Os Filhos da Noite

Dennis Lehane · Capítulo 25 de 29

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Os Filhos da Noite

Capítulo 25

 

POSIÇÃO VANTAJOSA

 

Joe acordou no breu.

Não conseguia ver nada nem conseguia falar. No início, temeu que alguém tivesse chegado ao ponto de costurar seus lábios um no outro mas, depois de um minuto ou algo assim, desconfiou que aquilo que fazia pressão na base de seu nariz talvez fosse fita adesiva. Quanto mais aceitava esse fato, mais lógica lhe parecia a sensação de aderência em volta dos lábios, como se sua pele estivesse coberta de chiclete.

Mas seus olhos não estavam colados. O que inicialmente havia se apresentado como uma escuridão total começou a dar lugar a formas ocasionais do outro lado de um denso véu de lã ou corda.

É um capuz, informou-lhe algo dentro do peito. Eles puseram um capuz na sua cabeça.

Suas mãos estavam algemadas nas costas. Com certeza não era corda que as prendia; era metal, sem a menor dúvida. As pernas pareciam amarradas, e não excessivamente apertadas, a julgar pelo quanto ele conseguia movê-las — uma folga que lhe pareceu de dois centímetros e meio antes de ele encontrar resistência.

Estava deitado sobre o lado direito do corpo, com o rosto encostado em madeira quente. Sentia cheiro de maré baixa. Cheiro de peixe e sangue de peixe. Deu-se conta de que já vinha escutando o motor havia algum tempo antes de identificá-lo como tal. Já estivera a bordo de um número suficiente de barcos ao longo da vida para saber o que aquele motor movia. E então as outras sensações se conjugaram e fizeram sentido — o bater das ondas no casco, o sobe e desce da madeira sobre a qual estava deitado. Não teve muita certeza, mas não conseguiu escutar nenhum outro motor, por mais que se concentrasse em isolar os vários ruídos à sua volta. Ouviu vozes masculinas, passos indo e vindo pelo convés e, depois de algum tempo, distinguiu a expiração seca e a expiração demorada de alguém próximo fumando um cigarro. Nenhum outro motor, porém, e o barco não se movia muito depressa. Pelo menos não parecia. O som não indicava que aquilo fosse uma fuga. O que significava que era plausível imaginar que ninguém os estivesse perseguindo.

“Alguém vá chamar Albert. Ele acordou.”

Ele então sentiu que o levantavam — uma das mãos mergulhou através do capuz e agarrou seus cabelos, duas outras o seguraram pelas axilas. Ele foi arrastado pelo convés e largado em cima de uma cadeira, e pôde sentir o assento duro de madeira sob as nádegas e as duras ripas de madeira nas costas. Mãos deslizaram por seus pulsos, e as algemas foram destrancadas. Mal tiveram tempo de se abrir com um estalo antes de seus braços serem puxados para trás da cadeira e as algemas serem recolocadas. Alguém amarrou seus braços e peito à cadeira, amarrou-os com folga apenas suficiente para ele poder respirar. Então alguém — talvez o mesmo alguém, talvez outro — fez o mesmo com as pernas, amarrando-as tão apertado às da cadeira que se mexer estava fora de cogitação.

A cadeira foi inclinada para trás e ele gritou por trás da fita adesiva, escutando o som nos próprios ouvidos, pois eles o estavam empurrando pela borda do barco. Mesmo com o capuz a lhe cobrir a cabeça, cerrou os olhos com força, e pôde ouvir a própria respiração sair pelas narinas, desesperada e entrecortada. Se uma respiração fosse capaz de suplicar, a sua suplicou.

A cadeira parou de se inclinar ao atingir uma parede. Joe ficou ali sentado, a um ângulo de mais ou menos quarenta graus. Supôs que seus pés e as pernas dianteiras da cadeira estivessem a cerca de meio metro do convés.

Alguém tirou seus sapatos. Em seguida as meias. Em seguida o capuz.

A súbita volta da luz o fez bater as pálpebras em ritmo acelerado. E não era qualquer luz — aquilo era a luz da Flórida, infinitamente forte ainda que irradiada através de muitas camadas de nuvens cinzentas em movimento. Não viu nenhum sol, mas a luz conseguia se refletir em um mar cuja superfície parecia revestida de níquel. De alguma forma, a claridade vivia no cinza, nas nuvens, no mar, não forte o suficiente para que se pudesse apontar de onde vinha, só intensa o bastante para ele sentir seu efeito.

Quando ele conseguiu ver direito outra vez, a primeira coisa a entrar em foco foi o relógio do pai. Este se balançava diante de seus olhos. Então o rosto de Albert entrou em foco mais atrás. Ele deixou Joe ver quando abriu o bolso do paletó barato e largou o relógio lá dentro. “Eu próprio estava me contentando com um Elgin”, comentou, e inclinou-se para a frente, com as mãos sobre os joelhos. Sorriu para Joe aquele seu pequeno sorriso. Atrás dele, dois homens chegaram arrastando algo pesado pelo convés na sua direção. Um metal preto de algum tipo. Com alças prateadas. Os homens chegaram mais perto. Albert deu um passo para trás com uma mesura e um floreio, e os homens fizeram o objeto deslizar até logo abaixo dos pés descalços de Joe.

Era uma banheira. Do tipo que se via em coquetéis durante o verão. Os anfitriões enchiam banheiras assim com gelo, garrafas de vinho branco e cerveja de boa qualidade. Só que agora não havia gelo nenhum dentro da banheira. Nem vinho. Nem cerveja de boa qualidade.

Apenas cimento.

Joe fez força contra as cordas que o prendiam, mas foi como tentar resistir a uma casa de tijolos que estivesse desabando em cima dele.

Albert foi até atrás dele, deu um tapa nas costas da cadeira, e esta caiu para a frente, fazendo os pés de Joe mergulharem no cimento.

Albert ficou olhando Joe se debater — ou tentar se debater — com a curiosidade distante de um cientista. Praticamente a única coisa que Joe conseguia mexer era a cabeça. Assim que seus pés mergulharam na banheira, foi para ficar. As pernas já estavam amarradas com força, dos tornozelos aos joelhos, sem um centímetro de mobilidade possível. A julgar pela textura, o cimento fora misturado um pouco antes. Não estava líquido. Seus pés mergulharam nele como se mergulhassem nos orifícios de uma esponja.

Albert sentou-se no convés de frente para ele e ficou encarando Joe nos olhos enquanto o cimento começava a endurecer. A sensação de esponja foi substituída por algo mais firme sob a sola de seus pés, que começou a subir serpenteando pelos tornozelos.

“Leva um tempo para ficar duro”, disse Albert. “Mais do que se poderia imaginar.”

Joe se localizou ao ver à sua esquerda uma pequena ilha de coral bastante parecida com Egmont Key. Tirando isso, não havia nada em volta a não ser água e céu.

Ilario Nobile trouxe uma cadeira dobrável de lona para Albert e evitou encarar Joe. Albert se levantou do convés. Posicionou a cadeira de modo a evitar que o sol batesse no seu rosto. Inclinou-se para a frente e uniu as mãos entre os joelhos. Eles estavam a bordo de um rebocador. Joe e sua cadeira estavam apoiados na parede traseira da sala do leme, virados para a popa do barco. Era uma ótima escolha de embarcação, teve de admitir Joe: não dava para dizer só de olhar, mas os rebocadores eram velozes e capazes de mudar de direção em questão de segundos.

Albert passou um minuto girando o relógio de Thomas Coughlin na corrente, como um menino brincando com seu ioiô, fazendo-o subir pelos ares e em seguida voltar para a palma da mão com um estalo. “Ele está atrasado”, disse ele a Joe. “Sabia?”

Mesmo se pudesse falar, Joe duvidava que fosse responder.

“Um relógio grande e caro como este, e não consegue nem marcar direito a porra do tempo.” Ele deu de ombros. “Todo o dinheiro do mundo, não é, Joe? Todo o dinheiro do mundo, e algumas coisas simplesmente têm de acontecer.” Albert ergueu os olhos para o céu cinzento e para o mar cinzento que os rodeava. “Esta não é uma corrida na qual se entra para tirar segundo lugar. Todos nós conhecemos os riscos. Se fizer merda, você morre. Se confiar na pessoa errada, se apostar no cavalo perdedor...” Ele estalou os dedos. “Fim de jogo. Se tiver esposa, filhos? Uma pena. Se estiver planejando uma viagem à velha Inglaterra no verão seguinte? Os planos acabaram de mudar. Achou que fosse estar respirando amanhã? Que fosse estar trepando, comendo, tomando banho de banheira? Não vai estar.” Ele se inclinou para a frente e cutucou o peito de Joe com um dedo. “Vai estar sentado no fundo do golfo do México. E o mundo vai estar fechado para você. Caramba, se dois peixes subirem pelo seu nariz e alguns outros mordiscarem seus olhos, você não vai nem ligar. Vai estar com Deus. Ou com o diabo. Ou em lugar nenhum. Mas sabe onde você não vai estar, Joe?” Ele ergueu as mãos para as nuvens. “Aqui. Então pode dar uma boa última olhada. Respire fundo algumas vezes. Sugue bem o oxigênio.” Ele tornou a guardar o relógio no colete, chegou mais perto, segurou o rosto de Joe com as duas mãos e beijou-lhe o alto da cabeça. “Porque agora você vai morrer.”

O cimento estava duro. Apertava os dedos dos pés de Joe, seus calcanhares e tornozelos. Apertava tudo com tanta força que ele só podia supor que alguns dos ossos de seu pé estivessem quebrados. Talvez todos.

Encarou os olhos de Albert e movimentou os seus para o próprio bolso interno esquerdo do paletó.

“Ponham-no de pé.”

“Não, olhe dentro do meu bolso”, tentou dizer Joe.

“Hum! Hum! Hum!”, arremedou Albert, com os olhos esbugalhados. “Tenha um pouco de classe, Coughlin. Não suplique.”

Eles cortaram a corda que amarrava o peito de Joe. Gino Valocco se aproximou com um serrote, ajoelhou-se e pôs-se a serrar as pernas dianteiras da cadeira, separando-as do assento.

“Albert”, disse Joe através da fita adesiva, “olhe dentro deste bolso. Deste bolso. Deste bolso. Deste aqui.”

Toda vez que ele dizia “deste”, dava um safanão com a cabeça e movia os olhos em direção ao bolso.

Albert riu e continuou a imitá-lo, e alguns dos outros homens fizeram coro; Fausto Scarfone chegou a imitar um macaco. Pôs-se a fazer “uh-uh-uh” e a coçar as próprias axilas. Deu vários trancos para a esquerda com a cabeça.

A perna esquerda da cadeira se soltou do assento, e Gino pôs-se a serrar a direita.

“Essas algemas são boas”, comentou Albert com Ilario Nobile. “Pode tirar. Ele não vai a lugar nenhum.”

Joe viu que tinha conseguido atrair sua atenção. Albert queria ver o que havia no bolso de Joe, mas tinha de dar um jeito de fazê-lo sem parecer que estava cedendo aos desejos de sua vítima.

Ilario tirou as algemas e as jogou aos pés de Albert, pois Albert aparentemente não havia conquistado respeito suficiente para recebê-las em mãos.

A perna direita da cadeira se soltou do assento e os homens retiraram a cadeira de baixo de Joe, deixando-o em pé na banheira de cimento.

“Pode usar a mão uma vez só. Ou arranca essa fita da boca, ou então me mostra o que está tentando usar para salvar essa sua vidinha de bosta. Não pode fazer as duas coisas.”

Joe não hesitou. Enfiou a mão no bolso. Pegou a fotografia e jogou-a aos pés de Albert.

Albert recolheu a foto do convés ao mesmo tempo que um pontinho surgia acima de seu ombro esquerdo, logo atrás de Egmont Key. Albert examinou a imagem com uma sobrancelha arqueada e aquele sorrisinho convencido no rosto, e não viu nela nada de especial. Seus olhos se desviaram outra vez para a extrema esquerda e ele recomeçou a movê-los lentamente para a direita, e então sua cabeça se imobilizou.

O pontinho se transformou em um triângulo escuro, movendo-se depressa por cima do mar cinza e parado — bem mais depressa do que o rebocador, por mais depressa que este conseguisse avançar.

Albert olhou para Joe. Um olhar incisivo, furioso. Joe viu claramente que ele não estava furioso por Joe ter descoberto o seu segredo. Estava furioso por ter sido enganado tanto quanto Joe.

Durante todo aquele tempo, ele também havia pensado que ela estava morta.

Meu Deus, Albert, quis dizer Joe, nisso estamos os dois completamente dominados por ela.

Mesmo com quinze centímetros de fita adesiva isolante sobre a boca, Joe soube que Albert pôde vê-lo sorrir.

O triângulo escuro era agora claramente uma embarcação. Uma pequena lancha a motor clássica, modificada para acomodar passageiros suplementares ou garrafas na popa. Mesmo dividindo a velocidade por três, ainda navegava mais depressa do que qualquer outra embarcação. Alguns homens no convés do rebocador apontaram e se cutucaram.

Albert arrancou a fita da boca de Joe.

O barulho da lancha chegou a seus ouvidos. Um zumbido, como um distante enxame de vespas.

Albert segurou a fotografia junto ao rosto de Joe. “Ela morreu.”

“Está parecendo morta, você acha?”

“Onde ela está?” A voz de Albert saiu alterada o suficiente para alguns homens olharem na sua direção.

“Na porra da foto, Albert.”

“Me diga onde a foto foi tirada.”

“Claro, e tenho certeza de que se eu disser nada vai me acontecer”, respondeu Joe.

Albert bateu com os dois punhos fechados nas orelhas de Joe, e o céu lá em cima rodopiou.

Gino Valocco gritou alguma coisa em italiano. Apontou para estibordo.

Uma segunda embarcação havia aparecido, outra lancha modificada e tripulada por quatro homens, que surgiu de trás de um banco de areia a uns trezentos e cinquenta metros de distância.

“Onde ela está?”

O assobio nos ouvidos de Joe parecia uma sinfonia de címbalos. Ele balançou a cabeça várias vezes.

“Adoraria dizer a você, mas caralho, também adoraria não me afogar mais”, falou.

Albert apontou primeiro para uma das embarcações, depois para a outra. “Eles não vão nos deter. Por acaso você é idiota, porra? Onde ela está?”

“Ah, deixe-me pensar”, respondeu Joe.

“Onde ?”

“Na fotografia.”

“É uma foto antiga. Você só fez dobrar uma velha...”

“É, no começo também pensei isso. Mas olhe bem para o babaca de smoking. O alto, no canto direito, apoiado no piano. Olhe para o jornal. O jornal perto do cotovelo dele. Leia a porra da manchete.”

PRESIDENTE ELEITO ROOSEVELT

SOBREVIVE A TENTATIVA

DE ASSASSINATO EM MIAMI

“Isso foi no mês passado, Albert.”

As duas lanchas estavam agora a pouco mais de trezentos metros.

Albert olhou para elas, olhou para os homens de Maso e tornou a olhar para Joe. Soltou uma longa expiração pelos lábios franzidos.

“Acha que eles vão resgatar você? Têm metade do nosso tamanho, e nós estamos em posição vantajosa. Você poderia mandar seis barcos para cá, e nós transformaríamos todos eles em fósforos.” Virou-se para os homens. “Matem todo mundo.”

Os homens se enfileiraram junto à amurada. Ajoelharam-se. Joe contou doze deles. Cinco a estibordo, cinco a bombordo, e Ilario e Fausto entrando na cabine à procura de alguma coisa. A maioria dos homens no convés estava armada com metralhadoras Thompson e alguns revólveres, mas nenhum deles tinha os fuzis necessários para desferir tiros a longa distância.

Ilario e Fausto eliminaram esse problema ao sair da cabine arrastando um caixote. Pela primeira vez, Joe reparou que havia um tripé de bronze chumbado ao convés junto à amurada, com uma caixa de ferramentas ao lado. Então percebeu que não era exatamente um tripé; era um suporte. Um suporte de armamento. E de um armamento grande para caralho. Ilario levou a mão até dentro do caixote e pegou dois pentes de munição com balas de calibre 30-06 que pôs ao lado do tripé. Ele e Fausto então levaram as mãos até dentro do caixote e tiraram uma Gatling 1903 com dez canos. Posicionaram-na em cima do suporte chumbado ao convés e começaram a prender a metralhadora.

O barulho das embarcações que se aproximavam ficou mais alto. Deviam estar agora a uns duzentos e cinquenta metros, o que as deixava quase cem metros além do alcance de qualquer arma que não fosse a Gatling. Uma vez presa ao suporte do convés, porém, aquela filha da puta era capaz de disparar até novecentos tiros por minuto. Uma única saraivada certeira em qualquer das duas embarcações, e tudo o que restaria seria comida para tubarões.

“Diga-me onde ela está e serei rápido”, falou Albert. “Um tiro só. Você não vai nem sentir. Se tiver de forçar você, vou continuar arrancando pedaços seus bem depois de me dizer. Vou empilhar os pedaços no convés até as pilhas desabarem.”

Os homens gritaram uns com os outros, mudando de posição à medida que as lanchas começavam a se mover aleatoriamente: a que estava a bombordo pôs-se a navegar em zigue-zague, enquanto a que estava a estibordo dava guinadas alternadas para a direita e para a esquerda, para a direita e para a esquerda, fazendo o barulho dos motores ficar mais agudo.

“Diga logo”, disse Albert.

Joe fez que não com a cabeça.

“Por favor”, pediu Albert, tão baixinho que ninguém mais escutou. Com os motores das lanchas e da montagem da Gatling, Joe mal conseguiu escutá-lo. “Eu a amo.”

“Eu também a amava.”

“Não, eu a amo agora”, disse Albert.

Os homens terminaram de prender a Gatling ao suporte do convés. Ilario inseriu a fita de munição na fenda de alimentação e soprou para remover qualquer poeira que pudesse estar obstruindo o alimentador de munição.

Albert se inclinou para junto de Joe. Olhou em volta. “Eu não quero isto aqui. Quem quer isto aqui? Só quero sentir o que sentia quando a fazia rir, ou quando ela jogava um cinzeiro na minha cabeça. Nem me importo em trepar. Só quero vê-la tomar café vestida com um roupão de hotel. Ouvi dizer que você tem isso. Com a cucaracha.”

“É, tenho”, respondeu Joe.

“O que ela é, aliás? Crioula ou cucaracha?”

“Os dois”, respondeu Joe.

“E isso não incomoda você?”

“Albert, por que cargas d’água iria me incomodar?”, respondeu Joe.

Ilario Nobile, veterano da Guerra Hispano-Americana, posicionou-se para operar a manivela da Gatling enquanto Fausto se acomodava sentado abaixo da metralhadora, com a primeira das fitas de munição pousada no colo como o cobertor de uma avó.

Albert sacou o 38 cano longo e o encostou na testa de Joe. “Me diga.”

Ninguém escutou o quarto motor antes que fosse tarde demais.

Joe encarou os olhos de Albert mais fundo do que nunca, e o que viu lá dentro foi a pessoa mais aterrorizada do que qualquer outra com quem já houvesse cruzado.

“Não.”

O avião de Farruco Díaz surgiu do meio das nuvens a oeste. Surgiu bem lá em cima, mas mergulhou depressa. No banco de trás, a silhueta de Dion se destacava, bem alta, com a metralhadora presa ao suporte que fizera Farruco Díaz encher o saco de Joe durante meses até este permitir que ele o instalasse. Dion tinha uns óculos grossos no rosto e parecia estar rindo.

A primeira coisa em que Dion e sua metralhadora miraram foi na Gatling.

Ilario se virou para a esquerda, e as balas de Dion arrancaram sua orelha e rasgaram seu pescoço feito uma foice, e os ricochetes richochetearam na arma, depois no suporte chumbado e nos cunhos do convés antes de acertar Fausto Scarfone. Os braços de Fausto dançaram no ar ao redor de sua cabeça, e ele então desabou para a frente, cuspindo vermelho para todos os lados.

O convés também cuspia — madeira, metal, fagulhas. Os homens se protegiam atrás de algum objeto, agachavam-se e encolhiam-se em posição fetal. Gritavam e tentavam manejar as armas com gestos atabalhoados. Dois deles caíram do barco.

O avião de Farruco Díaz arremeteu e subiu em direção às nuvens, e os atiradores se recuperaram. Puseram-se em pé e começaram a disparar. Quanto mais alto o avião subia, mais verticais ficavam seus tiros.

E algumas das balas começaram a cair de volta.

Albert foi atingido no ombro por uma delas. Outro homem segurou a nuca e caiu no convés.

As embarcações menores estavam agora próximas o suficiente para serem alvejadas. Todos os atiradores de Albert, porém, haviam virado as costas para disparar contra o avião de Farruco. Os atiradores de Joe não tinham a melhor mira do mundo — estavam a bordo de barcos, e de barcos que se moviam freneticamente —, mas nem precisaram ter. Conseguiram acertar quadris, joelhos e barrigas, e um terço dos homens a bordo do rebocador desabou no convés e pôs-se a emitir os sons que os homens emitiam quando eram baleados nos quadris, joelhos e barriga.

O avião voltou para um segundo ataque. Homens atiravam das embarcações, e Dion operava a metralhadora como se esta fosse uma mangueira de incêndio e ele o chefe dos bombeiros. Albert se endireitou e apontou seu 32 cano longo para Joe enquanto a traseira do rebocador se transformava em um furacão de poeira, lascas de madeira e homens impotentes para escapar de uma fuzilaria de chumbo, e Joe perdeu Albert de vista.

Foi atingido no braço por um estilhaço de bala, e uma vez na cabeça por uma lasca de madeira do tamanho de uma tampa de garrafa. Esta lhe arrancou um pedaço da sobrancelha esquerda e acertou de raspão o alto da orelha esquerda antes de ir parar nas águas do golfo. Um Colt 45 aterrissou junto ao pé da banheira, que Joe empunhou e cujo pente liberou na mão por tempo suficiente para confirmar que restavam pelo menos seis balas antes de tornar a empurrá-lo para o lugar.

Quando Carmine Parone chegou até ele, o sangue que escorria pelo lado esquerdo de seu rosto parecia bem pior do que de fato era. Carmine passou uma toalha para Joe e, junto com um dos garotos novos chamado Peter Wallace, começou a quebrar o cimento com machados. Embora Joe tivesse suposto que o cimento já houvesse endurecido, na realidade isso não tinha acontecido, e bastaram umas quinze ou dezesseis machadadas e a ajuda de uma pá que Carmine encontrou na cozinha do rebocador para eles o liberarem.

Farruco Díaz pousou seu avião na água e desligou o motor. O avião deslizou até eles. Dion subiu a bordo, e os homens se espalharam para liquidar os feridos.

“Como você está?”, perguntou Dion a Joe.

Ricardo Cormarto foi atrás de um rapaz que se arrastava em direção à popa, com as pernas dilaceradas mas o restante do corpo parecendo pronto para uma noite de festa: terno bege e camisa creme, gravata vermelho-manga jogada por cima do ombro como se estivesse se preparando para tomar uma bisque de lagosta. Cormarto o acertou com uma rajada na coluna e o rapaz expirou um suspiro indignado, então Cormarto disparou outra rajada em sua cabeça.

Joe olhou para os corpos empilhados no convés e falou para Wallace: “Se ele estiver vivo no meio disso tudo, traga-o até mim”.

“Sim, senhor. Sim, senhor”, disse Wallace.

Tentou flexionar os tornozelos, mas a dor foi intensa demais. Segurou com uma das mãos a escada localizada sob a casa do leme e disse a Dion: “Qual foi mesmo a sua pergunta?”.

“Como você estava.”

“Ah, vou levando, você sabe”, disse Joe.

Um cara junto à amurada implorou pela própria vida em italiano, mas Carmine Parone o alvejou no peito e o chutou para fora do barco.

Logo em seguida, Fasani virou Gino Valocco de costas. Gino manteve as mãos em frente ao rosto enquanto a lateral de seu corpo sangrava. Joe se lembrou da conversa que tinham tido sobre paternidade, sobre como nunca havia uma hora certa para se ter filhos.

Gino disse o que todos diziam. “Espere”, disse. “Não faça...”

Mas Fasani lhe deu um tiro no coração e o chutou para as águas do golfo.

Joe olhou para o outro lado e viu Dion encarando-o com um olhar firme, atento. “Eles teriam matado todos nós até o último homem. Teriam nos caçado. Você sabe disso.”

Joe respondeu que sim piscando os olhos.

“E por quê?”

Joe não respondeu.

“Não, Joe. Por quê?”

Joe continuou sem responder.

“Por ganância”, disse Dion. “Não uma ganância sensata, não uma porra de uma ganância sadia. Uma ganância sem fim. Porque para eles nada nunca basta.” Seu rosto estava roxo de tanta raiva quando ele chegou tão perto de Joe a ponto de os seus narizes se tocarem. “Nada nunca basta, porra.”

Dion se afastou e Joe passou um bom tempo encarando o amigo, e durante esse tempo ouviu alguém dizer que não restava ninguém mais para matar.

“Nada nunca basta para nenhum de nós”, falou. “Você, eu, Pescatore. O gosto é bom demais.”

“Que gosto?”

“Da noite”, disse Joe. “O gosto da noite é bom demais. Quando você vive de dia, respeita as regras deles. Então nós vivemos à noite e respeitamos as nossas. Só que, nós, D, na verdade não temos regra nenhuma.

Dion pensou um pouco. “Não muitas, de fato.”

“Isso está começando a me cansar.”

“Eu sei”, disse Dion. “Dá para ver.”

Fasani e Wallace chegaram arrastando Albert White pelo convés e o largaram em frente a Joe.

Faltava-lhe a parte de trás da cabeça, e no lugar em que deveria estar o coração havia apenas uma vala de sangue preto. Joe se ajoelhou junto ao corpo e pescou o relógio do pai do bolso do colete de Albert. Verificou-o rapidamente em busca de avarias, não encontrou nenhuma e o guardou no bolso. Tornou a se sentar no convés.

“Eu deveria tê-lo encarado nos olhos.”

“Como assim?”, indagou Dion.

“Deveria tê-lo encarado nos olhos e dito: ‘Você achou que tivesse me pegado, mas porra, quem pegou você fui eu’.”

“Você teve essa chance há quatro anos.” Dion baixou a mão até Joe.

“Queria outra.” Joe segurou a mão.

“Porra”, disse Dion, “ninguém no mundo tem esse tipo de chance duas vezes.”