Os Filhos da Noite
Capítulo 17
PENSANDO EM HOJE
Ao chegar a Ybor, Esteban deixou Graciela e Joe no prédio em que Graciela tinha seu quarto acima de um café. Joe a acompanhou até lá em cima enquanto Esteban e Sal Urso iam desovar o blindado no sul de Tampa.
O quarto de Graciela era muito pequeno e muito bem--arrumado. A cama de ferro forjado era pintada com o mesmo branco da pia de porcelana sob o espelho oval. As roupas estavam penduradas em um armário de pinho surrado que parecia mais antigo do que o prédio, mas ela o mantinha sem poeira ou mofo, fato que Joe teria julgado impossível naquele clima. A única janela do cômodo dava para a Décima Primeira Avenida, e ela deixara a veneziana abaixada para mantê-lo fresco. Havia um biombo feito da mesma madeira grosseira do guarda-roupa, e ela gesticulou para Joe ficar de frente para a janela enquanto ela se posicionava atrás do móvel.
“Então agora você é um rei”, disse ela, enquanto ele erguia a veneziana e espiava a rua lá fora.
“Não diga!”
“Você dominou o mercado de rum. Vai ser um rei agora.
“Príncipe, talvez”, reconheceu ele. “Ainda tenho que lidar com Albert White.”
“Por que será que acho que você já pensou em como vai fazer isso?”
Ele acendeu um cigarro e sentou-se na borda do peitoril. “Até serem executados, planos não passam de sonhos.”
“Foi isso que você sempre quis?”
“Sim”, respondeu ele.
“Bem, parabéns então.”
Ele tornou a olhar para ela. O vestido de noite imundo estava pendurado no biombo, e seus ombros estavam nus. “Seu parabéns não parece sincero.”
Ela assinalou para ele tornar a se virar. “Estou sendo sincera, sim. É o que você queria. E conseguiu. É admirável, de certa forma.”
Ele deu uma risadinha. “De certa forma.”
“Mas como vai manter o poder agora que o conquistou? Acho essa uma pergunta interessante.”
“Acha que eu não sou forte o suficiente?” Ele tornou a olhar na sua direção, e dessa vez ela permitiu, pois havia coberto a parte superior do corpo com uma blusa branca.
“Não sei se você é cruel o suficiente.” Seus olhos escuros estavam muito límpidos. “E, se for, vai ser uma tristeza.”
“Homens poderosos não precisam ser cruéis.”
“Mas geralmente são.” Sua cabeça se abaixou por trás do biombo quando ela vestiu a saia. “Agora que viu eu me vestir e que eu o vi matar um homem, posso lhe fazer uma pergunta pessoal?”
“Claro.”
“Quem é ela?”
“Ela quem?”
A cabeça de Graciela tornou a surgir acima do biombo. “A mulher que você ama.”
“Quem disse que eu amo alguém?”
“Eu.” Ela deu de ombros. “Uma mulher sabe essas coisas. Ela está na Flórida?”
Ele sorriu e fez que não com a cabeça. “Ela se foi.”
“Deixou você?”
“Morreu.”
Ela piscou, e então o encarou para ver se ele a estava enganando. Quando percebeu que não, falou: “Sinto muito”.
Ele mudou de assunto. “Está feliz com as armas?”
Ela apoiou os braços no alto do biombo. “Muito. Quando chegar o dia de acabar com o governo de Machado... e esse dia vai chegar... nós vamos ter um...” Ela estalou o dedo. “Me ajude.”
“Arsenal”, disse ele.
“Isso, um arsenal.”
“Quer dizer que essas não são as únicas armas.”
Ela fez que não com a cabeça. “Não são as primeiras nem serão as últimas. Quando chegar a hora, estaremos prontos.” Ela saiu de trás do biombo com as roupas típicas de uma tabaqueira: blusa branca presa por um cordão e saia parda. “Você acha que o que estou fazendo é uma bobagem.”
“Nem um pouco. Acho nobre. Só não é a minha causa.”
“E qual é a sua causa?”
“Rum.”
“Você não quer ser uma pessoa nobre?” Ela aproximou o polegar e o indicador. “Nem um pouquinho?”
Ele fez que não com a cabeça. “Não tenho nada contra pessoas nobres, só reparei que elas raramente passam dos quarenta.”
“Gângsteres também não.”
“É verdade, mas nós comemos em restaurantes melhores”, retrucou ele.
No armário, ela escolheu um par de sapatos sem salto da mesma cor da camisa e sentou-se na cama para calçá-los.
Ele continuou junto à janela. “Digamos que um dia vocês consigam mesmo essa tal revolução.”
“Sim.”
“Vai mudar alguma coisa?”
“As pessoas podem mudar.” Ela calçou um dos sapatos.
Ele balançou a cabeça. “O mundo até pode mudar, mas as pessoas não... as pessoas ficam mais ou menos iguais. Então, mesmo que vocês substituam Machado, há uma boa probabilidade de o substituírem por uma versão piorada. Enquanto isso, você poderia ficar aleijada, ou poderia...”
“Morrer.” Ela girou o tronco para calçar o outro sapato. “Eu sei como isso termina, Joseph.”
“Joe.”
“Joseph”, insistiu ela. “Eu poderia morrer depois de um companheiro me trair por dinheiro. Poderia ser capturada por homens doentes, tão doentes quanto o de hoje ou ainda pior, e eles me torturariam até meu corpo não poder mais suportar. E não haveria nada de nobre na minha morte, porque a morte nunca é nobre. Você chora, implora, e a merda escorre do seu cu quando você morre. E aqueles que o mataram riem e cospem no seu cadáver. E eu logo vou ser esquecida. Como se...” Ela estalou os dedos. “Como se nunca tivesse existido. Isso tudo eu sei.”
“Então por que fazer o que faz?”
Ela se levantou e alisou a saia. “Eu amo meu país.”
“Eu amo o meu, mas...”
“Não tem ‘mas’”, disse ela. “É essa a diferença entre nós dois. O seu país é algo que você vê por esta janela. Não é?”
Ele concordou. “Em grande parte.”
“O meu país é algo aqui dentro.” Ela bateu no centro do peito, e depois na têmpora. “E eu sei que ele não vai me agradecer pelos meus esforços. Não vai retribuir meu amor. Seria impossível, porque eu não amo apenas o seu povo, os seus prédios e cheiros. Eu amo a ideia que faço do meu país. E isso foi algo que eu mesma inventei, ou seja, eu amo o que não existe. Assim como você ama a tal moça morta.”
Ele não conseguiu pensar em nada para dizer, então simplesmente a observou atravessar o recinto e tirar o vestido que usara no pântano de cima do biombo. Entregou a roupa a ele quando estavam saindo.
“Pode queimar para mim?”
O destino das armas era a província de Pinar del Río, a oeste de Havana. Deixaram St. Petersburg a bordo de cinco barcos de pesca que saíram da baía de Boca Ciega às três da tarde. Joe havia trocado o terno que estragara no pântano pelo mais claro que possuía. Graciela o observara queimar o terno junto com seu vestido, mas agora sua fase de presa em um pântano de ciprestes estava ficando para trás. Ela não parava de pegar no sono sentada no banco debaixo da lamparina do cais, mas recusava todas as ofertas de ir se sentar em um dos carros ou deixar alguém conduzi-la de volta a Ybor.
Quando o último dos capitães dos barcos de pesca havia apertado suas mãos e zarpado, eles ficaram ali se entreolhando. Joe percebeu que não tinham a menor ideia do que fazer em seguida. Como seria possível superar os dois últimos dias? O céu havia ficado vermelho. Em algum lugar da costa acidentada, para lá de um trecho de mangue, uma vela de lona ou oleado flutuava ruidosamente à brisa quente. Joe olhou para Esteban. Olhou para Graciela, que se recostou no poste de luz, de olhos fechados. Olhou para Dion. Um pelicano deu um rasante acima de sua cabeça, o bico maior do que o ventre. Joe olhou para os barcos, agora já bem longe, do tamanho de chapéus triangulares daquela distância, e começou a rir. Não conseguiu se conter. Dion e Esteban estavam logo atrás dele, e os três logo se puseram a gargalhar. Graciela cobriu o rosto por alguns instantes, e então começou a rir também, rir e chorar, reparou Joe, espiando por entre os dedos como uma garotinha até soltar as mãos por completo. Riu, chorou, passou as mãos repetidamente pelos cabelos, depois enxugou o rosto com a gola da blusa. Os quatro caminharam até a beira do cais, as gargalhadas se transformaram em risadinhas, depois em ecos de risadinhas, e ficaram admirando a água que ia arroxeando sob o céu rubro. Os barcos chegaram ao horizonte e o atravessaram um a um.
Joe não teve muita lembrança do resto desse dia. Foram a uma das biroscas de Maso, atrás de uma clínica veterinária na esquina da Décima Quinta Avenida com Nebraska. Esteban mandou trazer uma caixa de rum escuro envelhecido em barris de cerejeira, e a notícia se espalhou para todos os envolvidos no roubo das armas. Em pouco tempo, capangas de Pescatore foram se juntar aos revolucionários de Esteban. Então chegaram as mulheres, com seus vestidos de seda e chapéus de paetês. Uma banda subiu ao palco. Em pouco tempo, o lugar pulsava o suficiente para rachar a alvenaria.
Dion dançou com três damas ao mesmo tempo, lançando-as para trás das costas largas e por debaixo das pernas atarracadas com espantosa destreza. Em se tratando de dança, porém, Esteban se revelou o virtuoso do grupo. Movia os pés com a mesma leveza de um gato trepado no galho alto de uma árvore, mas com um domínio tão completo que a banda logo se pôs a adaptar as canções ao seu tempo, e não o contrário. Olhando para ele, Joe se lembrou de Valentino naquele filme em que interpretava um toureiro — ambos tinham o mesmo grau de encanto viril. Em pouco tempo, metade das mulheres do bar estava tentando igualar seus passos de dança ou conseguir passar a noite com ele.
“Nunca vi um cara mexer o corpo assim”, comentou Joe com Graciela.
Ela estava sentada no canto de uma mesa reservada, e ele estava sentado no chão em frente à mesa. Ela se inclinou para falar em seu ouvido: “Era o que ele fazia quando chegou aqui”.
“Como assim?”
“Era o trabalho dele”, explicou ela. “Ele era dançarino de aluguel lá no centro da cidade.”
“Está de brincadeira comigo.” Ele inclinou a cabeça, ergueu os olhos para ela. “O que esse cara não sabe fazer bem?”
“Ele era bailarino profissional em Havana”, disse ela. “Era muito bom. Nunca fazia o protagonista em nenhuma montagem, mas era sempre muito requisitado. Foi assim que conseguiu pagar a faculdade de direito.”
Joe quase cuspiu dentro da própria bebida. “Ele é advogado?”
“Em Havana, sim.”
“Ele me disse que foi criado em uma fazenda.”
“E foi. Minha família trabalhava para a dele. Nós éramos, ahn...” Ela olhou para ele.
“Agricultores itinerantes?”
“É esse o termo?”, Ela fez uma careta, no mínimo tão bêbada quanto ele. “Não, não, nós éramos meeiros.”
“Seu pai alugava terras do pai dele e pagava o aluguel com as colheitas?”
“Não.”
“Ser meeiro é isso. Era o que meu avô fazia na Irlanda.” Ele tentou aparentar sobriedade e erudição mas, naquelas circunstâncias, foi bem difícil. “Agricultores itinerantes vão de fazenda em fazenda com as estações, dependendo da colheita.”
“Ah”, disse ela, desgostosa com a explicação. “Que inteligente você é, Joseph. Sabe tudo.”
“Foi você quem perguntou, chica.”
“Você me chamou de quê? De chica ?”
“É, acho que sim.”
“Seu sotaque em espanhol é um horror.”
“Igual ao seu em gaélico.”
“O quê?”
Ele fez um gesto no ar. “Eu sou uma obra aberta.”
“O pai dele era um grande homem.” Seus olhos brilharam. “Me acolheu em sua casa, me deu meu próprio quarto com lençóis limpos. Aprendi inglês com um professor particular. Eu, uma menina de aldeia.”
“E o que o pai dele pediu em troca?”
Ela leu seu olhar. “Você é nojento.”
“É uma pergunta honesta.”
“Não pediu nada. Pode até ter tido algum devaneio com tudo o que ele fez por aquela menina de aldeia, mas não passou disso.”
Joe ergueu a mão. “Desculpe, desculpe.”
“Você vê o pior nas melhores pessoas”, disse ela, balançando a cabeça, “e o melhor nas piores.”
Joe não conseguiu pensar em nenhuma resposta para isso, de modo que deu de ombros e deixou o silêncio e o álcool levarem a conversa de volta a um lugar mais suave.
“Venha.” Ela deslizou para fora do reservado. “Vamos dançar.” Puxou-o pela mão.
“Eu não danço.”
“Hoje à noite todo mundo dança”, disse ela.
Joe deixou que ela o puxasse até ficar de pé, embora fosse uma heresia dividir a mesma pista de dança com Esteban ou, em menor grau, com Dion, e dizer que estavam fazendo a mesma coisa.
De fato, Dion riu dele escancaradamente, mas Joe estava bêbado demais para se importar. Deixou Graciela conduzir e a acompanhou, e logo encontrou um ritmo que era capaz de acompanhar. Dançaram por um bom tempo, passando uma garrafa de rum escuro Suárez de mão em mão. Em determinado momento, ele se pegou perdido em imagens embaralhadas dela: em uma, ela corria pelo pântano de ciprestes como uma presa desesperada; na outra, dançava a alguns metros de distância dele, rebolando os quadris, balançando os ombros e a cabeça enquanto levava a garrafa à boca.
Ele havia matado por aquela mulher. Havia matado por si mesmo, também. No entanto, se havia uma pergunta a qual passara o dia inteiro sem conseguir responder era por que dera um tiro na cara do marinheiro. Ninguém fazia isso com um homem a menos que estivesse zangado. Dava-se um tiro no peito. Mas Joe tinha explodido o rosto dele. Era pessoal. E isso, percebeu ele enquanto se perdia no requebrar dela, era porque vira com clareza nos olhos do marinheiro que este desprezava Graciela. Como ela era escura, estuprá-la não era um pecado; era apenas aproveitar espólios de guerra. Pouco teria importado para Cyrus se ela estivesse viva ou morta na hora.
Graciela ergueu os braços acima da cabeça ainda com a garrafa na mão, cruzou os pulsos e entrelaçou os antebraços com um sorriso torto no rosto machucado, olhos semicerrados. “Em que está pensando?”, indagou.
“Em hoje.”
“O que tem hoje?” perguntou ela, mas então viu nos olhos de Joe. Baixou os braços, entregou-lhe a garrafa, e os dois saíram do meio da pista e foram se postar novamente junto à mesa, onde continuaram a beber rum.
“Não ligo para ele”, disse Joe. “Só acho que gostaria que tivesse sido de outro jeito.”
“Mas não foi.”
Ele concordou. “E é por isso que não lamento o que fiz. Só lamento que tenha acontecido.”
Ela pegou a garrafa da mão dele. “Como se agradece ao homem que salvou sua vida depois de arriscá-la?”
“Arriscá-la?”
Ela limpou a boca com os nós dos dedos. “Sim. Como?”
Ele inclinou a cabeça para ela.
Ela leu sua expressão e riu. “Algum outro jeito, chico.”
“É só dizer obrigada.” Ele pegou a garrafa de sua mão e deu um gole.
“Obrigada.”
Ele lhe fez um floreio e uma reverência e caiu por cima dela. Graciela deu um gritinho e alguns tapas em sua cabeça, depois o ajudou a se endireitar. Ambos riam, ofegantes, ao se encaminharem trôpegos até uma mesa.
“Nós nunca vamos ser amantes”, disse ela.
“Por quê?”
“Temos outros amores.”
“Bom, o meu está morto.”
“O meu talvez também esteja.”
“Ah.”
Ela balançou a cabeça várias vezes, uma reação à bebida. “Quer dizer que nós amamos fantasmas.”
“Sim.”
“Ou seja, nós somos fantasmas.”
“Você está bêbada”, disse ele.
Ela riu e apontou para o outro lado da mesa. “Quem está bêbado é você.”
“Isso não é argumento.”
“Não vamos ser amantes.”
“Você já disse isso.”
A primeira vez que fizeram amor, no quartinho dela acima do café, foi como um desastre de carro. Esmagaram os respectivos ossos, caíram da cama, derrubaram uma cadeira e, quando ele a penetrou, ela cravou os dentes em seu ombro com tanta força que tirou sangue. Tudo acabou no tempo que se leva para lavar um prato.
Da segunda vez, meia hora depois, ela derramou rum sobre o peito dele e lambeu, ele fez o mesmo, e os dois foram sem pressa, aprendendo o ritmo um do outro. Ela disse que não era para se beijarem, mas isso teve o mesmo efeito de quando dissera que não seriam amantes. Testaram beijos vagarosos e beijos violentos, beijos com a pontinha dos lábios, beijos nos quais apenas as línguas se tocavam.
O que surpreendeu Joe foi quanto os dois se divertiram. Já tinha feito sexo com sete mulheres na vida, mas só fizera amor, no seu entender da palavra, com Emma. Embora o sexo entre os dois fosse destemido e ocasionalmente inspirado, Emma sempre mantinha em reserva uma parte de si mesma. Ele a pegava observando os dois transarem durante a própria transa. E depois ela sempre se recolhia ainda mais fundo para dentro da caixinha trancada de si mesma.
Graciela não reservava coisa alguma. Isso aumentava em muito a probabilidade de se machucar — ela puxava seus cabelos, segurava seu pescoço com tanta força com as mãos de tabaqueira que ele sentia certo medo de que fosse quebrá-lo, cravava os dentes em sua pele, músculos e ossos. Mas tudo isso fazia parte de como ela o envolvia, de como conduzia o ato até a beira de algo que, para Joe, se assemelhava a um desaparecimento, como se ele fosse acordar de manhã sozinho, com ela dissolvida em seu corpo, ou vice-versa.
Quando de fato acordou na manhã seguinte, sorriu ao pensar na bobagem dessa ideia. Ela dormia de lado, de costas para ele, com os cabelos desarrumados espalhados pelo travesseiro e pela cabeceira. Pensou se deveria sair da cama, pegar as roupas e ir embora antes da inevitável conversa sobre excesso de álcool e juízo embotado. Antes de o arrependimento se consolidar. Em vez disso, beijou-a bem de leve no ombro, e ela se virou para ele na mesma hora. Cobriu-lhe o corpo com o seu. E o arrependimento, concluiu ele, teria de esperar mais um dia.
“Será um arranjo profissional”, explicou-lhe ela durante o desjejum no café do andar de baixo.
“Como assim?” Ele comeu um pedaço de torrada. Não conseguia parar de sorrir feito um idiota.
“Nós vamos preencher esse...” Ela também sorriu ao procurar a palavra certa. “Essa necessidade um do outro até chegar a ocasião de...”
“‘A ocasião’?”, repetiu ele. “O tal professor particular lhe ensinou direitinho.”
Ela se recostou na cadeira. “Meu inglês é muito bom.”
“Concordo, concordo. Tirando o fato de usar perigar em vez de arriscar, o seu inglês é perfeito.”
Ela se empertigou na cadeira. “Obrigada.”
Joe continuava a sorrir feito um idiota. “De nada. Então, até quando nós vamos preencher a, ahn, a necessidade um do outro?”
“Até eu voltar para Cuba para ficar com meu marido.”
“E eu?”
“Você?” Ela espetou com o garfo um pedaço de ovo frito.
“É. Você pode voltar para um marido. E eu, ganho o quê?”
“O posto de rei de Tampa.”
“Príncipe”, corrigiu ele.
“Príncipe Joseph”, disse ela. “Nada mau, mas acho que não combina muito com você. Além do mais, um príncipe não deveria ser benevolente?”
“E eu sou o quê?”
“Um gângster que só pensa em si mesmo.”
“E na sua gangue.”
“E na sua gangue.”
“O que constitui uma espécie de benevolência.”
Ela lhe lançou um olhar misto de frustração e repulsa. “Você é príncipe ou gângster?”
“Não sei. Gosto de pensar que sou um fora da lei, mas não tenho certeza de que isso agora seja mais do que uma fantasia.”
“Bem, você vai ser meu príncipe fora da lei até eu voltar para casa. Que tal?”
“Adoraria ser seu príncipe fora da lei. Quais são os meus deveres?”
“Você tem que retribuir.”
“Tudo bem.” A essa altura, ela poderia ter pedido o seu pâncreas e ele teria dito: “Tudo bem”. Encarou-a do outro lado da mesa. “Por onde começamos?”
“Por Manny.” Ela o fitou com olhos escuros subitamente sérios.
“Ele tinha família”, disse Joe. “Mulher e três filhas.”
“Você se lembra.”
“É claro que eu me lembro.”
“Disse que não se importava se ele vivesse ou morresse.”
“Estava exagerando um pouquinho.”
“Vai cuidar da família dele?”
“Por quanto tempo?”
“Pelo resto da vida”, disse ela, como se fosse uma resposta totalmente lógica. “Ele deu a vida por você.”
Joe fez que não com a cabeça. “Com todo o respeito, ele deu a vida por vocês. Por vocês e pela sua causa.”
“Nesse caso...” Ela segurou um pedaço de torrada logo abaixo do queixo.
“Nesse caso”, repetiu ele, “em nome da sua causa, eu ficaria feliz em mandar um saco de dinheiro para a família Bustamente assim que tiver um saco de dinheiro. Isso a deixa satisfeita?”
Ela lhe sorriu enquanto abocanhava a torrada. “Deixa.”
“Então pode considerar que está feito. A propósito, alguém a chama por outro nome que não Graciela?”
“E de que nome chamariam?”
“Sei lá. Gracie?”
Ela fez uma careta como se tivesse acabado de sentar em cima de um carvão em brasa.
“Grazi?”
Outra careta.
“Ella?”, tentou ele.
“Por que alguém faria uma coisa dessas? Graciela foi o nome que meus pais me deram.”
“Meus pais também me deram um nome.”
“Mas você cortou ao meio.”
“É Joe”, disse ele. “A mesma coisa que José.”
“Eu sei o que o seu nome significa”, disse ela, terminando de comer. “Mas José é Joseph. Não Joe. Deveriam chamar você de Joseph.”
“Você parece o meu pai. Ele só me chamava de Joseph.”
“Porque esse é o seu nome”, disse ela. “Você come devagar, parece um passarinho.”
“Já me disseram isso.”
Os olhos dela se ergueram para alguma coisa atrás dele e, ao se virar, Joe se deparou com Albert White entrando pela porta dos fundos. Não tinha envelhecido um dia sequer, embora estivesse mais mole do que Joe recordava, com uma pança de banqueiro começando a se formar por cima do cinto. Continuava gostando de ternos brancos, chapéus brancos e polainas também brancas. Ainda tinha o mesmo andar saltitante a sugerir que o mundo era um parque de diversões feito para entretê-lo. Entrou acompanhado de Bones e Brenny Loomis e pegou uma cadeira pelo caminho. Seus capangas fizeram o mesmo, e todos puseram as cadeiras no chão em volta da mesa de Joe e se sentaram — Albert ao lado de Joe, Loomis e Bones um de cada lado de Graciela, com os rostos impassíveis vidrados em Joe.
“Quanto tempo faz?”, indagou Albert. “Pouco mais de dois anos?”
“Dois e meio”, respondeu Joe, e tomou um gole de café.
“Se você está dizendo”, falou Albert. “Quem esteve na prisão foi você, e se há uma coisa que eu sei sobre presidiários é que eles sabem contar os dias com muita precisão.” Ele estendeu a mão por cima do braço de Joe, pegou um pedaço de linguiça de seu prato e começou a comê-la como se fosse uma coxa de frango. “Por que não tentou pegar sua arma?”
“Talvez eu não esteja armado.”
“Não, sério”, insistiu Albert.
“Imagino que você seja um empresário, Albert, e este lugar é meio público para um tiroteio.”
“Discordo.” Albert correu os olhos pelo café. “A mim parece totalmente aceitável. Boa iluminação, linhas de visão satisfatórias, não muito entulhado.”
A dona do café, uma cubana nervosa de cinquenta e poucos anos, parecia ainda mais nervosa. Podia ler a energia que circulava entre aqueles homens, e queria que essa energia saísse pelas janelas ou pela porta, mas que saísse logo. Um casal mais velho sentado ao seu lado no balcão nem sequer prestava atenção no que estava acontecendo, e discutia se devia assistir a um filme à noite no Cinema Tampa ou escutar o conjunto de Tito Broca no Tropicale.
Tirando eles, não havia mais ninguém no café.
Joe olhou para Graciela. Seus olhos estavam um tanto mais arregalados que de costume, e uma veia que ele nunca tinha visto antes surgira no centro da garganta, pulsando, mas de resto ela parecia calma, com as mãos firmes e a respiração regular.
Albert pegou mais um pedaço de linguiça e se inclinou na direção dela. “Qual é o seu nome, docinho?”
“Graciela.”
“Você é uma crioula clara ou uma cucaracha escura? Não sei dizer.”
Ela lhe deu um sorriso. “Eu sou austríaca. Não é óbvio?”
Albert soltou uma gargalhada. Deu tapas na própria coxa e na mesa, e até mesmo o velho casal alheio do balcão olhou para lá.
“Ah, que ótimo.” Ele se virou para Loomis e Bones. “Austríaca.”
Eles não entenderam.
“Austríaca!”, repetiu White, estendendo as duas mãos para eles, com a linguiça ainda pendurada em uma delas. Deu um suspiro. “Esqueçam.” Tornou a se virar para ela. “Então, Graciela austríaca, qual é o seu nome todo?”
“Graciela Dominga Maela Corrales.”
Albert deu um assobio. “Que nome... de encher a boca. Mas aposto que você tem bastante experiência em matéria de encher a boca, não é, docinho?”
“Pare com isso”, disse Joe. “Albert... por favor? Pare. Deixe-a fora disso.”
Albert se virou de volta para Joe enquanto mastigava o resto da linguiça. “As experiências anteriores sugerem que não sou bom nisso, Joe.”
Joe aquiesceu. “O que está querendo aqui?”
“Quero saber por que você não aprendeu nada na prisão. Estava ocupado demais dando o rabo? Você sai, vem para cá, e dois dias depois tenta me tirar da jogada? Que caralho eles ensinam lá dentro para você ficar tão idiota, Joe?”
“Talvez eu só estivesse tentando chamar sua atenção”, disse Joe.
“Nesse caso, foi um sucesso retumbante”, respondeu Albert. “Nós hoje começamos a ter notícias de meus bares, restaurantes, salões de sinuca, de todas as biroscas clandestinas que eu tenho, daqui até Sarasota, dizendo que não vão mais me pagar. Agora vão pagar a você. Naturalmente, portanto, fui falar com Esteban Suárez, e de repente ele tem mais guardas armados do que a Casa da Moeda. Não se dignou sequer a me receber. Acha que você e um bando de carcamanos, e o que mais, crioulos, pelo que eu soube?”
“Cubanos.”
Albert pegou um pedaço da torrada de Joe. “Acha que vão me tirar da jogada?”
Joe confirmou. “Acho que já tirei, Albert.”
Albert balançou a cabeça. “Assim que você morrer, os Suárez vão entrar na linha, e, porra, pode ter certeza de que os comerciantes também vão.”
“Se me quisesse morto, você teria me matado. Veio aqui negociar.”
Albert fez que não com a cabeça. “Eu quero você morto e não vai haver negociação nenhuma. Só queria que você visse que eu mudei. Eu amoleci. Nós vamos sair pela porta dos fundos e deixar a garota aqui. Não vamos tocar em nenhum fio de cabelo da cabeça dela, ainda que, por Deus, ela tenha vários.” Albert se levantou. Abotoou o paletó por cima da barriga já meio mole. Endireitou a aba do chapéu. “Se você resistir, nós vamos pegá-la e matar vocês dois.”
“É essa a proposta?”
“É.”
Joe fez que sim. Sacou um pedaço de papel do bolso do paletó e o pôs em cima da mesa. Alisou o papel. Ergueu os olhos para Albert e começou a ler os nomes listados. “Pete McCafferty, Dave Kerrigan, Gerard Mueler, Dick Kipper, Fergus Dempsey, Archibald...”
Albert arrancou a lista da mão de Joe para ler o resto.
“Não está conseguindo falar com eles, não é, Albert? Nenhum de seus melhores soldados está atendendo ao telefone ou à porta de casa. Você fica repetindo para si mesmo que é coincidência, mas sabe que não é. Eles estão no nosso bolso. Todos eles. E Albert, detesto lhe dizer isso, mas eles não vão voltar para você.”
Albert deu uma risadinha, mas seu rosto normalmente rosado tinha agora o mesmo branco de uma presa de elefante. Ele olhou para Bones e Loomis e riu mais um pouco. Bones riu junto com ele, mas Loomis parecia prestes a passar mal.
“Aproveitando que estamos falando das pessoas que pertencem à sua organização”, disse Joe, “como soube onde me encontrar?”
Albert relanceou os olhos para Graciela, e seu rosto recuperou um pouco de cor. “Você é um simplório, Joe... basta seguir a xoxota.”
O maxilar de Graciela se contraiu, mas ela não disse nada.
“A frase é boa, eu acho”, disse Joe, “mas a menos que soubesse onde eu estava ontem à noite, e você não sabia porque ninguém sabia, não poderia ter me rastreado até aqui.”
“Nessa você me pegou.” Albert ergueu as mãos. “Acho que devo ter outros métodos.”
“Do tipo alguém infiltrado na minha organização?”
O sorriso atravessou os olhos de Albert antes de ele mandá-lo embora com um piscar dos olhos.
“O mesmo cara que lhe disse para me pegar dentro do café, e não na rua?”
Nenhum outro sorriso cruzou os olhos de Albert. Estes ficaram mais baços do que duas moedas de um centavo.
“O mesmo que disse que, se você me pegasse dentro do café, eu não iria resistir por causa da garota? Que disse que eu até iria levá-lo a um saco de dinheiro que tenho guardado em um cafofo no Hyde Park?”
“Atire nele, patrão”, disse Brendan Loomis. “Atire nele agora.”
“Deveria ter feito isso quando entrou pela porta”, disse Joe.
“E quem disse que eu não vou fazer?”
“Eu”, falou Dion, surgindo por trás de Loomis e Bones com um 38 cano longo apontado para cada um. Sal Urso entrou pela porta da frente, e Lefty Downer veio atrás de Sal, ambos de sobretudo impermeável apesar do dia sem uma nuvem no céu.
A dona do café e o casal do balcão agora estavam oficialmente assustados. O velho não parava de apalpar o próprio peito. A dona do café desfiava um rosário enquanto movia os lábios com frenesi.
“Pode ir dizer a eles que não vamos machucá-los?”, pediu Joe a Graciela.
Ela aquiesceu e se levantou da mesa.
“Quer dizer que a traição é o traço que melhor define a sua personalidade, hein, gordão?”, disse Albert a Dion.
“Só uma vez, seu dândi de merda”, retrucou Dion. “Você deveria ter pensado muito bem no que fiz com seu garoto Blum no ano passado antes de comprar a baboseira que eu lhe disse desta vez.”
“Quantos mais temos lá fora?”, indagou Joe.
“Quatro carros cheios”, respondeu Dion.
Joe se levantou. “Albert, não quero matar ninguém neste café, mas isso não significa que não o farei se você me der meio motivo que seja.”
Albert sorriu, arrogante como sempre, mesmo em desvantagem numérica e de armamentos. “Não vamos lhe dar nem um quarto de motivo. Que tal isso em matéria de cooperação?”
Joe cuspiu na cara dele.
Os olhos de Albert ficaram miúdos feito grãos de pimenta.
Durante um longo intervalo, ninguém no café se mexeu.
“Vou pegar meu lenço”, disse Albert.
“Se fizer menção de pegar qualquer coisa, vamos abater você aí mesmo”, disse Joe. “Use a porra da manga.”
Quando Albert assim o fez, o sorriso retornou a seu rosto, mas seus olhos permaneceram cheios de ódio. “Quer dizer que das duas, uma: ou você me mata, ou me expulsa da cidade.”
“Isso.”
“Qual dos dois vai ser?”
Joe olhou para a dona do café segurando o terço, e para Graciela em pé ao seu lado com a mão no ombro da mulher.
“Não pense que estou com vontade de matá-lo hoje, Albert. Você não tem nem armas nem dinheiro para começar uma guerra, e vai precisar de anos cultivando novas alianças para me fazer ao menos olhar por cima do ombro.”
Albert se sentou. Com a maior calma do mundo. Como se estivesse visitando velhos amigos. Joe permaneceu em pé.
“Você planejou tudo desde o beco”, falou.
“Com certeza.”
“Pelo menos me diga que parte disso foram apenas negócios”, disse ele.
Joe fez que não com a cabeça. “Foi completamente pessoal.”
Albert escutou e aquiesceu. “Quer saber sobre ela?”
Joe sentiu os olhos de Graciela fixos nele. Os de Dion também.
“Não especialmente, não”, respondeu. “Você trepava com ela, eu a amava, e então você a matou. O que sobrou para esclarecer?”
Albert deu de ombros. “Eu a amava, amava mesmo. Mais do que você pode imaginar.”
“Eu tenho uma senhora imaginação.”
“Não a esse ponto”, disse ele.
Joe tentou ler a expressão por trás da expressão de Albert, e teve a mesma sensação que tivera no corredor de serviço do subsolo do Hotel Statler — de que os sentimentos de Albert por Emma eram tão intensos quanto os seus.
“Então por que a matou?”
“Eu não a matei”, retrucou Albert. “Quem a matou foi você. No instante em que enfiou seu pau dentro dela. Milhares de outras garotas na cidade, e além do mais você sendo um rapaz bonito, mas tinha de escolher a minha. Se você coloca chifres na cabeça de um homem, ele tem duas opções: usá-los para escornar a si mesmo, ou então para escornar você.”
“Mas você não me escornou. Escornou a ela.”
Albert deu de ombros, e Joe pôde ver claramente que aquilo ainda lhe causava dor. Meu Deus, pensou, ela ficou com um pedaço de cada um de nós.
Albert correu os olhos pelo café. “O seu chefe me expulsou de Boston. Agora você está me expulsando de Tampa. É essa a brincadeira?”
“Vamos dizer que sim.”
Albert apontou para Dion. “Sabia que ele traiu você lá em Pittsfield? Que foi por causa dele que você passou dois anos na prisão?”
“Sabia, sim. Ei, D.”
Dion não desgrudou os olhos de Bones e Loomis. “O que foi?”
“Dê dois tiros na cabeça de Albert.”
Os olhos de Albert se esbugalharam, a dona do café soltou um ganido e Dion atravessou o recinto com o braço esticado. Sal e Lefty abriram os impermeáveis para revelar duas Thompsons que dariam conta de Loomis e Bones, e Dion encostou a arma na têmpora de Albert. Este fechou os olhos com força e levantou as mãos.
“Espere”, disse Joe.
Dion parou.
Joe ajeitou a calça e se agachou na frente de Albert. “Olhe nos olhos do meu amigo.”
Albert ergueu os olhos para Dion.
“Está vendo algum amor por você nesses olhos, Albert?”
“Não.” Albert piscou. “Não estou.”
Joe acenou para Dion, e este afastou a arma da cabeça de Albert.
“Veio de carro?”
“O quê?”
“Perguntei se você veio de carro até aqui.”
“Vim.”
“Ótimo. Vai voltar para o seu carro e seguir rumo ao norte até sair do estado. Sugiro que vá para a Geórgia porque, a partir de agora, eu controlo o Alabama, o litoral do Mississippi e todas as cidades entre aqui e Nova Orleans.” Ele sorriu para Albert. “E tenho uma reunião sobre Nova Orleans na semana que vem.”
“Como posso saber se você não mandou seus homens esperarem por mim na estrada?”
“Caramba, Albert, meus homens vão estar na estrada. Na verdade, eles vão seguir você até fora do estado. Não é verdade, Sal?”
“O carro está com o tanque cheio, sr. Coughlin.”
Albert olhou de relance para a metralhadora de Sal. “Como posso saber que eles não vão nos matar na estrada?”
“Não pode”, respondeu Joe. “Mas, se você não sair de Tampa agora, e se não sair de vez, eu lhe dou garantia total de que não vai ver o dia de amanhã. E eu sei que você quer ver o dia de amanhã, porque é quando vai começar a planejar sua vingança.”
“Então por que me deixar vivo?”
“Para todo mundo saber que eu peguei tudo o que era seu, e que você não foi homem suficiente para me impedir.” Joe se levantou da posição agachada. “Estou deixando você ficar com a sua vida, Albert, porque não consigo pensar em uma só pessoa que fosse querer essa porra.”