Os Filhos da Noite

Dennis Lehane · Capítulo 22 de 29

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Os Filhos da Noite

Capítulo 22

NÃO APAGUEIS O ESPÍRITO

 

A última vez em que Loretta Figgis e Joe se encontraram com vida foi no início de 1933. Tinha chovido pesado durante uma semana. Nessa manhã, primeiro dia sem nuvens em algum tempo, o vapor que se erguia das ruas de Ybor era tão espesso que a terra parecia virada do avesso. Joe caminhava pelo calçadão da Palm Avenue, distraído, enquanto Sal Urso o acompanhava pelo calçadão oposto e Lefty Downer acompanhava a ambos em um carro que avançava devagar pelo centro da avenida. Joe acabara de confirmar um boato de que Maso estava cogitando uma nova ida a Tampa, a segunda em um ano, e o fato de Maso não lhe ter avisado pessoalmente não lhe cheirava bem. Além do mais, matérias nos jornais daquela manhã diziam que o presidente eleito Roosevelt planejava assinar a Lei Cullen-Harrison assim que alguém pusesse uma caneta na sua mão, pondo fim à Lei Seca. Joe sabia que esta não podia durar, mas de certa forma ainda não estava preparado. E, se ele estava despreparado, podia apenas imaginar como todos os bandidos das grandes cidades contrabandistas como Kansas City, Cincinnati, Chicago, Nova York e Detroit iriam receber mal a notícia. Naquela manhã, ficara sentado na cama tentando ler a matéria para poder identificar a semana ou mês exato em que Roosevelt iria empunhar aquela popularíssima caneta, mas distraíra-se com Graciela vomitando ruidosamente a paella da véspera. Ela em geral tinha um estômago de ferro, mas nos últimos tempos o estresse de administrar três abrigos e oito grupos distintos de arrecadação de fundos vinha deixando seu sistema digestivo em frangalhos.

“Joseph.” Postada na soleira da porta, ela limpou a boca com as costas da mão. “Pode ser que nós tenhamos de encarar uma situação.”

“Que situação, boneca?”

“Acho que estou com menino.”

Por alguns instantes, Joe pensou que ela tivesse levado discretamente para casa consigo um dos meninos de rua do abrigo. Chegou a espiar por trás de seu quadril esquerdo antes de entender.

“Você está...?”

Ela sorriu. “Grávida.”

Ele se levantou da cama, ficou em pé na frente dela e não sabia se deveria tocá-la, pois teve medo que ela quebrasse.

Ela passou os braços em volta de seu pescoço. “Está tudo bem. Você vai ser pai.” Ela o beijou, e suas mãos tocaram a parte de trás de sua cabeça, onde o couro cabeludo formigava. Na verdade, tudo nele formigava, como se ele houvesse acordado e descoberto que estava revestido de uma pele inteiramente nova.

“Fale alguma coisa.” Ela o encarou, curiosa.

“Obrigado”, disse ele, pois nada mais lhe ocorreu.

“Obrigado?” Ela riu e tornou a beijá-lo, esmagando-lhe os lábios com os seus. “Obrigado?”

“Você vai ser uma mãe incrível.”

Ela pressionou a testa contra a dele. “E você vai ser um pai incrível.”

Se eu viver, pensou ele.

E soube que ela estava pensando a mesma coisa.

Assim, ele estava um pouco abalado nessa manhã quando adentrou o café do Nino sem primeiro olhar pela vitrine.

O café tinha só três mesas, um crime para um lugar que servia um café tão bom, e duas delas estavam ocupadas por membros da Klan. Não que alguém de fora os tivesse reconhecido como tal, mas Joe não teve nenhuma dificuldade em ver os capuzes, mesmo que aqueles homens não os estivessem usando — Clement Dover, Drew Altman e Brewster Engals na primeira mesa, a velha guarda, mais inteligente; na segunda, Julius Stanton, Haley Lewis, Carl Joe Crewson e Charlie Bailey, todos uns imbecis, mais propensos a incendiar a si próprios do que qualquer cruz que estivessem tentando queimar. No entanto, como muitas pessoas burras sem bom senso suficiente para saber quanto eram burras, eles eram também cruéis e impiedosos.

Assim que passou pela soleira do café, Joe soube que aquilo não era uma armadilha. Pôde ver nos olhos deles que não esperavam vê-lo ali. Simplesmente tinham ido tomar um café, e talvez intimidar os donos para fazê-los pagar por alguma proteção. Sal estava logo do lado de fora, mas não era a mesma coisa que estar lá dentro. Joe empurrou o paletó do terno para trás e deixou a mão ali, a menos de três centímetros da arma, enquanto encarava Engals, líder daquele grupo específico, um operador de carro de bombeiros no quartel de Lutz Junction.

Engals acenou com a cabeça, com um pequeno sorriso brotando nos lábios, e relanceou os olhos para alguma coisa atrás de Joe, na terceira mesa junto à janela. Joe olhou para lá e viu Loretta Figgis sentada assistindo à cena toda. Tirou a mão do quadril e soltou o paletó do terno. Ninguém iria começar um tiroteio com a Madona da baía de Tampa sentada a um metro e meio de distância.

Joe meneou a cabeça para ele por sua vez, e Engals disse: “Fica para outra vez”.

Joe levou a mão ao chapéu e se virou para sair quando Loretta falou: “Sente-se, sr. Coughlin. Por favor”.

“Não, não, srta. Loretta”, disse Joe. “A senhorita parece estar tendo uma manhã de paz sem que eu a perturbe.”

“Eu insisto”, disse ela ao mesmo tempo que Carmen Arenas, esposa do dono, chegava junto à mesa.

Joe deu de ombros e tirou o chapéu. “O de sempre, Carmen.”

“Pois não, sr. Coughlin. Srta. Figgis?”

“Outro para mim, por favor.”

Joe sentou-se e pôs o chapéu sobre o joelho.

“Esses cavalheiros não gostam do senhor?”, indagou Loretta.

Joe reparou que ela não trajava branco nesse dia. Seu vestido estava mais para um tom claro de pêssego. Na maioria das pessoas isso nem sequer seria perceptível, mas o branco puro passara a ser tão identificado com Loretta Figgis que vê-la usando qualquer outra cor era um pouco igual a vê-la pelada.

“Eles não vão me convidar para o jantar de domingo tão cedo”, respondeu-lhe Joe.

“Por quê?” Ela se aproximou da mesa quando Carmen trouxe os cafés.

“Eu me deito com o povo de lama, trabalho com o povo de lama, confraternizo com o povo de lama.” Ele olhou por cima do ombro. “Esqueci alguma coisa, Engals?”

“Além de ter matado quatro dos nossos?”

Joe assentiu, agradecendo, e tornou a se virar para Loretta. “Ah, e eles acham que eu matei quatro amigos deles.”

“E matou?”

“A senhorita não está de branco”, comentou ele.

“Estou quase de branco”, respondeu ela.

“O que será que os seus...”, ele procurou as palavras, mas não conseguiu achar nada melhor, “seguidores vão pensar?”

“Não sei, sr. Coughlin”, respondeu ela, e não havia nenhuma alegria falsa em sua voz, nenhuma serenidade desesperada em seus olhos.

Os rapazes da Klavern se levantaram de suas mesas e foram saindo em fila indiana; todos deram um jeito ou de esbarrar na cadeira de Joe, ou então de lhe acertar o pé com o seu.

“A gente se vê por aí”, disse-lhe Dover, e em seguida inclinou o chapéu para Loretta. “Senhorita.”

Eles saíram, e então restaram apenas Joe, Loretta e o ruído da chuva da véspera pingando da calha da varanda na calçada. Enquanto bebericava seu café, Joe estudou Loretta. Ela havia perdido a luz incisiva que tinha nos olhos desde o dia em que tornara a sair da casa do pai, dois anos antes, tendo trocado o traje preto do luto de sua morte pelo traje branco do renascimento.

“Por que meu pai odeia tanto o senhor?”

“Eu sou um criminoso. Ele era comandante de polícia.”

“Mas na época ele gostava do senhor. Chegou a apontar o senhor para mim certa vez quando eu ainda estava no ginásio e disse: ‘Aquele ali é o prefeito de Ybor. Ele mantém a paz’.”

“Ele disse isso, foi?”

“Foi, sim.”

Joe bebeu um pouco mais de café. “Eram dias mais inocentes, acho eu.”

Ela tomou um gole de seu próprio café. “Mas o que o senhor fez para merecer o rancor dele?”

Joe balançou a cabeça.

Foi a vez de ela o estudar durante um demorado e constrangedor minuto. Ele sustentou seu olhar enquanto ela perscrutava o seu. Perscrutava-o até que a luz se fez.

“Foi o senhor quem disse a ele como me encontrar.”

Joe não respondeu nada, contraindo e soltando o maxilar.

“Foi o senhor.” Ela aquiesceu e baixou os olhos para a mesa. “O que o senhor tinha?”

Ela o encarou por mais um desconfortável intervalo antes de ele responder.

“Fotografias.”

“E as mostrou para ele.”

“Mostrei-lhe duas.”

“E quantas o senhor tinha?”

“Dezenas.”

Ela tornou a baixar os olhos para a mesa, girou a xícara no pires. “Nós vamos todos para o inferno.”

“Eu não acho.”

“Não?” Ela tornou a girar a xícara. “O senhor sabe que verdade eu aprendi nestes últimos dois anos que passei pregando, desmaiando e lançando minha alma em direção a Deus?”

Joe fez que não com a cabeça.

“Que o paraíso é aqui.” Ela indicou a rua, o telhado acima de suas cabeças. “Estamos nele agora.”

“Então por que ele se parece tanto com o inferno?”

“Porque nós fodemos tudo.” Seu sorriso doce e sereno retornou. “O paraíso é aqui. E está perdido.”

Joe ficou surpreso com a intensidade do seu próprio luto pela perda de fé de Loretta. Por motivos que foi incapaz de explicar, tinha esperanças de que, se alguém tinha uma linha direta com o Todo-Poderoso, esse alguém era ela.

“Mas, quando a senhorita começou, realmente acreditava, não é?”, perguntou-lhe ele.

Ela o encarou de volta com olhos límpidos. “A certeza era tanta que tinha de ser inspirada por Deus. Parecia que todo o meu sangue fora substituído por fogo. Não um fogo ardente, apenas um calor constante que nunca arrefecia. Acho que eu me sentia assim quando era criança. Sentia-me segura, amada, e tinha certeza de que era assim que a vida sempre seria. Eu sempre teria meu papai e minha mamãe, e o mundo todo seria igualzinho a Tampa, e todos saberiam o meu nome e me desejariam coisas boas. Mas eu cresci e fui para o Oeste. E, quando todas essas crenças se revelaram mentiras, quando eu percebi que não era especial, que não estava segura...” Ela virou os braços para lhe mostrar as marcas de agulha. “Reagi mal à notícia.”

“Mas, depois que voltou para cá, depois das suas...”

“Provações?”, sugeriu ela.

“Sim.”

“Eu voltei, e meu pai expulsou minha mãe de casa, tirou o demônio de dentro de mim na porrada e me ensinou a rezar de novo ajoelhada e sem desejar ganhos pessoais. A rezar como suplicante. A rezar como pecadora. E a chama voltou. De joelhos, junto à cama que eu dormia quando menina. Eu tinha passado o dia inteiro de joelhos. Tinha passado a maior parte da semana acordada. E a chama encontrou meu sangue, encontrou meu coração, e eu tive certeza outra vez. Sabe quanta falta eu sentira dessa certeza? Mais do que de qualquer droga, qualquer comida, talvez mais até do que o Deus que supostamente me proporcionava essa certeza. Certeza, sr. Coughlin. Certeza. É a mentira mais linda de todas.”

Nenhum dos dois disse nada por um tempo, tempo suficiente para Carmen reaparecer com mais duas xícaras de café para substituir a que eles haviam esvaziado.

“Minha mãe faleceu na semana passada. O senhor sabia?”

“Não sabia, Loretta, eu sinto muito.”

Ela descartou suas desculpas com um aceno e bebeu um pouco de café. “As crenças do meu pai e as minhas a expulsaram de nossa casa. Ela costumava lhe dizer: ‘Você não ama Deus. Você ama a ideia de ser especial para ele. Quer acreditar que ele o vê’. Quando eu soube da sua morte, entendi o que ela queria dizer. Eu não estava buscando conforto em Deus. Eu não conheço Deus. Só queria minha mamãe de volta.” Ela fez que sim diversas vezes para si mesma.

Um casal entrou no café, e a sineta acima da porta soou enquanto Carmen saía de trás do balcão para acomodá-los.

“Não sei se existe um Deus.” Ela ficou mexendo na asa da xícara. “Com certeza espero que sim. E espero que ele seja bom. Não seria bacana, sr. Coughlin?”

“Seria, sim”, respondeu Joe.

“Eu não acredito que ele condene as pessoas ao fogo eterno por terem fornicado, como o senhor assinalou. Nem por acreditarem em uma versão dele um pouco fora dos padrões. Eu acredito, ou melhor, eu quero acreditar, que ele considera os piores pecados aqueles que cometemos em seu nome.”

Ele a olhou com muita atenção. “Ou aqueles que cometemos contra nós mesmos no desespero.”

“Ah”, disse ela, jovial. “Eu não estou desesperada. O senhor está?”

Ele fez que não com a cabeça. “Nem um pouco.”

“Qual é o seu segredo?”

Ele deu uma risadinha. “Esta conversa está um pouco íntima demais para um café.”

“Eu quero saber. O senhor parece...” Ela correu os olhos pelo café, e por um fugidio instante um abandono selvagem atravessou seus olhos. “O senhor parece inteiro.”

Ele sorriu e balançou a cabeça várias vezes.

“Parece, sim”, disse ela.

“Não.”

“Parece, sim. Qual é o segredo?”

Ele ficou mexendo no pires por alguns instantes, sem dizer nada.

“Vamos, sr. Cough...”

“Ela.”

“Como?”

“Ela”, repetiu Joe. “Graciela. Minha esposa.” Ele a encarou do outro lado da mesa. “Também espero que exista um Deus. Espero sinceramente. Mas, se não existir, Graciela me basta.”

“Mas e se o senhor a perder?”

“Não pretendo perdê-la.”

“Mas e se perder?” Ela se aproximou da mesa.

“Nesse caso, eu seria só cabeça, nenhum coração.”

Ficaram sentados em silêncio. Carmen se aproximou e tornou a encher suas xícaras, e Joe pôs mais um pouco de açúcar no café, olhou para Loretta, e sentiu um impulso poderoso e inexplicável de lhe dar um abraço e dizer que daria tudo certo.

“O que vai fazer agora?”, indagou.

“Como assim?”

“A senhorita é um pilar desta cidade. Caramba, enfrentou a mim no auge do meu poder e venceu. A Klan não tinha conseguido. A lei tampouco. Mas a senhorita conseguiu.”

“Não me livrei do álcool.”

“Mas acabou com o jogo. E antes de a senhorita chegar estava tudo acertado.”

Ela sorriu, e logo em seguida escondeu o sorriso com as mãos. “Eu fiz isso, não fiz?”

Joe sorriu junto com ela. “Sim, fez. Milhares de pessoas seguiriam a senhorita precipício abaixo, Loretta.”

Ela deu uma risada chorosa e ergueu os olhos para o telhado de zinco. “Não quero que ninguém me siga a lugar nenhum.”

“Já disse isso a eles?”

“Ele não ouve.”

“Irv?”

Ela aquiesceu.

“Dê tempo a ele.”

“Ele amava tanto a minha mãe que me lembro de vê-lo tremer às vezes, quando chegava perto demais dela. Tamanho seu desejo de tocá-la, sabe? Mas ele não podia, porque nós crianças estávamos presentes e não se fazia. Agora ela morreu e ele nem sequer foi ao enterro. Porque o Deus que ele imagina teria desaprovado. O Deus que ele imagina não compartilha. Meu pai passa todas as suas noites sentado na cadeira lendo a Bíblia, cego de raiva porque outros homens tiveram permissão para tocar sua filha do modo como ele costumava tocar sua mulher. E coisa pior.” Ela chegou mais perto da mesa e esfregou um grão solto de açúcar com o indicador. “Fica andando pela casa à noite sussurrando a mesma palavra sem parar.”

“Que palavra?”

“Penitência.” Ela ergueu os olhos para ele. “Penitência, penitência, penitência.”

“Dê tempo a ele”, repetiu Joe, porque não conseguiu pensar em mais nada para dizer.

Poucas semanas depois disso, Loretta voltou a usar branco. Suas pregações continuaram a atrair multidões. Ela havia acrescentado alguns novos recursos, porém — truques, diziam alguns com desdém: glossolalia, espumar pela boca. E falava com uma voz duas vezes mais arrebatada e duas vezes mais alta.

Certa manhã, Joe viu uma foto sua no jornal, pregando diante de uma reunião de fiéis do Conselho Geral das Assembleias de Deus no condado de Lee, e no início não a reconheceu, embora ela estivesse igualzinha.

O presidente Roosevelt assinou a Lei Cullen-Harrison na manhã de 23 de março de 1933, legalizando a fabricação e venda de cerveja e vinho com teor alcoólico não superior a 3,2 por cento. Até o fim do ano, prometeu fdr, a Décima Oitava Emenda Constitucional seria uma vaga lembrança.

Joe foi encontrar Esteban no Tropicale. Chegou atrasado, algo que não era do seu feitio, mas que vinha acontecendo bastante nos últimos tempos porque o relógio de seu pai começara a atrasar. Na semana anterior, havia perdido regularmente cinco minutos por dia. Agora perdia em média dez, às vezes quinze. Joe vivia pensando em mandar consertá-lo, mas isso significaria abrir mão do relógio enquanto durasse o conserto e, mesmo sabendo que era um sentimento irracional, ele não conseguia suportar essa ideia.

Quando Joe entrou no escritório dos fundos, Esteban estava emoldurando mais uma foto tirada em sua última ida a Havana, dessa vez na inauguração da Zoot, sua nova boate na Cidade Velha. Mostrou a fotografia a Joe — era bem parecida com todas as outras: grã-finos bêbados e bem-vestidos com suas bem-vestidas esposas, namoradas ou acompanhantes e uma ou outra dançarina, posando junto à banda, todos de olhos brilhantes e ar alegre. Joe mal olhou para a foto antes de emitir o assobio elogioso de praxe, e Esteban a virou de cabeça para baixo sobre o passe-partout que a aguardava em cima do vidro. Serviu-lhes dois drinques que pôs sobre a mesa entre os pedaços da moldura e começou a colá-los; de tão forte, o cheiro da cola chegava a suplantar o cheiro de tabaco do escritório, algo que Joe teria julgado impossível.

“Sorria”, disse ele em determinado momento, e ergueu o copo. “Estamos prestes a nos tornar homens riquíssimos.”

“Se Pescatore me liberar”, disse Joe.

“Se ele relutar”, disse Esteban, “nós o deixamos comprar uma participação em um negócio honesto.”

“Ele nunca vai mudar de ramo.”

“Ele está velho.”

“Ele tem sócios. Tem filhos, caramba.”

“Eu sei muito bem quem são esses filhos: um é pederasta, o outro viciado em ópio, e o terceiro espanca a mulher e as namoradas porque na verdade prefere homens.”

“Certo, mas não acho que chantagem vá funcionar com Maso. E o trem dele chega amanhã.”

“Já?”

“Pelo que eu soube.”

“Ora. Eu passei a vida inteira negociando com gente igual a ele. Vamos dobrá-lo.” Esteban tornou a erguer o copo. “Você vale o esforço.”

“Obrigado”, disse Joe, e dessa vez bebeu.

Esteban voltou a trabalhar na moldura.

“Nesse caso, sorria.”

“Estou tentando.”

“É Graciela, então.”

“Sim.”

“O que tem ela?”

Os dois haviam decidido não contar a ninguém antes de a gestação dela se tornar aparente. Nessa mesma manhã, antes de sair para o trabalho, ela havia apontado para a pequena bala de canhão que despontava por baixo do vestido e afirmado ter quase certeza de que o segredo, de uma forma ou de outra, não iria passar desse dia.

Assim, foi com um alívio surpreendentemente grande de um peso oculto que ele disse a Esteban: “Está grávida”.

Os olhos de Esteban ficaram marejados, ele bateu palmas, e então deu a volta na mesa e abraçou Joe. Deu vários tapas em suas costas, com muito mais força do que Joe o imaginava capaz.

“Agora sim você é um homem”, falou.

“Ah”, disse Joe. “É essa a condição?”

“Nem sempre, mas no seu caso...” Esteban fez um gesto de vaivém com a mão, Joe lhe desferiu um soco de mentira, e Esteban chegou perto dele e tornou a abraçá-lo. “Estou muito feliz por você, amigo.”

“Obrigado.”

“Ela está radiante?”

“Sabe de uma coisa? Está. É estranho. Não consigo descrever. Mas sim, tem uma energia que emana dela de um jeito diferente.”

Os dois brindaram à paternidade enquanto do outro lado das venezianas de Esteban, para lá dos luxuriantes jardins verdes, das luzinhas nas árvores e dos muros de pedra, mais uma noite de sexta-feira em Ybor começava.

“Você gosta daqui?”

“O quê?”, perguntou Joe.

“Quando chegou, era muito branquinho. Tinha aquele corte de cabelos horrível de presidiário, e falava muito rápido.”

Joe riu, e Esteban riu junto com ele.

“Sente falta de Boston?”

“Sinto”, respondeu Joe, porque às vezes sentia de fato uma imensa saudade.

“Mas a sua casa agora é aqui.”

Joe aquiesceu, embora surpreso ao se dar conta disso. “Acho que sim.”

“Sei como você se sente. Eu não conheço o resto de Tampa. Nem mesmo depois de tantos anos. Mas conheço Ybor como conheço Havana, e não tenho certeza do que faria caso tivesse de escolher.”

“Acha que Machado vai...”

“Machado já era. Talvez leve algum tempo. Mas ele já era. Os comunistas acham que podem substituí-lo, mas os Estados Unidos jamais permitiriam. Meus amigos e eu temos uma solução maravilhosa, um homem muito moderado, mas não tenho certeza de que alguém esteja preparado para moderação hoje em dia.” Ele fez uma careta. “Vai obrigá-los a pensar demais. Vai lhes dar dor de cabeça. As pessoas gostam de polos opostos, não de sutilezas.”

Ele encaixou o vidro do porta-retratos na moldura, pôs o quadrado de rolha atrás e passou mais cola. Retirou o excesso com uma toalhinha e deu um passo atrás para avaliar o trabalho. Quando ficou satisfeito, levou seus dois copos vazios para o bar e serviu mais um drinque a cada um.

Entregou a Joe seu copo. “Está sabendo sobre Loretta Figgis?”

Joe pegou o copo. “Alguém a viu andando sobre as águas do rio Hillsborough?”

Esteban o encarou, com a cabeça totalmente imóvel. “Ela se matou.”

Isso imobilizou o drinque a meio caminho da boca de Joe. “Quando?”

“Ontem à noite.”

“Como?”

Esteban balançou a cabeça várias vezes e voltou para trás da escrivaninha.

“Como, Esteban?”

O cubano olhou para seu jardim lá fora. “É de se imaginar que ela tenha voltado a usar heroína.”

“Tá bom...”

“Caso contrário, teria sido impossível.”

“Esteban”, insistiu Joe.

“Ela cortou fora os próprios órgãos genitais, Joseph. E depois...”

“Puta merda”, disse Joe. “Ah, não, puta merda.”

“Depois cortou a própria traqueia.”

Joe enterrou o rosto nas mãos. Viu-a no café um mês antes, viu-a ainda menina subindo os degraus do quartel da polícia com sua saia xadrez, suas meinhas brancas e seus sapatos de boneca, cheia de livros debaixo do braço. E então apenas imaginou, mas de forma duplamente vívida — ela se mutilando dentro de uma banheira cheia do próprio sangue, com a boca aberta em um grito impossível de calar.

“Foi na banheira?”

Esteban franziu o cenho para ele, curioso. “O que foi na banheira?”

“Foi na banheira que ela se matou?”

“Não.” Esteban balançou a cabeça. “Foi na cama. Na cama do pai.”

Joe tornou a cobrir o rosto com as mãos e as manteve ali.

“Por favor, me diga que não está se culpando”, disse Esteban depois de algum tempo.

Joe não disse nada.

“Joseph, olhe para mim.”

Joe abaixou as mãos e soltou uma longa expiração.

“Ela foi para o Oeste, e, como acontece com tantas outras garotas que fazem isso, outras pessoas abusaram dela. Não foi você quem abusou dela.”

“Mas foram homens da mesma profissão que a nossa.” Joe pousou o copo na borda da escrivaninha e pôs-se a andar de um lado para o outro do tapete, tentando encontrar as palavras certas. “Cada compartimento dessa coisa que nós fazemos se alimenta um do outro. O lucro da biri-ta paga pelas garotas, e as garotas pagam pelos narcóticos necessários para viciar outras garotas e fazê-las trepar com desconhecidos para nós podermos lucrar. E, se por acaso essas garotas tentam largar o vício ou deixam de ser dóceis, elas apanham, Esteban. Você sabe disso. Se elas tentam largar o vício, tornam-se vulneráveis a algum policial inteligente. Então alguém corta a garganta delas e as joga dentro de um rio. E nós passamos os últimos dez anos fazendo chover balas em cima da concorrência e uns dos outros. E em troca de quê? Da porra do dinheiro.”

“É esse o lado feio de viver fora da lei.”

“Ah, cacete”, disse Joe. “Nós não somos fora da lei. Somos gângsteres.”

Esteban sustentou seu olhar por algum tempo, então falou: “Não dá para conversar quando você está assim”. Virou a fotografia agora emoldurada sobre a mesa e pôs-se a observá-la. “Nós não somos responsáveis pelos outros, Joseph. Na verdade, é uma ofensa aos outros supor que eles não sejam capazes de olhar por si.”

Loretta, pensou Joe. Loretta, Loretta. Nós tomamos de você, tomamos tanta coisa de você, e pensamos que de algum jeito você fosse seguir em frente sem as partes que roubamos.

Esteban estava apontando para a fotografia. “Veja só estas pessoas. Estão dançando, bebendo, vivendo. Porque amanhã elas podem estar mortas. Nós também podemos estar mortos amanhã, você e eu. Se um desses festeiros aqui, este homem, digamos...”

Esteban apontou para um cavalheiro com cara de buldogue usando uma casaca branca e com um grupo de mulheres enfileirado atrás dele como se estivessem prestes a levantar o patife gordote nos ombros, todas reluzentes de paetês e lamê.

“... fosse morrer voltando de carro para casa por estar embriagado demais de Suárez Reserva para ver direito, por acaso seria culpa nossa?”

Joe pôs-se a observar todas as belas mulheres atrás do homem com cara de buldogue, a maioria latina, com cabelos e olhos da mesma cor dos de Graciela.

“Seria culpa nossa?”, repetiu Esteban.

Exceto uma. Uma mulher mais baixa, com o rosto virado para longe da câmera olhando para algo fora do quadro, como se alguém tivesse entrado no recinto e chamado seu nome na mesma hora em que a câmera disparou. Uma mulher com cabelos cor de areia e olhos claros como o inverno.

“O quê?”, indagou Joe.

“Seria culpa nossa?”, repetiu Esteban. “Se algum mamón decidisse...”

“Quando esta foto foi tirada?”, perguntou Joe.

“Quando?”

“É, é. Quando?”

“Na inauguração da Zoot.”

“E quando foi essa inauguração?”

“No mês passado.”

Joe olhou para ele do outro lado da mesa. “Tem certeza?”

Esteban riu. “O restaurante é meu. É claro que eu tenho certeza.”

Joe engoliu a bebida de uma vez só. “Não existe a possibilidade de esta foto ter sido tirada em outro momento e confundida com a que foi tirada no mês passado?”

“O quê? Não. Que outro momento?”

“Há uns seis anos, digamos.”

Esteban fez que não com a cabeça, ainda rindo, mas seus olhos escureceram de preocupação. “Não, não, não, Joseph. Não. Esta foto foi tirada há um mês. Por quê?”

“Porque esta mulher aqui”, Joe pôs o dedo em cima de Emma Gould, “está morta desde 1927.”