Os Filhos da Noite
Capítulo 15
OS OLHOS DA SUA FILHA
Quando amanheceu, os marinheiros desembarcaram as armas e as puseram sobre o píer. Os caixotes ficaram ali sob o sol nascente, salpicados com um orvalho que ia se transformando em vapor à medida que evaporava. Várias embarcações menores chegaram, e delas desembarcaram marinheiros seguidos por oficiais, e todos foram examinar o rombo no casco do navio. Joe, Esteban e Dion se misturaram à multidão atrás dos cordões de isolamento montados pela polícia de Tampa e ouviram dizer que o navio tinha descido até o fundo da baía, e que se duvidava que pudesse ser salvo. A Marinha supostamente iria mandar um guindaste de Jacksonville de barcaça para sanar essa dúvida. Quanto aos armamentos, eles estavam considerando despachar para Tampa outro navio que pudesse assumir a carga. Enquanto isso, teriam de guardá-la em algum lugar.
Joe saiu do píer. Foi se encontrar com Graciela em um café da Nona Avenida. Ficaram sentados do lado de fora, debaixo de um pórtico de pedra, e viram um bonde chegar estalando pelos trilhos no meio da avenida e parar bem na sua frente. Alguns passageiros embarcaram, outros desceram, e o bonde tornou a seguir viagem estalando.
“Algum sinal dele?”, indagou Graciela.
Joe fez que não com a cabeça. “Mas Dion está de olho. E ele plantou um ou dois caras no meio da multidão, de modo que...” Joe deu de ombros e tomou um gole de seu café cubano. Passara a última noite acordado e não dormira muito na anterior, mas, contanto que o café cubano continuasse a fluir, imaginava que pudesse passar a semana inteira acordado.
“O que eles põem neste negócio? Cocaína?”
“Só café”, respondeu Graciela.
“É como dizer que vodca é só suco de batata.” Ele terminou o café e tornou a pousar a xícara sobre o pires.
“Sente falta de lá?”
“De Cuba?”
“Sim.”
Ela fez que sim com a cabeça. “Muita.”
“Então por que está aqui?”
Ela olhou na direção da rua como se pudesse ver Havana do outro lado. “O senhor não gosta do calor.”
“Como?”
“O senhor”, disse ela. “Vive se abanando com a mão ou com o chapéu. Canso de ver o senhor fazer careta e erguer os olhos para o sol como se quisesse mandá-lo se pôr mais depressa.”
“Não percebi que era tão óbvio.”
“Está fazendo isso agora mesmo.”
Graciela tinha razão. Ele estava abanando a lateral da cabeça com o chapéu. “Este calor faria algumas pessoas dizerem que é como morar no sol. Eu digo que é como morar dentro do sol. Meu Deus. Como vocês conseguem fazer alguma coisa por aqui?”
Ela se reclinou para trás na cadeira, e seu belo pescoço moreno se arqueou contra o ferro forjado. “Para mim, quanto mais quente melhor.”
“Então a senhora é doida.”
Ela riu, e ele viu a risada subir por sua garganta. Ela fechou os olhos. “Quer dizer que o senhor odeia o calor, mas mesmo assim está aqui.”
“Sim.”
Ela abriu os olhos, inclinou a cabeça e olhou para ele. “Por quê?”
Ele desconfiava — desconfiava não, tinha certeza — que o que sentira por Emma tinha sido amor. Era amor. Portanto, o sentimento que Graciela Corrales despertou nele tinha de ser desejo. Mas era um desejo diferente de tudo o que ele já havia experimentado. Será que algum dia já vira olhos tão escuros? Havia algo de tão lânguido em tudo o que ela fazia — na forma como andava, como fumava seus charutos, como empunhava um lápis — que era fácil imaginar aqueles movimentos lânguidos em ação quando seu corpo se curvasse sobre o dele, quando ela o recebesse dentro de si enquanto expirava longamente junto a seu ouvido. Aquele langor não lembrava preguiça, e sim precisão. O tempo não o controlava; era ele quem controlava o tempo para fazê-lo se desdobrar como ela desejasse.
Não era de espantar que as freiras houvessem reprovado com tanta veemência os pecados da luxúria e da cobiça. Eles podiam dominar um homem da mesma forma implacável de um câncer. E matá-lo duas vezes mais depressa.
“Por quê?”, repetiu ele, chegando a perder o fio da meada por alguns segundos.
Ela o fitava com ar curioso. “Sim, por quê?”
“Um emprego”, respondeu ele.
“Eu vim pela mesma razão.”
“Para enrolar charutos?”
Ela se endireitou na cadeira e aquiesceu. “O salário é bem melhor do que qualquer coisa que se possa conseguir em Havana. Eu mando a maior parte para minha família que está lá. Quando meu marido sair da prisão, vamos decidir onde morar.”
“Ah, a senhora é casada”, disse Joe.
“Sou.”
Ele viu um clarão de triunfo no olhar dela, ou terá sido sua imaginação?
“Mas o seu marido está preso.”
Ela aquiesceu outra vez. “Mas não pelas mesmas coisas que o senhor faz.”
“Que coisas eu faço?”
Ela acenou com a mão no ar. “Pequenos crimes sujos.”
“Ah, então é isso que eu faço.” Ele aquiesceu. “Estava me perguntando o que seria.”
“Adán luta por algo maior do que ele próprio.”
“E qual é a sentença para isso?”
O semblante dela escureceu e o bom humor se foi. “Ele foi torturado para revelar quem eram seus cúmplices... eu e Esteban. Mas não contou. O que quer que tenham feito com ele.” Seu maxilar estava esticado, e os olhos chispavam de um jeito que fez Joe pensar nos relâmpagos finos que tinham visto na noite anterior. “Eu não mando dinheiro para minha família em Cuba porque não tenho família. Mando para a família de Adán, para eles poderem tirá-lo daquela prisão de merda e mandá-lo de volta para mim.”
Seria apenas desejo o que ele estava sentindo, ou algo que ainda não fora capaz de definir? Talvez fosse a exaustão, os dois anos preso, o calor. Podia ser. Decerto devia ser. Ainda assim, não conseguiu se livrar da sensação de ser atraído por uma parte dela que desconfiava estar profundamente traumatizada, algo ao mesmo tempo assustado, zangado e esperançoso. Algo no âmago de Graciela que repercutia em algo no âmago de si mesmo.
“Ele é um homem de sorte”, comentou.
A boca dela se abriu antes de ela perceber que não havia ao que responder.
“Um homem de muita sorte.” Joe se levantou e depositou algumas moedas sobre a mesa. “Está na hora de dar aquele telefonema.”
Fizeram a ligação de um telefone nos fundos de uma fábrica de charutos falida no lado leste de Ybor. Sentaram-se no chão empoeirado de um escritório vazio, e Joe discou o número enquanto Graciela dava uma última olhada na mensagem que ele havia datilografado por volta da meia-noite da véspera.
“Editoria de cidade”, disse o sujeito do outro lado da linha, e Joe passou o telefone para Graciela.
Ela falou: “Quero reivindicar o triunfo de ontem à noite sobre o imperialismo americano. Está sabendo sobre da bomba que explodiu no USS Mercy?”.
Joe pôde ouvir a voz do sujeito. “Estou, estou sim.”
“Os Povos Unidos da Andaluzia assumem a responsabilidade pela bomba. Além do mais, prometemos um ataque direto aos próprios marinheiros e a todas as forças armadas americanas até Cuba ser devolvida a seu proprietário legítimo, o povo de Espanha. Até logo.”
“Espere, espere. Os marinheiros. Fale-me sobre o ataque aos...”
“Quando eu desligar o telefone, eles já terão morrido.”
Ela desligou o telefone e olhou para Joe.
“Isso deve fazer as coisas andarem”, disse ele.
Joe voltou para lá a tempo de ver o comboio de caminhões descer o cais. A tripulação desembarcou em grupos de cinquenta, movendo-se depressa, vasculhando os telhados com os olhos.
Os caminhões do comboio foram deixando o cais em disparada um depois do outro, e então se separaram, cada qual com uns vinte soldados a bordo; o primeiro seguiu para leste, o seguinte para sudoeste, o terceiro para norte, e assim por diante.
“Algum sinal de Manny?”, indagou Joe a Dion.
Dion fez que não com um ar sombrio e apontou, e Joe olhou pelo meio da multidão e para lá dos caixotes de armas. Ali, na borda do cais, jazia um saco de cadáveres feito de lona amarrado nas pernas, no peito e no pescoço. Depois de algum tempo, uma caminhonete branca chegou, recolheu o corpo e foi embora do cais ladeada por uma escolta da Guarda Costeira.
Pouco depois disso, o último caminhão do comboio que ainda estava no cais ganhou vida com um rugido de motor. Fez uma curva de cento e oitenta graus e parou, arranhando a caixa de marchas junto com o agudo grasnar das gaivotas, então deu ré até os caixotes. Um marinheiro saltou e abriu a traseira. Os poucos tripulantes ainda a bordo do USS Mercy então começaram a desembarcar, todos carregando fuzis automáticos Browning e a maioria portando armas menores. Um aspirante a oficial militar aguardava no cais enquanto eles se reuniam junto à passarela.
Sal Urso, que trabalhava no escritório central da contabilidade esportiva dos Pescatore no sul de Tampa, chegou perto e entregou umas chaves a Dion.
Dion o apresentou a Joe, e os dois se cumprimentaram com um aperto de mãos.
“Está uns vinte metros atrás daqui”, disse Sal. “Tanque cheio de gasolina, uniformes em cima do banco.” Ele olhou Dion de cima a baixo. “Não foi fácil achar roupas que coubessem em você.”
Dion deu um tapa na lateral de sua cabeça, mas sem muita força. “Como estão as coisas lá fora?”
“A polícia está por toda parte. Mas estão procurando espanhóis.”
“Não cubanos?”
Sal fez que não com a cabeça. “Meu filho, você virou esta cidade de pernas para o ar.”
O último dos marinheiros havia se juntado ao grupo, e o suboficial lhes dava ordens apontando para os caixotes.
“Hora de se mexer”, disse Joe. “Prazer em conhecê-lo, Sal.”
“O prazer foi todo meu, senhor. Nos vemos lá.”
Eles saíram da periferia da multidão e encontraram o caminhão onde Sal dissera que estaria. Era uma carreta de duas toneladas, com a caçamba feita de aço e barras também de aço cobertas por um toldo de lona. Eles entraram na frente, Joe engatou uma primeira com a dura alavanca de marchas, e partiram pela rua Dezenove.
Vinte minutos mais tarde, pararam no acostamento da estrada 41. Havia uma floresta ali, com pinheiros de folha comprida mais altos do que Joe imaginava que uma árvore pudesse ser e pinheiros-do-caribe e pinheiros-do-pântano de estatura menor, todos se erguendo de uma espessa vegetação de frondosos palmetos, urzes e arbustos de carvalho. Pelo cheiro, imaginou que houvesse um pântano em algum lugar próximo ao leste de onde estavam. Graciela os esperava junto a uma árvore que havia se partido ao meio durante um temporal recente. Trocara o vestido que estava usando mais cedo por um exuberante vestido de noite de renda preta com a barra em zigue-zague. Contas imitando ouro, paetês pretos e um generoso decote que deixava à mostra o rego dos seios e as bordas do sutiã completavam o disfarce de uma moça festeira que ficara na festa até bem depois do final e acabara indo parar, à luz do dia, em um lugar bem mais brutal.
Joe a olhou através do para-brisa e não desceu do caminhão. Podia ouvir a própria respiração.
“Posso fazer por você”, disse Dion.
“Não”, respondeu Joe. “O plano é meu, a responsabilidade é minha.”
“Você não se importa em delegar outras coisas.”
Ele se virou e olhou para Dion. “Está dizendo que eu quero fazer isso?”
“Eu vi o jeito como vocês se olham.” Dion deu de ombros. “Talvez ela goste de um sacode. Talvez você também goste.”
“Que porra de conversa é essa... que jeito como nos olhamos? Preste atenção no seu trabalho, não nela.”
“Com todo o respeito, você também”, retrucou Dion.
Que merda, pensou Joe: assim que um cara tinha certeza de que você não iria matá-lo, começava a ficar atrevido.
Joe desceu do caminhão e Graciela o observou se aproximar. Já tinha feito parte do trabalho sozinha — o vestido tinha um rasgo perto da escápula esquerda, o seio esquerdo exibia leves arranhões, e ela havia mordido o lábio inferior com força suficiente para tirar sangue. Quando ele chegou perto, ela encostou um lenço na boca.
Dion saltou do caminhão pelo outro lado, e ambos olharam na sua direção. Ele suspendeu o uniforme que Sal Urso havia lhe deixado em cima do banco.
“Façam o que têm de fazer”, falou Dion. “Eu vou me trocar.” Deu uma risadinha e encaminhou-se para a traseira do caminhão.
Graciela estendeu o braço direito. “O senhor não tem muito tempo.”
De repente, Joe não soube mais como segurar a mão de outra pessoa. Pareceu-lhe antinatural.
“Não tem mesmo”, repetiu ela.
Ele estendeu a mão e segurou a dela. Era mais dura do que a mão de qualquer outra mulher que ele havia tocado. A base da palma parecia uma pedra de tanto passar o dia enrolando charutos, e os dedos esguios eram sólidos como marfim.
“Agora?”, perguntou-lhe ele.
“Agora seria o melhor”, respondeu ela.
Ele apertou seu pulso com a mão esquerda e dobrou os dedos da direita para arranhar a pele junto ao ombro dela. Arrastou as unhas pelo braço dela. Quando chegou ao cotovelo, parou e respirou fundo, pois teve a sensação de que sua cabeça estava recheada de jornal molhado.
Ela arrancou o pulso da mão dele e examinou os arranhões no próprio braço. “Tem que fazê-los parecer reais.”
“Estão parecendo bastante reais.”
Ela apontou para o próprio bíceps. “Estão rosados. E acabam no cotovelo. Eles precisam sangrar, bobo niño, e descer até a minha mão. Entendeu? Está lembrado?”
“É claro que estou”, respondeu Joe. “O plano é meu.”
“Então aja de acordo.” Ela esticou o braço para ele. “Enterre as unhas e puxe.”
Joe não teve certeza, mas pensou ter escutado uma risada emanar da traseira do caminhão. Envolveu o bíceps dela com a mão, bem firme dessa vez, e suas unhas se enterraram nas marcas débeis que já tinha feito. Graciela não se mostrou tão corajosa quando no discurso. Seus olhos se agitaram nas órbitas e a pele se arrepiou.
“Merda. Sinto muito.”
“Rápido, rápido.”
Ela cravou os olhos nos dele e Joe desceu a mão pela parte interna de seu braço, arrancando a pele conforme o fazia, abrindo as costuras da pele dela. Quando passou pelo cotovelo e continuou, ela soltou um silvo e virou o braço, fazendo as unhas dele arranharem seu antebraço e chegarem ao pulso.
Quando ele soltou sua mão, ela a usou para lhe dar um tapa.
“Caramba”, disse ele, “não estou fazendo isso porque gosto.”
“Isso é o que o senhor diz.” Ela lhe deu outro tapa, acertando dessa vez o maxilar inferior e o alto do pescoço.
“Ei! Não posso chegar à porra do posto de vigia cheio de marcas no rosto.”
“Então é melhor me segurar”, retrucou ela, desferindo mais um tapa.
Desse ele se desviou, pois ela o havia alertado, e então fez o que haviam combinado — o que certamente parecia mais fácil de falar que de fazer até ela lhe bater duas vezes para deixá-lo com raiva. As costas de sua mão acertaram a bochecha dela, bem com o nó dos dedos. A parte superior do corpo de Graciela foi projetada de lado, seus cabelos lhe cobriram o rosto e ela ficou assim por alguns instantes, ofegando. Quando se endireitou, seu rosto havia ficado vermelho e a pele em volta do olho direito pulsava. Ela cuspiu no arbusto de palmeto do acostamento da estrada.
Não quis mais olhar para ele. “A partir daqui pode deixar comigo.”
Ele quis dizer alguma coisa mas não conseguiu pensar em quê, então deu a volta até a frente do caminhão enquanto Dion o observava do banco do carona. Parou para abrir a porta e olhou para trás em direção a ela. “Detestei fazer isso.”
“Mas o plano foi seu”, respondeu ela, e cuspiu na estrada.
* * *
Durante o trajeto, Dion falou: “Escute, eu também não gosto de bater em mulher, mas às vezes isso é a única coisa que elas respeitam”.
“Eu não bati nela porque ela mereceu”, disse Joe.
“Não, bateu nela para ajudá-la a conseguir uma porção de fuzis Browning e metralhadoras Thompson e mandar para os amiguinhos lá na Ilha do Pecado.” Dion deu de ombros. “Este é um negócio de merda, então temos de ter comportamentos de merda. Ela pediu para você conseguir as armas. Você arrumou um jeito de consegui-las.”
“Não consegui ainda”, disse Joe.
Os dois encostaram na beira da estrada uma última vez para Joe vestir o uniforme. Dion bateu na divisória entre a cabine e a traseira do caminhão e disse: “Todo mundo quietinho feito gatos com cachorros por perto. ¿Comprende? ”.
Um coro de “sí ” respondeu da traseira do caminhão, e então a única coisa que se ouviu foram os onipresentes insetos nas árvores. “Preparado?”, perguntou Joe.
Dion deu um tapa na lateral da porta. “É para isso que eu acordo todo dia, companheiro.”
O arsenal da Guarda Nacional ficava na parte ainda não urbanizada de Tampa, na extremidade norte do condado de Hillsborough, uma paisagem árida de bosques de árvores cítricas, pântanos de ciprestes e campos de capim ressecados e quebradiços por causa do sol, à espera de uma chance de pegar fogo e deixar o condado inteiro preto de fumaça.
Dois guardas vigiavam o portão, um deles armado com um Colt 45 e o outro com um fuzil automático Browning, justamente os armamentos que eles estavam ali para roubar. O guarda com a pistola era alto e magro, tinha os cabelos pretos espetados e as bochechas encovadas de um homem muito velho ou de um homem muito jovem com dentes ruins. O rapaz da Browning mal saíra das fraldas; tinha cabelos de um tom ruivo escuro e olhos sem viço. Cravos cobriam seu rosto como se fossem pimenta.
Ele não era problema, mas o guarda alto deixou Joe preocupado. Tinha algo de excessivamente contido, excessivamente atento. Demorava-se ao observar você e não estava nem aí para o que você achasse.
“Eram vocês quem estavam na explosão?” Seus dentes, como Joe adivinhara, eram cinzentos e tortos, e vários deles se projetavam de volta para dentro da boca como velhas lápides em um cemitério alagado.
Dion confirmou. “Abriram um rombo no nosso casco.”
O rapaz alto olhou para Dion atrás de Joe. “Porra, gordinho, quanto você pagou para passar na avaliação física?”
O baixinho saiu da guarita com a Browning aninhada preguiçosamente no braço, o cano apoiado sobre o quadril na diagonal. Começou a avançar pela lateral do caminhão com a boca entreaberta, como se esperasse que fosse chover.
O que estava perto da porta falou: “Fiz uma pergunta, gordinho”.
Dion deu um sorriso simpático. “Cinquenta pratas.”
“Foi isso que você pagou?”
“Foi”, respondeu Dion.
“Que pechincha. E a quem você pagou exatamente?”
“Como?”
“O nome e a patente do homem a quem você pagou”, disse o rapaz.
“Primeiro-sargento Brogan”, respondeu Dion. “Por quê, está pensando em se alistar?”
O rapaz piscou e exibiu a ambos um sorriso frio, mas não disse nada, simplesmente ficou parado enquanto o sorriso se evaporava. “Eu, por minha parte, não aceito subornos.”
“Certo”, disse Joe, sem conseguir ficar calado de tão nervoso.
“Certo?”
Joe aquiesceu e resistiu ao impulso de sorrir feito um bobo, para mostrar ao sujeito quanto era simpático.
“Eu sei que é certo. Eu sei.”
Joe aguardou.
“Eu sei que é certo”, repetiu o cara. “Por acaso dei a impressão de que precisava de algum conselho a esse respeito?”
Joe não disse nada.
“Não dei”, completou o rapaz.
Alguma coisa bateu na traseira do caminhão, o rapaz olhou lá para trás à procura do colega e, quando tornou a olhar para Joe, este encostou a Savage 32 no seu nariz.
Os olhos do rapaz ficaram vesgos para mirar o cano da arma, e sua respiração começou a sair pesada e comprida pela boca. Dion desceu do caminhão, deu a volta até o rapaz e pegou sua arma.
“Alguém com dentes feito os seus não deveria ficar comentando sobre os defeitos dos outros”, falou. “Alguém com dentes feito os seus deveria ficar de boca fechada e pronto.”
“Sim, senhor”, sussurrou o rapaz.
“Qual é o seu nome?”
“Perkin, senhor.”
“Bem, Perkinsenhor”, continuou Dion, eu e meu colega em algum momento debateremos se vamos deixá-lo vivo hoje. Se decidirmos a seu favor, você saberá porque não estará morto. Caso contrário, será para lhe ensinar que deveria tratar as pessoas melhor. Agora ponha as porras das mãos nas costas.”
Os gângsteres de Pescatore foram os primeiros a descer da traseira do caminhão — eram quatro, usando ternos de verão e gravatas floridas. Foram empurrando o rapaz ruivo na sua frente, com Sal Urso apontando o fuzil do próprio garoto para suas costas e ele balbuciando que não queria morrer hoje, hoje não. Em seguida desceram os cubanos, quase trinta, a maioria vestindo as calças brancas de cordão na cintura e camisas brancas mais largas na bainha que faziam Joe pensar em pijamas. Todos portavam fuzis ou pistolas. Um deles carregava um facão, outro, duas facas grandes em riste. Esteban ia na frente. Estava usando uma túnica verde-escura e calça do mesmo tecido, a roupa de campanha perfeita para revolucionários de uma república das bananas, pensou Joe. Fez um gesto de positivo para Joe quando ele e seus homens entraram no arsenal e em seguida se espalharam pelos fundos do prédio.
“Quantos homens tem lá dentro?”, perguntou Joe a Perkin.
“Catorze.”
“Por que tão poucos?”
“Estamos no meio da semana. Se viessem aqui no fim de semana, teriam encontrado uma porção.” Seu olhar tornou a exibir um pouquinho de crueldade.
“Tenho certeza de que sim.” Joe desceu do caminhão. “Mas no presente momento, Perkin, vou ter que me contentar com você.”
O único cara a resistir quando viu trinta cubanos armados inundarem os saguões do arsenal foi um gigante. Um metro e oitenta e quatro de altura, calculou Joe. Talvez mais. Cabeça descomunal, um maxilar comprido, e ombros que mais pareciam duas vigas. Ele atacou três cubanos que tinham ordens para não atirar. Mas mesmo assim atiraram. Não acertaram o gigante. Erraram feio de sete metros de distância. Em vez disso, acertaram outro cubano. Um cara que chegou correndo por trás do gigante.
Joe e Dion estavam logo atrás do cubano quando ele foi baleado. O homem rodopiou e desabou na sua frente como um pino de boliche, e Joe gritou: “Parem de atirar!”.
“¡Dejar de disparar! ¡Dejar de disparar! ”, berrou Dion.
Os cubanos pararam, mas Joe não pôde ter certeza se estavam apenas recarregando os fuzis de ferrolho enferrujados ou não. Arrancou o fuzil da mão do que fora baleado, segurou-o pelo cano e encolheu o braço enquanto o gigante se levantava da posição defensiva agachada que assumira quando os cubanos haviam começado a alvejá-lo. Joe o acertou na lateral da cabeça com o fuzil, e o gigante ricocheteou na parede e partiu para cima dele, agitando os braços. Joe mudou a empunhadura e arremeteu a coronha do fuzil pelo meio dos braços do homem em cheio no seu nariz. Ouviu o nariz se quebrar, e ouviu o osso malar se quebrar também quando a coronha deslizou pelo rosto. Quando o homem caiu no chão, Joe soltou o fuzil. Tirou as algemas do bolso, Dion segurou um dos pulsos do cara e Joe o outro, e juntos algemaram suas mãos nas costas enquanto ele resfolegava repetidamente, com o sangue a empoçar no chão.
“Você vai viver?”, perguntou-lhe Joe.
“Vou matar você.”
“Parece que vai viver.” Joe se virou para os três cubanos rápidos no gatilho. “Chamem mais um e levem este aqui para as celas.”
Olhou para o cubano que tinha sido baleado. O homem estava encolhido no chão com a boca aberta, ofegando. Não soava nada bem e não parecia nada bem — pálido feito um lençol, com uma quantidade excessiva de sangue escorrendo do tronco. Joe se ajoelhou ao seu lado mas, no tempo que levou para fazer isso, o rapaz morreu. Ficou de olhos abertos virados para cima e para a direita, como se tentasse recordar a data de aniversário da esposa ou o lugar em que havia deixado a carteira. Ficou deitado de lado, com um braço preso sob o corpo de forma esquisita e o outro erguido atrás da cabeça. A camisa havia subido pelas costelas e deixado à mostra a barriga.
Os três homens que o haviam matado fizeram o sinal da cruz enquanto passavam por ele e por Joe arrastando o gigante.
Quando Joe fechou os olhos do rapaz, este lhe pareceu bem jovem. Teria uns vinte anos, ou talvez não passasse dos dezesseis. Joe o virou de costas e cruzou seus braços por cima do peito. Abaixo das mãos, logo abaixo do triângulo onde as costelas inferiores se juntavam, um sangue escuro subia de um buraco em seu corpo do tamanho de uma moeda de dez centavos.
Dion e seus homens puseram os soldados da Guarda Nacional em fila diante da parede, e Dion lhes disse para se despir até ficarem só de roupa de baixo.
O rapaz morto usava uma aliança de casamento no dedo. Parecia feita de estanho. Provavelmente devia carregar uma foto da esposa em algum lugar, mas Joe não iria procurar.
Ele também havia perdido um dos sapatos. Devia ter saído quando ele fora baleado, mas Joe não conseguiu vê-lo perto do cadáver. Enquanto os outros passavam por ele escoltando os soldados de roupa de baixo, vasculhou o corredor à procura do sapato.
Nada. Talvez estivesse debaixo do rapaz. Joe pensou em rolar o corpo outra vez para verificar — parecia-lhe importante encontrar o sapato —, mas tinha de voltar ao portão e precisava se trocar e vestir outro uniforme.
Sentiu-se observado por deuses entediados ou indiferentes enquanto tornava a descer a camisa do rapaz para lhe cobrir a barriga e o deixava caído ali, com um pé calçado e outro descalço, banhado no próprio sangue.
As armas chegaram cinco minutos depois, quando o caminhão se aproximou do portão. O motorista era um marinheiro da mesma idade do rapaz que Joe acabara de ver morrer, mas no banco do carona estava sentado um suboficial de trinta e poucos anos com o rosto permanentemente marcado pelo vento. Carregava na cintura um Colt 45 de 1917, com a coronha gasta de tanto uso. Bastou uma olhada em seus olhos claros para Joe saber que, se fosse aquele homem que os três cubanos houvessem atacado no corredor, seriam eles quem estariam caídos no chão cobertos por lençóis.
Os documentos que eles apresentaram os identificaram como cabo da Marinha Orwitt Pluff e primeiro-tenente Walter Craddick. Joe devolveu os documentos junto com as ordens assinadas que Craddick lhe havia entregue.
Diante dos papéis, Craddick inclinou a cabeça e deixou a mão de Joe suspensa no espaço que os separava. “São para o seu arquivo.”
“Certo.” Joe recolheu a mão. Sorriu para eles um sorriso amarelo, sem dar muita importância ao ocorrido. “Me diverti um pouco demais ontem à noite em Ybor. Sabem como é.”
“Não sei, não.” Craddick balançou a cabeça. “Eu não bebo. É contra a lei.” Ele olhou pelo para-brisa. “Temos de subir aquela rampa de ré?”
“Isso”, respondeu Joe. “Se quiserem, podem descarregar as armas e nós levamos para dentro.”
Craddick reparou nas insígnias no ombro de Joe. “Nossas ordens são para entregar e guardar as armas, cabo. Vamos levá-las até o depósito.”
“Excelente”, disse Joe. “É só dar ré até a rampa.” Ele ergueu o portão, cruzando olhares com Dion ao fazê-lo. Dion disse alguma coisa para Lefty Downer, o mais inteligente dos quatro caras que levara consigo, e em seguida se afastou na direção do arsenal.
Joe, Lefty e os outros três capangas de Pescatore, todos vestidos de cabo, seguiram o caminhão até a rampa de carga. Lefty fora escolhido por ser inteligente e nunca perder a calma. Os outros três — Cormarto, Fasani e Parone — tinham sido escolhidos por falarem inglês sem sotaque. De modo geral, pareciam soldados de fim de semana, embora Joe tenha observado, quando estavam atravessando o estacionamento, que os cabelos de Parone estavam compridos demais até mesmo para um soldado da Guarda Nacional.
Fazia dois dias que dormia mal, isso quando conseguira pregar o olho, e agora podia sentir o cansaço em cada passo que dava, muito embora tentasse raciocinar.
Enquanto o caminhão dava ré até a rampa, pegou Craddick a observá-lo, e ponderou se o homem mais velho era naturalmente desconfiado ou se Joe lhe dera algum motivo para desconfiar dele. Então se deu conta de algo que lhe deu náuseas.
Havia abandonado seu posto.
Havia deixado o portão desguarnecido. Soldado nenhum faria isso, nem mesmo um membro da Guarda Nacional de ressaca.
Olhou para trás imaginando que fosse ver a guarita vazia, esperando levar um tiro nas costas do 45 de Craddick e ouvir o som de alarmes, mas em vez disso o que viu foi Esteban Suárez em pé na guarita usando um uniforme de cabo, aparentando em todos os detalhes ser um soldado exceto para o mais curioso dos olhos.
Eu mal conheço você, Esteban, mas seria capaz de lhe dar um beijo na cabeça, pensou Joe.
Olhando para trás em direção ao caminhão, viu que Craddick não olhava mais para ele. Estava virado no assento dizendo alguma coisa para o cabo da Marinha enquanto o rapaz acionava o freio e em seguida desligava o motor.
Craddick saltou da cabine e pôs-se a gritar ordens para a traseira, e quando Joe lá chegou os marinheiros já haviam descido para a rampa e a traseira do caminhão estava aberta.
Craddick entregou a Joe uma prancheta. “Rubrique a primeira e a terceira página, assine a segunda. Os documentos afirmam com clareza que estamos deixando essas armas a seus cuidados por não menos que três e não mais de trinta e seis horas.”
Joe assinou “Albert White, Terceiro-Sargento, Guarda Nacional Norte-Americana”, rubricou nos devidos lugares e devolveu a prancheta.
Craddick olhou para Lefty, Cormarto, Fasani e Parone, depois novamente para Joe. “Cinco homens? É só o que tem?”
“Fomos informados de que vocês trariam o pessoal.” Joe indicou a dezena de marinheiros na rampa com um gesto.
“Típico do Exército: descansar enquanto outros fazem o trabalho”, comentou Craddick.
Joe piscou sob a claridade do sol. “Foi por isso que vocês se atrasaram... estavam trabalhando duro?”
“Como disse?”
Joe retesou o corpo, não apenas porque o sangue lhe havia subido à cabeça, mas porque não fazê-lo pareceria suspeito.
“Deveriam ter chegado há meia hora.”
“Quinze minutos”, disse Craddick, “e fomos atrasados.”
“Atrasados por quê?”
“Não vejo em que isso seja da sua conta, cabo.” Craddick chegou mais perto. “Mas na verdade fomos atrasados por uma mulher.”
Joe olhou para trás na direção de Lefty e seus homens e riu. “Mulheres às vezes dão trabalho.”
Lefty deu uma risadinha, e os outros o imitaram.
“Está bem, está bem.” Craddick ergueu uma das mãos e sorriu para mostrar que participava da brincadeira. “Bom, essa mulher era uma beleza, rapazes. Não era, cabo Pluff?”
“Era, sim, senhor. De parar o trânsito. E aposto que muito gostosa também.”
“Um pouco morena demais para o meu gosto”, disse Craddick. “Mas ela apareceu no meio da estrada, tinha apanhado bastante do namorado cucaracho... uma sorte não ter levado uma facada, gostando de facas como eles gostam.”
“Vocês a deixaram onde a encontraram?”
“Um marinheiro ficou lá com ela. Vamos pegá-lo na volta, se vocês nos derem uma chance de descarregar essas armas.”
“Tem razão”, disse Joe, e deu um passo para trás.
Craddick pode até ter relaxado um pouco, mas mesmo assim continuou alerta. Seus olhos absorviam tudo. Joe permaneceu ao seu lado, erguendo uma das pontas de um caixote enquanto Craddick pegava a outra, e erguendo-o pelas alças de corda presas às laterais. Ao andar pelo corredor da plataforma de descarga até o depósito, podiam ver pelas janelas o corredor seguinte e os escritórios mais além. Dion havia colocado todos os cubanos de pele mais clara nos escritórios, de costas para as janelas, todos datilografando coisas sem nexo em máquinas de escrever Underwood ou com fones presos pelo ombro junto à orelha enquanto os polegares seguravam o gancho. Mesmo assim, na segunda passada pelo corredor, ocorreu a Joe que todas as cabeças que viam lá tinham cabelos pretos. Não havia nenhum louro ou castanho-claro no grupo.
Os olhos de Craddick ficaram pregados nas janelas enquanto eles passavam, até então sem saber que o corredor entre onde estavam e aqueles escritórios acabara de ser palco de um assalto à mão armada e a morte de um homem.
“Onde o senhor serviu no estrangeiro?”, perguntou Joe.
Craddick manteve os olhos na janela. “Como sabe que estive no estrangeiro?”
Buracos de bala, pensou Joe. Aquelas porras de cubanos com dedos nervosos deviam ter deixado buracos de bala nas paredes. “O senhor tem cara de um homem experiente.”
Craddick olhou na direção de Joe.
“Você sabe reconhecer homens que já combateram?”
“Hoje sim”, respondeu Joe. “Pelo menos no seu caso.”
“Quase atirei naquela cucaracha no acostamento”, comentou Craddick com um tom brando.
“Foi mesmo?”
Ele assentiu. “Foram cucarachos que tentaram explodir nosso navio ontem à noite. E esses rapazes que estão comigo ainda não sabem, mas os cucarachos divulgaram uma ameaça contra toda a tripulação, disseram que iríamos todos morrer hoje.”
“Não tinha ouvido falar nisso.”
“Porque ainda não era para ser ouvido”, retrucou Craddick. “Então, quando vi uma moça cucaracha acenando para pararmos no meio da rodovia 41, pensei: ‘Walter, dê um tiro no meio dos peitos dessa vaca’.”
Chegaram ao depósito e puseram o caixote no topo da primeira pilha à esquerda. Deram um passo de lado, e Craddick levou um lenço à testa no saguão quente enquanto eles observavam os últimos caixotes chegarem à medida que os marinheiros iam descendo o corredor.
“E teria atirado mesmo, mas os olhos dela eram iguais aos da minha filha.”
“De quem?”
“Da cucaracha. Tenho uma filha da época em que servi na República Dominicana. Não a vejo nem nada, mas a mãe me manda fotos de vez em quando. Ela tem aqueles grandes olhos escuros que a maioria das caribenhas tem, sabe? Quando vi esses olhos na moça de hoje, pus a arma de volta no coldre.”
“Já havia tirado?”
“Quase.” Ele aquiesceu. “Na minha cabeça já, entende? Por que correr o risco? Melhor abater logo a vadia. Por estas bandas, brancos não levam mais do que um sermão por isso. Mas...” Ele deu de ombros. “Eram os olhos da minha filha.”
Joe não disse nada, sentindo o sangue pulsar bem alto nos ouvidos.
“Mandei um dos rapazes fazer.”
“Como é?”
Ele aquiesceu. “Um dos nossos rapazes, Cyrus, acho eu. Ele está louco por uma guerra, mas não consegue encontrar nenhuma no momento. A cucaracha saiu correndo quando viu a expressão nos olhos dele. Mas Cyrus tem sangue de caçador de crioulos; foi criado nos pântanos perto da divisa com o Alabama. Deve encontrá-la sem dificuldade.”
“Para onde vão levá-la?”
“Não vamos levá-la a lugar nenhum. Ela nos atacou, garoto. Enfim, o povo dela nos atacou. Cyrus vai fazer o que quiser com ela, e deixar o resto para os répteis.” Ele levou uma guimba de charuto à boca e riscou um fósforo na sola da bota. Estreitou os olhos por cima da chama na direção de Joe. “Sua intuição estava certa... é, filho, eu já vi muito combate. Matei um dominicano, matei haitianos às pencas, a verdade é essa. Alguns anos depois, abati três panamenhos com uma rajada de Thompson só porque eles estavam todos juntinhos rezando para eu não atirar. E a verdade sabe qual é?” Ele tragou o charuto até firmar a brasa e jogou o fósforo longe por cima do ombro. “Foi uma diversão. Nunca acredite em quem disser o contrário.”