Os Filhos da Noite

Dennis Lehane · Capítulo 8 de 29

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Os Filhos da Noite

Capítulo 8

 

NA PENUMBRA

 

Nesse verão, na Penitenciária de Charlestown, o estado de Massachusetts se preparou para executar dois célebres anarquistas. Protestos globais não conseguiram desviar o estado de sua missão, tampouco uma profusão de recursos, suspensões e novos recursos. Uma semana depois de Sacco e Vanzetti serem levados de Dedham para Charlestown e abrigados na Casa da Morte para aguardar a cadeira elétrica, o sono de Joe foi interrompido por turbas de cidadãos indignados reunidos do outro lado dos muros escuros de granito. Às vezes passavam a noite inteira lá, entoando canções, gritando em megafones e cantando seus slogans. Em muitas noites Joe imaginou que deviam ter levado tochas para dar um aspecto medieval ao protesto, pois acordou sentindo cheiro de piche queimado.

Tirando algumas noites de sono entrecortado, porém, o destino dos dois condenados não teve nenhum impacto na vida de Joe nem na de ninguém que ele conhecesse com exceção de Maso Pescatore, forçado a sacrificar seus passeios noturnos em cima dos muros da prisão até o mundo parar de observar.

Na famosa noite de fim de agosto, o excesso de energia usado nos infelizes italianos prejudicou o resto da eletricidade do presídio, e as luzes das galerias piscaram e diminuíram de intensidade, isso quando não se apagaram por completo. Os anarquistas mortos foram levados para o cemitério de Forest Hills e lá cremados. Os manifestantes minguaram, depois se foram.

Maso voltou à rotina noturna que vinha seguindo havia dez anos — caminhar pelo alto dos muros ao longo do arame grosso e espiralado, das torres escuras que davam para o pátio interno e da paisagem desolada de fábricas e barracos do lado de fora.

Muitas vezes levava Joe consigo. Para surpresa de Joe, ele havia se tornado uma espécie de símbolo para Maso — como escalpo e troféu do graduado agente de polícia que agora lhe obedecia, como potencial integrante de sua organização, ou então apenas como animal de estimação; Joe não sabia nem perguntou. Por que perguntar, quando sua presença no alto dos muros à noite com Maso afirmava claramente uma coisa acima de todas as outras: que ele estava protegido.

“Acha que eles eram culpados?”, perguntou Joe certa noite.

Maso deu de ombros. “Não faz diferença. O que importa é o recado.”

“Que recado? Executaram dois caras que talvez fossem inocentes.”

“Foi esse o recado”, disse Maso. “E todos os anarquistas do mundo escutaram.”

Nesse verão, a Penitenciária de Charlestown derramou uma enorme quantidade de sangue sobre si mesma. No início, Joe pensou que a selvageria fosse intrínseca, a maldade inútil do cada um por si, de homens se matando por orgulho — orgulho do próprio lugar na fila, do direito de continuar a andar pelo pátio no caminho que você havia escolhido, de não levar empurrões nem cotoveladas nem ter o pé pisado por ninguém.

A coisa se revelou mais complicada do que isso.

Um detento da Ala Leste perdeu os olhos quando alguém esfregou neles punhados de cacos de vidro. Na Ala Sul, os guardas encontraram um cara com doze facadas abaixo das costelas cujos ferimentos no local, a julgar pelo cheiro, haviam perfurado seu fígado. Detentos a duas galerias de distância sentiram o cheiro do cara morrendo. Joe escutou orgias de estupro vararem a noite no bloco Lawson, assim chamado porque três gerações da família Lawson — o avô, um de seus filhos e três netos — tinham ficado encarceradas lá ao mesmo tempo. O último do clã, Emil Lawson, fora um dia o mais jovem dos detentos Lawson, mas sempre fora o pior e não iria sair dali nunca. Suas penas somavam cento e catorze anos. Boa notícia para Boston, e má notícia para a Penitenciária de Charlestown. Quando não estava comandando estupros coletivos de novos detentos, Emil Lawson cometia assassinatos para quem pagasse, embora, segundo os boatos, estivesse trabalhando exclusivamente para Maso nos distúrbios recentes.

O motivo da guerra era o rum. Uma guerra travada do lado de fora, é claro, para certa consternação do público, mas também do lado de dentro, onde ninguém se lembrava de olhar e não teria derramado uma só lágrima caso tivesse olhado. Albert White, importador de uísque do Norte, decidira se expandir para a importação de rum do Sul antes de Maso Pescatore ser solto. Tim Hickey tinha sido a primeira baixa da guerra White-Pescatore. Quando o verão terminou, porém, o total de mortos chegava a doze.

No campo do uísque, as disputas ocorriam em Boston, Portland, e nas estradas secundárias que partiam da fronteira com o Canadá. Motoristas eram tirados da estrada em cidades como Massena, no estado de Nova York; Derby, em Vermont; e Allagash, no Maine. Alguns eram sequestrados e só levavam uma surra, embora um dos motoristas mais velozes de White tivesse sido obrigado a se ajoelhar sobre um leito de agulhas de pinheiro e levado um tiro na articulação do maxilar por ter sido malcriado.

No caso do rum, a batalha era para impedir sua entrada. Caminhões eram abordados mais ao sul, às vezes até nas Carolinas, e mais ao norte, até Rhode Island. Depois de serem desviados para o acostamento e de os motoristas serem convencidos a descer, as gangues de White tacavam fogo nos veículos. Os caminhões de rum queimavam feito barcos fúnebres dos vikings, amarelando o ventre da noite por muitos quilômetros em todas as direções.

“Ele tem um estoque guardado em algum lugar”, disse Maso durante uma de suas caminhadas. “Está esperando eliminar todo o rum da Nova Inglaterra, e então vai aparecer com a própria mercadoria, como um salvador da pátria.”

“E quem seria burro o suficiente para vender rum a ele?” Joe conhecia a maior parte dos fornecedores do sul da Flórida.

“Não é burrice”, disse Maso. “É inteligência. É o que eu faria se tivesse que escolher entre um negociante esperto feito Albert e um velho que está trancado em uma prisão desde que o tsar perdeu a Rússia.”

“Mas o senhor tem olhos e ouvidos por toda parte.”

O velho aquiesceu. “Mas não são propriamente os meus olhos nem propriamenteos meus ouvidos, e assim sendo não estão conectados à minha mão. E quem administra o poder é a minha mão.”

Nessa noite, um dos guardas pagos por Maso estava de folga em um bar clandestino do sul de Boston quando saiu com uma mulher que ninguém nunca tinha visto antes. Lindíssima, porém, e uma verdadeira profissional. O guarda foi encontrado três horas depois em Franklin Square, sentado em um banco, com um verdadeiro cânion aberto no pomo de adão, mais morto do que Thomas Jefferson.

A pena de Maso iria terminar dali a três meses, e Albert estava começando a aparentar certo desespero, desespero este que só fazia tornar as coisas mais perigosas. Na noite anterior mesmo, Boyd Holter, o melhor falsário de Maso, fora jogado do alto do Edifício Ames, no centro da cidade. Caíra com o cóccix no chão, e pedaços de sua coluna vertebral haviam sido projetados para dentro da caixa craniana feito cascalho.

O pessoal de Maso reagiu mandando pelos ares um dos estabelecimentos de fachada de Albert, um açougue em Morton Street. O cabeleireiro e o armarinho que ladeavam o açougue também pegaram fogo, e vários carros estacionados na rua perderam as janelas e a pintura.

Até agora não havia vencedor, apenas uma baita bagunça.

Junto ao muro do presídio, Joe e Maso pararam para admirar uma lua cor de laranja grande como o próprio céu surgir acima das chaminés das fábricas e dos campos de cinza e veneno negro, e Maso entregou a Joe um pedacinho de papel dobrado.

Joe nem olhava mais para os papéis, apenas os dobrava mais uma ou duas vezes e os escondia em um buraco que havia recortado na sola do sapato até a visita seguinte do pai.

“Abra”, disse Maso antes que ele pudesse guardar o papel.

Joe o encarou; a lua fazia parecer que era dia ali em cima.

Maso confirmou com a cabeça.

Joe virou o pedaço de papel na mão e levantou a dobra de cima com o polegar. No início não conseguiu entender as duas palavras que leu:

Brendan Loomis.

“Ele foi preso ontem à noite”, disse Maso. “Espancou um homem em frente à loja de departamentos Filene’s. Porque os dois queriam comprar o mesmo sobretudo. Porque ele é um selvagem irracional. A vítima tem amigos, então o braço direito de Albert White não vai voltar para o ombro de Albert em momento algum do futuro imediato.” Ele olhou para Joe, com a lua pintando de laranja a pele de seu rosto. “Você o odeia?”

“É claro que odeio”, respondeu Joe.

“Ótimo.” Maso lhe deu um único tapinha no braço. “Entregue o bilhete para o seu pai.”

Na base da tela de cobre que ficava entre Joe e o pai havia uma fenda grande o suficiente para se poder passar bilhetes para lá e para cá. Joe pretendia pôr o recado de Maso do seu lado da fenda e empurrar, mas não conseguiu se forçar a tirá-lo de cima do joelho.

Nesse verão, o rosto de seu pai havia ficado translúcido, feito a casca de uma cebola, e as veias de suas mãos adquiriram um brilho fora do normal — azul vivo, vermelho vivo. Seus olhos e ombros estavam caídos. Os cabelos haviam rareado. Ele aparentava cada dia dos sessenta anos que tinha, e até mais.

Nessa manhã, porém, algo havia feito sua fala recobrar um pouco de energia, e o verde tristonho dos olhos, um pouco de vida.

“Você nunca vai adivinhar quem está chegando à cidade”, disse Thomas.

“Quem?”

“Ninguém menos do que o seu irmão Aiden.”

Ah. Estava explicado. O filho preferido. O amado filho pródigo.

“Quer dizer que Danny vai chegar? Por onde ele andava?”

“Ah, ele andou por toda parte”, respondeu Thomas. “Me escreveu uma carta que levei quinze minutos para ler. Esteve em Tulsa, Austin e até no México. Ultimamente, parece que estava em Nova York. Mas vai chegar a Boston amanhã.”

“Com Nora?”

“Ele não falou nada sobre ela”, disse Thomas, com um tom que indicava que preferia fazer o mesmo.

“Ele disse por que estava vindo?”

Thomas fez que não com a cabeça. “Só disse que está de passagem.” Sua voz se extinguiu enquanto ele olhava para as paredes em volta como se não conseguisse se acostumar com elas. E provavelmente não conseguia mesmo. Quem conseguiria, a menos que fosse obrigado? “Está aguentando firme?”

“Estou...”, Joe deu de ombros.

“Está o quê?”

“Tentando, pai. Estou tentando.”

“Bom, é tudo o que você pode fazer.”

“É.”

Ficaram se encarando através da grade, e Joe encontrou coragem para tirar o bilhete de cima do joelho e o empurrar até o outro lado na direção do pai.

Thomas desdobrou o papel e olhou para o nome ali escrito. Por um bom tempo, Joe não soube dizer ao certo se o pai ainda estava respirando. E então...

“Não.”

“Como é?”

“Não.” Thomas tornou a empurrar o bilhete pela mesa e repetiu. “Não.”

“Maso não gosta dessa palavra, pai.”

“Ah, então agora é ‘Maso’?”

Joe não disse nada.

“Eu não mato por encomenda, Joseph.”

“Não é isso que eles estão pedindo”, disse Joe, pensando: será que é?.

“Até onde será que vai a sua ingenuidade antes de se tornar imperdoável?” Seu pai exalava o ar pelas narinas. “Quando eles lhe passam o nome de um homem que está preso, querem que esse homem seja encontrado enforcado na cela ou baleado nas costas ‘tentando fugir’. Assim sendo, Joe, levando em conta o grau de ignorância ao qual você parece voluntariamente se ater nessas questões, preciso que ouça com atenção o que tenho a dizer.”

Joe cruzou o olhar do pai, espantado com a profundidade do amor e da perda que viu neles. Pareceu-lhe claro que o pai agora se encontrava no fim de sua jornada de vida, e as palavras prestes a sair de sua boca eram um resumo dessa vida.

“Não vou tirar a vida de outra pessoa sem motivo.”

“Nem mesmo a de um assassino?”, indagou Joe.

“Nem mesmo a de um assassino.”

“E do homem responsável pela morte de uma mulher que eu amava.”

“Você me disse achar que ela está viva.”

“A questão não é essa”, retrucou Joe.

“Não, de fato não é”, concordou seu pai. “A questão é que eu não cometo assassinato. Para ninguém. E certamente não para esse demônio carcamano ao qual você jurou fidelidade.”

“Eu tenho que sobreviver aqui dentro”, disse Joe. “Aqui dentro.”

“E faça o que tiver de fazer.” Seu pai meneou a cabeça, com os olhos verdes mais brilhantes do que o normal. “Nunca irei julgá-lo por isso. Mas não vou cometer homicídio.”

“Nem mesmo por mim?”

“Principalmente não por você.”

“Então eu vou morrer aqui dentro, pai.”

“Sim, é possível.”

Joe baixou os olhos para a mesa e viu a madeira ficar turva junto com todo o resto. “Em breve.”

“E se isso acontecer”, a voz de seu pai era um sussurro, “eu vou morrer em seguida de tanta tristeza. Mas não vou cometer assassinato por você, filho. Matar por você? Sim. Mas assassinato? Jamais.”

Joe ergueu os olhos. Sentiu vergonha do tom choroso da própria voz ao pedir: “Por favor”.

Seu pai fez que não com a cabeça. Um gesto suave. Lento.

Bem, era isso. Não havia mais nada a dizer.

Joe fez menção de se levantar.

“Espere”, falou seu pai.

“O que foi?”

Seu pai olhou para o guarda postado junto à porta atrás de Joe. “Aquele guarda é vendido a Maso?”

“É. Por quê?”

Seu pai tirou o relógio do bolso do colete. Removeu a corrente do relógio.

“Não, pai. Não.”

Thomas tornou a pôr a corrente no bolso e fez o relógio deslizar por cima da mesa.

Joe tentou impedir que as lágrimas lhe escorressem dos olhos.

“Não posso fazer isso.”

“Pode, sim. Pode e vai fazer.” Seu pai o encarou através da grade como se estivesse ardendo em chamas, sem mais nenhum indício de exaustão no rosto ou tampouco desesperança. “Esse pedaço de metal vale uma fortuna. Mas é só o que é... um pedaço de metal. Compre sua vida com ele. Entendeu bem? Entregue isso para aquele demônio carcamano e compre sua vida.”

Joe fechou a mão por cima do relógio que ainda conservava o calor do bolso do pai, sentindo-o bater dentro de sua palma feito um coração.

Falou com Maso no refeitório. Não pretendia falar; não pensou que o assunto fosse surgir. Pensou que teria tempo. Durante as refeições, Joe sentava-se com integrantes do grupo de Pescatore, mas não com os da mesa principal, que comiam na companhia do próprio Maso. Ficava na mesa ao lado, com caras como Rico Gastemeyer, responsável pela contabilidade, e Larry Kahn, que fabricava gim no subsolo do alojamento dos guardas. Voltou do encontro com o pai e sentou-se em frente a Rico e Ernie Howland, um falsário de Saugus, mas eles foram obrigados a se deslocar no banco por Hippo Fasini, um dos soldados mais próximos de Maso, e Joe acabou sentado bem em frente ao próprio Maso, ladeado por Naldo Aliente de um lado e Hippo Fasini do outro.

“Então, quando vai ser?”, perguntou Maso.

“Como?”

Maso adquiriu uma expressão frustrada, como sempre acontecia quando lhe pediam para repetir o que tinha dito. “Joseph.”

Joe sentiu o peito e a garganta se contraírem em volta da resposta. “Ele não vai fazer.”

Naldo Aliente riu bem baixinho e balançou a cabeça.

“Ele disse não?”, indagou Maso.

Joe aquiesceu.

Maso olhou para Naldo, em seguida para Hippo Fasini. Ninguém disse nada por algum tempo. Joe baixou os olhos para a própria comida, consciente de que ela estava esfriando, consciente de que deveria comer, porque ali, se você pulasse uma refeição, enfraquecia muito depressa.

“Joseph, olhe para mim.”

Joe olhou para o outro lado da mesa. O rosto que o encarava de volta parecia bem-humorado e curioso, como o de um lobo que acaba de se deparar com uma ninhada de pintinhos recém-nascidos onde menos esperava.

“Por que não foi mais convincente com seu pai?”

“Eu tentei, sr. Pescatore”, respondeu Joe.

Maso olhou para seus homens, um depois do outro. “Ele tentou.”

Quando Naldo Aliente sorriu, expôs uma fileira de dentes que pareciam morcegos pendurados em uma caverna. “Não tentou o suficiente.”

“Olhe, ele me deu uma coisa”, disse Joe.

“Ele o quê...?” Maso levou uma das mãos até atrás da orelha.

“Ele me deu uma coisa para dar para o senhor.” Joe fez o relógio deslizar até o outro lado da mesa.

Maso reparou na tampa de ouro. Abriu o relógio e avaliou o mecanismo em si, depois o interior da tampa no qual as palavras Patek Philippe tinham sido gravadas com uma caligrafia delicada. Suas sobrancelhas se arquearam em sinal de aprovação.

“É o de 1902, dezoito quilates”, falou para Naldo. Então se virou para Joe. “Só foram fabricados dois mil relógios destes. Isto vale mais do que a minha casa. Como é que um policial conseguiu ter um?”

“Ele impediu um assalto a banco em 1908”, respondeu Joe, repetindo uma história que seu tio Eddie havia contado uma centena de vezes, embora o pai jamais comentasse a respeito. “Em Codman Square. Matou um dos assaltantes antes de o cara conseguir matar o gerente do banco.”

“E o gerente do banco deu este relógio ao seu pai?”

Joe fez que não com a cabeça. “Foi o presidente. O gerente era filho dele.”

“Então agora ele está me dando o relógio para salvar o próprio filho?”

Joe assentiu com a cabeça.

“Eu mesmo tenho três filhos. Você sabia?”

“Sim, ouvi falar”, respondeu Joe.

“De modo que sei alguma coisa sobre pais e como eles amam seus filhos.”

Maso se recostou na cadeira e passou algum tempo examinando o relógio. No fim das contas, deu um suspiro e o pôs no bolso. Estendeu a mão por cima da mesa e deu três tapinhas na mão de Joe.

“Torne a falar com seu pai. Diga a ele que eu agradeço o presente.” Maso se levantou da mesa. “E depois diga a ele para fazer a porra do que eu mandei.”

Os homens de Maso se levantaram todos juntos e saíram do refeitório.

Ao voltar para a cela após seu trabalho na oficina de fabricar correntes, Joe estava com calor, imundo, e três homens que nunca tinha visto esperavam por ele lá dentro. As camas continuavam faltando, mas os colchões haviam sido recolocados no chão. Os homens estavam sentados em cima desses colchões. O de Joe estava depois deles, encostado na parede sob a janela no alto, do lado mais afastado das grades. Dois dos sujeitos ele nunca tinha visto, teve certeza, mas o terceiro lhe pareceu conhecido. Tinha cerca de trinta anos e era baixo, mas com um rosto bem comprido e um queixo tão pontudo quanto o nariz e as pontas das orelhas. Joe passou em revista todos os nomes e rostos que ficara conhecendo naquela prisão e se deu conta de que estava diante de Basil Chigis, um dos integrantes do grupo de Emil Lawson, condenado à prisão perpétua assim como o chefe, sem chance de condicional. Diziam que ele havia comido os dedos de um menino que matara em um porão de Chelsea.

Joe encarou cada um dos homens por tempo suficiente para mostrar que não estava com medo, embora estivesse, e os três o encararam de volta, piscando os olhos de vez em quando, mas sem dizer nada. Assim, ele tampouco falou.

Em determinado momento, os homens pareceram se cansar de encará-lo e começaram a jogar cartas. As fichas eram feitas de osso. Ossos miúdos, como os de codorna, frango, ou pequenas aves de rapina. Os homens carregavam os ossos dentro de saquinhos de lona. Fervidos até ficarem totalmente brancos, eles estalavam ao serem reunidos pelo vencedor. Quando a luz diminuiu, os homens continuaram jogando, só abrindo a boca para dizer “sobe”, ou “pago para ver”, ou “estou fora”. De tanto em tanto, um deles relanceava os olhos para Joe, mas nunca por muito tempo, e em seguida voltava ao carteado.

Quando a escuridão se fez total, as luzes da galeria foram desligadas. Os três homens ainda tentaram terminar a mão, mas então a voz de Basil Chigis emergiu do breu — “Que se foda essa porra” — e as cartas farfalharam quando eles as recolheram do chão, e os ossos estalaram ao serem devolvidos aos saquinhos.

Ficaram os quatro sentados no escuro, respirando.

Nessa noite, o tempo foi algo que Joe não soube medir. Poderia ter passado meia hora sentado no escuro ou duas horas. Não fazia a menor ideia. Os três homens estavam sentados em semicírculo na sua frente, e ele podia sentir o cheiro de seu hálito e de seus corpos. O que estava à sua direita tinha um cheiro particularmente ruim, como um suor seco tão velho que havia se transformado em vinagre.

Conforme seus olhos se adaptaram à escuridão, pôde distingui-los, e o negro profundo se transformou em penumbra. Os três estavam sentados de pernas cruzadas, braços apoiados nos joelhos. Tinham os olhos pregados nele.

Em uma das fábricas atrás de Joe, um apito soou.

Mesmo que tivesse uma arma branca, duvidava que fosse conseguir apunhalar todos eles. Como nunca tinha apunhalado ninguém na vida, talvez não tivesse conseguido sequer alcançar um deles antes de o desarmarem e usarem sua arma contra ele.

Sabia que estavam esperando que ele falasse. Não sabia como sabia isso, mas sabia. Seria o sinal para que fizessem o que quer que pretendessem fazer com ele. Se ele falasse, estaria implorando. Mesmo que nunca pedisse nada nem suplicasse pela própria vida, falar com aqueles homens seria uma súplica em si. E eles ririam dele antes de o matarem.

Os olhos de Basil Chigis eram do mesmo azul de um rio pouco antes de congelar. No escuro, foi preciso algum tempo antes de a cor voltar, mas ela acabou voltando. Joe imaginou sentir a queimação daquela cor nos polegares quando os usasse para afundar os olhos de Basil.

Eles são homens, não demônios, falou para si mesmo. Um homem pode ser morto. Até mesmo três. Só é preciso agir.

Encarando as pálidas chamas azuis dos olhos de Basil Chigis, sentiu o poder que tinham sobre ele diminuir quanto mais lembrava a si mesmo que aqueles homens não tinham nenhum poder especial, não mais do que ele, pelo menos — mente, membros e força de vontade, tudo funcionando junto —, e que, portanto, era totalmente possível conseguir derrotá-los.

Mas e depois? Para onde ele iria? Sua cela tinha pouco mais de dois metros de comprimento por uns três e meio de largura.

Você tem de estar disposto a matá-los. Ataque agora. Antes que eles ataquem. Quando estiverem no chão, quebre a porra do pescoço deles.

Já quando estava imaginando isso, soube que seria impossível. Se tivesse apenas um adversário e agisse antes do esperado, talvez tivesse uma chance. Mas atacar três oponentes de uma posição sentada e ter sucesso?

O medo se espalhou por seus intestinos e subiu pela garganta. Apertou seu cérebro como se fosse a mão de alguém. Ele não conseguia parar de suar, e seus braços tremiam dentro das mangas.

O movimento veio da direita e da esquerda ao mesmo tempo. Quando ele sentiu, as pontas dos pedaços de metal já estavam encostadas em seus tímpanos. Não conseguiu vê-los, mas conseguiu ver o que Basil Chigis sacou de dentro das dobras do uniforme de presidiário. Era uma fina haste de metal, com metade do comprimento de um taco de sinuca, e Basil teve de encolher o cotovelo quando encostou sua ponta na base da garganta de Joe. Levou a mão às costas e tirou alguma coisa do cós da calça, e Joe desejou não ter visto aquilo, pois não queria acreditar que o objeto estivesse dentro da cela com eles. Basil Chigis ergueu um martelo bem alto atrás da parte traseira da longa haste de metal.

Ave Maria, pensou Joe, cheia de graça...

Esqueceu o resto. Tinha sido coroinha por seis anos, mas esqueceu.

A expressão nos olhos de Basil Chigis não havia mudado. Nenhuma intenção clara transparecia neles. O punho esquerdo segurava a haste de metal. O direito segurava o cabo do martelo. Bastava um gesto do braço para a ponta de metal perfurar a garganta de Joe e descer direto até o coração.

... o Senhor esteja convosco. Abençoai-nos, ó Senhor, e estas Vossas dádivas...

Não, não. Aquilo era o agradecimento que se rezava antes do jantar. A Ave-Maria era diferente. Dizia assim...

Ele não conseguiu se lembrar.

Pai nosso, que estais no céu, perdoai as nossas ofensas, assim como nós...

A porta da cela se abriu e Emil Lawson entrou. Atravessou o círculo, ajoelhou-se à direita de Basil Chigis e inclinou a cabeça na direção de Joe.

“Me disseram que você era bonito”, disse ele. “Não mentiram.” Ele coçou a barba por fazer que lhe cobria as faces. “Consegue pensar em alguma coisa que eu não possa tirar de você agora?”

Minha alma, perguntou-se Joe? Só que naquele lugar, com aquela escuridão, eles provavelmente conseguiriam lhe tirar isso também.

Mas ele preferiria ir para o inferno a responder.

“Ou você responde à pergunta, ou arranco um de seus olhos e dou para o Basil comer”, disse Emil Lawson.

“Não”, respondeu Joe. “Não há nada que você não possa me tirar.”

Emil Lawson usou a palma da mão para limpar o chão antes de se sentar.

“Quer que a gente vá embora? Que a gente saia da sua cela hoje?”

“Sim, quero.”

“Pediram para você fazer algo para o sr. Pescatore, e você recusou.”

“Não fui eu quem recusei. A decisão final não era minha.”

A haste de metal encostada na garganta de Joe escorregou em seu suor e raspou a lateral de seu pescoço, levando consigo um pedaço de pele. Basil Chigis tornou a posicioná-la na base de sua garganta.

“O seu paizinho”, Emil Lawson assentiu. “O policial. O que ele tinha de fazer?”

Como assim?

“Você sabe o que ele tinha de fazer.”

“Finja que não sei e responda à pergunta.”

Joe inspirou fundo, devagar. “Brendan Loomis.”

“O que tem ele?”

“Está preso. Vai ser indiciado depois de amanhã.”

Emil Lawson entrelaçou as mãos atrás da cabeça e sorriu. “E o seu paizinho tinha de matá-lo, mas disse não.”

“É.”

“Não, ele disse sim.”

“Ele disse não.”

Emil Lawson fez que não com a cabeça. “Você vai dizer ao primeiro homem de Pescatore que vir pela frente que o seu pai mandou notícias por intermédio de um guarda. Ele vai cuidar de Brendan Loomis. E ele descobriu também onde Albert White tem passado as noites. E você tem o endereço para dar ao Velho Pescatore. Mas só pessoalmente. Entendeu até agora, menino bonito?”

Joe aquiesceu.

Emil Lawson entregou a Joe algo envolto em um oleado. Joe desembrulhou o pano — era outro pedaço de metal, quase tão fino quanto uma agulha. Em determinado momento, tinha sido uma chave de fenda daquelas que se usam para apertar os parafusos dos óculos. Só que esse tipo de chave de fenda não era afiado como aquela ali. A ponta parecia um espinho de rosa. Joe passou a palma da mão de leve por cima da ponta, e esta marcou sua mão.

Os homens afastaram os pedaços de metal de suas orelhas e garganta.

Emil chegou mais perto. “Quando se aproximar o suficiente para sussurrar o tal endereço no ouvido de Pescatore, enfie esse pedaço de metal bem fundo na porra do cérebro dele.” Ele deu de ombros. “Ou na garganta. Contanto que o mate.”

“Achei que você trabalhasse para ele”, disse Joe.

“Eu trabalho para mim.” Emil Lawson balançou a cabeça. “Fiz uns trabalhos para o grupo dele quando fui pago para isso. Agora outra pessoa está pagando.”

“Albert White”, disse Joe.

“É esse o meu chefe.” Emil Lawson se inclinou para a frente e deu um leve tapa na bochecha de Joe. “E agora é o seu também.”

* * *

No pequeno terreno atrás de sua casa na K Street, Thomas Coughlin cultivava um jardim. Ao longo dos anos, seus esforços para mantê-lo haviam tido graus diversos de sucesso e fracasso mas, nos dois anos desde o falecimento de Ellen, sobrava tempo; agora a produção do jardim era tão abundante que ele obtinha um pequeno lucro anual com a venda do excedente.

Anos antes, quando devia ter cinco ou seis anos, Joe decidira ajudar o pai na colheita do início de julho. Thomas estava dormindo para se recuperar de dois plantões seguidos e das várias saideiras consumidas depois na companhia de Eddie McKenna. Acordou com o barulho do filho falando no quintal dos fundos. Na época, Joe falava muito sozinho, ou talvez falasse com um amigo imaginário. Fosse como fosse, Thomas agora admitia para si mesmo que o filho precisava falar com alguém, pois com certeza ninguém falava muito com ele em casa. Thomas trabalhava demais, e Ellen, bem, àquela altura Ellen já havia firmado sua predileção pela Tintura número 23, elixir cura-tudo que lhe fora apresentado após um dos abortos espontâneos anteriores ao nascimento de Joe. Na época, a número 23 ainda não era o problema em que iria se transformar para Ellen, ou pelo menos era assim que Thomas gostava de pensar. No entanto, devia questionar essa avaliação mais do que gostava de admitir, pois soubera sem precisar perguntar que não havia ninguém olhando Joe nesse dia de manhã. Ficou deitado na cama, ouvindo o caçula tagarelar sozinho enquanto entrava e saía da varanda, e começou a se perguntar o que o estaria fazendo ir e vir tanto assim.

Levantou-se da cama, vestiu um roupão e encontrou os chinelos. Atravessou a cozinha (onde Ellen, sorridente, mas sem nenhuma expressão nos olhos, estava sentada diante de uma xícara de chá) e abriu a porta dos fundos com um empurrão.

Quando viu a varanda, o primeiro impulso que teve foi gritar. Literalmente. Ajoelhar-se no chão e vociferar contra os céus. Suas cenouras, pastinacas e tomates — todos ainda verdes — jaziam espalhados pelo chão da varanda, as raízes espalhadas feito cabelos em meio à terra e à madeira. Joe subia do quintal trazendo nas mãos mais uma leva da colheita — dessa vez as beterrabas. Havia se transformado em uma toupeira, e tinha a pele e os cabelos cobertos de terra. A única parte branca que restava nele eram os olhos e os dentes quando sorria, coisa que fez assim que viu Thomas.

“Oi, papai.”

Thomas não soube o que dizer.

“Estou ajudando você, papai.” Joe depositou uma beterraba aos pés de Thomas e voltou para pegar mais.

Com o trabalho de um ano inteiro arruinado e o lucro do outono evaporado, Thomas observou o filho marchar varanda abaixo para concluir sua destruição, e a gargalhada que subiu pelo centro de seu corpo e o fez estremecer não espantou a ninguém mais do que a ele próprio. Ele gargalhou tão alto que fez os esquilos fugirem dos galhos baixos da árvore mais próxima. Gargalhou tanto que pôde sentir a varanda tremer.

Agora, essa lembrança o fez sorrir.

Tinha dito ao filho recentemente que a vida era sorte. Mas a vida, como ele passara a perceber à medida que envelhecia, era também memória. A recordação de alguns momentos muitas vezes se mostrava mais rica do que os momentos em si.

Por hábito, estendeu a mão para pegar o relógio antes de se lembrar que não o tinha mais no bolso. Sentiria sua falta, ainda que a verdade a seu respeito fosse um pouco mais complexa do que a lenda que havia se criado ao seu redor. Era verdade que fora um presente de Barrett W. Stanford Pai. E Thomas, sem sombra de dúvida, havia arriscado a vida para salvar Barrett W. Stanford Filho, gerente do banco First Boston em Codman Square. Era verdade também que, no exercício de suas funções, havia disparado seu revólver de serviço uma única vez no cérebro de um homem chamado Maurice Dobson, vinte e seis anos, pondo fim à sua vida na hora.

Um segundo antes de puxar aquele gatilho, contudo, Thomas tinha visto algo que ninguém mais vira: a verdadeira natureza da intenção de Maurice Dobson. Falaria a respeito primeiro com o refém, Barrett W. Stanford Filho, depois contaria a mesma história a Eddie McKenna, depois ao comandante do seu plantão, e em seguida aos outros membros do Comitê de Tiro da corporação. Com a sua permissão, contaria a mesma história aos profissionais da imprensa e também a Barrett W. Stanford Pai, cuja gratidão foi tão avassaladora que ele deu a Thomas um relógio que ganhara de presente em Zurique de Joseph Emile Philippe em pessoa. Thomas tentou três vezes recusar um presente tão extravagante, mas Barrett W. Stanford Pai não quis nem ouvir falar no assunto.

Assim, ele carregava o relógio, não com o orgulho que tantos supunham, mas com um respeito íntimo e solene. Segundo a lenda, a intenção de Maurice Dobson era matar Barrett W. Stanford Filho. E quem poderia contestar essa interpretação, uma vez que ele encostara uma pistola na garganta de Barrett?

No entanto, a intenção que Thomas lera no olhar de Maurice Dobson naquele instante final — e foi rápido assim: um instante apenas — tinha sido a de se render. Estava a pouco mais de um metro de distância, com o revólver de serviço apontado e firme, dedo no gatilho, tão pronto para puxá-lo — e era preciso estar pronto, caso contrário, de que adiantava apontar a arma? — que, quando viu uma aceitação do próprio destino atravessar os olhos cinza-claros de Maurice Dobson, uma aceitação de que ele seria preso, de que estava tudo acabado, Thomas se sentiu preterido de forma injusta. Não soube dizer exatamente de imediato preterido em quê. Assim que puxou o gatilho, porém, entendeu.

A bala perfurou o olho esquerdo do infeliz Maurice Dobson, do finado Maurice Dobson, antes mesmo de ele cair no chão, e o calor por ela gerado queimou a pele de Barrett W. Stanford Filho, formando uma listra logo abaixo da têmpora. Quando a conclusão do objetivo da bala se conjugou com a conclusão de seu uso, Thomas entendeu o que lhe tinha sido negado, e por que havia tomado providências tão permanentes para retificar essa negação.

Quando dois homens apontavam armas um para o outro, um contrato era assinado aos olhos de Deus, e o único cumprimento aceitável desse contrato era um deles despachar o outro ao Seu encontro.

Ou pelo menos assim lhe parecera na época.

Ao longo dos anos, nem mesmo em seus porres mais memoráveis, nem mesmo com Eddie McKenna, que conhecia a maioria de seus segredos, Thomas nunca havia contado a ninguém que tipo de intenção de fato vira nos olhos de Maurice Dobson. E, embora não se orgulhasse de suas ações nesse dia, e por conseguinte tampouco experimentasse orgulho com a posse do relógio de bolso, jamais saía de casa sem ele, pois o relógio era testemunha da profunda responsabilidade que definia sua profissão — nós não aplicamos as leis dos homens; aplicamos a vontade da natureza. Deus não era nenhum rei das nuvens vestido com uma túnica branca e sujeito a um envolvimento sentimentalista nas questões humanas. Ele era, isso sim, o ferro que constituía seu núcleo, o fogo no interior das fornalhas escaldantes que ardiam por cem anos. Deus era a lei do ferro e a lei do fogo. Deus era a natureza, e a natureza era Deus. Um não podia existir sem o outro.

E você, Joseph, meu caçula, meu romântico desvirtuado, meu coração cheio de espinhos — agora é você quem tem de lembrar aos homens essas leis. Aos piores dos homens. Ou então morrer de fraqueza, de fragilidade moral, de falta de força de vontade.

Rezarei por você, pois a prece é tudo o que resta quando o poder se extingue. E eu não tenho mais poder. Não posso esticar o braço para dentro desses muros de granito. Não posso diminuir a velocidade do tempo nem fazê-lo parar. Caramba: no momento, nem sequer posso medir o tempo e saber que horas são.

Olhou para seu jardim lá fora, tão próximo da colheita. Rezou por Joe. Rezou por toda uma enxurrada de antepassados, a maioria desconhecida para ele, mas mesmo assim pôde vê-los com grande clareza: uma diáspora de almas vergadas marcadas pela bebida, pela fome e por pulsões sombrias. Pediu que o seu descanso eterno fosse em paz, e desejou um neto.

Joe encontrou Hippo Fasini no pátio e lhe disse que o pai havia mudado de ideia.

“Acontece”, comentou Hippo.

“Ele também me deu um endereço.”

“Ah, é?” O gordo recuou ligeiramente nos calcanhares, e seus olhos se perderam ao longe sem foco específico. “Endereço de quem?”

“De Albert White.”

“Albert White mora em Ashmont Hill.”

“Ouvi dizer que ele não tem passado muito tempo lá.”

“Então me dê o endereço.”

“Vá se foder.”

Hippo Fasini olhou para o chão, e todos os seus três papos encostaram nas listras do uniforme de presidiário. “Como é?”

“Diga a Maso que levarei o endereço para o muro hoje à noite.”

“Você não está em condições de negociar, garoto.”

Joe ficou olhando para ele até Hippo o encarar nos olhos. Então disse: “É claro que estou”. E saiu andando pelo pátio.

Uma hora antes do encontro com Pescatore, vomitou duas vezes dentro do balde de carvalho. Seus braços tremiam. Às vezes, o queixo e os lábios tremiam também. Seu sangue se transformou em um potente latejar de punhos contra as orelhas. Havia amarrado o pedaço de metal no pulso com um cadarço de bota feito de couro fornecido por Emil Lawson. Pouco antes de sair da cela, deveria tirá-lo de lá e colocá-lo entre as nádegas. Lawson havia sugerido enfaticamente que o enfiasse inteiro no cu, mas ele imaginou um dos capangas de Maso forçando-o a sentar por um motivo qualquer e decidiu que seriam as nádegas ou nada feito. Imaginou que faria a transferência faltando dez minutos para sair, de modo a se acostumar a andar com aquilo, mas um guarda apareceu em sua cela quarenta minutos mais cedo para lhe avisar que ele tinha visita.

O sol já estava se pondo. O horário de visita já terminara havia muito tempo.

“Quem é?”, perguntou ele enquanto descia a galeria atrás do guarda, só então lembrando que o pedaço de metal continuava preso ao seu pulso.

“Alguém que sabe molhar as mãos certas.”

“Sim, mas quem?”, Joe tentava acompanhar o ritmo do guarda, que andava depressa.

Este destrancou a porta da ala e fez Joe passar. “Disse que era seu irmão.”

Ele entrou no recinto tirando o chapéu. Ao passar pela porta, teve de se abaixar, pois era uma cabeça inteira mais alta do que a maioria dos outros homens. Os cabelos escuros exibiam algumas entradas e estavam levemente grisalhos acima das orelhas. Joe fez as contas e calculou que ele tivesse agora trinta e cinco anos. Continuava muito atraente, embora o rosto estivesse mais marcado do que na lembrança de Joe.

Usava um terno de três peças escuro, um pouco surrado, com lapelas de cantos arredondados. Um terno de gerente de armazém de cereais, ou então de um homem que passava muito tempo na estrada — vendedor itinerante ou sindicalista. Por baixo do terno Danny usava uma camisa branca, sem gravata.

Ele pôs o chapéu em cima da mesa e olhou através da grade que os separava.

“Caramba”, comentou, “você não tem mais treze anos, não é?”

Joe reparou como os olhos do irmão estavam vermelhos. “E você não tem mais vinte e cinco.”

Danny acendeu um cigarro, e o fósforo estremeceu entre seus dedos. Uma grande cicatriz franzida no centro cobria as costas de sua mão.

“Mas ainda tiraria o seu couro.”

Joe deu de ombros. “Pode ser que não. Estou aprendendo a brigar sujo.”

Danny reagiu à frase com um arquear de sobrancelhas e soltou uma nuvem de fumaça. “Ele foi embora, Joe.”

Joe sabia quem era “ele”. Uma parte de si já sabia da última vez em que pousara os olhos nele, ali naquele recinto. Mas outra parte não conseguia aceitar. Não quis aceitar.

“Ele quem?”

Seu irmão olhou para o teto por alguns instantes, depois tornou a olhar para ele. “O pai, Joe. O pai morreu.”

“Como?”

“Na minha opinião? Ataque cardíaco.”

“Você...?”

“Hem?”

“Você estava lá?”

Danny fez que não com a cabeça. “Cheguei meia hora depois. Ele ainda estava quente quando o encontrei.”

“Tem certeza de que não houve...”, começou Joe.

“De que não houve o quê?”

“Alguma ação criminosa?”

“Que porra estão fazendo com você aí dentro?”, Danny correu os olhos pelo recinto. “Não, Joe, foi um ataque cardíaco ou um derrame.”

“Como é que você sabe?”

Danny estreitou os olhos. “Ele estava sorrindo.”

“Como é?”

“Isso mesmo.” Danny deu uma risadinha. “Sabe aquele sorriso pequenininho que ele tinha? Como se estivesse escutando uma piada só sua, ou relembrando alguma coisa lá do passado, anterior a qualquer um de nós? Sabe qual era?”

“Sei, sim”, respondeu Joe, e ficou surpreso ao se ouvir repetir com um sussurro. “Sei, sim.”

“Mas ele estava sem o relógio.”

“Ahn?” A cabeça de Joe zumbia.

“O relógio”, repetiu Danny. “Não estava com ele. Nunca o vi andar sem...”

“Está comigo”, disse Joe. “Ele me deu. Para o caso de eu ter problemas. Aqui dentro, sabe?”

“Então está com você.”

“Está”, disse ele, e a mentira fez seu estômago queimar. Viu a mão de Maso se fechar em torno do relógio, e quis bater com a própria cabeça na parede até fazê-la penetrar o concreto.

“Ótimo”, disse Danny. “Isso é bom.”

“Não é, não”, discordou Joe. “É uma merda. Mas é essa a situação atual.”

Nenhum dos dois disse nada por alguns instantes. Um apito de fábrica soou ao longe, do outro lado dos muros.

“Sabe onde posso encontrar Con?”, indagou Danny.

Joe aquiesceu. “Ele está no Abbotsford.”

“O educandário para cegos? O que está fazendo lá?”

“Ele mora lá”, respondeu Joe. “Simplesmente acordou um belo dia e desistiu de tudo.”

“Bom, o tipo de lesão que ele sofreu é capaz de deixar qualquer um amargurado”, comentou Danny.

“Ele já era amargurado muito antes da lesão”, disse Joe.

Danny deu de ombros, concordando, e os dois passaram alguns instantes em silêncio.

“Onde ele estava quando você o encontrou?”, quis saber Joe.

“Onde você acha?” Danny largou o cigarro no chão e pisou em cima, soltando a fumaça pela boca por baixo do lábio superior curvado. “Nos fundos, sentado naquela cadeira da varanda, sabe? Olhando para aquele seu...” Danny abaixou a cabeça e sacudiu a mão no ar.

“Jardim”, completou Joe.