Os Filhos da Noite

Dennis Lehane · Capítulo 21 de 29

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Os Filhos da Noite

Capítulo 21

ILUMINE O MEU CAMINHO

 

Os negócios continuaram a prosperar.

Joe começou a preparar o terreno para a compra do Ritz. John Ringling se mostrou disposto a vender o imóvel, mas não o terreno. Assim, Joe mandou seus advogados trabalharem com os de Ringling para ver se conseguiam chegar a um acordo conveniente para ambos. Recentemente, os dois lados haviam examinado um arrendamento de noventa e nove anos de duração, mas não conseguiram se entender com o condado em relação aos direitos de uso do espaço aéreo acima do terreno. Joe tinha um grupo de homens seus subornando os inspetores do condado de Sarasota, outro em Tallahassee subornando políticos do estado, e um terceiro em Washington cuidando de funcionários da Receita Federal e dos senadores que frequentavam puteiros, salões de jogos e redutos de ópio nos quais a família Pescatore tivesse participação.

Seu primeiro sucesso foi conseguir a descriminalização do bingo no condado de Pinellas. Ele então conseguiu encaminhar uma lei estadual para a descriminalização do bingo, a ser avaliada pelo Legislativo do estado na sessão de outono e possivelmente votada já em 32. Seus amigos de Miami, cidade bem mais fácil de se comprar, ajudaram a amolecer ainda mais o estado quando os condados de Dade e de Broward legalizaram as apostas mútuas. Joe e Esteban tinham se arriscado para comprar terrenos para seus amigos de Miami, e agora esses terrenos estavam sendo transformados em pistas de turfe.

Maso também pegara um avião até o Sul para dar uma olhada no Ritz. Ele havia sobrevivido recentemente a uma luta contra o câncer, embora só o próprio Maso e seus médicos soubessem qual era o tipo. Alegava ter saído curado, embora a doença o tivesse deixado calvo e fragilizado. Havia até quem dissesse à boca pequena que seu raciocínio ficara prejudicado, embora Joe não visse nenhum indício desse fato. Maso tinha adorado o hotel e apreciado o raciocínio de Joe — se algum dia houve um momento perfeito para atacar os tabus relacionados aos jogos de azar, esse momento era agora, quando a Lei Seca desmoronava tragicamente bem diante de seus olhos. O dinheiro que perderiam com a legalização da birita iria direto para o bolso do governo, mas o dinheiro que perdessem com as taxas oficiais sobre cassinos e pistas de turfe seria compensado pelos lucros obtidos das pessoas burras o suficiente para apostar contra a casa em grande escala.

Os responsáveis pelos subornos também começaram a mandar notícias de que o palpite de Joe parecia muito bom. O país estava vulnerável o suficiente para algo daquele tipo. Municípios de uma ponta a outra da Flórida e de uma ponta a outra do país estavam com o dinheiro curto. Joe despachara seus homens com promessas de dividendos infinitos — uma taxa sobre o cassino, uma taxa sobre o hotel, uma taxa sobre comes e bebes, uma taxa pelo entretenimento, uma taxa pelos quartos, uma taxa pelo alvará para vender bebida alcoólica e, para completar — e todos os políticos amavam essa parte —, uma taxa pelo excesso de renda. Nos dias em que o cassino ganhasse mais de oito mil dólares, dois por cento dessa renda seriam revertidos para o estado. Na verdade, sempre que o cassino chegasse perto de passar dos oito mil em lucro, eles limpariam a banca. Mas os políticos com suas cumbuquinhas e seus olhos maiores do que a barriga não precisavam saber disso.

No fim de 31, ele já havia comprado dois senadores novatos, nove deputados federais, quatro senadores veteranos, treze representantes de condado, onze conselheiros municipais e dois juízes. Também havia subornado seu antigo rival da kkk, Hopper Hewitt, editor do Tampa Examiner, que começara a publicar editoriais e notícias questionando a lógica de permitir que tantas pessoas passassem fome enquanto um cassino de primeira categoria na costa do golfo do estado da Flórida poderia gerar empregos para todas elas, fato que lhes proporcionaria dinheiro para comprar novamente todas as casas desapropriadas, fato este que tiraria os advogados da fila do pão para fazer as operações nos devidos conformes, o que por sua vez necessitaria pessoal de escritório para garantir que tudo fosse registrado direitinho.

Quando Joe o estava levando de carro até a estação para a viagem de volta, Maso falou: “Seja o que for que tiver de fazer em relação a isso, faça”.

“Obrigado”, disse Joe. “Farei.”

“Você fez um trabalho bom de verdade por aqui.” Maso lhe deu um tapinha no joelho. “Não pense que isso não vai ser levado em consideração.”

Joe não sabia em que seu trabalho poderia ser “levado em consideração”. Ele construíra algo do nada ali, e Maso falava como se houvesse lhe arrumado um novo dono de armazém para extorquir. Talvez os tais boatos sobre o raciocínio do velho ultimamente tivessem algum fundamento.

“Ah, e ouvi dizer que ainda tem um desgarrado solto por aí”, disse Maso quando estavam se aproximando da Union Station. “É verdade?”

Joe demorou alguns segundos para entender. “Aquele fabricante de bebida ilegal que não quer pagar seus tributos?”

“Esse mesmo”, disse Maso.

O fabricante se chamava Turner John Belkin. Ele e os três filhos vendiam bebida alcoólica fabricada em seus alambiques na parte não urbanizada de Palmetto. Turner John Belkin não fazia mal a ninguém; tudo o que ele queria era vender para as mesmas pessoas para quem vinha vendendo havia uma geração inteira, promover alguns jogos na sala dos fundos de sua casa e administrar algumas moças em uma casa mais embaixo na mesma rua. Fossem quais fossem as condições, porém, recusava-se a entrar para a organização. Não pagava tributos, não vendia produtos da família Pescatore, não fazia nada a não ser administrar seus negócios como sempre fizera, e como seu pai e seus avôs tinham feito antes dele, desde a época em que Tampa ainda se chamava Fort Brooke e a febre amarela matava três vezes mais gente do que a velhice.

“Estou cuidando dele”, disse Joe.

“Pelo que eu soube, já está cuidando dele há seis meses.”

“Três”, admitiu Joe.

“Então livre-se dele.”

O carro parou. Seppe Carbone, guarda-costas pessoal de Maso, abriu a porta para ele descer e ficou esperando em pé debaixo do sol.

“Estou com dois caras cuidando disso”, falou Joe.

“Não quero que tenha cara nenhum cuidando disso. Quero que acabe com essa história. Pessoalmente, se preciso for.”

Maso desceu do carro, e Joe o acompanhou até o trem para se despedir, apesar de ele ter dito que não precisava. A verdade, porém, era que Joe queria ver Maso partir, precisava vê-lo partir para poder confirmar que já podia respirar outra vez, relaxar. Ter Maso por perto era como se um tio se mudasse para a sua casa por um ou dois dias e nunca mais fosse embora. E pior: o tio achava que estava lhe fazendo um favor.

Alguns dias depois de Maso ir embora, Joe mandou dois de seus capangas irem dar um susto em Turner John, mas em vez disso quem lhes deu um susto foi ele: espancou um dos capangas a ponto de mandá-lo para o hospital, e nem sequer precisou da ajuda dos filhos ou de uma arma.

Uma semana depois, Joe foi falar com Turner John.

Pediu a Sal para esperá-lo no carro e ficou em pé na estrada de terra batida em frente ao barraco cor de cobre em que o homem morava, com a varanda desabada em um dos cantos mais uma geladeira da Coca-Cola instalada no outro, tão vermelha e lustrosa que Joe desconfiou que fosse encerada diariamente.

Os filhos de Turner John, três rapazes musculosos vestidos com macacões de algodão de calças e mangas compridas e pouco mais, inclusive descalços (embora, por algum motivo incompreensível, um deles usasse um suéter de lã vermelho estampado com flocos de neve), revistaram Joe, pegaram sua Savage 32, em seguida o revistaram uma segunda vez.

Depois disso, Joe entrou no barraco e sentou-se de frente para Turner John diante de uma mesa de madeira cujas pernas não tinham a mesma altura. Tentou acertar a mesa, desistiu, em seguida perguntou a Turner John por que ele havia espancado seus homens. Turner John, um homem alto, muito magro e de ar severo, com olhos e cabelos do mesmo tom marrom de seu terno, disse que fora porque eles tinham ido procurá-lo com uma ameaça tão estampada nos olhos que não havia por que esperar que esta saísse de suas bocas.

Joe perguntou se ele sabia que isso significava que teria de matá-lo para não perder a moral. Turner John respondeu que já desconfiava.

“Então por que está agindo assim?”, indagou Joe. “Por que não paga um pouco de tributo e pronto?”

“Moço, seu pai ainda está entre nós?”, indagou Turner John.

“Não, ele já faleceu.”

“Mas o senhor ainda é filho dele, estou certo?”

“Sou.”

“Pode ter vinte netos, mas vai continuar para sempre filho desse homem.”

Joe não estava preparado para a enxurrada de emoção que esse comentário provocou nele nesse instante. Teve de desviar os olhos de Turner John antes de essa enxurrada lhe alcançar os olhos.

“Sim, vou.”

“E quer que ele sinta orgulho do senhor, não quer? Que o veja como homem?”

“Quero”, respondeu Joe. “É claro que eu quero.”

“Bom, comigo é a mesma coisa. Eu tive um ótimo pai. Só me batia com força quando eu merecia, e nunca depois de beber. Na maior parte do tempo, só fazia me dar um sopapo na cabeça quando eu roncava. Eu ronco muito, e papai não conseguia suportar isso quando estava exausto. De resto, era o melhor dos homens. E um filho quer que o pai possa olhar para baixo e ver que seus ensinamentos criaram raízes. Neste exato momento, papai está olhando para mim e dizendo: ‘Turner John, eu não criei você para pagar tributo a outro homem que não meteu a mão na massa junto com você para ganhar a vida’.” Mostrou a Joe as palmas grandes cheias de cicatrizes. “Quer meu dinheiro, sr. Coughlin? Bom, nesse caso é melhor estar disposto a trabalhar comigo e com meus garotos no mosto e a nos ajudar a tocar a fazenda, arar a terra, fazer a rotação das colheitas, ordenhar as vacas. Está me entendendo?”

“Estou entendendo.”

“Caso contrário, não temos nada o que conversar.”

Joe olhou para Turner John, em seguida ergueu os olhos para o teto. “Acha mesmo que ele está olhando?”

Turner John exibiu uma boca repleta de dentes de prata. “Moço, eu sei que ele está.”

Joe abriu o zíper da calça e sacou o revólver de cano curto que tinha pegado de Manny Bustamente alguns anos antes. Apontou-o para o peito de Turner John.

Turner John soltou uma expiração longa e vagarosa.

“Quando um homem se propõe a fazer um trabalho, deve completá-lo. Certo?”, disse Joe.

Sem tirar os olhos da arma, Turner John passou a língua pelo lábio inferior.

“Sabe que tipo de arma é esta?”, perguntou Joe.

“Um revólver de mulher.”

“Não, é um O Que Poderia Ter Sido.” Joe se levantou. “O senhor faça o que quiser aqui em Palmetto. Está me entendendo?”

Turner John piscou os olhos para dizer sim.

“Mas ai do senhor se eu vir o seu rótulo ou sentir o gosto da sua bebida em Hillsborough ou no condado de Pinellas. Nem em Sarasota, Turner John. Estamos entendidos?”

Turner John tornou a piscar.

“Preciso ouvir da sua boca”, disse Joe.

“Estamos entendidos. Eu lhe dou minha palavra”, disse Turner John.

Joe aquiesceu. “O que o seu pai está pensando agora?”

Turner John correu os olhos pelo cano da arma e os subiu pelo braço de Joe até encará-lo. “Está pensando que chegou perto pra cacete de ter de aguentar meus roncos outra vez.”

Enquanto Joe manobrava para legalizar o jogo e comprar o hotel, Graciela abriu suas próprias acomodações. Enquanto Joe almejava o público apreciador de saladas refinadas, Graciela construiu um local para abrigar crianças sem pai e mulheres sem marido. O fato de os homens ultimamente estarem abandonando as famílias como exércitos durante a guerra era uma vergonha nacional. Saíam das favelas e cortiços ou, no caso de Tampa, das casinhas de cômodos encadeados que os moradores da região chamavam de casitas, subiam a rua para comprar leite, filar um cigarro, ou então porque tinham ouvido algum boato de emprego, e nunca mais voltavam. Sem homens para protegê-las, as mulheres às vezes eram vítimas de estupro ou forçadas a descer aos níveis mais baixos da prostituição. As crianças, subitamente órfãs de pai e talvez de mãe, caíam nas ruas e estradas secundárias, e as notícias que chegavam delas não costumavam ser boas.

Certa noite, Graciela foi procurar Joe quando ele estava sentado na banheira. Trouxe-lhes duas xícaras de café reforçadas com rum. Tirou a roupa, entrou na água em frente a Joe e lhe perguntou se podia começar a usar seu nome.

“Você quer se casar comigo?”

“Na igreja não. Eu não posso.”

“Tá bom...”

“Mas nós somos casados, não somos?”

“Somos.”

“Então eu gostaria de usar seu sobrenome.”

“Graciela Dominga Maela Rosario Maria Concetta Corrales Coughlin?

Ela lhe deu um tapa no braço. “Não tenho tantos nomes assim.”

Ele se inclinou para a frente, deu-lhe um beijo e tornou a se recostar. “Graciela Coughlin?”

“Sí.”

“Seria uma honra”, disse ele.

“Ah, que bom”, respondeu ela. “Eu comprei uns imóveis.”

“Comprou uns imóveis ?”

Ela o encarou, com os olhos castanhos inocentes como os de uma corça. “Três. Aquele, ahn, conglomerado? Isso. Aquele conglomerado perto da antiga fábrica Perez, sabe?”

“Na Palm Avenue?”

Ela confirmou. “E gostaria de usá-los para recolher esposas abandonadas e seus filhos.”

Joe não ficou surpreso. Nos últimos tempos, Graciela praticamente não falava em mais nada que não fossem essas mulheres.

“O que aconteceu com a causa da política latino-americana?”

“Eu me apaixonei por você.”

“E daí?”

“E daí que você restringe a minha mobilidade.”

Ele riu. “Restrinjo, é?”

“Muito.” Ela sorriu. “Pode dar certo. Talvez um dia possamos até lucrar com isso, e a instituição poderia servir de modelo para o resto do mundo.”

Graciela sonhava com reforma agrária, direitos para os agricultores e uma distribuição justa da riqueza. Acreditava essencialmente em justiça, conceito que Joe tinha certeza de que havia desaparecido da face da Terra mais ou menos na época em que a Terra deixara de usar fraldas.

“Isso de modelo para o resto do mundo eu não sei.”

“Por que não pode dar certo?”, perguntou ela. “Um mundo justo.” Jogou algumas bolhas em cima dele para lhe mostrar que só estava falando meio sério, mas na realidade não havia nada de “meio” no que dizia.

“Ou seja, um mundo em que todo mundo viva com o que precisa e viva cantando canções e, porra, sorrindo o tempo todo?”

Ela jogou na cara dele os restos de sabão que flutuavam na banheira. “Você sabe o que eu quero dizer. Um mundo bom. Por que não pode ser assim?”

“Por causa da cobiça”, respondeu ele. Levantou os braços para indicar o banheiro onde estavam. “Olhe só como nós vivemos.”

“Mas você retribui. No ano passado, doou um quarto do seu dinheiro para a clínica González.”

“Eles me salvaram a vida.”

“No ano anterior, construiu a biblioteca.”

“Para eles terem livros que eu goste de ler.”

“Mas os livros são todos em espanhol.”

“Como acha que aprendi o idioma?”

Ela apoiou o pé no ombro dele e usou seus cabelos para coçar uma comichão na parte externa do arco. Deixou o pé ali, e ele o beijou e, como muitas vezes acontecia em momentos assim, pegou-se experimentando uma paz tão plena que não conseguia imaginar um paraíso que pudesse se comparar com aquilo. Se comparar com a voz dela em seus tímpanos, com a sua amizade, com o pé dela no seu ombro.

“Nós podemos fazer o bem”, disse Graciela, baixando os olhos.

“Podemos, sim”, concordou ele.

“Depois de tanto mal”, completou ela baixinho.

Ela estava fitando os restos de sabão abaixo dos seios, desaparecendo dentro de si mesma, afastando-se daquela banheira. A qualquer momento, iria estender a mão para pegar uma toalha.

“Ei”, disse Joe.

Ela ergueu as pálpebras

“Nós não somos maus. Podemos não ser bons. Sei lá. Só sei que todos temos medo.”

“Quem tem medo?”, indagou ela.

“E quem não tem? O mundo inteiro tem medo. Vivemos dizendo a nós mesmos que acreditamos em tal deus ou em tal outro, em uma ou em outra vida após a morte, e talvez acreditemos de fato, mas o que todos estamos pensando ao mesmo tempo é: ‘E se estivermos errados ? E se for só isto aqui ? Bem, se for só isto aqui, é melhor eu arrumar uma casa bem grande, um carro bem grande, uma porção de prendedores de gravata, uma bengala com cabo de madrepérola e...”

Ela agora estava rindo.

“‘... uma privada que lave minha bunda e meu sovaco. Porque eu preciso de uma privada assim’.” Ele também estava rindo um pouco, mas as risadas desapareceram em meio aos restos de sabão. “‘Mas espere aí, eu acredito em Deus. Só para garantir. Mas acredito na cobiça também. Só para garantir.’”

“E é só isso então... nós temos medo?”

“Não sei se é só isso”, respondeu ele. “Só sei que temos medo.”

Ela puxou os restos de sabão para o pescoço como um lenço e aquiesceu. “Eu quero que o fato de termos existido tenha importância.”

“Eu sei que você quer isso. Olhe, se quiser resgatar essas tais mulheres e seus filhos, ótimo. Amo você por isso. Mas algumas pessoas más vão tentar impedir algumas dessas mulheres de escapar de seu domínio.”

“Eu sei”, disse Graciela, com um tom melodioso que lhe informou que ele era ingênuo por pensar que ela não sabia. “É por isso que vou precisar de alguns capangas seus.”

“Alguns?”

“Bom, para começar, quatro. Mas, mi amado?” Ela lhe sorriu. “Quero os mais durões que você tiver.”

Esse foi também o ano em que Loretta, filha do comandante Irving Figgis, voltou para Tampa.

Desceu do trem acompanhada pelo pai, de braços dados com ele. Loretta usava preto da cabeça aos pés, como se estivesse de luto, e pela força com que Irv segurava seu braço talvez de fato estivesse.

Irv trancou a filha na casa de Hyde Park, e ninguém viu nenhum dos dois durante toda a temporada. Depois de ir buscá-la em Los Angeles, ele havia tirado uma licença da polícia, e na volta prolongara essa licença por todo o outono. Sua esposa saiu de casa levando consigo o filho, e os vizinhos diziam que o único barulho que ouviam lá de dentro era o ruído das preces. Ou dos cânticos. Havia certa controvérsia em relação aos detalhes.

No fim de outubro, quando os dois saíram de casa, Loretta estava de branco. Em um encontro da igreja pentecostal mais tarde nesse mesmo dia, declarou que a decisão de usar branco não fora sua: tinha sido de Jesus Cristo, cujos ensinamentos agora ela seguia. Nessa noite, Loretta subiu ao palco da tenda montada no descampado de Fiddlers Cove e falou sobre sua descida ao mundo do vício, sobre os demônios da bebida, da heroína e da maconha que a tinham conduzido até lá, sobre a fornicação desregrada que conduzira à prostituição, que por sua vez conduzira a mais heroína e a noites de uma devassidão pecaminosa tamanha que ela sabia que Jesus a apagara de sua lembrança para impedi-la de pôr fim à própria vida. E por que ele estava tão interessado em mantê-la viva? Porque desejava que ela afirmasse a sua verdade aos pecadores de Tampa, St. Petersburg, Sarasota e Bradenton. E, caso ele assim o decidisse, ela iria espalhar essa mensagem por toda a Flórida e mesmo por todo o país.

O que diferenciava Loretta de tantos oradores que se apresentavam diante dos fiéis nessas tendas de encontro evangélicas era que Loretta falava sem arrebatamento e sem expletivos. Nunca levantava a voz. Falava tão baixinho, na realidade, que muitos ouvintes tinham de se inclinar para ouvi-la. Com olhadelas ocasionais para o pai, que havia se tornado um tanto sisudo e inabordável desde o seu retorno, prestava um testemunho dorido sobre um mundo caído em perdição. Não alegava conhecer a vontade de Deus, mas sim escutar a consternação arrasada de Cristo ante os atos de seus filhos. Muitas coisas boas poderiam ser salvas deste mundo, e muita virtude ser colhida, mas para isso era preciso primeiro semear essa virtude.

“Dizem que este país em breve irá retornar ao desespero do consumo desregrado de álcool, de maridos espancando as esposas por causa do rum, levando doenças venéreas para casa por causa do uísque, entregando-se à preguiça e perdendo os empregos, e os bancos pondo cada vez mais pequeninos nas ruas por causa do gim. Não culpem os bancos. Não culpem os bancos”, sussurrou ela. “Culpem aqueles que lucram com o pecado, com a venda de carne humana e com seu enfraquecimento por meio da bebida. Culpem os fabricantes de bebida ilegal, os donos de bordéis e aqueles que lhes permitem espalhar sua imundície por nossa bela cidade diante dos olhos de Deus. Orem por eles. E depois peçam a Deus para guiá-los.”

Deus aparentemente guiou alguns cidadãos respeitáveis de Tampa a atacar uma ou duas casas da organização Coughlin-Suárez e destruir com machados os barris de rum e cerveja. Quando Joe ficou sabendo, mandou Dion entrar em contato com um cara em Valrico que fabricava barris de aço; instalaram esses barris de aço em todos os bares clandestinos, puseram os barris de madeira dentro deles e ficaram esperando para ver quem agora iria entrar pela porta, usar um machado, e deslocar os cotovelos santos das porras dos braços santos.

Joe estava sentado na sala da frente de sua empresa exportadora de cigarros — empreendimento totalmente legítimo; eles perdiam uma pequena fortuna por ano exportando tabaco de qualidade superior para países como Irlanda, Suécia e França, onde os charutos nunca haviam chegado a seduzir as massas — quando Irv e a filha entraram pela porta da frente.

Irv cumprimentou Joe com um leve meneio de cabeça, mas se recusou a encará-lo nos olhos. Nos anos que se passaram desde que Joe havia lhe mostrado aquelas fotos de Loretta, não o havia encarado nos olhos sequer uma vez e, segundo os cálculos de Joe, eles haviam se cruzado na rua pelo menos umas trinta.

“Minha Loretta tem algumas palavras para lhe dizer.”

Joe ergueu os olhos para a bela jovem de vestido branco e olhos brilhantes e úmidos. “Pois não, senhorita. Acomode-se, se quiser.”

“Prefiro ficar em pé.”

“Como preferir.”

“Sr. Coughlin”, disse ela, unindo as mãos sobre as coxas, “meu pai disse que antigamente havia um homem bom dentro do senhor.”

“Não sabia que esse homem tinha ido embora.”

Loretta pigarreou. “Nós conhecemos seu trabalho filantrópico. E o da mulher com quem o senhor decidiu coabitar.”

“‘A mulher com quem decidi coabitar’”, repetiu Joe, só para experimentar as palavras.

“Sim, sim. Sabemos que ela é muito ativa em trabalhos de caridade na comunidade de Ybor e mesmo na região metropolitana de Tampa como um todo.”

“Ela tem um nome.”

“Mas as suas boas obras são de natureza estritamente temporal. Ela recusa qualquer afiliação religiosa, e resiste a toda tentativa de abraçar o único e verdadeiro Senhor.”

“O nome dela é Graciela. E ela é católica”, disse Joe.

“Mas até ela abraçar publicamente a mão de Deus que possibilita sua obra, ela estará, por mais bem-intencionada que seja, auxiliando o demônio.”

“Nossa, eu seria incapaz de ter esse raciocínio”, comentou Joe.

“Por sorte, eu não sou”, retrucou ela. “Mesmo com todas as suas obras de caridade, sr. Coughlin, ambos sabemos que elas não são compensadas por seus atos maus e por seu distanciamento do Senhor.”

“Como assim?”

“O senhor lucra com os vícios ilegais dos outros. Lucra com a fraqueza das pessoas, com sua necessidade de preguiça, gula e comportamento libidinoso.” Ela lhe deu um sorriso triste e bondoso. “Mas pode se libertar disso.”

“Não quero me libertar”, disse Joe.

“É claro que quer.”

“Srta. Loretta, a senhorita parece uma pessoa maravilhosa”, disse Joe. “E, pelo que eu soube, o rebanho do pastor Ingalls triplicou desde que a senhorita começou a pregar para ele.”

Com os olhos cravados no chão, Irv ergueu cinco dedos.

“Ah, desculpe”, disse Joe. “Quer dizer que o rebanho quintuplicou. Puxa vida.”

O sorriso de Loretta não desapareceu. Um sorriso suave, triste. Um sorriso que sabia o que você ia dizer antes de você dizê-lo, e julgava essas palavras inúteis antes mesmo de elas saírem da sua boca.

“Loretta”, disse Joe, “eu vendo um produto que as pessoas apreciam tanto que a Décima Oitava Emenda Constitucional vai ser derrubada em menos de um ano.”

“Não é verdade”, disse Irv, com o maxilar contraído.

“É, sim”, disse Joe. “De toda forma, a Lei Seca acabou. Eles a usaram para manter os pobres na linha e não conseguiram. Usaram-na para tornar a classe média mais diligente, e em vez disso a classe média ficou exigente. Nos últimos dez anos, bebeu-se mais birita do que nunca, e isso porque as pessoas queriam birita, e não queriam ninguém lhes dizendo que não podiam beber.”

“Mas, sr. Coughlin”, disse Loretta com um tom sensato, “o mesmo poderia ser dito em relação à fornicação. As pessoas querem fornicar, e não querem ninguém lhes dizendo que não podem.”

“E nem deveriam.”

“Como disse?”

“Nem deveriam”, repetiu Joe. “Se as pessoas querem fornicar, não vejo nenhum motivo urgente para impedi-las, srta. Figgis.”

“E se elas desejarem se deitar com animais?”

“Elas desejam isso?”

“Eu sinto muito.”

“As pessoas desejam se deitar com animais?”

“Algumas, sim. E, se as coisas correrem como o senhor quer, a doença delas vai se espalhar.”

“Desculpe, mas não vejo correlação entre beber e fornicar com animais.”

“Mas isso não quer dizer que a correlação não exista.”

Ela então se sentou, com as mãos ainda unidas no colo.

“É claro que quer”, disse Joe. “Foi exatamente isso que eu falei.”

“Mas essa é só a sua opinião.”

“Há quem diga o mesmo sobre a sua crença em Deus.”

“Quer dizer que o senhor não acredita em Deus?”

“Não, Loretta, eu simplesmente não acredito no seu Deus.”

Joe olhou para Irv porque pôde sentir que ele estava segurando a raiva, mas, como de hábito, Irv não o encarou nos olhos e manteve os seus pregados nas próprias mãos, que agora tinham os punhos cerrados.

“Bom, ele acredita no senhor”, disse ela. “Sr. Coughlin, o senhor vai se afastar do seu caminho do mal. Tenho certeza. Posso ver isso no senhor. Vai se penitenciar e vai ser batizado em Jesus Cristo. E vai se transformar em um grande profeta. Vejo isso com a mesma clareza com que vejo uma cidade sem pecado no alto de uma colina aqui em Tampa. E sim, sr. Coughlin, antes de o senhor poder zombar de mim, eu sei que não existem colinas em Tampa.”

“Bom, pelo menos nenhuma que dê para notar, mesmo que se dirija depressa.”

Ela sorriu um sorriso de verdade, e era o mesmo sorriso de que ele se lembrava de alguns anos antes, quando a encontrava no balcão comprando refrigerantes ou na seção de revistas da Drogaria Morin.

O sorriso então se transformou novamente naquele outro, triste e congelado; os olhos dela ficaram mais brilhantes e ela estendeu uma das mãos enluvadas para ele por cima da mesa, e Joe a apertou pensando nas marcas de agulhas que a luva cobria enquanto Loretta Figgis dizia: “Um dia vou tirá-lo do seu caminho, sr. Coughlin. Disso o senhor pode estar certo. Sinto isso nos meus ossos”.

“Só porque a senhorita sente não quer dizer que seja assim”, disse Joe.

“Mas tampouco quer dizer que não seja.”

“Admito.” Joe ergueu os olhos. “Mas por que não concede às minhas opiniões o mesmo benefício da dúvida?”

O sorriso triste de Loretta se iluminou. “Porque elas estão erradas.”

* * *

Infelizmente para Joe, Esteban e a família Pescatore, à medida que a popularidade de Loretta aumentava, o mesmo acontecia com sua legitimidade. Depois de alguns meses, suas pregações começaram a ameaçar o acordo relacionado ao cassino. No começo, os que a citavam em público faziam-no sobretudo para ridicularizá-la ou se maravilhar diante das circunstâncias que a haviam conduzido a seu estado atual — a filha tipicamente americana de um comandante de polícia vai para Hollywood e volta uma doida cheia de alucinações e marcas de agulha nos braços que os caipiras confundem com estigmas. Mas o tom da conversa começou a mudar não apenas à medida que as estradas engarrafavam de tantos carros e pedestres nas noites em que se dizia que Lorettta iria falar em um encontro, mas também à medida que os moradores comuns da cidade a viam e ouviam. Longe de se esconder do olhar do público, Loretta o atraía. Não apenas em Hyde Park, mas também no lado oeste de Tampa, na região do porto e até mesmo em Ybor, onde gostava de ir comprar café, seu único vício.

Loretta não falava muito em religião durante o dia. Mostrava-se invariavelmente bem-educada, sempre pronta a pedir notícias sobre a saúde de alguém ou de seus próximos. Jamais esquecia um nome. E, mesmo tendo envelhecido por causa do ano difícil de suas “provações”, como dizia, ainda era uma mulher de beleza impressionante. E bela de um jeito claramente americano — lábios carnudos da mesma cor dos cabelos castanho-avermelhados, olhar sincero e azul, e pele lisinha e branca como a nata que se formava na superfície da garrafa de leite matinal.

Os desmaios começaram a ocorrer no final de 1931, depois de a crise bancária da Europa sugar para seu vórtice o resto do mundo e acabar com qualquer esperança remanescente de recuperação financeira. Ocorriam sem aviso e sem teatro. Ela podia estar falando sobre os males da bebida, da luxúria ou (cada vez mais nos últimos tempos) do jogo — sempre com uma voz baixa e levemente trêmula —, e sobre as visões que Deus lhe havia mandado de uma Tampa calcinada pelos próprios pecados, uma terra devastada e fumegante com o solo carbonizado e pilhas de madeira queimada onde outrora ficavam as casas, e lembrava a todos da esposa de Lot e lhes implorava que não olhassem para trás, que nunca olhassem para trás, mas que olhassem para a frente, para uma reluzente cidade de casas brancas, roupas brancas e pessoas brancas unidas no amor de Cristo, na prece e no intenso desejo de deixar para os filhos um mundo do qual estes pudessem se orgulhar. Em algum ponto desse sermão, seus olhos se reviraram para a esquerda e logo para a direita, seu corpo começava a se balançar junto com os olhos, e então ela desabava no chão. Às vezes tinha convulsões, outras vezes uma pequena quantidade de saliva escorria de seus lindos lábios, mas em geral ela parecia estar apenas dormindo. Sugeria-se (mas apenas nas rodas mais rasteiras) que parte do aumento de sua popularidade se devia ao fato de ela ficar mais bonita quando estava deitada no palco, vestida com uma roupa de crepe branco bem fina, fina o suficiente para se poder distinguir os seios pequenos e perfeitos e as pernas esguias e sem marcas.

Quando Loretta ficava deitada no palco desse jeito, era uma prova da existência de Deus, pois apenas Deus seria capaz de criar algo tão lindo, tão frágil e tão poderoso.

Assim, seus seguidores cada vez mais numerosos abraçavam suas causas de forma bastante pessoal, e nenhuma com mais intensidade do que as tentativas de um gângster local de assolar sua comunidade com a praga do jogo. Em pouco tempo, os deputados e conselheiros municipais começaram a mandar de volta os homens de Joe com as respostas “Não”, ou então “Vamos precisar de mais tempo para considerar todas as variáveis”, embora Joe tenha reparado que a única coisa que seus homens não traziam de volta era o dinheiro.

A janela estava se fechando depressa.

Se Loretta Figgis viesse a ter um fim prematuro — mas de tal forma que fosse plausível considerá-lo um “acidente” —, então, após um período de luto respeitoso, a ideia do cassino poderia se concretizar. Ela amava tanto Jesus, pensou Joe, que ele estaria lhe fazendo um favor ao aproximá-los.

Portanto, sabia o que tinha de fazer, mas faltava dar a ordem.

Foi assisti-la pregar. Deixou de fazer a barba por um dia e vestiu-se como um vendedor de equipamentos agrícolas, ou quem sabe o dono de uma loja de ração — macacão limpo, camisa branca, gravata fininha de laço, paletó esportivo de sarja preta e um chapéu de palha de caubói bem enterrado por cima dos olhos. Pediu a Sal para levá-lo até a borda do descampado que o reverendo Ingalls estava usando naquela noite, e desceu uma estrada de terra estreita que atravessava um pequeno bosque de pinheiros até chegar à parte de trás da multidão reunida.

Às margens de um lago, alguém havia construído um pequeno palco usando caixotes de madeira, e Loretta estava em cima desse palco com o pai à sua esquerda e o reverendo à direita, os três de cabeça baixa. Loretta falava sobre uma visão ou sonho recente (Joe chegou tarde demais para saber qual dos dois). De costas para o lago escuro, com seu vestido e touca brancos, ela se destacava na noite negra como uma lua à meia-noite em um céu sem estrelas. Uma família de três pessoas, dizia — mãe, pai, bebezinho pequeno — que havia chegado a uma terra estranha. O pai, um negociante mandado para aquela terra estranha pela empresa para a qual trabalhava, fora instruído a aguardar o motorista dentro da estação de trem e a não se arriscar do lado de fora. Só que fazia calor dentro da estação, a viagem tinha sido longa e eles desejavam ver a terra nova. Saíram, e no mesmo instante foram atacados por um leopardo negro como o interior de um balde usado para transportar carvão. Antes de a família conseguir entender o que estava acontecendo, o leopardo já havia cortado suas gargantas com os dentes. Caído à beira da morte, o homem viu o leopardo se banhar no sangue da esposa quando outro homem apareceu e matou o animal com um tiro. O homem disse ao negociante agonizante que era o motorista contratado pela empresa, e que tudo o que eles tinham de fazer era aguardá-lo.

Mas eles não haviam aguardado. Por que não?

O mesmo acontece com Jesus, disse Loretta. Vocês serão capazes de aguardar? Saberão resistir às tentações terrenas que irão dilacerar suas famílias? Conseguirão manter seus entes queridos a salvo das feras até o retorno de Nosso Senhor e Salvador?

“Ou vocês são fracos demais para isso?”, perguntou Loretta.

“Não!”

“Porque eu sei que, nas minhas horas mais sombrias, eu sou fraca demais.”

“Não!”

“Sou, sim”, gritou Loretta. “Mas ele me dá forças.” Apontou para o céu. “Ele enche meu coração. Mas eu preciso que vocês me ajudem a cumprir seus desejos. Preciso da sua força para continuar pregando a sua palavra e fazendo as suas obras, e para impedir que os leopardos negros devorem nossos filhos e manchem nossos corações com pecados sem fim. Vocês vão me ajudar?”

Sim, Amém e Ah, sim, respondeu a multidão. Quando Loretta fechou os olhos e começou a se balançar, a multidão abriu os seus e se precipitou para a frente. Quando Loretta suspirou, a multidão gemeu. Quando ela caiu de joelhos, a multidão arquejou. E quando ela se deitou de lado, a multidão inteira expirou ao mesmo tempo. Todos estenderam a mão para ela sem chegar mais perto do palco, como se houvesse entre eles alguma barreira invisível. Estenderam a mão para algo que não era Loretta. Clamaram a esse algo. Prometeram tudo a esse algo.

Loretta era a passagem, o portal pelo qual eles adentravam um mundo sem pecado, sem escuridão, sem medo. Um mundo em que ninguém nunca estava sozinho. Porque tinha a Deus. E tinha Loretta.

“Hoje à noite”, disse Dion na sacada do segundo andar da casa de Joe. “Ela tem que desaparecer.”

“Não acha que eu já pensei no assunto?”, indagou Joe.

“Pensar no assunto não é a questão”, disse Dion. “A questão é agir, patrão.”

Joe imaginou o Ritz, com a luz se derramando de suas janelas para o mar escuro, a música flutuando por seus pórticos e se espalhando pelo golfo enquanto os dados se chocavam nas mesas e o público aplaudia um vencedor, e imaginou-se presidindo tudo isso vestido de smoking e casaca.

Perguntou a si mesmo, como tantas vezes havia se perguntado ao longo das últimas semanas: o que era uma única vida?

As pessoas sempre morriam durante a construção de um prédio, ou quando instalavam trilhos de aço sob o sol. Morriam diariamente mundo afora eletrocutadas ou em outros acidentes industriais. E em nome de quê? Da construção de algo bom, algo que geraria empregos para seus conterrâneos, que iria pôr comida na mesa da raça humana.

Em que a morte de Loretta seria diferente?

“Seria e pronto”, falou.

“O quê?”, Dion estreitou os olhos para ele.

Joe ergueu uma das mãos como quem se desculpa. “Não sou capaz.”

“Eu sou”, disse Dion.

“Quem entra na chuva sabe que vai ter de se molhar, ou pelo menos deveria saber. Mas essas pessoas que dormem enquanto nós ficamos acordados... que trabalham em seus empregos, que aparam seus gramados... elas não entraram na chuva. O que significa que não sofrem as mesmas penalidades por seus erros.”

Dion suspirou. “Ela está pondo em risco toda a porra da operação.”

“Eu sei disso.” Joe estava grato pelo pôr do sol, pela escuridão que os havia cercado na sacada. Se Dion pudesse ver seus olhos com clareza, saberia como Joe estava em dúvida quanto à decisão, como estava perto de cruzar o limite e nunca mais olhar para trás. Meu Deus, ela era apenas uma mulher. “Mas eu já decidi. Ninguém vai tocar um fio de cabelo dela.”

“Você vai se arrepender”, falou Dion.

“Acha que eu não sei disso?”, retrucou Joe.

Uma semana mais tarde, quando os asseclas de John Ringling pediram uma reunião, Joe soube que estava tudo acabado. Se não de vez, pelo menos por um bom tempo. O país inteiro estava se entregando ao álcool outra vez, entregando-se com abandono, entregando-se com fervor e alegria, mas Tampa, graças à influência de Loretta Figgis, ia na direção contrária. Se eles não conseguiam neutralizá-la em relação à bebida, que agora uma simples assinatura bastaria para legalizar, estavam perdidos em relação ao jogo. Os homens de John Ringling disseram a Joe e Esteban que seu patrão decidira segurar mais um pouco a venda do Ritz, aguardar o fim da recessão econômica e reavaliar suas alternativas em uma data futura.

A reunião foi em Sarasota. Ao sair, Joe e Esteban foram de carro até Longboat Key e ficaram em pé admirando o cintilante palacete em estilo mediterrâneo Que Quase Havia Existido no Golfo do México.

“Teria sido um cassino incrível”, comentou Joe.

“Você vai ter outra chance. Tudo que vem tem volta.”

Joe fez que não com a cabeça. “Nem tudo.”