Os Filhos da Noite
Capítulo 23
TODOS OS FILHOS VIOLENTOS
1933-5
23
O CORTE DE CABELO
“Tem certeza de que é ela?”, perguntou Dion no dia seguinte, no escritório de Joe.
No bolso interno do paletó, Joe pegou a fotografia que Esteban havia tornado a tirar da moldura na noite anterior. Colocou-a sobre a mesa em frente a Dion. “Diga-me você.”
Os olhos de Dion passearam pela foto, prenderam-se em um ponto, e por fim se arregalaram. “Ah, sim, é ela mesma.” Ele olhou de relance para Joe. “Já contou para Graciela?”
“Não.”
“Por que não?”
“Você por acaso conta tudo para as suas mulheres?”
“Não conto porra nenhuma, mas você é mais maricas do que eu. E ela está esperando um filho seu.”
“Verdade.” Ele ergueu os olhos para o teto revestido de cobre. “Não contei ainda porque não sei como contar.”
“É fácil”, disse Dion. “Basta dizer: ‘Meu amor, meu bem, querida, lembra-se daquela garota por quem eu era apaixonado antes de você? Aquela que eu lhe disse que tinha morrido? Bom, ela está viva, mora lá na sua cidade, e continua bem apetitosa. Falando em apetite, o que vai ter para o jantar?’.”
Sal, em pé junto à porta, baixou os olhos para esconder uma risadinha.
“Está se divertindo?”, perguntou Joe a Dion.
“Como nunca”, respondeu Dion, fazendo a cadeira se sacudir com sua corpulência.
“D”, disse Joe, “nós estamos falando em seis anos de raiva, seis anos de...” Joe lançou as mãos para o alto, incapaz de verbalizar o que estava sentindo. “Foi essa raiva que me fez sobreviver a Charlestown, foi ela que me fez pendurar Maso pelo pescoço de uma porra de um telhado, expulsar Albert White de Tampa, caramba, eu...”
“Você construiu um império por causa dessa raiva.”
“É.”
“Então, quando a vir”, disse Dion, “agradeça a ela por mim.”
A boca de Joe estava aberta, mas ele não conseguiu pensar em nada para dizer.
“Olhe aqui”, disse Dion, “eu nunca gostei daquela guria. Você sabe disso. Mas ela com certeza arrumou um jeito de inspirar você, patrão. Só perguntei se tinha contado a Graciela porque dela eu gosto. E muito.”
“Eu também gosto muito dela”, disse Sal, e ambos olharam para ele. Sal ergueu a mão direita, segurando a Thompson com a esquerda. “Desculpe.”
“Nós temos certa liberdade porque costumávamos sair na mão quando éramos pequenos”, disse-lhe Dion. “Para você, ele é sempre o patrão.”
“Não vai se repetir.”
Dion tornou a se virar para Joe.
“Nós não saíamos na mão quando éramos pequenos”, disse Joe.
“É claro que saíamos.”
“Não”, disse Joe. “Era sempre você quem me surrava.”
“Você me acertou com um tijolo.”
“Para você parar de bater em mim.”
“Ah.” Dion passou alguns instantes calado. “Eu ia dizer alguma coisa.”
“Quando?”
“Quando entrei pela porta. Ah, sim, precisamos falar sobre a visita de Maso. E você ouviu falar no que Irv Figgis fez?”
“Fiquei sabendo sobre Loretta, sim.”
Dion fez que não com a cabeça. “Todos nós ficamos sabendo sobre Loretta. Mas sabia que ontem à noite Irv apareceu no bar de Arturo? Parece que foi onde Loretta comprou a última ampola de droga na noite de anteontem.”
“Tá...”
“Bom, Irv quase matou Arturo de porrada.”
“Não.”
Dion assentiu. “Não parava de dizer: ‘Penitência, penitência’, e de baixar o sarrafo como se os punhos dele fossem duas porras de pistões. Arturo talvez perca um olho.”
“Que merda. E Irv?”
Dion girou o indicador junto à têmpora. “Foi levado para dois meses em observação no manicômio de Temple Terrace.”
“Meu Deus do céu, o que fizemos com essas pessoas?”, indagou Joe.
O rosto de Dion escureceu até ficar escarlate. Ele se virou e apontou para Sal Urso. “Você nunca viu porra nenhuma aqui, entendeu?”
“Ver o quê?”, indagou Sal, e Dion deu um tapa na cara de Joe.
Um tapa tão forte que Joe foi projetado contra a escrivaninha. Ele ricocheteou, e já voltou com o 32 apontado para a papada sob o queixo de Dion.
“Não vou ver você entrar em outro encontro de vida ou morte sabendo que está meio torcendo para morrer por causa de uma coisa com a qual não teve nada a ver”, disse Dion. “Quer me matar com um tiro aqui e agora?”, Dion abriu bem os braços. “Pode puxar a porra do gatilho.”
“Acha que eu não vou puxar?”
“Não estou nem aí se puxar”, disse Dion. “Porque não vou ver você tentar se matar uma segunda vez. Você é meu irmão. Está me entendendo, seu irlandês burro de merda? Você. Mais do que Seppi ou Paolo, que Deus os tenha. Você. E eu não posso perder mais um irmão. Não posso.”
Dion segurou o pulso de Joe com força, dobrou o dedo por cima do dedo de Joe que estava no gatilho, e enterrou o cano da pistola ainda mais fundo nas dobras do próprio pescoço. Fechou os olhos e retesou os lábios contra os dentes.
“A propósito, quando é que você vai para lá?”
“Para onde?”
“Para Cuba.”
“Quem disse que eu vou para lá?”
Dion franziu o cenho. “Você acabou de descobrir que uma garota morta por quem era completamente doido está viva e morando uns quinhentos quilômetros ao sul daqui, e vai ficar aí sentado em cima dessa informação?”
Joe afastou a pistola e tornou a guardá-la no coldre. Reparou que Sal estava branco feito um lençol e molhado feito uma toalha de barbeiro. “Irei logo depois dessa reunião com Maso. Você sabe como o velho pode ser falastrão.”
“Foi sobre isso que eu vim falar.” Dion abriu o caderninho de capa de couro que carregava consigo por toda parte e folheou as páginas. “Tem várias coisas que não me agradam nessa história.”
“Como por exemplo?”
“O fato de ele e os capangas terem reservado meio trem para descer até aqui. É uma comitiva e tanto.”
“Ele é velho... a enfermeira tem de acompanhá-lo o tempo todo, talvez um médico também, e ele tem quatro guarda-costas em tempo integral.”
Dion concordou. “Bom, ele está trazendo pelo menos vinte caras. Não devem ser vinte enfermeiras. Reservou o Hotel Romero na Oitava Avenida. O hotel inteiro. Por quê?”
“Por segurança.”
“Mas ele sempre fica no Tampa Bay. E reserva só um andar. Isso basta para garantir a segurança dele. Por que reservar um hotel inteiro no centro de Ybor?
“Acho que ele está ficando mais paranoico”, disse Joe.
Perguntou-se o que iria dizer a ela quando a visse. Lembra de mim?
Ou seria essa pergunta demasiado cafona?
“Patrão, escute o que estou dizendo por um segundo”, disse Dion. “Ele não pegou o trem direto para cá. Primeiro pegou o Central de Illinois. Depois parou em Detroit, Kansas City, Cincinnati e Chicago.”
“Certo. Onde ficam baseados todos os seus sócios no ramo do uísque.”
“É também onde ficam baseados todos os patrões. Todos os que importam fora de Nova York e Providence, e adivinhe onde ele esteve quinze dias atrás?”
Joe olhou para o amigo do outro lado da escrivaninha. “Nova York e Providence.”
“Exato.”
“O que você está pensando, então?”
“Não sei.”
“Acha que ele está consultando o país inteiro para pedir permissão para nos eliminar?”
“Pode ser.”
Joe balançou a cabeça. “Não faz sentido, D. Em cinco anos, nós quadruplicamos os lucros da organização. Quando chegamos aqui, esta cidade era uma porra de uma zona rural. E no ano passado nós tiramos o quê, líquido? Onze milhões só de rum?”
“Onze e meio”, corrigiu Dion. “E fizemos mais do que quadruplicar.”
“Então por que detonar uma operação sadia? Eu não compro aquela história dele de ‘Joseph, você é como um filho para mim’, não mais do que você. Mas ele respeita os números. E os nossos números são de primeira categoria.”
Dion aquiesceu. “Concordo que não faz sentido nos eliminar. Mas não estou gostando desses indícios. Não estou gostando da sensação que eles causam na minha barriga.”
“Foi a paella que você comeu ontem à noite.”
Dion lhe exibiu um sorriso débil. “Claro. Talvez seja isso.”
Joe se levantou. Afastou as vezenianas e olhou para o chão de fábrica lá embaixo. Dion estava preocupado, mas Dion era pago para se preocupar. Ou seja, estava fazendo seu trabalho. No final das contas, Joe sabia, todo mundo naquele ramo fazia o que podia para ganhar o máximo de dinheiro que pudesse ganhar. Era simples assim. E Joe ganhava dinheiro. Sacos e mais sacos de dinheiro subiam a Costa Leste junto com as garrafas de rum para rechear o cofre da mansão de Maso em Nahant. A cada ano, Joe produzia mais dinheiro do que no ano anterior. Maso era implacável, e tinha ficado um pouco menos previsível desde a piora em sua saúde. Mas era acima de tudo ganancioso. E Joe alimentava essa ganância. Mantinha a barriga de Maso aquecida e cheia. Não havia nenhum motivo lógico para Maso correr o risco de passar fome outra vez para substituir Joe. E por que substituir Joe? Ele não havia cometido transgressão alguma. Não havia roubado nada. Não representava nenhuma ameaça ao poder de Maso.
Joe se virou da janela. “Faça o que tiver de fazer para garantir minha segurança nessa reunião.”
“Não posso garantir sua segurança na reunião”, disse Dion. “É esse o meu problema. Ele vai fazer você entrar em um prédio onde comprou todos os quartos. Eles provavelmente estão passando o pente-fino lá neste exato instante, para eu não poder infiltrar ninguém nem poder esconder armas em lugar nenhum, nada. Você vai entrar às cegas. E nós vamos ficar do lado de fora, igualmente às cegas. Se eles decidirem que você não vai sair daquele prédio...” Dion bateu no tampo da escrivaninha várias vezes com o indicador. “Você não vai sair daquele prédio e pronto.”
Joe passou um bom tempo observando o amigo. “O que deu em você?”
“Uma intuição.”
“Intuição não é fato”, disse Joe. “E os fatos são que me matar não rende nenhuma porcentagem. Não beneficia ninguém.”
“Que você saiba.”
* * *
O Hotel Romero ficava em um prédio de tijolos vermelhos de dez andares, na esquina da Oitava Avenida com a rua Dezessete. Sua clientela consistia em viajantes comerciais que não eram importantes o suficiente para que suas empresas os hospedassem no Hotel Tampa. Era um hotel perfeitamente razoável — todos os quartos tinham privada e pia, e os lençóis eram trocados dia sim, dia não; o serviço de quarto ficava disponível pela manhã e nas noites de sexta e sábado —, mas de forma alguma palaciano.
Joe, Sal e Lefty foram recebidos na porta da frente por Adamo e Gino Valocco, dois irmãos da Calábria. Joe já conhecia Gino da penitenciária de Charlestown, e os dois atravessaram o lobby conversando.
“Onde está morando agora?”, indagou Joe.
“Em Salem”, respondeu Gino. “Não é mau.”
“Sossegou o facho?”
Gino aquiesceu. “Encontrei uma boa moça italiana. Já temos dois filhos.”
“Dois?”, comentou Joe. “Você trabalha depressa.”
“Gosto de família grande. E você?”
Joe não iria revelar sua paternidade iminente para uma porra de um assassino de aluguel, por mais agradável que fosse a sua prosa. “Ainda estou pensando no assunto.”
“Não espere demais”, disse Gino. “Precisa de energia para quando eles forem pequenos.”
Aquela era uma das coisas sobre aquele ramo que Joe sempre achara encantadora e absurda ao mesmo tempo: cinco homens andando até um elevador, quatro deles com metralhadoras na mão, todos armados com pistolas, e dois perguntando um ao outro sobre mulheres e filhos.
No elevador, Joe manteve Gino falando mais um pouco sobre os filhos enquanto tentava farejar alguma armadilha. Quando entraram no elevador, quaisquer ilusões que pudessem ter quanto a uma rota de fuga se extinguiram.
Mas não passavam disso: ilusões. Uma vez ultrapassada a porta da frente, eles tinham aberto mão de sua liberdade. Aberto mão da própria vida caso Maso, por algum motivo demente que Joe não conseguia entender, quisesse acabar com elas. O elevador era apenas a caixa menor dentro da caixa maior. Mas o fato de que estavam dentro de uma caixa era indiscutível.
Talvez Dion estivesse certo.
E talvez Dion estivesse errado.
Só havia um jeito de saber.
Deixaram os irmãos Valocco para trás e entraram no elevador. O ascensorista era Ilario Nobile, permanentemente emaciado e amarelado pela hepatite, mas um mágico em se tratando de armas. Diziam que ele era capaz de acertar um tiro de fuzil no traseiro de uma pulga durante um eclipse solar, e de assinar o próprio nome no peitoril de uma janela usando uma Thompson sem quebrar uma só vidraça.
Enquanto subiam até o último andar, o papo de Joe com Ilario foi tão descontraído como o que tivera com Gino Valocco. No caso de Ilario, o truque era falar sobre seus cachorros. Ele criava beagles em sua casa de Revere, e tinha a reputação de produzir cães de temperamento dócil e orelhas extremamente macias.
Assim que a cabine começou a subir, porém, Joe tornou a se perguntar se Dion havia de fato farejado alguma coisa. Os irmãos Valocco e Ilario Nobile eram atiradores conhecidos. Não eram brutamontes nem homens inteligentes. Eram assassinos.
No saguão do nono andar, porém, a única outra pessoa que os aguardava era Fausto Scarfone, outro artífice das armas, sem dúvida, mas que estava sozinho, o que deixou a partida empatada durante a espera no corredor — dois homens de Maso contra dois de Joe.
O próprio Maso veio abrir a porta da Suíte Gaspiralla, a mais luxuosa do hotel. Deu um abraço em Joe e segurou seu rosto com as mãos ao beijar sua testa. Tornou a abraçá-lo, e lhe deu vários tapinhas com força nas costas. “Como vai, meu filho?”
“Muito bem, sr. Pescatore. Obrigado por perguntar.”
“Fausto, veja se os homens dele precisam de alguma coisa.”
“Tiro as armas dele, sr. Pescatore?”
Maso franziu o cenho. “É claro que não. Acomodem-se, cavalheiros. Não devemos demorar muito.” Maso apontou para Fausto. “Se alguém quiser um sanduíche ou algo assim, ligue para o serviço de quarto. Peça qualquer coisa que esses rapazes desejarem.”
Ele conduziu Joe para dentro da suíte e fechou as portas atrás deles. Uma sequência de janelas dava para um beco e para o prédio de tijolos amarelos contíguo, um fabricante de pianos que falira em 1929. Tudo o que restava era seu nome, horace r. porter, já meio apagado no tijolo, e uma porção de janelas lacradas com tábuas de madeira. As outras, porém, não tinham vista para nada que fizesse os hóspedes pensarem na Depressão. Davam para Ybor e para os canais que conduziam à baía de Hillsborough.
No meio da área de estar, quatro poltronas estavam dispostas em volta de uma mesa de centro de carvalho. Um bule de prata de lei e uma jarrinha de creme e açucareiro do mesmo feitio ocupavam o centro da mesa. Havia também uma garrafa de licor de anis e três copinhos já servidos com a bebida. O filho do meio de Maso, Santo, estava sentado à sua espera, com os olhos erguidos para Joe enquanto se servia uma xícara de café e pousava a xícara ao lado de uma laranja.
Santo Pescatore tinha trinta e um anos de idade e todos o chamavam de Digger, “escavador”, embora ninguém se lembrasse mais do que tinha motivado o apelido, nem mesmo o próprio Santo.
“Santo, lembra de Joe?”
“Sei lá. Talvez.” Ele meio que se levantou da poltrona e cumprimentou Joe com um aperto de mão flácido e úmido. “Pode me chamar de Digger.”
“Prazer em revê-lo.” Joe sentou-se de frente para ele, e Maso deu a volta na mesa e foi se sentar ao lado do filho.
Digger descascou a laranja e foi jogando a casca em cima da mesa. Seu rosto comprido exibia uma careta permanente de desconfiança envergonhada, como se ele houvesse acabado de escutar uma piada que não entendera. Tinha cabelos curtos encaracolados já meio ralos na frente, queixo e pescoço carnudos e os mesmos olhos do pai, escuros e pequeninos como pontas de lápis afiadas. No entanto, havia algo de opaco nele. Digger não tinha o mesmo charme nem a mesma astúcia do pai, pois nunca havia precisado deles.
Maso serviu uma xícara de café para Joe e a passou para ele por cima da mesa. “Como tem passado?”
“Muito bem. E o senhor?”
Maso moveu a mão de um lado para o outro. “Dias bons, outros ruins.”
“Espero que mais bons do que ruins.”
Maso ergueu um dos copinhos de licor de anis para brindar a isso. “Até agora, até agora. Salud.”
Joe também ergueu um dos copos. “Salud.”
Maso e Joe beberam. Digger jogou um gomo de laranja na boca e pôs-se a mastigar de boca aberta.
Joe pensou, não pela primeira vez, que para um negócio tão violento aquele contava com um número surpreendente de homens normais — homens que amavam as esposas, que levavam os filhos para passear no sábado à tarde, homens que consertavam seus carros, contavam piadas na lanchonete do bairro, preocupavam-se com o que suas mães pensavam sobre eles e iam à igreja pedir o perdão de Deus por todas as coisas terríveis que tinham de entregar a César de modo a pôr comida na mesa.
No entanto, era também um ramo povoado por um número equivalente de porcos. Broncos cruéis cujo principal talento era sentir por seus semelhantes o mesmo que sentiam por uma mosca agonizando no peitoril da janela ao final do verão.
Digger Pescatore pertencia ao segundo grupo. Como muitos da sua raça que Joe já conhecera, era filho de um dos pais fundadores daquela coisa à qual todos eles se viam entrelaçados, colados, subordinados.
Ao longo dos anos, Joe tinha conhecido todos os três filhos de Maso. Conhecera Buddy, o único filho de Tim Hickey. Conhecera os filhos de Cianci em Miami, de Barrone em Chicago e de DiGiacomo em Nova Orleans. Todos os pais eram homens temíveis que haviam construído a própria história. Donos de uma força de vontade inquebrantável, de alguma visão, e sem um pingo de compaixão. Mas todos homens, sem sombra de dúvida.
E todos os filhos, sem exceção, pensou Joe enquanto o barulho da mastigação de Digger dominava o recinto, eram um puta constrangimento para a raça humana.
Enquanto Digger comia sua laranja, depois uma segunda, Maso e Joe conversaram sobre a viagem de trem de Maso, sobre o calor, sobre Graciela e sobre o bebê que iria nascer.
Quando todos esses assuntos se exauriram, Maso sacou um jornal que estava enfiado na poltrona ao seu lado. Pegou a garrafa, deu a volta na mesa e sentou-se ao lado de Joe. Serviu mais duas doses de licor e abriu o Tampa Tribune. O rosto de Loretta Figgis os encarou de volta abaixo da manchete:
A MORTE DA MADONA
“Foi essa a garota que nos causou todos aqueles problemas no cassino?”
“Ela mesma.”
“Então por que não a matou?”
“Teria causado repercussão demais. O estado inteiro estava de olho.”
Maso separou um gomo de laranja da casca. “Verdade, mas não foi esse o motivo.”
“Não?”
Maso fez que não com a cabeça. “Por que não matou o fabricante de bebida ilegal como mandei que matasse em 32?”
“Turner John?”
Maso confirmou.
“Porque nós chegamos a um acordo.”
Maso balançou a cabeça. “Sua ordem não era chegar a um acordo. Sua ordem era matar o filho da puta. E o motivo pelo qual você não fez isso foi o mesmo pelo qual não matou essa puttana pazzo... porque você não é um assassino, Joseph. O que constitui um problema.”
“Ah, é? Desde quando?”
“A partir de agora. Você não é um gângster.”
“Está tentando não me magoar, Maso?”
“Você é um fora da lei, um bandido de terno. E agora ouvi dizer que está pensando em seguir as leis.”
“Estou só pensando.”
“Então não vai se importar se eu o substituir aqui?”
Por algum motivo, Joe sorriu. Deu uma risadinha. Encontrou seus cigarros e acendeu um. “Quando eu cheguei aqui, Maso, sabe quanto esta operação rendia, bruto? Um milhão por ano.”
“Eu sei.”
“E sabe quanto rende desde que eu cheguei aqui? Em média, quase onze milhões.”
“Mas é quase tudo por causa do rum. Essa época está acabando. Você deixou pra lá as garotas e os narcóticos.”
“Deixei pra lá o caralho”, disse Joe.
“Como disse?”
“Eu me concentrei no rum porque era mais lucrativo, sim. Mas as nossas vendas de narcóticos subiram sessenta e cinco por cento. Quanto às garotas, nós abrimos quatro casas desde que vim para cá.”
“Mas poderiam ter aberto mais. E as putas dizem que raramente apanham.”
Joe se pegou baixando os olhos para a mesa e encarando o rosto de Loretta, depois tornando a erguê-los e baixando-os outra vez. Foi a sua vez de expirar ruidosamente. “Maso, eu...”
“Sr. Pescatore”, disse Maso.
Joe não disse nada.
“Joseph”, disse Maso, “nosso amigo Charlie quer fazer algumas mudanças na forma como estamos administrando nossa operação.”
“Nosso amigo Charlie” era Lucky Luciano, de Nova York. O rei, em suma. O imperador vitalício.
“Que mudanças?”
“Levando em consideração que o braço direito de Lucky é um judeuzinho de merda, as mudanças são meio irônicas, injustas até. Não vou mentir para você.”
Joe deu um sorriso tenso para Maso e esperou o velho prosseguir.
“Charlie quer os cargos mais altos ocupados por italianos, e só por italianos.”
Maso não estava brincando; aquilo era o auge da ironia. Todos sabiam que, por mais inteligente que Lucky Luciano fosse — e ele era inteligente à beça —, nada seria sem Meyer Lansky. Judeu do Lower East Side, Lansky fizera mais do que qualquer outra pessoa naquela organização à qual todos eles pertenciam para transformar um ajuntamento de pequenos negócios em uma corporação.
A questão, porém, era que Joe não tinha o menor desejo de chegar ao topo. Estava feliz com sua pequena operação local.
Foi o que disse a Maso.
“Você é excessivamente modesto”, disse este.
“Não sou, não. Eu domino Ybor. E o rum, sim, mas isso acabou, como o senhor disse.”
“Você domina bem mais do que Ybor e bem mais do que Tampa, Joseph. Todo mundo sabe disso. Você domina a costa do golfo daqui até Biloxi. Domina as rotas de distribuição daqui até Jacksonville, e metade das que vão para o Norte. Eu conferi as contas. Você nos transformou em uma potência aqui no Sul.”
Em vez de dizer E é assim que o senhor me agradece?, Joe disse: “Então, se eu não posso tocar a operação porque Charlie disse: ‘Não aceitamos irlandeses’, o que posso ser?”.
“O que eu mandar.” A frase foi de Digger, que havia terminado de comer a segunda laranja e estava limpando as palmas pegajosas nas laterais da poltrona.
Maso lançou a Joe um olhar de “não dê bola para ele” e disse: “Consigliere. Você fica com Digger para lhe ensinar os macetes, apresentá-lo às pessoas da cidade, quem sabe lhe ensinar a jogar golfe ou pescar”.
Digger encarou Joe com seus olhos miúdos. “Eu já sei fazer a barba e amarrar os sapatos.”
Joe quis responder: Mas precisa pensar antes, não é?
Maso deu um único tapinha no joelho de Joe. “Vai ter que dar um cortezinho de cabelo, em termos financeiros. Mas não se preocupe, vamos entrar no porto à força neste verão e dominar aquela porra toda, e vai haver muito trabalho, prometo.”
Joe assentiu. “Que tipo de corte de cabelo?”
“Digger vai ficar com a sua parte”, disse Maso. “Você forma uma equipe e fica com o que conseguir arrecadar, menos o nosso tributo.”
Joe olhou para as janelas. Passou alguns instantes observando as que davam para o beco. Em seguida, as que davam para a baía. Contou lentamente de trás para a frente a partir de dez. “Está me rebaixando a chefe de bando?”
Maso deu outro tapinha em seu joelho. “É uma reorganização, Joseph. Por ordens de Charlie Luciano.”
“Charlie disse: ‘Substitua Joe Coughlin em Tampa’.” “Charlie disse: ‘Nenhum não italiano no topo’.” Sua voz continuava suave, bondosa até, mas Joe pôde ouvir uma certa frustração se insinuar no timbre.
Demorou alguns instantes para manter o controle sobre a própria voz, pois sabia a rapidez com que Maso era capaz de despir a máscara de velho cavalheiro cortês e revelar o canibal selvagem que havia por trás.
“Maso, acho que é uma ótima ideia fazer Digger usar a coroa. E nós dois juntos? Vamos dominar o estado, dominar até Cuba. Eu tenho contatos para fazer isso. Mas a minha parte precisa continuar próxima do que é hoje. Se eu for demovido a chefe de bando, quanto vou ganhar? Talvez um décimo do que ganho hoje. E como é que vou fechar meu mês com isso? Extorquindo sindicatos de estivadores e donos de fábricas de charutos? Não há poder nenhum nessas coisas.”
“Talvez a ideia seja essa.” Digger sorriu pela primeira vez, deixando à mostra um pedaço de laranja preso nos dentes de cima. “Já pensou nisso, espertinho?”
Joe olhou para Maso.
Maso o encarou de volta. “Eu construí isto aqui”, disse Joe.
Maso aquiesceu.
“Tirei desta cidade dez ou onze vezes mais do que Lou Ormino estava ganhando para você, porra”, disse Joe.
“Porque eu deixei”, retrucou Maso.
“Porque o senhor precisava de mim.”
“Ei, espertinho, ninguém precisa de você”, disse Digger.
Maso fez um gesto de quem afaga o ar entre si e o filho, o tipo de gesto tranquilizador que se usa com um cão. Digger se recostou na cadeira e Maso se virou para Joe. “Nós podemos usar você, Joseph. Podemos, mesmo. Mas estou sentindo uma falta de gratidão.”
“Eu também.”
Dessa vez, a mão de Maso se imobilizou sobre seu joelho e apertou. “Você trabalha para mim. Não para si mesmo, nem para os cucarachos ou crioulos com os quais decidiu se cercar. Se eu o mandar limpar a merda que caguei na privada, adivinha o que você vai fazer?” Ele sorriu, e sua voz saiu mais branda do que nunca. “Se eu sentir vontade, mato aquela piranha da sua namorada e queimo sua casa até o chão. Você sabe disso, Joseph. Seus olhos ficaram um pouco maiores do que a barriga aqui no Sul, só isso. Não é a primeira vez que vejo isso acontecer.” Ele retirou a mão do joelho de Joe e a usou para dar um tapinha em seu rosto. “Então, quer ser chefe de bando? Ou quer limpar a merda da minha privada em dia de caganeira? Estou com vagas abertas para os dois cargos.”
Se Joe aceitasse, teria alguns dias de dianteira para conversar com todos os seus contatos, reunir suas forças e dispor corretamente as peças no tabuleiro de xadrez. Enquanto Maso e seus capangas estivessem a bordo do trem voltando para o Norte, Joe iria de avião a Nova York, falaria com o próprio Luciano, poria um balancete em cima de sua mesa e lhe mostraria o que Joe poderia arrecadar para ele em comparação com o que um retardado como Digger Pescatore iria perder. A probabilidade de Lucky ver a luz e de eles conseguirem superar aquela situação com um derramamento de sangue mínimo era excelente.
“Quero ser chefe de bando”, disse Joe.
“Ah, meu garoto”, disse Maso com um largo sorriso. Beliscou as bochechas de Joe. “Meu garoto.”
Quando Maso se levantou da poltrona, Joe se levantou também. Os dois apertaram-se as mãos. Abraçaram-se. Maso beijou-lhe as duas faces nos mesmos pontos em que as havia beliscado.
Joe apertou a mão de Digger e lhe disse quanto estava animado para trabalhar com ele.
“Para mim”, lembrou-lhe Digger.
“Certo, para você”, disse Joe.
Encaminhou-se para a porta.
“Jantamos hoje?”, perguntou Maso.
Joe parou junto à porta. “Claro. Que tal às nove no Tropicale?”
“Parece ótimo.”
“Tá bom. Vou reservar a melhor mesa.”
“Maravilha”, disse Maso. “E cuide para que ele esteja morto até lá.”
“O quê?” Joe tirou a mão da maçaneta. “Ele quem?”
“Seu amigo.” Maso serviu-se uma xícara de café. “O grandão.”
“Dion?”
Maso confirmou.
“Ele não fez nada”, disse Joe.
Maso ergueu os olhos para ele.
“Estou esquecendo alguma coisa?”, indagou Joe. “Ele tem arrecadado bastante e tem sido um ótimo atirador.”
“Ele é um delator”, disse Maso. “Há seis anos, delatou você. Isso significa que daqui a seis minutos, seis dias, seis meses, vai delatar de novo. Não posso ter um delator trabalhando para meu filho.”
“Não”, disse Joe.
“Não?”
“Não, ele não me delatou. Foi o irmão dele. Eu já lhe disse.”
“Eu sei o que você me disse, Joseph. Sei também que você mentiu. Eu lhe autorizo uma mentira.” Ele ergueu o indicador enquanto punha creme no café. “Você já contou a sua. Mate aquele monte de merda antes do jantar.”
“Maso, escute”, disse Joe. “Foi o irmão dele. Tenho certeza absoluta.”
“Tem?”
“Tenho.”
“Não está mentindo para mim?”
“Não estou mentindo para você.”
“Porque sabe o que significa se estiver.”
Meu Deus, pensou Joe, você veio até aqui roubar minha operação para o babaca inútil do seu filho. Roube logo.
“Eu sei o que significa”, falou.
“Está insistindo na sua versão.” Maso largou um torrão de açúcar dentro da xícara.
“Estou insistindo porque não é uma versão. É a verdade.”
“Toda a verdade e nada além da verdade?”
Joe fez que sim. “Toda a verdade e nada além da verdade.”
Maso balançou a cabeça devagar, com tristeza, e a porta atrás de Joe se abriu e Albert White adentrou o recinto.