.”
“Então o que vai fazer eles pararem?”
Seu pai desviou os olhos por um instante, com a mandíbula contraída. Quando tornou a encarar o filho, tinha os olhos secos. “Nada.”