Os Filhos da Noite
Capítulo 18
FILHO DE NINGUÉM
Durante os anos bons, Dion costumava dizer a Joe: “A sorte acaba”.
Disse isso mais de uma vez.
E Joe respondia: “Tanto a sorte quanto o azar”.
“É que você tem sorte há tanto tempo que ninguém se lembra mais do seu azar”, retrucava Dion.
Ele construiu uma casa para morar com Graciela na esquina da Nona Avenida com a rua Dezenove. Usou mão de obra espanhola, cubana, italiana para a marmoraria, e mandou vir arquitetos de Nova Orleans para garantir que uma profusão de estilos se aliasse para criar um Vieux Carré com viés latino. Ele e Graciela foram várias vezes a Nova Orleans passear pelo Bairro Francês em busca de inspiração, e também faziam longos passeios a pé por Ybor. Inventaram um estilo que misturava a arquitetura neogregacom o colonial espanhol. A casa tinha uma fachada de tijolos vermelhos e sacadas de concreto claro com balaustradas de ferro forjado. As janelas eram verdes e mantidas sempre fechadas com venezianas de modo que, vista da rua, a casa parecia quase modesta, e era difícil saber quando estava ocupada.
Nos fundos, porém, amplos cômodos com pé-direito alto, teto revestido de cobre trabalhado e grandes arcos se abriam para um pátio, uma piscina rasa e jardins onde arbustos de hortelã silvestre, violetas e coreópsis cresciam ao lado de palmeiras-de-leque-da-europa. As paredes de estuque eram cobertas por hera argelina. No inverno, buganvílias floresciam junto a uma profusão de jasmins-carolina amarelos, e ambos murchavam na primavera e eram substituídos por jasmins-da-virgínia escuros como laranjas vermelhas. No pátio, trilhas de pedra serpenteavam ao redor de um chafariz, em seguida passavam pelos arcos da loggia até chegar a uma escadaria que se enroscava casa acima passando por paredes de tijolo cor de marfim.
Todas as portas da casa tinham pelo menos quinze centímetros de espessura, dobradiças em forma de chifre de carneiro e trincos de ferro negro. Joe ajudara a desenhar o salão do segundo andar, com seu teto abobadado e uma açoteia com vista para o beco atrás da casa. Era uma varanda supérflua, pois a do primeiro andar dava a volta no restante da casa e havia no segundo andar uma sacada de ferro fundido da mesma largura da rua, e ele muitas vezes se esquecia da sua existência.
Depois de começar, porém, Joe não conseguiu mais parar. Convidados sortudos o bastante para serem incluídos em um dos eventos de caridade de Graciela não podiam deixar de reparar no salão nem no grandioso saguão central com sua escadaria dupla, ou ainda nas cortinas de seda importada, nas cadeiras de bispo italianas, no espelho de pé Napoleão III com seus candelabros afixados, nos mantéis de mármore florentino ou nos quadros de moldura folheada a ouro comprados em uma galeria parisiense recomendada por Esteban. Paredes de tijolo de argila aparente encontravam outras revestidas de papel acetinado, desenhos feitos a estêncil ou um estiloso estuque rachado. Pisos de tábua corrida na parte da frente davam lugar a pisos frios de pedra dos fundos para manter a casa fresca. No verão, os móveis eram cobertos com lençóis de algodão branco, e os lustres eram protegidos por filó para mantê-los a salvo dos insetos. Mosquiteiros pendiam acima da cama de Joe e Graciela e da banheira com pés de garras do banheiro onde eles muitas vezes se encontravam no fim do dia com uma garrafa de vinho, ouvindo os barulhos subirem da rua.
Toda essa opulência fez Graciela perder amigos. Estes eram em sua maioria amigos da fábrica, e outros que haviam trabalhado como voluntários junto com ela nos primeiros tempos do Círculo Cubano. Não que invejassem a Graciela sua riqueza e sorte recentes (embora alguns invejassem), mas temiam esbarrar em algo valioso e derrubá-lo no chão de pedra. Não conseguiam ficar sentados sem se remexer, e logo esgotavam os assuntos que tinham em comum com Graciela, de modo que não lhes restava nada mais sobre o que conversar.
Em Ybor, a casa era conhecida como El Alcalde de la Mansión — a Mansão do Alcaide —, mas Joe demorou pelo menos um ano para tomar conhecimento do apelido, pois as vozes na rua nunca soavam alto o suficiente para que ele pudesse ouvi-las com clareza.
Enquanto isso, a parceria Coughlin-Suárez gerou uma estabilidade invejável em um ramo que não se destacava por essa característica. Joe e Esteban abriram uma destilaria no Teatro Landmark da Sétima Avenida, depois outra atrás da cozinha do Hotel Romero, e mantinham ambas sempre limpas e em produção constante. Abocanharam todos os negócios menores, mesmo os que outrora serviam a Albert White, oferecendo-lhes uma porcentagem maior e um produto de melhor qualidade. Compraram barcos mais velozes e substituíram os motores de todos os seus caminhões e carros de transporte. Compraram um hidroavião de dois lugares para dar cobertura às rotas do golfo. O hidroavião era pilotado por Farruco Díaz, ex-revolucionário mexicano cujo talento e insanidade se equivaliam. Com seu visual desgrenhado e inconfundível, marcas de varíola fundas como pontas de dedos e cabelos compridos claros e empastados feito macarrão molhado, Farruco insistiu para instalar uma metralhadora no assento do carona do hidroavião, “só para garantir”. Quando Joe observou que, como ele voava sozinho, não haveria ninguém para manejar a arma nos casos em que o “só para garantir” de fato ocorresse, Farruco aceitou um meio-termo: permitiram que ele instalasse o tripé, mas não a metralhadora.
Em solo, eles compraram acesso a rotas espalhadas por todo o Sul e toda a Costa Leste, e a lógica de Joe era que, se pagassem tributo às diversas gangues de distribuição para usar suas estradas, essas gangues por sua vez molhariam a mão da lei, e o número de prisões e cargas perdidas cairia de trinta a trinta e cinco por cento.
O número caiu setenta por cento.
Em pouquíssimo tempo, Joe e Esteban haviam transformado uma operação de um milhão de dólares por ano em um mastodonte de seis milhões de dólares anuais.
E isso durante uma crise financeira global que só fazia piorar e em que cada onda de choque era seguida por outra maior ainda, dia após dia, mês após mês. As pessoas precisavam de empregos, precisavam de abrigo e de esperança. Quando nenhuma dessas três coisas se mostrava possível, contentavam-se com um drinque.
O vício, percebeu ele, era à prova de depressão.
Quase nada mais o era, porém. Ainda que estivesse protegido, Joe mesmo assim ficava tão estupefato quanto qualquer outra pessoa com o tombo estratosférico que o país levara nos últimos anos. Desde a quebra da bolsa, em 1929, dez mil bancos haviam falido e treze milhões de pessoas perdido o emprego. Tendo de lutar pela reeleição, Hoover só sabia falar em uma luz no fim do túnel, mas a maioria das pessoas percebia que a luz vinha mesmo era do trem que chegava correndo para atropelá-las. Assim, o presidente conseguiu arrancar um acordo de última hora para aumentar o imposto sobre os mais ricos dos ricos de vinte e cinco para sessenta e três por cento, perdendo assim os únicos que ainda o apoiavam.
Na região metropolitana de Tampa, estranhamente, a economia prosperou — a construção naval e as fábricas de enlatados iam de vento em popa. Em Ybor, porém, ninguém ficou sabendo disso. As fábricas de charutos começaram a afundar mais depressa ainda do que os bancos. Máquinas de enrolar substituíram pessoas; rádios suplantaram os leitores no chão de fábrica. Os cigarros, muito baratos, se tornaram o novo vício legal da nação, e a venda de charutos despencou mais de cinquenta por cento. Operários de uma dezena de fábricas fizeram greve, mas seus esforços foram frustrados por capangas a soldo da administração, pela polícia e pela Ku Klux Klan. Os italianos debandaram de Ybor aos montes. Os espanhóis também começaram a ir embora.
Graciela perdeu o emprego para uma máquina. Por Joe, tudo bem — já fazia muitos meses que ele queria que ela saísse de La Trocha. Ela era valiosa demais para sua organização. Recebia os cubanos que chegavam de barco e os levava ao clube ou aos hospitais e hotéis cubanos, dependendo do que necessitassem. Caso visse um que julgasse adequado para o ramo de Joe, conversava com ele sobre uma oportunidade de emprego ainda mais imperdível.
Além disso, foi sua veia filantrópica, aliada à necessidade de Joe e Esteban de limpar seu dinheiro, que permitiu a Joe comprar mais ou menos cinco por cento de Ybor City. Ele comprou duas fábricas de charutos falidas e reempregou todos os operários, transformou uma loja de departamentos falida em escola, e um fornecedor de material hidráulico falido em clínica gratuita. Transformou oito prédios vazios em bares clandestinos, embora da rua todos parecessem se dedicar às atividades da fachada: armarinho, tabacaria, dois floristas, três açougueiros e uma lanchonete grega que, para assombro de todos — inclusive do próprio Joe —, fez tanto sucesso que eles tiveram de importar o resto da família do cozinheiro de Atenas e abrir uma filial sete quarteirões a leste.
Mas Graciela sentia falta da fábrica. Sentia falta das piadas e das histórias contadas pelos outros tabaqueiros, de ouvir os leitores narrarem seus romances preferidos em espanhol, de falar sua língua materna o dia inteiro.
Apesar de passar todas as noites na casa que Joe construíra para eles, ela ainda mantinha seu quartinho acima do café, embora, até onde Joe sabia, tudo o que fizesse lá fosse trocar de roupa. E mesmo assim com pouca frequência. Joe tinha enchido um armário inteiro de sua casa com roupas compradas para ela.
“Roupas que você comprou para mim”, era sua resposta quando ele perguntava por que ela não as usava mais vezes. “Gosto de comprar minhas próprias coisas.”
Algo para o qual nunca tinha dinheiro, uma vez que mandava todo ele de volta para Cuba, para a família do marido sanguessuga ou para amigos do movimento de resistência a Machado. Esteban também ia a Cuba de vez em quando para ela, viagens de arrecadação que coincidiam com a abertura de uma ou outra boate. Voltava com notícias de alguma nova esperança no movimento que, como a experiência já havia ensinado a Joe, estaria frustrada na viagem seguinte. Voltava também com as fotografias que tirava — seu olhar ficava cada vez mais aguçado, operando a câmera como um grande violinista maneja o arco de seu instrumento. Ele havia ganhado fama nos círculos insurgentes da América Latina, reputação para a qual a sabotagem do USS Mercy contribuíra de forma considerável.
“Você tem uma mulher bem confusa ao seu lado”, disse ele a Joe depois da última viagem.
“Isso eu bem sei”, respondeu Joe.
“Entende por que ela está confusa?”
Joe serviu um copo de Suárez Reserva para cada um. “Não, não entendo. Podemos comprar ou fazer tudo o que quisermos. Ela pode ter as melhores roupas, arrumar o cabelo nos melhores salões, frequentar os melhores restaurantes...”
“Que aceitem latinos.”
“Naturalmente.”
“Será mesmo natural?”, Esteban se inclinou para a frente na cadeira e pousou os pés no chão.
“O que estou tentando dizer é que nós vencemos”, disse Joe. “Podemos relaxar, ela e eu. Envelhecer juntos.”
“E você acha que é isso que ela quer... ser a esposa de um homem rico?”
“Não é isso que a maioria das mulheres quer?”
Esteban deu um estranho sorriso. “Você me disse uma vez que não cresceu pobre como a maioria dos gângsteres.”
Joe aquiesceu. “Não éramos ricos, mas...”
“Mas tinham uma bela casa, barriga cheia, puderam ir à escola.”
“Sim.”
“E a sua mãe era feliz?”
Joe passou um bom tempo sem dizer nada.
“Imagino que isso seja um não”, comentou Esteban.
Depois de algum tempo, Joe tornou a falar: “Meus pais pareciam mais dois primos distantes. Mas Graciela e eu? Nós não somos assim. Nós conversamos sem parar. Nós...”, ele baixou a voz, “trepamos sem parar. Realmente apreciamos a companhia um do outro”.
“E daí?”
“Então por que ela não me ama?”
Esteban riu. “É claro que ela ama você.”
“Se ama, não diz.”
“O que importa se ela diz ou não?”
“Eu me importo”, respondeu Joe. “E ela não quer se divorciar do Babacão.”
“Isso eu não entendo”, disse Esteban. “Nem que eu vivesse mil anos conseguiria entender o poder que esse pendejo tem sobre ela.”
“Você o viu?”
“Toda vez que passo pelo pior quarteirão de Havana Velha, vejo-o sentado em um dos bares bebendo o dinheiro dela.”
O meu dinheiro, pensou Joe. Meu.
“Ela ainda é procurada em Cuba?”
“O nome dela está em uma lista”, respondeu Esteban.
Joe pensou a respeito. “Mas eu poderia arrumar documentos falsos para ela em quinze dias. Não poderia?”
Esteban concordou. “Claro. Talvez até em menos tempo.”
“Aí poderia mandá-la para lá, ela veria esse babaca sentado em seu banco de bar, e aí ela... Ela o quê, Esteban? Acha que isso bastaria para ela o deixar?”
Esteban deu de ombros. “Joseph, ouça o que estou dizendo. Essa mulher ama você. Eu a conheço da vida inteira e já a vi apaixonada antes. Mas com você? Nossa.” Ele arregalou os olhos, abanou o rosto com o chapéu. “É diferente de qualquer outra coisa que ela já tenha sentido. Mas você precisa entender que ela passou os últimos dez anos definindo a si mesma como revolucionária, e agora acorda e descobre que o que de fato quer é jogar tudo isso para o alto, suas crenças, seu país, sua vocação, e sim, o idiota do primeiro marido, para ficar com um gângster americano. Acha que ela vai simplesmente admitir isso para si mesma?”
“Por que não?”
“Porque nesse caso ela vai ter que admitir que é uma rebelde de fachada, uma farsa. E isso ela não vai fazer. Vai, isso sim, redobrar seu compromisso com a causa e manter você a uma certa distância.” Ele balançou a cabeça e pareceu pensativo, olhos erguidos para o teto. “Quando dito em voz alta, na verdade é bem maluco.”
Joe esfregou o rosto. “Nisso você tem razão.”
Tudo correu sem tropeços durante uns dois anos — uma estabilidade e tanto no seu ramo —, até Robert Drew Pruitt chegar à cidade.
Na segunda-feira depois da conversa de Joe com Esteban, Dion foi lhe contar que RD tinha atacado mais uma de suas boates. Robert Drew Pruitt era conhecido como RD e vinha sendo motivo de preocupação para todos em Ybor desde que saíra da prisão, oito semanas antes, e aparecera na cidade para cavar seu lugarzinho no mundo.
“Por que não podemos simplesmente encontrar esse babaca e matá-lo?”
“Porque a Klavern não vai gostar.”
A KKK havia conquistado bastante poder em Tampa nos últimos tempos. Seus membros sempre tinham sido abstêmios fanáticos, não porque eles próprios não bebessem — bebiam, e constantemente —, mas por acreditarem que o álcool dava ilusões de poder ao povo de lama e provocava fornicação entre as raças, além de fazer parte de um complô papista para semear a fraqueza entre os praticantes da verdadeira religião e permitir aos católicos um dia dominar o mundo.
A Klan havia deixado Ybor em paz até a quebra da bolsa. Quando a economia escorreu pelo ralo, sua mensagem de poder da raça branca começou a encontrar vários adeptos perigosos, da mesma forma que os pastores do Apocalipse tinham visto crescer o seu rebanho. As pessoas estavam perdidas, com medo, e suas cordas de linchamento não podiam alcançar banqueiros ou acionistas da bolsa; assim sendo, eles procuravam alvos mais próximos de casa.
Encontraram esse alvo nos operários das fábricas de charutos, que tinham uma longa história de combates trabalhistas e pensamento radical. A Klan pôs fim à sua última greve. Toda vez que os grevistas se reuniam, a KKK invadia as reuniões disparando fuzis e usando as armas como porretes em quem estivesse por perto. Queimaram uma cruz no gramado de um grevista, jogaram bombas incendiárias na casa de outro na Décima Sétima Avenida, e estupraram duas tabaqueiras que estavam voltando para casa da fábrica Celestino Vega.
A greve foi encerrada.
RD Pruitt era membro da Klan antes de partir para cumprir uma pena de dois anos no presídio agrícola estadual de Raiford, de modo que havia poucos motivos para crer que não tornasse a se alistar ao sair de lá. O primeiro bar clandestino que ele atacou, um buraco na parede nos fundos de uma bodega na rua Vinte e Sete, ficava bem em frente à via férrea, do outro lado da qual havia uma velha casinha de cômodos encadeados que, segundo os boatos, era o quartel-general local da Klavern administrado por Kelvin Beauregard. Quando RD estava metendo a mão no caixa da noite, apontou para a parede mais próxima dos trilhos e falou: “Nós estamos de olho, então é melhor não avisarem à polícia”.
Quando Joe escutou isso, soube que estava lidando com um imbecil — quem iria chamar a porra da polícia durante um assalto a um bar clandestino? Mas o “nós” lhe deu o que pensar, pois a Klan estava apenas esperando alguém como Joe cometer um deslize. Um ianque católico que trabalhava com latinos, italianos e negros, era amasiado com uma cubana e ganhava dinheiro vendendo o rum do diabo — o que havia nele para não se odiar?
Na realidade, não demorou a perceber que era exatamente isso que eles estavam fazendo. Chamando-o para a briga. Os soldados da Klan podiam até ser um bando de imbecis endogâmicos que só haviam cursado até a terceira série primária em escolas de quinta categoria, mas seus líderes tinham tendência a ser um pouco mais espertos. Além de Kelvin Beauregard, dono de uma fábrica de enlatados e conselheiro municipal, boatos diziam que o grupo incluía o juiz Franklin do terceiro tribunal superior, uma dezena de policiais, e até mesmo Hopper Hewitt, dono do jornal Tampa Examiner.
A outra complicação, bem mais significativa na opinião de Joe, era que o cunhado de RD era Irving Figgis, também conhecido como Irv Olho de Águia, e mais formalmente como o comandante de polícia de Tampa.
Desde seu primeiro encontro, em 1929, o comandante Figgis havia convocado Joe para ser interrogado algumas vezes, só para deixar claro o caráter antagônico de sua relação. Joe ia se sentar em sua sala e às vezes Irv pedia para a secretária lhes servir limonada, e Joe ficava olhando as fotografias sobre a mesa — a linda esposa e os dois filhos louros: o menino, Caleb, cópia idêntica do pai, e a menina, Loretta, ainda tão linda que Joe ficava com o raciocínio embotado toda vez que olhava para ela. Loretta tinha sido rainha do baile de formatura no ginásio de Hillsborough High, e vinha ganhando todo tipo de prêmio no meio teatral das redondezas desde que era criança. Assim, ninguém ficou surpreso quando, após a formatura, ela partiu para o Oeste rumo a Hollywood. Como todo mundo, Joe desconfiava que fosse vê-la nas telas do cinema a qualquer momento. Loretta emitia aquele tipo de luz que transformava todos à sua volta em mariposas.
Cercado pelas imagens de sua vida perfeita, Irv havia alertado Joe em mais de uma ocasião de que, se o seu departamento algum dia descobrisse qualquer vínculo dele com o assalto ao Mercy, eles poriam Joe na cadeia pelo resto da vida. E quem poderia saber o que a polícia federal faria depois disso — talvez passar a corda no pescoço dele e jogá-lo do cadafalso. Tirando isso, porém, Irv deixava Joe, Esteban e seus associados em paz, contanto que mantivessem distância da parte branca de Tampa.
Agora, porém, RD Pruitt havia assaltado a quarta birosca de Pescatore em um único mês, praticamente implorando para Joe retaliar.
“Todos os quatro barmen disseram a mesma coisa sobre o cara”, disse Dion a Joe. “Que ele é doente de tão mau. Dá para ver na cara dele. Na próxima vez vai matar alguém, ou então na vez seguinte.”
Joe já tinha conhecido vários caras na prisão que se encaixavam nesse perfil, e eles normalmente só lhe davam três opções: fazê-los trabalhar para você, fazê-los ignorar você ou então matá-los. Não havia hipótese de Joe querer que RD trabalhasse para ele, e não havia hipótese de RD aceitar ordens de um católico ou de um cubano, de modo que restavam apenas as opções dois e três.
Em certa manhã de fevereiro, ele encontrou o comandante Figgis no Tropicale; o dia estava quente e seco, e Joe a essa altura já tinha aprendido que, do fim de outubro ao fim de abril, o clima da região era difícil de igualar. Ficaram bebericando seus cafés incrementados com um pouco de Suárez Reserva, e o comandante Figgis olhava para a Sétima Avenida lá fora com uma expressão inquieta nos olhos, remexendo-se na cadeira.
Ultimamente, havia alguma coisa escondida logo atrás da quina do seu ser que tentava não se afogar. Uma espécie de segundo coração batendo nas orelhas, na garganta, atrás dos olhos, com tanta força que às vezes fazia estes se esbugalharem.
Joe não fazia a menor ideia do que tinha saído errado na vida do comandante — talvez a esposa o tivesse abandonado, ou alguém que ele amava houvesse morrido —, mas estava claro que algo o vinha atormentando nos últimos tempos, minando seu vigor e também sua certeza.
“Ficou sabendo que a fábrica Pérez vai fechar?”, indagou ele.
“Cacete”, disse Joe. “Quantos funcionários tem lá, uns quatrocentos?”
“Quinhentos. Mais quinhentos desempregados, quinhentos pares de mãos ociosas só esperando para fazer o trabalho do demo. Mas, porra, nem o demo está contratando ninguém estes dias. De modo que essa gente não vai fazer grande coisa a não ser beber, brigar, roubar e tornar o meu trabalho mais difícil ainda... mas pelo menos eu tenho um trabalho.”
“Ouvi dizer que Jeb Paul vai fechar o armazém”, disse Joe.
“Também fiquei sabendo. O armazém é da família dele desde antes de esta cidade existir.”
“Uma pena.”
“Uma pena mesmo, é isso que é.”
Eles seguiram bebendo, e RD Pruitt adentrou o Tropicale com seu passo saltitante. Usava um terno pardo de calças curtas com lapelas largas, uma boina branca de golfista e sapatos Oxford bicolores; parecia estar a caminho de um campo de golfe. Mordiscava um palito de dentes, fazendo-o rolar pelo lábio inferior.
Assim que ele se sentou, Joe leu sua expressão como se fosse um riacho cristalino — era medo. O medo morava atrás dos olhos, vazava pelos poros. A maioria das pessoas não conseguia ver isso porque confundia suas fachadas públicas — ódio e mau humor — com raiva. Mas Joe tinha passado dois anos em Charlestown estudando o medo, e descobrira que os piores detentos do presídio eram também os mais aterrorizados — tinham pânico de serem identificados como covardes ou, pior ainda, como eles próprios vítimas de outros homens terríveis e aterrorizados. Pânico de que alguém os infectasse com mais veneno, e pânico de que alguém pudesse chegar e levar embora o seu veneno. Esse pânico chispava por seus olhos feito mercúrio; era preciso detectá-lo no primeiro encontro, no primeiro minuto, ou você nunca mais o veria. Nesse instante de contato original, porém, eles ainda estavam se construindo para você, de modo que era possível detectar o animal do medo antes de este tornar a se esconder na caverna, e Joe ficou triste ao constatar que o animal de RD Pruitt era grande feito um javali, o que significava que ele seria duplamente cruel e duplamente irracional, pois estava duplamente assustado.
Quando RD se sentou, Joe lhe estendeu a mão.
RD fez que não com a cabeça. “Não aperto a mão de papistas.” Sorriu e mostrou as palmas das mãos para Joe. “Sem querer ofender.”
“Não estou ofendido.” Joe deixou a mão estendida. “Adiantaria eu dizer que passei metade da vida sem pôr o pé na igreja?”
RD deu uma risadinha e balançou um pouco mais a cabeça.
Joe recolheu a mão e se acomodou na cadeira.
“Estão dizendo que você retomou seus velhos hábitos aqui em Ybor, RD”, disse o comandante Figgis.
RD olhou para o cunhado com os olhos arregalados e inocentes. “Ah, é? Como assim?”
“Ouvimos dizer que está assaltando estabelecimentos”, disse Figgis.
“Que tipos de estabelecimento?”
“Bares clandestinos.”
“Ah”, disse RD com os olhos subitamente escuros e pequeninos. “Aqueles lugares que não existem em uma cidade respeitadora das leis?”
“Isso.”
“Aqueles lugares que são ilegais, e que portanto deveriam ser fechados?”
“Esses mesmos, isso”, respondeu Figgis.
RD balançou a cabeça miúda, e seu rosto retomou a inocência de querubim. “Não sei nada sobre isso.”
Joe e Figgis trocaram olhares, e Joe teve a impressão de que ambos estavam se esforçando muito para não suspirar.
“Rá-rá”, disse RD. “Rá-rá.” Ele apontou para os dois. “Estou só brincando com vocês. E vocês sabem.”
O comandante Figgis indicou Joe com um meneio de cabeça. “RD, este senhor é um negociante que veio negociar. Estou aqui para sugerir que você negocie com ele.”
“O senhor sabe disso, não sabe?”, perguntou RD a Joe.
“Sei.”
“Então de que estou brincando?”, perguntou RD.
“Está só se divertindo”, respondeu Joe.
“Isso. O senhor sabe como é. Sabe como é.” Ele sorriu para o comandante Figgis. “Ele sabe como é.”
“Muito bem, então”, disse Figgis. “Somos todos amigos.”
RD revirou os olhos para eles de forma exagerada. “Não foi isso que eu disse.”
Figgis piscou os olhos algumas vezes. “Seja como for, estamos todos nos entendendo.”
“Esse homem aqui”, RD apontou o dedo para a cara de Joe, “é um fabricante ilegal de bebida e fornica com crioulos. É preciso castigá-lo, não negociar com ele.
Joe sorriu para o dedo e cogitou agarrá-lo no ar, bater com ele na mesa e quebrá-lo na articulação.
Antes que pudesse fazê-lo, RD baixou o dedo e falou bem alto: “Estou só brincando! O senhor tem senso de humor, não tem?”.
Joe não disse nada.
RD estendeu a mão até o outro lado da mesa e deu um soquinho no ombro de Joe. “Tem senso de humor, não tem? Não tem?”
Joe olhou para o outro lado da mesa, possivelmente para o rosto mais simpático que já vira na vida. Um rosto que só desejava o melhor para você. Ficou olhando até ver o animal do medo chispar pelos olhos doentes e simpáticos de RD.
“Tenho, sim.”
“Contanto que não vire uma piada ambulante, não é?”, disse RD.
Joe aquiesceu. “Meus amigos me disseram que o senhor frequenta o Parisian.”
RD estreitou os olhos como se estivesse tentando recordar o local. “Ouvi dizer que gosta do gim com champanhe que eles servem”, continuou Joe.
RD suspendeu as pernas das calças. “E daí?”
“E daí que eu acho que deveria se tornar mais do que um cliente assíduo.”
“Como assim, mais do que um cliente assíduo?”
“Sócio.”
“Com que participação?”
“Eu lhe daria dez por cento do lucro da casa.”
“O senhor faria isso?”
“Claro.”
“Por quê?”
“Digamos que eu respeito a ambição.”
“Só por isso?”
“E sei reconhecer talento.”
“Bom, isso deveria valer mais do que dez por cento.”
“O que o senhor tinha em mente?”
O rosto de RD adquiriu a mesma beleza sem graça de um trigal. “Estava pensando em sessenta.”
“O senhor quer sessenta por cento dos lucros de uma das casas noturnas de maior sucesso da cidade?”
RD assentiu, jovial e sem graça.
“Em troca de quê, exatamente?”
“Se me der sessenta por cento, meus amigos talvez o vejam com menos desagrado.”
“Quem são os seus amigos?”, indagou Joe.
“Sessenta por cento”, disse RD, como se fosse a primeira vez.
“Filho, eu não vou lhe dar sessenta por cento”, disse Joe.
“Não sou seu filho”, disse RD com a voz branda. “Não sou filho de ninguém.”
“Para grande alívio do seu pai.”
“Como é que é?”
“Quinze por cento.”
“Eu mato você de porrada”, sussurrou RD. Pelo menos foi isso que Joe achou que ele tivesse sussurrado. “O quê?”
RD esfregou o maxilar com força suficiente para Joe ouvir os pelos arranharem. Então o encarou com olhos ao mesmo tempo inexpressivos e excessivamente brilhantes.
“Sabe de uma coisa? Parece um arranjo justo.”
“Que arranjo?”
“Quinze por cento. O senhor não subiria até vinte?”
Joe olhou para o comandante Figgis, depois outra vez para RD. “Estou pensando que quinze provavelmente é a oferta mais generosa possível por um trabalho para o qual nem sequer estou pedindo que o senhor se apresente.”
RD cofiou um pouco mais os pelos da barba e baixou os olhos para a mesa por algum tempo. Quando voltou a erguê-los, exibiu seu sorriso mais juvenil.
“Tem razão, sr. Coughlin. É um acordo justo. E fico satisfeito como um pinto no lixo por aceitar.”
O comandante Figgis se recostou na cadeira, mãos pousadas sobre o ventre plano. “Que bom escutar isso, Robert Drew. Eu sabia que conseguiríamos chegar a um acordo.”
“E chegamos”, disse RD. “Como vou pegar a minha parte?”
“Basta aparecer no bar terça-feira sim, terça-feira não, às sete da noite”, disse Joe. “Peça para falar com Sian McAlpin, gerente.”
“Schwan?”
“É, mais ou menos isso”, disse Joe.
“Ele também é papista?”
“É ela, e eu nunca perguntei.”
“Sian McAlpin. Parisian. Terça à noite.” RD bateu na mesa com a mão espalmada e se levantou. “Bom, maravilha. Prazer em conhecê-lo, sr. Coughlin. Irv.” Ele inclinou o chapéu para ambos e saiu lançando aos dois um misto de aceno e continência.
Durante um minuto inteiro, nenhum deles falou nada.
Por fim, Joe acabou se virando ligeiramente na cadeira e perguntando a Figgis: “Esse garoto tem o miolo mole?”.
“Feito mingau.”
“É disso que eu tenho medo. Acha que ele vai mesmo aceitar o acordo?”
Figgis deu de ombros. “O tempo dirá.”
Quando RD apareceu no Parisian para coletar sua parte, agradeceu a Sian McAlpin quando esta lhe entregou o dinheiro. Pediu-lhe para soletrar seu nome e, quando ela o fez, disse-lhe que era um nome muito bonito. Disse que estava feliz com a perspectiva de uma longa associação entre eles, e tomou um drinque no bar. Foi agradável com todos que encontrou. Então saiu, entrou em seu carro e foi até depois da fábrica de charutos Vayo onde ficava o Phyllis’s Place, primeiro bar clandestino no qual Joe havia bebido em Ybor.
A bomba que RD Pruitt jogou no Phyllis’s Place não era grande coisa como bomba, mas nem precisava ser. A sala principal do bar era tão pequena que um homem alto não conseguia sequer bater palmas sem os cotovelos encostarem na parede.
Ninguém morreu, mas um percussionista chamado Cooey Cole perdeu o polegar esquerdo e nunca mais voltou a tocar, e uma menina de dezessete anos que tinha ido buscar o pai e levá-lo para casa de carro perdeu o pé.
Joe mandou três equipes de dois homens para encontrar o maluco filho da puta, mas RD Pruitt se escondeu depressa. Passaram o pente fino por toda Ybor e por todo o oeste de Tampa, depois por toda Tampa em si. Ninguém conseguiu encontrá-lo.
Uma semana depois, RD entrou em outro bar clandestino de Joe do lado leste da cidade, frequentado quase exclusivamente por cubanos negros. Entrou quando a banda estava no auge de sua apresentação e o bar, em polvorosa. Foi até o palco, deu um tiro no joelho do trombonista e outro na barriga da cantora. Jogou um envelope em cima do palco e saiu pela porta dos fundos.
O envelope estava endereçado a Sir Joseph Coughlin Comedor de Crioulos. Dentro dele havia um recado de três palavras:
Sessenta por cento.
Joe foi visitar Kelvin Beauregard em sua fábrica de enlatados. Levou consigo Dion e Sal Urso, e o encontro aconteceu na sala de Beauregard, nos fundos do prédio. A sala tinha vista para o andar onde as latas eram lacradas. Várias dezenas de mulheres usando jalecos e aventais com faixas do mesmo tecido nos cabelos estavam em pé no recinto escaldante em volta de um sistema de esteiras rolantes em forma de serpentina. Beauregard as observava através de um vidro que ia do chão ao teto da sala. Não se levantou quando Joe e seus homens entraram. Não olhou para eles sequer por um minuto inteiro. Então se virou na cadeira, sorriu e indicou o vidro com o polegar.
“Estou de olho em uma nova”, falou. “O que acham?”
“O novo se torna velho no mesmo instante em que você o separa do resto”, disse Dion.
Kelvin Beauregard arqueou uma sobrancelha. “Tem razão, tem razão. Em que posso ajudá-los, cavalheiros?”
Ele pegou um charuto dentro de um umidor em cima da mesa, mas não ofereceu a mais ninguém.
Joe cruzou a perna direita por cima da esquerda e ajeitou o vinco da bainha. “Gostaríamos de saber se o senhor poderia fazer RD Pruitt ter algum juízo.”
“Poucas pessoas tiveram sucesso nessa empreitada ao longo da vida”, respondeu Beauregard.
“Ainda que seja assim, gostaríamos que o senhor tentasse”, disse Joe.
Beauregard arrancou a cabeça do charuto com uma mordida e a cuspiu dentro de um cesto de lixo. “RD é um homem adulto. Ele não pediu meu conselho, portanto seria desrespeitoso aconselhá-lo. Mesmo que eu concordasse com o motivo. E me digam, pois eu não estou entendendo, que motivo seria esse?”
Joe esperou Kelvin acender o charuto, esperou que ele o fitasse através da chama e em seguida através da fumaça.
“No interesse da sua própria autopreservação, RD precisa parar de atacar as minhas casas e se reunir comigo para podermos chegar a um acordo”, disse Joe.
“Casas? Que tipo de casas?”
Joe olhou na direção de Dion e Sal sem dizer nada.
“Clubes de bridge? De rotarianos? Eu próprio sou sócio do Grande Rotary Club de Tampa, e não me lembro de ver o senhor...”
“Eu venho procurá-lo como adulto para conversar sobre negócios”, disse Joe, “e o senhor quer ficar de brincadeira, porra.”
Kelvin Beauregard pôs os pés em cima da mesa. “É isso que eu quero fazer?”
“O senhor mandou esse garoto nos atacar. Sabia que ele era maluco o suficiente para obedecer. Mas tudo o que vai conseguir é fazê-lo ser morto.”
“Mandei quem?”
Joe inspirou longamente pelas narinas. “O senhor é o grande mago da Klan por estas bandas. Ótimo, meus parabéns. Mas acha que chegamos aonde chegamos deixando que um bando de embaladores de merda de pai e mãe feito o senhor e seu amigo nos intimidassem?”
“Ai, rapaz”, disse Beauregard com uma risadinha cansada, “se acha que nós somos só isso, está cometendo um erro de cálculo fatal. Nós somos escreventes públicos e oficiais de justiça, guardas de prisão e bancários. Policiais, delegados, até mesmo um juiz. E nós decidimos uma coisa, sr. Coughlin.” Ele tirou os pés de cima da mesa. “Decidimos que vamos sangrar o senhor, os seus cucarachos e os seus carcamanos, ou então vamos expulsá-los de vez da cidade. Se for burro o suficiente para nos enfrentar, vamos fazer chover o fogo dos infernos em cima do senhor e de todos aqueles que ama.”
“Quer dizer que está me ameaçando com um bando de pessoas mais poderosas do que o senhor?”, indagou Joe.
“Exato.”
“Nesse caso, por que estou aqui conversando com o senhor?”, indagou Joe, e meneou a cabeça para Dion.
Kelvin Beauregard ainda teve tempo de dizer “o quê?” antes de Dion atravessar a sala e explodir seus miolos por todo o seu imenso vidro.
Dion pegou o charuto de cima do peito de Kelvin Beauregard e o enfiou na boca. Desatarraxou o silenciador Maxim da pistola e sibilou ao largá-lo no bolso do impermeável.
“Está pelando.”
“Você anda ficando tão cheio de frescura ultimamente”, comentou Sal Urso.
Os três saíram do escritório e desceram a escada de metal até o chão de fábrica. Ao entrar, usavam chapéus fedora enterrados até abaixo da testa e impermeáveis de cor clara por cima de ternos berrantes, para que todas as operárias os tomassem pelo que de fato eram — gângsteres — e não olhassem por muito tempo. Saíram do mesmo jeito que haviam entrado. Caso alguém os reconhecesse por tê-los visto em Ybor, saberia da sua reputação, e isso por si só bastaria para garantir um consenso de deficiência visual no chão de fábrica onde eram seladas as latas do finado Kelvin Beauregard.
Sentado na varanda da frente da casa do comandante Figgis em Hyde Park, Joe abria e fechava distraidamente a tampa do relógio de bolso do pai. A casa de um andar só era construída em estilo clássico ornamentado com floreios arts and crafts. Marrom, com detalhes em marfim. O comandante havia construído a varanda dianteira com largas tábuas de nogueira, e mobiliado o espaço com peças de ratã e um balanço pintado com o mesmo tom de marfim dos detalhes da casa.
O comandante Figgis encostou seu carro, saltou e subiu o caminho de tijolos vermelhos que dividia o gramado perfeitamente bem cuidado.
“Você na minha casa?”, indagou ele a Joe.
“Foi para lhe poupar o trabalho de mandar me chamar.”
“Por que eu mandaria chamá-lo?”
“Alguns dos meus homens disseram que você anda me procurando.”
“Ah, sim, sim.” Figgis chegou à varanda e pousou o pé na escada por alguns instantes. “Você deu um tiro na cabeça de Kelvin Beauregard?”
Joe estreitou os olhos para ele. “Quem é Kelvin Beauregard?”
“Não tenho mais perguntas”, disse Figgis. “Quer uma cerveja? É sem álcool, mas não é ruim.”
“Com prazer”, disse Joe.
Figgis entrou em casa e tornou a sair com duas garrafas de cerveja sem álcool e um cão. As cervejas estavam geladas e o cão era velho, um sabujo cinza com orelhas macias do tamanho de folhas de bananeira. Deitou-se na varanda entre Joe e a porta e pôs-se a roncar com os dois olhos abertos.
“Preciso encontrar RD”, disse Joe depois de agradecer a Figgis pela cerveja.
“Imagino que seja normal você se sentir assim.”
“Você sabe como isso vai terminar se não me ajudar”, disse Joe.
“Não sei, não”, retrucou o comandante Figgis.
“Vai terminar com mais corpos, mais derramamento de sangue, mais jornais dando manchetes do tipo ‘Massacre na cidade do charuto’ e coisas assim. Vai terminar com você perdendo o cargo.”
“E você também.”
Joe deu de ombros. “Pode ser.”
“A diferença é que, quando você perder o seu, alguém vai tirá-lo com uma bala atrás da sua orelha.”
“Se ele desaparecer, será o fim da guerra”, disse Joe. “A paz vai voltar.”
Figgis fez que não com a cabeça. “Não vou apunhalar o marido da minha irmã pelas costas.”
Joe olhou para a rua lá fora. Uma bela rua calçada de tijolos, com várias casas de um andar só bem conservadas e pintadas em cores alegres, algumas velhas residências típicas do Sul com varandas abertas na frente, e até mesmo uma ou duas casas de pedra e fachada circular na entrada da rua. Os carvalhos eram todos altos e imponentes, e o ar recendia a gardênias.
“Não quero fazer isso”, disse Joe.
“Isso o quê?”
“Isso que você está prestes a me obrigar a fazer.”
“Coughlin, eu não estou obrigando você a fazer nada.”
“Está”, disse Joe baixinho. “Está, sim.”
Tirou a primeira foto do bolso interno do paletó e a pôs sobre o piso da varanda ao lado do comandante Figgis. Figgis sabia que não deveria olhar. Simplesmente sabia. De fato, por alguns instantes, manteve o queixo bem virado em direção ao ombro direito. Em seguida, porém, virou a cabeça e olhou para o que Joe acabara de depositar no chão da sua varanda, a dois passos da porta da frente de sua casa, e seu rosto empalideceu.
Ele ergueu os olhos para Joe, em seguida olhou para a foto e desviou rapidamente os olhos, e Joe deu o golpe de misericórdia.
Pôs uma segunda foto ao lado da primeira. “Ela não conseguiu chegar a Hollywood, Irv. Só conseguiu chegar a Los Angeles.”
Irving Figgis deu uma olhada rápida na segunda foto, o suficiente para esta lhe queimar as retinas. Fechou os olhos com força e começou a sussurrar: “Isso não é certo, não é certo.” Repetiu as mesmas palavras várias vezes.
O comandante chorou. Na realidade, soluçou. Com o rosto enterrado nas mãos, a cabeça baixa e as costas convulsionadas.
Quando parou de chorar, manteve o rosto nas mãos, e o cão se aproximou, deitou-se na varanda ao seu lado, encostou a cabeça na parte externa da coxa de Figgis e teve um arrepio que fez seu beiço tremer.
“Arrumamos um médico especial para ela”, disse Joe.
Figgis abaixou as mãos e olhou para Joe com os olhos vermelhos cheios de ódio. “Que tipo de médico?”
“Do tipo que desintoxica viciados em heroína, Irv.”
Figgis levantou um dedo. “Nunca, nunca mais me chame pelo meu nome de batismo. Vai me chamar de comandante Figgis e só de comandante Figgis quer nossa relação dure dias ou anos. Entendido?”
“Não fomos nós que fizemos isso com ela”, disse Joe. “Nós apenas a encontramos. E a tiramos de onde ela estava, que era um lugar bem ruim.”
“E depois bolaram um jeito de se aproveitar desse fato.” Figgis apontou para a fotografia da filha com os três homens e a coleira e corrente de metal. “É isso que as pessoas da sua laia vendem. Seja para a minha filha, seja para a de outro qualquer.”
“Eu não”, disse Joe, sabendo como suas palavras soavam débeis. “Eu só vendo rum.”
Figgis enxugou os olhos com a base e em seguida com as costas das mãos. “O lucro do rum permite à organização comprar as outras coisas. Não fique aí sentado fingindo que não é assim. Diga seu preço.”
“O quê?
“Seu preço. Para me dizer onde está minha filha.” Ele se virou e olhou para Joe. “Me diga. Me diga onde ela está.”
“Ela está com um bom médico.”
Figgis deu um soco na varanda com o punho fechado.
“Em uma instituição limpa”, disse Joe.
Figgis deu outro soco no chão.
“Não posso dizer”, falou Joe.
“Até quando?”
Joe passou um bom tempo olhando para ele.
Por fim, Figgis se levantou e o cão se levantou junto. Passou pela porta de tela, e Joe o ouviu discar. Quando falou ao telefone, sua voz estava mais aguda e mais rouca do que o normal. “RD, você vai encontrar esse rapaz de novo e não se fala mais no assunto.”
Na varanda, Joe acendeu um cigarro. A alguns quarteirões dali, buzinas distantes soavam na Howard Avenue.
“Sim, eu também vou”, disse Figgis ao telefone.
Joe tirou um pedacinho de tabaco da língua e o dispensou na leve brisa.
“Você vai estar seguro. Eu juro.”
Figgis desligou e ficou algum tempo parado em pé do outro lado da tela antes de abrir a porta com um empurrão, e ele e o cão tornaram a sair para a varanda.
“Ele vai encontrá-lo na ilha de Longboat Key, no lugar em que construíram aquele Ritz, às dez horas de hoje à noite. Disse para você ir sozinho.”
“Tá bom.”
“Quando vai me dizer onde ela está?”
“Quando eu sair vivo do meu encontro com RD.” Joe foi andando até o carro.
“Faça você mesmo.”
Ele olhou para trás na direção de Figgis. “O quê?”
“Se vai matá-lo, seja homem o suficiente para puxar você mesmo o gatilho. Não há orgulho nenhum em mandar os outros fazerem o que você é fraco demais para fazer com as próprias mãos.”
“Não há orgulho nenhum na maioria das coisas”, disse Joe.
“Você está errado. Eu acordo todos os dias de manhã, me olho no espelho, e sei que estou trilhando um caminho justo. Mas você?” Figgis deixou a pergunta suspensa no ar.
Joe abriu a porta do carro e começou a entrar.
“Espere.”
Joe tornou a olhar para o homem na varanda, agora menos homem do que antes porque Joe havia roubado uma parte crucial dele e a estava levando embora consigo.
Figgis relanceou os olhos inchados para o paletó do terno de Joe. Sua voz saiu trêmula. “Tem mais alguma aí?”
Joe pôde sentir as fotografias dentro do bolso, tão repugnantes quanto gengivas cheias de abcessos.
“Não.” Entrou no carro e foi embora.