Os Filhos da Noite
Capítulo 4
UM ROMBO NO CENTRO DAS COISAS
De volta à cidade, desovou o carro roubado em Lenox e o substituiu por um Dodge 126 que encontrou estacionado em Pleasant Street, Dorchester. Foi com ele até a K Street, no sul de Boston, e ficou sentado na mesma rua da casa em que fora criado para considerar suas alternativas. Não eram muitas. Quando a noite caísse, provavelmente estariam esgotadas.
A notícia saiu em todas as edições vespertinas:
TRÊS POLICIAIS DE PITTSFIELD MORTOS
(The Boston Globe)
TRÊS AGENTES DE POLÍCIA DE MASSACHUSETTS BRUTALMENTE ASSASSINADOS
(The Evening Standard)
MASSACRE DE POLICIAIS NO OESTE DE MASSACHUSETTS
(The American)
Os dois homens que Joe havia encontrado no lago foram identificados como Donald Belinski e Virgil Orten. Ambos haviam deixado esposas. Orten deixara também dois filhos. Após estudar suas fotos por algum tempo, Joe concluiu que Orten era o que estava ao volante e Belinski, o que havia apontado o dedo para ele da água.
Sabia que o verdadeiro motivo pelo qual eles estavam mortos era que um de seus companheiros da lei fora burro o suficiente para disparar a porra de uma Tommy de um carro sacolejando por uma estrada irregular. Isso ele sabia. Sabia também que era o cupim de Hickey, e que Donald e Virgil jamais teriam estado naquele descampado caso ele e os irmãos Bartolo não tivessem ido à sua pequena cidade assaltar um de seus pequenos bancos.
O terceiro policial morto, Jacob Zobe, era um agente da patrulha do estado que havia parado um carro no limite da floresta estadual de October Mountain. Levara um tiro na barriga que o havia feito se curvar, e um segundo no alto da cabeça que pusera fim à sua vida. Ao fugir de carro, o assassino, ou assassinos, passara por cima de seu tornozelo, partindo o osso ao meio.
Os tiros pareciam obra de Dion. Era assim que ele brigava: primeiro socava o adversário na barriga para fazê-lo dobrar o corpo, depois golpeava a cabeça até derrubá-lo de vez. Até onde Joe sabia, Dion nunca matara ninguém antes, mas já chegara perto algumas vezes e odiava policiais.
Os investigadores ainda não haviam identificado nenhum suspeito, pelo menos não para o público. Dois deles eram descritos como “corpulentos” e “de ascendência e aspecto estrangeiros”, enquanto o terceiro — possivelmente também estrangeiro — havia levado um tiro no rosto. Joe examinou o próprio reflexo no espelho retrovisor. Tecnicamente era verdade, pensou: o lóbulo da orelha fica preso à cabeça. Ou melhor, no seu caso, ficava.
Embora ninguém ainda soubesse os seus nomes, um artista do Departamento de Polícia de Pittsfield havia desenhado seus retratos falados. Assim, enquanto a maioria dos jornais publicou fotos dos três policiais mortos na metade inferior da primeira página, na metade superior foram publicados desenhos de Dion, Paolo e Joe. Dion e Paolo estavam mais papudos do que na realidade, e Joe teria de perguntar a Emma se o seu rosto era mesmo tão magro e tão emaciado assim ao vivo, mas, tirando isso, a semelhança era notável.
Uma busca havia sido lançada em quatro estados. A polícia federal fora consultada, e estavam dizendo que iria participar da caçada.
A essa altura, seu pai já devia ter visto os jornais. Seu pai, Thomas Coughlin, subcomandante do Departamento de Polícia de Boston.
Seu filho, que havia participado da morte de três policiais.
Desde a morte da mãe de Joe, dois anos antes, seu pai trabalhava até cair de exaustão seis dias por semana. Com o próprio filho sendo procurado, mandaria pôr uma cama de campanha no escritório, e provavelmente só voltaria para casa depois de solucionado o caso.
A residência da família era uma casa geminada de quatro andares. A estrutura impressionava: uma fachada curva feita de tijolos vermelhos, com todos os cômodos centrais dando para a rua e equipados com bancos também curvos nas janelas. Uma casa de escadarias de mogno, portas de correr e piso de tábuas corridas, com seis dormitórios, dois banheiros — ambos com água encanada — e uma sala de jantar digna do salão nobre de um castelo inglês.
Quando uma mulher certa vez perguntou a Joe como ele podia vir de um lar tão esplêndido e de uma família tão boa e mesmo assim ter virado gângster, sua resposta teve duas partes: (a) ele não era gângster, era um fora da lei; (b) vinha de uma casa esplêndida, não de um lar esplêndido.
Joe entrou na casa do pai. Do telefone da cozinha, ligou para a residência dos Gould, mas ninguém atendeu. A bolsa que levara consigo para dentro da casa continha sessenta e dois mil dólares. Mesmo dividida por três, a quantia bastava para qualquer homem razoavelmente frugal viver dez anos, talvez quinze. Joe não era um homem frugal, de modo que calculou que fosse durar quatro anos normais para ele. Se estivesse fugindo, porém, o dinheiro duraria um ano e meio. Não mais do que isso. Antes de terminado esse período, ele teria conseguido pensar em alguma coisa. Era esse o seu talento: raciocinar de improviso.
Não resta dúvida, disse uma voz que soou estranhamente parecida com a de seu irmão mais velho, de que até agora isso funcionou muito bem.
Joe ligou para o bar clandestino de tio Bobo, mas obteve o mesmo resultado da casa dos Gould. Então se lembrou que Emma deveria comparecer à festa de inauguração no Hotel Statler naquela tarde, às seis. Tirou o relógio do bolso do colete: faltavam dez para as quatro.
Duas horas para matar em uma cidade que, a essa altura, estava querendo matar a ele.
Era tempo demais para ficar exposto. Nesse intervalo, já teriam descoberto seu nome, seu endereço, e conseguido uma lista de comparsas conhecidos e locais por ele frequentados. Bloqueariam todas as estações de trem e terminais de ônibus, mesmo os rurais, e montariam todas as barreiras possíveis nas estradas.
Mas isso era uma faca de dois gumes. Os bloqueios rodoviários impediriam a entrada na cidade partindo do princípio de que ele ainda estava fora dela. Ninguém nunca iria imaginar que estivesse lá dentro, planejando tornar a sair sem que ninguém percebesse. E nunca iriam imaginar isso porque só o criminoso mais burro do mundo correria o risco de voltar para a única cidade que já havia chamado de lar após o maior crime cometido na região em cinco ou seis anos.
O que fazia dele o criminoso mais burro do mundo.
Ou então o mais inteligente. Porque decerto o único lugar em que ninguém estava procurando agora era aquele bem debaixo de seu nariz.
Ou pelo menos foi isso que ele disse a si mesmo.
O que ainda poderia fazer — o que deveria ter feito em Pittsfield — era sumir. Não dali a duas horas. Agora. Não depois de esperar por uma mulher que talvez decidisse não acompanhá-lo nas atuais circunstâncias. Simplesmente ir embora com a roupa do corpo e uma bolsa de dinheiro na mão. As estradas estavam todas sendo vigiadas, sim. Os trens e ônibus também. Além disso, mesmo que conseguisse chegar às terras agrícolas a sul e oeste da cidade e roubar um cavalo, de nada adiantaria, pois não sabia montar.
Restava então o mar.
Ele precisava de um barco, mas não uma embarcação de passeio nem uma obviamente dedicada ao contrabando de rum, como um esquife ou um garvey de fundo chato. Precisava de um barco de trabalhador, com cunhos enferrujados, velame puído e o convés ocupado por uma imensa pilha de gaiolas de lagosta amassadas. Que estivesse atracado em Hull, Green Harbor ou Gloucester. Se partisse às sete, provavelmente o pescador só daria pela falta do barco às três ou quatro da manhã.
Ou seja, ele agora estava roubando de trabalhadores.
Só que o barco estaria registrado. Teria de estar, caso contrário ele procuraria outro. Pegaria o endereço no registro e mandaria dinheiro suficiente para o dono comprar dois outros barcos, ou então largar de uma vez por todas a porra da pesca à lagosta.
Ocorreu-lhe que pensar assim talvez explicasse por que, mesmo depois de todos os trabalhos que fizera, ele raramente tinha muito dinheiro no bolso. Às vezes parecia que só roubava dinheiro de um lugar para entregá-lo em outro. Mas também roubava porque era divertido, porque era bom nisso, e porque roubar conduzia a outras coisas nas quais ele também era bom, como a venda ilegal de bebidas e o contrabando de rum, motivo pelo qual, aliás, entendia um pouco de barcos. No último mês de junho, conduzira um barco pelo lago Huron de uma aldeia de pescadores sem nome em Ontario até Bay City, em Michigan, outro de Jacksonville até Baltimore em outubro, e no inverno anterior mesmo transportara caixotes de rum recém-destilado de Sarasota até Nova Orleans pelo golfo do México, onde torrara todo seu lucro em um único fim de semana no Bairro Francês em pecados cuja lembrança até hoje se resumia a fragmentos.
Assim sendo, sabia pilotar a maioria das embarcações, ou seja, podia roubar a maioria das embarcações. Poderia sair por aquela porta e estar no litoral sul de Massachusetts dali a meia hora. Levaria um pouco mais para chegar ao litoral norte, mas, nessa época do ano, a escolha de barcos decerto seria maior lá. Se partisse de Gloucester ou Rockport, poderia chegar a Nova Scotia em três ou quatro dias. Então mandaria buscar Emma depois de um ou dois meses.
Tempo que lhe pareceu um pouco longo demais.
Mas ela iria esperar por ele. Ela o amava. Nunca tinha dito isso, era bem verdade, mas ele sentia que queria dizer. Ela o amava. Ele a amava.
Ela iria esperar.
Talvez devesse simplesmente passar no hotel. Entrar lá rapidinho, só para ver se a encontrava. Se desaparecessem os dois, seria impossível encontrá-los. Se ele desaparecesse e depois mandasse buscá-la, porém, a essa altura a polícia estadual ou federal já teria descoberto quem ela era e o que Emma significava para ele, e ela apareceria em Halifax acompanhada pelas autoridades. Ele abriria a porta para recebê-la, e ambos seriam abatidos por uma chuva de balas.
Ela não iria esperar.
Ou ele partia com ela agora, ou ficava sem ela para sempre.
Olhou-se no vidro do armário de louça da mãe e se lembrou do motivo pelo qual estava ali, para começo de conversa — aonde quer que decidisse ir, não chegaria muito longe vestido daquele jeito. O ombro esquerdo do sobretudo estava negro de sangue, os sapatos e barras das calças duros de lama, a camisa rasgada por causa do mato e salpicada de sangue.
Na cozinha, abriu a caixa de pão e tirou lá de dentro uma garrafa de rum A. Finke’s Widow. Ou Finke’s, como quase todo mundo dizia. Tirou os sapatos e, com eles e o rum na mão, subiu a escada dos fundos até o quarto de dormir do pai. No banheiro, lavou o máximo de sangue da orelha que conseguiu, tomando cuidado para não tocar o centro da casquinha. Quando teve certeza de que o ferimento não tornaria a sangrar, deu alguns passos para trás e o avaliou em comparação com a outra orelha e com o resto do próprio rosto. No quesito deformidades, aquilo não iria chamar a atenção de ninguém depois de a casquinha cair. Mesmo agora, a maior parte da casquinha preta estava presa à parte inferior da orelha; perceptível, sem dúvida, mas não do mesmo jeito que um olho roxo ou um nariz quebrado.
Tomou alguns goles do Finke’s enquanto escolhia um terno no armário do pai. Havia quinze ao todo, uns treze a mais do que permitia o salário de um policial. O mesmo valia para os sapatos, camisas, gravatas e chapéus. Joe escolheu um terno marrom-avermelhado de listras, com abotoamento simples, da marca Hart Schaffner & Marx, e uma camisa branca da Arrow. A gravata de seda era preta com listras vermelhas diagonais a cada dez centímetros mais ou menos, os sapatos eram da Nettleton, pretos, e o chapéu, um feltro da Knapp macio como o peito de uma pomba. Joe despiu as próprias roupas e as dobrou cuidadosamente no chão. Pôs a pistola e os sapatos por cima, vestiu as roupas do pai, depois tornou a pôr a pistola no cós da calça, na base das costas.
A julgar pelo comprimento da calça, ele e o pai no final das contas não tinham exatamente a mesma altura. Seu pai era um pouco mais alto. E o tamanho do chapéu era um pouco menor que o de Joe. Ele resolveu o problema do chapéu posicionando-o um pouco para trás do cocuruto, para que parecesse elegante. Quanto ao comprimento da calça, dobrou as bainhas e usou alfinetes de segurança da mesa de costura da falecida mãe para prendê-las no lugar.
Levando as roupas usadas e a garrafa de rum de boa qualidade, desceu até o escritório do pai. Mesmo agora, não podia negar que cruzar o limiar daquele cômodo sem o pai presente parecia um sacrilégio. Ficou parado na soleira e escutou a casa — o tique-taque dos radiadores de ferro fundido, o arrastar dos martelos da campainha do relógio de pé no hall de entrada que se preparava para bater as quatro horas. Mesmo tendo certeza de que a casa estava vazia, sentiu-se observado.
Quando os martelos de fato bateram na campainha, Joe entrou no escritório.
A escrivaninha ficava em frente a um janelão alto, com vista para a rua. Era uma mesa com dois gaveteiros, daquelas feitas para serem usadas por duas pessoas sentadas frente a frente, vitoriana e rebuscada, fabricada em Dublin em meados do século anterior. O tipo de escrivaninha com o qual nenhum filho de meeiro do lado mais escroto de Clonakilty jamais poderia ter imaginado um dia enfeitar sua casa. O mesmo se podia dizer sobre o aparador de feitio semelhante posicionado abaixo da janela, sobre o tapete oriental, sobre as grossas cortinas cor de âmbar, os decantadores Waterford, as estantes de carvalho e os livros encadernados em couro que seu pai nunca se dava ao trabalho de ler, os varões de bronze das cortinas, o sofá e poltronas de couro antigos e o umidor de nogueira.
Joe abriu um dos armários abaixo das estantes e se agachou de frente para o cofre que encontrou ali. Fez a combinação — 3-12-10, os meses de nascimento dele e dos dois irmãos — e abriu o cofre. Lá dentro havia parte das joias da mãe, quinhentos dólares em dinheiro vivo, a escritura da casa, as certidões de nascimento dos pais, uma pilha de papéis que Joe não se deu ao trabalho de examinar, e pouco mais de mil dólares em títulos do Tesouro nacional. Joe retirou todos esses objetos, que arrumou no chão junto à porta do armário. No fundo do cofre havia uma parede feita do mesmo aço grosso que o restante. Joe a removeu usando os polegares para apertar com força os cantos superiores e a depositou no chão do primeiro cofre enquanto encarava o mostrador do segundo.
A segunda combinação fora bem mais difícil de descobrir. Havia tentado todos os aniversários da família sem chegar a lugar algum. Havia tentado os números das delegacias em que o pai trabalhara ao longo dos anos. Nada também. Ao se lembrar que o pai às vezes dizia que sorte, azar e morte sempre vinham em trincas, tentara todas as combinações do número três. Nada. Começara a tentar aos catorze anos. Um belo dia, quando estava com dezessete, havia reparado em uma correspondência deixada pelo pai em cima da escrivaninha — uma carta para um amigo que se tornara comandante do corpo de bombeiros em Lewiston, Maine. A carta fora datilografada na Underwood do pai e estava repleta de mentiras que davam voltas e mais voltas pelo papel como uma fita — “Ellen e eu somos abençoados, continuamos apaixonados como no dia em que nos conhecemos...” “Aiden se recuperou bastante bem dos sinistros acontecimentos de setembro de 19...” “Connor está cada vez melhor de sua doença...” e “Parece que Joseph vai entrar para Boston College no outono. Está falando em trabalhar no mercado de ações...” Ao final de toda essa baboseira, seu pai havia assinado Seu amigo, txc. Era assim que assinava tudo. Nunca escrevia o nome completo, como se fazer isso fosse comprometê-lo.
TXC.
Thomas Xavier Coughlin.
TXC.
20-24-3.
Joe girou o mostrador até obter esses números, e o segundo cofre se abriu com um estalo agudo das dobradiças.
O espaço tinha cerca de meio metro de profundidade. Três quartos dele estavam cheios de dinheiro. Muitos tijolos de dinheiro, bem presos por elásticos vermelhos. Algumas notas tinham entrado no cofre antes mesmo de Joe nascer, e outras deviam ter sido postas ali na semana anterior. Uma vida inteira de subornos, propinas e vantagens ilícitas. Seu pai — um pilar da comunidade da Cidade na Colina, da Atenas da América, do Centro do Universo — era mais criminoso do que Joe jamais poderia almejar ser. Isso porque Joe nunca aprendera a mostrar mais de um rosto para o mundo, enquanto seu pai tinha tantos rostos à disposição que a questão era saber qual era o original e quais as imitações.
Joe sabia que, se limpasse o cofre agora, teria o suficiente para passar dez anos foragido. Ou então, se conseguisse chegar a um lugar longe o suficiente para que parassem de procurá-lo, poderia pagar para entrar no refino de açúcar cubano ou na destilação do melaço, virar um rei pirata dali a três anos, e passar o resto de seus dias sem nunca mais se preocupar com um teto ou com uma refeição quente.
Mas ele não queria o dinheiro do pai. Havia roubado suas roupas porque a ideia de sair da cidade vestido como o velho filho da puta lhe agradava, mas preferiria quebrar as próprias mãos a usá-las para gastar o dinheiro do pai.
Pôs as roupas cuidadosamente dobradas e os sapatos enlameados por cima do dinheiro sujo do pai. Pensou em deixar um bilhete, mas não conseguiu pensar em mais nada que quisesse dizer, de modo que fechou a porta e girou o mostrador. Recolocou no lugar a parede falsa do primeiro cofre e o trancou também.
Percorreu o escritório por alguns instantes, observando-o pela última vez. Tentar encontrar Emma durante um evento no qual estaria presente a maioria dos figurões da cidade, em que os participantes chegariam de limusine e só quem tivesse convite poderia entrar, seria o cúmulo da insanidade. No frescor do escritório do pai, talvez um pouco do pragmatismo do velho, por mais implacável que fosse, finalmente tenha surtido efeito em seu filho. Joe precisava usar o que os deuses lhe haviam oferecido — uma rota de fuga da mesma cidade na qual esperavam que entrasse. O tempo, contudo, não estava a seu favor. Precisava sair por aquela porta, entrar naquele Dodge roubado e seguir rumo ao norte como se a própria estrada estivesse pegando fogo.
Olhou pela janela para a K Street no entardecer úmido de primavera e lembrou a si mesmo que ela o amava e que iria esperar.
* * *
Na rua, sentado dentro do Dodge, ficou observando a casa em que nascera, a casa que havia moldado o homem que agora era. Pelos padrões dos irlandeses de Boston, fora criado em berço esplêndido. Nunca fora dormir com fome, nunca sentira o contato da rua através das solas dos sapatos. Recebera instrução, primeiro das freiras, depois dos jesuítas, até largar a escola no penúltimo ano. Em comparação com a maioria das pessoas que encontrava em sua atividade profissional, tivera uma criação decididamente privilegiada.
Havia porém um rombo no centro dessa criação, uma grande distância entre Joe e os pais que refletia a distância entre sua mãe e seu pai e entre sua mãe e o mundo em geral. Antes de ele nascer, os pais haviam travado uma guerra, guerra esta concluída com uma paz tão frágil que reconhecer sua existência a faria em pedaços, de modo que ninguém jamais tocava no assunto. Mas o campo de batalha entre os dois continuara a existir; ela se sentava de um lado, ele de outro. E Joe ficava no meio, entre as trincheiras, no chão de terra batida calcinado. O rombo no centro de sua casa era um rombo no centro de seus pais, e um dia esse rombo havia encontrado o centro de Joe. Houve um tempo, na realidade muitos anos inteiros de sua infância, em que ele tivera esperança de que tudo pudesse mudar. No entanto, não conseguia mais recordar por que se sentira assim. As coisas nunca eram como deveriam ser, elas eram o que eram: nisso consistia a simples verdade, verdade que não mudava só porque a pessoa assim o desejava.
Foi de carro até o terminal rodoviário da Viação Costa Leste, na St. James Avenue. Era um prédio baixo de tijolos amarelos cercado por outros bem mais altos, e Joe arriscou que qualquer agente da lei à sua procura deveria estar posicionado nos terminais rodoviários do lado norte do prédio, não perto dos guarda-volumes no canto sudoeste.
Entrou pela porta de saída que ficava desse lado e misturou-se à multidão do horário de pico. Deixou a multidão agir a seu favor, sem nunca contrariar o fluxo, sem nunca tentar passar na frente de ninguém. Pela primeira vez na vida, não teve do que reclamar em relação à baixa estatura. Assim que chegou ao ponto mais compacto da multidão, sua cabeça se tornou apenas mais uma a sacudir junto a tantas outras. Localizou dois policiais junto às portas do terminal e um no meio das pessoas, a uns vinte metros de onde estava.
Saiu do meio do mar de gente e adentrou a tranquilidade da área reservada aos guarda-volumes. Era ali, pelo simples fato de estar sozinho, que estava mais em evidência. Já havia retirado três mil dólares da bolsa e tornado a fechá-la com a fivela. Segurava a chave do escaninho 217 na mão direita, e a bolsa na esquerda. Dentro do 217 havia 7435 dólares, doze relógios de bolso e treze de pulso, dois grampos de dinheiro feitos de prata de lei, um prendedor de gravata de ouro e joias femininas variadas que ele nunca chegara a vender por desconfiar que os intermediários estivessem tentando lhe passar a perna. Foi até o escaninho com passos calmos, ergueu a mão direita que só tremeu de leve e o abriu.
Atrás dele, alguém chamou: “Ei!”.
Joe manteve os olhos fixos à frente. O tremor em sua mão se transformou em um espasmo quando ele puxou a porta do escaninho para trás. “Ei, estou falando com você!”
Joe enfiou a bolsa dentro do escaninho e fechou a porta.
“Ei, você! Ei!”
Joe girou a chave, trancou a porta e pôs a chave no bolso.
“Ei!”
Joe se virou, já visualizando o policial à sua espera, com o revólver de serviço em punho, provavelmente jovem, provavelmente nervoso...
Um bêbado estava sentado no chão junto a uma lata de lixo. Esquálido, parecia feito apenas de olhos vermelhos, bochechas também vermelhas e tendões. Projetou o maxilar na direção de Joe.
“Está olhando para quê, porra?”, perguntou.
A risada escapou da boca de Joe feito um latido. Ele pôs a mão no bolso e com ela retirou uma nota de dez dólares. Abaixou-se e entregou o dinheiro ao velho bêbado.
“Para você, coroa. Estou olhando para você.”
O homem respondeu com um arroto, mas Joe já estava se afastando, perdido na multidão.
Do lado de fora, tomou o rumo do leste pela St. James em direção à luz de dois holofotes que se moviam de um lado para o outro nas nuvens baixas acima do hotel novo. Acalmou-se por alguns instantes ao pensar no dinheiro guardado bem seguro dentro do escaninho até ele decidir voltar para buscá-lo. Decisão essa um tanto incomum quando se planejava passar uma vida inteira fugindo, pensou, ao virar na Essex Street.
Se vai sair do país, por que deixar o dinheiro aqui?
Para poder voltar e buscá-lo.
E por que precisaria voltar para buscá-lo?
Caso eu não consiga me safar hoje à noite.
Aí está sua resposta.
Não há resposta. Que resposta?
Você não queria que eles encontrassem o dinheiro com você.
Exatamente.
Porque sabe que vai ser pego.