Os Filhos da Noite

Dennis Lehane · Capítulo 20 de 29

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Os Filhos da Noite

Capítulo 20

MI GRAN AMOR

 

Cinco semanas.

Foi esse o tempo que ele passou deitado em uma cama de hospital. Primeiro na Clínica González da rua Catorze, no mesmo quarteirão do Círculo Cubano, e depois, sob o pseudônimo Rodrigo Martinez, no hospital do Centro Asturiano, doze quarteirões a leste. Os cubanos podiam brigar com os espanhóis, os espanhóis do sul com os do norte, e todos eles podiam ter rixas com os italianos e os negros americanos mas, quando o assunto era tratamento médico, Ybor era um coletivo de ajuda mútua. Todos ali sabiam que ninguém na parte branca de Tampa iria levantar nem sequer um dedo para tapar um buraco em seu coração se houvesse um branco por perto que necessitasse de tratamento para uma porra de uma cutícula inflamada.

Joe foi tratado por uma equipe reunida por Graciela e Esteban: um cirurgião cubano que realizou a primeira laparotomia, um especialista em medicina torácica que supervisionou a reconstrução da parede abdominal durante a segunda, terceira e quarta cirurgias, e um farmacologista americano de primeira linha que obteve acesso à vacina antitetânica e controlou a administração da morfina.

Todas as primeiras intervenções feitas em Joe — irrigação, limpeza, exploração, desbridamento e sutura — foram realizadas na Clínica González, mas a notícia de que ele estava internado lá se espalhou. Na segunda noite, cavaleiros da meia-noite da kkk apareceram galopando de um lado para outro da Nona Avenida, e o cheiro de óleo de suas tochas entrava pelas grades das janelas. Joe não estava acordado quando tudo isso aconteceu — jamais viria a ter mais do que uma pálida lembrança das primeiras duas semanas após levar a facada —, mas Graciela lhe contaria tudo durante os meses de sua convalescença.

Quando os cavaleiros foram embora, retirando-se de Ybor com grande alarde pela Sétima Avenida e disparando seus fuzis no ar, Dion mandou homens atrás deles — dois homens para cada cavalo. Pouco antes do amanhecer, agressores desconhecidos entraram nas casas de oito moradores da área metropolitana de Tampa/St. Petersburg e espancaram esses homens quase até a morte, alguns na frente da família. Quando uma esposa tentou interferir em Temple Terrace, quebraram os braços dela com um taco de beisebol. Quando um filho em Egypt Lake tentou impedi-los, amarraram o menino a uma árvore e deixaram formigas e mosquitos o atacarem. A mais importante das vítimas, um dentista chamado Victor Toll, era segundo os boatos quem substituíra Kelvin Beauregard como líder da Klavern da cidade. O dr. Toll foi amarrado ao capô de seu carro. Foi forçado a ficar deitado ali, banhado na sopa do próprio sangue, e sentir o cheiro da própria casa pegar fogo.

Isso extinguiu de forma eficaz o poder da Ku Klux Klan em Tampa por três anos, mas a família Pescatore e a gangue Coughlin-Suárez não tinham como saber disso, de modo que não quiseram se arriscar e transferiram Joe para o hospital do Centro Asturiano. Lá foi colocado um dreno cirúrgico para neutralizar a hemorragia interna cuja origem o primeiro médico não soubera detectar, motivo pelo qual mandaram chamar um segundo médico, um espanhol suave com os dedos mais lindos que Graciela já vira na vida.

A essa altura, Joe praticamente já não corria perigo de morrer por choque hemorrágico, principal responsável pelo óbito das vítimas de facadas abdominais. Em segundo lugar vinham os danos ao fígado, e o seu fora avaliado e considerado em perfeitas condições. Os médicos lhe disseram muito depois que isso acontecera graças ao relógio de seu pai, que agora exibia um novo arranhão na tampa. A ponta da faca resvalara na tampa primeiro e isso havia alterado seu curso, ainda que de forma mínima.

O primeiro médico dera o melhor de si para identificar danos ao duodeno, reto, cólon, vesícula, baço e na porção terminal do íleo, mas as condições não tinham sido ideais. Joe fora estabilizado no chão sujo de um prédio abandonado, em seguida transportado pela baía de barco. Quando conseguiram fazê-lo entrar em uma sala de cirurgia, mais de uma hora havia transcorrido.

Devido ao ângulo da trajetória da lâmina durante a penetração peritoneal, o segundo médico que examinou Joe desconfiou que o baço tinha sido afetado, e abriram a barriga de Joe outra vez. O médico espanhol acertou em cheio. Consertou o corte no baço de Joe e removeu a bile tóxica que começara a ulcerar a parede abdominal, embora certo dano já tivesse ocorrido. Joe teria de ser operado mais duas vezes antes do fim do mês.

Depois da segunda cirurgia, acordou com alguém sentado ao pé de sua cama. Tinha a visão tão embaçada que o ar havia se transformado em gaze. Mesmo assim, conseguiu distinguir uma cabeça grande e um focinho comprido. E uma cauda. A cauda bateu no lençol que lhe cobria a perna, e o puma entrou em foco. Encarou-o com os olhos amarelos famintos. A garganta de Joe se contraiu, e a pele que a recobria ficou escorregadia de suor.

O puma lambeu o lábio superior e o focinho.

O bicho deu um bocejo, e Joe quis fechar os olhos diante da visão daqueles magníficos dentes, brancos como todos os ossos que já haviam partido ao meio e dos quais haviam arrancado a carne.

A boca se fechou, os olhos amarelos tornaram a se fixar nele, e o felino pousou as patas dianteiras sobre sua barriga e subiu por seu corpo até a cabeça.

“Que felino?”, perguntou Graciela.

Ele ergueu os olhos para o rosto dela, piscando-os por causa do suor. Era de manhã; o ar que entrava pelas janelas estava fresco e trazia um cheiro de camélias.

Depois das cirurgias, ele também foi proibido de ter relações sexuais por três meses. Álcool, comida cubana, crustáceos, castanhas e milho foram proscritos. Caso temesse que a falta de sexo fosse afastá-lo de Graciela (e temia mesmo; ela também), na verdade o efeito foi contrário. No segundo mês, ele aprendeu um novo método de satisfazê-la usando a boca, método que havia descoberto por acidente algumas vezes ao longo dos anos, mas que então se tornou sua única forma de lhe dar prazer. Ajoelhado na sua frente, segurando-lhe a bunda com as mãos e com a boca cobrindo o portão de entrada de seu útero, portão este que passara a considerar ao mesmo tempo sagrado, pecaminoso e deliciosamente escorregadio, sentia ter finalmente encontrado algo pelo qual valia a pena se ajoelhar. Se abrir mão de todas as ideias preconcebidas do que um homem deveria dar e receber de uma mulher fosse o necessário para se sentir tão puro e tão útil quanto ele se sentia com a cabeça entre as coxas de Graciela, então ele desejava ter deixado essas ideias de lado anos antes. Os protestos iniciais dela — não, você não pode fazer isso; um homem não faz essas coisas; tenho que tomar banho; não é possível você gostar desse gosto — cederam lugar a algo que beirava o vício. No último mês antes de ela poder lhe retribuir o favor, Joe se deu conta de que estavam praticando em média cinco atos de gratificação oral por dia.

Quando os médicos finalmente o liberaram, ele e Graciela fecharam as venezianas da casa na Nona Avenida, encheram a geladeira do primeiro andar com comida e champanhe e passaram dois dias isolados na cama de baldaquino e na banheira com pés em forma de garras. Quase no fim do segundo dia, deitados sob o crepúsculo avermelhado, com as venezianas novamente abertas para a rua e o ventilador de teto secando o suor de seus corpos, Graciela falou: “Nunca vai haver nenhum outro”.

“Nenhum outro o quê?”

“Nenhum outro homem.” Ela alisou sua barriga toda costurada com a palma da mão. “Você é o meu homem até a morte.”

“Ah, é?”

Ela pressionou a boca aberta em seu pescoço e expirou. “Sim, sim, sim.”

“E Adan?”

Pela primeira vez, ele viu desprezo nos olhos dela ao ouvir o nome do marido.

“Adan não é homem. Você sim, mi gran amor, é um homem.”

“E você com certeza é totalmente mulher”, disse ele. “Meu Deus do céu, como eu me perco em você.”

“Eu também me perco em você.”

“Bom, nesse caso...” Ele olhou para o quarto em volta. Havia esperado tanto tempo por esse dia que não tinha certeza de como se comportar agora que havia chegado. “Você nunca vai conseguir um divórcio em Cuba, não é?”

Ela fez que não com a cabeça. “Mesmo que eu pudesse voltar lá com meu nome verdadeiro, a Igreja não permite.”

“Então vai ficar casada com ele para sempre.”

“No nome”, disse ela.

“Mas o que significa um nome?”, indagou ele.

Ela riu. “Concordo.”

Ele a puxou para cima de si e foi subindo os olhos por seu corpo moreno até os olhos castanhos. “Tú eres mi esposa.”

Ela enxugou os olhos com as duas mãos, e uma risadinha chorosa lhe escapou do peito. “E você é meu marido.”

“Para siempre.”

Ela pousou as palmas quentes das mãos em seu peito e assentiu. “Para sempre.”