Poesias

Alexandre Herculano · Capítulo 100 de 103

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Poesias

Leonor.

Depois comsigo diz, como hontem disse, —Quando acordar, por certo, ha-de chamar-me.»

E dorme em paz.

Mas, na alta noite, em sonhos vê trincheiras, E seu dono entre as balas encontradas

Cahir ferido:

E ouve-o que o chama com sibillo usado; E ergue-se e corre após uma van sombra,

Dando um bramido.

É alli que elle espera horas e horas,

E saudoso murmura: alli pranteia,

E morrerá.

O seu nome qual é? Todos o ignoram.

O que o sabía, o dono seu querido,

Nunca o dirá!..

Tu que passas, descobre-te! Além dorme

O forte que morreu.

Dá ao martyr do Louvre algumas flores,

E esmola ao seu lebreu.

 

LEONOR.

 

(Burger).

 

Ralada de ruins sonhos

Já desperta está Leonor,

E 'inda agora os céus d'oriente

Da manhan tingiu o alvor.

«Guilherme, és morto?—ella exclama—

Ou trahiste a pobre amante?

Se vives, porque retardas

De te eu ver feliz instante?»

Nas tropas de Friderico

Tempo havia que partíra

Para a batalha de Praga,

E cartas delle quem vira?

Mas a imperatriz e o rei[1],

De guerras, emfim, cansados,

Depondo os animos feros,

De paz faziam tractados.

Já aos seus lares tornavam

Ambas as hostes folgando.

Cingem frentes ramos verdes;

Vem atabales rufando.

E por montes e por valles

Velhos e moços chegavam,

Dando brados de alegria,

A encontrar os que voltavam.

«Boa vinda! Adeus!—diziam

As filhas, noivas, e esposas.

E Leonor? Nenhum dos vindos

Lhe faz caricias saudosas.

Por Guilherme ella pergunta;

Por qual estrada viria.

Vão trabalho; vans perguntas:

Novas delle quem sabia?

Não o vê. Passaram todos...

Em furioso devaneio,

Ei-la arranca as negras tranças;

Fere crua o lindo seio.

Sua mãe, correndo a ella:

«Valha-me Deus!—lhe bradou.—

Minha filha, pois que é isso?!»

E entre os braços a apertou.

«Minha mãe, perdeu-se tudo!

O mundo, tudo perdi:

De nada Deus se condoe...

Oh dor, oh pobre de mi!—

«Ai! Jesus venha á minha alma!

Filha, um padre-nosso resa.

Deus é pae: sempre nos ouve:

Nunca a humana dor despreza.—

«Minha mãe, inutil crença!

Que bens me tem feito Deus?

Padre-nossos!.. padre-nossos!..

Que importam resas aos céus?—

«Ai! Jesus venha á minha alma!

Pois não é quem resa ouvido?

Busca da igreja o consolo

Verás teu pesar vencido.—

«Mãe, oh mãe, esta amargura

Nenhum sacramento adoça:

Não sei nenhum sacramento,

Que aos mortos dar vida possa.—

«Filha, quem sabe se, ingrato,

Elle ás promessas faltou;

E lá na remota Hungria

Novo amor o captivou?

Se, mudavel, te abandona,

Do crime o premio terá:

Do ultimo trance na angustia

O remorso o punirá.—

«Morreu-me, oh mãe, a esperança.

Perdido... tudo é perdido!

Morrer, tambem, só me resta.

Nunca eu houvera nascido!

Foge, oh sol resplandecente!

Manda a noite e os seus terrores...

Deus, oh Deus, que nunca escutas

O gemer de humanas dores.—

«Meu Senhor! A desditosa

Não pensa o que a lingua exprime.

Não julgues a filha tua:

Nem te lembres do seu crime.

Vans paixões esquece, oh filha:

Cogita no goso eterno,

No sangue que te remiu,

E nos tormentos do inferno.—

«O que é goso eterno, oh mãe,

E o inferno em que consiste?

Com Guilherme ha goso eterno,

Sem Guilherme o inferno existe.

Sem elle, que a luz fugindo,

Se troque em nocturno horror;

Sem elle, no céu, na terra

Só conheço acerba dor!»

Assim no sangue e na mente

Furia insana lhe fervia:

Cruel chamando ao Senhor,

Mil blasphemias repetia.

Desde o sol brilhar no oriente

Até que o céu se estrellava,

As mãos, louca, retorcia,

O brando seio pisava.

 

Porém ouçamos!.. A terra

Pisa um cavallo lá fóra!..

E pelos degraus da escada

Tinem sons d'espada e espóra...

Ouçamos! Batem na argola

Pancadas que mal feriram...

E através das portas, claro,

Estas palavras se ouviram:

«Oh lá, querida, abre a porta.

Dormes? Estás acordada?

Folgas em riso? Pranteias?

De mim és 'inda lembrada?—

«Guilherme, tu?! Na alta noite?

Tenho velado e gemido.

Quanto padeci!.. Mas, d'onde

Até 'qui tens tu corrido?!—

«Nós montamos á meia-noite

Só. Vim tarde, mas ligeiro,

Desde a Bohemia, e comigo

Levar-te-hei, por derradeiro.—

«Oh meu querido Guilherme,

Vem depressa: aqui te abriga

Entre meus braços; que o vento

Do bosque as crinas fustiga.—

«Rugir o deixa nos matos.

Sibilla? Sibille embora!

Não paro... que o meu ginete

Escarva o chão... tine a espóra...

Nosso leito nupcial

Dista cem milhas d'aqui.

Sobraça as roupas... vem... salta

No murzelo, atrás de mi.—

«Além cem milhas, me queres

Hoje ao thalamo guiar?

Ouve... o relogio ainda soa:

Doze vezes fere o ar.—

«Olha em roda! A lua é clara:

Nós e os mortos bem corremos.

Aposto eu que n'um instante

Ao leito nupcial iremos?—

«Mas dize-me, onde é que habitas?

Como é o leito do noivado?—

«Longe, quedo, fresco, breve:

De oito taboas é formado.—

«Para dous?—«Para nós ambos.

Sobraça as roupas: vem cá.

Os convidados esperam:

O quarto patente está.—

Sobraçada a roupa, a bella

Para o ginete saltou,

E ao seu leal cavalleiro

Co' as alvas mãos se enlaçou.

Ei-los vão! Soa a corrida.

Ei-los vão, á fula-fula!

Ginete e guerreiro arquejam:

A faisca, a pedra pula.

Ui, como, á direita, á esquerda,

Ante seus olhos se escoam

Prado e selva, e do galope

Sob a ponte os sons ecchoam!

«Tremes, cara? A lua é pura.

Depressa o morto andar usa.

Tens medo de mortos?—«Não.

Mas delles falar se escusa.—

«Que sons e cantos são estes?

O corvo alli remoinha!

Sons de sino? Hymnos de morte?

É morto que se avizinha!—

Era de feito um saimento,

Que andas e esquife levava:

Aos silvos de cobra em pégo

Seu canto se assemelhava.

«Um enterro á meia-noite,

Com psalmos e com lamento,

E eu a minha noiva levo

Ao sarau do casamento?

Vinde, sacristão e o côro,

O ephitalamio entoai-nos;

Vinde, abbade, e antes que entremos

No leito, a bençam lançai-nos.—

Cala o som e o canto: a tumba

Some-se: finda o clamor

A seu mando; e o tropel voa

Na pista do corredor.

Sempre mais alto a corrida

Soa. Vão á fula-fula.

Ginete e guerreiro arquejam:

A faisca, a pedra pula.

Como á dextra e esquerda fogem

Montes, bosques, matagaes!

Como á dextra e esquerda fogem

Cidades, villas, casaes!

«Tremes, cara? A lua é pura.

Depressa o morto usa andar.

Temes os mortos, querida?—

«Ai, deixa-os lá repousar!—

«Olha! Ao redor de uma forca

Dançar em tropel não vês

Aereos corpos, que alvejam

Da luz da lua através?

Oh lé, birbantes, aqui!

Birbantes, acompanhai-me!

Vinde. A dança do noivado

Juncto do leito dançai-me.—

E os vultos vem após logo,

Ruído immenso fazendo,

Como o furacão nas folhas

Seccas do vergel rangendo.

E resoando a corrida

Ei-los vão, á fula-fula.

Ginete e guerreiro arquejam:

A faisca, a pedra pula.

Para trás fugir parece

Quanto o luar allumia;

Para trás suas estrellas

Sumir o céu parecia.

«Tremes, cara? A lua é pura.

Depressa o morto andar usa.

Temes os mortos, querida?—

«Ai, delles falar se escusa!—

«Murzelo, o gallo ouvír creio!

Breve a areia ha-de correr...

Murzelo, avia-te, voa;

Que sinto o ar do amanhecer!

Nossa jornada está finda:

Ao leito nupcial chegámos:

Ligeiro os mortos caminham:

A méta final tocámos.—

D'uma porta ás grades ferreas

Á rédea solta chegaram,

E de fragil vara ao toque

Ferrolho e chave saltaram.

Fugiram piando as aves:

A corrida, emfim, parára

Sobre campas. Os moimentos

Alvejam; que a noite é clara.

Peça após peça, ao guerreiro

Cáe a armadura lustrosa

Em negro pó impalpavel,

Qual de isca fuliginosa.