Os Filhos da Noite
Capítulo 7
NA BOCA
A distância da Cadeia do Condado de Suffolk até a Pentenciária de Charlestown não chegava a dois quilômetros. O tempo que levaram para colocá-los no ônibus e prender no chão do veículo as correntes que lhes cingiam os tornozelos daria para terem ido a pé. Foram quatro prisioneiros transportados nessa manhã — um negro magro e um russo gordo cujos nomes Joe nunca chegou a saber, Norman, um garoto branco molenga e trêmulo, e Joe. Norman e Joe já tinham conversado na cadeia algumas vezes, porque a cela de Norman ficava em frente à de Joe. Norman tivera o infortúnio de sucumbir aos encantos da filha do homem de cujo estábulo de cavalos cuidava, em Pinckney Street, no alto de Beacon Hill. A menina, que tinha quinze anos, engravidou, e Norman, que tinha dezessete e era órfão desde os doze, pegou três anos por estupro em um presídio de segurança máxima.
Contou a Joe que vinha lendo a Bíblia, e que estava disposto a se redimir das transgressões que cometera. Disse a Joe que o Senhor iria acompanhá-lo e que todo homem carregava o bem dentro de si, que mesmo no mais reles dos homens era possível encontrar uma grande quantidade de bem, e que ele desconfiava que fosse encontrar mais bem atrás dos muros do presídio do que havia encontrado fora deles.
Joe nunca tinha visto uma criatura mais aterrorizada em toda a vida.
Enquanto o ônibus sacolejava pela Charles River Road, um guarda tornou a verificar as correntes em seus tornozelos e se apresentou como sr. Hammond. Informou-lhes que suas celas ficariam localizadas na Ala Leste, com exceção, naturalmente, do crioulo, que ficaria na Ala Sul junto com os outros da sua espécie.
“Mas as regras se aplicam a todos vocês, seja qual for sua cor ou seu credo. Jamais encarem nenhum guarda nos olhos. Jamais questionem a ordem de nenhum guarda. Jamais cruzem o caminho de terra batida que margeia o muro. Jamais toquem em si mesmos ou uns nos outros de forma antinatural. Cumpram sua pena como bons marinheiros de primeira viagem, sem reclamações nem má vontade, e assim vamos poder conviver em harmonia ao longo do caminho rumo à sua libertação.”
O presídio tinha mais de cem anos; as construções originais, de granito escuro, haviam sido incrementadas com estruturas mais recentes feitas de tijolo vermelho. O coração do complexo disposto em formato de cruz era composto de quatro alas que partiam de uma torre central. No alto da torre ficava uma cúpula, ocupada o tempo inteiro por guardas armados com fuzis, apontando para cada direção em que os detentos pudessem fugir. Era cercado por trilhos de trem e fábricas, fundições e tecelagens que desciam o rio margeando o lado norte da cidade até Somerville. As fábricas produziam fogões, as tecelagens, tecidos, e as fundições impregnavam o ar com vapores de magnésio, cobre e ferro fundido. Quando o ônibus desceu a colina e chegou ao terreno plano, o céu se escondeu por trás de um teto de fumaça. Um trem da Eastern Freight apitou, e tiveram de esperar que passasse antes de poderem atravessar a via férrea e percorrer os últimos trezentos metros até o presídio.
O ônibus parou, o sr. Hammond e outro guarda soltaram suas correntes, e Norman começou a tremer e em seguida a chorar copiosamente; lágrimas escorriam por sua mandíbula como suor.
“Norman”, disse Joe.
O garoto olhou para ele.
“Não faça isso.”
Mas Norman não conseguia parar.
Sua cela ficava na galeria superior da Ala Leste. Passava o dia inteiro fritando debaixo do sol, e conservava o calor durante a noite inteira. As celas em si não tinham energia elétrica. Esta se limitava aos corredores, refeitório, e a cadeira elétrica na Casa da Morte. As celas eram iluminadas por luz de velas. A Penitenciária de Charlestown tampouco recebera encanamento, de modo que os detentos mijavam e cagavam em baldes de madeira. A cela de Joe fora construída para um único prisioneiro, mas quatro camas tinham sido empilhadas lá dentro. Seus três companheiros de cela se chamavam Oliver, Eugene e Tooms. Oliver e Eugene eram assaltantes à mão armada típicos de Revere e Quincy, respectivamente. Ambos já haviam trabalhado para a máfia de Hickey. Nunca lhes acontecera trabalhar com Joe ou nem sequer tinham ouvido falar dele, mas, depois de uma troca geral de nomes de parte a parte, ficaram convencidos de que ele era legal o suficiente para não expulsá-lo da cela apenas para marcar uma posição.
Tooms era mais velho e mais calado. Tinha cabelos sebentos e membros finos, e atrás de seus olhos vivia algo imundo para o qual ninguém queria olhar. Quando o sol se pôs na primeira noite que iriam passar juntos, Tooms ficou sentado em seu beliche de cima, pernas dependuradas pela borda, e de vez em quando Joe via aquele olhar inexpressivo se voltar na sua direção e era preciso um esforço hercúleo para sustentá-lo e em seguida desviar casualmente os próprios olhos.
Joe dormia em um dos beliches inferiores, em frente a Oliver. Tinha o pior colchão de todos, a cama era afundada no meio e o lençol áspero, roído por traças e com cheiro de cachorro molhado. Ele deu cochilos intermitentes, mas não chegou a dormir.
Pela manhã, Norman foi falar com ele no pátio. Seus olhos estavam roxos e o nariz parecia quebrado, e Joe estava prestes a lhe perguntar o que tinha acontecido quando Norman fez uma careta, mordeu o lábio inferior e lhe deu um soco no pescoço. Joe deu dois passos para a direita, ignorou a ardência e pensou em perguntar por quê, mas não teve tempo. Norman partiu para cima dele, os braços erguidos em uma postura canhestra. Se evitasse a cabeça e começasse a lhe bater no corpo, Joe estaria perdido. As costelas ainda não haviam se recuperado; sentar na cama de manhã ainda provocava tanta dor que ele chegava a ver estrelas. Ele se esquivou, revirando a terra batida com os calcanhares. Bem acima deles, os guardas da torre de vigia fitavam o rio a oeste ou o oceano a leste. Norman desferiu um soco do outro lado de seu pescoço, e Joe levantou o pé e o fez descer sobre a patela de Norman.
O garoto caiu de costas, com a perna direita formando um ângulo esquisito. Rolou pelo chão de terra batida, e então usou o cotovelo para tentar se levantar. Quando Joe lhe deu um segundo pisão no joelho, metade do pátio ouviu a perna de Norman se quebrar. O som que saiu da boca dele não foi propriamente um grito. Foi algo mais suave e mais grave, um som abafado, como o que um cachorro emitiria depois de rastejar para baixo de uma casa para morrer.
Norman ficou caído no chão, seus braços caíram junto às laterais do corpo e as lágrimas escorreram de seus olhos para dentro das orelhas. Joe sabia que poderia ajudá-lo a se levantar agora que ele já não representava perigo, mas que isso seria visto como fraqueza. Afastou-se. Atravessou o pátio, que às nove da manhã já estava um forno, e sentiu os olhos pregados nele, mais olhos do que foi capaz de contar, todos observando, decidindo qual seria o próximo teste, por quanto tempo iriam brincar com o rato antes de darem um golpe de verdade com as garras.
Norman não era nada. Norman era um aquecimento. E se alguém ali percebesse quanto as costelas de Joe estavam machucadas — no momento, o simples fato de respirar doía pra cacete; andar também doía —, pela manhã nada restaria exceto ossos.
Joe tinha visto Oliver e Eugene perto do muro oeste, mas agora observou as costas dos dois homens sumirem no meio de uma multidão. Nenhum dos dois queria se meter com ele antes de ver como aquilo iria acabar. Pegou-se, portanto, caminhando em direção a um grupo de homens que não conhecia. Se parasse de repente e olhasse em volta, ficaria com cara de bobo. E ali, ter cara de bobo equivalia a ser fraco.
Chegou ao grupo de homens e ao lado mais afastado do pátio, junto ao muro, mas eles também se afastaram.
Foi assim o dia inteiro — ninguém quis falar com ele. Fosse qual fosse a sua doença, ninguém queria pegá-la.
Nessa noite, ele voltou para uma cela vazia. Seu colchão — aquele cheio de calombos — estava no chão. Os outros haviam desaparecido. As camas tinham sido retiradas. Tudo havia sido retirado, exceto o colchão, o lençol áspero e o balde para cagar. Joe olhou para trás em direção ao sr. Hammond enquanto este trancava a porta atrás de si.
“Para onde foram os outros?”
“Eles foram”, respondeu o sr. Hammond, e começou a descer a galeria.
Pela segunda noite seguida, Joe ficou deitado na cela quente e mal conseguiu dormir. Não foi só por causa das costelas, nem só por causa do medo — o fedor do presídio só era igualado pelo fedor das fábricas lá fora. No alto da cela, a uns três metros de altura, havia uma janelinha. Talvez a ideia de colocá-la ali fosse dar ao prisioneiro um misericordioso gostinho do mundo exterior. Agora, porém, não passava de um duto para a fumaça da fábrica, para o cheiro fétido de tecidos e carvão queimado. No calor da cela, enquanto insetos corriam pelas paredes e homens grunhiam no meio da noite, Joe não conseguiu imaginar como conseguiria sobreviver cinco dias ali dentro, que dirá cinco anos. Havia perdido Emma, havia perdido a liberdade, e agora podia sentir a própria alma começar a ratear e perder força. O que estavam lhe tirando era tudo o que ele possuía.
O dia seguinte foi mais do mesmo. E mais ainda no dia subsequente. Todos de quem ele se aproximava se afastavam. Todos com quem cruzava olhares desviavam os olhos. No entanto, podia sentir que o observavam assim que ele olhava para longe. Era tudo o que estavam fazendo, todos os detentos do presídio — observando Joe.
E esperando.
“Esperando o quê?”, indagou ele no apagar das luzes, enquanto o sr. Hammond virava a chave na porta da cela. “O que eles estão esperando?”
O sr. Hammond o encarou por entre as barras com seus olhos baços.
“É que eu estou disposto a esclarecer as coisas com quem quer que tenha ofendido”, disse Joe. “Isso se é que eu ofendi alguém. Porque, se ofendi, não foi por querer. Assim sendo, estou disposto a...”
“Você está bem na boca”, disse o sr. Hammond. Olhou para as galerias dispostas acima e atrás dele. “Ela talvez decida ficar revirando você na língua, para lá e para cá. Ou talvez morda com bastante força e crave os dentes em você. Ou então vai deixar você escalar os dentes e pular para fora. Mas quem decide é ela. Não você.” O sr. Hammond balançou seu enorme molho de chaves em círculo antes de prendê-lo ao cinto. “É só esperar.”
“Quanto tempo?”, quis saber Joe.
“Até a boca decidir.” O sr. Hammond pôs-se a subir a galeria.
O menino que foi atrás dele no dia seguinte não passava disso: um menino. Trêmulo, olhos esquivos, mas não menos perigoso por causa disso. Joe estava a caminho do banho de sábado quando o garoto saiu da fila, uns dez homens à frente, e foi andando na sua direção.
Na mesma hora em que o garoto saiu da fila, Joe entendeu que ele estava indo atacá-lo, mas não havia nada que pudesse fazer para impedi-lo. O garoto usava suas calças e casaco listrados de presidiário e carregava toalha e sabonete como os outros, mas trazia também na mão direita um descascador de batatas com as pontas afiadas por uma pedra de amolar.
Joe saiu da fila na direção do garoto e este fez que iria seguir em frente, mas então largou a toalha e o sabonete, plantou o pé no chão e avançou o braço em direção à cabeça de Joe. Joe se esquivou para a direita e o garoto deve ter previsto isso, pois mirou do lado esquerdo e plantou o descascador de batatas na parte interna de sua coxa. Joe nem sequer teve tempo de registrar a dor antes de escutar o garoto puxar a arma. Foi o barulho que o enfureceu. Parecia um barulho de pedaços de peixe se esvaindo pelo ralo. Sua carne, seu sangue, nacos dele mesmo pendiam da ponta daquela arma.
No golpe seguinte, o garoto tentou acertar a barriga ou a virilha de Joe: ele não soube dizer ao certo, tantas foram as respirações ofegantes e os movimentos rápidos à esquerda e direita, direita e esquerda. Avançou para o vão entre os braços do garoto, segurou sua cabeça por trás e a puxou em direção ao próprio peito. O garoto desferiu um novo golpe, dessa vez no seu quadril, mas foi uma punhalada fraca, sem energia. Mesmo assim, doeu mais do que a mordida de um cão. Quando o garoto retirou o braço para pegar mais impulso, Joe o empurrou para trás até rachar sua cabeça contra o muro de granito.
O garoto deu um suspiro e deixou cair o descascador, e Joe bateu com sua cabeça no muro mais duas vezes, para ter certeza. O garoto escorregou para o chão.
Joe nunca o tinha visto antes.
Na enfermaria, um médico limpou suas feridas, costurou a da coxa e envolveu-a com uma atadura bem apertada. O médico recendia a algum produto químico, e lhe disse para não fazer força com a perna nem com o quadril por algum tempo.
“E como faço isso?”, quis saber Joe.
O médico seguiu falando como se Joe não tivesse dito nada. “E mantenha os ferimentos limpos. Troque o curativo duas vezes por dia.”
“O senhor tem mais ataduras para me dar?”
“Não”, respondeu o médico, parecendo ressentido com a estupidez da pergunta.
“Nesse caso...”
“Prontinho”, disse o médico, recuando alguns passos.
Ele esperou os guardas virem administrar sua punição pela briga. Esperou para saber se o garoto que o havia atacado estava vivo ou morto. Mas ninguém lhe disse nada. Foi como se ele houvesse imaginado o incidente todo.
No apagar das luzes, perguntou ao sr. Hammond se ele ouvira falar na briga a caminho dos chuveiros.
“Não.”
“Não, não ouviu falar?”, indagou Joe. “Ou não, não houve briga?”
“Não”, repetiu o sr. Hammond, e se afastou.
Alguns dias depois da agressão com o descascador, um detento o abordou. Não havia nada de especial em sua voz — um leve sotaque (italiano, avaliou ele) e um timbre rascante — mas, depois de uma semana de silêncio quase total, esta lhe soou tão linda que a garganta de Joe se contraiu e seu peito se encheu de emoção.
O detento era um velho de óculos grossos demasiado grandes para o seu rosto. Aproximou-se dele no pátio enquanto Joe o atravessava mancando. Estivera na fila do chuveiro no sábado anterior. Joe se lembrou disso porque o velho lhe parecera tão frágil que mal dava para imaginar os horrores que aquele lugar lhe havia infligido ao longo dos anos.
“Acha que vai demorar para eles ficarem sem homens para brigar com você?”
Ele tinha mais ou menos a altura de Joe. Era calvo no topo da cabeça, com tufos de cabelos prateados nas laterais do mesmo tom de um finíssimo bigode. Pernas compridas e um tronco curto e atarracado. Mãos miúdas. Havia certa delicadeza em seu jeito de andar quase na ponta dos dedos, como um ladrão sorrateiro, mas os olhos eram tão inocentes e esperançosos quanto os de uma criança no primeiro dia de escola.
“Não acho que eles vão ficar sem”, respondeu Joe. “Há muitos candidatos.”
“Você não vai se cansar?”
“É claro que vou”, disse Joe. “Mas acho que vou aguentar quanto puder.”
“Você é muito rápido.”
“Sou rápido, não muito rápido.”
“É, sim.” O velho abriu uma bolsinha de lona e pegou dois cigarros. Estendeu um deles para Joe. “Assisti às suas duas brigas. Você é tão rápido que a maioria desses homens não percebeu que está protegendo as costelas.”
Joe parou de andar enquanto o velho acendia ambos os cigarros com um fósforo que riscou na unha. “Não estou protegendo nada.”
O velho sorriu. “Há muito tempo, em outra vida, antes disto aqui”, ele gesticulou para além dos muros e do arame, “eu agenciei alguns boxeadores. Alguns praticantes de luta livre também. Nunca ganhei muito dinheiro, mas conheci muitas mulheres bonitas. Boxeadores atraem mulheres bonitas. E mulheres bonitas viajam acompanhadas por outras mulheres bonitas.” Ele deu de ombros, e os dois recomeçaram a andar. “Então eu sei quando alguém está protegendo as costelas. Estão quebradas?”
“Não há nada de errado com elas”, respondeu Joe.
“Prometo que, se eles me mandarem brigar com você, vou me limitar a segurar seus tornozelos e segurar com força”, disse o velho.
Joe deu uma risadinha. “Só os tornozelos, é?”
“Talvez o nariz, caso surja uma chance.”
Joe observou o velho. Ele devia estar ali havia tanto tempo que já vira todas as esperanças morrerem e experimentara todo tipo de degradação, e agora todos o deixavam em paz porque ele tinha sobrevivido a tudo o que fora feito contra ele. Ou talvez porque fosse apenas um saco de rugas, sem atrativo algum para fins de troca. Inofensivo.
“Bom, para proteger o meu nariz...”, Joe tragou fundo o cigarro. Tinha se esquecido de como um cigarro podia ser bom quando não se sabia de onde viria o próximo. “Faz alguns meses que quebrei seis costelas e fraturei ou desloquei o resto.”
“Faz alguns meses. Então faltam só uns dois meses.”
“Não. Sério?”
O velho aquiesceu. “Costelas quebradas são como corações partidos... levam pelo menos seis meses para cicatrizar.”
É esse o tempo que leva, pensou Joe?
“Quem dera as refeições durassem tanto assim.” O velho esfregou a pequena pança. “Como as pessoas o chamam?”
“Joe.”
“Nunca Joseph?”
“Só meu pai.”
O homem aquiesceu e soltou uma nuvem de fumaça com vagaroso deleite. “Não existe esperança neste lugar. Mesmo estando aqui há tão pouco tempo, tenho certeza de que já chegou à mesma conclusão.”
Joe assentiu.
“Este lugar devora as pessoas. Nem sequer as cospe depois.”
“Quanto tempo faz que o senhor está aqui?
“Ah, parei de contar já faz muitos anos”, respondeu o velho. Ergueu os olhos para o céu azul engordurado e cuspiu um pedaço de fumo preso na língua. “Não há nada neste lugar que eu não conheça. Se precisar de ajuda para entender alguma coisa, é só perguntar.”
Joe duvidou que o velhote estivesse tão sintonizado com a vida do presídio quanto imaginava estar, mas não viu problema em dizer: “Pode deixar. Obrigado. Agradeço pela confiança”.
Chegaram ao fim do pátio. Quando estavam se virando para percorrer de volta o caminho pelo qual tinham vindo, o velho passou um braço ao redor dos ombros de Joe.
O pátio inteiro os observava.
O velho jogou o cigarro no chão e estendeu a mão. Joe a apertou.
“Meu nome é Tommaso Pescatore, mas todos me chamam de Maso. Pode se considerar meu protegido.”
Joe conhecia esse nome. Maso Pescatore mandava na parte norte de Boston e na maioria da jogatina e prostituição do litoral norte de Massachusetts. De trás daqueles muros, ele controlava grande quantidade da bebida que vinha da Flórida. Tim Hickey já trabalhara muito com ele ao longo dos anos e costumava dizer que a extrema cautela era a única atitude sensata ao se relacionar com aquele homem.
“Eu não pedi para ser seu protegido, Maso.”
“Quantas coisas na vida, sejam elas boas ou más, aparecem para nós quer as tenhamos pedido ou não?” Maso retirou o braço do ombro de Joe e levou uma das mãos ao cenho para proteger os olhos do sol. Onde antes Joe vira apenas inocência naquele olhar, agora viu astúcia. “Pode me chamar de sr. Pescatore de agora em diante, Joseph. E dê isto ao seu pai da próxima vez que o vir.” Maso passou discretamente um pedacinho de papel para a mão de Joe.
Joe olhou o endereço rabiscado ali: 1417, Blue Hill Ave. Só isso — nenhum nome, nenhum número de telefone, apenas o endereço.
“Entregue ao seu pai. Só desta vez. É tudo o que vou lhe pedir.”
“E se eu não entregar?”, perguntou Joe.
Maso pareceu genuinamente desconcertado com a pergunta. Inclinou a cabeça para um dos lados e olhou para Joe, e um pequeno e esquisito sorriso se formou em seus lábios. O sorriso foi se alargando até se transformar em uma risada baixinha. Ele balançou a cabeça várias vezes. Cumprimentou Joe com uma saudação usando os dedos indicador e médio e voltou para junto do muro, onde seus homens o aguardavam.
Na sala de visitas, Thomas observou o filho entrar mancando e se sentar.
“O que houve?”
“Um cara me apunhalou na perna.”
“Por quê?”
Joe balançou a cabeça. Deslizou a palma da mão pela mesa, e Thomas viu o pedacinho de papel debaixo dela. Fechou a mão por cima da do filho por alguns instantes, saboreando aquele contato e tentando se lembrar da razão de haver passado mais de uma década sem tomar a iniciativa de fazê-lo. Pegou o pedaço de papel e guardou no bolso. Olhou para o filho, para os olhos cercados de olheiras escuras e para o espírito conspurcado, e de repente entendeu tudo.
“Tenho que fazer o que alguém está mandando”, falou.
Joe ergueu os olhos da mesa e encarou o pai.
“Quem é, Joseph?”
“Maso Pescatore.”
Thomas se recostou na cadeira e se perguntou quanto exatamente amava o filho.
Joe leu a pergunta nos olhos do pai. “Não tente me dizer que o senhor é honesto, pai.”
“Eu faço negócios civilizados com pessoas civilizadas. Você está me pedindo para obedecer a um bando de carcamanos recém-saídos das cavernas.”
“Não estou pedindo isso.”
“Não? O que tem neste pedaço de papel?”
“Um endereço.”
“Só um endereço?”
“É. Não sei nada além disso.”
Seu pai aquiesceu repetidas vezes, soltando o ar pelas narinas.
“Não sabe porque você é uma criança. Um italiano qualquer lhe passa um endereço para entregar ao seu pai, funcionário graduado da polícia, e você não entende que a única coisa que esse endereço pode indicar é a localização do estoque ilícito de um rival.”
“Estoque de quê?”
“Mais provavelmente um armazém abarrotado de bebida até o teto.” Seu pai ergueu os olhos para o teto e passou uma das mãos pelos cabelos brancos cortados curtos.
“Ele disse que era só desta vez.”
Seu pai lhe lançou um sorriso mau. “E você acreditou.”
Thomas saiu da prisão.
Desceu o caminho em direção a seu carro, rodeado pelo cheiro de produtos químicos. Fumaça saía das chaminés das fábricas. Era cinza-escura na maioria dos pontos, mas pintava o céu de marrom e a terra de preto. Trens resfolegavam pelos arredores; por algum motivo estranho, fizeram Thomas pensar em lobos rodeando uma barraca de atendimento médico.
Já tinha mandado pelo menos mil homens para aquele presídio ao longo de sua carreira. Muitos haviam morrido entre as paredes de granito. Caso lá chegassem com alguma ilusão em relação à decência humana, não demoravam a perdê-la. Havia detentos demais e guardas de menos para que a prisão fosse administrada como algo diferente do que era — um local de despejo, e em seguida um campo de provas, para animais. Se você entrasse lá homem, saía fera. Se entrasse animal, aperfeiçoava seus talentos.
Temia que o filho fosse mole demais. Apesar de todas as suas transgressões ao longo dos anos, apesar de ele ignorar a lei, apesar de ser incapaz de obedecer a Thomas ou às regras ou a praticamente qualquer outra coisa, Joseph era o menos defendido de seus filhos. Mesmo através do mais grosso casaco de inverno, dava para ver seu coração.
Thomas chegou a um telefone reservado para uso da polícia no fim do caminho. Sua chave estava presa à corrente do relógio, e ele a usou para abrir a caixa do telefone. Olhou para o endereço que tinha na mão: 1417, Blue Hill Avenue, Mattapan. Bairro de judeus. O que significava que o armazém devia pertencer a Jacob Rosen, conhecido fornecedor de Albert White.
White a essa altura já estava de volta à cidade. Não passara sequer uma noite na cadeia, provavelmente porque havia contratado Jack D’Jarvis para cuidar de sua defesa.
Thomas tornou a olhar para a prisão que era agora o lar de seu filho. Uma tragédia, mas nada que surpreendesse muito. Seu filho havia escolhido o caminho que o conduzira até ali durante anos de firme objeção e reprovação de Thomas. Se Thomas usasse aquele telefone, estaria casado com a máfia de Pescatore para o resto da vida — com uma raça de pessoas que fizera aportar nas costas daquela nação o anarquismo e seus especialistas em bombas, assassinos e a Mano Nera, e agora, organizados em algo que segundo os boatos se chamava omertà organiza, haviam dominado à força todo o comércio de bebida ilegal.
E ele deveria lhes dar mais ainda?
Trabalhar para eles?
Beijar seus anéis?
Fechou a caixa do telefone, tornou a guardar o relógio no bolso e andou até o carro.
Passou dois dias pensando no pedaço de papel. Dois dias rezando para o Deus que temia não existir. Rezou para ser guiado. Rezou pelo filho atrás daqueles muros de granito.
* * *
Sábado era sua folga, e Thomas estava trepado em uma escada retocando a pintura dos caixilhos pretos das janelas da casa na K Street quando o homem apareceu lá embaixo pedindo informações. A tarde estava quente, úmida, e algumas nuvens roxas ondulavam na sua direção. Ele olhou por uma das janelas do segundo andar, no que antigamente tinha sido o quarto de Aiden. O cômodo passara três anos vazio antes de sua mulher, Ellen, transformá-lo em quarto de costura. Ela morrera dormindo fazia dois anos, de modo que agora não havia mais nada no quarto a não ser uma máquina de costura movida a pedal e uma estante vazada de madeira na qual estavam penduradas as mesmas roupas que aguardavam conserto dois anos antes. Thomas mergulhou o pincel na lata de tinta. Aquele sempre seria o quarto de Aiden.
“Estou meio perdido.”
Thomas olhou de cima da escada para o homem em pé na calçada, dez metros abaixo. Vestia um terno de anarruga azul-claro, uma camisa branca e uma gravata-borboleta vermelha, e não usava chapéu.
“Posso ajudá-lo?”, indagou Thomas.
“Estou procurando os banhos públicos da L Street.”
Lá de cima, Thomas podia ver a casa de banhos, e não apenas o telhado — podia ver o edifício de tijolos inteiro. Via a pequena lagoa mais adiante e, além da lagoa, o oceano Atlântico que se estendia a perder de vista até a terra em que nascera.
“No final da rua.” Thomas apontou, meneou a cabeça para o homem e tornou a se virar para o pincel.
“Logo no final da rua, é?”, indagou o homem. “Por ali?”
Thomas tornou a se virar para ele e aquiesceu, agora com os olhos pregados no homem.
“Às vezes eu me atrapalho todo”, disse o estranho. “Já aconteceu com o senhor? Quando sabe o que tem de fazer, mas simplesmente se atrapalha todo?”
O homem era louro e sem graça, bonito, mas de um jeito fácil de esquecer. Nem alto nem baixo, nem gordo nem magro.
“Eles não vão matá-lo”, falou ele em um tom amigável.
“Como disse?”, perguntou Thomas, largando o pincel dentro da lata de tinta.
O homem encostou a mão na escada.
De onde ele estava, não seria preciso muita coisa.
O homem estreitou os olhos para Thomas, depois olhou para a rua mais adiante.
“Mas vão fazê-lo desejar que tivesse morrido. Fazê-lo desejar isso todos os dias de sua vida.”
“O senhor sabe qual é a minha patente no Departamento de Polícia de Boston, não sabe?”, indagou Thomas.
“Ele vai pensar em suicídio”, prosseguiu o homem. “É claro que vai. Mas eles o manterão vivo prometendo matar o senhor caso ele o faça. E sabe o que mais? A cada dia vão pensar em algo novo para testar com ele.”
Um Ford T preto afastou-se do meio-fio e ficou parado no meio da rua, com o motor ligado. O homem desceu da calçada, entrou, e o carro foi embora, dobrando na primeira à esquerda que encontraram.
Thomas desceu da escada, surpreso ao constatar que os antebraços tremiam mesmo depois de entrar em casa. Estava ficando velho, muito velho. Não deveria trepar em escadas. Não deveria se ater a princípios.
Ficar velho era permitir que o novo descartasse você demonstrando o máximo de cortesia de que fosse capaz.
Ligou para Kenny Donlan, capitão do terceiro distrito policial de Mattapan. Durante cinco anos, Kenny fora tenente de Thomas no sexto distrito do sul de Boston. Assim como muitos dos membros graduados da corporação, devia a ele o seu sucesso.
“E na sua folga, ainda por cima”, comentou Kenny depois de a sua secretária transferir a ligação de Thomas.
“Ah, pessoas como nós não têm folga, rapaz.”
“Verdade”, disse Kenny. “Em que posso ajudá-lo, Thomas?”
“Um quatro um sete Blue Hill Avenue”, disse Thomas. “Um armazém, supostamente para estocar equipamentos de jogo.”
“Mas não é isso que tem lá”, falou Kenny.
“Não.”
“Até que ponto você quer que estouremos o lugar?”
“Até a última garrafa”, respondeu Thomas, e algo dentro dele soltou um grito ao morrer. “Até a última gota.”