Os Filhos da Noite
Capítulo 2
AQUILO QUE FALTA NELA
Joe morava no último andar de uma casa de cômodos no bairro de West End, poucos minutos a pé da confusão de Scollay Square. A casa de cômodos pertencia e era gerida pela máfia de Tim Hickey, presente havia muito tempo na cidade mas que prosperara nos seis anos após a implementação da Décima Oitava Emenda à Constituição.
O primeiro andar em geral era ocupado por irlandeses recém-desembarcados com suas calças de lã e corpos emaciados. Uma das tarefas de Joe era ir buscá-los no porto e conduzi-los aos refeitórios públicos de Hickey, onde lhes dava pão preto, sopa branca de mariscos e batatas cinzentas. Então os levava para a casa de cômodos, onde eram acomodados três em cada quarto sobre colchões firmes e limpos enquanto suas roupas eram lavadas no subsolo pelas putas mais velhas. Dali a cerca de uma semana, quando já houvessem recuperado parte das forças e livrado os cabelos dos piolhos e as bocas dos dentes podres, eles assinavam cartões de registro eleitoral e juravam apoio irrestrito aos candidatos de Hickey nas eleições do ano seguinte. Então eram soltos na rua com nomes e endereços de outros imigrantes das mesmas aldeias ou condados de seu país que lhes pudessem arrumar um emprego imediato.
No primeiro andar da casa de cômodos, acessível apenas por uma entrada independente, ficava o cassino. No segundo ficavam as putas. Joe morava no terceiro, em um quarto no fim do corredor. Havia um bom banheiro no andar que ele dividia com quaisquer figuras importantes que estivessem visitando a cidade na ocasião e com Penny Palumbo, a puta mais valiosa da coleção de Tim Hickey. Penny tinha vinte e cinco anos mas aparentava dezessete, e seus cabelos eram da cor do mel engarrafado banhado pela luz do sol. Um homem já havia pulado de um telhado por causa de Penny Palumbo; outro se jogara de um navio; um terceiro, em vez de se matar, tinha matado outro homem. Joe gostava bastante de Penny: ela era simpática e sensacional de se olhar. No entanto, se o seu rosto aparentava dezessete anos, ele poderia apostar que o cérebro aparentava dez. Até onde Joe podia constatar, a única coisa que havia lá dentro eram três canções e um vago desejo de se tornar costureira.
Certas manhãs, dependendo de quem descesse primeiro ao cassino, um deles comprava café para o outro. Nessa manhã, foi ela quem lhe levou o café, e os dois se sentaram junto à janela do quarto dele, com vista para Scollay Square e seus toldos listrados, imensos letreiros, e os primeiros caminhões de leite que passavam engasgando por Tremont Row. Penny lhe contou que, na noite anterior, uma cartomante havia lhe garantido que das duas, uma: ou ela morreria jovem, ou então viraria devota da igreja pentecostal trinitarista no Kansas. Quando Joe lhe perguntou se ela sentia medo de morrer, Penny respondeu que sim, claro, mas não tanto quanto de se mudar para o Kansas.
Quando ela saiu, ele a ouviu conversando com alguém no corredor, e em seguida Tim Hickey apareceu na soleira do seu quarto. Tim estava usando um colete escuro risca de giz, desabotoado, calça do mesmo feitio, e uma camisa branca com o colarinho aberto e sem gravata. Era um homem esbelto, com uma bela cabeleira toda branca e os olhos tristes e sem esperança de um capelão no corredor da morte.
“Bom dia, sr. Hickey.”
“Bom dia, Joe.” Hickey tomava café em um copo antiquado que refletiu a luz da manhã entrando pelos peitoris. “Sabe aquele banco em Pittsfield?”
“O que tem?”, indagou Joe.
“O cara com quem você tem de falar vem aqui às terças, mas na maioria das outras noites pode ser encontrado no bar de Upham Corner. Ele costuma manter um chapéu de feltro no balcão, à direita da bebida. Vai lhe dar a planta do prédio e a rota de fuga.”
“Obrigado, sr. Hickey.”
Hickey retribuiu a frase com um gesto do copo.
“Mais uma coisa... lembra aquele crupiê sobre quem conversamos no mês passado?”
“Lembro”, respondeu Joe. “Carl.”
“Ele está fazendo de novo.”
Carl Laubner, um de seus crupiês de vinte e um, tinha vindo de um estabelecimento que praticava o jogo sujo, e eles não conseguiam convencê-lo a jogar limpo, não se algum dos jogadores presentes tivesse um aspecto que não fosse cem por cento branco. Assim, sempre que um italiano ou grego se sentava à mesa, pronto. Num passe de mágica, Carl começava a puxar dez e ases para a banca a noite inteira, ou pelo menos até o pessoal mais escurinho ir embora.
“Mande o cara embora”, ordenou Hickey. “Assim que ele chegar.”
“Sim, senhor.”
“Não praticamos essa merda aqui. Certo?”
“Certíssimo, sr. Hickey. Certíssimo.”
“E conserte o caça-níqueis doze, sim? Está meio solto. Nós somos uma casa honesta, mas também não somos uma porra de uma instituição beneficente, não é, Joe?”
Joe escreveu um lembrete para si mesmo. “Não, senhor, não somos.”
Tim Hickey administrava um dos poucos cassinos honestos de Boston, o que o tornava um dos mais populares da cidade, sobretudo para os jogos mais altos. Tim havia ensinado a Joe que jogos marcados conseguiam depenar um cliente talvez duas, três vezes no máximo antes de ele entender o que estava acontecendo e parar de jogar. Tim não queria depenar um cliente um par de vezes; queria sangrá-lo até o fim da vida. Se os clientes puderem continuar a jogar e a beber, dizia ele a Joe, vão lhe entregar todo seu dinheiro e ainda agradecer por você tê-los livrado do peso.
“Sabe os nossos clientes?”, dissera Tim mais de uma vez. “Eles visitam a noite. Nós não: nós vivemos na noite. Eles alugam o que nos pertence. Isso significa que, quando eles vêm brincar no nosso quintal, nós lucramos com cada operação.”
Tim Hickey era um dos homens mais inteligentes que Joe já conhecera. No início da Lei Seca, quando as máfias da cidade eram divididas por etnia — italianos só se misturavam com italianos, judeus com judeus, irlandeses com irlandeses —, Hickey se misturava com todo mundo. Aliara-se a Giancarlo Calabrese, que administrava a máfia de Pescatore enquanto o velho Pescatore estava na prisão, e juntos os dois haviam começado a contrabandear rum caribenho quando todo o resto contrabandeava uísque. Na época em que as gangues de Detroit e Nova York aumentaram seu poder o suficiente para transformar todos os outros em seus fornecedores no mercado ilegal de uísque, as máfias de Hickey e Pescatore já haviam dominado o mercado de álcool de cana e melaço. Os produtos vinham principalmente de Cuba, cruzavam os estreitos da Flórida, eram transformados em rum no território americano e transportados na calada da noite Costa Leste acima para serem vendidos com um lucro de oitenta por cento.
De volta de sua mais recente viagem a Tampa, Tim havia conversado com Joe sobre o malogrado ataque ao armazém de móveis no sul de Boston. Elogiara Joe por ter tido a inteligência de não arrombar a tesouraria para pegar o dinheiro da casa (“Essa decisão evitou uma guerra”, foi seu comentário), e lhe dissera que, quando eles descobrissem por que haviam recebido uma dica tão ruim e perigosa, alguém se veria enforcado em vigas tão altas quanto a torre da Alfândega.
Joe quis acreditar nele, pois a alternativa era crer que Tim os havia mandado para aquele armazém justamente porque queria começar uma guerra com Albert White. Tim bem que seria capaz de sacrificar homens que vinha formando desde que eram meninos com o objetivo de dominar de uma vez por todas o mercado de rum. Na verdade, Tim seria capaz de qualquer coisa. Toda e qualquer coisa. Para estar no topo era preciso ser assim — todo mundo tinha de saber que você já tinha amputado a própria consciência fazia muito tempo.
Agora no quarto de Joe, Tim despejou um pouco de rum de sua garrafinha dentro do café e tomou um gole. Ofereceu a garrafinha a Joe, mas este balançou a cabeça. Tim tornou a guardar a garrafinha no bolso. “Por onde você tem andado ultimamente?”
“Por aqui mesmo.”
Hickey sustentou seu olhar. “Você saiu todas as noites desta semana, e da semana passada também. Está namorando?”
Joe pensou em mentir, mas não conseguiu pensar em nenhum motivo para fazê-lo. “É, estou.”
“Moça simpática?”
“Cheia de vida. Ela é...” — Joe não conseguiu atinar com a palavra exata — “é uma moça e tanto.”
Hickey se afastou do batente. “Arrumou uma daquelas que entram na veia, hein?” Fez a mímica de quem espeta uma agulha no braço. “Dá para notar.” Chegou mais perto e segurou a nuca de Joe com uma das mãos. “Nós em geral não temos muitas chances com as boas. Não na nossa profissão. Ela sabe cozinhar?”
“Sabe.” A verdade era que Joe não tinha a menor ideia.
“Isso é importante. Pouco importa se elas cozinham bem ou mal, contanto que se disponham.” Hickey soltou o pescoço dele e tornou a se aproximar da porta. “Converse com o tal cara sobre a história de Pittsfield.”
“Sim, senhor.”
“Bom rapaz”, disse Tim, e começou a descer a escada em direção ao escritório que ficava atrás do caixa do cassino.
Carl Laubner acabou trabalhando mais duas noites antes de Joe se lembrar de mandá-lo embora. Vinha esquecendo algumas coisas ultimamente, entre as quais dois encontros marcados com Hymie Drago para passar adiante a mercadoria do roubo à fábrica de peles Karshman. Lembrara-se de ir até o caça-níqueis e apertar os parafusos bem apertados, mas, quando Laubner chegou nessa noite para o seu turno, Joe já tinha saído com Emma Gould outra vez.
Desde aquela noite no bar clandestino do porão em Charlestown, ele e Emma tinham se visto quase todas as noites. Quase todas, mas não todas. Nas outras ela saía com Albert White, situação que Joe até então conseguira qualificar de incômoda, embora estivesse rapidamente evoluindo para intolerável.
Quando não estava com Emma, tudo em que Joe conseguia pensar era quando tornaria a estar. Então, quando se encontravam, não se agarrar deixava de ser uma possibilidade improvável e passava a ser impossível. Quando o bar clandestino de seu tio estava fechado, os dois transavam lá. Quando os pais e irmãos dela estavam fora do apartamento que dividia com a família, transavam lá. Transavam no carro de Joe e também no seu quarto depois de ele a fazer se esgueirar pela escada dos fundos. Transaram no alto de um morro frio, no meio de um bosque de árvores sem folhas com vista para o rio Mystic, e em uma praia fria de novembro com vista para a enseada de Savin Hill em Dorchester. Em pé, sentados, deitados — para eles não fazia muita diferença. Dentro de casa, ao ar livre — era a mesma coisa. Quando tinham o luxo de uma hora inteira juntos, preenchiam-na com quantos novos truques e posições conseguissem inventar. Quando só tinham alguns minutos, porém, alguns minutos bastavam.
O que raramente faziam era falar. Pelo menos não sobre nada fora dos limites daquele vício aparentemente insaciável de um pelo outro.
Por trás dos olhos e da pele claros de Emma havia algo encolhido, enjaulado. E não enjaulado de uma forma que quisesse sair. Enjaulado de uma forma que proibia qualquer outra coisa de entrar. A jaula se abria quando ela o recebia dentro de si e enquanto durasse o ato do amor. Nessas horas, seus olhos bem abertos se mostravam atentos, e ele podia ver lá dentro sua alma, a luz vermelha de seu coração, e quaisquer sonhos que ela pudesse ter acalentado quando criança, temporariamente soltos e libertos de seu calabouço de paredes escuras e porta fechada a cadeado.
Quando ele saía, porém, e a respiração dela voltava ao normal, Joe via essas coisas se distanciarem como se fossem a maré.
Mas pouco importava. Começava a desconfiar que estava apaixonado por ela. Naqueles raros instantes em que a jaula se abria e ele era convidado a entrar, descobria uma pessoa doida para confiar, doida para amar, caramba, doida para viver. Ela precisava apenas ver que ele era digno de fazê-la arriscar aquela confiança, aquele amor, aquela vida.
E ele seria.
Completou vinte anos nesse inverno e soube o que queria fazer com o resto de sua vida. Queria se tornar a pessoa em quem Emma Gould iria depositar toda a sua confiança.
À medida que o inverno avançou, os dois se arriscaram a aparecer juntos em público algumas vezes. Apenas nas noites em que ela ouvira de fontes seguras que Albert White e seus principais capangas estavam fora da cidade, e apenas em estabelecimentos de propriedade de Tim Hickey ou seus sócios.
Um dos sócios de Tim era Phil Cregger, dono do restaurante Venetian Garden, situado no térreo do Hotel Bromfield. Joe e Emma foram lá em uma noite gelada na qual, ainda que o céu estivesse limpo, um cheiro de neve pairava no ar. Haviam acabado de entregar seus casacos e chapéus na chapelaria quando um grupo saiu da salinha privativa atrás da cozinha, e Joe soube quem eram antes mesmo de ver seus rostos pela fumaça dos charutos e pela afabilidade ensaiada de suas vozes — políticos.
Dignitários, conselheiros locais e municipais, capitães do corpo de bombeiros, capitães de polícia, procuradores — a reluzente, sorridente e podre pilha que mantinha mal e porcamente acesas as luzes da cidade. Que fazia os trens saírem no horário e os sinais de trânsito funcionarem, mal e porcamente. Que mantinha o povo consciente de que esses serviços e mil outros, grandes e pequenos, poderiam se extinguir — se extinguiriam de fato — não fosse a sua constante vigilância.
Viu o pai no mesmo instante em que o pai reparou na sua presença. Como sempre quando passavam algum tempo sem se ver, foi perturbador, fosse pelo simples fato de que os dois eram o retrato um do outro. O pai de Joe tinha sessenta anos. Tivera Joe depois de produzir dois filhos em uma idade mais jovem e respeitável. No entanto, embora Connor e Danny carregassem os traços genéticos de pai e mãe no rosto e no corpo, e com certeza na altura (herança do lado Fennessey da família, cujos homens eram altos), Joe saíra à imagem e semelhança do pai. Mesma altura, mesma corpulência, mesmo maxilar marcado, mesmo nariz e maçãs do rosto saltados e olhos afundados nas órbitas só um pouco além do normal, o que tornava ainda mais difícil para os outros saber o que ele estava pensando. A única diferença entre Joe e o pai era o colorido. Os olhos de Joe eram azuis, os do pai, verdes; os cabelos de Joe tinham a cor do trigo, os do pai eram brancos feito linho. Tirando isso, o pai de Joe olhava para o filho e via a própria juventude zombando da sua cara. Joe olhava para o pai e via manchas senis e pele flácida, e a Morte postada ao pé de sua cama às três da manhã, impaciente, batucando no chão com o pé.
Depois de alguns apertos de mão e tapinhas nas costas à guisa de despedida, seu pai se separou do grupo enquanto os homens faziam fila para pegar os casacos. Parou diante do filho. Estendeu a mão. “Como vai?”
Joe apertou a mão dele. “Nada mal. E o senhor?”
“Muito bem. Fui promovido no mês passado.”
“Subcomandante do Departamento de Polícia de Boston”, disse Joe. “Fiquei sabendo.”
“E você? Onde anda trabalhando?”
Era preciso conhecer Thomas Coughlin há muito tempo para detectar nele os efeitos do álcool. Estes nunca se manifestavam na dicção, que permanecia fluente, firme e com volume regular mesmo após meia garrafa de um bom uísque irlandês. Nunca se manifestavam em nenhum aspecto anuviado nos olhos. Para quem soubesse onde procurar, contudo, era possível detectar algo predatório e travesso no brilho do rosto bonito, algo que avaliava seu interlocutor, identificava suas fraquezas, e ponderava se deveria se banquetear com elas.
“Pai, esta é Emma Gould”, apresentou Joe.
Thomas Coughlin segurou a mão da jovem e beijou-lhe os nós dos dedos. “Muito prazer, srta. Gould.” Meneou a cabeça para o maître. “Gerald, por favor, a mesa do canto.” Então sorriu para Joe e Emma. “Vocês se importam se eu jantar com vocês? Estou faminto.”
Conseguiram passar pela salada em relativa harmonia.
Thomas contou histórias sobre a infância de Joe, cujo invariável objetivo era mostrar que malandrinho Joe tinha sido, como ele era incontrolável e cheio de energia. A tirar por esse relato, eram histórias inacreditáveis dignas dos curtas-metragens de Hal Roach nas matinês de sábado. Seu pai deixou de fora o fim habitual das histórias — uma palmada ou o cinto.
Emma sorriu e deu risadas nos momentos certos, mas Joe pôde ver que estava fingindo. Os três estavam fingindo. Joe e Thomas se fingiam ligados pelo amor entre pai e filho, e Emma fingia não notar que eles não o eram.
Depois da história de Joe aos seis anos de idade no jardim do pai — contada tantas vezes ao longo dos anos que Joe era capaz de prever com exatidão cada pausa que o pai fazia —, Thomas perguntou a Emma de onde vinha sua família.
“Charlestown”, respondeu ela, e Joe cismou ter detectado um quê de desafio no tom de sua voz.
“Não, eu quis dizer antes de virem para cá. A senhorita claramente é irlandesa. Sabe onde nasceram seus antepassados?”
O garçom retirou os pratos de salada, e Emma falou: “O pai da minha mãe era de Kerry e a mãe do meu pai era de Cork”.
“Eu nasci pertinho de Cork”, disse Thomas com um deleite inabitual.
Emma tomou um gole d’água, mas não disse nada; de repente, foi como se uma parte sua estivesse faltando. Joe já tinha visto isso antes — a moça sabia se desconectar de uma situação que não lhe agradava. Seu corpo permanecia presente, como algo esquecido na cadeira durante a fuga, mas sua essência, aquilo que fazia de Emma Emma, desaparecia.
“Qual era o nome de solteira da sua avó?”
“Não sei”, respondeu ela.
“Não sabe?”
Emma deu de ombros. “Ela já morreu.”
“Mas são suas raízes.” Thomas parecia confuso.
Emma tornou a dar de ombros. Acendeu um cigarro. Thomas não esboçou reação, mas Joe sabia que estava consternado. Moças modernas o indignavam sob incontáveis aspectos — as que fumavam, as que deixavam as coxas à mostra, as que usavam decotes ou apareciam embrigadas em público sem vergonha ou temor da reprovação cívica.
“Há quanto tempo a senhorita conhece meu filho?”, Thomas sorriu.
“Alguns meses.”
“Vocês dois são...?”
“Pai.”
“Joseph?”
“Não sabemos o que somos.”
No íntimo, ele nutrira esperanças de que Emma fosse aproveitar aquela oportunidade para esclarecer o que os dois de fato eram, mas em vez disso ela lhe lançou um rápido olhar que perguntava por quanto mais tempo teriam de ficar ali sentados e voltou a fumar, com os olhos esquivos a passear sem rumo pelo grandioso salão.
Os primeiros pratos chegaram à mesa, e os três passaram os vinte minutos seguintes discorrendo sobre a qualidade dos bifes e do molho béarnaise, e sobre o novo carpete que Cregger mandara colocar recentemente no restaurante.
Durante a sobremesa, Thomas acendeu seu próprio cigarro. “Mas então, meu bem, o que você faz da vida?”
“Trabalho na empresa de móveis Papadikis.”
“Em que departamento?”
“Sou secretária.”
“Meu filho roubou um sofá? Foi assim que vocês dois se conheceram?”
“Pai”, interveio Joe.
“Só estou querendo saber como vocês se conheceram”, insistiu seu pai.
Emma acendeu outro cigarro e olhou para o salão. “Este lugar é bem chique, mesmo.”
“É que eu sei muito bem como o meu filho ganha a vida. Só posso imaginar que, se a senhorita veio a ter contato com ele, das duas, uma: ou foi durante um crime, ou então em um estabelecimento frequentado por indivíduos grosseiros.”
“Pai, pensei que fôssemos ter um jantar agradável”, disse Joe.
“Achei que tivéssemos tido. Srta. Gould?”
Emma olhou para ele.
“Minhas perguntas desta noite a deixaram constrangida?”
Emma cravou nele aqueles seus olhos frios, olhos capazes de congelar uma camada fresca de piche no telhado.
“Não sei aonde o senhor está querendo chegar. E, para falar a verdade, não estou nem aí.”
Thomas se recostou na cadeira e tomou um gole de café. “Estou falando sobre a senhorita ser o tipo de moça que convive com criminosos, o que talvez não seja a melhor coisa do mundo para a sua reputação. O fato de o criminoso em questão por acaso ser meu filho não vem ao caso. O que importa é que meu filho, criminoso ou não, continua sendo meu filho, e tenho por ele sentimentos paternos, sentimentos que me levam a questionar o bom senso de ele frequentar o tipo de mulher que sabidamente convive com criminosos.” Thomas tornou a pousar a xícara sobre o pires e sorriu para ela. “Entendeu o raciocínio?”
Joe se levantou da mesa. “Certo, vamos indo.”
Mas Emma não se mexeu. Apoiou o queixo na base da mão e passou algum tempo observando Thomas, com a brasa do cigarro a se consumir junto à orelha. “Meu tio comentou sobre um policial que o estava subornando chamado Coughlin. Seria o senhor?” Lançou-lhe um sorriso de lábios contraídos semelhante ao que ele exibia e deu uma tragada no cigarro.
“Esse tio seria seu tio Robert, aquele que todos chamam de Bobo?”
Ela confirmou com um bater das pálpebras.
“O policial ao qual a senhorita está se referindo chama-se Elmore Conklin. Ele é lotado em Charlestown e é conhecido por aceitar subornos de estabelecimentos ilegais como os de Bobo. Eu, por minha parte, raramente vou a Charlestown. Como subcomandante, porém, ficarei feliz em dedicar um interesse mais específico ao estabelecimento do seu tio.” Thomas apagou o cigarro no cinzeiro. “Isso a deixaria contente, meu bem?”
Emma estendeu a mão para Joe. “Preciso retocar a maquiagem.”
Joe lhe deu dinheiro para a gorjeta da funcionária do toalete feminino, e os dois a observaram cruzar o restaurante. Joe se perguntou se ela voltaria para a mesa ou simplesmente pegaria o casaco e iria embora.
Seu pai sacou do colete o relógio de bolso e o abriu com um movimento do polegar. Em seguida o fechou com a mesma rapidez e tornou a guardá-lo no bolso. O relógio era seu bem mais precioso, um Patek Philippe dezoito quilates, presente de um presidente de banco agradecido mais de duas décadas antes.
“Isso era mesmo necessário?”, perguntou-lhe Joe.
“Não fui eu quem comecei a briga, Joe, então não me critique pela forma como a terminei.” Seu pai se recostou na cadeira e cruzou uma perna por cima da outra. Alguns homens usavam o próprio poder como se fosse um casaco que não conseguissem fazer caber direito ou parar de causar comichão. Thomas Coughlin usava o seu como se houvesse sido feito sob medida para ele por um alfaiate de Londres. Correu os olhos pelo salão e meneou a cabeça para alguns conhecidos antes de tornar a olhar para o filho. “Se eu pensasse que você está apenas trilhando um caminho pouco convencional no mundo, acha que eu iria me importar?”
“Acho”, respondeu Joe.
Seu pai esboçou um sorriso suave e deu de ombros de forma ainda mais suave. “Faz trinta e sete anos que sou policial, e aprendi uma coisa mais importante do que todas as outras.”
“Que o crime não compensa a não ser quando cometido em escala institucional”, disse Joe.
Outro sorriso suave, e uma leve inclinação da cabeça. “Não, Joseph. Não. O que aprendi foi que a violência procria. E que os filhos gerados pela sua violência voltarão para persegui-lo como criaturas selvagens, irracionais. Você não vai reconhecê-los, mas eles vão reconhecer você. E vão considerá-lo merecedor da sua punição.”
Ao longo dos anos, Joe já havia escutado variações desse discurso. O que seu pai era incapaz de perceber — além do fato de estar se repetindo — era que teorias genéricas nem sempre se aplicavam a indivíduos específicos. Não se o indivíduo — ou indivíduos — em questão fosse determinado o bastante para criar as próprias regras e inteligente o bastante para fazer todos os outros obedecer-lhes.
Joe tinha só vinte anos, mas já sabia que era esse tipo de pessoa.
No entanto, ainda que fosse unicamente para agradar ao pai, perguntou: “E por que motivo exatamente essas crias violentas estão me punindo, mesmo?”.
“Pelo descuido da sua reprodução.” Seu pai se inclinou para a frente, cotovelos sobre a mesa, palmas das mãos unidas. “Joseph.”
“Joe.”
“Joseph, violência gera violência. Não há escapatória.” Ele separou as mãos e encarou o filho. “O que você põe no mundo vai sempre voltar para buscá-lo.”
“Sim, pai, eu conheço o catecismo.”
Seu pai inclinou a cabeça em um gesto de reconhecimento enquanto Emma saía do toalete e atravessava o salão em direção à chapelaria. Acompanhando-a com os olhos, disse a Joe: “Mas nunca de uma forma que você possa prever”.
“Tenho certeza de que não.”
“Você não tem certeza de nada a não ser da própria certeza. A segurança que você não fez por merecer é sempre a mais radiosa.” Thomas observou Emma entregar o recibo da chapelaria à atendente. “Ela é bem bonita.”
Joe não disse nada.
“Tirando isso, porém, não consigo entender o que viu nela”, continuou seu pai.
“Porque ela é de Charlestown?”
“Bom, isso não ajuda”, respondeu Thomas. “O pai dela costumava ser cafetão, e o tio matou pelo menos dois homens até onde nós sabemos. Mas, Joseph, eu poderia ignorar isso tudo se ela não fosse tão...”
“Tão o quê?”
“Tão morta por dentro.” Seu pai tornou a consultar o relógio e mal conseguiu disfarçar o tremor de um bocejo. “É tarde.”
“Ela não é morta por dentro”, disse Joe. “Tem algo adormecido dentro dela, só isso.”
“Adormecido?”, falou seu pai enquanto Emma voltava para a mesa com seus casacos. “Filho, isso nunca mais vai acordar.”
Na rua, a caminho do carro, Joe comentou: “Será que você não poderia ter sido um pouco mais...?”.
“Um pouco mais o quê?”
“Entretida na conversa? Sociável?”
“Em todo esse tempo desde que estamos juntos, você só fala no quanto odeia esse homem”, disse ela.
“O tempo todo ?”
“Praticamente.”
Joe balançou a cabeça. “E eu nunca falei que odiava o meu pai.”
“Então o que você falou?”
“Que nós não nos damos bem. Que nunca nos demos bem.”
“E por quê?”
“Porque somos parecidos pra cacete.”
“Ou porque você o odeia.”
“Eu não o odeio”, afirmou Joe, sabendo que, acima de todo o resto, isso era verdade.
“Então talvez você devesse dormir com ele hoje à noite.”
“Como é?”
“Quem ele acha que é para ficar sentado ali me olhando como se eu fosse lixo? Para perguntar sobre a minha família como se soubesse que ninguém presta desde a Irlanda? Para me chamar de meu bem?” Parada na calçada, ela tremia enquanto os primeiros flocos de neve surgiam do céu negro acima deles. “Nós não somos gente. Não somos respeitáveis. Somos apenas os Gould de Union Street. Lixo de Charlestown. Somos nós quem tecemos a renda das porras das suas cortinas.”
Joe levantou as mãos. “Que conversa é essa?” Estendeu a mão na sua direção, mas ela deu um passo para trás.
“Não toque em mim.”
“Tá bom.”
“É a conversa de uma vida inteira, entendeu? Uma vida inteira sendo esnobada e menosprezada por gente feito o seu pai. Gente que, que, que... que confunde ter sorte na vida com ser uma pessoa melhor. Nós não somos menos do que vocês. Nós não somos merda.”
“Eu não disse que eram.”
“Ele disse.”
“Não disse, não.”
“Eu não sou merda”, sussurrou ela, com a boca entreaberta para a noite, e a neve a se misturar com as lágrimas que escorriam por seu rosto.
Ele a envolveu com os braços e chegou mais perto. “Posso?”
Ela aceitou o abraço, mas manteve os próprios braços junto ao corpo. Ele a segurou apertado e ela chorou encostada em seu peito, e ele lhe disse e repetiu que ela não era merda, que não era menos importante do que ninguém e que ele a amava, que a amava.
Mais tarde, estavam deitados na cama dele enquanto grossos e úmidos flocos de neve se chocavam contra as vidraças como mariposas.
“Foi uma fraqueza”, disse ela.
“O quê?”
“Na rua. Eu fui fraca.”
“Você não foi fraca. Foi sincera.”
“Eu não choro na frente das pessoas.”
“Bom, na minha pode chorar.”
“Você disse que me amava.”
“Foi.”
“E ama mesmo?”
Ele a encarou nos olhos muito, muito claros. “Amo.”
Ela demorou um minuto para falar: “Não posso dizer a mesma coisa”.
Ele disse a si mesmo que aquilo não era como falar que ela não sentia amor. “Tudo bem.”
“Tudo bem mesmo? Porque alguns caras precisam ouvir também.”
Alguns caras? Quantos caras teriam lhe dito que a amavam antes de ele aparecer?
“Eu sou mais forte do que eles”, falou, e desejou que fosse verdade.
A janela chacoalhou com as rajadas escuras do vento de fevereiro, uma sirene de nevoeiro ecoou, e em Scollay Square várias buzinas soaram, zangadas.
“O que você quer?”, perguntou-lhe ele.
Ela deu de ombros, roeu uma das unhas e olhou por cima do corpo dele em direção à janela.
“Queria que várias coisas nunca tivessem me acontecido.”
“Que coisas?”
Ela balançou a cabeça, já se distanciando dele.
“E sol”, balbuciou depois de algum tempo, com os lábios inchados de sono. “Eu queria sol, muito sol.”