Os Filhos da Noite
Capítulo 26
DE VOLTA AO ESCURO
O túnel que conduzia até o Hotel Romero começava no Píer Doze do cais. Dali, percorria oito quarteirões por baixo de Ybor City e levava quinze minutos para ser percorrido caso não estivesse alagado pela maré cheia ou infestado de ratazanas noturnas. Para sorte de Joe e seus homens, quando eles chegaram ao píer era meio-dia, e a maré estava baixa. Levaram dez minutos para percorrer o túnel. Estavam queimados de sol, desidratados e, no caso de Joe, feridos, mas ele explicara muito bem para todo mundo durante o trajeto de volta de Egmont Key que, se Maso tivesse metade da inteligência que Joe sabia que tinha, teria estabelecido um limite de tempo dentro do qual deveria ter notícias de Albert. Caso imaginasse que tudo saíra errado, não perderia tempo deixando rastros.
O túnel terminava em uma escada. Esta subia até a porta da sala da fornalha. Logo depois da sala da fornalha ficava a cozinha. Depois da cozinha ficava a sala do gerente, e depois disso a recepção. Em cada uma dessas três últimas posições, eles poderiam ver e ouvir se algo os estivesse aguardando depois das portas, mas entre o alto da escada e a sala da fornalha havia um baita ponto de interrogação. A porta de aço ficava sempre trancada, pois durante a operação normal ela só se abria depois que uma senha era ouvida. O Romero nunca tinha sido atacado, pois Esteban e Joe pagavam os donos de modo que estes pagassem as pessoas certas para que olhassem para o outro lado, e também porque o hotel não chamava atenção. Não tinha um bar clandestino movimentado; apenas destilava e distribuía.
Depois de alguns debates sobre como passar por uma porta de aço com três trincos e a extremidade errada do cilindro do seu lado da porta, decidiram que a melhor pontaria do grupo — no caso, Carmine Parone — daria cobertura do alto da escada enquanto Dion cuidava do trinco usando uma espingarda.
“Se houver alguém do outro lado dessa porta, vamos virar um alvo fácil”, disse Joe.
“Não”, discordou Dion. “Eu e Carmine vamos virar um alvo fácil. Caramba, não sei nem se vamos sobreviver aos ricochetes. Mas vocês, seus maricas? Porra.” Ele sorriu para Joe. “Protejam-se.”
Joe e os outros tornaram a descer pela escada até o túnel, e ouviram Dion dizer a Carmine: “Última chance”, antes de disparar o primeiro tiro na dobradiça. O estrondo foi forte — metal contra metal dentro de um recinto feito de concreto e metal. Mas Dion não aguardou. Com o barulho dos estilhaços ainda a ressoar, disparou um segundo e um terceiro tiros, e Joe imaginou que, se ainda houvesse alguém dentro do hotel, estariam vindo ao seu encontro agora. Caramba, se só houvesse gente no nono andar, com certeza agora estavam a par da sua presença.
“Vamos, vamos!”, gritou Dion.
Carmine não conseguira se salvar. Dion tirou seu corpo do caminho e o sentou contra a parede enquanto os outros subiam a escada. Um pedaço de metal — vindo só Deus sabe de onde — havia penetrado no cérebro de Carmine pelo olho, e ele os encarava com o olho intacto, um cigarro apagado ainda pendendo da boca.
Eles arrancaram a porta das dobradiças, entraram na sala das caldeiras e atravessaram-na até chegar à destilaria e à cozinha mais além. A porta entre a cozinha e a sala do gerente tinha uma janela circular no centro que dava para um pequeno corredor de acesso com piso de borracha. A porta do gerente estava entreaberta, e o escritório do outro lado exibia indícios de uma comemoração recente — papel-manteiga cheio de migalhas, copos de café, uma garrafa de uísque vazia, cinzeiros lotados.
Dion deu uma olhada e comentou com Joe: “Pessoalmente, nunca imaginei que fosse ficar velhinho”.
Joe expirou pela boca e passou pela porta. Atravessaram a sala do gerente e saíram atrás da recepção, e a essa altura já sabiam que o hotel estava vazio. Não vazio por causa de uma armadilha, só vazio mesmo. O local para montar uma armadilha teria sido a sala das caldeiras. Se eles quisessem fazê-los avançar mais um pouco só para ter certeza de conseguir pegar todos os retardatários, a cozinha teria sido o melhor local. A recepção, contudo, era um pesadelo de logística — lugares demais para servir de esconderijo, fácil demais de se espalhar, e a dez passos da rua.
Mandaram alguns homens subir até o décimo andar de elevador e mais alguns pela escada, só para o caso de Maso ter bolado uma armadilha que Joe simplesmente fosse incapaz de prever. Os homens retornaram informando que o nono andar estava deserto, embora tivessem encontrado tanto Sal quanto Lefty deitados nas camas dos quartos 909 e 910.
“Desçam com eles”, falou Joe.
“Sim, senhor.”
“E mandem alguém trazer Carmine lá da escada, também.”
Dion acendeu um charuto. “Não acredito que dei um tiro na cara de Carmine.”
“Você não deu”, disse Joe. “Foi ricochete.”
“Grande diferença”, falou Dion.
Joe acendeu um cigarro e deixou Pozzetta, que fora médico do Exército no Panamá, dar mais uma olhada em seu braço.
“O senhor precisa tratar isso, patrão”, pronunciou ele. “Vou arrumar uns remédios.”
“Nós temos remédios”, disse Dion.
“Os remédios certos.”
“Saia pelo fundos”, instruiu Joe. “Vá me arrumar o que preciso, ou então chame o médico.”
“Sim, patrão”, respondeu Pozzetta.
Meia dúzia de agentes da polícia de Tampa comprados por eles foi chamada e chegou ao hotel. Um deles trouxe uma ambulância, e Joe se despediu de Sal, Lefty e Carmine Parone, que noventa minutos antes o havia desenterrado de uma banheira de cimento. O que mais o deixou abalado, porém, foi Sal; somente em retrospecto teve plena consciência de seus cinco anos juntos. Joe o havia convidado para jantar em sua casa incontáveis vezes, e ocasionalmente lhe levava sanduíches no carro durante a noite. Confiara-lhe a própria vida, a vida de Graciela.
Dion pôs uma das mãos em suas costas. “Esse é dureza.”
“Duros fomos nós, com ele.”
“O quê?”
“Hoje de manhã, no meu escritório. Você e eu. Nós fomos duros com ele, D.”
“É.” Dion meneou a cabeça algumas vezes, em seguida se benzeu. “Por que fizemos isso, mesmo?”
“Nem sei mais”, respondeu Joe.
“Devia haver um motivo.”
“Eu queria que significasse alguma coisa”, disse Joe, e deu um passo para trás de modo que seus homens pudessem carregar os corpos na ambulância.
“Mas significa alguma coisa”, disse Dion. “Significa que devemos acabar com a raça dos escrotos que o mataram.”
Quando eles voltaram da plataforma de carregamento, o médico estava aguardando na recepção; limpou o ferimento de Joe e o costurou enquanto Joe recebia os relatórios dos agentes de polícia que mandara chamar.
“Os homens que ele pegou para trabalhar hoje”, perguntou Joe ao sargento Bick, do terceiro batalhão, “ele os paga de forma permanente?”
“Não, sr. Coughlin.”
“Eles sabiam que estariam atacando os meus homens na rua?”
O sargento Bick olhou para o chão. “Devo supor que sim.”
“Eu também devo”, disse Joe.
“Não podemos matar policiais”, disse Dion.
Joe encarava Bick nos olhos quando perguntou: “Por que não?”.
“É malvisto”, respondeu Dion.
“Sabe de algum policial que esteja com Pescatore agora?”, perguntou Joe a Bick.
“Todo mundo que participou do tiroteio hoje está escrevendo relatórios neste exato momento, senhor. O prefeito não está nada feliz. A Câmara de Comércio está furiosa.”
“O prefeito não está feliz?”, repetiu Joe. “Câmara de Comércio é o caralho!” Ele tirou o chapéu da cabeça de Bick com um tapa. “Quem não está feliz sou eu !Todo o resto do mundo que se foda! Quem não está feliz sou eu !”
Fez-se um silêncio estranho no recinto, e ninguém soube para onde olhar. Ninguém conseguia lembrar, inclusive Dion, de ter ouvido Joe levantar a voz uma vez sequer.
Quando ele tornou a falar com Bick, sua voz havia recuperado o volume normal.
“Pescatore não anda de avião. Tampouco gosta de barcos. Isso significa que só há duas maneiras de ele sair desta cidade. Das duas, uma: ou ele está em um comboio a caminho do Norte pela 41, ou então está no trem. Sendo assim, sargento Bick, cate a porra do seu chapéu e vá encontrá-lo.”
Minutos mais tarde, na sala do gerente, Joe ligou para Graciela.
“Como você está?”
“Seu filho é um bruto”, respondeu ela.
“Meu filho, é?”
“Não para de chutar. O tempo todo.”
“Pense pelo lado positivo: faltam só quatro meses”, disse Joe.
“Como você é engraçado”, retrucou ela. “Queria ver você grávido da próxima vez. Queria ver você com a sensação de que a sua barriga está subindo pela garganta. E tendo que fazer xixi mais vezes do que pisca os olhos.”
“Podemos experimentar.” Joe terminou seu cigarro e acendeu outro.
“Fiquei sabendo sobre um tiroteio na Oitava Avenida hoje”, disse ela, e sua voz soou bem mais baixa e bem mais dura.
“É.”
“Acabou?”
“Não”, respondeu Joe.
“Vocês estão em guerra?”
“Estamos em guerra”, respondeu Joe. “Sim.”
“Quando vão terminar?”
“Eu não sei.”
“Algum dia?”
“Eu não sei.”
Os dois passaram um minuto sem dizer nada. Ele a ouviu fumar do outro lado, e ela pôde ouvi-lo fumar do seu. Joe verificou o relógio do pai e viu que este agora tinha meia hora de atraso, apesar de tê-lo acertado no barco.
“Você não entende”, disse ela por fim.
“Não entendo o quê?”
“Que está em guerra desde o dia em que nos conhecemos. E por quê?”
“Para ganhar a vida.”
“Morrer é vida?”
“Eu não estou morto.”
“Mas até o fim do dia de hoje talvez esteja, Joseph. Talvez esteja. Mesmo que você ganhe a batalha de hoje, a próxima batalha e a batalha depois dessa, tem tanta violência no que você faz que um dia essa violência vai ter, vai ter que vir atrás de você. Ela vai encontrá-lo.”
Exatamente o que seu pai lhe tinha dito.
Joe ficou fumando, soprou a fumaça em direção ao telhado e a observou se evaporar. Não podia dizer que não havia alguma verdade nas palavras dela, da mesma forma como talvez tivesse havido alguma verdade nas palavras do pai. Só que ele não tinha tempo para a verdade agora.
“Não sei o que devo dizer agora”, falou.
“Eu também não”, disse ela.
“Ei”, disse ele.
“O que foi?”
“Como você sabe que é menino?”
“Porque ele passa o tempo inteiro chutando as coisas”, respondeu ela. “Igualzinho a você.”
“Ah.”
“Joseph?” Ela tragou seu cigarro. “Não me deixe criar o menino sozinha.”
O único trem marcado para sair de Tampa naquela tarde era o especial Orange Blossom. Os dois trens regulares da Seaboard já tinham partido, e não havia nenhum outro previsto até o dia seguinte. O Especial Orange Blossom era um trem de passageiros de luxo que fazia o trajeto de ida e vinda até Tampa apenas durante os meses de inverno. O problema para Maso, Digger e seus homens era que o trem estava lotado.
Enquanto eles estavam ocupados subornando o condutor, a polícia apareceu. E não eram os agentes pagos por eles.
Maso e Digger estavam sentados na traseira de um Auburn sedã em um descampado, logo a oeste da estação ferroviária, onde tinham uma visão desimpedida do prédio de tijolos vermelhos e de seus detalhes brancos que lembravam glacê de bolo, além dos cinco trilhos que partiam dos fundos do prédio, trilhos cinza-chumbo de aço laminado a quente que se estendiam daquela pequena construção de tijolos e daquela região infinitamente plana para o norte, leste e oeste, espalhando-se qual veias país afora.
“Eu deveria ter entrado no ramo das ferrovias”, disse Maso. “Nos anos 10, quando ainda tinha chance.”
“Nós temos caminhões”, disse Digger. “São melhores do que trens.”
“Caminhões não vão nos tirar desta.”
“Vamos de carro e pronto”, disse Digger.
“Você acha que eles não vão reparar em um bando de carcamanos a bordo de carros de luxo e de chapéu preto na cabeça passando pelas porras dos laranjais?”
“Podemos viajar à noite.”
Maso fez que não com a cabeça. “Barreiras na estrada. A essa altura, aquele irlandês filho da puta já mandou bloquear todas as estradas daqui até Jacksonville.”
“Bom, de trem é que não vamos, pai.”
“Vamos, sim”, retrucou Maso.
“Posso conseguir um avião para decolar de Jacksonville daqui a...”
“Vá você voar em uma daquelas ratoeiras do caralho. Não me peça para ir junto.”
“Aviões são seguros, pai. Mais seguros do que, do que...”
“Do que trens?”, Maso apontou. Na mesma hora, um eco seco estourou no ar e uma fumaça se ergueu de um descampado a mais ou menos um quilômetro e meio dali.
“Caça ao pato?”, perguntou Digger.
Maso olhou na direção do filho e pensou como era triste um homem burro daqueles ser o mais inteligente dos seus três descendentes.
“Você viu algum pato por aqui?”
“Então o que...?” Os olhos de Digger se estreitaram. Ele não conseguiu entender.
“Ele acabou de explodir os trilhos”, disse Maso, olhando na direção do filho. “A propósito, você é retardado assim por causa da sua mãe. Ela não conseguia ganhar uma partida de damas nem de uma porra de uma tigela de sopa.”
* * *
Maso e seus homens ficaram esperando junto a uma cabine telefônica na Platt Avenue enquanto Anthony Servidone seguia na frente até o hotel Tampa Bay com uma mala cheia de dinheiro. Uma hora mais tarde, telefonou para avisar que os quartos estavam providenciados. Não havia polícia no hotel, e nenhum gângster da região até onde ele conseguia constatar. Podiam mandar a equipe de segurança.
Assim fizeram. Não que restasse grande coisa da equipe depois do que havia acontecido naquele rebocador. Eram doze homens a bordo daquele barco, treze, levando em conta Albert White, aquele puto almofadinha. Assim sendo, o grupo encarregado da segurança contava agora com sete homens mais o guarda-costas particular de Maso, Seppe Carbone. Seppe vinha da mesma cidade em que Maso fora criado, Alcarno, no litoral noroeste da Sicília, embora fosse bem mais jovem, e portanto ele e Maso tivessem crescido lá em épocas diferentes. De qualquer forma, Seppe era um homem daquela cidade — impiedoso, destemido e leal até a morte.
Depois de Anthony Servidone ligar de volta confirmando que a equipe de segurança havia revistado o andar dos quartos e o saguão, Seppe conduziu Maso e Digger até a entrada dos fundos do hotel Tampa Bay e eles pegaram o elevador de serviço até o sexto andar.
“Quanto tempo?”, quis saber Digger.
“Até depois de amanhã”, respondeu Maso. “Ficamos escondidos até lá. Nem mesmo aquele irlandesinho de merda tem poder para manter as estradas bloqueadas por tanto tempo. Aí vamos até Miami e pegamos o trem de lá.”
“Eu quero uma garota”, disse Digger.
Maso deu um tapa bem forte atrás da cabeça do filho. “Que parte da palavra ‘escondido’ você não está entendendo? Uma garota? Caralho, uma garota ? Por que não pede a ela para trazer umas amigas, quem sabe uns atiradores também, seu puto imbecil.”
Digger esfregou a cabeça. “Um homem tem necessidades.”
“Se vir um homem aqui por perto, aponte ele para mim”, respondeu Maso.
Chegaram ao sexto andar, e Anthony Servidone estava esperando o elevador. Entregou a Maso a chave de seu quarto, e a Digger, a dele.
“Revistou o quarto?”
Anthony fez que sim com a cabeça. “Estão liberados. Todos eles. O andar inteiro.”
Maso conhecera Anthony em Charlestown, onde todos eram leais a Maso porque o contrário significava morte. Seppe, por sua vez, viera de Alcarno com uma carta do patrão local Todo Bassina, e havia se destacado mais vezes do que Maso era capaz de contar.
“Seppe”, disse ele então, “dê mais uma conferida no quarto.”
“Subito, capo. Subito.” Seppe puxou a Thompson do impermeável e passou pelos homens reunidos em frente à porta da suíte de Maso, na qual entrou.
Anthony Servidone se aproximou. “Eles foram vistos no Romero.”
“Eles quem?”
“Coughlin, Bartolo e um bando de cubanos e italianos que estão do lado deles.”
“Coughlin, com certeza?”
Anthony aquiesceu. “Nenhuma dúvida.”
Maso fechou os olhos só por alguns instantes. “Ele pelo menos sofreu algum arranhão?”
“Sim”, respondeu Anthony depressa, animado em dar alguma notícia boa. “Um corte grande na cabeça, e levou um tiro no braço direito.”
“Bom, acho melhor então esperarmos ele morrer de uma porra de uma infecção”, disse Maso.
“Acho que não temos tempo para isso”, falou Digger.
E Maso tornou a fechar os olhos.
Digger foi andando até seu quarto ladeado por dois homens enquanto Seppe tornava a sair da suíte de Maso.
“Liberado, patrão.”
“Quero você e Servidone na porta. Quanto ao resto, é bom que se comportem como centuriões na fronteira com os hunos. Capice ?”
“Capice.”
Maso entrou no quarto e tirou o impermeável e o chapéu. Serviu-se um drinque, mas da garrafa de licor de anis que haviam mandado subir. O álcool era legal outra vez. Enfim, a maior parte do álcool. E o que ainda não era viria a ser. O país havia tornado a escutar a voz da razão.
Uma pena do caralho, isso sim.
“Me sirva uma dose, pode ser?”
Maso se virou e viu Joe sentado no sofá junto à janela. Tinha a Savage 32 pousada sobre o joelho com um silenciador Maxim acoplado no cano.
Maso não ficou surpreso. Nem sequer um pouquinho. Apenas curioso em relação a uma coisa.
“Onde você estava escondido?” Serviu um copo de bebida para Joe e o levou até ele.
“Escondido?”, Joe pegou o copo.
“Quando Seppe revistou o quarto?”
Joe usou a 32 para indicar uma cadeira a Maso.
“Eu não estava escondido. Estava sentado naquela cama ali. Quando ele entrou, perguntei se gostaria de trabalhar para alguém que fosse estar vivo amanhã.”
“E isso bastou?”, indagou Maso.
“O que bastou foi o senhor querer colocar uma porra de um débil mental feito Digger em uma posição de poder. Nós tínhamos uma ótima operação aqui. Ótima. Aí o senhor chega e consegue foder com tudo em um dia só.”
“É a natureza humana, não é?”
“Consertar o que não está quebrado?”, indagou Joe.
Maso aquiesceu. “Bom, cacete, não precisa ser assim”, comentou Joe.
“Não”, concordou Maso, “mas em geral é.”
“Sabe quantas pessoas morreram hoje por causa do senhor e da porra da sua ganância? O senhor, o ‘carcamano pé-rapado de Endicott Street’? Bom, isso o senhor não é.”
“Algum dia talvez você tenha um filho, e então vai entender.”
“Será que vou mesmo?”, indagou Joe. “Entender o quê, exatamente?”
Maso deu de ombros, como se verbalizar o fato fosse conspurcá-lo. “E o meu filho, como vai?”
“A essa altura?” Joe balançou a cabeça. “Já era.”
Maso visualizou Digger caído de bruços no chão do quarto ao lado com uma bala cravada na nuca e o sangue a empoçar no tapete. Ficou surpreso com a profunda e súbita tristeza que o dominou. Uma tristeza negra, muito negra, desesperançada e medonha.
“Eu sempre quis você como filho”, disse ele para Joe, e ouviu a própria voz se embargar. Baixou os olhos para a própria bebida.
“Que engraçado, eu nunca quis o senhor como pai”, disse Joe.
A bala entrou pela garganta de Maso. A última coisa que ele viu neste mundo foi uma gota do próprio sangue pingar em seu copo de licor de anis.
Então tudo voltou ao escuro.
Quando Maso despencou, deixou cair o copo e aterrissou de joelhos, e sua cabeça bateu na mesa de centro. Ficou deitada sobre a bochecha direita, com o olho vazio fitando a parede à sua esquerda. Joe se levantou e olhou para o silenciador que havia comprado na loja de ferragens por três pratas naquela mesma tarde. Segundo os boatos, o Congresso iria subir o preço da peça para duzentos dólares e depois proibi-la de vez.
Uma pena.
Joe deu um tiro no cocuruto de Maso, só para garantir.
No corredor, seus homens haviam desarmado os de Pescatore sem briga, como Joe desconfiava que fosse acontecer. Homens não gostavam de brigar por outro que dava tão pouco valor às suas vidas a ponto de pôr um idiota como Digger no comando. Joe saiu da suíte de Maso, fechou as portas atrás de si e olhou para todos em pé ao redor, sem saber ao certo o que iria acontecer agora. Dion saiu do quarto de Digger, e ficaram todos parados no corredor por alguns instantes, treze homens e algumas metralhadoras.
“Não quero matar ninguém”, disse Joe. Olhou para Anthony Servidone. “Você quer morrer?”
“Não, sr. Coughlin, eu não quero morrer.”
“Alguém quer?” Joe passeou os olhos pelo corredor e foi respondido por algumas negativas solenes. “Se quiserem voltar para Boston, vão com a minha bênção. Se quiserem ficar aqui, pegar um sol, conhecer umas belas damas, temos trabalho para vocês. Não tem muita gente oferecendo isso hoje em dia, então avisem se estiverem interessados.”
Não conseguiu pensar em mais nada para dizer. Deu de ombros, e ele e Dion entraram no elevador e desceram até o lobby.
Uma semana mais tarde, em Nova York, Joe e Dion entraram em um escritório nos fundos de um cartório em Midtown, Manhattan, e sentaram-se de frente para Lucky Luciano.
A teoria de Joe segundo a qual os homens mais aterrorizantes eram também os mais aterrorizados caiu por terra. Não havia medo algum em Luciano. Na verdade, havia muito pouca coisa que se assemelhasse a emoção, tirando um leve toque de ira negra e infinita nas mais remotas profundezas de seu olhar de mar morto.
A única coisa que aquele homem sabia sobre terror era como infectar os outros com ele.
Estava vestido de forma impecável, e teria sido um homem bonito caso a pele não tivesse o mesmo aspecto de vitela amaciada com um batedor de carne. O olho direito ficara caído após um atentado fracassado sofrido em 1929, e as mãos, muito grandes, pareciam capazes de espremer um crânio até fazê-lo estourar feito um tomate.
“Vocês dois têm esperança de saírem vivos por aquela porta?”, perguntou quando eles se sentaram.
“Sim, senhor.”
“Então me digam por que devo substituir meu grupo que administra Boston.”
Eles assim fizeram e, enquanto falavam, Joe não parou de procurar naqueles olhos negros alguma indicação de que ele estivesse concordando ou discordando das suas palavras, mas era como falar com um piso de mármore — a única coisa que você recebia de volta, se conseguisse o ângulo certo de luz, era seu próprio reflexo.
Quando terminaram de falar, Lucky se levantou e olhou para a Sexta Avenida pela janela. “Vocês fizeram um barulho e tanto lá no Sul. O que houve com aquela beata evangélica que morreu? O pai dela não era comandante de polícia?”
“Ele foi forçado a se aposentar”, respondeu Joe. “Pelas últimas notícias que tive, estava em um sanatório de algum tipo. Não pode nos prejudicar.”
“Mas a filha dele prejudicou. E você deixou. É por isso que dizem por aí que você é mole. Não um covarde. Eu não disse isso. Todo mundo sabe como você chegou perto de liquidar aquele capiau em 30, e aquele ataque ao navio exigiu colhões de ferro. Mas você não cuidou daquele fabricante de bebida em 31, e deixou uma mulher, uma porra de uma mulher, Coughlin, impedir o contrato do seu cassino.”
“É verdade”, disse Joe. “Não tenho desculpa.”
“Não tem mesmo”, disse Luciano. Olhou para Dion do outro lado da mesa. “O que você teria feito com o fabricante de bebida?”
Dion olhou para Joe, hesitante.
“Não olhe para ele”, disse Luciano. “Olhe para mim e me diga a verdade.”
Mas Dion continuou a olhar para Joe até Joe dizer: “Fale a verdade, D.”
Dion se virou para Lucky. “Eu teria apagado o cara, sr. Luciano. E os filhos também.” Ele estalou os dedos. “Teria apagado a família inteira.”
“E a beata evangélica?”
“Nela eu teria dado um sumiço.”
“Por quê?”
“Para dar às pessoas a alternativa de transformá-la em santa. Assim todos poderiam pensar que ela foi concebida imaculadamente para o céu, ou o que seja. Enquanto isso, saberiam muito bem que nós a cortamos em pedacinhos e demos de comer para os jacarés, de modo que nunca mais se meteriam conosco, mas no restante do tempo se reuniriam em seu nome e cantariam loas a ela.”
“Você é o tal que Pescatore dizia que era delator”, falou Luciano.
“Isso.”
“Nunca fez sentido para nós.” Ele se dirigiu a Joe. “Por que você confiaria por livre e espontânea vontade em um delator que mandou você para a prisão por dois anos?”
“Não confiaria”, respondeu Joe.
Luciano assentiu. “Foi o que pensamos quando tentamos convencer o velho a desistir do ataque.”
“Mas acabaram autorizando.”
“Autorizamos se você se recusasse a usar nossos caminhões e nossas redes em seu novo negócio de bebidas.”
“Maso nunca me falou sobre isso.”
“Não?”
“Não, senhor. Ele só disse que eu deveria obedecer ao filho dele e que tinha de matar meu amigo.”
Luciano passou um bom tempo encarando-o. “Muito bem, faça sua proposta”, disse, por fim.
“Transforme ele em patrão.” Joe indicou Dion com o polegar.
“O quê? ”, falou Dion.
Luciano sorriu pela primeira vez.
“E você fica como consigliere ?”
“Isso.”
“Esperem um instante”, disse Dion. “Esperem aí.”
Luciano olhou para ele, e o sorriso em seu rosto desapareceu.
Dion soube ler depressa a situação. “Eu ficaria honrado.”
“De onde você é?”, indagou Luciano.
“De uma cidade na Sicília chamada Manganaro.”
As sobrancelhas de Luciano se arquearam. “Eu sou de Lercara Friddi.”
“Ah, a cidade grande”, disse Dion.
Luciano deu a volta na mesa. “É preciso mesmo vir de um cu de mundo feito Manganaro para chamar Lercara Friddi de ‘cidade grande’.”
Dion assentiu. “Por isso nós fomos embora.”
“Quando? Levante-se.”
Dion se levantou. “Eu tinha oito anos.”
“Voltou lá?”
“Por que eu iria voltar ?”, indagou Dion.
“Para se lembrar de quem é. Não de quem finge ser. De quem você é.” Ele passou um braço em volta do ombro de Dion. “E você é um patrão.” Ele apontou para Joe. “E ele é um gênio. Vamos almoçar. Conheço um lugar incrível a alguns quarteirões daqui. Melhor molho de carne da cidade.”
Os três saíram do escritório, e quatro homens os cercaram quando tomaram o caminho do elevador.
“Joe”, disse Lucky, “preciso lhe apresentar meu amigo Meyer. Ele tem umas ótimas ideias sobre cassinos na Flórida e em Cuba.” Dessa vez foi em volta de Joe que Luciano pôs o braço. “Você entende muita coisa de Cuba?”