Os Filhos da Noite

Dennis Lehane · Capítulo 14 de 29

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Os Filhos da Noite

Capítulo 14

BUM

 

O Círculo Cubano era o mais recente dos clubes de Ybor. O primeiro, chamado Centro Español, fora construído pelos espanhóis na Sétima Avenida na década de 1890. Na virada do século, um grupo de espanhóis do Norte do país saíra do Centro Español para fundar o Centro Asturiano, na esquina da Nona Avenida com Nebraska.

O Clube Italiano ficava alguns quarteirões abaixo em relação ao Centro Español, também na Sétima; ambos ocupavam endereços nobres de Ybor. Os cubanos, porém, tiveram de se contentar com um quarteirão bem menos elegante, condizente com seu status inferior na comunidade. O Círculo Cubano ficava na esquina da Nona Avenida com a rua Catorze. Do outro lado da rua havia uma costureira e uma botica, ambas um pouco respeitáveis, mas bem ao lado ficava o puteiro de Silvana Padilla, que atendia aos tabaqueiros, não aos gerentes, de modo que brigas de faca eram moeda corrente e as putas muitas vezes eram doentes e malcuidadas.

Quando Joe e Dion encostaram com o carro no meio-fio, uma puta usando o vestido amarrotado da véspera emergiu de um beco duas portas à frente. Passou andando por eles, alisando os babados da saia e com um ar destroçado e muito velho de quem precisava de um trago. Joe calculou que tivesse uns dezoito anos. O sujeito que saiu do beco atrás dela, de terno e chapéu de palha branco, afastou-se na direção oposta, assobiando, e Joe teve o impulso irracional de sair do carro, ir atrás dele e bater com sua cabeça em um dos prédios de tijolo que se sucediam na rua Catorze. Bater até o sangue sair pelas orelhas.

“Aquilo dali é nosso?”, Joe indicou o puteiro com um gesto do queixo.

“Em parte.”

“Então a nossa parte diz que as moças não trabalham no beco.”

Dion olhou para ele para ter certeza de que Joe estava falando sério. “Tudo bem. Vou cuidar disso, padre Joe. Agora será que podemos nos concentrar no assunto em pauta?”

“Eu estou concentrado.” Joe ajeitou a gravata no espelho retrovisor e desceu do carro. Os dois avançaram por uma calçada já tão quente às oito da manhã que, apesar de estar calçando bons sapatos, ele pôde sentir o calor nas solas dos pés. O calor tornava mais difícil raciocinar. E ele precisava raciocinar. Havia muitos outros caras mais durões, mais corajosos e melhores no manejo de armas do que Joe, mas ele disputaria inteligência com qualquer outro sentindo que tinha uma chance. Apesar disso, bem que ajudaria se alguém aparecesse para desligar a porra do calor.

Concentre-se. Concentre-se. Você está prestes a enfrentar um problema que vai ter de resolver. Como roubar sessenta caixotes de armamento da Marinha norte-americana sem ser morto ou ficar aleijado?

Quando estavam subindo os degraus do Círculo Cubano, uma mulher saiu pela porta da frente para recebê-los.

A verdade era que Joe não fazia a menor ideia de como pegar as armas, mas isso lhe saiu totalmente da cabeça naquele momento, pois ele olhava para a mulher, a mulher olhava para ele e o reconhecimento despontava. Era a mesma mulher que ele vira na plataforma de trem na véspera, a de pele cor de cobre e longos e grossos cabelos mais negros do que qualquer coisa que Joe já tinha visto na vida, com a possível exceção de seus olhos, talvez, daqueles olhos igualmente escuros que se prenderam aos dele ao vê-lo se aproximar.

“Señor Coughlin?” Ela estendeu a mão.

“Sou eu.” Ele apertou a mão dela.

“Graciela Corrales.” Ela retirou a mão de dentro da dele. Está atrasado.”

Ela os conduziu para dentro, onde atravessaram um piso de lajotas pretas e brancas até uma escadaria de mármore branco. Fazia bem menos calor lá dentro: o pé-direito alto, a madeira escura que revestia as paredes e todas aquelas lajotas e mármore conseguiam manter o calor afastado por mais algumas horas.

Graciela Corrales falou com as costas viradas para Joe e Dion. “O senhor é de Boston, correto?”

“Sim”, respondeu Joe.

“Todos os homens de Boston costumam comer mulheres com os olhos em plataformas de trem?”

“Tentamos não chegar ao ponto de fazer disso uma carreira.”

Ela olhou para eles por cima do ombro. “É muito grosseiro.”

“Eu na verdade sou italiano”, disse Dion.

“Outro lugar grosseiro.” Ela os conduziu por um salão de baile no alto da escada, cujas paredes estavam cobertas por fotos de vários grupos de cubanos reunidos ali mesmo naquele recinto. Algumas das fotos eram posadas, outras transmitiam a atmosfera das noites de baile em seu auge: braços erguidos, quadris descadeirados, saias rodando. Atravessaram o salão depressa, mas Joe teve quase certeza de ter visto Graciela em uma das fotos. Não pôde ter certeza porque a mulher da foto estava rindo, com a cabeça jogada para trás e os cabelos soltos, e ele não conseguia imaginar aquela mulher ali com os cabelos soltos.

Depois do salão havia uma sala de bilhar — Joe começou a pensar que alguns cubanos viviam bastante bem —, e depois da sala de bilhar uma biblioteca com pesadas cortinas brancas e quatro cadeiras de madeira. O homem que os aguardava se aproximou com um largo sorriso e um aperto de mão vigoroso.

Era Esteban. Apertou a mão dos dois como se não os houvesse encontrado na noite anterior.

“Esteban Suárez, cavalheiros. Que bondade sua vir até aqui. Sentem-se, sentem-se.”

Todos se sentaram. “Vocês são dois?”, indagou Dion.

“Como disse?”

“Nós passamos uma hora com o senhor ontem à noite. E agora aperta a nossa mão como se fôssemos desconhecidos.”

“Bem, ontem à noite os senhores conheceram o dono do El Vedado Tropicale. Hoje de manhã estão conhecendo o secretário de atas do Círculo Cubano.” Ele sorriu como um professor se mostrando condescendente com dois alunos que provavelmente iriam repetir de ano. “De toda forma, obrigado pela sua ajuda”, acrescentou.

Joe e Dion menearam a cabeça, mas não disseram nada.

“Tenho trinta homens, mas calculo que vou precisar de mais trinta”, disse Esteban. “Quantos os senhores podem...”

“Não vamos comprometer homem nenhum. Não vamos nos comprometer com nada”, disse Joe.

“Ah, não?” Graciela olhou para Esteban. “Não estou entendendo.”

“Viemos ouvir o que os senhores têm a nos dizer”, disse Joe. “Nada garante que vamos nos envolver mais depois disso.”

Graciela se acomodou ao lado de Esteban. “Por favor, não ajam como se tivessem escolha. Os senhores são gângsteres que dependem de um produto fornecido por um homem, um único homem. Se nos disserem não, seu abastecimento vai secar.”

“E nesse caso nós vamos travar uma guerra”, disse Joe. “E vamos ganhar, porque temos muitos homens enquanto o senhor, Esteban, não tem. Eu já verifiquei. Quer que eu arrisque a vida enfrentando as forças armadas norte-americanas? Prefiro me arriscar contra algumas dezenas de cubanos nas ruas de Tampa. Pelo menos vou saber pelo que estarei lutando.”

“Por lucro”, disse Graciela.

“Por uma forma de ganhar a vida”, disse Joe.

“Uma forma criminosa.”

“O que a senhora faz?” Ele se inclinou para a frente e correu os olhos pelo aposento. “Fica aqui sentada contando seus tapetes orientais?”

“Eu enrolo charutos, sr. Coughlin, na fábrica de La Trocha. Fico sentada em uma cadeira de madeira e faço isso das dez da manhã às oito da noite, diariamente. Quando o senhor me comeu com os olhos na plataforma ontem...”

“Eu não a comi com os olhos.”

“ ... era minha primeira folga em duas semanas. E, quando eu não estou trabalhando, sou voluntária aqui.” Ela lhe deu um sorriso amargo. “Então não se deixe enganar pelo vestido bonito.”

O vestido que ela usava estava ainda mais puído que o da véspera. Era de algodão, com uma larga faixa na cintura por cima de uma saia de babados, pelo menos um ano atrasado em relação à moda, talvez dois, lavado e usado tantas vezes que havia perdido a cor original e se transformado em algo que não era nem exatamente branco nem exatamente pardo.

“Este clube foi construído graças a doações”, disse Esteban, com calma. — Da mesma forma, as portas ficam sempre abertas. Quando os cubanos saem na sexta à noite, querem um lugar onde possam se vestir bem, um lugar que os faça sentir que estão de volta a Havana, um lugar com estilo. Animação, entende?” Ele estalou os dedos. “Aqui ninguém nos chama de cucarachos nem de homens de lama. Ficamos à vontade para falar nossa língua, cantar nossas canções e recitar nossos poemas.”

“Que agradável. Por que não me diz por que motivo eu deveria atacar com poesia um transporte da Marinha para os senhores, em vez de simplesmente destruir a sua organização inteira?”

Ao ouvir isso, Graciela abriu a boca, com os olhos chispando, mas Esteban a deteve, pousando uma das mãos em seu joelho. “Tem razão... o senhor provavelmente poderia acabar com a minha operação. Mas o que iria conseguir a não ser uns poucos prédios? Minhas rotas de abastecimento, meus contatos em Havana, todas as pessoas com quem eu trabalho em Cuba... elas jamais trabalhariam com o senhor. Assim sendo, quer mesmo matar a galinha dos ovos de ouro em troca de alguns prédios e de alguns caixotes velhos de rum?”

Joe retribuiu o sorriso dele com um seu. Os dois estavam começando a se entender. Não se respeitavam ainda, mas essa possibilidade já existia.

Joe apontou para trás de si com o polegar. “Foi o senhor quem tirou aquelas fotografias lá no corredor?”

“A maioria.”

“O que é que o senhor não sabe fazer, Esteban?”

Esteban tirou a mão do joelho de Graciela e se recostou na cadeira. “Entende alguma coisa de política cubana, sr. Coughlin?”

“Não, nem preciso”, respondeu Joe. “Não vai me ajudar a fazer esse serviço.”

Esteban cruzou os tornozelos. “E da Nicarágua?”

“Se bem me lembro, nós reprimimos uma rebelião lá faz alguns anos.”

“É para lá que as armas estão indo”, disse Graciela. “E não houve rebelião nenhuma. O seu país ocupa o deles igualzinho ocupam o meu quando lhes convém.”

“Reclame com a emenda constitucional Platt, é ela que rege as relações entre nossos países.”

A frase a fez arquear uma sobrancelha. “Um gângster culto?”

“Eu não sou gângster, sou fora da lei”, retrucou ele, embora não tivesse mais certeza de que isso fosse verdade. “E lá onde passei os últimos dois anos não há muito para fazer exceto ler. Mas por que a Marinha está levando armas para a Nicarágua?”

“Eles abriram uma escola de treinamento militar lá”, disse Esteban. “Para treinar o Exército e a polícia da Nicarágua, Guatemala e Panamá e lhes ensinar a melhor forma de pôr os camponeses no seu devido lugar, claro.”

“Quer dizer que vão roubar armas da Marinha americana para dá-las aos rebeldes nicaraguenses?”

“Minha causa não é a Nicarágua”, disse Esteban.

“Então vai armar rebeldes cubanos.”

Esteban aquiesceu. “Machado não é um presidente. É um ladrão ordinário com uma arma na mão.”

“Então vai roubar das nossas forças armadas para derrubar as suas forças armadas?”

Esteban meneou a cabeça de leve.

“Isso o incomoda?”, indagou Graciela.

“Para mim não tem a menor importância.” Joe olhou para Dion. “E para você?”

Dion perguntou a Graciela: “A senhora algum dia já pensou que, se vocês conseguissem policiar a si mesmos, quem sabe escolher um líder que não lhes roubasse até a roupa de baixo cinco minutos depois de prestar o juramento, nós não teríamos de continuar ocupando o seu país?”.

Graciela o encarou com um olhar inexpressivo. “O que eu acho é que, se nós não tivéssemos rios de dinheiro que vocês querem para si, o senhor jamais teria ouvido falar em Cuba.”

Dion olhou para Joe. “Que diferença faz? Vamos ouvir o plano.”

Joe virou-se para Esteban. “Vocês têm um plano, não têm?”

Pela primeira vez, os olhos de Esteban adquiriram uma expressão ofendida. “Temos um homem que vai ao navio hoje à noite. Ele vai provocar uma ação diversionista em um dos compartimentos dianteiros e...”

“Que tipo de ação diversionista?”, quis saber Dion.

“Um incêndio. Quando eles forem apagar, vamos descer até o compartimento de carga e pegar as armas.”

“O compartimento vai estar trancado.”

Esteban lhes mostrou um sorriso confiante. “Para isso temos um cortador de cadeado.”

“O senhor já viu a fechadura.”

“Ela foi descrita para mim.”

Dion se inclinou para a frente. “Mas não sabe de que material é feita. Pode ser mais sólida do que os seus cortadores de cadeados.”

“Nesse caso, vamos abri-la com um tiro.”

“Tiro esse que irá alertar as pessoas que estiverem combatendo o incêndio”, disse Joe. “E provavelmente matar alguém por ricochete.”

“Vamos ser rápidos.”

“Qual a rapidez de uma pessoa com sessenta caixas de fuzis e granadas?”

“Teremos trinta homens. E mais outros trinta, se o senhor nos arrumar.”

“Eles terão trezentos”, disse Joe.

“Mas não serão trezentos cubanos. Um soldado americano luta pelo seu próprio orgulho. O cubano luta por seu país.”

“Meu Deus do céu”, comentou Joe.

O sorriso de Esteban se fez ainda mais altivo. “Duvida da nossa coragem?”

“Não”, respondeu Joe. “Duvido da sua inteligência.”

“Não tenho medo de morrer”, disse Esteban.

“Pois eu tenho.” Joe acendeu um cigarro. “E, mesmo se não tivesse, gostaria de morrer por uma causa melhor do que essa. São necessários dois homens para carregar um caixote de fuzis. Isso significa que sessenta caras teriam de fazer duas viagens até um navio da Marinha em chamas. E o senhor acha isso possível.”

“Só ficamos sabendo sobre o navio há dois dias”, disse Graciela. “Se tivéssemos mais tempo, poderíamos ter arrumado mais homens e um plano melhor, mas o navio vai zarpar amanhã.”

“Não precisa zarpar amanhã”, disse Joe.

“Como assim?”

“O senhor disse que conseguem infiltrar um homem lá para dentro.”

“Sim.”

“Isso quer dizer que já tem um cara lá dentro?”

“Por quê?”

“Puta que pariu, meu Deus do céu, porque quero, Esteban, está bem? Vocês subornaram um dos marinheiros ou não?”

“Subornamos”, respondeu Graciela.

“Quais são as atribuições dele?”

“Trabalha na casa de máquinas.”

“O que ele vai fazer para vocês?”

“Provocar um defeito no motor do navio.”

“Quer dizer que o seu cara de fora é mecânico?”

Ambos menearam a cabeça.

“Ele chega para consertar o motor, começa o incêndio, e vocês atacam o depósito de armas.”

“Isso”, disse Esteban.

“Em matéria de plano, até que está razoável”, comentou Joe.

“Obrigado.”

“Não me agradeça. Se está razoável, significa que não está perfeito. Quando pretendiam fazer isso?”

“Hoje à noite”, respondeu Esteban. “Às dez. A previsão é de que a lua esteja bem fraca.”

“No meio da noite seria ideal, algo por volta das três da manhã”, disse Joe. “Quase todo mundo vai estar dormindo. Nenhum herói com que se preocupar, poucas testemunhas. É a única chance que consigo ver para o seu homem sair vivo daquele navio.” Ele entrelaçou as mãos atrás da cabeça e pensou mais um pouco. “Esse seu mecânico é cubano?”

“É.”

“Tem a pele escura?”

“Não vejo em que...”, começou Esteban.

“É mais parecido com o senhor ou com ela?”

“A pele dele é bem clara.”

“Então ele poderia passar por espanhol.”

Esteban olhou para Graciela, depois novamente para Joe. “Com certeza.”

“Por que isso é importante?”, indagou Graciela.

“Porque, depois do que estamos prestes a fazer com a Marinha dos Estados Unidos, eles vão se lembrar da cara dele. E vão caçá-lo.”

“E o que nós vamos fazer com a Marinha dos Estados Unidos?”, perguntou Graciela.

“Para começar, abrir um rombo naquele navio.”

A bomba não era uma caixa de pregos e porcas de aço comprada a preço de banana de um anarquista em uma esquina qualquer. Era um objeto muito mais refinado e preciso. Ou pelo menos assim lhes disseram.

Um dos barmen de uma birosca clandestina dos Pescatore na Central Avenue de St. Petersburg, chamado Sheldon Boudre, havia passado boa parte da casa dos trinta anos desarmando bombas para os fuzileiros navais. Em 1915, perdera uma perna no Haiti durante a ocupação de Porto Príncipe devido a um equipamento de comunicação defeituoso, e até hoje continuava irado por causa disso. Fabricou para eles um artefato explosivo que era uma verdadeira joia — um quadrado de aço do tamanho de uma caixa de sapatos infantis. Falou para Joe e Dion que a havia recheado com chumbinhos, maçanetas de porta feitas de latão e pólvora suficiente para abrir um túnel no obelisco de Washington.

“Certifiquem-se de colocar isto aqui bem debaixo do motor.” Sheldon empurrou a bomba envolta em papel pardo pelo balcão do bar na sua direção.

“Não estamos tentando apenas explodir um motor”, disse Joe. “Queremos danificar o casco.”

Sheldon chupou a fileira superior de dentes falsos para dentro e para fora contra a gengiva, com os olhos cravados no bar, e Joe percebeu que o havia ofendido. Aguardou que ele tornasse a falar.

“O que o senhor acha que vai acontecer quando um motor do tamanho de uma porra de um Studebaker atravessar o casco e for parar no meio da baía de Hillsborough?”, perguntou Sheldon.

“Mas não queremos destruir o porto inteiro”, lembrou-lhe Dion.

“É essa a beleza dessa bomba.” Sheldon deu uns tapinhas no embrulho. “Ela tem foco. Não vai explodir para tudo quanto é lado. O importante é não ficar na frente dela na hora agá.”

“Qual é a volatilidade, ahn, dela?”, indagou Joe.

Os olhos de Sheldon ficaram marejados. “Você pode bater nela com um martelo o dia inteiro, ela vai perdoá-lo.” Ele acariciou o embrulho de papel pardo como se fosse as costas de um gato. “Se você a jogar para cima, não precisa nem sair da frente quando ela cair no chão.”

Ele fez que sim com a cabeça várias vezes, com os lábios ainda se movendo, e Joe e Dion trocaram olhares. Se aquele cara fosse doido, estavam prestes a pôr uma bomba de sua fabricação no carro e atravessar com ela a baía de Tampa.

Sheldon levantou um dedo. “Mas tem um pequeno caveat.”

“Um pequeno o quê?”

“Um pequeno detalhe que vocês precisam saber.”

“Qual é?”

Ele lhes deu um sorriso de quem se desculpa. “Quem a acender precisa sair correndo.”

O trajeto de St. Petersburg até Ybor tinha quarenta quilômetros, e Joe contou cada metro do caminho. Cada buraco, cada tranco do carro. Cada balançar do chassi se transformava no som de sua morte imediata. Ele e Dion nem sequer mencionaram o medo, pois não precisaram. Este dominava seus olhos, dominava o carro, imprimia a seu suor um travo metálico. Passaram quase o tempo inteiro olhando para a frente, às vezes para a baía quando estavam atravessando a ponte Gandy e a faixa de litoral de ambos os lados se destacou muito branca contra a água azul imóvel. Pelicanos e garças saltavam do guarda-corpo e alçavam voo. Os pelicanos muitas vezes estacavam em pleno voo e despencavam do céu como se tivessem levado um tiro. Mergulhavam no mar parado e tornavam a emergir segurando no bico peixes que se contorciam, depois abriam o bico e o peixe, fosse qual fosse o tamanho, desaparecia.

Dion passou por cima de um buraco, depois de um sinalizador metálico na estrada, em seguida de outro buraco. Joe fechou os olhos.

O sol castigava o para-brisa e soprava fogo através do vidro.

Dion chegou ao outro lado da ponte e a estrada asfaltada cedeu lugar a um trecho de concha moída e cascalho; as duas pistas viraram uma só, e a calçada de repente se transformou em uma colcha de retalhos de inclinações e consistências variadas.

“Falando sério”, disse Dion, mas depois não disse mais nada.

Seguiram sacolejando por mais um quarteirão e então pararam por causa do tráfego, e Joe teve de resistir ao impulso de pular para fora do carro, abandonar Dion e fugir correndo de tudo aquilo. Quem, em sã consciência, transportaria uma bomba de carro de um lugar para outro? Quem?

Uma pessoa louca. Alguém que desejasse morrer. Alguém que achasse que a felicidade era uma mentira contada para manter a gente dócil. Mas Joe sabia o que era felicidade, já tivera essa experiência. E agora estava arriscando qualquer possibilidade de vir a sentir aquilo outra vez para transportar um explosivo com potência suficiente para arremessar um motor de trinta toneladas através de um casco revestido de aço.

Não sobraria nenhum pedaço dele para recolher. Nenhum carro, nenhuma roupa. Seus trinta dentes iriam se espalhar pela baía como moedas de um centavo atiradas dentro de uma fonte. Seria uma sorte se achassem algum ossinho para mandar enterrar no jazigo da família em Cedar Grove.

O último quilômetro e meio foi o pior. Eles saíram da ponte Gandy e foram descendo uma estrada de terra paralela a uma via férrea; o calor fizera a estrada descambar para a direita, e havia sulcos nos lugares mais impróprios possíveis. Pairava no ar um cheiro de mofo e de coisas que rastejavam e morriam sobre a lama quente, e ali ficavam até se fossilizar. Eles adentraram um trecho de mangue alto e chão coalhado de poças e súbitos buracos fundos, e depois de alguns minutos sacolejando por esse terreno chegaram ao casebre de Daniel Desouza, um dos fabricantes de estruturas de dissimulação mais confiáveis da organização.

Ele havia fabricado uma caixa de ferramentas com fundo falso para eles. Segundo as instruções de Joe, havia sujado e raspado a caixa até ela ficar com cheiro não apenas de graxa e pó, mas também de velhice. As ferramentas que pusera lá dentro, porém, eram de primeira linha e bem-cuidadas, algumas envoltas em oleados, e todas recentemente limpas e lubrificadas.

Quando estavam em pé junto à mesa da cozinha do barraco de um cômodo só, Daniel lhes mostrou o botão no fundo da caixa que abria o fundo falso. Sua esposa grávida passou ao redor deles com seu andar pesado, a caminho da latrina do lado de fora, e os dois filhos brincavam no chão com um par de bonecas que mal passavam de trapos costurados com a sutileza de um açougueiro. Joe reparou em um colchão no chão para as crianças e outro para os adultos, ambos sem lençol nem travesseiro. Um vira-lata entrava e saía do barraco, farejando, e moscas e mosquitos zumbiam por toda parte enquanto Daniel Desouza verificava pessoalmente o trabalho de Sheldon por pura curiosidade ou simples loucura, Joe não soube mais dizer, pois a essa altura já estava anestesiado, em pé esperando para ir ao encontro de seu Criador enquanto Desouza enfiava uma chave de fenda dentro da bomba e sua mulher tornava a entrar e dava um tapa no cachorro. As crianças começaram a brigar por causa de uma das bonecas de pano, dando gritos agudos até Desouza lançar um olhar para a esposa. Esta deixou o cão em paz e começou a encher as crianças de sopapos, dando-lhes tapas no rosto e no pescoço.

As crianças começaram a chorar de choque e indignação.

“Rapazes, isto que vocês têm aqui é um belo artefato”, disse Desouza. “Vai fazer um estrago e tanto.”

O mais jovem dos filhos, um menino de seus cinco anos, parou de chorar. Estava chorando um choro de surpresa ultrajada mas, quando parou, foi como se tivesse apagado um fósforo no âmago de si mesmo, e seu rosto perdeu qualquer expressão. Ele pegou uma das chaves inglesas do pai do chão e acertou o cachorro na lateral da cabeça. O cão rosnou e pareceu prestes a atacar o menino, mas então mudou de ideia e saiu depressa do barraco.

“Um dia vou matar esse cachorro ou esse menino de porrada”, disse Desouza sem tirar os olhos da caixa de ferramentas. “Um dos dois.”

Joe encontrou Manny Bustamente, o homem que iria pôr a bomba no navio, na biblioteca do Círculo Cubano, onde todos menos Joe fumavam charutos, inclusive Graciela. Nas ruas era a mesma coisa: crianças de nove e dez anos de idade zanzavam com charutos do tamanho das próprias pernas na boca. Sempre que Joe acendia um de seus mirrados Murads, sentia que a cidade inteira estava rindo dele, mas charutos lhe davam dor de cabeça. Nessa noite, porém, ao correr os olhos pela biblioteca e ver o lençol marrom de fumaça que pairava acima de suas cabeças, ele imaginou que teria de se acostumar com a dor de cabeça.

Manny Bustamente tinha sido engenheiro civil em Havana. Infelizmente, seu filho era do Grêmio Estudantil da Universidade de Havana, que havia se manifestado contra o regime de Machado. O presidente fechara a universidade e abolira o grêmio. Um dia, vários homens uniformizados foram à casa de Manny Bustamente alguns minutos depois de o sol nascer. Mandaram seu filho se ajoelhar na cozinha e lhe deram um tiro na cara, depois atiraram na mulher de Manny quando ela os chamou de animais. Manny foi preso. Quando foi liberado, sugeriram-lhe que sair do país seria uma ideia excelente.

Manny contou isso a Joe na biblioteca às dez horas daquela noite. Joe supôs que fosse uma forma de lhe assegurar da devoção que tinha à causa. O que Joe questionava não era sua devoção; era sua velocidade. Manny tinha um metro e cinquenta e oito de altura e era roliço como uma panela de feijão. Ficava ofegante só de subir um lance de escada.

Estavam examinando a planta do navio. Manny já tinha mexido no motor logo depois de este atracar no porto.

Dion perguntou por que a Marinha não tinha seus próprios engenheiros.

“Tem, sim”, disse Manny. “Mas, quando eles conseguem um... especialista para mexer nesses motores velhos, preferem. Esse navio tem vinte e cinco anos de idade. Foi construído para ser um...” Ele estalou os dedos e falou rapidamente com Graciela em espanhol.

“Cruzeiro de luxo”, disse ela aos presentes.

“Isso”, falou Manny. Tornou a se dirigir a ela em um espanhol rápido e falou um parágrafo inteiro. Quando terminou, ela lhes explicou que o navio fora vendido para a Marinha durante a Grande Guerra, e depois transformado em navio-hospital. Recentemente, fora reconvertido em navio de transporte com uma tripulação de trezentos homens.

“Onde fica a casa de máquinas?”, quis saber Joe.

Manny falou com Graciela novamente, e ela traduziu. Na realidade, isso deu muito mais agilidade à conversa.

“No fundo do navio, na popa.”

“Se você for chamado ao navio no meio da noite, quem vai recebê-lo?”, perguntou Joe a Manny.

Ele começou a falar com Joe, mas então se virou para Graciela e lhe fez uma pergunta.

“A polícia?”, indagou ela, franzindo o cenho.

Ele fez que não com a cabeça e tornou a falar com ela.

“Ah, veo, veo, sí”, disse ela. Virou-se para Joe. “Ele quer dizer a polícia marítima.”

“A Guarda Costeira”, corrigiu Joe, olhando na direção de Dion. “Está a par disso?”

Dion assentiu. “A par? Estou quilômetros na sua frente.”

“Então você passa pela Guarda Costeira e entra na sala de máquinas”, disse Joe a Manny. “Onde fica o beliche mais próximo?”

“No convés logo acima, na outra ponta do navio”, respondeu Manny.

“Então os únicos tripulantes perto de você são os dois engenheiros?”

“Sim.”

“E como vai fazê-los sair de lá?”

De seu lugar junto à janela, Esteban falou: “Fomos informados por uma fonte fidedigna de que o engenheiro-chefe é um pinguço. Mesmo se ele for à casa de máquinas para verificar a avaliação do nosso homem, não vai ficar muito tempo”.

“Mas e se ficar?”, indagou Dion.

Esteban deu de ombros. “Eles vão improvisar.”

Joe fez que não com a cabeça. “Improviso não é conosco.”

Manny surpreendeu a todos levando a mão até dentro da bota para pescar um revólver de cano curto de um tiro só com cabo de madrepérola. “Se o cara não for embora, eu cuido dele.”

Joe revirou os olhos para Dion, que estava sentado mais perto de Manny.

“Me dê isto aqui”, disse Dion, arrancando o revólver da mão de Manny.

“Já atirou em alguém?”, indagou Joe. “Já matou um homem?”

Manny tornou a se recostar na cadeira. “Não.”

“Ótimo. Porque não é hoje que vai começar.”

Dion lançou a arma para Joe. Este a pegou e suspendeu diante de Manny. “Estou pouco ligando para quem você matar”, falou, e pensou se era mesmo verdade, “mas se eles o revistassem teriam encontrado isto aqui. Aí teriam examinado bem mais de perto a sua caixa de ferramentas e encontrado a bomba. Sabe qual é a sua principal tarefa hoje à noite, Manny? Não fazer cagada. Acha que consegue dar conta disso?”

“Acho”, respondeu Manny. “Acho, sim.”

“Se o engenheiro-chefe ficar na casa de máquinas, você conserta o motor e vai embora.”

Esteban se afastou da janela. “Não!”

“Sim”, disse Joe. “Sim. Trata-se de um ato de alta traição contra o governo dos Estados Unidos. Vocês entendem o que isso significa? Não estou armando esse ataque só para ser pego e encarcerado na penitenciária federal militar de Leavenworth. Se alguma coisa sair errado, Manny, você desce da porra do navio e nós damos outro jeito. Jamais... Manny, olhe para mim... jamais improvise. ¿Comprende?

Depois de algum tempo, Manny acabou aquiescendo.

Joe apontou para a bomba na bolsa de lona aos seus pés. “O pavio deste troço é curto, bem curto.”

“Estou sabendo.” Manny piscou os olhos para remover uma gota de suor que pingou de sua sobrancelha, depois enxugou o cenho com as costas da mão. “Estou cem por cento comprometido com a operação.”

Que ótimo, pensou Joe: além do excesso de peso, ele também sua demais.

“Folgo em saber”, disse Joe, cruzando olhares com Graciela por um instante e vendo nos olhos dela a mesma preocupação que devia transparecer nos seus. “Mas, Manny, você tem que estar comprometido para cumprir o combinado e sair vivo daquele navio. Não estou dizendo isso porque sou um cara legal e me importo com você. Eu não sou e não me importo. Mas, se você for morto e identificado como cidadão de Cuba, o plano vai desmoronar na hora.”

Manny se inclinou para a frente, e o grosso charuto entre seus dedos parecia o cabo de um martelo. “Quero o meu país livre, quero Machado morto e quero os Estados Unidos fora de Cuba. Eu me casei de novo, sr. Coughlin. Tenho três niños, todos com menos de seis anos de idade. Tenho uma esposa que amo, Deus me perdoe, mais do que minha esposa que morreu. Estou velho o suficiente para preferir viver como um homem fraco do que morrer corajoso.”

Joe lhe exibiu um sorriso grato. “Então você é o cara que eu quero que plante essa bomba.”

O USS Mercy pesava dez mil toneladas. Era um navio de cento e vinte e dois metros de comprimento por quinze de largura, com proa vertical, duas chaminés e dois mastros. O mastro principal tinha um posto de observação que, aos olhos de Joe, parecia pertencer a um navio de outra época, quando piratas infestavam o alto-mar. Duas cruzes apagadas pintadas nas chaminés confirmavam seu histórico de navio-hospital, assim como a pintura branca. O navio parecia usado, cheio de rangidos, mas sua cor branca cintilava em contraste com a água negra e o céu noturno.

Eles estavam no parapeito acima de um silo de cereais no final da McKay Street — Joe, Dion, Graciela e Esteban, observando o navio atracado no Píer Sete. Uma dezena de silos se aglomerava ali, todos com vinte metros de altura, e os últimos cereais tinham sido armazenados naquela mesma tarde por um cargueiro Cargill. O vigia da noite fora subornado e instruído a dizer à polícia no dia seguinte que tinha sido amarrado por espanhóis, e então Dion o apagou com dois golpes de seu saquinho de chumbo para garantir que a história parecesse verossímil.

Graciela perguntou a Joe o que ele achava. “Sobre o quê?”

“Sobre as nossas chances.” O charuto de Graciela era comprido e fino. Ela soprava círculos de fumaça por cima do guarda-corpo da passarela e os observava flutuar por cima d’água.

“Sinceramente?”, respondeu Joe. “De poucas a nenhuma.”

“Mas o plano é seu.”

“Foi o melhor em que consegui pensar.”

“Parece bastante bom.”

“Isso é um elogio?”

Ela fez que não com a cabeça, embora ele tenha pensado ver uma leve contração de seus lábios. “Uma afirmação. Se o senhor tocasse bem violão, eu lhe diria isso, mas continuaria sem gostar do senhor.”

“Porque eu a comi com os olhos?”

“Porque o senhor é arrogante.”

“Ah.”

“Como todos os americanos.”

“E os cubanos todos são o quê?”

“Orgulhosos.”

Ele sorriu. “Segundo os jornais que ando lendo, vocês são também preguiçosos, têm o pavio curto, não sabem poupar dinheiro e são imaturos.”

“O senhor acha que isso é verdade?”

“Não”, respondeu ele. “Acho que suposições relativas a um país ou povo como um todo em geral são burras pra caralho.”

Ela deu um trago no charuto e passou alguns instantes olhando para ele. Por fim, virou-se outra vez para o navio.

As luzes do porto davam à borda inferior do céu um tom de vermelho claro e esbranquiçado. Para lá do canal, a cidade dormia em meio à névoa. Bem longe, na linha do horizonte, finos raios riscavam a pele do mundo com veias brancas serrilhadas. Sua luz tênue e súbita revelava nuvens inchadas, escuras feito ameixas, aglomeradas ao longe qual um exército inimigo. Em determinado momento, um pequeno avião passou voando bem acima deles, quatro luzinhas no céu e um pequeno motor a cem metros de altura, possivelmente por algum motivo legítimo, embora fosse difícil imaginar qual pudesse ser esse motivo às três da manhã. Sem falar que, no pouco tempo desde que havia chegado a Tampa, Joe vira muito pouca atividade que pudesse descrever como legítima.

“O senhor estava falando sério quando disse a Manny mais cedo que não ligava se ele vivesse ou morresse?”

Podiam vê-lo agora, caminhando pelo píer em direção ao navio, com a caixa de ferramentas na mão.

Joe apoiou os cotovelos no guarda-corpo. “Quase isso.”

“Como é que alguém se torna tão insensível?”

“Requer menos prática do que a senhora supõe”, respondeu Joe.

Manny parou diante da passarela do navio, onde dois agentes da Guarda Costeira o receberam. Levantou os braços enquanto um dos agentes o revistava e o outro abria a caixa de ferramentas. Depois de vasculhar o compartimento de cima, o soldado o removeu e pousou no chão do píer.

“Se tudo correr bem, o senhor vai dominar a distribuição de rum em Tampa”, comentou Graciela.

“Na verdade, em metade da Flórida”, corrigiu Joe.

“Vai ficar poderoso.”

“Imagino que sim.”

“A sua arrogância vai chegar ao auge.”

“Bem, a esperança é a última que morre”, disse Joe.

O guarda terminou de revistar Manny e ele abaixou as mãos, mas então foi se juntar ao colega e os dois se puseram a examinar algo na caixa de ferramentas e começaram a confabular, de cabeça baixa, um deles com a mão na coronha do 45.

Joe olhou para adiante no parapeito, em direção a Dion e Esteban. Ambos estavam congelados, pescoços tesos, olhos grudados na caixa de ferramentas.

Os agentes chamaram Manny para mais perto. Manny caminhou até entre os dois e baixou os olhos por sua vez. Um dos agentes apontou, e Manny pôs a mão dentro da caixa e voltou trazendo duas garrafas de meio litro de rum.

“Merda”, disse Graciela. “Quem disse a ele para subornar os agentes?”

“Eu não fui”, respondeu Esteban.

“Ele está improvisando”, disse Joe. “Porra, que maravilha. Incrível.”

Dion deu um tapa no parapeito.

“Eu não disse a ele para fazer isso”, falou Esteban.

“E eu disse a ele especificamente para não fazer”, disse Joe. “‘Não improvise’, falei. Vocês estavam com...”

“Eles estão aceitando”, disse Graciela.

Joe estreitou os olhos e viu cada um dos agentes guardar uma garrafinha no uniforme e dar um passo de lado.

Manny fechou a caixa de ferramentas e subiu a passarela.

Por alguns instantes, ficaram todos muito calados no telhado do silo.

Então Dion falou: “Acho que meu coração acabou de sair pela boca”.

“Está dando certo”, disse Graciela.

“Ele passou”, disse Joe. “Mas ainda tem que fazer o serviço e sair de novo.” Conferiu a hora no relógio do pai: eram três da manhã em ponto.

Olhou na direção de Dion, que leu seu pensamento. “Acho que eles devem ter começado a atacar a boate há uns dez minutos.”

Ficaram aguardando. O parapeito de metal ainda estava quente depois de um dia inteiro torrando sob o sol de agosto.

Cinco minutos depois, um dos agentes da Guarda Costeira caminhou até um telefone que começara a tocar no convés. Instantes depois, tornou a descer correndo a passarela e deu um tapa no braço do colega. Os agentes correram alguns metros pelo píer até um carro patrulha. Saíram do píer e dobraram à esquerda em direção a Ybor e à boate da Décima Sétima Avenida em que os cúmplices de Dion estavam naquele exato instante cobrindo uns vinte marinheiros de porrada.

“Até agora...”, Dion sorriu para Joe. “Reconheça.”

“Reconhecer o quê?”

“Que está tudo funcionando feito um reloginho.”

“Até agora”, repetiu Joe.

Ao seu lado, Graciela tragou o charuto.

Puderam escutar o barulho: o eco de um baque surpreendentemente abafado. Não pareceu grande coisa, mas o parapeito balançou por alguns instantes, e todos estenderam os braços como se estivessem montados na mesma bicicleta. O USS Mercy estremeceu. A água ao seu redor se agitou, e pequenas ondas quebraram no píer. Uma fumaça espessa e cinza feito aço pôs-se a subir de um rombo no casco do tamanho de um piano.

A fumaça ficou mais densa, mais escura, e depois de alguns instantes a observando Joe pôde ver uma bola amarela surgir por trás dela, pulsante como um coração batendo. Seguiu olhando até ver labaredas vermelhas misturadas ao amarelo, mas então ambas as cores desapareceram atrás das nuvens de fumaça que tinha agora o mesmo negro de piche fresco. Ela encheu o canal e escondeu a cidade mais adiante; escondeu o próprio céu.

Dion deu uma risada; Joe cruzou olhares com ele e Dion continuou a rir, balançando a cabeça e aquiescendo para Joe.

Joe sabia o que significava aquele meneio de cabeça — era por isso que eles haviam se tornado fora da lei. Para viver momentos que os vendedores de seguros do mundo, os caminhoneiros, advogados, caixas de banco, carpinteiros e corretores de imóveis jamais iriam experimentar. Momentos em um mundo sem rede de segurança — ninguém para amparar sua queda, ninguém para acolhê-lo. Joe olhou para Dion e recordou o que sentira depois da primeira vez em que haviam derrubado aquela banca de jornal em Bowdoin Street, aos treze anos de idade: Provavelmente vamos morrer jovens.

Mas quantos homens, ao pisar no país noturno de sua hora derradeira e cruzar campos escuros em direção à margem enevoada de fosse qual fosse o mundo que existisse além deste, quantos homens podiam olhar para trás pela última vez e dizer: Eu um dia sabotei um navio de transporte de dez toneladas?

Joe tornou a cruzar olhares com Dion e soltou uma risadinha.

“Ele não tornou a sair.” Graciela estava em pé ao seu lado, olhando para o navio, agora totalmente ocultado pela fumaça.

Joe não disse nada.

“Manny”, esclareceu ela, embora não precisasse.

Joe assentiu.

“Ele morreu?”

“Não sei”, respondeu Joe, mas o que pensou foi: com certeza assim espero.