Os Filhos da Noite

Dennis Lehane · Capítulo 3 de 29

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Os Filhos da Noite

Capítulo 3

O CUPIM DE HICKEY

 

Tim Hickey certa vez tinha dito a Joe que o menor dos erros às vezes é o que tem consequências mais graves. Joe se perguntou o que Tim teria dito sobre devanear ao volante do carro de fuga parado em frente a um banco. Ou melhor, devanear não — ficar obcecado. Obcecado pelas costas de uma mulher. Mais especificamente, pelas costas de Emma. Pela pinta que tinha visto ali. Tim provavelmente teria dito: pensando bem, às vezes são os maiores erros que têm as consequências mais graves, seu imbecil.

Outra coisa que Tim gostava de dizer era que, quando uma casa desabava, o primeiro cupim a tê-la roído era tão culpado quanto o último. Essa Joe não entendia — o primeiro cupim já devia ter morrido muito antes de o último cupim cravar os dentes na madeira. Ou será que não? Sempre que Tim fazia essa comparação, Joe decidia pesquisar sobre a expectativa de vida dos cupins, mas depois esquecia o assunto até a vez seguinte em que Tim mencionava o fato, geralmente quando estava bêbado e havia um hiato na conversa, e todos ao redor da mesa ficavam com a mesma expressão no rosto: afinal de contas, por que é que Tim tanto fala nessas porras desses cupins?

Uma vez por semana, Tim Hickey ia cortar o cabelo no barbeiro Aslem’s de Charles Street. Em uma determinada terça-feira, alguns desses fios de cabelo acabaram indo para dentro de sua boca quando ele levou um tiro na nuca a caminho da cadeira do barbeiro. Ficou caído no chão preto e branco de ladrilhos enquanto o sangue escorria e passava da ponta do seu nariz, e o assassino saía de trás do cabide de casacos, trêmulo e com os olhos esbugalhados. O cabide desabou com estardalhaço no chão de ladrilhos, e um dos barbeiros deu um pulo sem sair do lugar. O assassino passou por cima do cadáver de Tim Hickey e lançou às testemunhas uma série de meneios de cabeça com os ombros encolhidos, como se estivesse encabulado, antes de sair porta afora.

Quando Joe ouviu a notícia, estava na cama com Emma. Depois de ele desligar o telefone, Emma se sentou na cama enquanto ele lhe contava. Enrolou um cigarro e olhou para Joe enquanto lambia o papel — sempre olhava para ele quando lambia o papel —, acendendo-o em seguida. “Ele significava alguma coisa para você? Tim?”

“Não sei”, respondeu Joe.

“Como assim, não sabe?”

“Acho que não é nem uma coisa nem outra.”

Tim havia descoberto Joe e os irmãos Bartolo ainda crianças, tacando fogo em bancas de jornal. Um dia de manhã, eles recebiam dinheiro do Globe para incendiar uma das bancas do Standard. No dia seguinte, aceitavam dinheiro do American para queimar a do Globe. Tim os contratou para pôr fogo no Café 51. Eles então passaram para o estágio de assaltos vespertinos a residências em Beacon Hill, cujas portas dos fundos eram deixadas destrancadas por faxineiras ou faz-tudos vendidos a Tim. Sempre que faziam um dos trabalhos que Tim lhes dava, ele estabelecia um preço fixo; no caso de fazerem os próprios serviços, pagavam um tributo a Tim e ficavam com a parte do leão. Nesse aspecto, Tim fora um ótimo patrão.

Apesar disso, Joe o tinha visto estrangular Harvey Boule. Fora por causa de ópio, de uma mulher ou de um pointer alemão de pelo curto; até hoje, Joe só tinha ouvido boatos. Mas Harvey aparecera no cassino, ele e Tim começaram a conversar, e então Tim pegara o fio de uma das luminárias de mesa verdes e o passara em volta do pescoço de Harvey. Harvey era um cara grande, e havia carregado Tim pelo cassino durante cerca de um minuto enquanto todas as putas corriam para se proteger e todos os capangas de Hickey apontavam as armas para Harvey. Joe viu a compreensão surgir nos olhos de Harvey Boule — mesmo que ele conseguisse fazer Tim parar de esganá-lo, os capangas esvaziariam quatro revólveres e uma pistola automática nele. Harvey então caiu de joelhos e sujou as calças com um barulho alto de ar escapando. Ficou deitado de bruços, arquejando, enquanto Tim pressionava o joelho entre suas escápulas e enrolava o excesso de fio bem apertado em volta de uma das mãos. Torceu o fio e puxou mais ainda, e Harvey chutou com força suficiente para fazer ambos os sapatos saírem dos pés.

Tim estalou os dedos. Um de seus capangas lhe passou uma pistola, e Tim a levou à orelha de Harvey. Uma das putas falou: “Ai, meu Deus”, mas na hora em que Tim ia puxar o gatilho o olhar de Harvey se tornou indefeso e confuso, e ele soltou gemendo um último suspiro no tapete oriental falsificado que cobria o chão. Sentado em cima das costas de Harvey, Tim se inclinou para trás e devolveu a pistola ao capanga. Então se pôs a examinar o perfil do homem que acabara de matar.

Era a primeira vez que Joe via uma pessoa morrer. Menos de dois minutos antes, Harvey tinha pedido à garçonete que servira seu martíni para se informar para ele sobre o placar da partida do Sox. Dera-lhe uma bela gorjeta, também. Verificara as horas no relógio e tornara a guardá-lo no colete. Tomara um gole de martíni. Menos de dois minutos antes... e agora estava morto? Para onde ele tinha ido? Ninguém sabia. Encontrar Deus ou o diabo, para o purgatório ou coisa pior, ou talvez para lugar nenhum. Tim havia se levantado, alisado os cabelos brancos como a neve, e apontado de forma genérica para o gerente do cassino. “Mais uma rodada geral. Na conta de Harvey.”

Algumas pessoas riram de nervoso, mas a maioria pareceu nauseada.

Não era a única pessoa que Tim havia matado ou mandara matar nos últimos quatro anos, mas era a primeira que Joe assistira morrer.

E agora o próprio Tim. Morto. Para nunca mais voltar. Como se jamais houvesse existido.

“Você já viu alguém ser morto?”, perguntou Joe a Emma.

Ela o encarou com firmeza por alguns instantes, fumando o cigarro e roendo uma das unhas. “Já.”

“Para onde você acha que eles vão?”

“Para a funerária.”

Ele a encarou até ela sorrir aquele seu sorriso pequenino, com os cachos dos cabelos dependurados em frente aos olhos.

“Acho que eles não vão para lugar nenhum”, ela disse.

“Estou começando a achar isso também”, disse Joe. Sentando-se, deu-lhe um beijo sôfrego, e ela retribuiu com a mesma sofreguidão. Seus tornozelos se cruzaram nas costas dele. Ela passou a mão por seus cabelos e ele olhou para dentro dela com a sensação de que, se parasse de olhar, perderia alguma coisa, alguma coisa importante que iria acontecer no rosto dela, algo que ele nunca mais esqueceria.

“E se não houver nenhum depois? E isto aqui”,ela pressionou o corpo contra o dele, “for tudo o que existe?”

“Eu adoro isto aqui”, disse ele.

Ela riu. “Eu também adoro.”

“Em geral? Ou comigo?”

Ela apagou o cigarro. Segurou o rosto dele com as mãos para beijá-lo. Balançou-se para a frente e para trás. “Com você.”

Mas não era só com ele que ela fazia aquilo, era?

Ainda havia Albert. Havia Albert.

Alguns dias depois, na sala de sinuca anexa ao cassino, Joe estava jogando sozinho quando Albert White adentrou o recinto com a segurança de alguém que esperava a remoção de qualquer obstáculo antes da sua chegada. Caminhando junto com ele vinha seu principal capanga, Brenny Loomis, que olhou direto para Joe do mesmo jeito que olhara para ele do chão da sala de pôquer.

Joe sentiu o coração ser transpassado por uma faca. E parar de bater. “Você deve ser o Joe”, disse Albert White.

Joe obrigou-se a se mexer. Apertou a mão estendida de Albert. “Isso, Joe Coughlin. Prazer em conhecê-lo.”

“É bom poder dar rosto a um nome, Joe.” Albert sacudiu sua mão como se estivesse bombeando água para apagar um incêndio.

“Sim, senhor.”

“Este é Brendan Loomis”, apresentou Albert. “Um amigo meu.”

Joe apertou a mão de Loomis, e foi como pôr a mão entre dois carros que estivessem dando ré um na direção do outro. Loomis inclinou a cabeça de lado, e seus olhos castanhos e miúdos passearam por seu rosto. Quando Joe conseguiu reaver a própria mão, teve de resistir ao impulso de esfregá-la. Enquanto isso, Loomis limpou a sua com um lenço de seda; de tão inexpressivo, seu rosto parecia uma pedra. Os olhos se afastaram de Joe e olharam para a sala de sinuca como se ele tivesse planos para o lugar. Era bom no manejo de armas e excelente no de facas, diziam, mas matava a maioria de suas vítimas de pancada mesmo.

“Já vi você antes, não é?”, indagou Albert.

Joe vasculhou sua expressão em busca de sinais de brincadeira. “Acho que não.”

“Já, sim. Bren, você já viu este cara antes?”

Brenny Loomis pegou a bola nove e a examinou. “Não.”

Joe sentiu um alívio tão avassalador que teve medo de perder o controle da própria bexiga.

“No Cadarço.” Albert estalou os dedos. “Você vai lá de vez em quando, não vai?”

“Vou”, respondeu Joe.

“É isso, é isso.” Albert deu um tapinha no ombro de Joe. “Quem administra esta casa agora sou eu. Sabe o que isso significa?”

“Não.”

“Que preciso que você saia do quarto em que mora.” Ele ergueu um dedo indicador. “Mas não quero que ache que estou pondo você na rua.”

“Tá bom.”

“É que este é um bom lugar. Temos várias ideias para ele.”

“Com certeza.”

Albert levou uma das mãos ao braço de Joe, logo acima do cotovelo. Sua aliança de casamento cintilou com a luz. Era de prata. Gravada com motivos de serpentes celtas. E com alguns diamantes incrustados também, dos pequenos.

“Pode ir pensando em que tipo de trabalho você quer fazer. Tá bom? Pense no assunto, só isso. Sem pressa. Mas saiba o seguinte: você não vai poder trabalhar sozinho. Não nesta cidade. Não mais.”

Joe desviou o olhar da aliança e da mão em seu braço para encarar os olhos simpáticos de Albert White.

“Não tenho a menor vontade de trabalhar sozinho, meu senhor. Chovesse ou fizesse sol, eu sempre pagava tributo a Tim Hickey.”

Albert White assumiu uma expressão de quem não tinha gostado de ouvir o nome de Tim Hickey ser pronunciado no local que agora lhe pertencia. Deu alguns tapinhas no braço de Joe.

“Eu sei que pagava. Sei também que fazia um bom trabalho. De primeira categoria. Mas nós não fazemos negócios com gente de fora. E sabe o que é um fornecedor independente? Uma pessoa de fora. Joe, nós estamos formando uma ótima equipe. Prometo a você... uma equipe incrível.” Ele se serviu uma bebida do decantador de Tim sem oferecer a mais ninguém. Levou a bebida até a mesa de sinuca e, tomando impulso, sentou-se na beirada e olhou para Joe. “Vou dizer uma coisa sem rodeios: você é inteligente demais para os trabalhos que tem feito. Essa sua parceria com dois patetas... escute, eles são ótimos amigos, tenho certeza, mas são burros, são carcamanos e vão morrer antes dos trinta. Mas você? Você pode continuar no caminho em que está. Sem compromissos, mas sem amigos. Com casa, mas sem lar.” Ele desceu da mesa de sinuca. “Se não quiser ter um lar, tudo bem. Prometo que tudo bem. Mas não vai poder atuar em lugar nenhum dentro dos limites da cidade. Se quiser cavar um lugar ao sol no litoral sul, vá em frente. Pode tentar também o litoral norte, se os italianos o deixarem vivo depois de saberem que você existe. Mas aqui, na cidade?” Ele apontou para o chão. “Isto aqui agora está organizado, Joe. Ninguém mais paga tributo; agora são todos funcionários. E patrões. Alguma parte do que eu disse ficou difícil de entender?”

“Não.”

“Ou confusa?”

“Não, sr. White.”

Albert White cruzou os braços e aquiesceu com um movimento de cabeça, olhando para os próprios sapatos. “Você tem alguma coisa em vista? Algum trabalho sobre o qual eu deva saber?”

Joe tinha gastado a última parte do dinheiro de Tim Hickey pagando o sujeito que lhe dera as informações de que precisava para o serviço de Pittsfield.

“Não”, respondeu. “Nada em vista.”

“Está precisando de dinheiro?”

“Como assim, senhor White?”

“Dinheiro.” Albert levou ao bolso a mão que já havia tocado o osso púbico de Emma. Que já havia segurado seus cabelos. Tirou duas notas de dez do bolo de dinheiro e as depositou na palma da mão de Joe com um estalo. “Não quero você pensando de barriga vazia.”

“Obrigado.”

Albert usou a mesma mão para dar um tapinha na bochecha de Joe. “Espero que tudo isso termine bem.”

* * *

“A gente podia ir embora”, disse Emma.

“Embora?”, repetiu ele. “Como assim, juntos?”

Os dois estavam no quarto dela no meio do dia, única hora em que suas três irmãs, três irmãos, mãe amargurada e pai feroz saíam de casa ao mesmo tempo.

“A gente podia ir embora”, repetiu Emma, como se ela própria não acreditasse.

“E ir para onde? Viver de quê? E juntos, você quer dizer?”

Ela não respondeu nada. Duas vezes ele lhe fizera a mesma pergunta, e duas vezes ela a havia ignorado.

“Não entendo muita coisa de trabalho honesto”, disse ele.

“Quem disse que precisa ser honesto?”

Ele passeou os olhos pelo quarto desenxabido que ela dividia com duas irmãs. Junto à janela, o papel de parede havia descolado da camada de gesso reforçado com crina, e duas das vidraças estavam rachadas. Eles podiam ver o vapor de sua respiração dentro do quarto.

“Teríamos de ir para bem longe”, disse ele. “Nova York é uma cidade fechada. Filadélfia também. Detroit, pode esquecer. Chicago, Kansas City, Milwaukee... são todas fechadas para um cara como eu, a menos que eu queira entrar para uma máfia qualquer como o mais chinfrim carregador de piano.”

“Então vamos para o Oeste, como já disse alguém. Ou para o Sul.” Ela encostou o nariz na lateral de seu pescoço e inspirou fundo; uma suavidade pareceu brotar dentro dela. “Vamos precisar de dinheiro para começar.”

“Temos um serviço agendado para sábado. Você está livre no sábado?”

“Para ir embora?”

“É.”

“No sábado à noite tenho que encontrar Você Sabe Quem.”

“Ele que se foda.”

“Bom, é, a ideia é essa mesmo”, retrucou ela.

“Não, eu quis dizer...”

“Eu sei o que você quis dizer.”

“Esse cara é mau para caralho”, disse Joe com os olhos pregados nas costas dela, naquela pinta cor de areia molhada.

Ela o fitou com um leve ar desapontado, mais desdenhoso ainda por ser tão leve. “Não é, não.”

“Está defendendo ele?”

“Estou dizendo que ele não é um cara mau. Não é o meu cara. Não é alguém que eu ame, nem admire nem nada. Mas ele não é mau. Pare de viver tentando tornar as coisas simples.”

“Ele matou Tim. Ou mandou matar.”

“E Tim por acaso ganhava a vida doando perus para os órfãos?”

“Não, mas...”

“Mas o quê? Ninguém é bom nem mau. Todo mundo só está tentando seguir o seu caminho.” Ela acendeu um cigarro e sacudiu o fósforo até este ficar preto e soltar fumaça. “Pare com essa mania escrota de julgar as pessoas.”

Ele não conseguia parar de olhar para a pinta, de se perder em sua areia, de rodopiar junto com ela. “Você vai mesmo se encontrar com ele.”

“Não comece. Se fôssemos mesmo sair da cidade, nesse caso...”

“Nós vamos sair da cidade.” Se fosse para garantir que nenhum outro homem jamais voltasse a tocá-la, Joe sairia até do país.

“E ir para onde?”

“Para Biloxi”, respondeu ele, percebendo assim que falou que na verdade não era má ideia. “Tim tinha vários amigos lá. Caras que eu conheci. Que mexem com rum. Albert compra a bebida dele no Canadá. Ele é um cara de uísque. Então, se formos para a Costa do Golfo... Biloxi, Mobile, quem sabe até Nova Orleans, e comprarmos as pessoas certas... talvez fique tudo bem. Aquilo lá é área de rum.”

Ela pensou no assunto por um tempo, e a pinta estremecia toda vez que ela se esticava em direção à cabeceira da cama para bater a cinza do cigarro. “Marquei de encontrar com ele para a inauguração daquele hotel novo. Aquele em Providence Street, sabe?”

“O Statler?”

Ela aquiesceu. “Dizem que todos os quartos têm rádio. Que o mármore é italiano.”

“E daí?”

“Se eu for lá, ele vai estar com a mulher. Só quer que eu vá porque, sei lá, porque fica excitado ao me ver quando está de braços dados com a mulher. E, depois disso, eu sei com certeza que ele vai passar uns dias em Detroit para conversar com novos fornecedores.”

“E daí?”

“E daí que isso vai nos dar o tempo de que precisamos. Quando ele voltar a me procurar, já teremos tido uma frente de três ou quatro dias.”

Joe pensou a respeito. “Nada mau.”

“Eu sei”, disse ela com outro sorriso. “Você acha que consegue ficar apresentável e passar no Statler no sábado? Umas sete, por aí?”

“É claro que consigo.”

“Aí nós vamos embora”, disse ela, olhando para ele por cima do ombro. “Mas chega de dizer que Albert é um cara mau. Meu irmão arrumou emprego por causa dele. No inverno passado, ele comprou um sobretudo para minha mãe.”

“Tudo bem, então.”

“Eu não quero brigar.”

Joe tampouco queria brigar. Sempre que o fazia, ele perdia, e se pegava pedindo desculpas por coisas que não tinha feito, que nem sequer pensara em fazer, pedindo desculpas por não as ter feito nem pensado em fazê-las. Chegava a ficar com dor de cabeça.

Deu-lhe um beijo no ombro. “Então não vamos brigar.”

Ela bateu os cílios para ele. “Oba.”

Na fuga após o assalto ao banco First National de Pittsfield, Dion e Paolo haviam acabado de pular para dentro do carro quando Joe deu ré e bateu no poste de rua porque estava pensando na pinta. Na cor de areia molhada, no jeito como a pinta se movia entre suas escápulas quando ela se virava para trás para olhar para ele e lhe dizer que talvez o amasse, no jeito como também havia se movido quando ela dissera que Albert White não era um cara assim tão mau. Porra, na verdade o velho Albert era um cara nota dez. Um amigo dos pobres, que comprava um sobretudo de inverno para a sua mãe contanto que você usasse o seu corpinho para garantir o calor dele. A pinta tinha a forma de uma borboleta, mas era irregular e bem definida nas bordas, e Joe pensou que isso talvez também pudesse resumir Emma, depois disse a si mesmo para esquecer tudo isso: os dois iriam embora da cidade nessa mesma noite, e todos os seus problemas estariam resolvidos. Ela o amava. Não era isso que importava? Tudo o mais iria desaparecer no retrovisor. Ele queria tudo o que dizia respeito a Emma Gould; queria no café da manhã, no almoço, no jantar e no lanche. Queria pelo resto da vida — as sardas em suas clavículas e no osso do nariz, a reverberação que sobrava em sua garganta quando ela terminava de rir, o jeito como ela conseguia transformar em duas sílabas a palavra quatro, four,que na realidade só tinha uma.

Dion e Paolo saíram correndo de dentro do banco.

Pularam no banco de trás.

“Vamos”, disse Dion.

Um sujeito alto e careca, usando uma camisa cinza e suspensórios pretos, saiu do banco armado com um cassetete. Cassetete não era arma, mas mesmo assim podia causar problemas caso o cara chegasse bastante perto.

Joe enfiou uma primeira com a base da mão e pisou no acelerador, mas o carro foi para trás em vez de ir para a frente. Cinco metros para trás. Os olhos do cara do cassetete saltaram das órbitas de tanta surpresa.

“Ei! Ei!”, gritou Dion.

Joe pisou no freio e na embreagem ao mesmo tempo. Desengatou violentamente a ré e engatou a primeira, mas mesmo assim bateram no poste. O impacto não foi grave, apenas constrangedor. O caipira de suspensórios passaria o resto da vida contando para a mulher e os amigos como havia assustado tanto três bandidos armados que eles tinham engatado a primeira, em vez de dar ré, só para fugir dele.

Quando o carro se projetou para a frente, os pneus levantaram poeira e pedrinhas do chão de terra batida e as lançaram no rosto do cara do cassetete. A essa altura, já havia outro cara em pé em frente ao banco. Estava de camisa branca e calça marrom. Ele estendeu o braço. Joe viu o cara no espelho retrovisor e notou que o braço dele dava um tranco. Por um instante não entendeu por quê, mas em seguida atinou. “Abaixem-se”, falou, e Dion e Paolo se deitaram no banco de trás. O braço do cara deu outro tranco, depois um terceiro ou quarto, e o espelho lateral se estilhaçou, fazendo chover vidro no chão de terra batida.

Joe dobrou em East Street, encontrou o beco que eles haviam localizado na semana anterior, dobrou à esquerda para entrar nele e pisou com tudo no pedal do acelerador. Por vários quarteirões, foi seguindo em paralelo aos trilhos de trem que passavam atrás das fábricas. A essa altura, já podiam partir do princípio de que a polícia fora acionada, não a ponto de estar montando barreiras na estrada ou algo assim, mas o suficiente para seguir o rastro de pneus que saía da rua de terra batida perto do banco e saber a direção genérica que haviam tomado.

Eles haviam roubado três carros naquela manhã, todos em Chicopee, pouco menos de cem quilômetros ao sul. Além do Auburn em que estavam agora, tinham roubado um Cole preto com pneus carecas e um Essex Coach 1924 com um motor que arranhava.

Joe atravessou a linha do trem e percorreu mais um quilômetro e meio margeando o Silver Lake até chegar a uma fundição que havia pegado fogo alguns anos antes, e cuja casca carbonizada pendia para a direita em meio a um campo de mato e tabua. Ambos os carros estavam à sua espera quando Joe entrou pelos fundos do prédio, onde a parede já havia desmoronado tempos antes, e eles estacionaram junto ao Cole e saltaram do Auburn.

Dion levantou Joe pelas lapelas do sobretudo e o empurrou para cima do capô do Auburn. “Que porra deu em você?”

“Foi um erro”, disse Joe.

“Semana passada era um erro”, retrucou Dion. “Esta semana já virou padrão, caralho.”

Joe não podia negar. Mesmo assim falou: “Tire as mãos de mim.”

Dion soltou as lapelas de Joe. Soltando o ar com força pelas narinas, apontou para Joe um dedo em riste. “Você está fazendo cagada.”

Joe recolheu os chapéus, os lenços e as armas e os enfiou dentro de um saco junto com o dinheiro. Pôs o saco na traseira do Essex Coach. “Eu sei.”

Dion estendeu as mãos gordas para a frente. “Nós somos parceiros desde moleques, porra, mas agora a coisa está preta.”

“É.” Joe concordou, pois não via motivo para mentir em relação ao óbvio.

Os carros de polícia — quatro ao todo — surgiram por uma parede de mato marrom na outra ponta do descampado, atrás da fundição. O mato tinha a cor de um leito de rio e uns dois metros de altura. As viaturas o achataram e revelaram mais atrás uma pequena comunidade formada por barracas. Uma mulher de xale cinza e seu bebê estavam inclinados por cima de uma fogueira recém-apagada, tentando atrair para dentro dos casacos o pouco de calor que restava.

Joe pulou para dentro do Essex e guiou o carro para longe da fundição. Os irmãos Bartolo passaram por ele a bordo do Cole, cuja traseira derrapou quando eles chegaram a um trecho de terra batida vermelha e seca. A terra acertou o para-brisa de Joe e o cobriu. Ele se debruçou pela janela e pôs-se a limpar a sujeira com o braço esquerdo enquanto continuava a dirigir com o direito. O chão irregular fez o Essex dar um pulo bem alto, e alguma coisa mordeu a orelha de Joe. Quando ele tornou a pôr a cabeça para dentro do carro, conseguiu ver bem melhor pelo vidro, mas agora sangue escorria de sua orelha, entrava por baixo da gola e descia pelo peito.

Uma série de pingues e tuns acertou a janela traseira, como o barulho de alguém atirando moedas em um telhado de zinco, e então a vidraça se espatifou e uma bala passou raspando no console. Uma viatura de polícia surgiu à esquerda de Joe, e então uma segunda à direita. A da direita tinha um policial no banco de trás que apoiou o cano de uma Thompson na moldura da janela e abriu fogo. Joe pisou no freio com tanta força que a mola de aço do assento fez pressão na parte de trás das costelas. As janelas do carona explodiram. Depois foi a vez do para-brisa dianteiro. O console cuspiu os próprios pedaços em cima de Joe e do banco dianteiro.

A viatura à direita tentou frear enquanto virava na sua direção. Seu nariz se levantou e ela decolou do chão como erguida por uma rajada de vento. Joe teve tempo de vê-la aterrissar de lado antes de a outra viatura bater na traseira de seu Essex e de um rochedo aparecer no meio do mato, pouco antes da linha das árvores.

A frente do Essex se espatifou e o resto do carro foi projetado para a direita, levando Joe consigo. Ele só sentiu que tinha saído do carro quando atingiu a árvore. Ficou caído ali por muito tempo, coberto de cacos de vidro e agulhas de pinheiro, todo grudento por causa do próprio sangue. Pensou em Emma e pensou no pai. A mata cheirava a cabelo queimado, e ele verificou os pelos do braço e a cabeça só para ter certeza, mas estava tudo bem. Sentou-se no meio das agulhas de pinheiro e ficou esperando a polícia de Pittsfield chegar para prendê-lo. Uma fumaça flutuava entre as árvores. Era preta, oleosa e não muito espessa. Movia-se entre os troncos das árvores como à procura de alguém. Depois de algum tempo, ele percebeu que talvez a polícia não fosse aparecer.

Quando se levantou e olhou para além do Essex destruído, não conseguiu ver a segunda viatura em lugar nenhum. Pôde ver a primeira, a que o tinha alvejado com a Tommy: estava caída de lado no descampado, a quase vinte metros de onde ele a vira quicar pela última vez.

Suas mãos tinham sido feridas por vidro ou fragmentos flutuantes no interior do carro. As pernas estavam bem. A orelha continuava sangrando. Ao encontrar a vidraça traseira do Essex do lado do motorista intacta, olhou para o próprio reflexo e viu por quê — não tinha mais o lóbulo esquerdo. Este fora removido como pelo golpe da navalha de um barbeiro. Para lá do reflexo, Joe viu a bolsa de couro que continha o dinheiro e as armas. A porta não quis abrir de primeira, e ele teve de apoiar os pés na porta do motorista, agora irreconhecível como tal. Puxou com força, porém, puxou até se sentir enjoado e tonto. Bem na hora em que estava pensando que provavelmente deveria ir procurar uma pedra, a porta se abriu com um rangido alto.

Pegou a bolsa e se afastou do descampado, mais para dentro da mata. Chegou a uma pequena árvore seca em chamas, com os dois galhos maiores curvados em direção à bola de fogo no centro, como um homem que tenta abafar labaredas na própria cabeça. Duas marcas pretas e oleosas de pneu achatavam a vegetação rasteira à sua frente, e algumas folhas flutuavam queimando pelo ar. Encontrou uma segunda árvore e um pequeno arbusto em chamas, e as marcas pretas de pneu foram ficando mais pretas e mais oleosas. Dali a uns quarenta e cinco metros, chegou a um pequeno lago. Um vapor ondulava ao longo das margens e se desprendia da superfície da água, e no início Joe não entendeu o que estava vendo. A viatura de polícia que havia batido nele por trás adentrara a água em chamas e agora estava no meio do lago com água até as janelas, o restante carbonizado, e algumas chamas azuis pegajosas ainda a dançar sobre o teto. As janelas haviam explodido. Os buracos abertos pela Thompson no console traseiro pareciam os fundilhos de latas de cerveja amassadas. O motorista estava meio dependurado para fora da porta. A única parte dele que não estava preta eram os olhos, tornados mais brancos ainda pelo fato de o resto estar carbonizado.

Joe entrou no lago até chegar junto à porta do carona da viatura, com água logo abaixo da cintura. Não havia mais ninguém dentro do carro. Embora isso significasse chegar bem mais perto do cadáver, enfiou a cabeça pela janela do carona. O calor emanava em ondas da carne queimada do motorista. Tirou a cabeça do carro, certo de ter visto dois policiais na viatura que o perseguira pelo descampado. Sentiu outra lufada com cheiro de carne queimada e abaixou a cabeça.

O outro policial estava caído no lago a seus pés. Olhos erguidos do leito arenoso, tinha o lado esquerdo do corpo tão carbonizado quanto o do companheiro, e a carne do lado direito estava chamuscada, mas ainda branca. Um rapaz mais ou menos da mesma idade de Joe, talvez um ano mais velho. Seu braço direito apontava para cima. Ele provavelmente havia usado o braço para sair do carro em chamas e caído na água de costas, e o braço ficara assim quando morrera.

Apesar disso, parecia estar apontando para Joe, e sua mensagem era clara:

Foi culpa sua.

Sua. De mais ninguém. De mais ninguém vivo, pelo menos.

Você é o primeiro cupim.