Os Filhos da Noite

Dennis Lehane · Capítulo 11 de 29

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Os Filhos da Noite

Capítulo 11

 

YBOR 1929-33

11

O MELHOR DA CIDADE

 

A primeira vez que Maso propôs a Joe assumir suas operações no oeste da Flórida, havia lhe avisado sobre o calor. Mesmo assim, Joe não estava preparado para o muro escaldante com o qual se deparou ao saltar na plataforma da estação ferroviária de Tampa em uma manhã de agosto de 1929. Estava usando um terno de verão xadrez príncipe de gales. Havia deixado o colete dentro da mala, mas ali na plataforma, enquanto esperava o carregador trazer sua bagagem com o paletó pendurado no braço e a gravata afrouxada, bastou o tempo de fumar um cigarro para ficar ensopado de suor. Havia tirado o chapéu Wilton ao descer do trem, com medo de o calor derreter a brilhantina dos cabelos e de esta se entranhar no forro de seda, mas tornou a colocá-lo para proteger a cabeça das garras do sol enquanto novos poros de seu peito e braços começavam a vazar.

Não era apenas o sol, pendurado bem alto e muito branco em um céu tão desprovido de nuvens que era como se nuvens jamais houvessem existido (e talvez não existissem mesmo ali; Joe não fazia a menor ideia), mas também a umidade digna de uma selva, como se ele estivesse envolto em uma bola de palha de aço que alguém tivesse jogado dentro de uma panela de óleo. E a cada poucos minutos o fogo era aumentado mais um pouco.

Assim como Joe, os outros homens que haviam descido do trem também tiraram o paletó; alguns haviam tirado o colete e a gravata e arregaçado as mangas da camisa. Alguns haviam colocado o chapéu; outros o haviam tirado e abanavam o rosto com ele. As passageiras usavam chapéus de veludo com abas largas, cloches de feltro ou chapéus de palha com largas viseiras. Algumas pobres coitadas haviam optado por materiais ainda mais pesados e abas cobrindo as orelhas. Usavam vestidos de crepe e xales de seda, mas não pareciam muito contentes com isso: tinham o rosto vermelho, os cabelos cuidadosamente penteados cheios de brechas e cachos, e coques se desmilinguiam em algumas nucas.

Era fácil distinguir os moradores locais — os homens usavam chapéus de palha, camisas de manga curta e calças de gabardine. Seus sapatos eram bicolores como o da maioria dos homens de agora, mas tinham cores mais vivas que os dos passageiros do trem. Quando as mulheres usavam algo na cabeça, eram chapelões de palha. Os vestidos eram bem simples e usava-se muito branco, como a moça que passava por ele agora: não havia absolutamente nada de especial em suas saia e blusa brancas, ambas um pouco puídas. Mas meu Deus, pensou Joe, que corpo debaixo daquela roupa: ele se movia sob o tecido fino como algo proibido torcendo para conseguir sair da cidade antes de os puritanos ficarem sabendo. O paraíso, pensou Joe, é escuro, luxuriante, e recobre membros que se movem feito água.

O calor devia tê-lo tornado mais lento que de costume, porque a mulher o pegou olhando, algo que jamais acontecera com ele em Boston. Mas a mulher — uma mulata, ou quem sabe até uma negra de algum tipo, ele não saberia dizer, mas com certeza de pele escura, escura feito cobre — lhe lançou uma olhadela repressora e seguiu andando. Talvez tenha sido o calor, ou talvez tenham sido os dois anos na prisão, mas Joe não conseguiu parar de observá-la se mover por baixo da roupa fina. Os quadris subiam e desciam na mesma cadência lânguida de sua bunda, e havia certa música na forma como os ossos e músculos das costas subiam e desciam, como uma sinfonia do corpo. Meu Deus, pensou ele, passei tempo demais na prisão. Os cabelos pretos e crespos da mulher estavam presos em um coque atrás da cabeça, mas uma solitária mecha descia pelo pescoço. Ela se virou para fitá-lo com fúria. Ele baixou os olhos antes de aquele olhar o alcançar, sentindo-se um menino de nove anos de idade surpreendido puxando a maria-chiquinha de uma menina no pátio da escola. Então se perguntou do que deveria sentir vergonha. Ela havia olhado para trás, não havia?

Quando tornou a levantar os olhos, a mulher havia se perdido na multidão perto da outra ponta da plataforma. Você não tem nada a temer de mim, quis dizer a ela. Nunca vai partir meu coração nem eu o seu. Já me aposentei do ramo dos corações partidos.

Joe havia passado os últimos dois anos aceitando não apenas o fato de Emma estar morta, mas de que, para ele, jamais haveria nenhum outro amor. Algum dia talvez viesse a se casar, mas seria um arranjo sensato, previsto para fazê-lo ascender na profissão e lhe proporcionar herdeiros. Adorava o conceito que essa palavra evocava — herdeiros. (Homens da classe trabalhadora tinham filhos. Homens bem-sucedidos tinham herdeiros.) Enquanto isso, recorreria às putas. Talvez a mulher que havia acabado de lhe lançar o olhar repressor fosse uma puta bancando a casta. Nesse caso, ele com certeza iria experimentá-la — uma linda puta mulata, perfeita para um príncipe do crime.

Quando o carregador depositou a bagagem de Joe na sua frente, ele lhe deu uma gorjeta composta de notas agora tão úmidas quanto todo o resto. Disseram-lhe que alguém viria aguardar seu trem, mas ele não se lembrara de perguntar como iriam identificá-lo no meio da multidão. Virou-se devagar, à procura de um homem que aparentasse má reputação suficiente, mas em vez disso viu a mulata descendo a plataforma outra vez na sua direção. Uma segunda mecha de cabelos caía por sua têmpora, e ela a afastou da bochecha com a mão livre. O outro braço estava preso ao de um rapaz latino de chapéu de palha, calça de seda parda com vincos longos e marcados, e uma camisa branca sem colarinho abotoada até o pescoço. Apesar do calor, seu rosto estava seco, bem como a camisa, mesmo no alto, onde o botão fechado apertava com força o pomo de adão. Ele se movia com o mesmo gingado suave da mulher; algo nas canelas e nos tornozelos, embora os passos em si fossem tão precisos que os pés chegavam a estalar na plataforma.

Os dois passaram por Joe falando espanhol, um fluxo leve e veloz de palavras, e a mulher lançou a Joe um olhar muito rápido, tão rápido que ele poderia tê-lo imaginado, embora duvidasse. O homem apontou para algo mais adiante na plataforma e disse alguma coisa em seu espanhol acelerado, e os dois riram, e então passaram por ele.

Joe estava se virando para dar mais uma olhada em busca de quem quer que estivesse indo apanhá-lo quando alguém fez exatamente isso — levantou-o da plataforma como se ele não pesasse mais do que uma trouxa de roupa. Ele baixou os olhos para os dois braços carnudos que lhe cingiam o tronco e sentiu um cheiro conhecido de cebolas cruas e água-de-colônia Arabian Sheik.

Foi largado de volta na plataforma, virou-se, e se viu cara a cara com seu velho amigo pela primeira vez desde aquele dia terrível em Pittsfield.

“Dion”, falou.

Dion deixara de ser rechonchudo para se tornar corpulento. Usava um terno champanhe risca de giz com quatro botões. A camisa lilás tinha um colarinho branco alto contrastante, usado por cima de uma gravata vermelho-sangue listrada de preto. As botinas pretas e brancas tinham cadarços que passavam dos tornozelos. Se você pedisse a um velho já meio cego para identificar o gângster da plataforma a cem metros de distância, era para Dion que ele apontaria o dedo trêmulo.

“Joseph”, disse ele com uma formalidade rígida, e então seu rosto redondo se desfez em um largo sorriso e ele tornou a levantar Joe do chão, desta vez pela frente, e lhe deu um abraço tão apertado que Joe temeu pela própria coluna.

“Sinto muito pelo seu pai”, sussurrou Dion.

“Sinto muito pelo seu irmão.”

“Obrigado”, respondeu Dion com estranha animação. “Tudo por causa de presunto enlatado.” Ele soltou Joe e sorriu. “Eu teria comprado porcos só para ele.”

Os dois começaram a descer a plataforma em meio ao forte calor.

Dion pegou uma das malas de Joe para carregá-la. “Quando Lefty Downer me achou lá em Montreal e me disse que os Pescatore queriam que eu viesse trabalhar para eles, pensei que fosse armação, juro a você. Mas aí eles disseram que você estava cumprindo pena com o velho, e eu pensei: ‘Se alguém é capaz de enfeitiçar o diabo em pessoa, é meu antigo companheiro’. Ele acertou os ombros de Joe com um tapa do braço grosso. “Que ótimo ter você de volta.”

“É bom estar livre”, comentou Joe.

“Charlestown foi...?”

Joe aquiesceu. “Talvez até pior do que dizem. Mas arrumei um jeito de tornar o lugar possível de viver.”

“Aposto que arrumou.”

No estacionamento, o calor estava ainda mais incandescente. Irradiava-se do chão de concha moída e dos carros, e Joe ergueu uma das mãos para proteger os olhos, mas não adiantou muito.

“Caramba, e você com esse terno de três peças”, falou para Dion.

“O segredo é o seguinte”, disse Dion enquanto chegavam perto de um Marmon 34 e ele largava a mala de Joe no chão de concha moída. “Da próxima vez que for a uma loja de departamentos, compre todas as camisas do seu tamanho. Eu uso quatro por dia.”

Joe espiou sua camisa lilás. “Conseguiu achar quatro dessa cor?”

“Oito.” Ele abriu a porta de trás do carro e acomodou a bagagem de Joe lá dentro. “São só alguns quarteirões, mas com este calor...”

Joe estendeu a mão para a porta do carona, mas Dion se adiantou para fazê-lo. Joe o encarou. “Está de sacanagem comigo.”

“Eu agora trabalho para você”, respondeu Dion. “Patrão Joe Coughlin.”

“Pare com isso.” Joe balançou a cabeça diante do absurdo da situação e entrou no carro.

Quando estavam saindo do estacionamento da estação, Dion falou: “Ponha a mão debaixo do banco. Vai encontrar um amigo”.

Joe obedeceu, e sua mão voltou trazendo uma pistola automática Savage calibre 32. Medalhões com efígies de cabeças de índios no cabo e um cano de nove centímetros. Joe a enfiou no bolso direito da calça e disse a Dion que iria precisar de um coldre, sentindo uma leve irritação com o fato de Dion não ter se lembrado de trazer um consigo.

“Quer o meu?”, perguntou Dion.

“Não, tudo bem”, respondeu Joe.

“Pode ficar com o meu.”

“Não”, respondeu Joe, pensando que ser patrão iria exigir um período de adaptação. “Só vou precisar de um logo.”

“No fim do dia”, falou Dion. “No máximo, prometo.”

Como tudo o mais por ali, o tráfego avançava lentamente. Dion os conduziu até Ybor City. Ali, o céu perdeu o branco ofuscante e adquiriu um tom de bronze causado pela fumaça das fábricas. Dion explicou que os charutos eram o esteio daquele bairro. Apontou para prédios de tijolo com altas chaminés e para as construções menores — algumas não passavam de casinhas de cômodos corridos com as portas da frente e de trás abertas —, onde trabalhadores curvados acima de mesas enrolavam charutos.

Foi recitando nomes — El Reloj e Cuesta-Rey, Bustillo, Celestino Vega, El Paraiso, La Pila, La Trocha, El Naranjal, Perfecto Garcia. Disse a Joe que o cargo mais cobiçado em uma fábrica era o de leitor, o sujeito que ficava sentado em uma cadeira no meio do chão de fábrica lendo romances famosos em voz alta enquanto os operários trabalhavam. Explicou que um fabricante de charutos se chamava tabaquero, as fábricas menores eram chinchals, palavra que também designava um tipo de barco, e a comida cujo cheiro ele talvez estivesse conseguindo sentir em meio ao fedor da fumaça devia ser bolos ou empanadas.

“Veja só você.” Joe deu um assobio. “Falando espanhol feito o rei da Espanha.”

“Por aqui é necessário”, respondeu Dion. “E italiano também. É melhor você se reciclar.”

“Você fala italiano, meu irmão falava, mas eu nunca aprendi.”

“Bom, espero que ainda aprenda tão rápido quanto antes. O motivo que nos faz conseguir tocar nossos negócios aqui em Ybor é porque o resto da cidade simplesmente nos deixa em paz. Para eles, nós não passamos de uns cucarachos e carcamanos imundos e, contanto que não criemos confusão demais e que os tabaqueiros não tornem a fazer greve para obrigar os donos das fábricas a chamarem a polícia e brutamontes para baterem nas pessoas, podemos fazer o que fazemos em paz.” Ele dobrou na Sétima Avenida, que parecia ser uma via principal: pedestres passavam pelas calçadas feitas de tábuas de madeira junto a prédios de dois andares com largas varandas, treliças de ferro forjado e fachadas de tijolo ou estuque que fizeram Joe recordar o fim de semana de bebedeira passado em Nova Orleans alguns anos antes. Trilhos corriam pelo centro da avenida, e ele viu um bonde vir na sua direção a vários quarteirões de onde estavam, o nariz desaparecendo e tornando a aparecer atrás de ondas de calor.

“Era de imaginar que a gente fosse se dar bem”, prosseguiu Dion, “mas nem sempre é assim que funciona. Os italianos e cubanos só convivem entre si. Mas os cubanos negros detestam os cubanos brancos, os cubanos brancos consideram os cubanos negros uns crioulos, e ambos esnobam todos os outros. Todos os cubanos odeiam os espanhóis. Os espanhóis consideram os cubanos uns negrinhos arrogantes que esqueceram seu lugar desde que foram libertados pelos Estados Unidos em 98. Os cubanos e os espanhóis desprezam os porto-riquenhos, e todo mundo caga na cabeça dos dominicanos. Os italianos só respeitam quem veio da bota de navio, e os americanos acham que de vez em quando alguém dá bola para o que eles pensam.”

“Você realmente nos chamou de americanos?”

“Eu sou italiano”, disse Dion, virando à esquerda e descendo por outra larga avenida, embora esta ainda não fosse asfaltada. “E sabe que por aqui tenho orgulho de ser?”

Joe viu o azul do golfo, os barcos no porto e os altos guindastes. Sentiu cheiro de sal, manchas de óleo, maré vazante.

“O porto de Tampa”, informou Dion com um floreio da mão enquanto os fazia percorrer ruas de tijolos vermelhos nas quais homens cruzavam seu caminho dirigindo empilhadeiras que cuspiam fumaça de óleo diesel, e os guindastes movimentavam pallets de duas toneladas bem alto acima de suas cabeças, fazendo as sombras das redes quadricularem o para-brisa. Um vapor tocou seu apito.

Dion parou o carro em frente a uma área de descarga mais abaixo do cais, e os dois saltaram para observar os homens lá embaixo desmontarem uma pilha de sacos de juta marcados com as palavras ESCUINTIA, GUATEMALA. Pelo cheiro, Joe percebeu que alguns dos sacos continham café e outros, chocolate. A meia dúzia de homens os descarregou em dois tempos, o guindaste tornou a suspender a rede e o pallet vazio, e os homens lá embaixo desapareceram por uma porta que levava para dentro do local de armazenamento.

Dion conduziu Joe até a escada e desceu.

“Para onde estamos indo?”

“Você vai ver.”

Na área de descarga mais abaixo, os homens haviam fechado a porta atrás de si. Joe e Dion se viram em pé sobre um chão de terra batida que recendia a tudo o que jamais havia sido descarregado sob o sol de Tampa: bananas, abacaxis, cereais. Óleo, batatas, gás e vinagre. Pólvora. Frutas podres e café fresquinho, cujo pó estalava sob os sapatos. Dion encostou a palma da mão na parede de cimento oposta à escada, deslizou a mão para a direita e a parede foi junto — simplesmente deu uma subidinha e se soltou de uma junção que Joe não conseguia ver a pouco mais de meio metro de distância. Uma porta apareceu e Dion deu duas batidas nela e depois aguardou, movendo os lábios enquanto contava. Então deu mais quatro batidas na porta, e uma voz do outro lado falou:

“Quem é?”

“Lareira”, respondeu Dion, e a porta se abriu.

Eles se viram diante de um corredor tão fino quanto o homem do outro lado da porta, vestido com uma camisa que talvez tivesse sido branca antes de o suor a manchar para todo o sempre. Sua calça era de brim marrom, e ele usava um lenço em volta do pescoço e um chapéu de caubói. Um revólver de seis tiros aparecia no cós da calça de brim. O caubói meneou a cabeça para Dion e os deixou passar antes de empurrar a parede de volta para o lugar.

O corredor era tão estreito que os ombros de Dion roçavam nas paredes enquanto ele caminhava na frente de Joe. Luzes fracas pendiam de um cano preso ao teto, uma lâmpada nua a cada sete metros mais ou menos, metade queimada. Joe teve quase certeza de distinguir uma porta no final do corredor. Calculou que estivesse a uns quatrocentos e cinquenta metros de distância, o que significava que poderia muito bem estar imaginando a sua existência. Tiveram de andar por um chão coberto de lama, com água pingando do teto e empoçando no chão, e Dion explicou que os túneis muitas vezes alagavam; de tempos em tempos, eles encontravam um bêbado morto pela manhã, último dos desgarrados da noite anterior que decidira tirar um pouco recomendável cochilo.

“Sério?”, indagou Joe.

“Sério. E sabe o que é pior? Às vezes as ratazanas os encontram.”

Joe olhou em volta. “Isso deve ser a coisa mais horrível que escutei neste mês.”

Dion deu de ombros e seguiu andando, e Joe correu os olhos para cima e para baixo pelas paredes e depois pelo caminho à sua frente. Nenhuma ratazana. Ainda.

“O dinheiro do banco de Pittsfield”, disse Dion enquanto andavam.

“Está seguro”, respondeu Joe. Acima da cabeça, pôde ouvir o estalo das rodas de um bonde seguida pelas pancadas lentas e pesadas do que supôs ser um cavalo.

“Seguro onde?”, Dion olhou para ele por cima do ombro.

“Como eles sabiam?”, indagou Joe.

Acima deles, várias buzinas soaram e um motor acelerou.

“Sabiam o quê?”, perguntou Dion, e Joe reparou que ele havia ficado um pouco mais careca, os cabelos escuros ainda fartos e oleosos nas laterais mas ralos e tímidos no alto da cabeça.

“Onde nos emboscar.”

Dion tornou a olhar para trás na sua direção.

“Eles sabiam e pronto.”

“Não é possível eles ‘saberem e pronto’. Nós passamos semanas vigiando aquele lugar. A polícia nunca passava por lá porque não tinha motivo para isso... não havia nada para proteger nem ninguém para servir.”

Dion meneou a cabeçorra. “Bom, não fui eu quem falou.”

“Nem eu”, disse Joe.

Já perto do final do túnel, a porta se revelou feita de aço escovado com uma fechadura de segurança de ferro. Os ruídos da rua tinham cedido lugar ao tilintar distante de prataria e louça sendo empilhada, e a passos de garçons andando apressados para lá e para cá. Joe tirou do bolso o relógio do pai e o abriu: era meio-dia.

Dion sacou de algum lugar dentro da calça folgada um molho de chaves de tamanho considerável. Abriu as trancas da porta, afastou as barras que a prendiam e destrancou a fechadura de segurança. Tirou a chave do molho e a estendeu para Joe. “Fique com ela. Vai usar, pode ter certeza.”

Joe pôs a chave no bolso.

“De quem é este lugar?”

“Era de Ormino.”

“Era?”

“Ah, você não leu os jornais de hoje?”

Joe fez que não com a cabeça.

“Ormino levou uns tiros ontem à noite.”

Dion abriu a porta, e eles subiram uma escada até outra porta que estava destrancada. Abriram-na e adentraram um recinto amplo e úmido, com piso e paredes de cimento. Mesas margeavam as paredes, e em cima dessas mesas havia o que Joe já esperava ver: fermentadores e extratores, alambiques e bicos de Bunsen, béqueres, tonéis e utensílios de coar.

“O melhor que o dinheiro pode comprar”, disse Dion, apontando para termômetros afixados à parede e conectados aos destiladores por tubos de borracha. “Se quiser um rum suave, tem que remover a fração entre 75,5 e 85,5 graus centígrados. Isso é muito importante para evitar, você sabe, que as pessoas morram ao tomar sua birita. Esses termômetros não erram, eles...”

“Eu sei como se fabrica rum”, disse Joe. “Na verdade, D, depois de dois anos na prisão, você pode citar qualquer substância que eu vou saber recondensar. Provavelmente seria capaz de destilar as porras dos seus sapatos. O que eu não estou vendo aqui, porém, são duas coisas bastante essenciais para fabricar rum.”

“Ah, é?”, indagou Dion. “Que coisas?”

“Melaço e mão de obra.”

“Eu deveria ter dito antes: temos um problema nesse departamento”, falou Dion.

Os dois atravessaram um bar clandestino vazio, disseram “lareira” diante de outra porta fechada e entraram na cozinha de um restaurante italiano localizado na East Palm Avenue. Passaram pela cozinha e entraram no salão, onde encontraram uma mesa perto da rua e próxima a um ventilador alto e preto tão pesado que pareciam ser necessários três homens e um boi para tirá-lo do lugar.

“Nosso distribuidor não está conseguindo mercadoria.” Dion desdobrou o guardanapo e o enfiou no colarinho da camisa, alisando-o por cima da gravata.

“Estou vendo”, disse Joe. “Por quê?”

“Pelo que ouvi dizer, os barcos têm afundado.”

“Quem é o distribuidor mesmo?”

“Um cara chamado Gary L. Smith.”

“Ellsmith?”

“Não”, disse Dion. “L. É a inicial do nome do meio dele. Ele insiste em ser chamado assim.”

“Por quê?”

“Mania de sulista.”

“Não seria mania de babaca?”

“É, pode ser.”

O garçom trouxe os cardápios e Dion pediu duas limonadas, garantindo a Joe que seriam as melhores que ele provaria na vida.

“Por que precisamos de um distribuidor?”, quis saber Joe. “Por que não estamos lidando direto com o fornecedor?”

“Bom, existem vários fornecedores. E são todos cubanos. Smith trata com cubanos para nós não precisarmos tratar. E ele também trata com os dixies.”

“Os transportadores.”

Dion aquiesceu enquanto o garçom trazia as limonadas.

“É, o pessoal local daqui até a Virgínia. São eles que transportam a mercadoria pela Flórida e para o norte pela costa.”

“Mas vocês têm perdido várias dessas cargas também.”

“É.”

“E quantos barcos mais podem ser afundados, quantos caminhões interceptados antes que a situação deixe de ser pura falta de sorte?”

“É”, repetiu Dion, pois aparentemente não conseguia pensar em mais nada para dizer.

Joe deu um gole em sua limonada. Não teve certeza de que fosse a melhor que já havia provado e, mesmo que fosse, era apenas limonada. Difícil se animar com a porra de uma limonada.

“Você seguiu as sugestões da minha carta?”

Dion aquiesceu. “Nos mínimos detalhes.”

“Quantos foram parar onde eu imaginei?”

“Uma alta porcentagem.”

Joe passou os olhos pelo cardápio em busca de algo que reconhecesse.

“Experimente o ossobuco”, aconselhou Dion. “É o melhor da cidade.”

“Para você tudo é ‘o melhor da cidade’”, disse Joe. “A limonada, os termômetros.”

Dion deu de ombros e abriu o seu cardápio. “Tenho um gosto refinado.”

“Ah, claro”, retrucou Joe. Fechando o cardápio, cruzou olhares com o garçom. “Vamos comer e depois fazer uma visitinha a Gary L. Smith.”

Dion estudou seu cardápio. “Vai ser um prazer.”

Sobre a mesa da sala de espera do escritório de Gary L. Smith estava disposta a edição matutina do Tampa Tribune. O cadáver de Lou Ormino era retratado dentro de um carro com vidraças estilhaçadas e assentos sujos de sangue. Em preto e branco, a fotografia da morte tinha o mesmo aspecto de todas elas: indigno. A manchete dizia:

CONHECIDO INTEGRANTE DO SUBMUNDO ASSASSINADO

“Você o conhecia bem?”

Dion assentiu. “Conhecia.”

“Gostava dele?”

Dion deu de ombros. “Não era um cara mau. Cortou as unhas dos pés em algumas reuniões, mas me deu um ganso de presente no Natal passado.”

“Vivo?”

Dion fez que sim. “Até eu chegar em casa, sim.”

“Por que Maso queria ele fora da jogada?”

“Ele não falou para você?”

Joe fez que não com a cabeça.

Dion deu de ombros. “Nem para mim.”

Durante um minuto, Joe não fez nada a não ser ouvir um relógio marcar os segundos e a secretária de Gary L. Smith virar as páginas rígidas da revista Photoplay. A secretária se chamava srta. Roe e tinha os cabelos escuros cortados bem curtos e levemente ondulados com a ajuda dos dedos. Usava uma blusa prateada de mangas curtas, abotoada na frente, com uma gravatinha de seda preta que caía por cima dos seios como uma prece atendida. Tinha um jeito de mal se mexer na cadeira — um rebolar quase imperceptível dos quadris — que fez Joe dobrar o jornal e começar a abanar o rosto.

Meu Deus, estou mesmo precisando transar, pensou.

Tornou a se inclinar para a frente. “Ele tem família?”

“Ele quem?

“Ele quem.”

“Lou? Tinha, sim.” Dion fez uma careta. “Por que está perguntando isso?”

“Só para saber.”

“Ele devia cortar as unhas dos pés na frente da família, também. Eles vão ficar contentes por não ter mais que varrer os pedaços.

O interfone sobre a mesa da secretária tocou e uma voz fina disse: “Srta. Roe, mande os garotos entrarem”.

Joe e Dion ficaram em pé.

“Garotos”, disse Dion.

“Garotos”, repetiu Joe, ajeitando os punhos da camisa e alisando os cabelos.

Gary L. Smith tinha dentes miúdos e quase tão amarelos como grãos de milho. Sorriu quando os dois entraram em sua sala e a srta. Roe fechou a porta atrás deles, mas não se levantou e tampouco sorriu com muita vontade. Atrás de sua mesa, persianas caribenhas bloqueavam a maior parte da luz do dia do oeste de Tampa, mas uma quantidade suficiente conseguia entrar para dar ao recinto um brilho cor de mel. Smith exibia o traje típico de um cavalheiro sulista: terno branco, camisa também branca e fina gravata preta. Observou-os sentar com um ar intrigado que Joe interpretou como medo.

“Quer dizer que os senhores são o novo achado de Maso.” Smith empurrou um umidor por cima da mesa na sua direção. “Sirvam-se. Os melhores charutos da cidade.”

Dion soltou um grunhido.

Joe recusou o umidor com um aceno, mas Dion pegou quatro charutos, guardou três no bolso e removeu a cabeça do quarto com uma mordida. Cuspiu-a na mão e a depositou na borda da mesa.

“Então, o que os trouxe até aqui?”

“Fui chamado para cuidar dos negócios de Lou Ormino por algum tempo.”

“Mas não é permanente”, disse Smith, acendendo o próprio charuto.

“Não é permanente o quê?”

“O senhor como substituto de Lou. Só estou dizendo isso porque o pessoal daqui gosta de lidar com gente conhecida, e ninguém conhece o senhor. Com todo o respeito.”

“Quem na organização o senhor sugeriria?”

Smith pensou um pouco. “Rickie Pozzetta.”

O nome fez Dion inclinar a cabeça. “Pozzetta não seria capaz de levar um cachorro até o hidrante.”

“Delmore Sears, então.”

“Outro idiota.”

“Bem, certo, então eu poderia assumir.”

“Não é má ideia”, disse Joe.

Gary L. Smith abriu os braços. “Só se os senhores acharem que sou a pessoa certa para esse trabalho.”

“É possível, mas precisamos saber por que os últimos três carregamentos foram atacados.”

“Os que estavam indo para o Norte, o senhor quer dizer?”

Joe aquiesceu.

“Falta de sorte”, respondeu ele. “É tudo em que consigo pensar. Acontece.”

“Então por que não mudam as rotas?”

Smith pegou uma caneta e rabiscou alguma coisa em um pedaço de papel. “Mas que boa ideia, sr. Coughlin.”

Joe aquiesceu.

“Uma ótima ideia. Com certeza vou pensar no assunto.”

Joe passou algum tempo olhando para o homem, vendo-o fumar enquanto a luz difusa entrava pelas venezianas e se espalhava pelo alto de sua cabeça; ficou olhando para ele até Smith começar a aparentar certo embaraço.

“Por que os carregamentos por mar têm sido tão irregulares?”

“Ah, isso é por causa dos cubanos”, respondeu Smith com facilidade. “Nós não temos controle nenhum sobre isso.”

“Há dois meses, o senhor recebeu catorze carregamentos em uma semana”, disse Dion, “três semanas depois foram cinco, na semana passada, nenhum.”

“Não é como misturar cimento”, retrucou Gary L. Smith. “Não basta acrescentar um terço de água para obter a mesma consistência a cada vez. Há vários fornecedores, com vários prazos diferentes, e eles podem estar lidando com um fornecedor de açúcar de lá que esteja enfrentando uma greve. Ou então o condutor do barco fica doente.”

“Nesse caso o senhor procura outro fornecedor”, disse Joe.

“Não é tão simples.”

“Por quê?”

A voz de Smith soava cansada, como se estivessem lhe pedindo para explicar mecânica de aviões para um gato. “Porque todos eles estão pagando tributo para o mesmo grupo.”

Joe tirou do bolso um pequeno caderno e o abriu. “Estamos falando da família Suárez, é isso?”

Smith espichou os olhos para o caderninho. “Isso. Os donos da Tropicale, na Sétima Avenida.”

“Quer dizer então que eles são os únicos fornecedores.”

“Não, acabei de falar.”

“Falar o quê?”, Joe estreitou os olhos para ele.

“O que estou dizendo é que eles fornecem parte do que nós vendemos, mas também tem vários outros. Tem um cara com quem costumo negociar, o nome dele é Ernesto. O cara tem uma mão de madeira. Dá para acreditar? Ele...”

“Se todos os outros fornecedores respondem ao mesmo fornecedor, então esse fornecedor é o único fornecedor. Parto do princípio de que é ele quem fixa os preços e todos os outros acatam, não é?”

Smith deu um suspiro de exasperação. “Acho que sim.”

“O senhor acha?”

“É que não é tão simples.”

“Por que não?”

Joe aguardou. Dion Aguardou. Smith reacendeu o charuto. “Há outros fornecedores. Eles têm barcos, têm...”

“São prestadores de serviço”, disse Joe. “Só isso. Eu quero tratar com o contratante. Vamos precisar de uma reunião com os Suárez assim que possível.”

“Não”, disse Smith.

“Não?”

“Sr. Coughlin, o senhor simplesmente não entende como as coisas são feitas em Ybor. Quem trata com Esteban Suárez e a irmã dele sou eu. Eu trato com todos os intermediários.”

Joe empurrou o telefone por cima da mesa até o cotovelo de Smith.

“Ligue para eles.”

“Sr. Coughlin, o senhor não está me escutando.”

“Estou, sim”, disse Joe com voz suave. “Pegue esse telefone, ligue para os Suárez e diga a eles que meu sócio e eu vamos jantar no Tropicale hoje à noite, e que ficaríamos muito gratos se pudéssemos ter a melhor mesa do restaurante e alguns minutos do tempo deles depois de comermos.”

“Por que não tira um ou dois dias para conhecer melhor os costumes daqui?”, perguntou Smith. “Depois disso, confie em mim, vai voltar e me agradecer por não ter ligado. E iremos conhecê-los juntos. Eu prometo.”

Joe levou a mão ao bolso. Pegou uns trocados e pôs em cima da mesa. Em seguida tirou os cigarros, depois o relógio do pai, e por fim a pistola calibre 32, que deixou em frente ao mata-borrão, apontada para Smith. Sacudiu o maço para pegar um cigarro, com os olhos pregados em Smith, enquanto este tirava o telefone do gancho e solicitava uma linha externa.

Joe ficou fumando enquanto Smith falava ao telefone em espanhol e Dion traduzia alguns trechos, e então Smith desligou.

“Ele nos reservou uma mesa para as nove”, disse Dion.

“Reservei uma mesa para as nove”, falou Smith.

“Obrigado.” Joe cruzou o tornozelo sobre o joelho. “Os Suárez são uma equipe de irmão e irmã, certo?”

Smith aquiesceu. “Sim, Esteban e Ivelia Suárez.”

“Agora, Gary, me diga uma coisa”, começou Joe, puxando um fio da meia junto ao osso do tornozelo, “você está trabalhando diretamente para Albert White?” Deixou o fio pendurado no dedo, em seguida o largou sobre o tapete de Gary L. Smith. “Ou tem algum intermediário que deveríamos conhecer?”

“Como disse?”

“Nós marcamos as suas garrafas, Smith.”

“Vocês o quê?”

“Marcamos tudo o que você destilou”, disse Dion. “Faz uns dois meses. Pontinhos no canto superior direito.”

Gary sorriu para Joe como se nunca tivesse escutado tal coisa.

“Sabe todos aqueles transportes que nunca chegaram ao destino?”, prosseguiu Joe. “Praticamente todas as garrafas foram parar em um dos bares clandestinos de Albert White.” Ele bateu a cinza do cigarro em cima da mesa. “Pode explicar isso?”

“Não estou entendendo.”

“Não está...?” Joe tornou a pôr os pés no chão.

“Não, quer dizer, eu não... O quê?”

Joe estendeu a mão para a pistola. “É claro que está.”

Gary sorriu. Parou de sorrir. Tornou a sorrir. “Não estou, não. Ei. Ei.”

“Você vem entregando a Albert White nossas rotas de fornecimento para o nordeste do país.” Joe ejetou o pente calibre 32 na palma da mão. Removeu a bala de cima com o polegar.

Gary tornou a falar. Disse “ei”.

Joe espiou pelo visor da pistola. “Ainda tem uma bala na câmara”, falou para Dion.

“É sempre bom deixar uma. Para garantir.”

“Garantir o quê?” Joe retirou a bala da câmara e a pegou. Depositou-a sobre a mesa, com a ponta virada na direção de Gary Smith.

“Sei lá”, disse Dion. “Coisas que você não vê chegando.”

Joe tornou a enfiar o pente no cabo da pistola. Inseriu uma das balas na câmara e pôs a arma no colo. “Pedi para Dion passar em frente à sua casa no caminho para cá. Uma bela casa. Dion disse que o bairro se chama Hyde Park, é isso?”

“Isso.”

“Que engraçado.”

“Por quê?”

“Tem um Hyde Park em Boston.”

“Ah. Engraçado, mesmo.”

“Bem, não que seja hilário nem nada. É só interessante.”

“É.”

“Ela é de estuque?”

“Como?”

“De estuque. Sua casa é feita de estuque, certo?”

“Bom, a estrutura é de madeira, mas sim, o acabamento é de estuque.”

“Ah. Então me enganei.”

“Não se enganou, não.”

“Você disse que era de madeira.”

“A estrutura é de madeira, mas o acabamento, a superfície, é sim de estuque. Então, sim, é isso... uma casa de estuque.”

“Você gosta dela?”

“Ahn?”

“Da casa de estuque com estrutura de madeira... você gosta dela?”

“Ficou meio grande agora que meus filhos estão...”

“Estão o quê?”

“Adultos. Que saíram de casa.”

Joe coçou a parte de trás da cabeça com o cano da 32. “Você vai ter que esvaziar a casa.”

“Eu não...”

“Ou contratar alguém para esvaziar.” Ele moveu as sobrancelhas em direção ao telefone. “Eles podem mandar as coisas para onde você acabar indo.”

Smith tentou recuperar o que havia desaparecido da sala vinte minutos antes: a ilusão de que estava no controle da situação. “Acabar indo ? Eu não vou embora daqui.”

Joe se levantou e levou a mão ao bolso do paletó. “Está comendo ela?”

“O quê? Comendo quem?”

Joe indicou a porta atrás de si com o polegar. “A srta. Roe.”

“O quê ?”, retrucou Smith.

Joe olhou para Dion. “Está.”

Dion se levantou. “Com certeza.”

Joe tirou do paletó um par de passagens. “Essa mulher é uma obra de arte. Adormecer ao lado dela deve ser como vislumbrar Deus. Depois disso, você sabe que tudo vai ficar bem.”

Pôs as passagens na mesa entre os dois. “Não me importa quem você vai levar... sua mulher, a srta. Roe, caramba, até as duas ou então nenhuma delas. Mas vai embarcar no trem da Seaboard das onze da noite. Da noite de hoje, Gary.”

Ele riu. Foi uma risada curta. “Não acho que o senhor esteja enten...”

Joe esbofeteou Gary L. Smith no rosto com tanta força que ele caiu da cadeira e bateu com a cabeça no radiador.

Ficaram esperando ele se levantar do chão. Ele endireitou a cadeira. Sentou-se, agora com o rosto inteiramente lívido, embora a bochecha e o lábio exibissem algumas gotinhas de sangue. Dion jogou um lenço na direção de seu peito.

“Ou você embarca nesse trem, Gary”, Joe pegou a bala de pistola de cima da mesa, “ou a gente enfia você debaixo dele.”

A caminho do carro, Dion perguntou: “Você estava falando sério?”.

“Estava.” Joe sentia-se irritado outra vez, embora não soubesse muito bem por quê. Às vezes simplesmente era tomado por uma escuridão. Gostaria de dizer que esses súbitos humores sombrios só vinham acontecendo desde a prisão, mas a verdade era que o vinham acometendo desde a sua mais remota lembrança. Às vezes sem motivo ou aviso. Dessa vez, contudo, talvez fosse por Smith ter mencionado que tinha filhos, e porque Joe não gostava de pensar em um homem que acabara de humilhar com algum tipo de vida fora do trabalho.

“Quer dizer que, se ele não embarcar no tal trem, está preparado para matá-lo?”

Ou talvez apenas porque era um cara sombrio com tendência a humores sombrios.

“Não.” Joe parou junto ao carro e aguardou. “Homens que trabalham para nós vão fazer isso.” Ele olhou para Dion. “Está me achando com cara de quê, de uma porra de um ajudante de lavoura?”

Dion abriu a porta para ele e Joe entrou no carro.