Os Filhos da Noite

Dennis Lehane · Capítulo 28 de 29

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Os Filhos da Noite

Capítulo 28

COMO ERA TARDE

 

Todos os meninos que trabalhavam na fazenda jogavam beisebol; alguns, porém, o faziam com uma paixão religiosa. Com a aproximação da colheita, Joe reparou que vários deles haviam protegido os dedos com esparadrapo cirúrgico.

“Onde arrumaram o esparadrapo?”, perguntou a Ciggy.

“Ah, nós temos caixas e mais caixas desse esparadrapo”, respondeu Ciggy. “Na época de Machado, eles mandaram uma equipe médica para cá com uns jornalistas. Para mostrar a todo mundo quanto Machado amava seus camponeses. Assim que os jornalistas foram embora, os médicos também foram. Vieram recolher todo o material, mas nós conseguimos ficar com um caixote desse esparadrapo para as crianças.”

“Por quê?”

“O senhor já curou tabaco?”

“Não.”

“Bom, se eu lhe mostrar por quê, vai parar de fazer perguntas idiotas?”

“Provavelmente não”, respondeu Joe.

Os pés de fumo estavam agora mais altos do que a maior parte dos homens, as folhas mais compridas do que os braços de Joe. Ele não deixava mais Tomás correr pela plantação por medo de perdê-lo. Os trabalhadores da colheita — meninos mais velhos, em sua maioria — chegaram um dia de manhã e retiraram as folhas dos pés mais maduros. Estas foram empilhadas em carrinhos de madeira, e os carrinhos foram desatrelados das mulas e presos a tratores. Os tratores foram conduzidos até os galpões no extremo oeste da plantação onde as folhas eram curtidas, tarefa confiada aos meninos mais jovens. Certa manhã, Joe saiu para a varanda da casa-grande e viu um menino que não devia ter mais de seis anos passar por ele dirigindo um trator resfolegante, rebocando uma carroça carregada com uma pilha bem alta de folhas. O menino abriu um grande sorriso, acenou para Joe e seguiu seu caminho.

Em frente ao galpão de cura, as folhas eram tiradas das carroças e postas em bancos à sombra das árvores para serem amarradas. Os bancos usados para amarrá-las eram equipados com armações de madeira. Os responsáveis pela amarração e os que manuseavam as folhas — todos os jogadores de beisebol com esparadrapo cirúrgico nos dedos — punham uma vara em cima da armação e começavam a amarrar as folhas às varas com barbante até haver trouxas de folhas de uma ponta a outra da vara. Faziam isso das seis da manhã às oito da noite; nessas semanas não havia beisebol. O barbante tinha de ser bem apertado enquanto se pressionava a vara; este muitas vezes esfolava e queimava as mãos e os dedos. Daí a serventia do esparadrapo, explicou Ciggy.

“Quando isso terminar, patrón, e todo o tabaco estiver pendurado de ponta a ponta do galpão, esperamos cinco dias até as folhas curarem. Durante esse tempo, o único homem que trabalha é o que mantém o fogo aceso no galpão e os que verificam que não esteja úmido ou seco demais lá dentro. Já os meninos podem jogar beisebol.” Ele tocou rapidamente o braço de Joe. “Se o senhor permitir.”

Joe ficou diante do galpão vendo aqueles meninos amarrarem o tabaco. Mesmo com a armação de madeira, eles precisavam levantar e estender os braços para amarrar as folhas — levantá-los e estendê-los por praticamente catorze horas seguidas. Olhou para Ciggy com um ar de reprovação. “É claro que eu permito. Porra, meu Deus do céu, que trabalho insuportável.”

“Eu fiz isso por seis anos.”

“Como?”

“Não gosto de passar fome. O senhor gosta?”

Joe revirou os olhos.

“Sei. Mais um que não gosta de passar fome”, disse Ciggy. “É a única coisa em relação à qual o mundo inteiro está de acordo... passar fome não tem a menor graça.”

No dia seguinte, Joe encontrou Ciggy no galpão de cura, verificando se os penduradores haviam posicionado as folhas com o devido espaçamento. Joe lhe pediu que o acompanhasse, e juntos atravessaram as terras, desceram a encosta leste e pararam no pior de todos os campos da fazenda de Joe. Um trecho pedregoso, no qual montanhas e vegetação impediam o sol de entrar o dia inteiro, para deleite das minhocas e ervas daninhas.

Joe perguntou se Herodes, seu melhor motorista, tinha muito trabalho durante a cura do tabaco.

“Ele ainda está trabalhando na colheita, mas não tanto quanto os meninos”, respondeu Ciggy.

“Ótimo”, disse Joe. “Mande-o arar este campo.”

“Não vai crescer nada aqui”, disse Ciggy.

“Eu sei”, retrucou Joe.

“Então por que arar?”

“Porque é mais fácil fazer um campo de beisebol em terreno plano, não concorda?”

No mesmo dia em que construíram o promontório do rebatedor, Joe estava passando pelo galpão com Tomás quando viu um dos operários, Perez, batendo no filho, simplesmente lhe dando sopapos na cabeça como se o menino fosse um cão que ele tivesse surpreendido devorando seu jantar. O menino não devia ter mais de oito anos. “Ei”, disse Joe, e começou a avançar na sua direção, mas Ciggy se interpôs.

Perez e o filho de Perez olharam para Joe sem entender, e Perez deu mais um sopapo na cabeça do menino, seguido por várias palmadas no traseiro.

“Isso é mesmo necessário?”, perguntou Joe a Ciggy.

Tomás, alheio a tudo, contorceu-se para ir no colo de Ciggy, a quem havia se afeiçoado recentemente.

Ciggy pegou Tomás do colo de Joe, ergueu o menino bem alto enquanto este ria, e falou:

“Acha que Perez gosta de bater no filho? Acha que ele acordou e disse: Eu quero ser um cara mau e ter certeza de que o menino vá me odiar quando crescer? Não, não, não, patrón. Ele acordou dizendo: Preciso pôr comida na mesa, preciso manter meus filhos aquecidos e secos, consertar a goteira do telhado, matar as ratazanas do quarto deles, mostrar-lhes o caminho certo, mostrar à minha mulher que a amo, ter cinco minutos que sejam para mim mesmo, e dormir quatro horas por noite antes de ter que acordar e voltar para os campos. E quando saio para os campos posso ouvir os menorezinhos chorando: ‘Papai, estou com fome. Papai, acabou o leite. Papai, estou doente’.” E ele volta para isso dia após dia, ouve isso dia após dia quando sai, e aí o senhor arruma um emprego para o filho dele, patrón, e é como se tivesse lhe salvado a vida. Porque talvez tenha salvado, mesmo. Mas se o filho não fizer direito o seu trabalho? Coño. Aí o filho apanha. Melhor apanhar do que passar fome.”

“Em que o menino errou?”

“Ele tinha de ficar de olho no fogo do galpão. Mas pegou no sono. Poderia ter deixado a colheita inteira queimar.” Ciggy devolveu Tomás a Joe. “Poderia ter morrido queimado.”

Joe olhou então para o pai e para o filho. Perez estava com o braço em volta do menino enquanto este aquiescia, e o pai falou com uma voz branda e beijou o filho na lateral da cabeça várias vezes, depois de ensinada a lição. O menino, porém, não pareceu amolecer com os beijos. Então o pai afastou sua cabeça com um empurrão e os dois voltaram ao trabalho.

* * *

O campo de beisebol ficou pronto no mesmo dia em que levaram o tabaco do galpão para a casa de empacotamento. A preparação das folhas para serem vendidas era um trabalho que cabia principalmente às mulheres, que subiam o morro até a plantação pela manhã com expressões e punhos tão duros quanto os dos homens. Enquanto elas separavam e categorizavam o tabaco, Joe reuniu os meninos no campo e lhes deu de presente luvas, bolas novas e tacos Louisville que haviam chegado na antevéspera. Instalou as três bases e a base do rebatedor.

Foi como se tivesse lhes ensinado a voar.

No início da noite, Joe levava Tomás para assistir às partidas. Às vezes Graciela os acompanhava, mas a sua presença muitas vezes se revelava uma distração excessiva para alguns dos meninos que entravam na adolescência.

Tomás, uma daquelas crianças que não conseguem ficar paradas, era fascinado pelo jogo. Sentado quietinho, mãos unidas entre os joelhos, olhava para algo que não tinha como entender ainda, mas que exercia sobre ele o mesmo efeito da música e da água morna.

Certa noite, Joe disse a Graciela: “Tirando nós, aquela cidade não tem nenhuma outra esperança a não ser o beisebol. Os meninos amam”.

“Que bom então, não é?”

“Sim, é ótimo. Pode falar mal dos Estados Unidos quanto quiser, amor, mas nós exportamos algumas coisas boas.”

Os olhos castanhos dela chisparam para ele com ironia. “Mas vocês cobram por isso.”

E quem não cobrava? O que fazia o mundo avançar senão o livre-comércio? Nós damos algo a vocês, e vocês nos dão algo em troca.

Joe amava a esposa, mas ela ainda parecia incapaz de aceitar que seu país, embora inquestionavelmente dependente do de Joe, estava em situação muito melhor com esse arranjo. Antes de os Estados Unidos tirarem seus bens da fogueira, a Espanha os deixara padecendo em uma fossa de malária, estradas ruins e serviço médico inexistente. Machado não fizera nada para melhorar a situação. Agora, porém, com o general Batista, a infraestrutura de Cuba estava em pleno desenvolvimento. Havia esgoto e eletricidade em um terço do país e metade de Havana. Havia boas escolas e alguns hospitais decentes. A expectativa de vida tinha aumentado. Havia dentistas.

Sim, os Estados Unidos exportavam parte dessas benesses sob a mira de uma arma. Mas todos os grandes países que haviam feito a civilização progredir ao longo da história tinham feito a mesma coisa.

Além disso, no caso de Ybor City, o próprio Joe não tinha feito a mesma coisa? E a própria Graciela? Eles haviam construído hospitais com dinheiro obtido à custa de sangue. Haviam tirado mulheres e crianças da rua com o lucro obtido graças ao rum.

Desde que o mundo era mundo, dinheiro sujo muitas vezes havia produzido boas ações.

E agora, em uma Cuba louca por beisebol, em uma região na qual aqueles meninos estariam jogando com gravetos e mãos nuas, eles agora tinham luvas tão novas que o couro chegava a ranger e tacos claros como maçãs descascadas. E todas as noites, uma vez o trabalho terminado e o resto dos caules verdes retirado das folhas, uma vez a colheita empilhada e empacotada, quando o ar recendia a tabaco umedecido e alcatrão, ele se sentava em uma cadeira ao lado de Ciggy e via as sombras se esticarem no campo, e os dois conversavam sobre onde iriam comprar as sementes para a grama da parte externa do campo, de modo que este não fosse mais um descampado de terra batida e pedras soltas. Ciggy ouvira boatos sobre uma liga de beisebol por aquelas bandas, e Joe lhe pediu para se informar melhor, sobretudo para o outono, quando o serviço na fazenda estaria mais leve.

No dia do mercado, seu tabaco foi vendido pelo segundo preço mais alto do armazém; quatrocentos fardos pesando cada um em média 125 quilos foram comprados por um único cliente: a Robert Burns Tobacco Company, fabricante do Panatela, charuto que era a nova sensação americana.

Para comemorar, Joe pagou um bônus a todos os homens e mulheres que trabalhavam na fazenda. Doou à aldeia dois engradados de rum Coughlin-Suárez. Então, por sugestão de Ciggy, fretou um ônibus, e ele e Ciggy levaram o time de beisebol para assistir a seu primeiro filme no cinema Bijou de Viñales.

O noticiário só falava nas Leis de Nuremberg que estavam entrando em vigor na Alemanha — imagens de judeus aflitos fazendo as malas e deixando para trás apartamentos mobiliados rumo ao primeiro trem para fora do país. Joe recentemente lera relatos alegando que o chanceler Hitler representava uma real ameaça à frágil paz que vigorava na Europa desde 1918, mas duvidava que aquele homenzinho de aspecto gozado fosse muito mais longe com sua loucura, agora que o mundo havia acordado e se dado conta; simplesmente ninguém iria lucrar com isso.

Os curtas-metragens exibidos em seguida não tinham nenhum atrativo especial, embora os meninos da fazenda tenham rido bastante, com os olhos arregalados do tamanho das bolas de beisebol que Joe havia lhes comprado, e ele demorou alguns instantes para perceber que eles sabiam tão pouco sobre cinema que pensavam que as notícias sobre a Alemanha fossem o filme.

Veio então a atração principal — um faroeste chamado Cavaleiros do cume ocidental, estrelado por Tex Moran e Estelle Summers. Os créditos desfilaram depressa pela tela preta, e Joe, que para começo de conversa nunca ia ao cinema, estava pouco ligando para quem tinha sido responsável pelo filme. Na verdade, estava começando a baixar os olhos para conferir se o sapato direito estava bem amarrado quando o nome que surgiu na tela fez seus olhos se levantarem outra vez:

Roteiro

Aiden Coughlin

Olhou para Ciggy e para os meninos, mas ninguém tinha prestado atenção.

Meu irmão, quis contar a alguém. Meu irmão.

Na viagem de ônibus de volta a Arcenas, não conseguiu parar de pensar no filme. Um faroeste, sim, com tiroteios aos montes, uma donzela em perigo e uma perseguição de diligência por uma perigosa estrada de montanha; mas, para quem conhecia Danny, havia também algo mais. O personagem de Tex Moran era um xerife honesto em uma cidade que se revelava corrupta. Uma cidade onde os cidadãos mais proeminentes se reuniam certa noite para planejar a morte de um agricultor itinerante de pele escura que, segundo um deles, havia olhado com desejo para sua filha. No final, o filme se distanciava de sua premissa inicial radical — o povo da cidade percebia seu erro —, mas só depois de o agricultor de pele escura ser morto por um grupo de forasteiros de chapéu negro. A mensagem do filme, portanto, até onde Joe entendia, era que o perigo vindo de fora anulava o perigo vindo de dentro. Algo que, na sua experiência — assim como na de Danny —, era uma babaquice.

Fosse como fosse, contudo, a ida ao cinema foi uma tremenda diversão. Os meninos adoraram; passaram o trajeto inteiro de volta para casa falando em comprar pistolas de seis tiros e cintos de balas quando crescessem.

Mais tarde nesse verão, seu relógio chegou de Genebra pelo correio. Veio dentro de uma linda caixa de mogno forrada de veludo, todo reluzente depois do polimento.

Joe ficou tão feliz que demorou dias antes de admitir para si mesmo que o relógio continuava atrasando um pouco.

Em setembro, Graciela recebeu uma carta informando que o Comitê Supervisor da Região Metropolitana de Ybor a tinha elegido a Mulher do Ano pelo trabalho com os moradores carentes do bairro latino. O Comitê Supervisor da Região Metropolitana de Ybor era um grupo díspar de homens e mulheres cubanos, espanhóis e italianos que se reunia uma vez por mês para conversar sobre seus interesses comuns. No primeiro ano, o grupo se dissolvera três vezes, e a maioria das reuniões terminara em brigas que haviam ultrapassado os limites do restaurante em que ocorriam e saído às ruas. As brigas em geral eram entre espanhóis e cubanos, mas de vez em quando os italianos também davam um ou outro soco de modo a não se sentirem excluídos. Uma vez extravasada boa parte da antipatia, os membros do comitê conseguiram encontrar um terreno de interesse comum no seu exílio coletivo em relação ao resto de Tampa e transformaram-se em um grupo relativamente poderoso em bem pouco tempo. Se Graciela aceitasse, escrevia-lhe o comitê, gostariam de lhe entregar o prêmio em um evento de gala marcado para o primeiro fim de semana de outubro no Hotel Don CeSar, na praia de St. Petersburg.

“O que acha?”, perguntou Graciela durante o café da manhã.

Joe estava grogue de sono. Vinha tendo variações do mesmo pesadelo nos últimos tempos. Estava acompanhado pela família em algum lugar desconhecido — sentia que era a África, mas não sabia dizer onde exatamente. Apenas que estavam rodeados por um mato alto e que fazia muito calor. Seu pai aparecia na periferia de sua visão, no outro extremo do matagal. Não dizia nada. Limitava-se a olhar enquanto os pumas saíam do mato alto, esguios e de olhos amarelos. Tinham o mesmo tom marrom-amarelado do capim, e portanto era impossível vê-los antes de já ser tarde demais. Quando Joe via o primeiro, gritava para avisar Graciela e Tomás, mas sua própria garganta já tinha sido arrancada pelo felino sentado em cima de seu peito. Reparava como o próprio sangue era vermelho em contraste com os grandes dentes brancos do animal, e então fechava os olhos enquanto este tornava a atacar.

Serviu-se de mais café e espantou o sonho da cabeça.

“Eu acho”, respondeu a Graciela, “que já está na hora de você rever Ybor.”

Para sua grande surpresa, a restauração da casa estava quase concluída. E na semana anterior ele e Ciggy haviam instalado os torrões de grama na parte externa do campo de beisebol. Nada os prendia a Cuba por enquanto exceto Cuba em si.

Partiram nos últimos dias de setembro, no final da estação das chuvas. Zarparam do porto de Havana, atravessaram os estreitos da Flórida e seguiram rumo ao norte pela costa oeste do estado, chegando ao porto de Tampa no fim da tarde do dia 29 de setembro.

Seppe Carbone e Enrico Pozzetta, que haviam galgado depressa os degraus da organização de Dion, foram recebê-los no terminal de passageiros, e Seppe explicou que a notícia de sua chegada havia se espalhado. Mostrou a Joe a página cinco do Tribune:

FAMOSO CHEFÃO DA MÁFIA DE YBOR REGRESSA À CIDADE

Segundo a matéria, a Ku Klux Klan tornara a fazer ameaças, e o fbi estava cogitando indiciá-lo.

“Meu Deus do céu, como é que eles conseguem inventar essas merdas?”, comentou Joe.

“Quer me dar seu casaco, sr. Coughlin?”

Por cima do terno, Joe estava usando um impermeável de seda comprado em Havana. Era importado de Lisboa, e tão leve sobre seu corpo quanto uma camada de pele, mas a chuva não passava de jeito nenhum. Durante a última hora da viagem de barco, Joe vira as nuvens se adensando, o que não fora nenhuma surpresa — a estação chuvosa de Cuba podia ser até bem pior, mas a de Tampa também não era nenhuma brincadeira e, a julgar pelas nuvens, ainda não havia terminado.

“Vou ficar com ele”, respondeu Joe. “Ajude minha mulher com as malas.”

“Claro.”

Os quatro saíram do terminal de passageiros e entraram no estacionamento, Seppe à direita de Joe, Enrico à esquerda de Graciela. Tomás ia sentado no quadril de Joe com os braços em volta de seu pescoço, e Joe estava olhando as horas quando ouviram o barulho do primeiro tiro.

Seppe morreu em pé — Joe já tinha visto isso acontecer várias vezes. Continuou segurando as malas de Graciela enquanto um buraco se abria bem no meio de sua testa. Joe se virou quando Seppe estava caindo e o segundo tiro seguiu o primeiro; ouviu o atirador dizer alguma coisa com uma voz calma e seca. Joe apertou Tomás contra o ombro e se jogou em cima de Graciela, e os três desabaram no chão.

Tomás deu um grito, mais de choque que de dor até onde Joe pôde constatar, e Graciela soltou um grunhido. Joe ouviu Enrico disparar sua arma. Olhou para ele, viu que Enrico fora atingido no pescoço e que o sangue vazava de seu corpo depressa demais e escuro demais, mas que ele disparava o Colt 45 de 1917, disparando-o para debaixo do carro mais próximo.

Joe então pôde ouvir o que o atirador estava dizendo.

“Penitência. Penitência.”

Tomás abriu o berreiro. Não de dor, mas de medo; Joe sabia a diferença. Perguntou para Graciela: “Tudo bem com você? Tudo bem?”.

“Tudo”, respondeu ela. “Fiquei sem ar. Pode ir.”

Joe rolou para longe deles, sacou a 32 e foi se juntar a Enrico.

“Penitência.”

Os dois se puseram a disparar para debaixo do carro, em direção a um par de botas e pernas de calças pardas.

“Penitência.”

Na quinta tentativa de Joe, o seu tiro e o de Enrico acertaram o alvo ao mesmo tempo. O de Enrico abriu um rombo na bota esquerda do atirador, e o de Joe partiu ao meio seu tornozelo esquerdo.

Joe olhou para Enrico a tempo de vê-lo dar uma única tossida e morrer. Foi muito rápido, e ele expirou com a arma na mão ainda soltando fumaça. Joe pulou por cima do capô do carro que o separava do atirador e aterrissou no chão em frente a Irving Figgis.

O ex-comandante estava usando um terno pardo e uma camisa branca desbotada. Tinha um chapéu de palha de caubói na cabeça, e usou a pistola, uma Colt de cano longo, para se levantar apoiado no pé que não fora atingido. Ficou ali em pé no estacionamento de cascalho, vestido com seu terno pardo, o pé estraçalhado pendurado no coto do tornozelo assim como a pistola pendia da mão.

Encarou Joe nos olhos. “Penitência.”

Joe manteve a própria arma apontada para o meio do peito de Irv. “Não estou entendendo.”

“É preciso se penitenciar.”

“Certo”, disse Joe. “Para quem?”

“Para Deus.”

“E quem disse que eu não me penitencio com Deus?” Joe deu um passo mais para perto dele. “O que eu não vou fazer, Irv, é me penitenciar com você.”

“Então se penitencie com Deus na minha presença”, disse Irv, com a respiração esgarçada e acelerada.

“Não”, disse Joe. “Porque nesse caso ainda vai ser por sua causa e não por causa de Deus, não é?”

Irv estremeceu várias vezes. “Ela era a minha menininha.”

Joe aquiesceu. “Mas não fui eu quem a tirou de você, Irv.”

“Foram os da sua laia.” Os olhos de Irv se abriram e se fixaram no corpo de Joe, em alguma coisa na região da cintura.

Joe baixou os olhos e não viu nada.

“Da sua laia”, repetiu Irv. “Da sua laia.”

“Qual é a minha laia?”, perguntou Joe, e arriscou outra olhada para o próprio peito, mas continuou sem ver nada.

“Gente sem Deus no coração.”

“Eu tenho Deus no coração”, disse Joe. “Só não é o mesmo Deus que o seu. Por que ela se matou na sua cama?”

“O quê? ” Irv agora estava chorando.

“Aquela casa tinha três quartos de dormir”, disse Joe. “Por que ela se matou no seu?”

“Seu homem doente e solitário. Doente e solitário...”

Irv olhou para algo por cima do ombro de Joe e em seguida tornou a olhar para sua cintura.

E foi mais forte do que Joe. Ele deu uma boa olhada na própria cintura e viu uma coisa que não estava ali quando descera do barco. Algo que não estava em sua cintura; estava no seu casaco. Aberto no seu casaco.

Um buraco. Um buraco perfeitamente redondo na aba direita do impermeável, na altura do quadril direito.

Irv tornou a encará-lo, e em seus olhos havia uma grande vergonha.

“Eu sinto”, disse Irv, “sinto tanto.”

Joe ainda estava tentando entender aquilo direito quando Irv viu o que estava esperando e deu dois pulinhos de uma perna só para o meio da rua e para a frente de um caminhão de carvão.

O motorista acertou Irv e na mesma hora pisou no freio, mas tudo o que conseguiu com isso foi derrapar no chão de tijolo vermelho, e Irv foi parar debaixo de seus pneus e o caminhão quicou ao esmagar seus ossos e passar por cima dele.

Joe deu as costas para a rua, ouviu o motorista ainda derrapando, olhou para o buraco em seu impermeável e percebeu que a bala o havia atingido por trás. Passara direto pelo tecido, errando seu quadril por sabe-se lá quantos centímetros. A aba devia estar voando nessa hora quando ele protegeu a família. Quando ele...

Olhou por cima do carro, viu Graciela tentando se levantar e viu o sangue que lhe escorria da cintura, de toda a parte central de seu corpo. Mergulhou por cima do capô e aterrissou de quatro na sua frente.

“Joseph?”, disse ela.

Pôde ouvir o medo na voz dela. Pôde ouvir a certeza na voz dela. Arrancou o impermeável. Encontrou o ferimento logo acima da virilha, pressionou o casaco embolado contra o corpo dela e disse:

“Não, não, não, não, não, não, não, não.”

Ela não tentava mais se mexer. Decerto não conseguia.

Uma jovem se atreveu a pôr a cabeça para fora da porta do terminal de passageiros, e Joe berrou: “Um médico! Vá chamar um médico!”.

A mulher tornou a entrar e Joe viu Tomás olhando para ele, com a boca aberta mas sem emitir nenhum som.

“Eu te amo”, disse Graciela. “Sempre amei.”

“Não”, disse Joe, encostando a testa na dela. Apertou o casaco contra o ferimento com a maior força de que foi capaz. “Não, não, não. Você é minha... você é meu... Não.”

“Psiu”, disse ela.

Ele afastou a cabeça da sua enquanto ela ia se distanciando e não parava de se distanciar. “Meu mundo”, disse ele.