Os Filhos da Noite
Capítulo 5
TRABALHO BRAÇAL
Entrou no Hotel Statler pela porta dos empregados. Quando um carregador e depois um lavador de pratos lhe lançaram olhares curiosos, ergueu o chapéu e lhes lançou sorrisos seguros e saudações com os dois dedos erguidos, como um bon vivant evitando a aglomeração na porta da frente, e eles retribuíram com meneios de cabeça e sorrisos.
Ao passar pela cozinha, pôde ouvir um piano, uma clarineta aguda e um grave regular vindos do saguão. Subiu uma escada escura de concreto. Abriu a porta lá no alto e adentrou, ao lado de uma escadaria de mármore, um reino de luz, fumaça e música.
Joe já estivera em alguns saguões de hotéis de luxo na vida, mas nunca vira nada como aquilo. O clarinetista e o violoncelista estavam posicionados junto a portas de entrada de bronze tão perfeitamente polidas que a luz por elas refletida transformava em ouro a poeira suspensa no ar. Colunas coríntias se erguiam de pisos de mármore até sacadas de ferro forjado. As sancas eram de alabastro creme, e a cada dezena de metros pendia um pesado lustre com o mesmo formato de pingente dos candelabros encarapitados em pedestais de quase dois metros. Havia sofás vermelho-escuros dispostos sobre tapetes orientais. Dois pianos de cauda submersos em flores brancas de um lado a outro do saguão. Os pianistas dedilhavam de leve as teclas enquanto conversavam com os convidados e entre si.
Em frente à escadaria, a estação de rádio wbz havia instalado três radiofones sobre pedestais pretos. Uma mulher corpulenta de vestido azul-claro em pé junto a um deles confabulava com um homem de terno bege e gravata-borboleta amarela. A mulher não parava de ajeitar os coques dos cabelos enquanto tomava goles de um copo de líquido claro e enevoado.
A maioria dos homens estava de smoking ou casaca. Havia também alguns de terno, de modo que Joe não era o único do recinto a destoar dos demais, mas era o único ainda de chapéu. Pensou em tirá-lo, mas isso deixaria totalmente à mostra o rosto que saíra na manchete de todos os jornais vespertinos do dia. Ergueu os olhos para o balcão; lá em cima havia muitos chapéus, pois era onde todos os repórteres e fotógrafos se misturavam com os grã-finos.
Encolheu o queixo junto ao peito e rumou para a escada mais próxima. Demorou a avançar, pois a multidão se adensava agora que vira os radiofones e a mulher roliça de vestido azul. Mesmo com a cabeça baixa, identificou os jogadores de beisebol Chappie Geygan e Boob Fowler conversando com o também jogador Red Ruffing. Torcedor fanático do Red Sox desde que se conhecia por gente, teve de lembrar a si mesmo de que talvez não fosse uma boa ideia um homem procurado abordar três craques para conversar sobre seu aproveitamento. Espremeu-se para passar por trás deles, porém, torcendo para entreouvir algo que desmentisse os boatos de negociação dos passes de Geygan e Fowler, mas tudo o que escutou foi uma conversa sobre o mercado de ações: Geygan dizia que o único jeito de se ganhar dinheiro era comprar na margem, qualquer outra maneira era para paspalhos que quisessem continuar pobres. Foi então que a mulher corpulenta de vestido azul-claro se aproximou do microfone e pigarreou para limpar a garganta. O homem ao seu lado foi até o outro radiofone e ergueu um braço para o público.
“Senhoras e senhores, para deleite de seus ouvidos, a Rádio wbz de Boston, 1030 kHz no seu dial, passa a transmitir ao vivo do Grande Saguão do histórico Hotel Statler. Quem lhes fala é Edwin Mulver, e tenho o imenso prazer de apresentar Mademoiselle Florence Ferrel, meio-soprano da Ópera de San Francisco.”
Edwin Mulver deu um passo para trás, com o queixo erguido, enquanto Florence Ferrel dava um último tapinha nos coques do penteado e em seguida expirava para dentro do radiofone. Sem nenhum aviso, a expiração se transformou em uma nota alta como o cume de uma montanha, que reverberou pela multidão e subiu três andares até o teto. Um som tão extravagante, e ao mesmo tempo tão autêntico, que fez Joe se sentir tomado por uma terrível solidão. Aquela mulher estava trazendo ao mundo algo divino que, ao sair do corpo dela para adentrar o seu, fez Joe perceber que um dia iria morrer. Ele compreendeu esse fato de um jeito diferente do que sabia quando entrou. Ao entrar, isso era uma possibilidade remota. Agora era um fato insensível, indiferente à sua consternação. Diante de tal manifestação do outro mundo, ele compreendeu, sem margem para argumentação, que era mortal e insignificante, e que vinha tomando providências para sair do mundo desde o dia em que entrara nele.
À medida que a cantora seguiu cantando a ária, as notas foram ficando cada vez mais agudas, e Joe imaginou a voz dela como um oceano escuro, sem fim, sem fundo. Olhou em volta e viu os homens de smoking e as mulheres com seus cintilantes vestidos justos de tafetá ou seda e suas guirlandas de renda, viu o champanhe que brotava de uma fonte no meio do saguão. Reconheceu um juiz, o prefeito Curley, o governador Fuller e outro jogador do Sox chamado Baby Doll Jacobson. Junto a um dos pianos, viu Constante Flagstead, estrela de teatro da cidade, flertando com Ira Bumtroth, conhecido contador. Algumas pessoas riam, e outras faziam tanto esforço para parecer respeitáveis que dava vontade de rir. Viu homens sisudos com fartas suíças, e matronas emaciadas com saias no formato de sinos de igreja. Identificou membros das ricas famílias tradicionais de Boston, gente de sangue azul e integrantes da associação voluntária Filhas da Revolução Americana. Reparou em contrabandistas de bebidas, seus advogados, e até mesmo o tenista Rory Johannsen, que chegara às quartas de final de Wimbledon no ano anterior após derrotar o francês Henri Cochet. Viu intelectuais de óculos tentando não ser pegos olhando para frívolas moças moderninhas, cujos dotes para a conversação eram insípidos, mas cujos olhos reluziam e pernas enfeitiçavam... e todos eles em breve iriam desaparecer da face da terra. Dali a cinquenta anos, alguém iria olhar para uma foto dessa noite, e a maioria das pessoas naquele salão estaria morta e o resto estaria quase lá.
Enquanto Florence Ferrel terminava sua ária, ele ergueu os olhos para o mezanino e viu Albert White. Postada obedientemente atrás de seu cotovelo direito estava a esposa. Era uma mulher de meia-idade magra feito um varapau, sem nada do peso generoso de uma abastada matrona. Perceptíveis até mesmo de onde Joe estava, os olhos eram seu traço mais marcante. Eram saltados e frenéticos, mesmo quando ela sorriu para algo que Albert disse ao risonho prefeito Curley, que subira até lá com um copo de uísque escocês na mão.
Joe avançou os olhos alguns metros pelo balcão e viu Emma. Ela usava um vestido justo prateado e estava em pé no meio de um grupo perto da balaustrada de ferro forjado, com um copo de champanhe na mão esquerda. Sob aquela luz, sua pele tinha o mesmo branco do alabastro, e ela parecia aflita e sozinha, perdida em um pesar só seu. Seria essa a mulher que era quando achava que ele não estava olhando? Traria encravada no coração alguma perda indizível? Por alguns instantes, Joe temeu que ela fosse pular da balaustrada do balcão, mas então a angústia em sua expressão se transformou em um sorriso. E ele entendeu o que havia posto aquela tristeza em seu rosto: ela não esperava vê-lo nunca mais.
O sorriso se alargou e ela o disfarçou com a mão. Foi a mesma mão que segurava o copo de champanhe, de modo que este se inclinou e fez cair algumas gotas sobre o público do térreo. Um homem levantou a cabeça e levou a mão à nuca. Uma senhora imponente limpou a testa e em seguida piscou os olhos várias vezes.
Emma se inclinou um pouco mais para longe da balaustrada e meneou a cabeça em direção à escadaria localizada do lado do saguão em que Joe estava. Ele aquiesceu. Ela se pôs a andar para longe da balaustrada.
Ele a perdeu na multidão do andar de cima enquanto abria caminho pelo de baixo. Tinha reparado que a maioria dos jornalistas no balcão usava os chapéus inclinados para trás e nós tortos nas gravatas. Assim, empurrou o chapéu para trás e afrouxou a gravata enquanto se espremia pelo último aglomerado de pessoas até chegar à escadaria.
O agente de polícia Donald Belinski desceu correndo na sua direção, um fantasma que, não se sabe como, havia se levantado do leito do lago, raspado a carne queimada dos ossos, e agora descia rapidamente os degraus na direção de Joe — os mesmos cabelos louros, a mesma tez manchada de vermelho, os mesmos lábios ridiculamente rubros e olhos ridiculamente claros. Não, espere: aquele cara ali era mais parrudo, e os cabelos louros já tinham começado a recuar na testa e estavam mais para o ruivo do que para o louro puro. Além disso, embora Joe só tivesse visto Belinski deitado de costas, teve quase certeza de que o policial era mais alto do que aquele homem ali. E provavelmente tinha um cheiro melhor, também, pois aquele ali recendia a cebola, como Joe pôde sentir de tão perto que passou dele ao se cruzarem na escada, e os olhos do homem se estreitaram. Ele afastou da testa uma mecha de cabelos oleosos entre o louro e o ruivo, segurando o chapéu na mão livre com uma credencial do Boston Examiner presa na fita de gorgorão. Joe saiu da sua frente no último segundo, e o homem se atrapalhou com o chapéu.
“Desculpe”, disse Joe.
E o cara respondeu: “Queira me desculpar”, mas Joe pôde sentir seus olhos a observá-lo quando subiu a escada depressa, pasmo com a própria estupidez não só de ter encarado alguém nos olhos, mas também de ter encarado um jornalista.
Mais acima na escada, o cara chamou: “Com licença, com licença. O senhor deixou cair uma coisa”, mas Joe não tinha deixado cair porra nenhuma. Continuou andando, e um grupo surgiu na escadaria acima dele já levemente embriagado, uma mulher jogada por cima de outra como uma túnica solta, e então Joe passou no meio deles sem olhar para trás, sem olhar para trás, olhando apenas para a frente.
Para ela.
Emma segurava uma bolsinha que combinava com o vestido e com a pena e a faixa prateadas dos cabelos. Uma pequena veia pulsava em sua garganta. Seus ombros subiam e desciam; os olhos chispavam. Ele teve de se esforçar para não segurar aqueles ombros e tirá-la do chão até ela envolver seu corpo com as pernas e baixar o rosto em direção ao seu. Em vez disso, porém, passou por ela sem se deter e disse: “Um cara acabou de me reconhecer. Tenho que sair daqui”.
Ela foi atrás quando ele se pôs a percorrer um tapete vermelho e passou pelo salão de baile principal. A multidão ali era compacta, mas não tão densa quanto no saguão do térreo. Foi relativamente fácil avançar pela periferia da multidão.
“Tem um elevador de serviço logo depois do próximo balcão”, disse ela. “Vai dar no subsolo. Não acredito que você está aqui.”
Ele dobrou à direita no vão seguinte, com a cabeça baixa, e empurrou o chapéu para cima da testa, com força. “O que mais eu poderia ter feito?”
“Fugido.”
“Para quê?”
“Não sei. Meu Deus. É isso que as pessoas fazem.”
“Não é o que eu faço.”
A multidão ficou mais compacta quando eles margearam os fundos do balcão. Lá embaixo, o governador havia assumido o radiofone e estava decretando a data como Dia do Hotel Statler no estado de Massachusetts, e um viva ecoou da multidão já totalmente embriagada, bem na hora em que Emma passou na sua frente e o cutucou com o cotovelo para fazê-lo dobrar à esquerda.
Foi então que ele viu, depois do ponto onde o corredor encontrava outro — um nicho escuro atrás das mesas de banquete, das luzes, do mármore e do tapete vermelho.
No térreo, um naipe de metais começou a tocar, e o público do balcão passou a dançar e os flashes, a disparar, estalar e silvar. Ele se perguntou se algum daqueles fotógrafos de jornal iria voltar para a redação e reparar no cara que aparecia ao fundo de algumas de suas imagens, o cara de terno marrom e chapéu de feltro na cabeça.
“Esquerda, esquerda”, disse Emma.
Ele dobrou à esquerda entre duas mesas de banquete, e o piso de mármore deu lugar a finas lajotas pretas. Mais uns dois degraus e chegaram ao elevador. Ele apertou o botão para descer.
Quatro homens embriagados margearam a borda do balcão. Eram alguns anos mais velhos do que Joe e estavam cantando “Soldiers Field”, um hino da Universidade de Harvard.
“O’er the stands of flaming Crimson the Harvard banners fly”, entoavam eles, desafinados.
Joe tornou a apertar o botão para descer.
Um dos homens o encarou nos olhos, em seguida lançou um olhar cobiçoso para a bunda de Emma. Cutucou o companheiro enquanto os dois seguiam cantando: “Cheer on cheer like volleyed thunder echoes to the sky”.
Emma encostou a mão na lateral da sua. “Merda, merda, merda”, falou.
Ele tornou a apertar o botão.
Um garçom irrompeu com estardalhaço pelas portas duplas da cozinha à sua esquerda, segurando uma imensa bandeja suspensa em frente ao corpo. Passou a um metro de onde eles estavam, mas não olhou na sua direção.
Os universitários tinham passado, mas eles ainda podiam escutá-los: “Then fight, fight, fight! For we win tonight”.
Emma estendeu a mão na sua frente e apertou o botão para descer.
“Old Harvard forevermore!”
Joe cogitou passar pela cozinha, mas desconfiou que aquilo fosse um anexo, com no máximo um garçom estúpido para trazer os pratos da cozinha principal, dois andares abaixo. Pensando bem, o mais inteligente teria sido Emma ir encontrá-lo, não o contrário. Se ao menos tivesse pensado com clareza, mas não conseguia se lembrar da última vez em que fizera tal coisa.
Estendeu a mão para apertar o botão outra vez, mas então ouviu o elevador subindo na sua direção.
“Se tiver alguém, vire as costas para eles”, instruiu. “Vão estar com pressa.”
“Não depois que virem as minhas costas”, retrucou ela, e apesar do peso da preocupação ele sorriu.
O elevador chegou e ele aguardou, mas as portas permaneceram fechadas. Contou cinco batidas do próprio coração. Abriu a grade metálica. Puxou a porta e se deparou com o elevador vazio. Olhou por cima do ombro para Emma. Ela entrou na frente e ele a seguiu. Fechou a grade, depois a porta. Acionou a alavanca, e começaram a descer.
Ela encostou a palma da mão no seu pau, que endureceu na mesma hora enquanto ela tapava a boca dele com a sua. Joe enfiou a mão livre por baixo de seu vestido e no meio do calor entre as coxas, e ela soltou um gemido em sua boca. As lágrimas dela molharam as bochechas de Joe.
“Por que você está chorando?”
“Porque talvez eu ame você.”
“Talvez?”
“É.”
“Então ria.”
“Não consigo, não consigo”, disse ela.
“Sabe a rodoviária na St. James Avenue?”
Ela estreitou os olhos para ele. “Hã? Claro. É claro que sei.”
Ele depositou a chave do escaninho em sua mão. “Se alguma coisa acontecer.”
“O quê?”
“Entre aqui e a liberdade.”
“Não, não, não, não”, disse ela. “Não, não. Fique você com isso. Eu não quero.”
Ele recusou a sugestão com um gesto. “Ponha dentro da bolsa.”
“Joe, eu não quero isso.”
“É dinheiro.”
“Eu sei o que é e não quero.” Ela tentou lhe entregar a chave, mas ele manteve as mãos erguidas bem alto.
“Fique com ela.”
“Não”, disse Emma. “Nós vamos gastar esse dinheiro juntos. Eu estou com você agora. Estou com você, Joe. Pegue a chave.”
Ela tentou lhe entregar a chave outra vez, mas eles já tinham chegado ao subsolo.
A janela na porta do elevador estava escura, pois por algum motivo as luzes não foram acesas.
Não estavam apagadas por “algum” motivo, entendeu Joe. Só havia um motivo possível.
Estendeu a mão para a alavanca ao mesmo tempo que a grade foi aberta com violência pelo lado de fora e Brendan Loomis pôs o braço dentro do elevador e o puxou pela gravata. Ele tirou a pistola de Joe da base das costas e a fez deslizar pelo chão de cimento para dentro da escuridão. Então o socou no rosto e na lateral da cabeça mais vezes do que Joe foi capaz de contar, e tudo aconteceu tão depressa que Joe mal conseguiu erguer as mãos.
Quando o fez, esticou-as para trás na direção de Emma, pensando que de alguma forma fosse conseguir protegê-la. Brendan Loomis, porém, tinha o punho feito o martelo de um açougueiro. A cada vez que este acertava a cabeça de Joe — pá-pá-pá-pá —, ele sentia o cérebro se anestesiar e a visão embranquecer. Seus olhos escorregaram para dentro desse branco, sem conseguir focar em coisa alguma. Ele ouviu o próprio nariz se quebrar, e então — pá-pá-pá — Loomis o acertou no mesmo ponto mais três vezes.
Quando Loomis soltou sua gravata, Joe caiu de quatro no chão de cimento. Ouviu uma série de pingos regulares, como torneiras mal fechadas, abriu os olhos e viu o próprio sangue pingando no cimento, gotas do tamanho de moedas de um centavo, mas que se acumularam bem depressa até se transformar em amebas, e de amebas, em poças. Virou a cabeça para ver se por acaso, de algum jeito, Emma teria usado o tempo da surra para fechar a porta do elevador e fugir dali, mas o elevador não estava onde ele o havia deixado, ou então ele não estava onde havia deixado o elevador, pois tudo o que viu foi uma parede de cimento.
Foi então que Brendan Loomis lhe desferiu um chute na barriga forte o suficiente para erguê-lo do chão. Quando ele aterrissou, em posição fetal, não conseguiu respirar. Arquejou tentando sorver o ar, mas este não veio. Tentou ficar de joelhos, mas as pernas não o sustentaram, então ele usou os cotovelos para erguer o peito do cimento e pôs-se a arquejar feito um peixe para tentar fazer algum ar descer pela traqueia, mas constatou que o próprio peito parecia uma pedra preta, sem aberturas, sem fendas, sem nada ali a não ser a pedra e sem espaço para nenhuma outra coisa, pois não conseguia respirar nem por um caralho.
A pressão foi subindo por seu esôfago como o sifão de uma caneta-tinteiro, apertou seu coração, esmagou os pulmões, fechou a garganta, mas então, por fim, passou pelas amígdalas de uma só vez e saiu pela boca. Trouxe um assobio em seu encalço, um assobio e vários arquejos, mas tudo bem, não tinha problema, pois ele conseguia respirar de novo, finalmente conseguia respirar.
Loomis lhe deu um chute na virilha, por trás.
Joe pressionou a cabeça no chão de cimento e tossiu, e talvez tenha até vomitado, não saberia dizer, pois a dor foi algo que não poderia ter imaginado até então. Seus testículos foram parar dentro dos intestinos; labaredas lamberam as paredes do estômago; o coração pôs-se a bater tão depressa que com certeza iria parar em breve, tinha de parar; parecia que alguém havia fendido seu crânio com as mãos; seus olhos sangraram. Ele vomitou, vomitou com certeza, vomitou bile e fogo pelo chão. Pensou que tivesse acabado, mas então vomitou outra vez. Caiu de costas no chão e ergueu os olhos para Brendan Loomis.
“Você está mesmo...”, Loomis acendeu um cigarro, “uma lástima.”
Brendan se balançava de um lado para o outro junto com o espaço à sua volta. Joe permaneceu onde estava, mas tudo o mais parecia preso a um pêndulo. Brendan olhou para Joe caído no chão enquanto sacava um par de luvas pretas e flexionava os dedos dentro delas até o caimento ficar do seu agrado. Albert White apareceu ao seu lado, preso ao mesmo pêndulo, e ambos baixaram os olhos para Joe.
“Infelizmente, acho que vou ter que transformar você em um recado”, disse Albert.
Joe olhou para cima e, através do sangue nos olhos, viu Albert de casaca branca.
“Para todo mundo por aí que achar que não tem problema ignorar o que eu digo.”
Joe tentou localizar Emma, mas o balanço e os rodopios eram tão fortes que não conseguiu encontrar o elevador.
“Não vai ser um recado agradável”, disse Albert White. “Lamento muito por isso.” Albert se agachou em frente a Joe com uma expressão triste e cansada no rosto. “Minha mãe sempre dizia que nada acontece sem motivo. Não tenho certeza de que tivesse razão, mas de fato penso que as pessoas muitas vezes acabam se tornando o que deveriam ser. Eu achava que devia virar policial, mas aí a prefeitura tirou meu emprego e virei isto que sou agora. E na maioria das vezes o que eu sou não me agrada, Joe. Para falar a verdade, eu odeio essa porra, mas não posso negar que é um talento natural. O que eu sou se encaixa comigo. No seu caso, infelizmente, o seu talento é fazer cagada. Tudo o que você tinha de fazer era fugir, mas não fugiu. E tenho certeza... olhe para mim.”
Os olhos de Joe tinham se desviado para a esquerda. Ele os trouxe de volta e encarou o olhar bondoso de Albert.
“Tenho certeza de que, quando estiver morrendo, dirá a si mesmo que agiu por amor.” Ele abriu um sorriso pesaroso para Joe. “Mas não foi por isso que você fez cagada. Você fez cagada porque essa é a sua natureza. Porque bem lá no fundo você se sente culpado pelo que faz, então quer ser pego. Na área em que atuamos, porém, é preciso encarar nossa culpa ao fim de cada noite. Manuseá-la, formar com ela uma bola. E depois jogá-la no fogo. Só que você, você não faz isso, então passou a sua curta vida inteira esperando alguém vir puni-lo pelos seus pecados. Bem, esse alguém sou eu.”
Albert se levantou de onde estava agachado, e o foco de Joe se desfez por alguns instantes, transformando tudo em um borrão. Ele viu um clarão prateado, depois outro, e estreitou os olhos até o borrão ficar mais nítido e tudo entrar em foco outra vez.
E desejou que não tivesse entrado.
Albert e Brendan ainda cintilavam de leve, mas o pêndulo havia desaparecido. Emma estava em pé ao lado de Albert, com a mão em seu braço.
Joe passou alguns instantes sem entender. E então entendeu.
Ergueu os olhos para Emma, e o que iriam fazer com ele passou a não ter importância. Já não se importava em morrer, pois viver era doloroso demais.
“Eu sinto muito”, sussurrou ela. “Sinto muito.”
“Ela sente muito”, disse Albert White. “Todos nós sentimos muito.” Albert gesticulou em direção a alguém que Joe não via. “Tire ela daqui.”
Um cara parrudo de casaco de lã grosseira aberto na frente e um gorro enfiado por cima da testa segurou Emma pelo braço.
“Você falou que não o mataria”, disse Emma a Albert.
Este deu de ombros.
“Albert”, insistiu Emma. “Foi esse o acordo.”
“E eu vou honrá-lo”, disse Albert. “Não se preocupe.”
“Albert”, repetiu ela, e sua voz engasgou na garganta.
“Sim, meu bem?”, a voz de Albert estava excessivamente calma.
“Eu nunca o teria trazido até aqui se...”
Albert lhe deu um tapa na cara com uma das mãos enquanto usava a outra para alisar a camisa. Um tapa forte o suficiente para ferir os lábios dela.
Então baixou os olhos para a própria camisa. “Acha que você está segura? Acha que vou ser humilhado por uma puta? Você está crente que estou gamado por você. Talvez ontem estivesse, mas passei a noite em claro. E já substituí você. Entendeu? Vai ver só.”
“Você disse...”
Albert limpou o sangue dela em sua mão com um lenço. “Ponha ela na porra do carro, Donnie. Agora, Donnie.”
O cara parrudo envolveu Emma em um abraço de urso e começou a andar de costas. “Joe! Por favor, não o machuque mais. Joe, eu sinto muito. Sinto muito.” Ela gritava, chutava e arranhava a cabeça de Donnie. “Joe, eu te amo! Eu te amo!”
A grade se fechou com um baque, e o elevador subiu para longe do subsolo.
Albert se agachou ao lado de Joe e pôs um cigarro entre seus lábios. Um fósforo se acendeu, o fumo estalou, e Albert disse: “Trague. Vai recuperar os sentidos mais depressa”.
Joe tragou. Durante um minuto, ficou sentado no chão fumando, com Albert agachado ao seu lado fumando o próprio cigarro e Brendan Loomis em pé, observando.
“O que vai fazer com ela?”, perguntou Joe quando teve certeza de que conseguia falar.
“Com ela? Ela acaba de apunhalar você pelas costas.”
“Por um bom motivo, aposto.” Olhou para Albert. “Foi por um bom motivo, não foi?”
Albert deu uma risadinha. “Você é mesmo um jeca, não é?”
Joe arqueou a sobrancelha machucada, e o sangue escorreu para dentro de seus olhos. Ele o limpou. “O que vai fazer com ela?”
“Deveria estar mais preocupado com o que vou fazer com você.”
“E estou”, admitiu Joe, “mas quero saber o que vai fazer com ela.”
“Ainda não sei.” Albert deu de ombros, tirou um pedacinho de fumo da língua e dispensou com um piparote. “Mas você, Joe, você vai ser o recado.” Virou-se para Brendan. “Levante ele do chão.”
“Que recado?”, indagou Joe enquanto Brendan Loomis passava os braços debaixo dele por trás e o erguia até ele ficar de pé.
“O que aconteceu com Joe Coughlin é o que vai acontecer com quem desagradar a Albert White e sua gangue.”
Joe não disse nada. Nada lhe ocorreu. Tinha vinte anos de idade. Era tudo o que conseguiria desse mundo — vinte anos. Não chorava desde os catorze, mas foi preciso um esforço descomunal para encarar os olhos de Albert e não perder o controle e implorar pela própria vida.
A expressão de Albert se fez mais suave. “Não posso deixar você vivo, Joe. Se conseguisse ver algum jeito de fazer isso, eu tentaria. E não tem nada a ver com a garota, se isso for algum consolo. Posso arrumar putas em qualquer lugar. Tenho uma novinha e bonita esperando por mim assim que eu terminar de cuidar de você.” Ele passou alguns instantes estudando as próprias mãos. “Mas você atacou uma cidade pequena e roubou sessenta mil dólares sem o meu consentimento, e deixou três policiais mortos. Isso faz uma chuva de merda desabar em cima de todos nós. Porque agora todos os policiais da Nova Inglaterra acham que os gângsteres de Boston são uns cachorros loucos, a serem abatidos como cachorros loucos. E eu preciso fazer todo mundo entender que isso simplesmente não é verdade.” Ele falou com Loomis. “Onde está Bones?”
Bones era Julian Bones, outro capanga de Albert.
“No beco, com o motor ligado.”
“Vamos.”
Albert foi na frente até o elevador, abriu a grade, e Brendan Loomis arrastou Joe para dentro.
“Vire-o.”
Joe foi girado sem sair do lugar, e o cigarro caiu de sua boca quando Loomis o segurou pela nuca e empurrou seu rosto de encontro à parede. Puxaram suas mãos até as costas. Uma corda áspera envolveu seus pulsos, e Loomis a apertou a cada volta antes de amarrar as pontas. Joe, de certa forma um especialista no assunto, sabia distinguir um bom nó quando o sentia. Mesmo que eles o deixassem sozinho ali naquele elevador e só voltassem em abril, ele não teria conseguido se soltar.
Loomis tornou a virá-lo antes de ir acionar a alavanca, e Albert sacou outro cigarro de uma cigarreira de estanho, colocou-o entre os lábios de Joe e acendeu. À luz do fósforo, Joe pôde ver que Albert não estava obtendo prazer nenhum daquilo tudo e que, quando ele estivesse afundando em direção ao leito do rio Mystic com uma corda de couro em volta do pescoço e sacos cheios de pedra amarrados nos tornozelos, Albert iria lamentar o preço de fazer negócios em um mundo sujo.
Pelo menos por uma noite.
No térreo, eles saíram do elevador e desceram um corredor de serviço vazio, aonde o barulho da festa chegava através das paredes — um duelo de pianos, o naipe de sopros tocando a plenos pulmões, muitas e alegres risadas.
Chegaram à porta no final do corredor. A palavra entregas fora escrita no centro com tinta amarela fresca.
“Vou checar se o caminho está livre.” Loomis abriu a porta para uma noite de março que agora havia esfriado bastante. Uma leve garoa caía, fazendo as escadas de incêndio de ferro exalarem um cheiro de papel-alumínio. Joe sentiu também o cheiro do prédio, do revestimento novo da fachada, como se a poeira de calcário levantada pelas furadeiras ainda pairasse no ar.
Albert virou Joe de frente para ele e ajeitou sua gravata. Lambeu as palmas das duas mãos e alisou os cabelos de Joe. Parecia perdido. “Eu nunca quis crescer e me tornar um homem que mata pessoas para manter a margem de lucro, mas é isso que sou. Nunca consigo ter uma noite de sono decente... porra, Joe, umazinha sequer. Acordo com medo todos os dias, e é do mesmo jeito que deito a cabeça no travesseiro à noite.” Ele ajeitou o colarinho de Joe. “E você?”
“Hã?”
“Já quis ser alguma outra coisa?”
“Não.”
Albert catou alguma coisa do ombro de Joe e jogou longe com o dedo. “Falei para ela que, se ela nos entregasse você, não iria matá-lo. Ninguém mais acreditava que você teria a burrice de aparecer aqui hoje, mas eu quis me garantir. Então ela aceitou me levar até você para salvá-lo. Ou pelo menos foi o que disse a si mesma. Mas você e eu sabemos que eu preciso matá-lo, não é, Joe?” Ele o fitou com olhos tomados de pesar, luzidios de umidade. “Não é?”
Joe aquiesceu.
Albert também aquiesceu. Inclinando-se para a frente, sussurrou no ouvido de Joe: “E depois vou matá-la também”.
“O quê?”
“Porque eu também a amava.” Albert levantou e abaixou as sobrancelhas. “E porque sabe qual era o único jeito de você conseguir a informação para assaltar minha mesa de pôquer naquela manhã específica? Se ela tivesse lhe dado a dica.”
“Espere aí”, disse Joe. “Olhe. Ela não me deu dica nenhuma.”
“E o que mais você iria dizer?” Albert ajeitou seu colarinho, alisou sua camisa. “Pense da seguinte forma... se o amor dos dois pombinhos for de verdade? Então vão se encontrar hoje à noite no céu.”
Ele enterrou um punho na barriga de Joe, fazendo-o afundar até o plexo solar. Joe dobrou o corpo e tornou a ficar sem ar. Deu um tranco na corda que lhe prendia os pulsos e tentou acertar Albert com uma cabeçada, mas este só fez afastar seu rosto com um tapa e abrir a porta que dava para o beco.
Segurando Joe pelos cabelos, endireitou-lhe o corpo, de modo que Joe pôde ver o carro à sua espera, com a porta de trás aberta e Julian Bones postado ao lado. Loomis atravessou o beco, segurou Joe pelo cotovelo, e os dois o arrastaram pela porta. Joe sentiu o cheiro do piso do banco de trás. Um cheiro de trapos embebidos em óleo e de terra.
Bem na hora em que estavam prestes a colocá-lo dentro do carro, deixaram-no cair. Ele desabou de joelhos nas pedras do calçamento e ouviu Albert gritar: “Vai! Vai! Vai!” Ouviu também seus passos nas pedras do calçamento. Talvez eles já tivessem lhe dado um tiro na nuca, porque o céu desceu sobre ele na forma de barras de luz.
Seu rosto se saturou de branco, os prédios do beco explodiram em azul e vermelho, pneus cantaram, alguém gritou alguma coisa por um megafone e outro alguém disparou uma arma, depois outra arma.
Um homem atravessou a luz branca em direção a Joe, um homem esbelto e seguro de si, um homem que usava o poder como se fosse um sinal de nascença.
Seu pai.
Outros homens surgiram do branco atrás dele, e Joe logo se viu rodeado por uma dezena de agentes do Departamento de Polícia de Washington.
Seu pai inclinou a cabeça de lado. “Quer dizer então, Joseph, que você agora mata policiais.”
“Eu não matei ninguém”, disse Joe.
Seu pai ignorou a resposta. “Parece que os seus cúmplices estavam prestes a levar você para um passeio da morte. Concluíram que você era um risco grande demais, foi isso?”
Vários dos policiais haviam sacado os cassetetes.
“Emma está na traseira de um carro. Eles vão matá-la.”
“Eles quem?”
“Albert White, Brendan Loomis, Julian Bones e um cara chamado Donnie.”
Nas ruas próximas ao beco, várias mulheres gritaram. A buzina de um carro soou, seguida pelo baque sólido de uma batida. Mais gritos. No beco, a garoa se transformou em toró.
O pai de Joe olhou para seus homens, depois de novo para o filho. “Um pessoal de categoria esse com quem você convive, filho. Mais alguma história da carochinha para me contar?”
“Não é história da carochinha.” Joe cuspiu sangue pela boca. “Pai, eles vão matá-la.”
“Bom, já nós não vamos matar você, Joe. Na verdade, eu não vou nem tocar em você. Mas alguns dos meus colegas gostariam de dar uma palavrinha.”
Thomas Coughlin se inclinou para a frente, mãos nos joelhos, e encarou o filho.
Em algum lugar por trás daquele olhar de ferro vivia um homem que havia passado três dias dormindo no chão do quarto de hospital de Joe quando este tivera uma febre em 1911, que havia lido para ele cada um dos oito jornais da cidade, de cabo a rabo, que lhe havia dito que o amava, que lhe havia dito que, se Deus quisesse o seu filho, teria de passar por cima dele, Thomas Xavier Coughlin, e Deus com certeza devia saber que dura tarefa isso poderia se tornar.
“Pai, escute. Ela está...”
Seu pai cuspiu na sua cara.
“Ele é todo seu”, falou para seus homens, e afastou-se.
“Encontre o carro!”, gritou Joe. “Encontre Donnie! Ela está em um carro com Donnie!”
O primeiro golpe — um punho — acertou a mandíbula de Joe. O segundo, que ele teve quase certeza foi desferido com um cassetete, o acertou na têmpora. Depois disso, toda a luz desapareceu da noite.