Os Filhos da Noite
Capítulo 12
MÚSICA E ARMAS
Joe tinha pedido a Maso para lhe arrumar hospedagem em um hotel. Em seu primeiro mês na cidade, não queria pensar em nada a não ser nos negócios — o que incluía a procedência de sua próxima refeição, como seus lençóis e roupas eram lavados, e quanto tempo o cara que havia entrado no banheiro antes dele iria demorar. Maso disse que havia reservado um quarto para ele no Hotel Tampa Bay, cujo nome soava bem aos ouvidos de Joe, ainda que um pouco sem imaginação. Pensou que se tratasse de um hotel de beira de estrada, com camas decentes, comida sem gosto mas palatável e travesseiros murchos.
Em vez disso, Dion foi se aproximando com o carro de um palacete à beira do lago. Quando Joe articulou esse pensamento em voz alta, o amigo comentou: “Na verdade é assim que chamam esse hotel... Palacete Plant”. Henry Plant havia construído o palacete, mais ou menos como havia construído a maior parte da Flórida, para atrair especuladores imobiliários que tinham chegado à cidade aos montes nas duas décadas anteriores.
Antes de Dion conseguir chegar à porta principal, um trem passou na sua frente. Não era um trem de brinquedo, embora ele apostasse que havia trens de brinquedo ali também, mas uma locomotiva transcontinental com quase meio quilômetro de comprimento. Joe e Dion ficaram parados pouco antes do estacionamento vendo homens ricos, mulheres ricas e seus ricos filhos desembarcarem do trem. Enquanto aguardavam, Joe contou mais de cem janelas no hotel. No alto das paredes de tijolo vermelho havia uma série de águas-furtadas que Joe supôs serem as suítes. Seis minaretes se erguiam ainda mais alto do que as águas-furtadas, apontando em direção ao céu branco ofuscante — um palácio de inverno russo no meio dos pântanos dragados da Flórida.
Um casal elegante trajando roupas brancas engomadas desceu do trem. As três babás e os três filhos elegantes desceram atrás. Logo em seu encalço, dois carregadores negros empurravam carrinhos de bagagem com altas pilhas de baús de viagem.
“A gente volta depois”, disse Joe.
“Como é?”, estranhou Dion. “Podemos estacionar aqui e levar suas malas até lá. Pegar um...”
“A gente volta depois.” Joe ficou olhando o casal entrar no hotel como se tivesse sido criado em casas duas vezes maiores do que aquela. “Não quero esperar na fila.”
Dion pareceu prestes a dizer mais alguma coisa sobre o assunto, mas então suspirou baixinho, e os dois voltaram pela estrada, atravessando pequenas pontes de madeira e margeando um campo de golfe. Viram um casal mais velho sentado em um riquixá sendo puxado por um latino baixinho de camisa branca de mangas compridas e calça também branca. Plaquinhas de madeira apontavam para as quadras de shuffleboard, reserva de caça, canoas, quadras de tênis e pista de corrida. Passaram pelo campo de golfe, mais verde do que Joe teria apostado que estaria com aquele calorão, e a maioria das pessoas que viram trajava branco e carregava sombrinhas, até mesmo os homens, e suas risadas soavam secas e distantes no ar.
Entraram em Lafayette Street e chegaram ao centro. Dion contou a Joe que os Suárez iam a Cuba com frequência, e pouca gente sabia muita coisa sobre eles. Ivelia, segundo diziam, fora casada com um homem que havia morrido durante a rebelião de trabalhadores da cana-de-açúcar em 1912. Dizia-se também que a história era uma fachada para disfarçar suas inclinações lésbicas.
“Esteban tem várias empresas, tanto aqui quanto lá”, disse Dion. “Um cara jovem, bem mais jovem do que a irmã. Mas esperto. O pai fez negócios com Ybor em pessoa quando Ybor...”
“Espere aí”, disse Joe, “esta cidade foi batizada em homenagem a um homem só?”
“Sim”, respondeu Dion. “Vicente Ybor. Ele era do ramo dos charutos.”
“Isso sim é poder”, comentou Joe. Olhou pela janela e viu Ybor City ao leste, bela assim vista de longe, fazendo Joe pensar outra vez em Nova Orleans, só que uma versão bem menor.
“Sei lá”, disse Dion. “Coughlin City?” Ele balançou a cabeça. “Não soa bem.”
“Não mesmo”, concordou Joe. “Mas e Condado de Coughlin?”
Dion deu uma risadinha. “Sabe de uma coisa? Nada mau.”
“Soa bem, não é?”
“Você passou a ter mania de grandeza quando estava na prisão?”, perguntou Dion.
“Se você preferir sonhar pequeno...”, retrucou Joe.
“Que tal País de Coughlin? Não, espere, que tal Continente Coughlin?”
Joe riu, e Dion gargalhou e deu vários tapas no volante, e Joe ficou surpreso ao constatar quanta falta sentira do amigo e quanto seu coração iria se partir caso tivesse que ordenar seu assassinato no fim daquela semana.
Dion desceu Jefferson Street em direção aos tribunais e prédios do governo; o tráfego ficou mais lento, e o calor tornou a entrar no carro.
“E agora, o que fazemos?”, indagou Joe.
“Você quer heroína? Morfina? Cocaína?”
Joe fez que não com a cabeça. “Parei com tudo para a Quaresma.”
“Bom, se um dia decidir se viciar, este é o lugar certo, amizade. Tampa, Flórida: capital dos narcóticos ilícitos no Sul.”
“A Câmara de Comércio sabe disso?”
“Sabe, e não gosta nem um pouco. Mas, enfim, o motivo pelo qual falei nisso...”
“Ah, tem um motivo”, disse Joe.
“Acontece comigo de vez em quando.”
“Nesse caso, senhor, queira ter a gentileza de prosseguir.”
“Um dos caras de Esteban, um tal de Arturo Torres, foi pego semana passada por cocaína. Normalmente teria saído meia hora depois de entrar, mas neste momento tem uma força-tarefa federal metendo o bedelho por aí. Uns caras da receita apareceram no início do verão com um bando de juízes, e o cerco apertou. Arturo vai ser deportado.
“E nós com isso?”
“Ele é o melhor fabricante de bebidas de Esteban. Em Ybor, se você vir uma garrafa de rum com as iniciais de Torres na rolha, vai custar o dobro.”
“E ele vai ser deportado quando?”
“Daqui a umas duas horas.”
Joe cobriu o rosto com o chapéu e afundou no assento. De repente, sentiu-se exausto com a viagem de trem, o calor, com tanto raciocínio, com aquele desfile ofuscante de gente rica e branca com suas roupas ricas e brancas. “Me acorde quando a gente chegar lá.”
Depois de encontrar o juiz, eles saíram do tribunal para fazer uma visita de cortesia ao comandante do Departamento de Polícia de Tampa, Irving Figgis.
A sede da polícia ficava na esquina da Florida Avenue com Jackson Street, e Joe já tinha se orientado o bastante para perceber que teria de passar por ele todos os dias no caminho do hotel para o trabalho em Ybor. Nisso, policiais eram como freiras — sempre faziam você saber que estavam observando.
“Ele pediu para você se apresentar para não ter que ir buscá-lo”, explicou Dion enquanto subiam os degraus do prédio.
“Como ele é?”
“Da polícia, ou seja, um babaca”, respondeu Dion. “Tirando isso, é um cara legal.”
Em sua sala, Figgis estava rodeado por fotografias das mesmas três pessoas — uma esposa, um filho e uma filha. Eram todos louros e espantosamente atraentes. As crianças tinham a pele tão imaculada que pareciam ter sido esfregadas por anjos. O comandante apertou a mão de Joe, olhou-o bem nos olhos e lhe pediu para se sentar. Irving Figgis não era um homem alto, nem grande ou musculoso. Era esguio, tinha a estatura mais para baixa, e usava os cabelos grisalhos cortados curtos rente ao crânio. Parecia ser um homem que o trataria de forma justa se você também o tratasse, mas que transformaria sua vida em um inferno duas vezes pior do que a encomenda se você o fizesse passar por bobo.
“Não vou ofendê-lo perguntando a natureza do seu trabalho para que o senhor não precise me ofender mentindo”, disse ele. “De acordo?”
Joe assentiu.
“É verdade que o senhor é filho de um capitão da polícia?”
Joe aquiesceu. “Sim, comandante.”
“Então o senhor entende.”
“Entendo o que, comandante?”
“Que isto aqui”, ele apontou alternadamente para o próprio peito e para o de Joe, “é como nós vivemos. Mas o resto?” — Ele gesticulou para as fotografias. “Bem, o resto é o motivo pelo qual nós vivemos.”
Joe assentiu. “E os dois nunca irão se encontrar.”
O comandante Figgis sorriu. “Ouvi dizer também que é instruído.” Um olhar de relance para Dion. “Não é muito comum no seu ramo.”
“Nem no seu”, retrucou Dion.
Figgis sorriu e inclinou a cabeça para trás, reconhecendo o fato. Encarou Joe com um olhar brando. “Antes de me mudar para cá, fui soldado, depois oficial de justiça federal. Já matei sete homens nesta vida”, disse ele sem um pingo de orgulho.
Sete, pensou Joe? Meu Deus do céu.
O olhar do comandante Figgis se manteve suave, neutro. “Matei porque era o meu trabalho. Não tiro prazer disso e, para dizer a verdade, os rostos desses homens vêm me assombrar quase todas as noites. No entanto, se eu precisasse matar um oitavo amanhã para proteger e servir a esta cidade? Faria isso com o braço firme e os olhos secos, meu senhor. Está entendendo até agora?”
“Estou”, respondeu Joe.
O comandante Figgis foi se postar junto a um mapa da cidade na parede atrás de sua mesa, e usou o dedo para traçar um círculo vagaroso em volta de Ybor City.
“Se o senhor mantiver seus negócios limitados a esta área... ao norte da Segunda Avenida, ao sul da Vigésima Sétima, a oeste da rua Trinta e Quatro e a leste da Nebraska Avenue... nós dois teremos poucos motivos para discordar.” Ele arqueou a sobrancelha de leve para Joe. “Que tal lhe parece?”
“Parece bom”, respondeu Joe, perguntando-se quando o comandante iria dar seu preço.
Figgis viu a pergunta nos olhos de Joe, e os seus escureceram de leve. “Eu não aceito subornos. Se aceitasse, três desses sete mortos que mencionei ainda estariam entre os vivos.” Ele deu a volta, sentou-se na borda da mesa e pôs-se a falar com uma voz muito baixa. “Meu jovem sr. Coughlin, não tenho ilusões quanto à maneira como os negócios são feitos nesta cidade. Se o senhor me perguntasse em particular o que penso de Volstead, o responsável pela Lei Seca, me veria fazer uma imitação bem razoável de uma chaleira fervendo. Sei que muitos de meus agentes aceitam dinheiro para olhar para o outro lado. Sei que sirvo a uma cidade mergulhada em corrupção. Sei que vivemos em um mundo desgraçado. Mas, só porque eu respiro um ar corrompido e convivo com gente corrupta, nunca cometa o erro de pensar que sou corruptível.”
Joe perscrutou a expressão do comandante em busca de sinais de fanfarronice, orgulho ou autoenaltecimento — as fraquezas habituais que passara a associar com os self-made men.
A única coisa que o encarou de volta foi uma força moral tranquila.
O comandante Figgis, concluiu ele, jamais deveria ser subestimado.
“Não vou cometer esse erro”, disse Joe.
O comandante Figgis estendeu a mão, e Joe a apertou.
“Obrigado por ter vindo. Cuidado com o sol.” Um clarão bem-humorado atravessou a expressão de Figgis. “Desconfio que essa sua pele seja capaz de pegar fogo.”
“Prazer em conhecê-lo, comandante.”
Joe andou até a porta, Dion a abriu, e do outro lado estava postada uma menina adolescente, ofegante, explodindo de energia. Era a filha que aparecia nas fotos, linda e loura, com a pele rosada tão perfeita que era como se irradiasse uma suave luz do sol. Joe avaliou que tivesse dezessete anos. A beleza da menina encontrou sua garganta, fechou-a por um instante, e reteve ali as palavras prestes a sair de sua boca, de modo que tudo o que ele conseguiu articular foi um hesitante: “Senhorita...”. No entanto, não era uma beleza que evocasse nada de carnal. De certa forma, era mais pura do que isso. A beleza da filha do comandante Irving Figgis não era algo que a pessoa quisesse conspurcar; era algo que a pessoa queria beatificar.
“Sinto muito, pai”, disse ela. “Achei que o senhor estivesse sozinho.”
“Tudo bem, Loretta. Os cavalheiros estão de saída. Onde estão seus modos?”, perguntou.
“Sim, pai, desculpe.” Virando-se, ela fez uma pequena mesura para Joe e Dion. “Srta. Loretta Figgis, cavalheiros.”
“Joe Coughlin, srta. Loretta. Prazer em conhecê-la.”
Quando Joe apertou de leve a mão da menina, teve o impulso muito estranho de fazer uma genuflexão. Ficou pensando nisso o dia inteiro: em como ela era imaculada, como era delicada, e como devia ser difícil ser pai de algo tão frágil.
* * *
Mais tarde nessa mesma noite, os dois foram jantar no Vedado Tropicale, em uma mesa à direita do palco que lhes proporcionava uma visão perfeita das dançarinas e da banda. Como era cedo, a banda — baterista, pianista, trompetista e trombonista — tocava músicas animadas, mas sem dar tudo de si. As dançarinas usavam pouco mais do que combinações claras feito gelo, cuja cor combinava com os arranjos de cabeça variados. Duas delas usavam bandôs de paetês com aigrettes se erguendo do centro da testa. Outras tinham redes prateadas nos cabelos, com rosetas de miçangas translúcidas e franjas. Dançavam com uma das mãos no quadril e a outra erguida no ar, apontada para o público. Exibiam aos clientes da hora do jantar a quantidade exata de pele e movimentos para não ofender as damas, mas para garantir que os cavalheiros voltassem mais tarde.
Joe perguntou a Dion se o jantar ali era o melhor da cidade.
Dion sorriu ao mesmo tempo que abocanhava uma garfada de lechón asado e mandioca frita. “Do país.”
Joe sorriu.
“Nada mau, devo dizer.” Joe tinha pedido uma ropa vieja com feijão preto e arroz com açafrão-da-terra. Limpou o prato e desejou que este fosse maior.
O maître apareceu e lhes informou que o café os aguardava junto com seus anfitriões, e Joe e Dion o seguiram pelo chão de lajotas brancas, passaram pelo palco e atravessaram uma cortina de veludo escuro. Desceram um corredor revestido do mesmo carvalho vermelho dos tonéis de rum, e Joe se perguntou se teriam comprado algumas centenas de tonéis do outro lado do golfo só para forrar aquele corredor. Teriam de ter comprado mais do que algumas centenas, na realidade, pois o escritório era revestido da mesma madeira.
Estava fresco lá dentro. O piso era de pedra escura, e ventiladores de teto feitos de ferro que pendiam das vigas estalavam e rangiam. As ripas das venezianas caribenhas abertas deixavam entrar a noite e o zumbido interminável das libélulas.
Esteban Suárez era um homem esbelto, e sua pele perfeita tinha a cor de um chá bem claro. Os olhos tinham o mesmo tom de amarelo dos de um gato, e os cabelos, penteados com brilhantina para longe da testa, eram da cor do rum escuro da garrafa sobre a mesa de centro. Estava usando uma casaca e uma gravata-borboleta de seda preta, e os recebeu com um sorriso radioso e um aperto de mão pleno de vigor. Conduziu-os até poltronas de encosto alto com abas laterais dispostas em volta de uma mesa de centro de cobre. Sobre a mesa havia quatro pequeninas xícaras de café cubano, quatro copos d’água e a garrafa de rum Suárez Reserva dentro de um cesto de vime.
Ivelia, irmã de Esteban, levantou-se de onde estava sentada e estendeu a mão. Joe fez uma mesura, segurou a mão dela e ali roçou de leve os lábios. A pele recendia a gengibre e serragem. Ela era bem mais velha do que o irmão, e tinha a pele tesa sobre um maxilar comprido e maçãs do rosto e cenho saltados. As grossas sobrancelhas se uniam no centro feito um bicho-da-seda, e os grandes olhos pareciam aprisionados dentro do crânio, saltados para escapar mas incapazes de fazê-lo.
“Como estava o jantar?”, perguntou Esteban quando os dois se sentaram.
“Excelente, obrigado”, respondeu Joe.
Esteban lhes serviu copos de rum e puxou um brinde. “A uma relação promissora.”
Todos beberam. Joe ficou espantado com a suavidade e o sabor do rum. Aquele era o gosto da bebida alcoólica quando se tinha mais de uma hora para destilá-la, mais de uma semana para fermentá-la. Meu Deus do céu.
“Excepcional.”
“Este é o quinze anos”, disse Esteban. “Nunca concordei com o regulamento espanhol de antigamente, segundo o qual o rum mais claro era superior.” Pensar nisso o fez balançar a cabeça, e ele cruzou as pernas nos tornozelos. “É claro que nós, cubanos, acatamos o regulamento, pois consideramos que tudo é melhor mais claro: cabelos, pele, olhos.”
Descendentes da linhagem espanhola, e não da africana, os irmãos Suárez tinham a pele clara.
“Sim”, disse Esteban, lendo os pensamentos de Joe. “Minha irmã e eu não pertencemos às classes mais baixas. O que não significa que concordemos com a ordem social de nossa ilha.”
Ele tomou outro gole de rum, e Joe fez o mesmo.
“Que bom seria se pudéssemos vender isto no Norte”, disse Dion.
Ivelia riu. Uma risada muito incisiva e curta. “Um dia. Quando o seu governo voltar a tratar vocês como adultos.”
“Não há pressa”, disse Joe. “Ficaríamos todos sem emprego.”
“Minha irmã e eu não teríamos problemas”, interveio Esteban. “Temos este restaurante, mais dois em Havana e um em Key West. Temos uma fazenda de cana em Cárdenas e outra de café em Marianao.”
“Então por que fazer isto aqui?”
Esteban encolheu os ombros dentro de sua casaca perfeita. “Por dinheiro.”
“Mais dinheiro, o senhor quer dizer.”
O cubano ergueu o copo para brindar a isso. “Há outras coisas com as quais gastar dinheiro que não sejam...” Ele indicou o recinto com o braço. “Coisas.”
“Palavras de um homem que possui muitas coisas”, comentou Dion, e Joe lhe desferiu um olhar.
Pela primeira vez, Joe reparou que a parede oeste do escritório estava inteiramente coberta por fotografias em preto e branco — em sua maioria cenas de rua, fachadas de boates, alguns retratos, uma ou duas aldeias tão arruinadas que o vento seguinte iria derrubá-las.
Ivelia seguiu seu olhar. “É meu irmão quem as tira.”
“Ah, é?”, indagou Joe.
Esteban aquiesceu. “Sempre que volto a Cuba. É um hobby.”
“Hobby”, repetiu sua irmã com um muxoxo. “As fotografias do meu irmão já foram publicadas na revista Time.”
Esteban reagiu com um dar de ombros modesto.
“São boas”, comentou Joe.
“Algum dia quem sabe posso fotografá-lo, sr. Coughlin.”
Joe fez que não com a cabeça. “Infelizmente nesse quesito acho que eu penso como os índios.”
Esteban deu um sorriso de viés. “Falando em almas aprisionadas, lamentei saber sobre o falecimento do señor Ormino ontem à noite.”
“Lamentou, mesmo?”, perguntou Dion.
Esteban deu uma risadinha tão suave que mal se diferenciou de uma expiração. “E amigos me disseram que Gary L. Smith foi visto pela última vez a bordo de um trem da Seabord Limited com a esposa em um vagão-leito e a puta maestra em outro. Dizem que a bagagem dele parecia ter sido empacotada às pressas, mas que era abundante.”
“Às vezes mudar de ares pode renovar a vida de um homem”, comentou Joe.
“Foi assim para o senhor?”, indagou Ivelia. “Veio para Ybor em busca de uma vida nova?”
“Eu vim refinar, destilar e distribuir o rum do demônio. Mas vou ter problemas para fazer isso com sucesso se tiver um cronograma de importação irregular.”
“Nós não controlamos todas as embarcações, todos os oficiais de alfândega nem todas as docas”, disse Esteban.
“É claro que controlam.”
“Não controlamos as marés.”
“As marés não prejudicaram os barcos com destino a Miami.”
“Não tenho nada a ver com os barcos que vão para Miami.”
“Eu sei disso.” Joe assentiu com a cabeça. “Quem administra essa rota é Nestor Famosa. E ele garantiu a meus sócios que o mar tem se mostrado calmo e previsível neste verão. Pelo que ouvi dizer, Nestor Famosa é um homem de palavra.”
“E com isso o senhor quer dizer que eu não sou.” Esteban serviu a todos mais um copo de rum. — Também está mencionando o señorFamosa para me deixar preocupado que ele talvez possa assumir minhas rotas de abastecimento caso o senhor e eu não cheguemos a um acordo.”
Joe pegou seu copo sobre a mesa e deu um golinho. “Estou mencionando Famosa... meu Deus do céu, este rum é perfeito... para ilustrar o fato de que os mares têm estado calmos neste verão. Atipicamente calmos para a estação, segundo me disseram. Eu não faço rodeios, señorSuárez, nem costumo falar por enigmas. Pergunte a Gary L. Smith. O que eu quero é eliminar todos os intermediários e tratar com o senhor diretamente. Para isso, os senhores podem aumentar um pouco o preço. Comprarei todo o melaço e todo o açúcar que tiverem. Além disso, proponho que os senhores e eu financiemos em parceria uma destilaria melhor do que as que temos atualmente cevando todas as ratazanas da Sétima Avenida. Eu não herdei apenas as responsabilidades de Lou Ormino: herdei também os conselheiros municipais, policiais e juízes que ele comprou. Muitos desses homens não lhe dirigem a palavra porque o senhor é cubano, por mais alta que seja a sua estirpe. Poderá ter acesso a eles graças a mim.”
“Sr. Coughlin, o único motivo pelo qual o señor Ormino teve acesso a esses juízes e policiais foi porque tinha o señor Smith como fachada para o público. Esses homens não apenas se recusam a negociar com um cubano, mas também se recusam a negociar com um italiano. Para eles nós somos todos latinos, todos cães de pele escura, bons para trabalhar, mas praticamente para mais nada.”
“Que sorte eu ser irlandês”, disse Joe. “Acho que o senhor conhece um homem chamado Arturo Torres.”
As sobrancelhas de Esteban exibiram um movimento fugaz.
“Ouvi dizer que ele foi deportado hoje à tarde”, disse Joe.
“Também ouvi dizer isso”, falou Esteban.
Joe aquiesceu. “Para demonstrar nossa boa-fé, Arturo foi solto da cadeia meia hora atrás e deve estar lá embaixo no restaurante neste exato momento.”
Por alguns instantes, o rosto comprido e sem graça de Ivelia ficou ainda mais comprido de surpresa, ou até deleite. Ela olhou na direção do irmão e este concordou. Ivelia deu a volta na mesa até o telefone. Enquanto aguardavam, os três ficaram bebericando rum.
Ivelia desligou o telefone e voltou ao seu lugar. “Ele está no bar.”
Esteban tornou a se recostar na poltrona e estendeu as mãos, com os olhos fixos em Joe. “O senhor iria querer direitos exclusivos ao nosso melaço, suponho.”
“Exclusivos, não”, respondeu Joe. “Mas os senhores não podem vender para a organização de White nem para nenhuma pessoa ligada a ela. Qualquer operação pequena sem associação com White ou conosco pode continuar tocando seus negócios. Vamos acabar conseguindo trazê-las para trabalhar conosco.”
“E em troca disso eu ganho acesso aos seus políticos e policiais.”
Joe assentiu. “E aos meus juízes. Não só os que temos agora, mas os que teremos no futuro.”
“O juiz que o senhor acionou hoje foi nomeado pelo poder federal.”
“E tem três filhos com uma negra de Ocala cuja existência muito espantaria sua esposa e o presidente Herbert Hoover.”
Esteban passou um bom tempo olhando para a irmã antes de tornar a se virar para Joe. “Albert White é um bom cliente. Tem sido já faz algum tempo.”
“Há dois anos”, disse Joe. “Desde que alguém cortou a garganta de Clive Green em um puteiro no lado leste da Vigésima Quarta Avenida.”
Esteban arqueou as sobrancelhas.
“Estou na prisão desde março de 27, señor Suárez. Não tive nada para fazer exceto meu dever de casa. Albert White pode lhe oferecer o que estou oferecendo?”
“Não”, admitiu Esteban. “Mas tirá-lo da jogada me causaria uma guerra que não posso travar. Simplesmente não posso. Gostaria de ter conhecido o senhor há dois anos.
“Bem, está me conhecendo agora”, disse Joe. “Eu lhe ofereci juízes, policiais, políticos e um modelo de destilaria centralizado para que ambos possamos dividir os lucros por igual. Eliminei os dois elos mais fracos da minha organização e impedi que o seu precioso fabricante de bebida fosse deportado. Fiz tudo isso para que o senhor considere a possibilidade de pôr fim ao seu embargo à operação Pescatore em Ybor porque pensei que estivesse nos mandando um recado. Estou aqui para lhe dizer que ouvi seu recado. E, se me disser do que precisa, vou providenciar. Mas o senhor tem que me dar o que eu preciso.”
Esteban e a irmã trocaram outro olhar.
“Tem uma coisa que o senhor poderia providenciar para nós”, disse ela.
“Muito bem.”
“Mas está muito bem guardada e não vai ser possível obtê-la sem brigar.”
“Tudo bem, tudo bem”, disse Joe. “Nós vamos conseguir.”
“O senhor não sabe nem o que é.”
“Se conseguirmos, os senhores vão romper todos os vínculos com Albert White e os sócios dele?”
“Sim.”
“Mesmo que isso cause derramamento de sangue.”
“Com certeza vai causar derramamento de sangue”, disse Esteban.
“Sim, vai mesmo”, concordou Joe.
Esteban refletiu pesarosamente sobre isso por alguns instantes, e a tristeza encheu o recinto. Ele então tornou a sugá-la rapidamente da sala. “Se fizer o que vou pedir, Albert White nunca mais vai ver uma gota sequer do melaço ou do rum destilado dos Suárez. Nenhuma gota.”
“Ele vai poder comprar açúcar dos senhores no atacado?”
“Não.”
“Fechado”, disse Joe. “Do que vocês precisam?”
“De armas.”
“Certo. É só dizer o modelo.”
Esteban esticou a mão para trás de si e pegou um pedaço de papel sobre a mesa. Ajeitou os óculos e consultou o papel.
“Fuzis automáticos Browning, pistolas automáticas e metralhadoras calibre 50 com tripés.”
Joe olhou para Dion, e ambos deram uma risadinha.
“Algo mais?”
“Sim”, respondeu Esteban. “Granadas. E minas de caixa.”
“O que são minas de caixa?”
“Estão no navio”, respondeu Esteban.
“Que navio?”
“O navio de transporte militar”, respondeu Ivelia. “No Píer Sete.” Ela inclinou a cabeça em direção à parede dos fundos da sala. “A nove quarteirões daqui.”
“Querem que ataquemos um navio da Marinha”, disse Joe.
“Isso.” Esteban olhou para o relógio. “Em dois dias no máximo, por favor, senão eles vão zarpar.” Ele entregou a Joe um pedaço de papel dobrado. Ao desdobrá-lo, Joe sentiu um espaço oco se abrir no centro de seu corpo, e lembrou-se de como havia entregado bilhetes iguais àquele ao pai. Passara dois anos dizendo a si mesmo que o peso daqueles bilhetes não tinha matado seu pai. Em algumas noites, quase conseguia convencer a si mesmo.
Círculo Cubano, oito da manhã.
“Vá até lá de manhã”, instruiu Esteban. “Irá encontrar uma mulher chamada Graciela Corrales. Receberá ordens dela e do seu sócio.”
Joe guardou o papel no bolso. “Não recebo ordens de mulher.”
“Se quiser Albert White fora de Tampa, vai receber ordens dela”, retrucou Esteban.